Saudade de José Araújo Costa, esse nobre caatingueiro, que nasceu e se criou nos barrancos do Riacho da Várzea.
Viveu em meio a pedras, espinhos e garranchos. Viveu a secura da caatinga, a falta de água, o cantar dos pássaros, a voz da seriema, o barulho do Riacho de Várzea, a poeira, o sol escaldante, a lua, a noite escura, a terra quente. Mas viveu também a fartura, quando a chuva caía e trazia alegria e verde ao sertanejo.
Andou por outras paragens, cavando a vida, o sustento, os sonhos.
Morou em São Paulo por algum tempo, mas a saudade de sua terra lhe puxou de volta para o sertão.
Cuidou da mãe Sátira até o final da vida, casou, teve filhos, cuidou da família, cuidou de seu lugar, cuidou de seus animais, curtiu seu mundo que tanto gostava, teve esperança.
Lutou, sofreu, sorriu, chorou e, por fim, nos deixou no início de julho de 2025.
Quando me telefonava, fazia a costumeira pergunta:
“Cadê você, homem?”
Zé de Sátira se transformou em saudade. Dilacerante saudade.
Em 1978, ainda candidato à presidência da República pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o general João Batista Figueiredo assumiu a dianteira da abertura lenta, gradual e segura, proposta e fiada pelo presidente Ernesto Geisel, seu antecessor na presidência.
Referindo-se à abertura política, Figueiredo disse à imprensa: “É para abrir mesmo. E quem não quiser que abra, eu prendo e arrebento“.
O pai de Figueiredo – Euclides de Oliveira Figueiredo – também general e político, foi perseguido pela ditadura Vargas e, em razão disto, o presidente Figueiredo sempre foi a favor da anistia.
O presidente Figueiredo manteve a abertura política e criou as condições para aprovação da lei de anistia de 1979, que anistiou, além de inúmeras pessoas boas, corretas, decentes e inocentes, alguns desses mentecaptos que hoje governam o Brasil, a turma do “poder não se ganha, se toma”, segundo as “brilhantes” lições teóricas do petista José Dirceu e do ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Guardadas as proporções de tempo e circunstâncias e sob o pretexto de salvar a democracia, o STF mandou prender injustamente, até pessoas em extremo estado de vulnerabilidade (autista, morador de rua, vendedor de água em semáforo, por exemplo).
Mais ainda: permitiu que preso político morresse no cárcere, censurou, desconsiderou artigos da Constituição Federal, espezinhou leis processuais e penais e, sobretudo, extrapolou sua função judicante.
Em consequência, o STF caiu em descrédito perante parte da sociedade e hoje alguns de seus ministros estão no despenhadeiro da hipocrisia e da imoralidade.
O STF passou de tribunal constitucional para uma espécie de delegacia de polícia, abrindo inquéritos e imiscuindo-se em atribuições de outras esferas estranhas à sua nobre função, assemelhando-se a comitê político e, mais do que isto, abraçando o ativismo judicial.
Esse exagero injustificável e nunca visto na República iguala-se ao “quem não quiser, prendo e arrebento”, do presidente Figueiredo, com uma diferença: Figueiredo não prendeu e nem arrebentou. Ao contrário, abriu as portas das prisões de acusados de crimes políticos e abriu o caminho para a volta dos exilados.
O STF, diferentemente, trancafiou inocentes e os acusou de perigosos criminosos.
Não vimos outra coisa no atabalhoado julgamento da suposta tentativa de golpe de Estado de 08/01/2023, que não houve.
Constrangedor, diante disto, ainda a sociedade ver ministros arrogantes do STF dizendo-se defensores da democracia.
Todavia, a democracia não é compatível com truculência, vingança e humilhação de cidadãos, mesmo que não concordemos com eles. E não é função de magistrados concordar ou não com o pensamento político dos brasileiros.
A democracia não se serve do ordenamento jurídico para perseguir. Isto é tirania, desprezo à Constituição e às leis.
O Brasil está no avesso do bom senso e na contra mão da decência política.
“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem” (Bertold Brecht, dramaturgo alemão, 1898-1956).
Vamos enfrentar eleições neste conturbado ano de 2026. Se estivéssemos numa democracia plena, tudo bem, tudo normal.
Contudo, estamos numa ditadura disfarçada de democracia. Aqui acontecem prisões políticas, que muitos negam, abafam-se escândalos e escondem-se maracutaias para proteger poderosos e decretam-se sigilos sobre assuntos que a sociedade tem o direito de conhecer.
Riem-se da situação dos miseráveis, espezinham quem precisa comer.
Conchavos e jantares nababescos entre poderosos dos Três Poderes, às escondidas, com o dinheiro de pagadores de impostos, zombam da miserabilidade dos brasileiros que estão nessa condição de miseráveis.
Autoridades sobem ao topo do pedestal da indecência e da imoralidade.
Quanto aos pré-candidatos à presidência da República, de um lado, à esquerda, Lula da Silva (PT), beirando à senilidade e boquirroto, que expele asneiras a torto e a direito, sempre que lhe aparecem à frente microfones, holofotes, asseclas e fanáticos que o admiram e aplaudem.
De outro lado, a chamada direita completamente perdida, vazia, dividida, confusa, ingênua e despreparada, sem candidato definido para enfrentar Lula da Silva e seus radicais sem noção. Tem apenas uma hipótese esfrangalhada, por enquanto: o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Noutro cenário, também tenebroso, deputados federais e senadores preocupados com o próprio umbigo e o Supremo Tribunal Federal arrogante e de costas para a sociedade, derretendo-se em confusões que beiram ao escândalo, credibilidade ladeira abaixo, despenhadeiro à vista.
Nos estados, tudo como dantes: políticos espertos, “sabidíssimos e safadíssimos”, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro, todos com o intuito indisfarçável de assegurarem as benesses, cargos para seus apaniguados e familiares, poder e dinheiro fácil à custa da miséria do povo.
E Lula da Silva, o PT e aliados dizendo – e os lulopetistas acreditando – que Lula exterminou a pobreza no Brasil. E quem passa fome não sabe por onde anda a comida e nem o caminho para encontrá-la.
A sociedade – ou, pelo menos, parte dela – está tolhida em seu direito constitucional de liberdade de pensamento e de expressão, amordaçada, censurada e, sobretudo, sem perspectivas de uma alvorada de liberdade democrática.
O Supremo Tribunal Federal chamou para si o monopólio da verdade – a verdade que STF entende verdadeira – e ainda há ministros da Corte que se dizem defensores da democracia. Pior: Há quem acredite.
Tempos difíceis. O Brasil se distancia da ordem e do progresso e aproxima-se do caos.
Como dizia o sábio caatingueiro e vaqueiro Luís Lopes (Luisinho), honra e glória do meu município baiano de Curaçá:
Mais citando do que parafraseando o baiano Sebastião Nery, honra e glória do jornalismo político nacional, se colocar o PSD e o PT da Bahia “dentro de um coco e enterrar, é pouco provável que consiga qualquer tipo de batida, mas é absolutamente certo que o coco apodrece”.
O cavernoso senador Otto Alencar (PSD) que, de arraigado carlista passou a ser lulista de carteirinha e adora apadrinhar parentes nos Tribunais de Contas da Bahia, está às voltas com uma discordância de araque com o colega Ângelo Coronel.
Tudo em razão da disputa por uma vaga no Senado Federal. O PT insiste em lançar chapa chamada puro sangue, mediante a qual o governador Jerônimo Rodrigues vai para a reeleição e os senadores Jaques Wagner e o atual ministro da Casa Civil de Lula da Silva e ex-governador Rui Costa se dispõem a concorrer ao Senado da República.
Consequência: Ângelo Coronel (PSD) ficou sobrando e sinaliza se debandar para a oposição.
Alguém acredita que ele vai para a oposição?
Acontece que o PSD de Ângelo Coronel – que ele sinalizou deixar – é o mesmo partido de Otto Alencar. E o senador Otto, que virou lulista desde criancinha, não quer largar a rapadura dos conchavos com o PT, porque as benesses do poder na Bahia lhe são interessantes.
A rapadura é doce. Otto acaba de emplacar o filho para um cargo vitalício no Tribunal de Contas do Estado com o apoio do PT e certamente é grato aos petistas e dane-se Ângelo Coronel.
Assim, o senador de Coração de Maria, Ângelo Coronel, está se sentindo abandonado tanto por seu partido, o PSD, quando pelo PT, do qual ainda é aliado.
Em resumo: tudo farinha do mesmo saco.
Todos acabam se entendendo, mais por interesse pessoal do que por defesa da Bahia.
Os baianos amargam monumental falta de segurança, ensino público deficiente, obras prometidas e não entregues e mais uma série de pendências que somente o PT sabe prometer e não fazer com inquestionável maestria.
A tão propalada ponte Salvador-Itaparica, prometida desde o primeiro governo Jaques Wagner, virou meme de internet e não há nenhuma possibilidade de acontecer nos governos petistas
Todavia, ninguém duvide: na campanha eleitoral de 2026, depois de 20 anos no poder na Bahia, o PT vai procurar colocar nos adversários a culpa por sua ineficiência política e administrativa.
E haverá quem acredite.
O governador Jerônimo Rodrigues (PT), o mesmo que propôs uma retroescavadeira para enterrar adversários bolsonaristas, já está fugindo dos eleitores e nem sequer começou a campanha eleitoral.
Em 30/01/2026, em Gandu, no baixo sul do Estado, o governador escapuliu pelos fundos do local onde se realizava um evento público, para livrar-se das vaias e protestos de produtores de cacau.
Mas a Bahia petista e os petistas que vivem pendurados nos cofres do governo vão muito bem.
Casa sede da Fazenda Mandaçaia/Arquivo Zelinho Sena
A Fazenda Mandaçaia fica na solidão dos domínios de Patamuté e no encravar da caatinga garranchenta e espinhenta do sertão do município baiano de Curaçá.
Lá viveu uma distinta família e sua descendência que deixou – e ainda deixa – suntuosas marcas de Pedro Alves de Sena (1913-1968), vaqueiro, agricultor e comerciante.
Pedro de Joaquim Grande, como era conhecido na região, era casado com Maria Alves (1923-2022), Mariinha, para as pessoas de sua convivência e circunstantes.
O casamento deu-se em 1945 e a Fazenda Mandaçaia foi refúgio, sustentáculo de vida e aconchego da família. Lá eles plantaram, colheram, criaram, viveram.
Defensor da natureza e da caatinga, Pedro Alves de Sena construiu na Fazenda Mandaçaia e seus arredores o modo de vida que foi possível nas condições da época para estruturar a educação dos filhos (Zelinho e Helena) e, sobretudo, fincar as raízes de sua família, com retidão de caráter e decência social.
Tempos difíceis. Naquela época o transporte de animais, gêneros alimentícios e quaisquer produtos do comércio era feito no lombo de burros, tendo em vista a precariedade das condições do lugar, prática ainda muito comum no sertão nordestino até os dias de hoje.
Pedro Alves de Sena labutou nessas circunstâncias, cuidou de sua Fazenda e de sua família com absoluto zelo e dedicação e deixou legado de exemplo e construção de caráter.
Embora sucinto este registro, o cronista deixa a observação que, nalgum tempo em Patamuté – década de 1960 – teve saudável e agradável convivência com familiares de Pedro Alves de Sena, que muito acrescentou e lhe deu lições de vida.
Em tempo:
Mandaçaia é uma espécie de abelha muito comum no sertão nordestino.
Em 30/01/2026 a presidente interina da Venezuela anunciou uma lei geral de anistia para soltar todos os presos políticos que os ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro encarceraram desde 1999.
Lá, como aqui, existe uma simbiose vergonhosa entre Governo e Suprema Corte.
Aqui também temos presos políticos.
Entretanto, não temos políticos corruptos presos, tampouco temos encarcerados magistrados envolvidos em falcatruas.
O Congresso Nacional, esse valhacouto de interesseiros, queda-se inerte e não se dispõe a votar uma lei de anistia para corrigir injustiças.
Quem sabe o Supremo Tribunal Federal siga o exemplo da presidente interina da Venezuela e mande soltar dezenas de inocentes que estão encarcerados, inclusive pessoas humildes do povo condenadas sob o argumento de tentativa de um suposto golpe de Estado.
Dentre os presos e processados pelo STF estavam pessoas em condições de vulnerabilidade, tais como: vendedor ambulante de água em semáforos de Brasília, morador de rua, autista e pessoas com deficiência.
Todavia, para suas subidas e intocáveis Excelências do STF, essas humildes criaturas são perigosos criminosos que estavam arquitetando um golpe de Estado no Brasil.
Definitivamente não vivemos num País sério.
Talvez a atabalhoada pressa do Supremo Tribunal Federal ao julgar os acusados de participarem do 08/01/2023 tenha sido para ofuscar os escândalos em que alguns ministros estão envolvidos e que só agora veio à tona e inundam as páginas do noticiário.
Quiçá o escarcéu, o excesso de barulho e a ânsia por holofotes de ministros do STF sobre essa suposta tentativa de golpe de Estado tenham servido para desnudar a hipocrisia e a vaidade de alguns deles.
Com se vê, estamos diante do “prosperar da desonra” e assistindo, impotentes, “agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus” dos quais falava o jurista Ruy Barbosa.
Professora Maria Ita de Menezes/reprodução de seu perfil no facebook
Ela carrega no nome – Ita – o significado de força, rocha, firmeza. É bem por aí a estrutura da aniversariante deste 30 de janeiro.
Os filhos Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James George Cordeiro de Menezes estão em festa. Os netos, demais parentes, amigos e admiradores, idem.
A descendência é a continuidade da vida, o bálsamo para perfumar o caminho, às vezes árduo, às vezes espinhoso e a doçura que facilita o enfrentamento dos tropeços ao longo do caminhar.
Assim é o escrever da vida. Assim são as surpresas e assim é o imponderável da construção familiar.
Incluo a descendência neste andar, porque são os filhos que, em princípio, sustentam a robustez das raízes de Ita e José Jazon de Menezes. São raízes fortes, seguras, firmes. Os alicerces foram bem estruturados, a construção moral segura e perene.
Meu primeiro contato com a professora Maria Ita de Menezes deu-se em razão de minha matrícula no então Colégio Normal São José, de Chorrochó.
Estávamos lá nos idos de 1971. Ela era professora de Geografia. E não só de Geografia. Tendo em vista a estrutura rudimentar do colégio à época, alguns professores ministravam mais de uma disciplina, o que de certa forma aproximava alunos e professores.
Contudo, o que importa aqui – hoje e neste particular – é o registro do aniversário de Maria Ita de Menezes.
A professora Ita tem grande importância na vida de minha geração e de grande parte da sociedade de Chorrochó.
A robusta participação de Maria Ita de Menezes, educadora e ícone da sociedade chorrochoense deve ser sempre reverenciada.
Em obediência às regras de etiqueta, não fica bem declinar a idade da professora Ita, embora este cronista entenda que quando atingimos a soma de muitos anos, a idade passa a ser um triunfo da vontade de Deus e não um mero detalhe de etiqueta social.
Deixo votos de felicidade e parabéns para a ilustre professora Ita.
Virgílio e sua irmã Virgínia, em foto de 2012/Reprodução facebook
Virgílio Ribeiro de Andrade, assim como este escrevinhador, já um pouco adiantado em anos, continua firme, impoluto, altivo e, sobretudo, digno.
Aliás, dignidade, retidão de caráter e irrepreensibilidade de conduta são qualidades impressionantes de Virgílio.
Com ascendência no simpático município de Uauá, filho de Jerônimo Rodrigues de Andrade e de D. Aderlinda Ribeiro de Andrade, Virgílio se mudou para Chorrochó ainda jovem.
Pioneiro na história da comarca de Chorrochó, instalada em outubro de 1967, Virgílio exerceu com zelo e eficiência, a titularidade do Cartório de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Protesto de Títulos, além de outras subsequentes funções que lhe foram direcionadas pelo Tribunal de Justiça da Bahia na jurisdição da comarca, sempre com absoluta correção e responsabilidade.
Virgílio constituiu família nobre, exemplar e bem estruturada em Chorrochó. Casou-se com a professora Maria do Socorro Menezes Ribeiro e tiveram o filho Rogério Luiz Menezes Ribeiro.
Hoje, Virgílio tem netos que enfeitam sua vida, ajudam a diluir as fragilidades e atribulações e amenizam o prosseguimento da caminhada. Mas não é só. Tem amigos e admiradores. Muitos.
Dinâmico, irrequieto e sobremaneira prestativo, Virgílio participou ativamente da vida social da cidade e, por extensão, do município de Chorrochó.
Fundou e organizou clubes sociais, a exemplo da ARAM – Associação Recreativa Amigos dos Menezes – e sempre se manteve disposto a orientar quem precisasse de auxílio, esclarecimento de dúvidas e colaboração de toda ordem.
Exemplo de hospitalidade e generosidade, sua casa se transformou numa espécie de refúgio encantador e sempre esteve de portas abertas para receber amigos, conhecidos, autoridades, visitantes, pessoas simples da zona rural e até intrusos, como este atabalhoado cronista que, por algum tempo, vivi lá.
Virgílio é uma espécie de consultor em generalidades. Orienta, sugere, indica as encruzilhadas e pedras do caminho e, sobretudo, é generoso, educado, essencialmente prestativo.
Tão depressa vi os anos se passarem que, nalgum ponto desta espinhosa estrada, me veem lembranças – boas lembranças, inesquecíveis lembranças.
São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, advogados, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.
Em Chorrochó, o Bar Potiguar, hoje desaparecido (merece um livro), era o ponto de encontro de muitos da sociedade chorrochoense numa quadra do tempo. Era uma espécie de universidade de costumes.
De lá saía o conhaque para o Dr. Olinto Lopes Galvão Filho, primeiro juiz de Direito da comarca de Chorrochó. Lá frequentou, mais tarde, outro juiz da comarca, querido de todos, Dr. Benedito José Carvalhal de Souza.
Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Bar Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de amigo, carrega até hoje a virtude de saber aproximar as pessoas e tratá-las bem e educadamente.
Confesso. Aqui a modéstia dá lugar à vaidade. Guardo um pouco de orgulho de ter sido garçom do Bar Potiguar sob a supervisão de Virgílio, que era meu patrão. Lá construí muitas amizades nascidas ao entorno de seu balcão. Algumas persistem até hoje.
Virgílio engendrou, organizou e comandou muitas coisas boas em Chorrochó e contribuiu tenazmente com as instituições do lugar.
A História de Chorrochó certamente lhe reservará algumas páginas para não ofuscar sua importância no município.
A Constituição Federal assegura o direito à livre expressão do pensamento e de manifestação (artigo 5º, incisos IV e XVI).
A manifestação, pacífica e sem armas, pode ser feita e é permitida em locais abertos ao público e independentemente de autorização.
Por conseguinte, não é necessário pedir permissão prévia ao Poder Público para se manifestar, nos termos do mandamento constitucional.
Em 13/12/1968, na ditadura militar, o marechal Arthur da Costa e Silva editou o Ato Institucional número 5 (AI-5) que, dentre outras restrições, proibia manifestações, mormente políticas.
O caso se repete. Aliás, a crueldade das ditaduras se repetem.
Em 23/01/2026, mais de 57 anos depois do ato extremo da ditadura militar, o Supremo Tribunal Federal proibiu que admiradores e apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, pacíficos e sem armas, se manifestassem em frente ao presídio onde ele está preso, em Brasília. Pior: estão sujeitos à prisão.
Só para lembrar.
Quando Lula da Silva esteve preso em Curitiba, lulopetistas e admiradores faziam manifestações e vigílias continuamente, acampavam e gritavam “Lula Livre” durante aproximados 580 dias.
Essas manifestações davam-se em frente à carceragem da Polícia Federal, inclusive protestando contra a decisão do Poder Judiciário que o mantinha lá.
Salvo engano, naquela ocasião da prisão de Lula da Silva, já existia o Supremo Tribunal Federal – ou não? – porquanto foi instituído em 1890 com o advento da República.
E não se tem notícia de que o Supremo Tribunal Federal tenha proibido nenhuma manifestação, acampamento, vigílias e gritos a favor de Lula nas imediações da Polícia Federal em Curitiba.
Em 1971, conheci Raimunda Ribeiro Coelho, em Chorrochó. Anos depois, em razão do casamento com Raimundo Bezerra do Nascimento, acrescentou Bezerra ao nome.
A família cresceu: Roseane Coelho Bezerra, Rubenilton Coelho Bezerra, Rubenilson Coelho Bezerra, Railson Coelho Bezerra e Ralciene Coelho Bezerra.
Os amigos próximos a Raimunda, aos quais me incluo, chamavam-na “Raimunda de Rosinha”.
Rosinha era uma alegre, distinta e espirituosa senhora, sempre afável com todos, muito educada, acolhedora e da mesma estrutura familiar de Raimunda. Mais do que isto: amiga sincera.
Às vezes e quase sempre assumo o papel de mequetrefe e me atrevo a buscar no passado lembranças de pessoas que conheci nos caminhos da vida e fatos que circunstanciaram o viver de nosso tempo.
Estávamos na década de 1970 e, portanto, éramos jovens. Em Chorrochó, vivíamos numa sociedade hospitaleira, pacata, sossegada, dentro dos padrões do interior. E sobretudo, civilizada.
Nossas maiores referências eram os mais velhos – exemplos de caráter e sustentação moral – e o Colégio Normal São José, esteio da educação dos jovens da época e impulso para o andar sonhador de todos nós.
Aí, nesse ambiente sadio e responsável, nasciam as amizades, que eram o bálsamo da juventude, o condizer com a simplicidade de então.
Professora bem preparada e dedicada ao seu mister, Raimunda constituiu família exemplar, educou-a, mostrou-lhe o caminho, os passos da caminhada e o seguir dos ditames da vida.
Natural que a passagem do tempo tenha dificultado o contato com Raimunda. A última notícia que tive dela – faz alguns anos – morava na Fazenda Jurema, nos domínios do município de Chorrochó.
A trilha da vida de Raimunda a manteve como sempre: uma pessoa boa e decentemente amiga.
Esses fragmentos de memória fazem parte de meu mundo de reminiscências que alguns veem como sinônimo de saudosismo.