“Me fotografar hoje? Não, hoje não. Venha na segunda-feira. Prometo não envelhecer mais até lá.” (Lygia Fagundes Telles, escritora paulista, 1918-2022)
Em 21/12/1997 a Folha de S.Paulo publicou extensa matéria sobre 22 escritores brasileiros. O jornal fotografou seus escritórios e locais de trabalho, procurou saber os critérios que eles seguiam ao escrever e, sobretudo, a organização – ou não – do ambiente de trabalho.

Quase todos se declararam desorganizados e esta parece ser uma característica ou qualidade de escritor: lidar com a bagunça, o amontoado de papéis, livros espalhados, alfarrábios por todos os lados, material de pesquisa, et cetera.
Na casa do Rio Vermelho, em Salvador, Jorge Amado (1912-2001) gostava de escrever na mesa da sala de jantar. “Sempre gostei de escrever nessa mesa, no meio de todas as coisas”, disse.

Zélia Gattai (1916-2008), mulher de Jorge Amado e também escritora, ao contrário, gostava de “isolamento e silêncio”.
Baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) vivia no Leblon, Rio de Janeiro. “Minha biblioteca é um caos organizado”, dizia.
O poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016) declarou que “a poesia é intempestiva. Às vezes ela me acorda no meio da noite e depois pode demorar até um ano para voltar”.
A romancista cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) não permitia que curiosos adentrassem ao seu local de trabalho: “Aqui ninguém entra. Além disso, é muito bagunçado. Escrever é uma chateação.”

Tinha razão. Escrever é uma luta de palavras que brigam entre elas até resolverem se acomodar no texto. Nem sempre com a anuência total do escritor.
Escrevinhador e aprendiz dessa difícil arte de escrever, também sou desorganizado. Divido-me diuturnamente entre dois locais bagunçados, e com eles compartilho a profissão que exerço e o ofício de escrever.
“Como você acha as coisas, quando precisa, neste amontoado de papéis? – Perguntou-me, curioso, um visitante.
O fato é que vivo me perdendo e me achando.
A rigor, o escritor é, por si só, teimoso garimpeiro de assuntos do cotidiano e de ideias. Acha-os, às vezes casualmente, numa esquina qualquer, outras vezes caem-lhe às mãos o dizer e o existir de uma crônica ou de uma página qualquer.
Há algum tempo, um senhor em conversa com amigos, apontou em minha direção: “Aquele ali vive escrevendo umas baboseiras e a gente acaba lendo. ”
A rigor, somos juntadores de palavras. E de quando em vez alguns leem e criticam. E, sobretudo, criticam.
araujo-costa@uol.com.br








