O curaçaense Arnaldo da Silva Aquino, que perdeu seu precioso tempo lendo um artigo deste blog intitulado Eleições de 2026: Lula da Silva e o Nordeste, teceu comentário um tanto ácido sobre aquele artigo.
O leitor faz-me lembrar o seminarista que, seguindo a sugestão do barbeiro que fazia barba e cabelo dos padres, entrou na adega do Seminário e furtou vinho de missa.
O diretor fez uma reunião com os alunos do Seminário e intimou o culpado a se denunciar. Como ninguém se manifestou, mandou todos se confessarem para pagar tão horrendo pecado.
O seminarista foi se confessar, contou a façanha ao padre confessor e lhe pediu perdão.
Mas, independentemente da confissão, o diretor do seminário acabou descobrindo o malfeitor.
O seminarista nunca mais confiou em padres. Ficou décadas acreditando que o padre contou o segredo de sua confissão ao diretor até que um dia, décadas depois, um amigo lhe fez o convite:
– “Vamos à missa”?
– “Missa, eu? Deus me livre de missa! ”
E contou, em detalhes, toda a história do inofensivo furto do vinho acontecido no Seminário, em sua juventude, décadas atrás.
– E você ficou todo esse tempo acreditando que foi o padre que contou? Foi o barbeiro, rapaz!
– Como eu não tinha pensado nisto? – Acordou o ex-seminarista. E passou a acreditar em padres.
Arnaldo da Silva Aquino me pespega alguns defeitos que, modéstia à parte, não os tenho, embora tenha muitos outros, incontáveis outros.
Ele disse que este atabalhoado escrevinhador deve “ter pessoas familiares seus que desfrutam da educação com curso superior aqui na sua região, mas não tem nem uma faculdade trazida por nem um outro a não ser por esse cidadão nordestino que você e outros com sua maneira de pensar acham que foi o pior presidente de todos os tempos”.
Disse ainda: “Mas quando vem achar que sou BURRO, pelo fato de votar em quem ajudou o Nordeste, sinceramente me entristece, pois conheço o antes e o depois dessa situação, por isso posso lhe afirmar meu amigo, aqui tá tudo muito melhor depois que a esquerda que você não gosta chegou. ”
E, civilizadamente, mandou-me um abraço, que recebo com muito prazer e pede “desculpas se não gostou dessas informações, mas se você quiser tenho muito mais pra lhe dar”, acrescentou.
Gostei das informações, sim, caro e conspícuo Arnaldo. Não se acanhe em mandar as que tiver. As receberei com consideração, respeito e entusiasmo.
Gosto muito de aprender. Elas certamente vão ofuscar minha ignorância, avivar a humildade e aparar as arestas de meus pensamentos.
Contudo, pedindo a devida vênia, permita-me fazer alguns reparos ao seu rico comentário (Grupo Patamuté/WhatsApp, sexta-feira, 13/03/2026).
Nunca disse, em nenhum lugar, que Lula da Silva é o “pior presidente de todos os tempos”. Aliás, esse entendimento não faz parte de meu sentir, de modo que não sou adepto da teoria de tapar o sol com a peneira e negar a contribuição de Lula da Silva no que concerne à criação de escolas técnicas e universidades.
Todo e qualquer presidente, de direita, de esquerda ou de qualquer espectro político, tem seus méritos, fincam suas obras, deixam seu legado. E Lula não é diferente. Todos têm admiradores arraigados, o que é saudável e faz parte da natureza humana.
Ademais, fico muitíssimo contente em saber que “tá tudo muito melhor depois que a esquerda que você não gosta chegou”, segundo sua opinião.
Eu gosto da esquerda, Arnaldo.
Nunca disse o contrário. Tenho muitos amigos na esquerda, inclusive fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), que travam comigo acalorados, ricos e saudáveis debates que, em nada abalam a amizade.
Há 46 anos, desde a fundação do PT, convivo com amigos petistas. E gosto deles. Não costumo misturar alhos com bugalhos.
Sou democrata e, como tal, aprendi desde jovem a conviver com os contrários, absorver os antagonismos e respeitar a opinião de quem pensa diferente.
Nem sempre as ideias se dissipam como cinzas ao vento. Ás vezes elas são convergentes.
A liberdade de pensamento e de expressão não pressupõe fronteiras para nossas palavras, observados os limites necessários.
Nunca, em nenhum momento, entendi que quem pensa diferente é “burro”, mormente quando se trata do direito de escolher e votar.
A soberania do voto popular sabe acolher as diferenças, respeitar as escolhas.
O direito de discordar faz parte do viver democrático. E discordar sem ofender, sem melindrar. “Toda unanimidade é burra” dizia o jornalista e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980).
No mais, espero que o distinto e esclarecido Arnaldo, que passei a admirá-lo, não espere o tempo que o seminarista passou para descobrir que não sou esse monstro contrário à esquerda como ele entende e pintou em seu comentário.
Modéstia à parte, até me acho gente boa.
Post scriptum:
A história do seminarista que ilustra esse artigo não é minha. É do escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Está na crônica “Vinho de Missa” (A mulher do vizinho, Editora Círculo do Livro).
araujo-costa@uol.com.br