O assunto é recorrente e até faz parte da cultura nacional: a preguiça de baianos e cariocas.
O jornalista mineiro Ivan Ângelo diz, em brilhante crônica: “No caso dos baianos, é mais estilo do que preguiça, é ritmo. Enquanto outros praianos descansam a metade da semana e trabalham a outra metade, os baianos vão trabalhando e descansando ao mesmo tempo”.
Como se vê, um mérito. Os baianos também sabem inventar.
Cronista e romancista, Ivan Ângelo foi buscar lá, no começo do século XX, um amparo para sustentar essa suposta preguiça. Conta que o poeta Olavo Bilac escreveu que, em 1903, diante da grande quantidade de pessoas desocupadas no Rio de Janeiro, ouviu a seguinte pergunta de um jornalista argentino: “Que faz toda essa gente, que ampara as paredes das casas com as costas?”
Parece que o argentino confundiu não ter o que fazer com preguiça.
Na condição de baiano, saio em defesa de todos nós de minha encantadora província. Não somos preguiçosos. Damos um duro danado. Talvez tenhamos uma malemolência elegante, filosófica, uma sábia forma de viver.
Grande entendedor de hábitos e costumes baianos, o cantor Dorival Caymmi vivia em constante malemolência. Honra e glória da Bahia, Caymmi ria-se desse seu estado de graça e enfeitava essa sua maneira de viver e de muitos baianos.
Até Toquinho e Vinicius de Moraes entenderam esse espírito baiano e cantaram “Tarde em Itapoã:
“Depois, na Praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de côco”.
Baiano não é preguiçoso. Sente preguiça no corpo, o que é diferente. E não cuida dessa arte de amparar paredes.
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