“O único patrimônio do homem é o passado. Quando abandona o passado, o homem fica mais pobre, inclusive de sua razão.” (Jornalista Mauro Santayana)
Ainda jovem, mas já advogado e morando em São Paulo, em 1987 prestei concurso público para Juiz de Direito da Bahia. Participaram do concurso 527 candidatos.
Quase quatro décadas já se vão, por aí.
Ingênuo, beirando à infantilidade, acreditava que o Poder Judiciário era, em seu todo, formado de pessoas irrepreensíveis.
Com o tempo, a experiência me mostrou que não é bem assim.
Os trancos e barrancos da vida quase sempre nos auxiliam a enxergar, mesmo quando a escuridão tenta impedir a clarividência, o discernimento.
Numa das diversas viagens que fiz a Salvador durante o concurso, encontrei por lá José Evaldo de Menezes, político de Chorrochó, uma das pessoas mais generosas que conheci na vida.

Numa manhã, acompanhei José Evaldo ao escritório do deputado João Carlos Paulilo Bacelar, de Entre Rios, que ficava na Calçada, bairro da Cidade Baixa, em Salvador, onde ele trataria de assuntos do município de Chorrochó, o que fez valendo-se de brilhantes argumentos.
José Evaldo de Menezes tinha raciocínio ágil, bem articulado. Era impressionantemente inteligente.
José Evaldo foi vereador de Chorrochó em diversos mandatos como, por exemplo, eleito em 1972 pela ARENA com 343 votos e em 1988, eleito pelo PMDB com 233 votos.
Guardo a gratidão imorredoura. José Evaldo torceu muito por mim naquele momento de sonhos. Sua generosidade já vinha de outros tempos, em Chorrochó.
No retorno ao hotel, na Rua Chile, conversamos muito. Tínhamos seguras expectativas de que eu havia passado no concurso.
Ledo engano. Depois fiquei sabendo que fui reprovado na entrevista que aconteceu no Forum Rui Barbosa no histórico prédio do bairro Nazaré. A entrevista nada teve a ver com questões de Direito. Era uma forma sutil de eliminação.
Tratava-se de critério subjetivo, não havia o que discutir, o que contestar, o que fazer.
Lembro uma pergunta que me foi feita pela banca examinadora: Se, em caso de aprovação, eu me mudaria de São Paulo para exercer a magistratura na Bahia, o que era, no mínimo, uma obviedade ululante.
Ilógica a pergunta. Nenhum tratado de lógica, por mais alentado que fosse, seria capaz de explicá-la.
Ora, eu estava prestando o concurso. Logo, era pressuposto inafastável que me dispunha a exercer a função na Bahia, se aprovado fosse.
Como eu não tinha pistolão para intervir em meu favor, fiz papel de besta e prestei o concurso.
E não passei.
Este fiasco faz parte do meu patrimônio.
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