“Político sem mandato é como chocalho sem badalo: balança, mas não toca” (José Cavalcanti).
A sabedoria de José Cavalcanti, paraibano de São José de Piranhas, parece não se aplicar em Abaré, simpático município do submédio São Francisco, sertão da Bahia.
Pelo menos quando se trata de Delísio Oliveira da Silva, sertanejo de ideias firmes, corajoso e incapaz de recuar quando precisa revidar quaisquer acusações que lhe façam adversários políticos, imprensa, formadores de opinião, eleitores e palpiteiros em geral.
Há momentos em que Delísio chega a ser rústico, sem tornar-se deselegante.
Embora atravesse um interregno sem mandato, Delísio continua balançando o chocalho do noticiário do município e incomodando circunstantes e adversários políticos. Frio, como asa de avião, comporta-se de acordo com o vento dos acontecimentos.
Em 2018, este blog pediu uma entrevista a Delísio Oliveira da Silva.
O telefone o alcançou cedo, muito cedo, em Abaré. Do outro lado, a voz inconfundível, o atendimento prestativo, a pergunta ríspida, áspera, sem salamaleques: “Não conheço o blog. Quem vai fazer a entrevista? ”.
Feita a apresentação e aparadas as arestas de praxe, prontificou-se a conversar.
Todavia, não conversou. Político experiente, escorregou educadamente e não concedeu a entrevista. Matreiro, avaliou o momento desfavorável e dispensou este escrevinhador. Fato comum no meio jornalístico.
O blog não insistiu, tampouco Delísio demonstrou interesse na entrevista. E a coisa parou por aí.
Delísio Oliveira da Silva é maduro, faz parte da geração de 1951. É seguro de suas convicções e, mais do que isto, preparado para eventuais botes maliciosos de entrevistadores.
Parece conhecer bem as armadilhas da imprensa, talvez por estar acostumado a ser cutucado pelos meios de comunicação. Ele frequenta o noticiário policial e político, quase simultaneamente, com a mesma desenvoltura com que transita pelas estradas empoeiradas do município de Abaré.
O fato é que a liderança de Delísio é inconteste. Seu prestígio político ainda se afigura sólido e, por isto, incomoda.
Nas últimas eleições municipais, abocanhou nas urnas, salvo engano, 48,92% dos votos válidos, em favor do filho e candidato a prefeito, Delísio Oliveira da Silva Filho (Del de Delísio).
Fernando José Tolentino Teixeira, adversário e atual prefeito do município ganhou a Prefeitura com uma diferença de 231 votos. Obteve 51,08% dos votos válidos. Decerto, uma disputa difícil, tensa, buliçosa.
Decreto de prisão
Agora, Delísio está às voltas com a decretação de sua prisão temporária por trinta dias, que até a elaboração dessa matéria, ainda não tinha sido preso, nem a prisão havia sido revogada.
O édito extremo do juiz da comarca de Chorrochó é datado de 02/10/2019 e determina o recolhimento do ex-prefeito à prisão, temporariamente. Lastreia-se no Inquérito Policial 037/2008, que cuida de suposta prática de delito contra a vida ocorrido no município de Abaré.
Apesar de experiente, Delísio cometeu uma gritante ingenuidade: pensou que a lei vale para todos, o que, de resto, é o equívoco de todos os pobres mortais brasileiros. Exerceu o direito de cidadão e fez uma representação contra o promotor público de Paulo Afonso, que responde pela comarca de Chorrochó.
Em 02/09/2019 fez extensa representação contra o promotor, que foi protocolada na Procuradoria Geral de Justiça da Bahia sob número 003.0.28755/2019.
Delísio elencou um rosário de falhas que, a seu juízo, teriam sido cometidas pelo promotor de Chorrochó, no exercício da função, ou quem fez as suas vezes, dentre outras as seguintes:
Deixou de apreciar procedimento formulado em 19/04/2017, segundo o qual Delísio questionava a nomeação do procurador geral do município de Abaré;
Deixou de apreciar procedimento formulado em 10/05/2017, segundo o qual Delísio questionava a nomeação de servidores pela Prefeitura de Abaré e acusava o prefeito de nepotismo;
Deixou de apreciar procedimento formulado em 29/05/2018, segundo o qual Delísio questionava a locação de um imóvel em ruínas pela Prefeitura de Abaré;
Deixou de apreciar procedimento de 29/05/2018, segundo o qual Delísio questionava a contração da cooperativa COOPERMAIS, acusando a Prefeitura de Abaré de “obscuridade nas contratações” de pessoas;
Deixou de apreciar suposta notícia-crime formulada em 16/08/2018 pelos vereadores do município de Abaré – Francisco de Assis Jericó e Ana Paula Lima de Sá Cruz – que estariam recebendo ameaças;
Mais: o ex-prefeito Delísio alegou, na representação, que em 07/08/2019 esteve na sala do Ministério Público em Chorrochó e que o promotor “lhe faltou com o devido respeito, de forma deselegante, grosseira e antiética na presença de advogados e serventuários do Ministério Público”.
Um mês depois da representação à Procuradoria Geral de Justiça, adveio a decretação da prisão do ex-prefeito, requerida pelo mesmo promotor que o ex-prefeito Delísio representou.
Coincidência? Pode ser.
Presume-se, todavia, que o representante do Ministério Público agiu consoante suas atribuições estritamente legais. É o mínimo que a sociedade espera de suas autoridades, mesmo porque vivemos num regime democrático e sob a égide da Constituição da República.
O que não parece coincidência plausível é um crime ter acontecido em 2008 e somente, agora, 11 anos depois, o Ministério Público ter-se dado conta de que a prisão do suposto mandante faz-se necessária para esclarecer o delito.
Das duas, uma: ou surgiram fatos novos que justifiquem o pedido de prisão temporária ou a situação jurídica do ex-prefeito Delísio Oliveira da Silva não está clara.
araujo-costa@uol.com.br