Festa dos Vaqueiros de Curaçá e dois pilares da cultura nordestina

Dois pilares da cultura nordestina: à esquerda, Gilberto Bahia (Curaçá-BA); à direita, padre João Câncio (Petrolina-PE). Créditos no texto.

Iam-se-me brotando lembranças de minha sanfranciscana e querida Curaçá, quando me deparo com uma enriquecedora matéria da lavra do jornalista e escritor curaçaense Maurízio Bim, com o título questionador Curaçá realmente é a capital dos Vaqueiros?

Maurízio faz um apanhado histórico – coisa que sabe fazer muito bem – da Festa dos Vaqueiros da pernambucana Serrita, comparando-a com alguns pontos de nossa septuagenária Festa dos Vaqueiros de Curaçá, criada pelo ínclito Gilberto da Silveira Bahia, à época prefeito do município no período de 1959-1963.

Bem estruturada, não há o que acrescentar à brilhante matéria do jornalista curaçaense, nem tenho propósito e conhecimento para isto e, evidentemente, não é o caso.

O artigo é completo, rico, irretocável e deverá, doravante, fazer parte do acervo da Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá.

A memória guarda o passado, preserva-o. Por conseguinte, estrutura nosso pensar no decorrer do tempo e sustenta a história diante das gerações futuras.

Limito-me a borboletear lembranças do padre João Câncio dos Santos (1936-1989), criador e protagonista da Missa dos Vaqueiros de Serrita que, anos mais tarde, foi meu contemporâneo na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, em São Paulo.

A foto dele que faço constar neste artigo é de nosso álbum de formatura em Direito.  

Quanto à foto histórica de Gilberto Bahia, surrupiei-a da página (facebook) do conspícuo vereador e seu neto Rogério Bahia, de Curaçá, que muito admiro.   

Petrolinense de mente brilhante e orador culto, discípulo de D. Avelar Brandão Vilela, que o ordenou padre, João Câncio era admirável. Guardo memoráveis lições de suas conversas embasadas em Filosofia, que aprendeu no Seminário Central da Bahia e em Teologia, que se abeberou no Seminário Regional de João Pessoa, na Paraíba.    

Quando o conheci, padre João Câncio já havia deixado o ministério sacerdotal para casar-se. Se não me falha a memória, a última missa que celebrou foi em Bodocó-PE, em março de 1981. Ele foi pároco de lá.

A Diocese de Petrolina deu-lhe o esteio e a luz para clarear seu caminho de sacerdote.

O padre João Câncio tinha humildade impressionante, mas não abdicava de sua inquietude intelectual, o que não é incompatível.

A vida nos permite alguns encontros, uns insólitos, outros fortuitos e passageiros, outros tantos valiosos, mas todos acrescentam experiência e capacidade de reflexão.

Voltando ao artigo de Maurízio Bim, classifico-o como muito oportuno, tendo em vista hipotética disputa quanto ao título de capital dos Vaqueiros: Curaçá ou Serrita.

O mérito de Curaçá é ter Gilberto Bahia como filho, honra e glória do lugar e idealizador da Festa dos Vaqueiros, ajudado por outros abnegados curaçaenses.

O alargar do círculo dessa cultura cabe a todos nós curaçaenses.

Post scriptum:

Este artigo foi publicado neste blog em 02/07/2022. Republico hoje com ligeiros pontos de edição.

araujo-costa@uol.com.br     

Biografia de um gigante da cultura de Curaçá.

Capa do livro Otávio Neves de Santana/Arquivo Salvador Lopes Gonsalves

Registro o convite para o lançamento do livro Otávio Neves de Santana – entre o cavalo, a fé e a palavra, de autoria do ínclito curaçaense Salvador Lopes Gonsalves.

O lançamento dar-se-á em 02 de julho, as 18 horas, na Fazenda Saudade.

Dá até saudade de ter saudade. A Fazenda Saudade faz parte, já há algum tempo, merecidamente, do roteiro cultural de Curaçá, em razão de suas raízes fincadas na História do município.  

O lançamento do livro acontecerá em simultaneidade com as comemorações da 73ª Festa dos Vaqueiros de Curaçá. 

Embora apoucado, por me faltar condições minimamente suficientes para comentar sobre o evento, atrevo-me a tecer breves e pobres considerações, estribado na pretensa amizade que mantenho com o autor do livro, que o admiro há décadas.

Sobre Salvador Lopes Gonsalves, advogado e político de renome, já escrevi alhures e muito, exaustivamente. Seria repetitivo enumerar suas qualidades, seus feitos, sua estrutura intelectual, sua admirável inteligência.

Entrementes, dentre muitas e exitosas façanhas e empreitadas de Salvador, agora vem este livro que cuida de nossa cultura curaçaense, sobretudo ao tratar da história de um homem que, precipuamente, dedicou sua existência ao viver rude da caatinga e do sertão: Otávio Neves de Santana.

Na condição de filho de Patamuté, sinto-me envaidecido pelo convite sustentado na história do biografado Otávio Neves de Santana, retrato indelével de nossa cultura e de nosso viver sertanejo.

O Nordeste é assim, para quem não sabe e não conhece: essencialmente rico, admiravelmente culto, impressionantemente querido.

Os versos, lutas e caminhos de um homem do sertão de Curaçá tão brilhantemente concatenados por Salvador Lopes Gonsalves traduzem a essência do sertão, de nosso sertão, das caatingas de Patamuté e Curaçá.

Dispus-me a gravar um vídeo sobre o evento, mas minha assessoria me desaconselhou sob o pretexto de que sou muito feio para aparecer em evento tão brilhante. São histórias de minha insignificância.  

Por fim, uma lição de humildade do biografado:  O perdão é a limpeza da alma.

Agradeço o convite e a deferência do conspícuo Salvador Lopes Gonsalves. O livro certamente fará parte das bibliotecas e escolas de Curaçá e região.

araujo-costa@uol.com.br

As flores do senador Jaques Wagner  

“Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré)

Senador Jaques Wagner (PT-BA). Reprodução Metrópole

Quem costuma ler este blog sabe que sempre fiz boas e elogiosas referências ao político Jaques Wagner (PT-BA) que, no meu entender, tem cara de senador, pinta de senador, postura de senador e é senador.

Agora, na condição de líder do governo Lula da Silva no Senado da República, o senador está envolvido num baita quiproquó que até os petistas fanáticos estão divididos quanto à continuidade de sua função de liderança.

Há alguns anos Jaques Wagner se mudou de um apartamento na Federação, relativamente modesto, para uma luxuosa residência no Corredor da Vitória, um dos pontos mais caros de Salvador e referência dos superricos que os petistas tanto criticam.

Mas esta é outra história. Hoje, não vem ao caso.

A imprensa vem publicando, com base em informações da Polícia Federal, que Jaques Wagner está envolvido no escândalo do Banco Master e recebeu, não se sabe a que título, um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador e outras benesses mais, incompatíveis com a digníssima função de senador.

A imprensa diz, também, que uma floricultura da nora de Jaques Wagner recebeu R$ 11 milhões do Banco Master o que, convenhamos, parece destoar da atividade exercida pela empresa, se este, de fato este, for o ramo de atividade.

“Estudante de psicologia, a familiar do parlamentar é florista e graduada em direito. A empresa dela foi contratada para prospectar operações de crédito consignado para o Master. É casada com Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia e enteado do senador.” (Metrópole, 18/06/2026).

O senhor Eduardo Sodré, portanto, é secretário estadual do governador Jerônimo Rodrigues (PT).

O Metrópole também apurou que a BK Financeira, empresa da nora de Jaques Wagner, firmou contratos com a instituição comandada por Daniel Vorcaro em 2021.

O governador e professor Jerônimo, que deve ter lido muito sobre regimes ditatoriais, é o defensor de uso de retroescavadeira para fazer valas e nelas colocar adversários bolsonaristas e eleitores que não votam no PT.

Por tabela, o governador baiano também se enroscou com o rumoroso caso Master, assim como o ex-governador Rui Costa, ex-todo poderoso ministro da Casa Civil de Lula da Silva.

Mas não é só. A oposição também tem que se explicar. E não somente na Bahia.

“Uma empresa do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União), recebeu R$ 3,6 milhões em pagamentos efetuados pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro, e da gestora de investimentos Reag, segundo apontamentos bancários feitos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)”, conforme G1 de 11/03/2026.

Ou seja, a esculhambação é geral, atinge petistas e opositores do lulopetismo e, se brincar, até políticos admiradores dos dois lados.

O fato é que tudo deverá ser esclarecido e o senador Jaques Wagner certamente provará que não tem nada a ver com isto, inobstante todo esse emaranhado de escabrosas sinalizações.

Até tu, Jaques?

Não fica bem para a Bahia, nossa garbosa e admirável Bahia de Todos os Santos, que os políticos de hoje – Jaques Wagner, inclusive – enxovalhem a terra de senadores da estirpe de Landulfo Alves, Josapha Marinho, Luiz Viana Filho, Otávio Mangabeira, Antonio Balbino e J.J.Seabra, dentre outros que enriqueceram o Senado da República.  

Quanto às flores, deve ser um bom negócio esse ramo de floricultura na Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

Barro Vermelho e seu maestro Filemon

Maestro Filemon/Arquivo Memorial Filemon Gonçalves Martins, Barro Bermelho-Curaçá,Bahia

Barro Vermelho é um lugar muito importante e querido. Pertence ao município baiano de Curaçá.

Terra de gente hospitaleira e decente, suas esquinas respiram cultura e as ruas atestam a grandeza de seu povo.

O lugar se destaca, também, pelo apego arraigado de seu povo aos valores dos antepassados.

A vida em Barro Vermelho é coroada de grandes feitos. Até o juazeirense João Gilberto, ícone da Bossa Nova, adquiriu algum traço cultural por lá. Muito distante, embora.

Em junho de 2014, Barro Vermelho comemorou o centenário de nascimento de seu filho ilustre, o maestro Filemon Gonçalves Martins, honra e glória da terra.

Algumas gerações de Barro Vermelho guardaram, décadas a fio, as marcas do grande e insigne maestro, porque ele sempre foi indissociável da história da terra. E ainda é.

Filemon construiu toda uma quadra da história do lugar dedicando-se à música e à vida simples de sua gente. Não se vergou às vicissitudes e condições adversas do lugar. Venceu como profissional em sua própria terra.

No contexto cultural de Barro Vermelho, o maestro Filemon está inserido como uma pedra fundamental, alicerçando o seu tempo e sua história.  

A grandeza de um povo também tem raiz em sua simplicidade, na ausência da arrogância e na construção do caráter irrepreensível.

As pessoas de Barro Vermelho são simples, dignas, essencialmente honradas.

Conheci muitas delas, algumas já falecidas e cito estas, a título de exemplo de honradez e decência: Iolanda Martins Ribeiro, José Luiz dos Santos Filho, Agostinho Gonçalves, Hélio Coelho Oliveira, o próprio maestro Filemon, educado, atencioso, impressionantemente modesto. Os grandes homens são assim, simples, mas monumentais.   

Abençoado pelo padroeiro São João Batista e pelo Sagrado Coração de Jesus, Barro Vermelho reverencia seu maestro e se refrigera na cultura musical sustentada, principalmente, por ele e seu legado.

Por aí se vê, sem dúvida, que a história deste simpático distrito de Curaçá tem, em suas páginas, o maestro Filemon Gonçalves Martins na condição primeira de grande nome enriquecedor de seu patrimônio cultural.

Filemon foi maestro da centenária Filarmônica 15 de Março de Barro Vermelho, fundada em 1917.

Professor de música, Filemon teve admiradores, discípulos e circunstantes atentos. E fez escola. Foi pioneiro na arte de sedimentar a importância da música em Barro Vermelho e região.

Difícil esquecer sua participação quase obrigatória em festas, acompanhando procissões em festejos de padroeiros, casamentos e batizados e animando bailes nos clubes sociais.  

Compreensivelmente, Barro Vermelho revive e comemora suas tradições neste mês de junho, com muito fervor, porque sempre esteve atento à firmeza de seus valores culturais.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, uma cobrança necessária da História

“Os homens que fazem história não temem os empecilhos nem se quedam diante das incompreensões” (Lincoln Grillo, 1926-2013)

Dorotheu Pacheco de Menezes

Vem de longe minha insignificante e incessante luta, dentro do possível, pela sedimentação da história de Chorrochó.

Em 06/04/2002 – já se vão, por aí, 24 anos –  o Jornal A Tarde, de Salvador, noticiou no caderno A Tarde nos Municípios, o lançamento de meu livro Dototheu: caminhos, lutas e esperanças, quiçá o registro mais seguro de tudo aquilo que eu vinha falando ao vento em benefício da História do lugar, sem barulho, mas continuadamente.

Alguns chorrochoenses dirão, até com razão, que não tenho nada a ver com isto, vez que sou filho de Curaçá e não de Chorrochó.

Entretanto, insisto: os homens passam, mas a terra fica para ser amada e reverenciada por seus filhos. E a História de Chorrochó não pertence somente a nós, de agora, propriamente, mas também às gerações futuras.

Desde os tempos da prefeita Rita de Cássia Campos Souza, com raízes fincadas no simpático distrito de Barra do Tarrachil, cutuquei a Municipalidade no sentido de trocar o nome da Rua Coronel João Sá, na sede, para Rua Dorotheu Pacheco de Menezes.

A prefeita, embora professora, deu de ombros. A História de Chorrochó, para Sua Excelência, não tinha nenhuma importância.

Até contei, na ocasião, com a valiosa contribuição do vereador Marcos Vinicius Pereira Jericó (Ciel Jericó), embora sem êxito.

Enfrentei algumas e inexplicáveis resistências, inclusive de membros da família de Dorotheu, que entendiam que o coronel João Sá, político e latifundiário lá das bandas de Jeremoabo, foi mais importante para Chorrochó do que o líder Dorotheu Pacheco de Menezes que, dentre muitos de seus esforços, lutou pela emancipação e foi prefeito do município.

Mas essa é outra longa história que, hoje, não vem ao caso e já escrevi muito sobre ela, alhures. Exaustivamente.  

O fato é que, em data recente, salvo engano, a Câmara Municipal de Chorrochó acertadamente, votou e aprovou a mudança de nome da Rua Coronel João Sá para Rua Dorotheu Pacheco de Menezes.

Alvíssaras!

Todavia, parece que o prefeito Dilan Oliveira (PCdoB), que prezo muito – e isto não tem nenhuma importância – a quem cabe mandar executar a medida, ainda não arredou uma palha com vistas ao cumprimento da lei aprovada pela Câmara Municipal.

Ou seja: o prefeito deve determinar a substitução das placas indicativas do nome da Rua e, complementarmente, comunicar aos órgãos públicos interessados no que tange à mudança do mapa de ruas da cidade.

Sem desconsiderar, evidentemente, que isto leva em conta as disponibilidades e parâmetros orçamentários à disposição do prefeito.

Já é tempo de Sua Excelência acionar a Secretaria de Cultura do Município, ou órgão equivalente e demais secretarias municipais afetas ao assunto, no sentido de viabilizarem a mudança do nome da rua.

Chorrochó precisa mudar. E, considerando minha ingenuidade, acho que está mudando.

A frase de Lincoln Grillo, mineiro de Uberlândia, que encima este artigo e foi prefeito de Santo André, no ABC paulista, diz tudo. Conheci-o nos tempos da ditatura militar e nunca esqueci de sua tenacidade em defesa da sociedade e da História.

Minha humilde sugestão é que o prefeito Dilan Oliveira, de Chorrochó, comece a fazer história. Ele tem futuro.

araujo-costa@uol.com.br  

Dr. Francisco Afonso de Menezes: Breve memorando dos 80.

“O mundo é o seu caderno, as páginas em que você faz suas somas.” (Richard Bach)  

Dr. Francisco Afonso de Menezes/Arquivo pessoal

De quando em vez tento afastar as insistentes tempestades do dia a dia e passo a embevecer-me nas lembranças.

Relapso, não costumo anotar datas de aniversários de amigos e, às vezes sou alcançado de supetão com a surpresa da festa.  

Dr. Francisco Afonso de Menezes, completa 80 anos. Chorrochoense de boa cepa que, embora residindo fora de Chorrochó, mantém-se ligado ao município por simultâneos vínculos de família e tradição.

Defensor intransigente da cultura de Chorrochó, Afonso tem sido vigilante no sentido de preservar as tradições locais.

Espécie de personal consultant de muitos, Afonso é memorialista e entende de Chorrochó e de sua história, qualidade que lhe faz abalizada fonte de conhecimento.

Pioneiro da antiga Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), que lhe concedeu a graduação e o tecnicismo profissional que soube exercer com afinco e responsabilidade.

Profissional respeitado em seu meio de atuação, ostenta considerável folha de serviços prestados ao desenvolvimento da agricultura moderna da região como grande conhecedor das ciências agrárias.

Começou sua vida profissional na então conceituada EMATER-BA, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia, instituição que prestou, em sua área, valiosa e eficiente contribuição para a população do semiárido baiano.

Contudo, não trato aqui do profissional. Não tenho preparo para tanto. Quero mesmo é dizer que me fiz amigo de Afonso, coisa lá de algumas décadas.

Nos momentos de reflexão, lembro os amigos, os caminhos percorridos, a juventude, os tropeços, as pessoas boas com as quais convivi. Sou grato a todas, mormente aquelas que me suportaram.

Limito-me ao jovem Afonso que conheci em Chorrochó: afável, estudioso, inteligente, cortês, encantador.

Conheci-o ainda na juventude, em Chorrochó. Quase todos de nossa confraria já se foram.

Continuamos alguns poucos, saudosos e circunstantes, cônscios da efemeridade da vida, meditando, remoendo, ruminando as vicissitudes do existir.

Admiro algumas qualidades de Afonso, dentre essas o apego às tradições da terra natal, o arraigado interesse pela história do município e, sobretudo, a lealdade aos seus princípios.

Outra qualidade de Afonso é a aptidão para preservar amizades, dentro as quais me incluo, honrosamente, não obstante tropeços ao longo do caminho, que ele sempre soube entender e contornar. Mantenho-o amigo. Mantemo-nos amigos. É um amigo generoso, sábio, compreensivo, prudente.

Afonso é autor do Hino de Chorrochó e da Bandeira do município, relevantíssimos feitos que, por si sós, enriquecem e emolduram sua biografia de forma perene e contribuem valiosamente para a grandeza de Chorrochó.  

Extraí estas suas palavras do discurso de formatura: “A capacidade sonhadora é bem maior que as realidades existenciais e a força de identificar sonhos com a vida faz com que acreditemos que o amanhã será melhor”.

Trata-se de pensamento otimista, eloquente, estribado na esperança e na crença de horizontes promissores. É um bálsamo para a juventude, mesmo aquela que se tornou jovem com o envelhecimento, com o passar dos anos.

Neste aniversário de Afonso lembro uma reflexão de Tristão de Atayde: “Chegando aqui, que surpresa! Olhando para trás, que deserto!

Nesta fase da vida, olhamos no retrovisor do tempo, folheamos nosso caderno e avaliamos as somas que fizemos. É o resumo do mundo que construímos até aqui, a vontade de continuar a caminhada.  

Parabéns, bicho!

Você continua jovem em suas ideias, inobstante a passagem do tempo, o tempo que está nos empurrando para o resumo do que fomos, do que somos.

Desejo-lhe muita saúde, disposição para seguir adiante e muita luz na alvorada do seu bonito existir.      

araujo-costa@uol.com.br

O PT, indecência e hipocrisia

Quando se fala de corrupção, os petistas supostamente envolvidos – e são muitos –  têm apelidos hilários, estrambólicos, exóticos.

São conhecidos os apelidos dos políticos do PT que ganharam as páginas policiais da imprensa no tempo da operação Lava Jato.

Quando surgiu o escândalo do Banco Master, os petistas assustados se apressaram em culpar os bolsonaristas que estiveram quatro anos no poder até dezembro de 2022.

Petistas e aliados tentaram negar que Lula da Silva recebeu, em palácio, fora da agenda, pelo menos quatro vezes, o banqueiro Daniel Vorcaro, não se sabe para tratar de quê e que o diretor da Polícia Federal, amigo e ex-chefe de segurança de Lula da Silva, participou de regabofe promovido por Daniel Vorcaro na Europa e por aí vai.

A notícia é irritantemente verdadeira.

Num país sério, o diretor da Polícia Federal já teria sido afastado e não continuaria no comando das investigações, não para acusá-lo de qualquer coisa, mas por um questão de transparência governamental.

A Polícia Federal é órgão de Estado e não de Governo. Serve ao Brasil e não a interesses do governante de plantão, seja Lula da Silva ou qualquer outro.

Contudo, depois ficou claro que, não somente petistas, mas também bolsonaristas, membros do Poder Judiciário e outra série de hipócritas estão envolvidos no escândalo financeiro de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que comprou – e, pelo jeito, pagou bem – corruptos de toda ordem.

É constrangedor ver membros do Poder Judiciário sendo acusados de envolvimento em maracutaias tais que envergonham quem ainda acredita na Justiça.

Mas, o que esperar de um Judiciário que tem membros que vendem sentenças?

Agora veio à tona, com mais consistência, que a fina flor do PT da Bahia está sendo acusada de envolvimento com o escândalo do Banco Master.

Na Bahia, a Revista Veja conta, em detalhes:

“A história começou em 2007, durante o governo Jaques Wagner, com o nome de Cesta do Povo.

A iniciativa foi criada para permitir que servidores públicos estaduais realizassem compras em supermercados públicos com desconto direto na folha de pagamento.

Com a entrada de Vorcaro na operação, o CredCesta virou uma das principais operações de crédito consignado na Bahia, especialmente na modalidade de Reserva de Cartão Consignado.

Em 2022, já na gestão de Rui Costa, sucessor de Wagner, um decreto estadual restringiu a portabilidade dessas dívidas para outros bancos, medida que ampliou a presença da instituição financeira no setor. Ou seja, na prática, o governo do PT baiano realizou uma manobra para se tornar um dos principais parceiros de Vorcaro.

O ex-banqueiro ainda não detalhou a que custo se deu essa relação.” (Veja, 11/06/2026).  

Nem vai detalhar.

Já estão preparando a pizza, que vai livrar de punições congressistas, membros do Executivo e do Judiciário e quem mais se envolveu em tamanha indecência.

Entretanto, os petistas continuam dizendo que corrupto é o ex-presidente Bolsonaro, sua família e correligionários.

Para dirigentes petistas, políticos do partido e fanáticos de ordem geral, o PT é composto de anjinhos puros e inocentes.

Como se vê, não é o caso de defender Lula da Silva, Bolsonaro ou seus aliados corruptos, mas de apurar a verdade.

Mas é seguramente certo que o plantio de peroba precisa aumentar muito para produzir óleo para tanta cara de pau do governo e da oposição.

araujo-costa@uol.com.br

Bases da educação de Chorrochó

“Não foram os anos longos e lentos que me envelheceram. Foram alguns minutos” (Cassiano Ricardo, poeta e ensaísta, 1895-1974).

O embrião que sustentou os sonhos que desembocaram no Colégio São José de hoje vem do Ginásio Municipal Oliveira Brito e da primeira metade da década de 1960.

O Ginásio Oliveira Brito se instalou, precariamente, no prédio das Escolas Reunidas Lauro de Freitas, depois na Casa Paroquial e, mais tarde, passou pelo prédio da Prefeitura Municipal.

Prédio histórico da Prefeitura de Chorrochó ao tempo do Ginásio Municipal Oliveira Brito. Hoje está reformado

O primeiro exame de admissão foi realizado nos dias 18 e 19 de fevereiro de 1963 e dele participaram os alunos adiante nomeados, pioneiros na história da educação ginasial em Chorrochó:

Antonio Ribeiro da Silva, Cleonice Félix dos Santos, Etevaldo Barbosa Ribeiro, Isabel Barbosa de Carvalho, Helena Barbosa Ribeiro, Elza Maria de Menezes, Maria Edite Soares, Oneide Carvalho Santos, Creuza Félix dos Santos, João Bosco de Menezes, João Pacheco de Menezes, José Evaldo de Menezes e Maria Eloiza Ribeiro.

O movimento pela realização do primeiro exame de admissão ao ginásio de Chorrochó contou, ainda, com a contribuição de José Jazon de Menezes, Maria da Paz Rios Menezes, Ednael Bezerra, Francisco Lamartine de Menezes, Ernani do Amaral Menezes, Maria Barbosa de Carvalho e Ozenite de Carvalho Santos.

Essa geração teve em Dorotheu Pacheco de Menezes, fundador do ginásio, o grande artífice das estruturas educacionais de Chorrochó, porque a fundação da instituição foi o primeiro passo para o caminhar em busca de horizontes mais promissores.

Deu certo.

Havia uma saudável vontade de todos com vistas à construção de uma cidade constituída de pessoas razoavelmente preparadas para escolherem, por si próprias, seus caminhos e suas lutas.    

Ao antigo ensino ginasial, que era o sonho de todo jovem da época, seguia-se o colegial e, em Chorrochó, essa estrutura manteve-se com o Colégio São José, instituição que enriquece, até hoje, a história do lugar.

O Colégio São José foi mantido, por muito tempo, pela Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC).

A estadualização do Colégio foi uma forma de evitar que se acabasse.

Esse preito contou, significativamente, com a prestimosa contribuição das ex-alunas da instituição, Margarida Maria Rios Menezes e Lúcia Maria Rios Menezes, que foram fundamentais para evitar que a CNEC, mantenedora do Colégio do São José, o extinguisse.

O Colégio Estadual de Tempo Integral São José de hoje sustenta-se nessa história e nessa tradição de luta em favor da educação do município, sem desconsiderar a realidade diversa e o novo contexto em que se insere.

araujo-costa@uol.com.br  

Bahia: a última batalha de Waldir Pires (1926-2018).

Waldir Pires (1926-2018). Reprodução G1

Nesse 22 de junho de 2026 completam-se oito anos da morte de Waldir Pires, data em que a democracia do Brasil perdeu um de seus maiores esteios e sustentáculos de seriedade política.

Quando Waldir Pires disputou o governo da Bahia em 1986 abriu um comitê na Avenida Sete de Setembro, no edifício da antiga Farmácia Caldas, em Salvador.

Naquele endereço aconteciam reuniões, articulações, definições estratégicas, composições políticas, et cetera. Era o quartel-general da democracia, uma trincheira de respeito à Bahia.

Para lá acorriam políticos, admiradores e esperançosos em geral, com o intuito de fazerem a mudança do statu quo implantado pelo carlismo que perdurou décadas.

Duas qualidades de Waldir, dentre muitas: a combatividade e a retidão de caráter. Homem de convicções admiráveis defendia arraigadamente o ideário que sempre sonhou para o Brasil. Era viciado em democracia.

Waldir Pires disputou a eleição de 1986 tendo como adversário principal Josaphá Marinho, respeitado jurista e professor de Direito Constitucional, apoiado pelo poderoso Antonio Carlos Magalhães (ACM), líder político inconteste naquela quadra do tempo.

Waldir ganhou a eleição, beneficiado pelo alvoroço democrático. O que veio depois é outra longa história.

Na década de 1950, aos 24 anos de idade, Waldir Pires foi secretário do governo Luís Régis Pacheco Pereira e, mais tarde, deputado estadual, deputado federal e Consultor Geral da República na presidência de João Goulart.

Esta primeira fase de sua atuação política anterior ao movimento militar de 1964 foi auspiciosa, rica, valiosa.

Antes, Waldir havia disputado e perdido as eleições de 1962 ao governo da Bahia para o dentista e ex-prefeito de Jequié, Antonio Lomanto Júnior (1924-2015).

Com a queda do presidente João Goulart, Waldir e seu amigo Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil do governo Jango, fugiram num avião monomotor para o Uruguai. Lá ele viveu alguns anos e depois se exilou na França.

Com a anistia, terminou a amargura e Waldir voltou ao Brasil. Na França, foi professor na Universidade de Dijon e depois na Universidade de Paris.

No pós-exílio, além de governador da Bahia e parlamentar, Waldir foi ministro da Previdência, ministro do Controle e da Transparência e também ministro da Defesa.

Todavia, Francisco Waldir Pires de Souza estava com 91 anos. Nascido em Acajutiba, passou a infância em Amargosa e se mudou para Salvador. De lá, Waldir saiu para o mundo da grandeza democrática.

O despontar para o amanhecer político – dizia ele – se deu em Nazaré das Farinhas. 

Sua história de luta e coragem é um exemplo para aqueles que desejam um Brasil melhor para todos.

Mas a memória de Waldir já dava sinais de cansaço, embora lúcido, ativo, atento às coisas do Brasil. Sua combatividade, entretanto, vinha perdendo o vigor desde 2016, término do mandato de vereador de Salvador.

A esposa D. Yolanda Avena Pires, com quem viveu 55 anos e foi sua companheira de vitórias e infortúnios, faleceu em 2005. Mas Waldir continuou lutando em defesa de suas convicções democráticas.

Em 1986, seu amigo de exílio e da vida, Darcy Ribeiro escreveu: “Waldir tem panca e ideologia de estadista. Seu propósito é, nada menos, do que passar o Brasil a limpo”.

Uma das grandes lições que Waldir deixou foi o amor ao Brasil.

Darcy Ribeiro contava que, ainda no exílio, quando decidiu retornar, Waldir disse a D.Yolanda:  “Amor, é hora de voltar. Nossos filhos não hão de falar português com sotaque”.

A primeira vez que vi Waldir Pires – pouco tempo após a volta do exílio – foi na antiga Sorveteria Primavera, em Juazeiro.

Fui-lhe apresentado pelo chorrochoense Francisco Arnóbio de Menezes, que era seu amigo e estava comigo no local. Assim, à semelhança de Waldir, Arnóbio era um sujeito decente, correto, encantador, sem pabulagem.

Fiquei encantado com Waldir. Fala firme, convicções inabaláveis, sorriso encantador.

Difícil não admirar Waldir e sua tenacidade democrática.

Waldir Pires recolheu-se à sua última trincheira, o mundo da velhice. A derradeira e altiva batalha que travou.

Waldir faleceu na madrugada de 22/06/2018. Deixou um legado de esperança e combatividade em favor do Brasil. Exemplo para todas as gerações.

araujo-costa@uol.com.br

Pretensão de ser Juiz e uma palavra de gratidão

“O único patrimônio do homem é o passado. Quando abandona o passado, o homem fica mais pobre, inclusive de sua razão.” (Jornalista Mauro Santayana)

Ainda jovem, mas já advogado e morando em São Paulo, em 1987 prestei concurso público para Juiz de Direito da Bahia. Participaram do concurso 527 candidatos.

Quase quatro décadas já se vão, por aí.

Ingênuo, beirando à infantilidade, acreditava que o Poder Judiciário era, em seu todo, formado de pessoas irrepreensíveis.

Com o tempo, a experiência me mostrou que não é bem assim.

Os trancos e barrancos da vida quase sempre nos auxiliam a enxergar, mesmo quando a escuridão tenta impedir a clarividência, o discernimento.

Numa das diversas viagens que fiz a Salvador durante o concurso, encontrei por lá José Evaldo de Menezes, político de Chorrochó, uma das pessoas mais generosas que conheci na vida.   

José Evaldo de Menezes/Arquivo da família

Numa manhã, acompanhei José Evaldo ao escritório do deputado João Carlos Paulilo Bacelar, de Entre Rios, que ficava na Calçada, bairro da Cidade Baixa, em Salvador, onde ele trataria de assuntos do município de Chorrochó, o que fez valendo-se de brilhantes argumentos.

José Evaldo de Menezes tinha raciocínio ágil, bem articulado. Era impressionantemente inteligente.

José Evaldo foi vereador de Chorrochó em diversos mandatos como, por exemplo, eleito em 1972 pela ARENA com 343 votos e em 1988, eleito pelo PMDB com 233 votos.  

Guardo a gratidão imorredoura. José Evaldo torceu muito por mim naquele momento de sonhos. Sua generosidade já vinha de outros tempos, em Chorrochó.

No retorno ao hotel, na Rua Chile, conversamos muito. Tínhamos seguras expectativas de que eu havia passado no concurso.

Ledo engano. Depois fiquei sabendo que fui reprovado na entrevista que aconteceu no Forum Rui Barbosa no histórico prédio do bairro Nazaré. A entrevista nada teve a ver com questões de Direito. Era uma forma sutil de eliminação.

Tratava-se de critério subjetivo, não havia o que discutir, o que contestar, o que fazer.

Lembro uma pergunta que me foi feita pela banca examinadora: Se, em caso de aprovação, eu me mudaria de São Paulo para exercer a magistratura na Bahia, o que era, no mínimo, uma obviedade ululante.

Ilógica a pergunta. Nenhum tratado de lógica, por mais alentado que fosse, seria capaz de explicá-la.

Ora, eu estava prestando o concurso. Logo, era pressuposto inafastável que me dispunha a exercer a função na Bahia, se aprovado fosse.  

Como eu não tinha pistolão para intervir em meu favor, fiz papel de besta e prestei o concurso.

E não passei.

Este fiasco faz parte do meu patrimônio.

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