Otto Alencar e o esgoto político

“Cada homem tem direito a seu caminho. Mas há duas veredas políticas: a que leva ao cofre e a que leva à luta de cada tempo” (Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, jornalista e escritor)

O senador Otto Alencar (PSD-BA), membro da CPI da Covid-19, protagonizou cenas de explícita deselegância ao questionar a médica oncologista Nise Yamaguchi, testemunha ouvida na aludida comissão.

Já demonstrando visíveis sinais de senilidade, o que não é nenhum demérito, mas a soma de janeiros, melhor, de agostos (ele nasceu no mês de agosto), Otto Alencar insistiu no sentido de que a médica lhe explicasse, didaticamente, tecnicamente, a diferença entre protozoário e vírus.

Para a CPI, que está investigando omissão e negligência do governo federal quanto ao combate à pandemia, saber da diferença entre protozoário e vírus tem tanta importância quanto ejaculação precoce.

Otto Alencar protagonizou um espetáculo pífio, imbecil, deplorável.

Adolescentes discutindo matéria de prova seriam mais competentes.

Médico, professor e católico, talvez o senador Otto tenha-se esquecido das mínimas regras de educação e civilidade, tamanhos os inoportuníssimos questionamentos.

Quiçá, também tenha se esquecido, na condição de católico, do preceito bíblico segundo o qual os humildes serão exaltados. A humildade da médica foi impressionante.

O senil senador impôs uma acachapante humilhação à médica, espetáculo que somente o diminui, porquanto sem nenhuma necessidade de fazê-lo, constrangendo-a diante das câmeras.

Otto Alencar apequenou-se, desceu ao esgoto da política.

Não é novidade. Otto Alencar não tem ideias. Nunca teve.

Em sua carreira política, pulou de partido em partido, sem nenhum pudor. Esgueirou-se do Partido Democrático Social (PDS), sustentáculo da ditadura militar, passando por PTB, PL, PFL, DEM, PP e hoje se encostou ao PSD de Gilberto Kassab, até aparecer outro que lhe estale os dedos.

De filhote da ditadura passou a aliado da esquerda petista. A rigor, sua vida partidária meneia de acordo com a conveniência de momento.   

Otto Alencar beberou nos cofres da Bahia e o faz até hoje. É contumaz sugador das benesses do poder.

Em 2002, assumiu a governadoria, em razão da saída do titular César Borges, que renunciou para disputar o Senado, de acordo com a legislação. Exerceu o cargo de governador da Bahia de abril a dezembro de 2002.

Daí, nunca mais largou a rapadura. Foi secretário de Estado duas vezes e até arrumou uma boca de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Otto Alencar também.

Elegeu-se vice de Jaques Wagner (PT) em 2010 e, ato contínuo, assumiu a Secretaria Estadual de Infraestrutura nela permanecendo até 2014.

Otto Alencar não representa bem a Bahia e isto ficou bem claro na sessão da CPI da Covid-19 de 01/06/2021.

Elevar-se arrogantemente acima dos ombros do semelhante não é mérito, mas pequenez de caráter.

Falta-lhe a elegância, a sensatez e a estrutura que se espera de um senador da República sério, impoluto e, sobretudo, educado em relação às mulheres, o que ele não foi.

Otto Alencar espezinhou a mulher, a médica, a profissional, humilhando-a em público.

A garbosa Bahia de Ruy Barbosa, que já foi tão bem representada no Senado da República por Heitor Dias, Otávio Mangabeira, Luís Viana Filho, Josaphá Marinho, Juracy Magalhães, Landulfo Alves, Pinto Aleixo, Aloísio de Carvalho Filho e tantos outros, hoje se vê tristemente representada por Otto Alencar.

Contudo, as urnas erram, mas a democracia ainda é o melhor dos regimes políticos.

araujo-costa@uol.com.br

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