A pequenez dos governadores do Nordeste

“Uma grande tarefa não se realiza com homens pequenos” (Stuart Mill, filósofo britânico, 1806-1873)

Num ato de truculência, deselegância e incivilidade, os governadores dos nove estados do Nordeste se recusaram a comparecer à posse do presidente da República Jair Bolsonaro.

A região Nordeste sustenta o petismo de Lula da Silva, mas os governadores de lá não sabem que foram eleitos para governar para suas respectivas populações e não para Lula da Silva ou Jair Bolsonaro.

Pequenos e grosseiros, os governadores nordestinos confundem oposição com falta de educação. Dizem que fazem parte da resistência.

Que resistência? Discordar da vontade soberana da maioria dos brasileiros é resistência ou pequenez política?

Isto tem outro nome: imbecilidade.

Quem disputa eleições e não aceita a vontade das urnas é demasiadamente contraditório. Mais do que isto, é despreparado para exercer o honroso cargo de governador de estado.

Os governadores nordestinos foram eleitos pela maioria, legitimamente, assim como foi o presidente Jair Bolsonaro. Qual a diferença disto no que tange ao resultado democrático?

A relação entre o presidente da Republica, seja Bolsonaro ou qualquer outro e os governadores dos estados, deve ser estritamente institucional, independentemente dos partidos políticos a que pertencem.

Entretanto, os governadores do Nordeste descambaram para a promiscuidade político-partidária. São míopes, obscuros, despreparados para exercerem grandes tarefas. Estão longe das lições dos estadistas.

Qualquer estudante secundarista sabe que é soberana a escolha da maioria, através do voto. Mas os governadores do Nordeste acham que a maioria somente vale quando a favor deles.

Os governadores nordestinos demonstraram pequenez, falta de grandeza política. Não conseguem descer do palanque, tampouco abrir mão da hipocrisia eleitoral.

Demagogos, os governadores elevam seus interesses políticos provincianos acima das necessidades da população. A população requer o amparo e atenção do poder público pouco importa se o governador é do partido A, B ou C.

O Estado do Ceará está passando por grave crise na segurança pública. Espremido entre a incompetência e o dever de governar, o governador Camilo Santana (PT) pediu socorro ao governo federal, que mandou pra lá, imediatamente, agentes da Força Nacional de Segurança, com o intuito de combaterem a ação atrevida e cruel dos criminosos.

O Ceará está à mercê do tráfico de drogas. Mandam nos presídios de lá os chefes de quadrilhas e não o governo do estado, que é fraco e politiqueiro.

Ora, mas o governador Camilo Santana é do PT. Cadê a eficiência que o partido tanto alega?

Imaginemos, por hipótese, que o governo federal se negasse a socorrer o governador Camilo Santana, simplesmente porque é do PT. Seria o caos institucional, o desgoverno, o desamparo à população cearense.

Todavia, nem Camilo Santana e nem os demais despreparados governadores do Nordeste sabem fazer a distinção entre alhos e bugalhos e por isto não foram à posse do presidente da República. Apequenaram-se politicamente.

Stuart Mill sempre atualíssimo: “Uma grande tarefa não se realiza com homens pequenos”.

Os governadores do Nordeste são pequenos demais.

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: Antonio Pires de Menezes.

Antonio Pires de Menezes/Arquivo pessoal Dr. Walter Balduino de Abreu Pires

Valendo-me de artigos, crônicas e outros recursos amparados pelo exercício do jornalismo, publiquei seguidamente, há algum tempo, uma série de observações com o título geral de Memórias dispersas de Chorrochó.

Todavia, vi-me desamparado em razão da ausência de registros históricos sobre figuras que fizeram parte da história do município e, por uma questão de prudência, entendi melhor abster-me de continuar com a publicação daquelas anotações que, inobstante, guardo em meus arquivos, embora precariamente.

A memória já esburacada pela passagem do tempo, também não me aconselha a aventurar-me sobre fatos históricos. Evito, assim, o cometimento de erros, omissões, distorções ou equívocos quanto a datas, nomes, origens e pessoas.

Cuidar do passado e tradições é uma tarefa ingente para cautelosos historiadores. Eu não sou e nem tenho pretensão para tanto. Melhor obedecer a minhas limitações. Elas são muitas e podem comprometer a higidez da história.

Entrementes, algumas pessoas de Chorrochó vêm se animando em cutucar a história. Isto é alvissareiro. Os exemplos mais recentes são os livros História de Chorrochó, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e do Dr. Francisco Afonso de Menezes e Memorial Cordeiro de Menezes, também da lavra do Dr. Francisco Afonso de Menezes.

Em se tratando de dados históricos regionais, uma fonte respeitável e obrigatória é a clássica Fazenda Panela D’Água, de autoria do abalizado intelectual Marlindo Pires Leite, de Belém do São Francisco. Trabalho alentado, cuidadoso, detalhado, admirável.

Certamente há outras iniciativas, outras ideias, outras intenções. Mas limito-me a citar apenas essas, considerando minha ignorância relativamente às demais.

Não obstante o interregno, trago à lembrança Antonio Pires de Menezes (Dodô), elegante político de Várzea da Ema, que foi prefeito de Chorrochó no período de 31/01/1971 a 31/01/1973, eleito pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

Estávamos em tempo de bipartidarismo – ARENA e MDB – únicos partidos políticos legalmente permitidos à época pelos governos militares oriundos do movimento de 1964, partidos esses que representavam situação e oposição, respectivamente.

Antonio Pires de Menezes havia exercido o mandato de vereador em diversas legislaturas e representava Várzea da Ema, com reconhecido espírito público e grandeza de ânimo.

Salvo engano, tornou-se vereador pela primeira vez na condição de integrante da Câmara Municipal eleita na esteira da emancipação político-administrativa do município. Compôs a primeira legislatura.

Por conseguinte, Antonio Pires de Menezes fez parte da primeira composição da Câmara Municipal de Chorrochó, assim como Onofre José Possidônio, Emiliano Soares Fonseca, Maria Joselita de Menezes, Ercilina Soares de Almeida, Eliseu Bispo Damasceno,  Walter Augusto Jones e José Campos de Menezes.

Aliado ao líder Dorotheu Pacheco de Menezes, que lhe garantiu a eleição de prefeito, o mandato de dois anos (1971-1973) não lhe permitiu realizar grandes feitos. É certo, todavia, que construiu o Açougue Público Municipal e uma barragem em Várzea da Ema.

Dodô, como era conhecido, se casou com D. Francisca Abreu com quem teve os filhos Rita de Cássia Abreu Pires e Walter Balduino de Abreu Pires. Este exerceu, no governo de Waldir Pires, salvo engano, o cargo de procurador do Centro de Desenvolvimento Comercial e Industrial, órgão vinculado à Secretaria da Indústria, Comércio e Turismo da Bahia.

Antonio Pires de Menezes foi o quinto prefeito do município de Chorrochó. Sucedeu-o na administração do município Pascoal Almeida Lima, de Barra do Tarrachil. Entretanto, sua atuação política estendeu-se durante décadas. Em consequência e por óbvio, também ajudou a construir a história chorrochoense.

A história de Chorrochó está sendo recomposta pela iniciativa de pessoas dedicadas, a exemplo da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e o Dr. Francisco Afonso de Menezes, com o auxílio intelectual (depoimentos e informações) de outros membros da família Menezes, de Chorrochó.

Em tempo:

Esta matéria será editada em breve, para corrigir e acrescentar algumas informações, tendo em vista esclarecimentos históricos que me foram prestados pelos Doutores Walter Balduino de Abreu Pires (filho de Dodô) e Francisco Afonso de Menezes, abalizados conhecedores da história e da vida de Antonio Pires de Menezes.   

araujo-costa@uol.com.br

 

A oposição de Chorrochó está cambaleando

“Não se constrói sem aglutinar e não se muda sem dividir. Para saber quando aglutinar e quando dividir, não basta ter senso de oportunidade. É preciso ter visão” (Roberto Mangabeira Unger).

Político habilidoso, o que não chega a ser nenhuma novidade, o prefeito de Chorrochó Humberto Gomes Ramos (PP) acaba de neutralizar, sorrateiramente, o que restava de oposição em Chorrochó.

A composição da Mesa Diretora da Câmara Municipal para o biênio que se iniciou em 01/01/2019, tendo como presidente o vereador Noélio Alves, formou-se majoritariamente com membros da suposta oposição ao prefeito – e somente suposta – mas é tão somente uma questão de formação numérica, não de ideário. Nada mais do que isto.

Até aí, nenhuma novidade. Composições políticas, mesmo estranhas, fazem parte da essência do Poder Legislativo em qualquer esfera e em qualquer lugar. É da natureza política dos parlamentos.

Todavia, em Chorrochó, tem um quê a mais. O prefeito sempre manejou a Câmara Municipal como quis, o que não chega a ser nenhum demérito para Suas Excelências os nobilíssimos vereadores.

O resultado da eleição na Câmara de Chorrochó, embora pareça crédito atribuído ao vice prefeito Dilan Oliveira (PC do B), assegura ao prefeito Humberto a garantia de que ele continuará dando as cartas no Legislativo Municipal, por uma razão muito simples: os votos da base de apoio ao prefeito na Câmara, em favor da nova Mesa Diretora, mantêm o grupo do vice-prefeito ao lado do alcaide e, com ele, arrastaram junto a pretensa oposição.

Aliás, oposição em Chorrochó é como alma penada, todo mundo diz que existe mas ninguém vê.

As chamadas lideranças de oposição em Chorrochó escafederam-se, amedrontaram-se, encolheram-se. Há até o caso de uma vereadora que oscila de um lado para o outro e não se sabe exatamente se já definiu onde fica.

De qualquer forma, hoje consta uma oposição superficial na Câmara Municipal, o que faz presumir, ilusoriamente, que a oposição está crescendo. O que está crescendo mesmo é a liderança do prefeito Humberto. A oposição continua cambaleando.

A exceção fica por conta do ilustre vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio), que se acostumou a desempenhar de forma solitária o papel de oposicionista, mas vem se fragilizando em razão da ausência de pessoas que comunguem com ele dos mesmos princípios que defende. Há – parece – uma dificuldade de aglutinação. Mas ele tentou.

Beto de Arnóbio é o clássico exemplo de andorinha que só não faz verão.

Numa primeira análise, dá a impressão que a nova composição da Mesa da Câmara de Chorrochó ficou com a oposição. Não é bem assim. O que vale, neste caso, é o caminho percorrido para a oficialização do resultado: os votos da base do prefeito, que ele arquitetou muito bem, embora tenha parecido de improviso.

O fato é que há uma simbiose política entre o prefeito e seu vice Dilan Oliveira. Dilan  é um bom rapaz e vem tentando levantar vôo solo, mas os ventos oriundos da força política de Humberto o desviam de rota ou, pelo menos, direcionam para o mesmo destino.

Todavia, é inegável o esforço do prefeito e seu vice no sentido de demonstrarem a união política de ambos.

Não há porque negar que os vices crescem somente nas adversidades enfrentadas pelos titulares. E, no caso de Chorrochó, elas têm passado longe das pretensões do vice prefeito.

Resumindo, a frágil oposição de Chorrochó está cambaleando. Sempre esteve.

Tendo em vista a liderança política do prefeito Humberto, a oposição parece que adotou a máxima segundo a qual “em terra de sapo, de cócoras com ele”. E aderiu alegremente aos encantos do prefeito.

Para finalizar, registro minha admiração pelo vereador Pascoal Almeida Lima Tercius (Tércio de Fafá), ex-presidente da Câmara Municipal de Chorrochó, competente e sábio político da nova geração. Este rapaz tem futuro. A história dirá.

araujo-costa@uol.com.br

Prefeito de Curaçá faz balanço otimista

“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem” (Santo Agostinho).

Em recente entrevista concedida à Radio Boa Vista FM, o prefeito Pedro Oliveira, de Curaçá, eleito por uma coligação de onze partidos, tendo à frente o PSC (Partido Social Cristão), fez uma retrospectiva de sua gestão à frente do município.

A entrevista pecou num ponto: a insistência do prefeito em comparar sua gestão com as anteriores, mormente com a de Carlos Luiz Brandão Leite, embora não o tenha citado e, a partir daí, enumerar os feitos da atual administração municipal.

Essa estratégia dá a impressão de que o prefeito já está se preocupando com o próximo pleito e atapetando o caminho, o que não é bom e pode arranhar suas boas intenções com vistas ao enfrentamento dos atuais problemas do município.

Depreende-se da entrevista que, em Curaçá, nada funcionou antes da atual gestão, embora o prefeito tenha razoavelmente demonstrado os feitos de sua administração e apontado os erros das anteriores.

A prioridade do gestor público deve ser o cumprimento das atribuições que o mandato lhe outorgou. Sempre. O resto é consequência, inclusive a avaliação dos munícipes e a eventual recondução ao cargo através das urnas.

Não sou ingênuo a ponto de acreditar que a administração de Carlinhos Brandão cometeu todos os pecados de Curaçá, tampouco minha ingenuidade permite acreditar que a gestão do prefeito Pedro Oliveira esteja indo tão irrepreensivelmente bem, como apregoam alguns de seus correligionários e ele próprio, embora com mais prudência e moderação.

Dentre os erros de Carlinhos Brandão – e foram muitos – cito apenas dois, para, de certa forma, entender o esforço do prefeito Pedro Oliveira em justificar o que está sendo possível fazer em sua gestão:

  1. a alegada apropriação ilegal de recursos da Caixa Econômica Federal referente às parcelas de empréstimos consignados concedidos aos servidores do município, na ordem de aproximados R$ 2 milhões;
  2. a rejeição das contas de 2016, tendo em vista que o prefeito assumiu obrigações naquele ano, sem condições de cumpri-las integralmente no próprio exercício ou tenha deixado recursos disponíveis para saldá-las no exercício seguinte.

Estas práticas são contrárias à lei. Todo gestor público tem obrigação de conhecer essa regra. É norma elementar e, se não cumprida, certamente produzirá reflexos nos exercícios subsequentes.

Na entrevista, o prefeito citou a reforma do Hospital Municipal, a aquisição de equipamentos novos, contratação de profissionais (psicólogo, pediatra, nutricionista, urologista, etc), além de “médicos de suporte” nos finais de tarde. Informa investimento na unidade hospitalar da ordem de R$ 796 mil.

Os chamados “médicos de suporte”, nos finais de tarde, autoriza a presumir certa provisoriedade, vez que o hospital deve disponibilizar médicos em todos os períodos para atenderem aos que procuram.

O prefeito Pedro Oliveira discorreu sobre uma unidade móvel odontológica já à disposição da população, atendimento médico periódico nos povoados e distritos, viabilização de diversas especialidades médicas, fornecimento de próteses dentárias e, ainda na área da saúde, o fornecimento de refeições aos ocupantes da casa de apoio em Salvador.

No que tange à educação, que o prefeito diz ter encontrado “de pernas para o ar”, é sabido que Curaçá sempre foi relapso nesse particular. Trata-se de uma área crítica, abandonada, negligenciada.

E daí, questiona-se: como chegar a esse ponto, se há leis que definem o percentual mínimo que se deve empregar na educação?

O prefeito Pedro Oliveira citou casos alarmantes, tais como: alunos estudando em mercado há oito anos, em razão de falta de salas de aula, obras inacabadas, apesar de recursos destinados, a exemplo de uma escola em Mundo Novo, equipamentos quebrados, falta de respeito com os recursos públicos e desfiou um rosário de descasos das administrações anteriores.

Todavia, o prefeito também falou de coisas alvissareiras. Disse que está com os salários dos servidores em dia, “como manda a lei”, anunciou o fornecimento de fardamento e material escolar a todos os alunos da rede municipal, a expectativa de aquisição de notebook para os professores, finalização das obras do estádio municipal, reconstrução da referida escola de Mundo Novo e a utilização adequada dos recursos dos precatórios.

Entretanto, o prefeito reconheceu outro problema difícil de resolver: a recuperação e manutenção das estradas do município, debitando o estado de precariedade às chuvas e falta de recursos.

Sobre a recente contribuição de iluminação pública (CIP), criada por lei, o prefeito esclareceu que essa contribuição somente é devida por moradores das zonas urbanas, de sorte que, eventuais cobranças de moradores das zonas rurais não procedem, e devem ser reclamadas diretamente na COELBA.

No mais, o balanço do prefeito Pedro Oliveira enveredou pelo otimismo, talvez um pouco exagerado.

Informações que este escrevinhador recebe continuamente dão conta de que Curaçá não vai tão bem assim, até pela escassez de recursos. Mas o prefeito demonstra disposição de melhorá-lo.

O prefeito Pedro Oliveira é inteligente, articulado, parece conhecer bem o seu papel.

Mas ele precisa atentar para o ensinamento de Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”.

Há correligionários do prefeito exagerando demais nos elogios.

araujo-costa@uol.com.br

João de Deus, ministros do Supremo e celebridades

Para entender. Ou não entender.

João de Deus.

É sabido que João de Deus, o médium goiano de Abadiânia, não se vê fazendo as cirurgias espirituais. Ele mesmo já confessou publicamente que só cai em si quando termina o procedimento.

Se for assim, é razoável uma dúvida: ele teria ou não consciência de que abusava sexualmente de algumas de suas pacientes, conforme elas alegam? Seriam coisas dos espíritos?

As notícias dizem que, até hoje, pelo menos 600 mulheres já denunciaram o médium ao Ministério Público por abuso sexual. O homem é uma sumidade sexual. Ou os espíritos?

A imprensa noticiou que uma dessas mulheres alegou que foi abusada diversas vezes por João de Deus. Por que ela retornou ao médium outras vezes e não o denunciou logo após o primeiro abuso? Seriam coisas dos espíritos?

O silêncio das celebridades.

As celebridades, feministas de plantão e afins sumiram, escafederam-se, evaporaram-se.

O ator José Mayer foi acusado de assédio por uma funcionária da TV Globo e, ato contínuo, algumas artistas da emissora saíram apressadamente em defesa da mulher supostamente assediada e até cunharam uma frase: “Mexeu com uma, mexeu com todas”.

Uma demonstração louvável de solidariedade dessas atrizes, embora ávidas por holofotes.

Essas globais sequer esperaram a apuração dos fatos para jogar pedras no ator. Antecipadamente o fizeram. Conspurcaram sua reputação. E aqui não discuto o mérito, se o ator estava ou não errado em sua conduta.

José Mayer, João de Deus ou qualquer outro que cometer tais atos deve responder por eles.

Cadê essas atrizes e defensoras dos bons costumes e da moralidade que não se levantaram, até agora, contra o médium João de Deus? Seriam coisas dos espíritos?

João de Deus mexeu com 600 mulheres até agora, segundo o Ministério Público. Não mexeu com uma somente. Onde estão as atrizes da TV Globo? Onde está a solidariedade delas?

O amor é lindo.

Celebridades e socialites de todos os matizes, inclusive da TV Globo, aparecem sorrindo e felizes, em fotos, abraçadas com o médium João de Deus.

Agora, estão todas caladas. Onde estão essas ricas e famosas hipócritas que ainda não se levantaram em defesas das 600 mulheres supostamente abusadas pelo médium?

Cadê as atrizes famosas? Cadê a turma do politicamente correto? Cadê a esquerda histérica? Cadê os adeptos dos holofotes?

Ministros do STF

Pelo menos cinco dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, 50% da Corte, se consultaram com o médium João de Deus: Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Rosa Weber (O Estado de S.Paulo, 27/12/2018).

Os ministros devem estar confusos. Acreditam mais no médium João de Deus do que na ciência do Direito.

Parece explicado porque o STF se transformou nessa bagunça em suas decisões. Com tantos espíritos transitando nos corredores do STF!

Agora, inevitavelmente, os recursos de João de Deus cairão nas mãos desses ministros, seus pacientes. Já tem um habeas corpus lá à espera de decisão.

E agora, como vão decidir Suas Excelências, contra ou a favor do médium? Ou vão se declarar suspeitos?

Com um Supremo Tribunal assim, é para entender o momento atual da Corte. Ou não entender.

araujo-costa@uol.com.br

Memória de Patamuté: Mário Matos Lopes

 

A história de Patamuté não pode ser contada, por quem dela entende – ou lembrada, por quem gosta de lembrar – sem que, em seu contexto, seja inserida a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, a antiga EBCT, muito útil na vida do lugar.

Não entendo da história de Patamuté, mas gosto de lembrá-la. A juventude de hoje precisa ter conhecimento da contribuição dos antepassados na construção moral do lugar.

Patamuté teve o privilégio de contar com uma agência dos correios e telégrafos durante décadas. Foi extinta nos anos 1990, por força de uma política governamental equivocada do presidente Fernando Collor de Melo. Depois disto a EBCT esfacelou-se, passou a ser antro e cenário de corrupção, descambou para o desmoronamento e perdeu o título que detinha à época de empresa pública mais eficiente do Brasil. Mas esta é outra história.

É conveniente lembrar que naquele tempo nem todos os distritos brasileiros importantes tinham repartições dos correios com status de agência. Patamuté abrigava uma agência.

A agência teve à frente Maria Matos Lopes, casada com Otávio Lopes Martins. Na condição de agente, ela foi responsável pelos correios de Patamuté durante anos, na primeira metade do século XX.

Mário Matos Lopes, filho de Maria Matos, substituiu-a também na condição de agente, mediante concurso público. É dele que hoje me ocupo nesta pequena e modesta lembrança de Patamuté.

É difícil, em certas circunstâncias, falar de amigos. Difícil, porque pode parecer uma variante de narcisismo ou mesmo um amontoado de palavras frágeis e inconsequentes. Neste caso não é, não precisa ser. Tenho respeito pela memória de minha terra e dos amigos que me aturaram lá.

Abril de 2002. Mário me manda de Juazeiro –  Rua Marechal Deodoro da Fonseca – uma carta bonita, respeitosa, escorreita, letra inconfundível. Datava do dia 26. Guardo-a até hoje para, de quando em vez, absorver os ensinamentos, a generosidade, a consideração do amigo.

 

Não declinar o conteúdo. Conversa de amigos.

Mário Matos Lopes foi meu amigo pessoal. Com ele e sua família tive a honra de conviver durante anos. A esposa Ambrosina, hospitaleira, espirituosa, alegre e sempre atenciosa. E os filhos: Antonio Nilo Ferreira Lopes, Odete Matos e Solange Matos.

Homem de opinião e caráter irrepreensível, Mário Lopes era cuidadoso no exercício da profissão, pontualíssimo relativamente aos compromissos e dedicado aos amigos. Uma referência quando, em Patamuté, falava-se em honestidade, decência e sensatez.

A vida de Mário Lopes confunde-se com exemplo de honradez e seriedade. Também violonista, às vezes boêmio, outras vezes comedido ao extremo, era admirador de José Amâncio Filho, Meu Mano. Conhecia todas as músicas de Meu Mano e tinha predileção por “Lágrimas de Mãe”, que cantava com esmero admirável.

Os homens de opinião às vezes criam lendas, porque o mistério faz parte da construção dos mitos. Mário Lopes não abdicava de seus valores morais e sociais e, em razão disto, deixou exemplos.

Já morando em São Paulo, fui a Patamuté. Visitei-o, como de costume. Tempo em que era comum sentar-se em cadeiras nas calçadas durante a noite sem receio de ser assaltado ou molestado por intrusos.   Contou-me que teve um desentendimento com um amigo de boemia. “Em Patamuté não bebo mais. Só coloco um copo na boca depois de ultrapassar  o Paredão”. Cumpriu a palavra até a morrer.

Paredão, para quem não conhece, é um riacho que existe em Patamuté.

Mário Lopes fez essa façanha de criar uma linha divisória entre o Paredão e o cumprimento de sua palavra.

Patamuté, como todo lugar, tem seus filhos e sua história de vida. Que não pode perecer.

araujo-costa@uol.com.br

 

Zito Torres: lembrança e registro da saudade

Zito Torres/Arquivo da família

“Patrão, mas eu amo assim mesmo

Nem que só fique o torrão

Pode a casa cair toda

Ficar rente com o chão

Mas Bambuí sempre mora

Dentro do meu coração”

(Zito Torres, Bambuí)  

Embora continuamente tentado pela grandeza histórica do poeta Zito Torres, nunca me atrevi, diante de minhas limitações, a escrever sobre ele. Entendo que não tenho o que acrescentar a tudo que já foi dito relativamente àquele grande filho de Curaçá.

Outros já fizeram com muita propriedade e sabedoria. Entretanto, consultando meus alfarrábios, deparei-me com Bambuí, clássico de Zito, primor de amor à terra e às raízes curaçaenses.

Zito – Durvalzito Dias Torres – era, por assim dizer, uma contribuição itinerante à cultura de Curaçá.

Ambos – Curaçá e Zito – se entrelaçam, ricamente, de modo que as lembranças de Zito nos fazem admirar e reverenciar sua memória, mais e mais, incansavelmente.

Tive o privilégio de conviver com Zito Torres. Convivência breve, mas respeitosa, porque Zito era assim: respeitador, educado, gentleman, essencialmente cavalheiro.

Importante o lugar de Zito Torres na história de Curaçá. Filho ilustre da terra, inteligente, humilde, fino no trato com todos e, sobretudo, rico culturalmente.

Na década de 1980 efervescia em Curaçá o movimento Curaçarte, que nasceu da inquietude de alguns jovens, dentre esses Roberval Dias Torres, Libânia Dias Torres, Josemar Martins (Pinzoh), honra e glória do povoado de São Bento, Pinduka e outros mais, tão importantes para a época e para o movimento Curaçarte quanto os citados.

Com o intuito de comemorar os cinquenta anos de vida de Zito Torres, lá por volta de 1987, o movimento o convidou para fazer um show no Teatro Raul Coelho.

Zito topou colaborar com a rapaziada e fez o show.

Talvez essa tenha sido sua apresentação artística mais importante, porque em apoio ao inconformismo daquela juventude sufocada política e socialmente dentro de seu próprio município.

Tempos difíceis. Alguns precisavam gritar. Eles gritaram.

Conta Roberval Dias Torres que Zito “cantou e encantou com um violão que tinha a ressonância de uma orquestra completa” (Insustentavelmente Trans, Editora Didática Paulista, 2002). E depois caiu na boemia com os jovens insurgentes até o alvorecer.

Não é possível, aqui, contar as façanhas de Zito. Foram muitas, inúmeras, durante sua vida efêmera, mas intensa.

Zito conseguiu conciliar o mister de escrivão de polícia e a boemia diuturna que enriqueceu a história de Curaçá. O mundo de Zito era encantador e assim ele demonstrava para todos.

No que tange a Bambuí, é antológica a referência à venda da fazenda, com tudo que tinha lá, inclusive os animais e a despedida da vaca Miúda, mesmo considerando a liberdade poética e a fértil imaginação do autor:

“No dia da despedida

Fumo dentro do currá

Se despedir da Miúda

Vosmecê pode creá

Miúda não se conteve

Sentiu também emoção

Eu vi sair dos olhos dela

Lágrimas a pingar no chão

É doloroso, patrão

Inté a vaca chorou

Lamentando nossa ausência

Miúda chorou de dor”

Coisas de poeta. Zito Torres deixou muito de sua alegria e criatividade e muito do seu ser pelas ruas de Curaçá.

Já sugeri, alhures – e minha sugestão e nada é a mesma coisa – que o município de Curaçá erga um monumento a Zito Torres.

A memória de Zito representa história, cultura, amizade, decência, generosidade e cordialidade.

Tarefa ingente para, mais adiante, o Acervo Curaçaense cutucar a Câmara Municipal de Curaçá.

Esse pessoal do Acervo Curaçaense é demais.

araujo-costa@uol.com.br

 

O ministro Marco Aurélio apequenou-se

Coincidências que nada ajudam.

Semana passada, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, sinalizou que Lula da Silva seria solto antes ou por volta do Natal, não se sabe com base em quê ela amparou tais informações.

19/12/2018: horas antes do Judiciário entrar em recesso,  o ministro Marco Aurélio Mello mandou soltar, pelo menos, 169 mil presos em todo o Brasil, inclusive, por tabela, Lula da Silva. A conta do Ministério Público chega a 240 mil.

48 minutos depois da decisão do ministro Marco Aurélio – isto mesmo, 48 minutos – os advogados de Lula entraram com pedido de alvará de soltura do ex-presidente, uma celeridade impressionante;

Todos tinham pressa: o ministro Marco Aurélio, o PT e os advogados de Lula da Silva, que em 48 minutos tomaram conhecimento da decisão, redigiram o pedido de soltura e protocolaram na Justiça Federal de Curitiba;

Não deu certo. Não podia dar certo.

Horas depois, o presidente do Supremo Tribunal Federal derrubou a liminar inexplicável do apressado ministro Marco Aurélio, por duas razões: a decisão contrariou entendimento do próprio STF sobre o tema (prisão após condenação em segunda instância) e, mais, o assunto já havia sido pautado para julgamento pelo plenário do tribunal em 10/04/2019, fato já do conhecimento do ministro Marco Aurélio, obviamente. Portanto, não havia pressa para sustentar uma medida liminar, como alegou Marco Aurélio.

A decisão de Marco Aurélio foi tomada atendendo pedido do PC do B, partido da vice na chapa petista de Haddad e histórico aliado do PT.

Não se tem conhecimento de que o PC do B tenha se preocupado, antes, com as centenas de milhares de presos sem voz, que definham nos desumanos presídios brasileiros.

Coincidência demais. O ministro Marco Aurélio apequenou-se.

Já vimos filme parecido: a decisão do desembargador plantonista do Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre, que mandou soltar Lula da Silva, num domingo, às pressas, atendendo pedido de três deputados petistas, um dos quais seu amigo.

Também não deu certo. Não podia dar certo.

Depois, os ministros do STF querem que os brasileiros acreditem no Judiciário. Com as honrosas exceções, está difícil acreditar.

A vaidade e o atabalhoamento de magistrados, em alguns casos, chegam a ser assustadores.

A impressão que o ministro Marco Aurélio deixou no episódio inusitado é a de que as coisas sérias no Brasil não estão sendo tratadas com a seriedade que exigem. O episódio beira à esculhambação.

O experiente ministro Marco Aurélio não precisava cavar este vexame e impor tamanho desgaste ao Supremo Tribunal Federal e a seus colegas.

Apequenou-se desnecessariamente..

araujo-costa@uol.com.br

José Amâncio Filho (Meu Mano) e o luar

Reprodução de arquivo de Valdomiro Nascimento

O luar tem muitas nuances. Até permite o surgimento de clássicos como a música Luar do Sertãodo maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), que um colega meu dos tempos da faculdade insistia em dizer que era cearense.

Nunca consegui convencê-lo de que Catulo era natural do Maranhão. Composta em 1914, já se vão, por aí, 104 anos e ainda hoje continua sendo cantada por jovens e velhos.

A turma do politicamente correto certamente vai me repreender e dizer que a música não é cantada por velhos, mas por idosos. Deixa pra lá.

Catulo sustentava ser o autor de Luar do Sertão, mas a história registra uma controvérsia: o autor seria João Pernambuco (1883-1947), contemporâneo de Catulo.

Aliás, em minha baiana cidade – Curaçá – havia um bar no chamado centro histórico, onde se lia no frontispício, talhadas com esmero, as palavras Luar do Sertão.

Não sei se ainda estão lá o bar e as letras. Se não continuam lá, é porque extirparam um pouco da história da cidade, coisa comum nos dias de hoje, em qualquer lugar.

O luar sempre foi inspirador das serestas, do amor desejado e da vida noturna no interior. Até as casas de chá nele se inspiravam para romantizar seus ambientes.

Lembro um baile intitulado “uma casa de chá ao luar de outubro”, para o qual fui convidado na década de 1970, mês de dezembro, numa cidade do interior da Bahia.

Como sempre me interessei em saber a origem das coisas, achei aquilo muito interessante: o luar era de outubro, mas o baile foi em dezembro. Continuo não sabendo até hoje.

O cantor e compositor José Amâncio Filho (Meu Mano), que nasceu nos domínios de Curaçá, mas se notabilizou em Abaré, inspirou-se no luar para compor algumas de suas canções. Uma curiosidade: o pai de Catulo chamava-se Amâncio José.

Nascido na Fazenda Malhada de Pedra, em 1894, quando Abaré ainda pertencia ao município de Capim Grosso, hoje Curaçá, Meu Mano cresceu vendo o luar do sertão.

Quando eu morava em Patamuté, um amigo de Meu Mano contou um “causo” curioso. Ambos estavam numa bodega, à boca da noite, já à luz do candeeiro, em tempo de lua cheia e o amigo lhe convidou para beber alguma coisa. Meu Mano ponderou: “certo, mas vamos esperar a lua sair”.

O escritor pernambucano Geraldo Granja Falcão escreveu sobre Meu Mano, dentre outras coisas, que “tinha uma vida boêmia, nômade, comunicativa, movimentadora de tantos pedaços de sertões e de gente, fiel às melhores tradições culturais da região”.

E ainda fez história que enriqueceu Curaçá, Abaré e região.

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O acaso, um amigo, um encontro

“O homem é um ser entre o nada e o túmulo” (Pedro Gomes de Camargo, padre português).

A cidade grande tem suas coincidências e permite encontros casuais, às vezes dilacerantes, outra vezes difíceis de explicar.

Em São Bernardo do Campo, cidade encravada no chamado ABC paulista, há uma avenida com o nome de Senador Vergueiro, grande e movimentada, que serpenteia do centro da cidade até as proximidades das divisas com Santo André e São Caetano do Sul, cidades também bonitas e acolhedoras.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um grande defeito que carrego: sou sobremaneira relapso e desatencioso com os amigos, embora eles entendam, exatamente por serem amigos. E só por isto.

Um dia, na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por aquela avenida enorme, seca, barulhenta, poluída, perigosa.

Ali mesmo na calçada, conversamos por alguns razoáveis minutos. Eu às voltas com o tempo curto e compromissos agendados e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo para enfrentar os imperativos e asperezas da cidade grande, que tanto conhece.

Fiz-lhe algumas perguntas protocolares, como é praxe nesses encontros casuais: por onde tinha andado, o que fazia, família, et cetera. Expressão humilde, ele disse, cheio de reticências:

– “Veja. Eu me perdi. Tem uma rua ali…aquela onde moro….você sabe…diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braço levantado, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada, a bengala a denunciar seu estado de fragilidade.

Fiquei preocupado. O tempo e o relógio cruéis me atrapalhando, confrontando-me com o dever de ser-lhe útil e solidário naquele momento. A lembrança fulminante do passado me cutucou. E saímos conversando amenidades, afastando a ferrugem da memória e até rindo do seu estado de senectude.

Deixei-o nas proximidades de sua casa e me despedi mais frágil do que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da certeza da velhice. Desamparo que só o desamparado sabe avaliar.

Chorar nesses momentos é muito fácil. Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram ali, vendo-o incapaz de determinar-se por si mesmo. Como um amigo é fundamental nesses momentos!

Foi muito difícil ver o seu estado de fragilidade, a lucidez falhando, os passos trôpegos, a visão titubeante diante de um ponto imaginário.

Depois do adeus angustiado, fui relembrando nossa amizade, nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, livre, descompromissado, o violão que ele tanto sabia tocar.

Meu amigo está frágil e diminuído.  Isto me deixa certo de que a vida é a medida exata de nossas fraquezas. E me veio à lembrança a frase do padre português Pedro Gomes de Camargo nos funerais do também padre Diogo Antonio Feijó: “O homem é um ser entre o nada e o túmulo”.

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