A trincheira presidencial de Lula da Silva

Lula da Silva no Estádio de Vila Euclides, 16.08.2026/Instagram, Lula Oficial

Quando o Partido dos Trabalhadores (PT) ainda engatinhava na década de 1980, uma animada turma costumava se reunir no bairro de Perdizes, em São Paulo, no convento dos frades dominicanos.

Dentre outros, essa turma compunha-se de: Lula; Djalma Bom, que foi deputado e vice-prefeito de São Bernardo do Campo; Jacó Bittar, amigo de Lula desde sempre, pai do dono formal do famoso sítio de Atibaia; Devanir Ribeiro, que tinha sido diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na gestão de Lula; o combativo advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh; Paulo de Tarso Vannuchi, mais tarde ministro de Lula e o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, frei Betto.

Frei Betto coordenava o grupo e cuidava da comida, experiência adquirida na Ordem dos Dominicanos.

Propósito das reuniões: fazer autocríticas, ouvir os companheiros, confessar erros e equívocos e encontrar caminhos. Uma espécie de confessionário especial e coletivo, embora restrito.

A turma recebeu o nome de “Grupo do Mé”, porque era regado a conhaque e outras bebidas estimulantes do ego, que permitiam a descontração e a expiação dos defeitos de cada um dos participantes, a submissão às críticas e à penitência.

Lula da Silva aprendeu muito nesse grupo. Mais pela autocrítica – que hoje não gosta de fazer – e menos em razão do “mé”, que ele já conhecia de cátedra. Natural. Os sonhos às vezes precisam de estímulos.

As circunstâncias difíceis da ditadura militar exigiam as amizades como bálsamo para o enfrentamento das dificuldades, porque os tempos mais difíceis são aqueles de atrocidades.

Alguns amigos muito próximos e companheiros de Lula já morreram, outros se afastaram, em razão dos rumos que o PT tomou, a partir do Mensalão. Poucos estavam lá ontem no Estádio da Vila Euclides.

Ontem – 16/08/2026 –  no lançamento da campanha presidencial de Lula, em São Bernardo do Campo, Djalma Bom estava lá, beirando os 87 anos, mas honrando a amizade de décadas.

O PT arrebanhou militantes dos 7 municípios do ABC e de outras regiões e fretou ônibus para transportá-los até o Estádio de Vila Euclides. A estridente militância petista dos municípios contíguos estava toda lá e inflou o evento.

Todavia, o PT espalhou que o evento contou com 40 mil pessoas. Exagero, visível exagero.

O Estádio de Vila Euclides comporta um pouco mais de 12 mil pessoas e mais um pouco no gramado.

Deixa pra lá, o PT gosta de exagerar.

Lembrei da última metade da década de 1970, áureos tempos de Lula liderando as greves de São Bernardo do Campo e do ABC paulista como um todo, embora vigiado pelos militares.

Naquele tempo Lula construiu seu mundo político e não se cercava de radicais como hoje.  

Ontem foi um dia importante para o PT, provável última campanha presidencial de Lula, que estava visivelmente emocionado e fragilizado.

O Estádio 1º de Maio – Vila Euclides – serviu de esteio para que Lula desse o ponta pé inicial em sua exitosa carreira política.

Compreensível a emoção. É sua última trincheira.

Talvez o maior mérito de Lula da Silva foi persistir na luta política. O demérito certamente foi, na condição de governante, deixar contaminar seu redor de radicais.

araujo-costa@uol.com.br

Colégio Cenecista São José: Da glória aos escombros

Traçado original do prédio histórico da Prefeitura de Chorrochó, sem data/Hoje está reformado

“As tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro.” (Tobias Barreto, jurista e filósofo sergipano, 1839-1889).

Não sei se há alguma coisa relevante a acrescentar às palavras recentes de alguns chorrochoenses, dentre esses Ita Luciana e Eloy Netto, sobre o descaso relativo ao patrimônio histórico do município.

Educação e cultura de um povo se impõem por si sós, de modo que a preservação da tradição se encarrega de perenizá-las.

Fui aluno do Colégio São José, admirador de seu corpo docente e desejoso de que a instituição – hoje estadualizada e com novo formato – continue educando, estruturando mentalidades e desenferrujando as mentes de nossos jovens, preparando-os em direção ao caminho do bem e da nobreza pessoal e profissional.

As gerações se assentam em valores, sonhos, ideias, lutas e contribuição dos antepassados.

Sou defensor intransigente das tradições e da cultura de Chorrochó e, neste particular, até tenho sido renitente, quiçá inconveniente, ao criticar o descaso das autoridades no que concerne aos alicerces culturais do lugar.

Há algum tempo sugeri a fundação de uma biblioteca pública municipal para servir de sustentáculo cultural aos jovens de hoje e do futuro e à sociedade chorrochoense, como um todo. Até fui pretensioso a ponto de sugerir o nome: Biblioteca Professora Marieta Argentina de Menezes.

O fato é que alguém teve a ideia de espezinhar a história e as tradições de Chorrochó e mandar demolir o antigo prédio do Colégio São José. Consumada a insensatez, a história da instituição foi reduzida a poeira e escombros.

Presumo que o setor que cuidava da cultura do município à época tenha guardado fotos da instituição para enriquecer os arquivos do município.

O assunto agora volta à tona, embora casualmente: a demolição do prédio do antigo São José foi inoportuna e desnecessária.

O desenvolvimento do município não deve passar pela destruição de suas tradições, tampouco a história deve ser apequenada de maneira cruel e insensata.    

Em data recente, Tércio Tolentino sugeriu uma lei em defesa da “memória viva de Chorrochó”. E ponderou: “Progresso não é apagar. Progresso é construir o novo ao lado do antigo”.  

Com a palavra a Câmara Municipal de Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br

Prefeito de Chorrochó entre a vontade e o dever de mudar

“Dos administradores que me precederam, uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada. ” (Escritor Graciliano Ramos, 1892-1953, sobre seu tempo à frente da Prefeitura de Palmeira dos Índios-AL, in Viventes das Alagoas).  

Empossado em 2025, o prefeito Dilan Oliveira (PCdoB), de Chorrochó, tem um desafio a transpor, se ainda não o fez: evitar que o município se quede a uma administração opaca e ancorada no passado.

Prefeito Dilan Oliveira/Reprodução Prefeitura de Chorrochó

Como se vê até aqui, neste caminhar em direção ao segundo ano de governo, o prefeito vem demonstrando visão adequada de gestão pública e, sobretudo, tem sido diligente no que tange às demandas exigidas pela população. E até vem inovando, criando um estilo próprio de governar.

Se o gestor público – qualquer que seja ele – não tiver capacidade de ouvir as críticas para aperfeiçoar seu modo de tanger a administração, é possível que venha a cair nos labirintos e armadilhas experimentadas noutros tempos pelo município.

Daí a necessidade de o homem público olhar no retrovisor do tempo para aquilatar o que precisa mudar e o que não se deve repetir.

 “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam e bajulam, porque me corrompem”. Este provérbio atribuído a Santo Agostinho deve balizar a cartilha dos homens públicos, embora em política seja comum ouvir os bajuladores e não os críticos.   

Em Chorrochó, sabe-se, por enquanto há uma impressão geral no sentido de que o prefeito está indo muito bem e movimentando a gestão a contento em todas as áreas.

O prefeito Dilan Oliveira é bem assessorado e, neste particular, o mérito é dele próprio que soube escolher seus auxiliares. Seu secretariado dá sinais de eficiência e parece empenhado em contribuir para a mudança que o prefeito precisa fazer no município.

A Câmara Municipal também tem contribuído para que Chorrochó avance.

Assim, a possibilidade que as urnas deram ao prefeito compatibiliza-se com a vontade e o dever de mudar o município, de modo que os vícios e as sombras do passado possam ser afastados.

araujo-costa@uol.com.br   

O adeus de Senhorzinho

A família noticiou o falecimento de Macário Alves Filho (Senhorzinho), filho de Maria Querubina dos Santos e Macário Alves.

Já passava dos 96 anos. Nascido a 16/02/1930, faleceu em 04/08/2026.

Família estruturada no distrito de Patamuté, município de Curaçá, Senhorzinho se casou com Maria de Lourdes Oliveira Alves e seu núcleo familiar também se estendeu a Chorrochó.

Lembro, em Patamuté, Senhorzinho sempre elegante, alegre, montado a cavalo, sobretudo em dias de feira, aos sábados, rodeado de amigos.  

Deixo pêsames à família de Senhorzinho: Lenisse, Cilene Cristianne, Samira Liane, Nayara Cristiane, Arnóbio, Agamenon, família de Alice Alves, Ademilton, Aílton e todos que sofrem com a perda.

Que Jesus Cristo lhe indique o caminho e Deus o ampare.

Observação:

A foto é uma reprodução do Chorrochonews2.0

araujo-costa@uol.com.br

Aspectos da política de Curaçá

Pedro Alves de Oliveira, ex-prefeito de Curaçá-Bahia/Reprodução Google

Em jornalismo é muito comum o uso da palavra lide, do inglês lead, que significa o primeiro parágrafo de uma reportagem onde se pergunta: o quê? quem? quando? onde? como? por quê?

Isto significa que a informação deve se sustentar em parâmetros tais que a verdade não seja ofuscada, tampouco tendenciosa, mas claramente exposta, inquestionavelmente segura.

Entretanto, parece que parte do jornalismo de hoje não vem obedecendo a esses princípios de credibilidade. Faltam-lhe as perguntas básicas para ampararem a seriedade da informação. Faltam-lhe as respostas.

Em data recente, a imprensa noticiou que o ex-prefeito Pedro Oliveira, de Curaçá, dentre outros ex-alcaides baianos, foi aquinhoado com um cargo na Limpurb, empresa criada em 1979 e que tem a Prefeitura de Salvador como acionista majoritária e cuida da limpeza urbana e sustentabilidade ambiental da capital soteropolitana

Logo, o assunto resvalou para a polarização política, como se isto fosse novidade nas administrações públicas em todas as esferas espalhadas pelo Brasil.

O prefeito Bruno Reis, de Salvador (União Brasil), é muito próximo do sertão e tem amigos em Curaçá. A primeira-dama de Salvador é natural de Uauá.

Grosso modo, nem precisa ir longe. A Prefeitura de Curaçá, por exemplo, certamente teve ou tem apadrinhamentos em cargos comissionados ou não, independentemente do prefeito de plantão e de sua convicção política.

Se a prática não é ilegal, nem imoral, não há impedimento.

Não conheço o senhor Pedro Oliveira, o que para ele, não tem nenhuma ou qualquer importância.

Aliás, quando Pedro Oliveira era prefeito de nosso altaneiro município de Curaçá e estava envolvido numa teia de notícias espinhosas, consultei Sua Excelência no sentido de conceder uma entrevista a este blog.

O então prefeito não respondeu, sequer por educação, mas suponho que seja um homem educado. Tampouco sinalizou qualquer contato e atenção através de sua eficiente e diligente assessoria.

Por óbvio, o prefeito declinou da entrevista e, ato contínuo, demonstrou simultâneo desprezo por este insignificante curaçaense filho de Patamuté, pelo que agradeço.

Entretanto, neste ano eleitoral, a Bahia se prepara para escolher, nas urnas de outubro, a continuidade do petista Jerônimo Rodrigues à frente do governo do Estado ou alçar ACM Neto (União Brasil) que lhe faz oposição, pelo menos, por enquanto.  

Esse assunto do cargo do ex-prefeito de Curaçá passou a ser recorrente, tendo em vista que, salvo engano, o político pertence ao grupo de ACM Neto e, por conseguinte, de Bruno Reis.

Pactuar com essa forma rasteira e desgastante de fazer política é apequenar o debate, empurrá-lo para a aridez das incompreensões.   

O certo é que ainda não aprendemos a fazer política compatível com a robustez exigida pelos valores da sociedade.

Misturam-se alhos com bugalhos, rebaixa-se o entendimento político, descamba-se para o vale da falta de seriedade.

Talvez por isto, nossa educação política esteja tão longe de se afastar da pequenez e do obscurantismo partidário.

O que o exercício de um cargo periférico ocupado por um ex-prefeito, numa empresa vinculada ao município de Salvador, tem a ver com a seriedade ou não de quem disputa o governo da Bahia?

araujo-costa@uol.com.br

Juntador de palavras

“Me fotografar hoje? Não, hoje não. Venha na segunda-feira. Prometo não envelhecer mais até lá.” (Lygia Fagundes Telles, escritora paulista, 1918-2022)

Em 21/12/1997 a Folha de S.Paulo publicou extensa matéria sobre 22 escritores brasileiros. O jornal fotografou seus escritórios e locais de trabalho, procurou saber os critérios que eles seguiam ao escrever e, sobretudo, a organização – ou não – do ambiente de trabalho.

Lygia Fagundes Telles/G1

Quase todos se declararam desorganizados e esta parece ser uma característica ou qualidade de escritor: lidar com a bagunça, o amontoado de papéis, livros espalhados, alfarrábios por todos os lados, material de pesquisa, et cetera.

Na casa do Rio Vermelho, em Salvador, Jorge Amado (1912-2001) gostava de escrever na mesa da sala de jantar. “Sempre gostei de escrever nessa mesa, no meio de todas as coisas”, disse.

Jorge Amado/Brasil Escola – UOL

Zélia Gattai (1916-2008), mulher de Jorge Amado e também escritora, ao contrário, gostava de “isolamento e silêncio”.

Baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) vivia no Leblon, Rio de Janeiro. “Minha biblioteca é um caos organizado”, dizia.

O poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016) declarou que “a poesia é intempestiva. Às vezes ela me acorda no meio da noite e depois pode demorar até um ano para voltar”.

A romancista cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) não permitia que curiosos adentrassem ao seu local de trabalho: “Aqui ninguém entra. Além disso, é muito bagunçado. Escrever é uma chateação.”

Rachel de Queiroz/Instituto Moreira Sales

Tinha razão. Escrever é uma luta de palavras que brigam entre elas até resolverem se acomodar no texto. Nem sempre com a anuência total do escritor.

Escrevinhador e aprendiz dessa difícil arte de escrever, também sou desorganizado. Divido-me diuturnamente entre dois locais bagunçados, e com eles compartilho a profissão que exerço e o ofício de escrever.

“Como você acha as coisas, quando precisa, neste amontoado de papéis? – Perguntou-me, curioso, um visitante.

O fato é que vivo me perdendo e me achando.

A rigor, o escritor é, por si só, teimoso garimpeiro de assuntos do cotidiano e de ideias. Acha-os, às vezes casualmente, numa esquina qualquer, outras vezes caem-lhe às mãos o dizer e o existir de uma crônica ou de uma página qualquer.

Há algum tempo, um senhor em conversa com amigos, apontou em minha direção: “Aquele ali vive escrevendo umas baboseiras e a gente acaba lendo. ”

A rigor, somos juntadores de palavras. E de quando em vez alguns leem e criticam. E, sobretudo, criticam.

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Chorrochó, tempo de recordar: memorial Cordeiro de Menezes

Joviniano Cordeiro de Menezes/Arquivo Dr. Francisco Afonso de Menezes

“Eu vim ao mundo para ter saudade.” (Antonio Francisco da Costa e Silva, poeta piauiense, 1885-1950).

Ao apagar das luzes de 2017, a família Cordeiro de Menezes inaugurou importante marco em Chorrochó: o livro Memorial Cordeiro de Menezes, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes, chorrochoense de boa cepa, respeitável intelectual e membro da família objeto do estudo publicado.

Segundo o autor, o livro é o resultado de pesquisa acurada durante anos e só consolidada e publicada em 2017. Trata-se de um apanhado cuidadoso, confrontado com depoimentos e documentos sobre os Cordeiro de Menezes, desde a chegada dos ancestrais ao Vale do São Francisco, até os dias de hoje.

A apresentação do livro é da abalizada professora Maria Therezinha de Menezes, ícone da cultura de Chorrochó. Entrementes, o autor confessa gratidão “a outros parentes” que lhe prestaram informações valiosas sobre a família objeto da pesquisa.

A professora Therezinha trata a família Cordeiro de Menezes como “símbolo de união, fortaleza, respeito e honestidade”, com o que, certamente, Chorrochó constata e concorda.

Embora acanhado e inábil, quero tão somente – e mais uma vez – fazer o registro do aparecimento da obra em Chorrochó, sem alongamento desnecessário, estribado em duas razões que se me afiguram essencialmente fundamentais: o ineditismo da iniciativa e a certeza de que Chorrochó aos poucos está resgatando seu passado cultural tão espezinhado ao longo dos anos.

Por conseguinte, nada há a acrescentar, nem tenho condições de fazê-lo. Sou ignorante sobre o assunto e estou apenas a cavaquear. Mania de meter o bedelho, mania de dizer o que penso.

Entrementes, alegro-me em registrar que a história do município se enriquece sobremaneira com este livro, que trata de uma das famílias que se fizeram esteios e sustentáculos das tradições chorrochoenses.

Para emoldurar a obra, atribuindo-lhe maior riqueza, há uma Sinopse da lavra do ínclito Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, também membro da família e atento defensor das tradições do município. Jorge faz um apanhado do caminho difícil trilhado pelos Cordeiro de Menezes, de sorte que emprestou ao livro contribuição valiosa.

Aliás, no que concerne às tradições locais, em nome da memória de seus antepassados, o autor mui sutilmente demonstra insatisfação quanto a eventuais arranhões que se vêm fazendo na condução dos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

Diz o autor: “Mesmo com as mudanças que nossa Igreja sempre se propõe a fazer cada ano, ainda não nos retiraram a possibilidade de nós, os remanescentes da Família Cordeiro de Menezes, sentimo-nos enaltecidos, de fraternalmente louvarmos com todo fervor nosso Excelso Padroeiro”.

O livro é bom. Traz informações até aqui desconhecidas sobre os Cordeiro de Menezes, a trajetória, a luta e o interessante caminho como coadjuvantes na construção da história de Chorrochó.

O autor é conhecido. Tem boa e valiosa formação e se porta com absoluta fidelidade intelectual.

Memorial Cordeiro de Menezes é um livro para fazer parte das bibliotecas e escolas do município, de modo que possa delinear para os jovens e gerações futuras o entendimento no que tange à contribuição que cada membro da família Cordeiro de Menezes fez para o engrandecimento de Chorrochó.

O engrandecimento de um povo não se dá apenas economicamente, mas também se materializa através da cultura, mediante a formação do caráter coletivo e, sobretudo, pelo exemplo que passa às gerações futuras.

Memorial Cordeiro de Menezes também é uma forma de sentir saudade.

Vir “ao mundo para ter saudade”, como dizia o poeta piauiense, é também uma forma de eternizar a memória de nossos antepassados.

Entendo que o livro de Dr. Francisco Afonso de Menezes tem também este papel de trazer a saudade.

Post scriptum:

Chorrochoense, o Dr. Walter de Dodô lembrou que Jovino era boêmio.

Lembro Jovino cantando Perfume de Gardênia, do cantor cubano Bienvenido Granda, simulando abraçar uma dama imaginária.

Lembranças que ficaram, permanecem.

Quando o conheci em Chorrochó, já havia passado sua fase de boêmio.

araujo-costa@uol.com.br

Governador da Bahia é o Odorico Paraguaçu sem graça

Governador Jerônimo Rodrigues (PT-Bahia)

“De tanto defender os pobres, os petistas acabaram ficando ricos.” (Ferreira Gullar, poeta e escritor, 1930-2016)

A semelhança do governador baiano Jerônimo Rodrigues (PT) com o prefeito Odorico Paraguaçu, da imaginária Sucupira (Sucupira, ame-a ou deixe-a, de Dias Gomes, Editora Civilização Brasileira, 1982) é assustadora.

O prefeito (personagem de Paulo Gracindo) tentava desesperadamente inaugurar um cemitério na cidade, mas não conseguia, por uma razão muito simples: não havia defunto, ninguém morria. Mas o prefeito tinha pressa em deixar esse defuntíssimo marco em seu governo.

Contudo, o prefeito sucupirano tinha qualidades inquestionáveis que convenciam a população: entendia da língua portuguesa e sabia fazer eficiente propaganda de seu governo, embora nada houvesse de positivo na administração.

O governador da Bahia vive às voltas com estradas abandonadas (a BR 324, Salvador-Feira é um exemplo); caos na condução da segurança pública (a violência vem aumentando exponencialmente na Bahia); altos índices de analfabetismo, embora o Estado seja coadjutor na política educacional; problemas recorrentes de regulação na área de saúde; a polêmica ponte Salvador-Itaparica que virou meme nas redes sociais.

Há quase 20 anos o PT promete a ponte e o projeto não sai do papel. Sucederam-se os governos Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues e nada de ponte.

E por aí vai o descalabro.

Mas o governador Jerônimo insiste em dizer, em seus insossos discursos, que a Bahia vai muito bem, obrigado. Os investimentos cresceram nos governos petistas e que está fazendo entregas, muitas entregas, que chegam à casa das duas mil em seu governo.  

Todavia, a população – ou parte dela – diz que não vê entregas, mas muito barulho em ano eleitoral, tendo em vista as urnas de outubro vindouro.

A imprensa lulopetista da Bahia está calada, sepulcralmente em silêncio e a mirrada oposição se esguelhando para apontar os erros e marasmo do governador para tentar evitar a reeleição de Sua Excelência.

Todavia, o PT deve ganhar na Bahia. O partido domina vergonhosamente o feudo petista há duas décadas e tem a caneta numa mão e a demagogia na outra.

Os cabos eleitorais do governador Jerônimo são eficientíssimos e têm votos, muitos votos, dentre eles os nobres ex-governadores Jaques Wagner e Rui Costa.

Jaques Wagner é experiente. Vive no batente político desde jovem. Rui Costa aprendeu a malandragem política. Ambos começaram no sindicalismo do morubixaba Lula da Silva.

Entretanto, o surrado discurso petista de que Lula da Silva exterminou a pobreza e tirou o Brasil do mapa da fome não se sustenta mais, virou fumaça, ninguém acredita.

A realidade é cruel, fala mais alto, demonsta esse embuste petista. Há muita gente passando fome no Brasil. Basta andar nas ruas de São Bernardo do Campo, berço político de Lula da Silva.

Contudo, o governador Jerônimo continua nessa linha ilusória. Em data recente, Sua Excelência disse, em discurso, que Jaques Wagner se dedicou a cuidar dos pobres. Então, a teoria de Ferreira Gullar, que apoiou o PT durante muitos anos, está correta: de tanto apoiarem os pobres, os petistas ficaram ricos.

Há algum tempo uma deputada estadual petista das bandas de Paripiranga (BA) disse que “o PT tirou a lata d’água da cabeça das mulheres”. Ela deve conhecer pouco o sertão seco e esturricado e a realidade das famílias que vivem sob as agruras da seca.

O presidente Jânio Quadros dizia que político ruim se assemelha a um “ataúde de chumbo”, é difícil de carregar.

Ainda assim, Jaques Wagner e Rui Costa estão conseguindo carregar, mais uma vez, o governador Jerônimo em direção ao Palácio de Ondina. Parece que vão conseguir.

No mais, o governador Jerônimo Rodrigues é o Odorico Paraguaçu sem graça da Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, saudade e lições da província

Igreja do Senhor do Bonfim, de Chorrochó

O repórter marcou horário da entrevista em meu escritório. Chegou na hora marcada, como convém aos bons profissionais.

Queria amparar uma matéria sobre minha vida. Quiçá um apanhado, quase um enviesado e sucinto resumo biógrafico. Sem êxito, entretanto.

Disse-lhe que minha vida não é lá grande coisa, mas uma luta incessante pela sobrevivência, um confronto com os limites humanos do tempo, assim como “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (1899-1961).  

Acrescentei que alguns entendidos em vida alheia me chamam de saudosista e piegas e que me preocupo demais com coisas reles, desprezíveis, assuntos sem importância.

As coisas têm ou não importância a depender do ângulo de quem as vê. Eu dou importância às coisas, segundo minha visão do cotidiano e tenho errado pouco nesse particular.

Não é defeito ser assim. Por isto, quase sempre falo de amigos, de lugares, de lembranças, tais e tantas que um espaço de página não é suficiente. É minha característica de cronista, espectador do tempo, da vida e dos tropeços. Não faço mal a ninguém. Nunca fiz.

Nesse diapasão, toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro. São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Muitos se aconchegam nesses ambientes para lapidar seus vícios. Se “o vício é o estrume da virtude”, como dizia Machado de Assis, ele também, em certos casos, é bálsamo da boemia.  

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o Bar Potiguar. Central, arejado, convidativo, muito procurado.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira.

Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O Bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram.

Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Outros tantos já morreram ou estão aposentados do trabalho e das peripécias da vida.

A lista é extensa, mas declino os nomes para evitar massacre maior da saudade.

Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de decência.         

Qual a importância dessas lembranças?

A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

Depois de longa conversa, às vezes sem pé, outras vezes sem cabeça, o sol de primavera já alto, o repórter se despediu sem a matéria de minha vida, que nunca vai conseguir.

Minha vida não é lá grande coisa, não tem importância.

araujo-costa@uol.com.br

Raízes de Chorrochó e o aniversário da professora Neusa Menezes

Professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes/Arquivo pessoal

Meus alfarrábios me dizem – e tive o cuidado de confirmar com um amigo comum – que hoje é o aniversário de Neusa Menezes.

A professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes é defensora diuturna da história de Chorrochó, o que faz com absoluta seriedade e competência. Conhece como poucos, os meandros dos fatos que serviram de esteios para a edificação da sociedade chorrochoense.

A professora Neusa vem de um tempo, embora não muito distante, em que as instituições locais sustentavam as referências que indicavam o melhor caminho para a juventude.

Por isto que os jovens persistiam em seus sonhos, muitos deles elasticamente distantes, mas razoavelmente possíveis.

Neste contexto estavam as escolas públicas, bases seguras da formação dos jovens de Chorrochó.

Ninguém constrói fortaleza de caráter se não estiver alicerçado em sustentáculo familiar irrepreensível.

Neusa tem razões de sobra para orgulhar-se de sua construção moral: o pai Vivaldo Cardoso de Menezes, a mãe Estefânia Rios e uma razoável constelação familiar que, ao seu redor, foi educada sob a batuta de regras claramente voltadas para o bem e sustentada em valores sociais modelares. 

Chamá-la tão somente professora não é defini-la bem. Ela reúne mais do que a nobre função de mestra. Somam-se os misteres de historiadora, pesquisadora, vigilante de seu tempo e apego às tradições da Igreja de Chorrochó.

Nossa geração viveu tempos de efervescência cultural no Colégio Normal São José. Ainda em construção de seus valores, enquanto cidade, Chorrochó recebia jovens do meio rural e circunvizinhanças e os agasalhava nas escolas da sede, mormente nos cursos ginasial e colegial.

Neusa, ainda muito jovem, mas já professora eficiente e dedicada, fazia parte desse enredo cultural.

Tenho a honra de ter sido seu aluno e a alegria do saudável convívio nos tempos de minha mocidade.  

Chorrochó nos seduzia. Éramos irrequietos, mas modestos e sonhadores.

A vida de estudantes nos encantava. E o mundo exigia mudança e participação dos jovens, embalados pelos ventos advindos dos movimentos estudantis de 1968.

Tempo de utopia e mudança de costumes. Os meios de comunicação no sertão eram rudimentares e, em razão disto, contribuímos somente com aquilo que nos foi possível, dentro dos limites de nossa humildade interiorana.

Neusa seguiu adiante, contribuiu mais, continuou contribuindo até hoje, certamente contribuirá muito mais.

Todavia, Chorrochó nunca teve apreço por sua memória. Isto se transformou em obstáculo para quem se entrega à empreitada de realizar pesquisas e estudos para compor o caminho trilhado pelas gerações passadas.

Ainda assim, a professora Neusa tem driblado tudo isto e vem escrevendo, com impressionante dedicação e desenvoltura a história de Chorrochó. É agradável reconhecer esta sua nobre tarefa em benefício do lugar.

Avessa a elogios, a professora Neusa não tem conseguido impedir que seus admiradores – e nestes me incluo – reconheçam-na como dedicada e atenta guardiã da história de Chorrochó.

Uma qualidade que mais se destaca na professora Neusa Menezes é o idealismo, que se traduz no apego às tradições, à cultura, à educação e ao engrandecimento de Chorrochó.

Outra qualidade é a modéstia, admirável modéstia sob a qual ampara seu trabalho persistente e constante voltado para o engrandecimento cultural do município.

Tarefa um tanto difícil, tendo em vista que os valores do lugar têm sido espezinhados de tal forma que até nomes de antepassados são omitidos em seguidas administrações municipais, até mesmo em solenidades cívicas.

Dentre sua vasta produção cultural, a professora Neusa Menezes publicou em 2015 o livro História de Chorrochó em coautoria com o Dr. Francisco Afonso de Menezes, ambos abalizados conhecedores da história do lugar.

A professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes é atenta às coisas de Chorrochó. Seu idealismo tem sido de grande valor para a história do município.

Feliz aniversário, professora Neusa.

araujo-costa@uol.com.br