Lula da Silva e a leveza do Vaticano

Papa Francisco e Lula da Silva/Crédito Ricardo Stuckert, da equipe de Lula

Na década de 1980, quando o Partido dos Trabalhadores (PT) ainda estava nos cueiros e engatinhava, uma animada turma costumava se reunir no convento dos frades dominicanos, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Essa turma compunha-se de alguns frequentadores, à época não tanto famosos: Lula, que ainda era oficialmente somente Luiz Inácio; Djalma Bom, que foi deputado e vice-prefeito de São Bernardo do Campo; Jacó Bittar, amigo de Lula desde sempre, pai do dono formal do famoso sítio de Atibaia; Devanir Ribeiro, que tinha sido diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na gestão de Lula; o combativo advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh; Paulo de Tarso Vannuchi, mais tarde ministro de Lula e o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, frei Betto.

Frei Betto coordenava o grupo e cuidava da comida, experiência adquirida na Ordem dos Dominicanos.

Propósito das reuniões: fazer autocríticas, ouvir críticas dos companheiros e confessar erros e equívocos dos presentes. Uma espécie de confessionário especial e coletivo, embora restrito à turma.

O grupo recebeu o nome de “Grupo do Mé”, porque era regado a conhaque e outras bebidas estimulantes do ego, que permitiam a descontração e a expiação dos defeitos de cada um dos participantes, a submissão às críticas, a penitência, a reflexão.

Lula da Silva aprendeu muito nesse grupo. Mais pela autocrítica – que hoje não gosta de fazer – e menos em razão do “mé”, que ele já conhecia de cátedra. As circunstâncias difíceis da ditadura militar exigiam as amizades como bálsamo para o enfrentamento das dificuldades.

Os tempos mais difíceis são aqueles de atrocidades e incompreensão.

Esta lembrança vem a propósito de mais uma visita que Lula da Silva faz ao Papa Francisco, no Vaticano, neste mês de junho.

Surgiram algumas críticas destrambelhadas sobre a visita, como se Lula da Silva fosse uma figura de somenos. Não é.

A direita, assim como a esquerda, exagera sempre. Aliás, esquerda e direita no Brasil perderam o juízo e com ele a sensatez.

Lula da Silva é líder, independentemente dos erros que eventualmente tenha cometido ao longo do caminho político que vem trilhando. E quanto a erros parece não haver dúvida que cometeu.

A visita de Lula da Silva ao Papa, também tem o condão de reflexão e pedido de compreensão e de solidariedade ao chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. A leveza do Vaticano deve lhe fazer bem. Faz bem a todo mundo.

Não há o que criticar sobre essa visita de Lula ao Papa, que é também chefe de Estado do Vaticano e tem o dever funcional de relacionar-se com líderes mundiais sejam eles políticos ou não.

As misérias e fraquezas de Lula da Silva não devem ser obstáculos à civilidade.

No mais, a Igreja Católica é mãe e mestra, mater et magistra, como dizem os latinistas.

Nessa visita ao Vaticano, Lula deve ter-se lembrado das reuniões do “Grupo do Mé”, que lhe fez refletir muito sobre a vida.

Certamente voltará mais leve do Vaticano.

araujo-costa@uol.com.

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