Chorrochó, Senhor do Bonfim e outras observações

Chorrochó, no sertão baiano, está em festa nesta segunda metade do corrente mês de janeiro.

Sendo assim, não é tempo de falar de coisas ruins como, por exemplo, gestões indolentes,  governos apáticos e políticos relapsos.

A população de Chorrochó está em êxtase, mormente os católicos. Quem católico não é também vive a ocasião com euforia, porque se irmana a todos. É ocasião de encontros, de matar saudade, de rever parentes e amigos.

Os filhos e amigos de Chorrochó abrem um parêntese, um hiato em suas rotinas e se entregam a esses dias de paz, reflexão e harmonia.

Precisamos disto, todos precisam disto.

Numa quadra da festa, é tradição da igreja orar pelos filhos ausentes que, por alguma razão, moram distantes ou não podem comparecer às festividades.

Este escrevinhador não se faz presente há anos. As razões são muitas.

E se não é tempo de falar de coisas ruins, sobra espaço para falar das coisas de Deus que, no dia-a-dia, pouco nos ocupamos com elas.

A festa de Senhor de Bonfim de Chorrochó é uma tradição religiosa muita antiga, secular. Há muitas pessoas de Chorrochó que entendem muito deste assunto.

Atrevo-me a citar alguns nomes, sem menospreciar os demais:  professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, que escreve irrepreensivelmente bem sobre Chorrochó, sua história e tradições; professora Maria Therezinha de Menezes; professora Maria Rita da Luz Menezes e o Dr. Francisco Afonso de Menezes, dentre outros.

A professora Neusa é dedicada, inteligente, culta e, sobretudo, defensora intransigente dos valores de Chorrochó. É um esteio cultural admirável.

As festividades religiosas de Senhor do Bonfim são coordenadas por D. Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, ex-integrante do clero da tradicionalíssima arquidiocese italiana de Trento.

D. Guido adotou o lema episcopal Cristo, Redentor dos homens e tem com ele sustentado a fé dos católicos da diocese de Paulo Afonso.

Grande parte do movimento da festa acontece numa praça nas imediações do sagrado templo de Senhor do Bonfim, que tem nome, mas o nome não é visto, ninguém sabe, ninguém viu.

É a Praça Prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes que, salvo melhor juízo, a Câmara Municipal aprovou lei denominando-a assim, mas o Poder Executivo não a sancionou.

O projeto teve a participação ativa do então vereador Marcos Vinicius Pereira Jericó (Ciel Jericó), que se empenhou com vistas à aprovação que, de resto, persiste, embora não visível.

Não sei os motivos dessa resistência, desconheço a razão do engavetamento da lei aprovada pela edilidade, mas como não é tempo de falar de coisas ruins, deixa pra lá.

À época, o município era administrado pela educadora Rita de Cássia Campos Souza, que deu de ombro e jogou no limbo o dever de sancionar a norma aprovada pela Câmara Municipal.

Estranho é uma educadora que, pressupõe-se, deve ser afeita às coisas da cultura, não primar pelo zelo de um assunto dessa natureza.

O fato é que Chorrochó está em festa. E fato é também que o povo está feliz, momentaneamente feliz. Estaria mais, se o município estivesse entregue em mãos mais cuidadosas. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

Lembro que na primeira missa celebrada em memória de Dorotheu Pacheco de Menezes, na igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó, eu disse essas palavras, aliás, muito mal pronunciadas, tendo em vista a emoção do momento: “Ser homem público é ser curioso com a vida, cutucar a história e conspirar para mudar o tempo”. É uma citação do falecido político cearense Armando Falcão.

Hoje o nome de Dorotheu estaria visível na praça, em respeito ao povo de Chorrochó e à memória desse homem público, se a chefia do Poder Executivo Municipal de então tivesse cumprido o seu papel neste particular, cutucado a história e conspirado para mudar o tempo. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

A administração municipal mudou de mãos e a praça continua lá, sem identificação.

Mas é tempo de paz,  tempo de reflexão, tempo de abraços.

Deus seja louvado. Senhor do Bonfim seja louvado.

araujo-costa@uol.com.br

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