“Político é o indivíduo que pensa uma coisa, diz outra e faz o contrário” (José Cavalcanti, 1918-1995, São José de Piranhas-Paraíba).

Em 02/09/2013, quando este blog ainda se agasalhava no UOL, publiquei um artigo intitulado O alcaide-mor de Abaré sobre Delísio Oliveira, então secretário municipal do município de Abaré.
Já se vão, por aí, aproximados 13 anos, de modo que o artigo, agora, nada mais é do que um fragmento de arquivo, sem pouca ou nenhuma importância.
Não sei se Delísio Oliveira chegou a ler o artigo. Se leu, não gostou. E se não leu, também não gostou. Ele nunca deu importância para este escrevinhador e faz muito bem.
Ei-lo, portanto, com pouquíssimos traços de edição, que não desfiguram nem alteram o texto original.
O alcaide-mor de Abaré
Abaré, para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – é um município do sertão da Bahia, nos confins do semiárido nordestino.
A sede, aconchegante e bela, debruçada à margem direita do São Francisco recebe, diuturnamente, as bênçãos do padroeiro Santo Antonio, quiçá o mais insuspeito defensor dos destinos do seu povo.
E para completar o cenário, a cidade ainda abriga a casa onde viveu o músico e poeta José Amâncio Filho (Meu Mano), honra e glória de Abaré e as riquezas históricas e religiosas de Pambu que sustentam a fé e as tradições de nossas populações sertanejas.
Lá, como em todo o Nordeste, ainda proliferam chefes políticos fortes, centralizadores, idiossincráticos.
Até parece que o município herdou o estilo de Garcia D’Ávila, colono e latifundiário, criador de gado trazido de Cabo Verde e amigo de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, que lhe entregou enormes sesmarias, todas na região do São Francisco, inclusive em território de Abaré.
A história do alcaide-mor de Abaré começa com Josino Soares da Silva, senhor modesto, inteligente e educado, que muito ajudou o povoado de Icozeira, sua raiz e seu reduto eleitoral e sentimental.
Conheci Josino, sempre altivo e atento às coisas de sua terra e reivindicações da população.
Josino era agricultor, foi vereador por diversos mandatos – o primeiro aos 27 anos – e prefeito de Abaré (1983-1988).

Então, a partir daí, surgiu outra liderança: o filho de Josino, Delísio Oliveira da Silva, que captou muito bem os ensinamentos do pai, entrou na política e se tornou líder respeitável.
O líder Delísio foi prefeito, andou por aí assumindo cargo no Estado da Bahia e até prestou assessoria à Prefeitura de Chorrochó, também no sertão, na administração do prefeito José Juvenal de Araújo.
Outra vez foi guindado à Prefeitura de Abaré e, hoje, dizem as más línguas – e as boas também – que comanda o município, embora tenha um prefeito, Benedito Pedro da Cruz, que o povo colocou lá para governar.
Mas a cruz do Benedito deve ser muito pesada e ele pediu para Delísio ajudar a carregá-la. E Delísio está lá, secretariando-o, governando e carregando a cruz, que não deve ser tão pesada assim.
O certo é que a classe política vem passando por um longo período de declínio do seu prestígio, maculada por inúmeros casos de corrupção e acusada de outros tais, mesmo sem provas.
Mas o fato é que o desgaste é grande e generalizado, faz parte do imaginário popular e quem era exceção passou também a ser regra, o que é muito ruim para o soerguimento moral dos políticos.
Em Abaré não é diferente com seus políticos, muitos com reconhecidas contribuições prestadas à causa do povo. E o senhor Delísio Oliveira da Silva, líder de sua gente, enfrentou turbulências consideráveis, mormente em seu último mandato, mas mesmo assim, dizem, continua mandando na Prefeitura.
Nestes tempos de jornalismo investigativo, surgem assuntos demais, acusações demais, que até fica difícil filtrá-las e separar o joio do trigo. Nunca se precisou de tanta cautela como agora.
E hoje os políticos devem desconfiar até de mendingo pedindo esmola e de andarilho zanzando nas calçadas. Pode ser um jornalista disfarçado, escarafunchando cestas de lixo em busca de deslizes e provas. Microfones e microcâmaras são inimigos perigosos para políticos relapsos.
Em data recente, uma víbora do jornalismo investigativo esteve no município de Abaré. Ainda não está muito claro o que procurava.
Certamente não era o afagar da brisa do entardecer do São Francisco, nem o cantar dos pássaros dos povoados e fazendas. Mas pelo menos é assunto para muito tempo, até para as próximas campanhas eleitorais.
Toda cidade do Nordeste tem seu alcaide-mor, mesmo sem mandato. É o caso de Abaré, onde o “prefeito” Delísio dá as cartas e faz as regras do jogo.
Post scriptum:
Como disse no começo, este artigo foi publicado em 02/09/2013. Portanto, versa sobre fatos e realidade da época. Hoje a realidade de Abaré é completamente diferente, inclusive com o surgimento de novas e respeitáveis lideranças políticas.
araujo-costa@uol.com.br