“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.” (Berthold Brecht, dramaturgo alemão, 1898-1956)
Ícone da intelectualidade da Bahia, o ínclito professor universitário Josemar Pinzoh, que admiro muito, filho de Curaçá, vem tecendo algumas considerações sobre o atual momento político, mormente no que concerne às eleições de outubro do corrente ano de 2026.
O ilustre mestre aponta os feitos do lulopetismo, elevando-os aos píncaros da glória política, de modo que os sustenta com robustos e indubtáveis exemplos. Inegáveis, conseguintemente.
O professor se ampara nos programas sociais, tais como: fome zero, bolsa família, pé-de-meia, minha casa, minha vida, farmácia popular, gás do povo, mais médicos, et cetera.
As políticas públicas engendradas pelos governos petistas e outras tantas por eles ampliadas são inegáveis, o que não é privilégio unicamente dos políticos de esquerda.
A soma dos caraminguás distribuídos aos mais necessitados pelo governo permite a circulação de riquezas na economia dos pequenos municípios, dentre esses Curaçá que, segundo o professor, gira em torno de 5 milhões de reais.
Tudo certo. Tudo muito direito.
Num ponto o professor tem absoluta razão: o desinteresse dos jovens no que tange ao conhecimento. Isto, por consequência, gera a obscuridade que os atinge, resvalando-a para a intolerância, a incivilidade, a ignorância e a incapacidade de conviver com os antagonismos.
Entrementes, parece razoável afirmar – e o professor silencia quanto a isto – que o Poder Público há décadas vem negligenciando quanto à qualidade do ensino em todos os níveis, embora o petismo alardeie a proliferação de escolas federais, universidades e centros de educação, o que não significa dizer que, em razão disto, o ensino é eficiente e preparador de consciência política.
A criação de escolas e a proliferação de edifícios para abrigá-las não pressupõem, por si sós, boa qualidade de ensino.
A título de exemplo: É sabido que na Bahia, estado deste escrevinhador e também do professor, os estudantes que não obtêm rendimento em determinadas disciplinas podem seguir para a série seguinte, o que, para os críticos – e não sou um deles – se trata de aprovação automática.
No meu tempo dizia-se que o aluno era repetente e não podia ser guinado à série subsequente.
Noutras palavras, o governo baiano entende que o procedimento evita o abandono escolar (evasão) e garante que o aluno mantenha o vínculo com a escola enquanto se recupera, o que não parece ser de todo errado.
Em quadro assim, como esperar jovens conscientes, politicamente preparados e socialmente responsáveis, para discernirem o que é bom para a sociedade como um todo e não somente, egoisticamente, para eles?
Há municípios do Nordeste que sequer têm uma biblioteca pública para que os jovens e professores possam contar com material de estudo e pesquisa. Cito, constrangido, meu querido Chorrochó, no sertão da Bahia. Lá, biblioteca pública deve ser um bicho difícil de acomodar nos alicerces da educação local.
O professor Pinzoh, mui apropriadamente, lembra que a juventude sertaneja de agora não conhece um candeeiro, uma cacimba, uma lata d’água na cabeça, tampouco o sofrimento de seus antepassados e nisto reside a dificuldade de auscultarem a diferença entre as intempéries do passado e as facilidades oriundas dos benefícios sociais de hoje.
Vamos além ou aquém.
Em 1971, época cinzenta da ditadura militar de triste memória, foi criado o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL) com o intuito de arrecadar recursos para financiar a previdência e a assistência social do trabalhador rural. Nasciam aí as aposentadorias do homem do campo, mesmo que não tivesse contribuído para a Previdência Social.
Bem mais tarde, adveio a Constituição de 1988, o FUNRURAL foi extinto e criado o Fundo Geral de Previdência Social vigente.
Em 1970 foram instituídos o PIS e o PASEP, programas sociais perenes e robustos, vigentes até hoje, criados em benefício dos trabalhadores privados e públicos, respectivamente.
Como se vê, a criação de benefícios sociais não é privilégio somente de políticos da esquerda.
Entretanto, o que falta é seriedade, tanto da esquerda quanto da direita, para cuidarem bem da população, independentemente da demagogia que aflora em períodos eleitorais.
Minha geração fracassou. Mas a esperança não fracassa.
Somente a educação será capaz de evitar que as futuras gerações dependam de favores e caraminguás do governo para sobreviverem. Persisir nessa política de assistencialismo é fragilizar a dignidade dos brasileiros.
É bom e útil defender os programas sociais instituídos pelos governos, quaisquer que sejam eles, de direita, de esquerda, de centro ou de qualquer lado, porque ditos programas objetivam amenizar o sofrimento dos mais necessitados e oprimidos pelo permanente descaso das autoridades.
Eu também os defendo.
O que não pode, por óbvio, é servir-se deles para lastrear o terreno eleitoral de políticos vazios e demagogos.
Peço vênia por esta pífia intromissão, quiçá descabida, nas sábias e oportunas considerações do mestre Pinzoh, intelectual de reconhecido destaque nos meios universitários.
No mais, recolho-me à minha insignificância de caatingueiro filho de Patamuté. Mandacaru, xique-xique, macambira, pedras disformes, caminhos empoeirados e garranchentos, árvores retorcidas e seca fazem parte de minha vida de sonhador.
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