
Judas Iscariotes foi um dos doze apóstolos de Jesus, mas o vendeu aos soldados romanos por 30 moedas de prata.
A história relata que Judas foi o único apóstolo de Cristo que nasceu na Judéia. Os demais nasceram na Galiléia.
Traidor, Judas deu um beijo em Jesus, para que os soldados o identificassem, prendessem no Monte das Oliveiras e o entregassem ao governador romano Pôncio Pilatos.
Ao ver Jesus condenado à crucificação, Judas se arrependeu e enforcou-se no galho de uma figueira, diz a história.
O arrependimento dos delinquentes deve ter nascido aí.
Como existe em diversas partes do Brasil, Chorrochó, sertão da Bahia, mantinha uma tradição no sábado de aleluia.
Todo sábado de aleluia fazia-se um divertido movimento folclórico e cultural sobre a figura de Judas.
Longe do município há décadas, não sei se a tradição ainda é mantida.
Francisco Arnóbio de Menezes, servidor público estadual, boêmio e espirituoso, organizava o movimento e se autointitulava o “escriba oficial” de Judas.
Arnóbio redigia o testamento do Judas, que ele mesmo lia em praça pública.
Nesse testamento, que Arnóbio redigia às escondidas e mantinha sob rigoroso sigilo, constavam fofocas, assuntos da política local e tudo o mais que tinha acontecido no município durante o ano anterior e fosse relevante para o testamento.
Se o assunto era delicado, ele não citava nomes das pessoas envolvidas, mas o noticiava, preservando cuidadosamente as fontes de informação. Não era jornalista, mas sabia o que era fonte e a respeitava.
Arnóbio era um perigo. Inteligente e irônico, bisbilhotava a vida de todos durante o ano, para inteirar-se dos temas mais significativos e colocá-los no testamento de Judas do ano seguinte.
Desempenhava um verdadeiro e cuidadoso trabalho investigativo, de modo que, ao conversar com “a vítima”, esta jamais desconfiava de que estava sendo sondada para constar no testamento de Judas.
Elegante e educado, José Calazans Bezerra (Josiel), cunhado de Arnóbio, tinha sido prefeito de Chorrochó. Simpático e querido por todos, no sábado de aleluia de 1972 Arnóbio o contemplou no testamento de Judas:
“Do amigo Josiel
Levo uma queixa magoada
Foi prefeito quatro anos
E pra nós não deixou nada
O diabo que te persiga
Nesta vida aperreada”
Lido o testamento em praça pública, Maria Mattos, irmã de Arnóbio e esposa de Josiel, ponderou:
– Arnóbio, Josiel não é mais político, por que você não o esqueceu?
– Eu esqueci, mas Judas não esqueceu, respondeu Arnóbio.
Arnóbio cuidava daquela festa folclórica com muito carinho e dedicação. Fazia questão de ser amável com todo mundo.
No testamento, ele não permitia que constassem assuntos delicados que pudessem melindrar pessoas ou famílias. Tanto que aquilo se tornava uma expectativa.
Todos queriam saber o que Judas havia deixado no testamento que, guardado em segredo, somente seria revelado no sábado de aleluia.
Uma brincadeira folclórica sadia, inofensiva e interessante.
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