O Evangelho de São Mateus narra que Jesus Cristo contava com cinco pães e dois peixes e a partir deles operou a multiplicação, saciou a fome de uma multidão às margens do Lago da Galileia e ainda sobraram doze cestos de pães.
Na Bahia, o senador Ângelo Coronel (PSD), 2º vice-líder do partido, nascido em Coração de Maria, deputado estadual por seis mandatos e ex-presidente da Assembleia Legislativa, também operou alguns milagres: multiplicou seu patrimônio em poucos anos e adquiriu uma capacidade enorme de misturar dinheiro público com negócios privados sem cometer ilegalidades.
Não se sabe se o senador Ângelo Coronel olhou para o céu e deu graças, à semelhança de Jesus Cristo, mas sabe-se que somente em quatro anos, entre 2014 e 2018, quadruplicou o patrimônio.
Em 2006, o parlamentar declarou que possuía bens no total de R$ 35,8 mil. Em 2018, declarou R$ 5,67 milhões em bens, inclusive uma mansão avaliada em R$ 4,03 milhões.
Consta que o patrimônio de Ângelo Coronel multiplicou 158 vezes em 12 anos. Dentre seus bens, há uma empresa aérea, a Jet Gold Serviços Aéreos e outra no Panamá.
Em seu escritório político, no Caminho das Árvores, em Salvador, o senador emprega 16 auxiliares, todos comissionados e no gabinete no Senado Federal esse número sobe para 23 servidores, sendo 20 comissionados. Todos pagos com os impostos que os brasileiros recolhem com sacrifício. Nos dois casos, há salários de R$ 22,9 mil.
Dados recentes indicam que Ângelo Coronel embolsou do Senado Federal R$ 206 mil, para despesas de apoio, dentre elas, combustíveis, passagens aéreas, correio, et cetera, além dos subsídios parlamentares.
Ângelo Coronel comumente viaja de Salvador a Brasília em avião particular próprio, mas abastecido com dinheiro público da quota parlamentar. Singela parceria público-privada, uma dessas imoralidades que o Poder Legislativo permite.
Aliado do governador Rui Costa (PT), o senador Ângelo Coronel tem um passado nebuloso. Quando deputado estadual, consta que gastou recursos públicos da cota parlamentar na ordem de R$ 566 mil, para pagamento a empresas de comunicação de sua família.
Nos conchavos de 2018, o governador Rui Costa (PT) deu uma rasteira em Lídice da Mata, que tinha vaga garantida no Senado Federal e lá entronou Ângelo Coronel. Político acostumado com assuntos paroquiais, Ângelo Coronel está rindo à toa, apesar desse amontoado de arranhões que carrega.
Mais: a imprensa noticiou que em 2018 ele contratou sua própria empresa, a Jet Gold Serviços Aéreos, para prestar serviços na campanha ao Senado, certamente paga com verba pública, o fundo eleitoral.
Mais ainda: “assessores de seu gabinete atuavam como funcionários de suas empresas e também comandavam organizações sociais que firmaram contratos com o poder público”, segundo noticiou a Folha de S.Paulo, matéria citada pelo Jornal do Brasil de 30/09/2019.
O senador deve ter-se explicado, justificado e provado a lisura de seu procedimento. É o mínimo que se espera de um homem público.
Mas não se tem conhecimento de que o senador Ângelo Coronel explicou o milagre da multiplicação dos pães. Melhor, da multiplicação de seus bens.
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