“O essencial não tem nome nem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um”. (Lya Lufty, 1938-2021, Perdas & Ganhos)
O jornalista Joel Silveira (1918-2007), considerado a víbora da reportagem no Brasil, contava que tinha um primo em Sergipe, lá para as bandas de Lagarto, já beirando os oitenta anos, que lhe disse o seguinte: “a gente sente que está envelhecendo quanto começa a gostar mais de carne de sol do que de mulher”.
Comentei isto com um amigo em São Paulo. Ele teve uma crise de riso e tosse, ficou vermelho de tanto rir e não parava mais de tossir.
Já preocupado, preparava-me para chamar socorro médico, quando ele se recompôs e explicou.
Certa vez, a esposa viajou para a Europa e, numa sexta-feira, ele recebeu dois convites simultâneos: de um amigo de longa data, para jantarem num restaurante nordestino, onde não faltaria a carne de sol, que ele tanto gosta; e outro convite, de uma amiga, também de longa data, para saírem à noite, despretensiosamente, colocar o papo em dia, lembrar a mocidade, tempos idos e vividos e coisa e tal.
Não teve dúvida. Sem titubear, dispensou a amiga e preferiu sair com o amigo. Arrematou, um tanto sério: “naqueles dias eu já estava ficando velho e não me dava conta”.
O escritor e jornalista Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória e neto do lendário e insigne Petronilo de Alcântara Reis (coronel Petro), tinha outra teoria mais lógica: “quando falamos muito do passado, é sinal que estamos ficando velho”.
Prefiro a teoria de Raimundo Reis, embora a do sergipano seja inédita, cômica, diferente.
Contudo, a verdade é que a teoria do sergipano não deixa de ser curiosa.
Vai longe no tempo. Havia um bucólico restaurante na Rua Maria Antonia, nas proximidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que servia comidas típicas do Nordeste.
Um dia passei vexame lá. Para toda mesa que olhava via senhores circunspectos, cabelos grisalhos, geralmente desacompanhados, comendo carne de sol.
Lembrei da teoria do sergipano e, a partir daí, não consegui mais ficar sério naquele ambiente. Passei a ser notado, não propriamente em razão de minha presença em si, mas em razão de meu jeito inconveniente.
Assim é. Algumas baboseiras que a gente ouve às vezes se firmam mais na memória do que as coisas importantes. Mas o bom da vida também é não levar tudo muito a sério.
Ou, como dizia Lya Lufty: “O essencial não tem nome nem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um”.
Tem sentido.
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