Curaçá: um registro sobre Maurizio Bim

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D. Helder Câmara)

Nas amizades, a confiança é atraída pelo diálogo, embora nem sempre ela tenha o condão de nascer de frequentes conversas. A confiança quase sempre surge casualmente, como se, depois de uma peregrinação, encontrasse lugar seguro para pousar.

Neste “mundo coberto de penas”, como dizia o mestre Graciliano Ramos, as amizades se desgastam facilmente e se perdem nos labirintos das incompreensões, que são muitas, amiúde.

Contudo, algumas surgem subitamente, surpreendentemente. E ficam, ainda bem que surgem e ficam.

Em Curaçá, amparo de minha aldeia Patamuté, o tempo me presenteou com amizades que perduram até hoje, algumas construídas na juventude, outras no decorrer do tempo e outras poucas já em minha ostensiva fase de chatice, quando passei a me levar muito a sério, o que não é bom, nunca foi bom, nunca será bom.

A pureza da juventude esvaiu-se-me e me tornei um sujeito esquisito, tosco, arredio, às vezes incompreensível. Passei a confiar menos nas pessoas, quiçá em razão dos tropeços, da poeira engolida nas estradas, das decepções enfrentadas ao longo da caminhada e de minha incompatibilidade de conviver com hipocrisias.

Não tenho conseguido ajoelhar-me diante da arrogância, mas sei entender os antagonismos, discernir as aparências. E nas encruzilhadas das incertezas, tentei seguir o caminho menos espinhoso, a direção possível.

Viver exige lhaneza, simplicidade, afabilidade, o que me falta a todo tempo. Mas resisto em ceder às tentações para não me tornar grosseiro, indesejável, ferino, estúpido.

Às vezes é preciso que derrubemos os anteparos para que a luz que está do outro lado desponte e traga clareza ao nosso caminhar e à necessidade de sermos humildes. A esperança sempre nos permite alcançar o outro lado da luz.

Dentre os amigos mais jovens que conquistei em Curaçá está Maurizio Bim.

Nossos contatos se estreitaram depois que ele lançou o livro História da Imprensa de Curaçá, resultado de cuidadosa pesquisa sobre a história do município, mormente relativamente à tenra imprensa local.

É muito difícil cultivar a seriedade nesta quadra do tempo. Maurizio consegue, não obstante o monturo de influências externas que nos abalroam diariamente. Encaminhou-se para a pedagogia, o jornalismo e para o ofício de escritor, áreas que domina com competência e desenvoltura.

Maurizio é filho da professora Dionária Ana Bim e recebeu da mãe – e certamente também do pai – o gosto pelas coisas sérias, a arte de dirigir o espírito para a investigação da verdade e, sobretudo, o caráter irrepreensível.

Dionária foi minha professora no Colégio Municipal Professor Ivo Braga e a tenho em alta consideração. Foi professora é modo de dizer, continua sendo. Não se esquecem as boas lições, não se esquecem os mestres, não se esquecem os bons ensinamentos.

O livro História da Imprensa de Curaçá é uma promissora iniciativa que Curaçá passou a dispor para o enriquecimento e sedimentação de sua história. Leitura agradável, enriquecedora, formidável.

Anos depois, em novembro de 2015, Maurizio fez mais uma façanha, dentre outras: lançou o livro, Barro Vermelho – memória e espaço, obra também cuidadosamente lastreada em pesquisas sobre o elegante distrito curaçaense, sua gente, suas raízes e sua cultura. Um indestrutível e perene monumento ao lugar.

O lançamento do livro aconteceu no Memorial Filemon Gonçalves Martins, marco da cultura musical e da história de Barro Vermelho. Tive vontade, mas não pude estar presente.

Todavia, além do registro da amizade, o que conta aqui é o registro de sua generosidade. Quando ele me apresentou a História da Imprensa de Curaçá fez constar na dedicatória: “É preciso que lembremos, mas também é mister que os outros saibam para que a todos seja comum”.

Pensamento de grandeza, de desprendimento, de compartilhamento do saber.

Maurizio Bim faz parte dos intelectuais que não gostam de pedestais. Aí está sua grandeza, o orgulho da humildade.

araujo-costa@uol.com.br

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Deixo de citar o crédito da foto por desconhecer a autoria, o que não invalida o respeito pelo autor.

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