Gente de Curaçá: Elita Soares Ferreira

D. Elita Soares Ferreira. À esquerda, Zé de Roque/reprodução facebook de Juscelita Rosa de Araújo

“O passado não é o que passou. É o que ficou do que passou.” (Alceu Amoroso Lima, Tristão de Athayde, 1893-1983)

Ao apagar das luzes de 2019, em meio aos festejos de São Benedito e Bom Jesus da Boa Morte, Curaçá perdeu D. Elita Soares Ferreira.

Viúva de José Ferreira Só (Zé de Roque), respeitado líder político de Curaçá, D. Elita deixou família numerosa, civilizada, exemplar e bem estruturada.

Conheci D. Elita em sua casa. Estávamos em 1974. Já se vão, por aí, mais de cinco décadas.

Bem situado no contexto político do município, Zé de Roque apoiava o deputado estadual Jayro Nunes Sento Sé e o deputado federal Theódulo Lins de Albuquerque, ambos da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Jayro nascido em Juazeiro e Theódulo em Pilão Arcado.

Jayro Sento Sé fez uma visita ao líder Zé de Roque em Curaçá e os estudantes do Colégio Municipal Professor Ivo Braga aos quais me incluía foram pedir uma contribuição ao deputado, para o “Livro de Ouro”, com o intuito de sustentarem as solenidades de conclusão do curso ginasial. Zé de Roque viabilizou a visita e o contato com os estudantes.

Naquele tempo, era comum estudantes concluintes dos cursos ginasial e colegial instituírem o chamado “Livro de Ouro”, com o intuito de arrecadar contribuições para o custeio das solenidades de formatura.

Não sei se a tradição ainda existe.  

Honra-me, até hoje, a amizade de juventude que mantive com dois filhos de D. Elita: Wilson José Soares Ferreira e David José Ferreira Só, meus colegas no Colégio Ivo Braga. As circunstâncias afastaram da convivência, mas mantiveram a consideração.

O tempo me permitiu conviver com D. Elita também na Prefeitura de Curaçá.

A humildade de D. Elita era impressionante. Olhar sincero, palavras sábias, sorriso que falava à alma. Quiçá tenha sido essa sabedoria exemplar e ímpar que tapetou o caminho que ela trilhou na construção de sua nobre família.

Se minha memória esburacada pela passagem do tempo não falha – e sempre falha – o casamento de D. Elita e Zé de Roque lhes permitiu os filhos Hélio, Juscelita Rosa, Helita, Maria do Socorro, Roque, Lilian, Edna, Fábio, Davi, Marcos Aurélio e Wilson.

Este escrevinhador, em idade septuagenária, pede escusas à nobre família de D. Elita se os nomes citados estiverem grafados incorretamente. A citação pode conter omissões, erros, incongruências.

O passar das décadas corrói a memória, dificulta a plenitude das lembranças.

Entretanto, vale aqui, precipuamente, tão somente o registro no sentido de que D. Elita era esteio e exemplo de vida e cuidou, com desvelo, dessa família numerosa, nobre e bem estruturada.

Entretanto, as dobras do tempo se encarregam de impedir o esquecimento de sua presença entre nós.

araujo-costa@uol.com.br

Eleições de 2026: Lula da Silva e o Nordeste

Os mineiros do sertão dos Confins costumavam dizer que “eleição é ganha com dinheiro e polícia”. Assim era em tempos passados, mas convenhamos, não mudou muito.

Isto se dava, por exemplo, nos tempos dos “coronéis” nordestinos, na República Velha, principalmente.

Hoje, não é bem assim, não parece ser bem assim. Ou é bem assim, com algumas variantes.

É conhecida a frase do líder político baiano Antonio Carlos Magalhães (ACM), quando perguntado como conseguiu eleger João Durval Carneiro governador da Bahia, à época um político inexpressivo.

 “Com o dinheiro numa mão e o chicote na outra” – ACM deu a receita infalível.

O jornalista Ricardo Noblat, que trabalhava no Jornal do Brasil, sabe sobejamente a história.

Em 1982, o candidato de Antonio Carlos Magalhães ao governo da Bahia era Clériston Andrade. Clériston faleceu em acidente aéreo, em campanha, lá para as bandas de Itambé.

ACM foi buscar João Durval Carneiro, ex-vereador e ex-prefeito de Feira de Santana, pouco dias antes das eleições e o elegeu governador da Bahia. Uma façanha que os desvirtuados políticos da Bahia de hoje não conseguiriam fazer.

Embora muito distante da disputa de 2028, em alguns municípios do sertão da Bahia já se desenha o entrevero pelo comando das prefeituras. Como se vê, precocemente, mui precocemente.

Entretanto, já está claro nesses municípios, que nas próximas campanhas eleitorais, o império será dos candidatos que têm dinheiro ou dos políticos influentes que lhes financiam, deputados e senadores que, estribados nas emendas parlamentares, azeitam os bolsos dos postulantes aos comandos das prefeituras.

Antes, bem antes, avizinham-se as eleições presidenciais de 2026.

O Nordeste, feudo petista, sempre despejou votos em Lula da Silva.

Agora, o morubixaba Lula da Silva parece despencar na preferência popular, porque as populações nordestinas já começam a desconfiar das promessas mirabolantes nunca cumpridas e dos embustes reiterados e desavergonhados dos petistas e seus aliados.

Mas Lula da Silva tem a receita infalível de ACM, em versão um tanto moderna e melhorada.

Com os benefícios sociais numa mão (Bolsa Família, Gás do Povo, Minha Casa, Minha Vida, tarifa social de energia elétrica) e as lorotas na outra, Lula da Silva segue em busca de um novo mandato.

Em 2026, Lula da Silva certamente vai ganhar na Região Nordeste, mais uma vez, inobstante o encolhimento de sua credibilidade por lá.

O Brasil precisa investir na educação, inclusive no Nordeste. Sem educação, as novas gerações não terão condições de discernimento, tampouco de robustecer sua consciência política e, menos ainda, de escolher seu destino, hoje entregue nas mãos de embusteiros.

Só os professores podem salvar o Brasil.

araujo-costa@uul.com.br

Quando o magistrado flerta com o ridículo

“A justiça é como a serpente, só morde os pés descalços.” (Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, 1940-2015)

“Ministro do TST adia processo de advogado de beca, mas sem gravata”.

“Durante sessão da 8ª turma do TST, realizada nesta quarta-feira, 11, o presidente do colegiado, ministro Sérgio Pinto Martins, determinou o adiamento do julgamento de um processo após constatar que o advogado que faria sustentação oral estava sem gravata.

O advogado participava remotamente e foi questionado pelo ministro sobre o traje utilizado. Ao responder que estava trajando beca, o profissional foi informado de que o julgamento seria adiado para que colocasse a gravata”. (Portal Migalhas, 12/03/2026).

Já passei por isto.

Uma vez, em São Caetano do Sul (SP), há décadas, um juiz se recusou a me atender em seu gabinete, porque, embora convenientemente vestido, inclusive de paletó, eu não estava de gravata, em razão da urgência do caso.

Lembro que se tratava de uma ação de sustação de protesto e faltavam algumas poucas horas para vencer o prazo. Naquele tempo, não existia processo eletrônico.

Como se vê, alguns juízes ainda entendem que o Direito está nos trajes que vestimos e não na Constituição e nas leis.

A lei, ora a lei!

A arrogância, os salários estratosféricos, as mordomias e os penduricalhos, afastam os juízes da realidade e, em consequência, os distanciam da sociedade, principalmente dos que não têm voz.

O Brasil em que o magistrado se preocupa mais com o formalismo e com a elegância do advogado ao vestir-se e não com o Direito e o dever de fazer Justiça, não pode dar certo, nunca dará certo.

Estão aí os exemplos. Abundantes, pululantes e estarrecedores.    

Não é à toa que nosso lídimo Poder Judiciário, que tanto respeitamos e admiramos, está em despenhadeiro rumo ao descrédito.

Fonte:

https://www.migalhas.com.br/quentes/451656/ministro-do-tst-adia-processo-de-advogado-de-beca-mas-sem-gravata

araujo-costa@uol.com.br

Abaré, Delísio e o artigo que o tempo levou

“Político é o indivíduo que pensa uma coisa, diz outra e faz o contrário” (José Cavalcanti, 1918-1995, São José de Piranhas-Paraíba).

Delísio Oliveira/Reprodução facebook

Em 02/09/2013, quando este blog ainda se agasalhava no UOL, publiquei um artigo intitulado O alcaide-mor de Abaré sobre Delísio Oliveira, então secretário municipal de Abaré.

Já se vão, por aí, aproximados 13 anos, de modo que o artigo, agora, nada mais é do que um fragmento de arquivo, sem pouca ou nenhuma importância.

Não sei se Delísio Oliveira chegou a ler o artigo. Se leu, não gostou. E se não leu, também não gostou. Ele nunca deu importância para este escrevinhador e faz muito bem.

Ei-lo, portanto, com pouquíssimos traços de edição, que não desfiguram nem alteram o texto original.    

O alcaide-mor de Abaré

Abaré, para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – é um município do sertão da Bahia, nos confins do semiárido nordestino.

A sede, aconchegante e bela, debruçada à margem direita do São Francisco recebe, diuturnamente, as bênçãos do padroeiro Santo Antonio, quiçá o mais insuspeito defensor dos destinos do seu povo.

E para completar o cenário, a cidade ainda abriga a casa onde viveu o músico e poeta José Amâncio Filho (Meu Mano), honra e glória de Abaré e as riquezas históricas e religiosas de Pambu que sustentam a fé e as tradições de nossas populações sertanejas.  

Lá, como em todo o Nordeste, ainda proliferam chefes políticos fortes, centralizadores, idiossincráticos.

Até parece que o município herdou o estilo de Garcia D’Ávila, colono e latifundiário, criador de gado trazido de Cabo Verde e amigo de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, que lhe entregou enormes sesmarias, todas na região do São Francisco, inclusive em território de Abaré.

A história do alcaide-mor de Abaré começa com Josino Soares da Silva, senhor modesto, inteligente e educado, que muito ajudou o povoado de Icozeira, sua raiz e seu reduto eleitoral e sentimental.

Conheci Josino, sempre altivo e atento às coisas de sua terra e reivindicações da população.

Josino era agricultor, foi vereador por diversos mandatos – o primeiro aos 27 anos – e prefeito de Abaré (1983-1988).

Josino Soares da Silva/Reprodução Instagram/Delísio

Então, a partir daí, surgiu outra liderança: o filho de Josino, Delísio Oliveira da Silva, que captou muito bem os ensinamentos do pai, entrou na política e se tornou líder respeitável.

O líder Delísio foi prefeito, andou por aí assumindo cargo no Estado da Bahia e até prestou assessoria à Prefeitura de Chorrochó, também no sertão, na administração do prefeito José Juvenal de Araújo.

Outra vez foi guindado à Prefeitura de Abaré e, hoje, dizem as más línguas – e as boas também – que comanda o município, embora tenha um prefeito, Benedito Pedro da Cruz, que o povo colocou lá para governar.

Mas a cruz do Benedito deve ser muito pesada e ele pediu para Delísio ajudar a carregá-la. E Delísio está lá, secretariando-o, governando e carregando a cruz, que não deve ser tão pesada assim.

O certo é que a classe política vem passando por um longo período de declínio do seu prestígio, maculada por inúmeros casos de corrupção e acusada de outros tais, mesmo sem provas.

Mas o fato é que o desgaste é grande e generalizado, faz parte do imaginário popular e quem era exceção passou também a ser regra, o que é muito ruim para o soerguimento moral dos políticos. 

Em Abaré não é diferente com seus políticos, muitos com reconhecidas contribuições prestadas à causa do povo. E o senhor Delísio Oliveira da Silva, líder de sua gente, enfrentou turbulências consideráveis, mormente em seu último mandato, mas mesmo assim, dizem, continua mandando na Prefeitura. 

Nestes tempos de jornalismo investigativo, surgem assuntos demais, acusações demais, que até fica difícil filtrá-las e separar o joio do trigo. Nunca se precisou de tanta cautela como agora. 

E hoje os políticos devem desconfiar até de mendingo pedindo esmola e de andarilho zanzando nas calçadas. Pode ser um jornalista disfarçado, escarafunchando cestas de lixo em busca de deslizes e provas. Microfones e microcâmaras são inimigos perigosos para políticos relapsos.  

Em data recente, uma víbora do jornalismo investigativo esteve no município de Abaré. Ainda não está muito claro o que procurava.

Certamente não era o afagar da brisa do entardecer do São Francisco, nem o cantar dos pássaros dos povoados e fazendas. Mas pelo menos é assunto para muito tempo, até para as próximas campanhas eleitorais.  

Toda cidade do Nordeste tem seu alcaide-mor, mesmo sem mandato. É o caso de Abaré, onde o “prefeito” Delísio dá as cartas e faz as regras do jogo.

Post scriptum:

Como disse no começo, este artigo foi publicado em 02/09/2013. Portanto, versa sobre fatos e realidade da época. Hoje a realidade de Abaré é completamente diferente, inclusive com o surgimento de novas e respeitáveis lideranças políticas.

araujo-costa@uol.com.br

Professora Villani Brandão construiu a história de Patamuté

Ao apagar das luzes de fevereiro de 2026, a família noticiou o falecimento da professora Maria Villani Brandão Leite, construtora dos meandros da educação de Patamuté.

A história de Patamuté não se escreve sem necessária referência à professora Maria Villani Brandão Leite, honra e glória do distrito.

As razões se estendem desde a estrutura educacional de Patamuté, ainda muito rudimentar na época, até sua construção familiar que se insere, valorosamente, na história do lugar.

Villani Brandão Leite, 1937-2026/Arquivo da família

A professora Villani se casou com Manuel Brandão Leite, também de família tradicional de Patamuté e com ele edificou o esteio que lhe deu estrutura de vida e conduta admirável.

Constituíram família nobre, bem estruturada, exemplar e de caráter irrepreensível. Tiveram os filhos Carlos Luiz, Josimary, Emanuel César, Cássio Murilo, Augusto Kléber, Manuel Brandão Filho, Maria Vilmani e Maria Auxiliadora.

Carlos Luiz Brandão Leite foi prefeito de Curaçá, eleito em 2012, o que significa dizer que a família tem salutar e razoável importância na história política do município.

Aquela geração de Patamuté forjou-se na humildade e trouxe uma bagagem estribada na alfândega do tempo, de modo que a educação dava o norte para a sequência do caminhar em busca de novos horizontes.

Os jovens daquela época eram caçadores de futuro e se espelhavam nos exemplos dos professores que afastavam a escuridão das dúvidas e indecisões e iluminavam o caminho da vida.

A professora Villani tinha um estilo generoso de ensinar e, para seus alunos, talvez isto tenha servido de adorno com vistas à sustentação de nossas esperanças em busca do futuro, promissor para uns e para outros, nem tanto.    

Refiro-me ao contexto da educação de Patamuté na primeira metade da década de 1960, quando tudo era difícil para professores e alunos.

A educação primária de Patamuté não era apenas formal, mas sobretudo ensinava o jovem a vincular-se aos melhores sonhos e à sede de absoluto própria da juventude e compatível com o alcance da realização pessoal que todos procurávamos.

A professora Villani cuidava disto com absoluta dedicação. Construiu uma história de respeito, seriedade e decência em sua nobre função de mestra.

Minha memória esburacada ainda guarda, com nitidez, a presença da professora Villani, que todos respeitávamos, ao tempo da Escola Estadual de Patamuté.

Estávamos numa época de consistência de valores formadores da sociedade. A consideração e o respeito eram transmitidos à infância e à juventude a partir dos pilares da família e se completavam na escola com o exemplo dos professores.    

Conspirar para mudar o tempo e cutucar as possibilidades, talvez seja o mister precípuo de quem se dispõe a ensinar. D. Villani fez isto com maestria impressionante num tempo em que Patamuté tentava se erguer em busca de novas perspectivas para seu povo.

As boas lembranças às vezes impulsionam o caminhar neste mundo de tropeços.

Já se vão, por aí, algumas décadas. A professora Villani saiu de Patamuté e foi morar em Petrolina, onde continuou a dedicar-se à sua distinta e conspícua família. A referência familiar ainda é, salvo engano, a Fazenda Imbiraçu e circunvizinhanças.

A história de vida da professora Maria Villani Brandão Leite dignifica Patamuté, seu povo e sua história.

Que Jesus Cristo lhe indique o caminho e Deus a ampare.

Post scriptum:

Para composição deste artigo, contei com a presteza e colaboração de Rosângela Menezes – que prezo muito – e me passou algumas informações corretas sobre os nomes de familiares de D. Vilani, o que muito agradeço.

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Jerônimo Rodrigues e a lição da retroescavadeira

À direita, governador Jerônimo Rodrigues (PT). Crédito: Joa Souza/Governo da BA

Na Bahia, parece que a retroescavadeira do governador petista Jerônimo Rodrigues não está surtindo efeito nessa costura com vistas às eleições de 2026 ou, pelo menos, está atrapalhando o andar de Sua Excelência.

Salvo engano, o PT chutou o senador Ângelo Coronel da base aliada. Não se sabe, ao certo, se o senador de Coração de Maria vai ancorar ao lado do barco de ACM Neto ou retornará à base petista. Com isso, parece não haver dúvida de que o PT e Jerônimo Rodrigues perderam alguns votos com esse malabarismo narcisista.

Em 02/05/2025, em América Dourada, município da microrregião de Irecê, Jerônimo Rodrigues sugeriu que o ex-presidente Bolsonaro e seus eleitores fossem colocados numa vala.

Em discurso atabalhoado, inconveniente e patético, o governador disse: “Bota numa enxedeira. Sabe o que é um enxedeira? Uma retroescavadeira. Bota e leva todo mundo pra vala”.

O governador deve ter aprendido essa crueldade lendo livros de histórias das ditaturas que o PT tanto admira, a exemplo de Cuba e Venezuela.

Assim como noutros sangrentos regimes, no Stalinismo (1927-1953), centenas de milhares de pessoas foram executadas pela polícia secreta e enterradas em valas comuns porque pensavam diferentes dos poderosos.

Agora, embocando nessa pré-campanha eleitoral visando à reeleição, a popularidade do governador está indo para as cucuias. Órgãos de imprensa noticiam que Jerônimo Rodrigues assumiu, galantemente, o posto de pior governador da Bahia.

Se não for maldade da oposição – e da imprensa – Jerônimo Rodrigues conseguiu a façanha de deixar Rui Costa e Jaques Wagner na rabeira da ineficiência petista na Bahia.

Neste particular, Jerônimo Rodrigues está fazendo dobradinha de impopularidade com a colega petista Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte. Lá, no estado potiguar, até os aliados da governadora estão pulado fora da tragédia petista.

Em quadro assim, é possível que a retroescavadeira do governador afaste mais ainda os eleitores que votaram em Bolsonaro em 2022. Por hipótese, muitos deles podem mudar de ideia, abandonar o bolsonarismo e fazer falta a Jerônimo Rodrigues nas urnas de outubro vindouro.

Alto lá!

Há um instituto de pesquisa vinculado ao PT (turma de Rui Costa), que dá a Jerônimo Rodrigues vitória de 52% sobre ACM Neto, o que lhe garantiria a vitória no 1º turno.

araujo-costa@uol.com.br

A difícil vida de deputados e senadores

Conjunto arquitetônico do Congresso Nacional

Em fevereiro de 2019, a Câmara dos Deputados compunha-se de 477 parlamentares.

À época, um juiz federal de Sergipe, não enxergou nenhuma ilegalidade e liberou o chamado auxílio-mudança para deputados federais e senadores, inclusive para os que foram reeleitos e, portanto, não precisavam mudar, porque, por óbvio, já moravam em Brasília.

Valor: R$ 33,7 mil para cada parlamentar, no total de R$ 16 milhões (Diário do Grande ABC, Santo André – SP, 26/02/2019).

O auxílio-mudança consiste no seguinte: um valor, em dinheiro, pago pelo povo, para que os parlamentares custeiem suas mudanças para Brasília, quando eleitos.

Considerada ajuda de custo, mesmo os parlamentares reeleitos, que já moram em Brasília, têm direito ao auxílio, embora não precisem fazer qualquer mudança. Ou seja: os parlamentares de 2019, reeleitos, devem ter usado os R$ 33,7 mil para o custoso trabalho de girar a chave e abrir o apartamento.

Além disto, há o auxílio-moradia em torno de R$ 44,8 mil.

O auxílio-moradia, que é diferente do auxílio-mudança, continua para algumas de Suas Excelências. É cumulativo com o salário do parlamentar que gira em torno de R$ 46,3 mil, acrescido de outros valores, as escandalosas verbas de gabinete, por exemplo.

“Cada deputado tem R$ 133.170,54 por mês para pagar salários de até 25 secretários parlamentares, que trabalham para o mandato em Brasília ou nos estados. Eles são contratados diretamente pelos deputados, com salários de R$ 1.548,10 a R$ 18.719,88” (Fonte: Câmara dos Deputados).

É a origem das chamadas “rachadinhas”, que parlamentares inescrupulosos da direita e da esquerda usam para locupletar-se e depois sobem aos palanques para falar de honestidade.

Em 2026, a Câmara dos Deputados pagou, a título de verba de gabinete, R$ 65.879.486,98.

Mas, com esse dinheiro, deputados e senadores vão a festas de aniversários de municípios, vaquejadas e inaugurações, dando tapinhas nas costas de incautos eleitores.

Por exemplo, nós, nordestinos, adoramos políticos, em botecos, sorrindo à toa e dando tapinhas em nossas costas. E embolsando nosso dinheiro.  

Como se vê, com tanto dinheiro, a vida de deputados e senadores não é fácil.

araujo-costa@uol.com.br

Quando a crítica se coaduna com a responsabilidade

Walterson Ramos/Reprodução do blog Josélia Maria

Não costumo contestar comentários sobre matérias publicadas neste blog, exceto quando resvalam em direção a interpretações equivocadas e distorcidas sobre a intenção do texto.

O propósito deste blog é indubitável, muito claro –  aliás, claríssimo –  e está visível ao lado direito da página .

Ei-lo:

Este blog não é órgão noticioso. Publica artigos, análises e opiniões sobre matérias veiculadas na imprensa, assim como crônicas despretensiosas e esparsas, sem nenhum compromisso ou viés político-partidário. Cuida também de assuntos de História e literatura. O blog analisa, comenta, reflete. Cavar notícia é mister apropriado à função de repórter, que vai buscá-la onde quer que esteja, quaisquer que sejam as horas e as dificuldades enfrentadas. O repórter é um garimpeiro do desconhecido. O crítico, o analista, o polemista e o cronista são espectadores da vida. Observam, criticam, argumentam, opinam. O blog tem absoluto respeito pelo sigilo da fonte, nos termos previstos na Constituição da República.

Entrementes, tendo em vista a elegância do comentário feito por Walterson Ramos, que muito prezo e por se tratar de agente público respeitabilíssimo no contexto regional, devo excecionar para dizer o seguinte.

O artigo intitulado Chorrochó e as peripécias do ex-prefeito Humberto Gomes Ramos, que resultou no comentário do ínclito Tércio Tolentino, restringiu-se tão somente ao âmago da matéria publicada na imprensa, de modo que este escrevinhador sequer sinalizou em direção ao mérito da possível acusação, por razões óbvias: escapa ao propósito do artigo e não é função do autor do texto opinar sobre questões estritamente jurídicas que cabem aos advogados dos envolvidos.

De fato, se a competência do órgão que chamou para si as rédeas do caso, consoante noticiado, estiver em desacordo com a legislação, isto é um maná para a defesa do ex-prefeito demolir tais alegações.

E, como se sabe, Humberto Gomes Ramos está muitíssimo bem amparado no que concerne à defesa de seus direitos.

Diz acertadamente Walterson Ramos que “uma investigação fora de sua competência é no mínimo nula” e, mais adiante, pondera que “a democracia dá o direito do texto, da investigação e da defesa do ex-prefeito”.

Correto, indubitável, incontrastável.

“É importante saber de competência para entender de direito”, assegura, com propriedade, Walterson Ramos.

Confesso que a arapuca não se assentou sobre a ignorância deste escrevinhador, porque em nenhum momento entrei na seara jurídica, mas simplesmente no campo jornalístico.

Sou um reles mequetrefe operador do Direito, com aproximados 45 anos no exercício diário da advocacia. Compatibilizo-o com o jornalismo independente, sem amarras e sem subserviência a quem quer que seja.

Contudo, isto não me habilita nem me autoriza dizer que sou entendido em Direito. Não sou. Estou aprendendo a cada dia nesses 74 anos de vida.

Sei do preparo intelectual e da formação de Tércio Tolentino. Graduado em Contabilidade pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB), tem pós-graduação em Direito do Trabalho e, mais do que isto, faz parte do respeitável quadro da Justiça do Trabalho.

Acrescenta-lhe, agora, a honrosa função de Diretor-presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda (ADEER) do município de Juazeiro.

Sua atuação nesse órgão do município sanfranciscano, com papel estratégico relativamente ao desenvolvimento, tem sido por demais elogiada em toda região.

Walterson sabe dialogar, sabe compor, sabe argumentar, sabe lidar com as estruturas do serviço público e, mais do que isto, afigura-se como exímio conhecedor dos meandros institucionais.

Consta na rica história profissional de Walterson Ramos a função de secretário de Finanças do município de Chorrochó, o que significa que a população esteve bem servida.

Entretanto, minha ignorância não permite aquilatar se o exercício dessa função deu-se à época dos fatos retro aludidos e agora requentados. E mesmo que tenha sido no mesmo período, isto nada tem a ver com possível arranhão à impecável, conhecida e incontestável hombridade de Walterson Ramos.

Fatos às vezes se entrelaçam entre si, o que não significa quaisquer relação entre eles.

No mais, fico lisonjeado e extremamente vaidoso pela afirmação de Walterson Ramos: “Mas sua escrita continua sendo a melhor da região”.

Continuo acreditando que sou um humilde e ingênuo garimpeiro dos fatos e das letras. Minha intenção não é, nunca foi e nunca será ofender ninguém.

A crítica de Walterson Ramos ao meu artigo se coaduna com a responsabilidade tão própria em sua forma de atuação. E só.

araujo-costa@uol.com.br

Zito Torres, lembrança e saudade

Zito Torres em momento de labuta diária/Arquivo da família

“Patrão, mas eu amo mesmo assim

Nem que só fique o torrão

Pode a casa cair toda

Ficar rente com o chão

Mas Bambuí sempre mora

Dentro do meu coração”

(Zito Torres, Bambuí)

Embora continuamente tentado pela grandeza histórica do poeta Zito Torres, nunca me atrevi, diante de minhas limitações, a escrever sobre ele. Entendo que não tenho o que acrescentar a tudo que já foi dito relativamente àquele grande filho de Curaçá.

Outros já fizeram com muita propriedade e sabedoria. Entretanto, consultando meus alfarrábios, deparei-me com Bambuí, clássico de Zito, primor de amor à terra e às raízes curaçaenses.

Zito – Durvalzito Dias Torres – era, por assim dizer, uma contribuição itinerante à cultura de Curaçá.

Ambos – Curaçá e Zito – se entrelaçam, ricamente, de modo que as lembranças de Zito nos fazem admirar e reverenciar sua memória, mais e mais, incansavelmente.

Tive o privilégio de conviver com Zito Torres. Convivência breve, mas respeitosa, porque Zito era assim: respeitador, educado, gentleman, essencialmente cavalheiro.

Importante o lugar de Zito Torres na história de Curaçá. Filho ilustre da terra, inteligente, humilde, fino no trato com todos e, sobretudo, rico culturalmente.

Na década de 1980 efervescia em Curaçá o movimento Curaçarte, que nasceu da inquietude de alguns jovens, dentre esses Roberval Dias Torres, Libânia Dias Torres, Josemar Martins (Pinzoh), honra e glória do povoado de São Bento, Pinduka e outros mais, tão importantes para a época e para o movimento Curaçarte quanto os citados.

Com o intuito de comemorar os cinquenta anos de vida de Zito Torres, lá por volta de 1987, o movimento o convidou para fazer um show no histórico Teatro Raul Coelho.

Zito topou colaborar com a rapaziada e fez o show. Aliás, Zito nunca dizia não.

Talvez essa tenha sido sua apresentação artística mais importante, porque em apoio ao inconformismo daquela juventude sufocada política e socialmente dentro de seu próprio município.

Tempos difíceis. Alguns precisavam gritar. Eles gritaram.

Conta Roberval Dias Torres que Zito “cantou e encantou com um violão que tinha a ressonância de uma orquestra completa” (Insustentavelmente Trans, Editora Didática Paulista, 2002). E depois caiu na boemia com os jovens insurgentes até o alvorecer.

Não é possível, aqui, contar as façanhas de Zito. Foram muitas, inúmeras, durante sua vida efêmera, mas intensa.

Zito conseguiu conciliar o mister de escrivão de polícia e a boemia diuturna que enriqueceu a história de Curaçá. O mundo de Zito era encantador e assim ele demonstrava para todos.

No que tange a Bambuí, é antológica a referência à venda da fazenda, com tudo que tinha lá, inclusive os animais e a despedida da vaca Miúda, mesmo considerando a liberdade poética e a fértil imaginação do autor:

“No dia da despedida

Fumo dentro do currá

Se despedir da Miúda

Vosmecê pode creá

Miúda não se conteve

Sentiu também emoção

Eu vi sair dos olhos dela

Lágrimas a pingar no chão.

É doloroso, patrão

Inté a vaca chorou

Lamentando nossa ausência

Miúda chorou de dor”

Coisas de poeta.

Zito Torres deixou alegria, exemplo de criatividade e muito do seu ser pelas ruas de Curaçá.

Já sugeri, alhures – e minha sugestão e nada é a mesma coisa – que o município de Curaçá erga um monumento a Zito Torres.

A memória de Zito representa, ao mesmo tempo: história, cultura, amizade, decência, generosidade, caráter irrepreensível e cordialidade.

Tarefa ingente para, mais adiante, o Acervo Curaçaense cutucar a Câmara Municipal de Curaçá e, conseguintemente, a grande e séria expectativa política do município: Rogério Bahia.

Esse pessoal do Acervo Curaçaense é demais.

araujo-costa@uol.com.br