Rui Costa não consegue explicar

“A reeleição é mais uma oportunidade que o povo dá ao político para ele errar de novo” (José Cavalcanti, Patos-PB, 1918-1995)

Com o passar do tempo e o consequente avanço da idade, algumas coisas vão surgindo em nosso dia a dia. No meu caso, cresceram-se a barriga e a incapacidade de engolir asneiras de políticos demagogos.

O governador reeleito da Bahia, Rui Costa (PT), culpou os governadores anteriores ao primeiro governo de seu padrinho político Jaques Wagner pelo déficit da previdência estadual.

Conforme o governador, o déficit da previdência gira em torno de R$ 4,8 bilhões. Em 2022, a projeção é que alcance R$ 8 bilhões. A saída, ainda segundo o governador, é aumentar a contribuição dos servidores já a partir de março de 2019, se a Assembléia Legislativa aprovar ainda este ano.

Se o governador pedir, a Assembleia Legislativa aprova. Ele conta com 43 dos 63 deputados que ganham, em média, R$ 157 mil por mês e certamente não estão muito preocupados com déficit previdenciário de servidores.

Rui Costa até se valeu das catacumbas e lá foi buscar o falecido ex-governador Antonio Carlos Magalhães para culpá-lo pela quebradeira da Bahia.

Sua Excelência disse que “o estado tira da receita corrente para pagar o déficit”.

Ora, se Jaques Wagner encontrou o caixa da previdência com saldo zero, como Rui diz, e “o estado tira da receita corrente para pagar o déficit”, a lógica faz pressupor que o déficit foi gerado nos governos petistas e teria diminuído nesses anos de “eficientes” administrações petistas.

Mais: se o caixa estava zero quando o PT assumiu e hoje tem déficit de R$ 4,8 bilhões, significa entender que os governos anteriores não podem ser responsabilizados pelo déficit ou, no mínimo, os governos petistas nada fizeram para contê-lo ou evitar.

O governador assegurou que Jaques Wagner pegou o caixa da previdência com saldo zero, mas não explicou porque nesses 12 anos ininterruptos que ele e Jaques Wagner administraram a Bahia – ou fingiram que administraram – não conseguiram mudar ou, pelo menos, melhorar a situação.

Pelo jeito, Rui Costa vai precisar de um plantio gigantesco de peroba.

À semelhança de dona Dilma Rousseff nas eleições de 2014, Rui Costa fez a campanha eleitoral da reeleição mostrando somente as supostas qualidades de seu governo e escondendo a realidade da Bahia, que agora, depois de reeleito, começa a mostrar. Está cheirando – ou fedendo – malandragem política.

O governador Rui Costa foi reeleito em outubro, no primeiro turno, com 75,5% dos votos válidos. Ele convenceu mais de cinco milhões de eleitores que a Bahia vai bem.

Todavia, não há surpresa em Rui Costa convencer os baianos que a Bahia virou um paraíso com o PT no governo. Surpresa é saber que os baianos acreditarem nele.

Salvo engano, Rui Costa falou essas baboseiras todas em entrevista ao radialista e ex-prefeito de Salvador Mário Kertész, na rádio Metrópole, mesmo espaço onde Lula da Silva disse que basta dar dez reais a um baiano, que ele sai por aí, alegre, pulando, votando a torto e a direito.

Uma tremenda sacanagem do Lula com os baianos. De qualquer forma, a Bahia continua sendo um feudo petista.

Sou baiano e vivo numa pindaíba danada, mas – convenhamos – Lula pegou pesado com a gente.

araujo-costa@uol.com.br

Memória de Patamuté: Maricota, uma vida de simplicidade

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D. Hélder Câmara)

Incluo-me entre aqueles que cavam as lembranças e se enternecem com as perdas. Elas têm sido muitas.

As construções precisam de esteios e de cumeeiras para se sustentarem diante da ação do tempo. Assim os lugares, assim Patamuté.

Os esteios de Patamuté estão se  ruindo com a passagem do tempo. É natural que seja assim.

O tempo atreve-se a colunas de mármore, imaginemos o que é capaz de fazer com a fragilidade humana.  Desmoronam-se as colunas, mas ficam as lembranças, os exemplos.

Registro o falecimento da professora Maria da Silva Vital, a sempre querida Maricota, coluna  de uma geração que Patamuté se orgulha de tê-la em sua construção. Professora de vida simples e generosa, admiravelmente generosa.

À semelhança do pai Francisco Ferreira Vital, Maricota cultuava as coisas simples, como convém aos sábios. Simples, mas profundas e essenciais. Acaso não é profunda a capacidade de ser humilde?

Maricota é do tempo em que os jovens respeitavam os mais velhos, alunos admiravam professores e se espelhavam em seus exemplos de vida. Ainda acredito que a sabedoria dos mais experientes é a melhor escola da vida.

Maricota viveu a ensinar caminhos durante grande parte de sua vida. Deixou lições de sabedoria e de humildade. Indicou horizontes, mostrou a melhor estrada que conhecia.

A professora Maricota era uma referência em Patamuté quanto ao delineamento de vida simples e benevolente..

Nestes tempos modernos, exemplos de vida são raridades, principalmente nesta quadra do tempo em que o mundo se transformou em indiferença, egoísmo, superficialidade, interesses.

Somos nós que fazemos as somas de  nosso tempo, de nossa vida. A professora Maricota faz parte das somas da História de Patamuté.

Deixo pêsames extensivos a todos da família de Maricota.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, dê-lhe o amparo na eternidade.

araujo-costa@uol.com.br

 

Quando a notícia não é importante

Ainda jovem, o jornalista baiano Raimundo Reis trabalhou no Diário de Notícias, em Salvador.

Um dia foi escalado para entrevistar o governador Otávio Mangabeira (1886-1960), no Palácio Rio Branco, então sede do governo da Bahia, na Praça Tomé de Sousa.

O jornal agendou com o Palácio dia e hora da entrevista.

O oficial de gabinete encaminhou o jovem jornalista ao governador.  Raimundo Reis se apresentou e, ato contínuo, recebeu das mãos de Otávio Mangabeira um envelope e a observação clara, sem rodeios:

– Estão aqui as perguntas e as respostas. Está dispensado. Gosto muito de facilitar o trabalho de vocês.

Raimundo Reis contava que lhe faltou chão. Retirou-se. Não fez sequer uma pergunta ao governador, porque não lhe foi permitido. No dia seguinte, o Diário de Notícias publicava extensa entrevista de Otávio Mangabeira concedida a Raimundo Reis.

O jornalista sergipano Joel Silveira, apelidado “víbora” da reportagem, honra e glória da imprensa brasileira, que trabalhou nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, contava que foi entrevistar o general Góis Monteiro, líder e fiador do Estado Novo, como era conhecida a ditadura Vargas.

O general deu a ordem:

– Vá escrevendo o que vou lhe dizer. Confiei demais na “memória” dos jornalistas e sofri muito com isto.

E ditou a “entrevista” na íntegra. Joel apenas datilografou (naquele tempo não existia computador, era máquina de escrever).

Os grandes líderes às vezes agiam assim. Ditavam o que os jornais deviam publicar sobre eles ou o governo a que pertenciam. A imprensa os obedecia e respeitava, porque esses líderes interessavam aos jornais. Eram notícias diárias.

A rigor, não mudou muito. A publicidade que os governos pagam à grande imprensa dita a linha de pensamento das publicações, consideradas as exceções de praxe.

Hoje é comum autoridades desmentirem, através das chamadas notas, o que os jornalistas publicam, mesmo que informações colhidas em entrevistas gravadas. É uma forma de duvidarem da “memória” dos jornalistas, como dizia o general Góis Monteiro.

Um exemplo: antes de definidas as candidaturas presidenciais de 2018, a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de S.Paulo, publicou que a senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, havia dito que o partido não apoiaria Ciro Gomes, “nem que a vaca tussa”.

Ciro Gomes se sentiu traído por Lula e ficou magoado. Continua uma fera.

Depois das eleições, em entrevista à TVT, a senadora Gleisi Hoffman desmentiu Mônica Bérgamo. “Nunca falei isso”, disse a senadora.

Tarde. O estrago político já tinha sido feito e Ciro Gomes ainda esbraveja contra o PT.

A notícia nem sempre tem importância.

araujo-costa@uol.com.br

A tabuada do PT na Bahia

“Ai minha mãe

Minha mãe Menininha

Ai minha mãe

Menininha do Gantois”

(Dorival Caymmi)

Surgiu mais um escândalo protagonizado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o que não chega a ser novidade. Desta vez, na Bahia.

A maracutaia se deu mais ou menos assim: a Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros), espécie de INSS que cuida da previdência complementar dos funcionários da estatal, combinou com a Petrobras a construção de um prédio para abrigar a sede da empresa na Bahia, a chamada Torre Pituba, luxuoso arranha-céu de 22 andares, em Salvador.

A proposta, segundo consta, era a Petros construir o prédio e alugar para a Petrobras por um período de 30 anos, com aluguel mensal da ordem de R$ 5,4 milhões. O enredo começava assim, não se sabe se assim terminou.

O conluio contratou as generosíssimas construtoras baianas Norberto Odebrecht e OAS, para cuidarem do gigantesco empreendimento.

Até aí, tudo bem.

Ocorre que, de início, a obra foi orçada em R$ 320 milhões, passou para R$ 700 milhões, acrescentaram-se mais outras vultosas quantias e, por fim, diz a investigação, a construção acabou totalizando R$ 1,4 bilhão, considerando consectários e outras malandragens mais.

Até aí, quase tudo bem.

Entretanto, o vergonhoso superfaturamento da construção teve uma explicação: o pagamento de propina a agentes públicos, ao presidente da Petros, a empresários e, para variar, ao PT, que tem em seu desfavor, o testemunho de um marqueteiro petista. Ele confessou participação no esquema.

O bem informado Diário do Poder, de 23/11/2018, diz textualmente:

 “Segundo o Ministério Público Federal (MPF), foram desviados R$ 68 milhões. Do valor total da propina repassada, 1% era destinado ao PT por meio de um emissário do ex-tesoureiro João Vaccari Neto ou por meio de doações ao Diretório Nacional, financiando então campanhas do partido”.

Mais, segundo a publicação: “Os valores superfaturados eram destinados para o pagamento de propina para agentes públicos da estatal, do PT e dirigente da Petros. Pela OAS, foram acertadas propinas de 7% a 9% do total do contrato. Já a Odebrecht fixou repasses em 7%.”

Essa tabuada do PT na Bahia, que só tem a operação de multiplicar, multiplicou superfaturamento e propinas no período de 2009 a 2016, quando tudo na terra de Mãe Menininha do Gantois estava dominado pelo PT. Ainda hoje está.

A partir do governador de então, passando pelo presidente da Petrobras na época, Sérgio Gabrielli, que é baiano e professor da UFBA e toda a estrutura de poder no estado, os petistas ainda não conseguiram destruir a Bahia. Senhor do Bonfim é mais forte.

Hoje, se qualquer jornalista afoito perguntar à senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, se o partido ou alguns de seus dirigentes receberam propina proveniente da Torre Pituba, ela vai dizer que é perseguição, que no partido só tem freiras contemplativas, todos lá são santos, et cetera e tal.

Mas a tabuada petista é eficientíssima. Multiplica muito bem, sempre a favor do partido.

araujo-costa@uol.com.br

Lavagem de dinheiro com recibo?

O Ministério Público Federal em São Paulo exagerou ou os tempos mudaram mesmo.

A Lava Jato apresentou mais uma denúncia contra o ex-presidente Lula da Silva que, em resumo, baseia-se no seguinte:

Empresário brasileiro controlador do grupo ARG pediu para Lula interferir junto ao amigo e presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, no sentido de viabilizar a contratação de sua empresa para construção de estradas naquele país da África Ocidental.

Há documentos tratando do assunto, segundo dizem as investigações.

Conforme a denúncia, fechado o negócio com a República da Guiné, o empresário interessado deu a Lula, em contrapartida, por intermédio do Instituto Lula, a quantia de R$ 1 milhão.

O Ministério Público apresentou o recibo que vai reproduzido abaixo.

A acusação do Ministério Público entende que se trata de lavagem de dinheiro.

A vultosa quantia seria pagamento ao ex-presidente Lula da Silva, por tráfico de influência, que teria simulado doação a seu instituto.

Salvo engano, este é o primeiro caso de suposta lavagem de dinheiro em que o recebedor da propina passa recibo.

Isto faz presumir o seguinte: ou o Ministério Público Federal exagerou na denúncia ou a assessoria de Lula da Silva é ingênua de mais da conta.

Receber dinheiro ilícito e dar recibo é simplesmente hilário. Mas o recibo existe. Consta na denúncia. Resta saber se provém de ilicitude.

Cabe agora a Lula provar o contrário. Ou dizer que nunca viu o empresário do grupo ARG e que não sabe quem é o ditador da Guiné Equatorial.

Diante do ineditismo do caso, é possível que Lula seja absolvido dessa acusação de lavagem de dinheiro.

Receber propina e passar recibo só pode ser folclore político ou piada.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva e a solidariedade dos sergipanos

“Se eu não consigo aliviar o sofrimento de todos os homens, pelo menos mato a sede daqueles que já estão caídos” (frase atribuída ao patriarca bíblico Lot)

Lula da Silva sempre teve bons amigos em Sergipe.

O advogado Marcelo Déda (1960-2013) era um desses amigos fiéis da predileção do ex-presidente.

Marcelo Déda desempenhou uma carreira brilhante. Foi prefeito de Aracaju, deputado estadual, deputado federal e governador, eleito em 2006 e reeleito em 2010. Faleceu no exercício do mandato.

Quando governador, Marcelo Déda se destacou no combate à criminalidade, dentre outras ações firmes de seu governo em Sergipe.

Marcelo Déda foi um dos quadros respeitáveis do Partido dos Trabalhadores (PT), que levou a política a sério.

Eliane Aquino (PT), viúva de Marcelo Déda, compôs a chapa do governador eleito de Sergipe para os próximos quatro anos, uma saudável contribuição ao próximo governo estadual.

Lula mantém uma esteira de admiradores em Sergipe. É natural que seja assim. Não obstante preso, continua líder, não somente em Sergipe, mas ostenta sólida influência em todo o Nordeste.

Nos últimos dias, pessoas recolheram assinaturas no calçadão do centro de Aracaju.

Essas assinaturas vão lastrear o Cartão de Natal que os sergipanos pretendem enviar para  Lula nessa quadra difícil que ele está passando em Curitiba.

A humanidade está vivendo momentos de incompreensão, egoísmo e violência, mas sempre há lugar para uma pausa e expressão de solidariedade.

As misérias do processo penal não devem excluir a solidariedade, nem a reflexão. Nunca.

A condição humana é imponderável. Será sempre.

Os sergipanos estão sendo solidários a Lula, mesmo simbolicamente.

A prisão dilacera, diminui, aniquila.

Lula precisa dessa solidariedade.

araujo-costa@uol.com.br

O caso de Cuba: o PT não sabe o que é Pátria

O jornalista Merval Pereira, membro da Academia Brasileira de Letras e reconhecidamente um dos mais bem informados profissionais da imprensa brasileira, confirmou em artigo intitulado A Caixa Preta, o que este blog já havia publicado em 15/11/2018 sob o título O programa Mais Médicos e a decisão de Cuba.

Entretanto, Merval Pereira acrescentou valiosa informação que este blog não tinha, mas desconfiava: o vultoso empréstimo que Lula da Silva e Dilma Rousseff mandaram o BNDES fazer para a ditadura da família Castro, amiga de ambos, com o intuito de ampliar o porto Mariel, em Cuba, seria pago supostamente com o próprio dinheiro do Brasil.

A explicação é lógica e simples: a ditadura cubana embolsava 70% do valor pago pelo Brasil a cada médico da ilha, que participava do programa Mais Médicos.

Ou seja, 70% do que o Brasil mandava para Cuba era indevido – mais do que indevido, era fictício, o Brasil não devia – e ficava por conta do que Cuba deveria pagar ao Brasil, para quitar o astronômico empréstimo tomado ao BNDES.

Sabe-se que durante o decorrer do programa, já se vão, por aí, pelo menos R$ 7 bilhões que o Brasil mandou para Cuba.

Por aí se vê, que Cuba ampliou e modernizou o porto de Mariel com o dinheiro do Brasil a custo zero. O Brasil financiou o desenvolvimento de Cuba, a título gratuito.

Para ficar mais claro: os 70% do que o Brasil mandava para a ditadura Castro, por conta do programa Mais Médicos, simplesmente Cuba servia-se desse dinheiro para quitar as parcelas do empréstimo do BNDES que, aliás, até recentemente estavam atrasadas.

Lula da Silva mandou o BNDES emprestar dinheiro a Cuba e indicou as construtoras Odebrecht e OAS para cuidarem das obras na ilha comunista de Fidel e Raul.

Coincidentemente – apenas coincidência – essas construtoras estão envolvidas com os processos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, que Lula da Silva não conhece.

Mais: os contratos entre  Cuba e BNDES são secretos. Aí está a Caixa Preta a que se refere Merval Pereira.

Se o dinheiro é público, por que os contratos devem ser secretos?

Segundo o jornalista Merval Pereira informou, com base em documentos oficiais do governo brasileiro, “os cubanos propuseram “um mecanismo de compensação” para pagamento dos financiamentos, e o Brasil sugeriu que fosse feito através de uma conta bancária brasileira. Como se vê, a proposta era de que Cuba pagasse os empréstimos do governo brasileiro com o dinheiro que o próprio governo brasileiro lhe pagaria pelo programa Mais Médicos”.

Merval Pereira acrescenta que “é possível que pelo menos parte desse dinheiro tenha sido transferida para o PT, dentro do sistema de financiamento de obras públicas exportado pelo governo petista para muitos países da América Latina. Vários desses governantes estão hoje ou presos ou respondendo a processos”.

Pelo que se vê, Lula da Silva, dona Dilma Rousseff e outros petistas graúdos ainda têm muita coisa para explicar ao Ministério Público, à Polícia Federal e à Justiça do Brasil.

O PT e os petistas precisam aprender o que é Pátria. Eles não sabem.

araujo-costa@uol.com.br

Na Bahia, nem sempre dois mais dois dá quatro

O Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal juram de pés juntos que as urnas eletrônicas não são suscetíveis de fraudes.

A segurança das urnas é inquestionável, segundo nossas subidas autoridades.

Assim se manifestaram recentemente a ministra Rosa Weber, presidente do TSE e o ministro Dias Toffoli, presidente do STF.

Consoante Suas Excelências, as urnas eletrônicas são à prova de fraude e não se fala mais nisto.

Mas não é bem assim ou, pelo menos, parece que não é. Em 2016, 24 anos após a implantação das urnas eletrônicas – que a Justiça Eleitoral diz que são extremamente seguras – somente numa zona eleitoral da Bahia, em Simões Filho, um levantamento constatou que havia 30 mortos “aptos” a votar nas eleições de 2016, segundo o cadastro da Justiça Eleitoral.

Políticos daquele município provaram, com atestados de óbito, que 30 “eleitores” não estavam tão “aptos” assim a votar, como dizia a Justiça Eleitoral. Simplesmente estavam mortos (A Tarde, 16/11/2015).

Por isto, afigura-se estranha a crença absoluta de nossas autoridades do TSE e STF no sistema eleitoral eletrônico, vez que até o sistema financeiro nacional, que é reconhecidamente seguro, está sujeito a ataques externos, situação comum na rede bancária.

Se a Justiça Eleitoral não tem condições de identificar seus mortos no cadastro de eleitores, como ter tanta certeza quanto à inviolabilidade das urnas eletrônicas?

“A fraude eleitoral existe desde a República Velha que encerrou a monarquia em 15 de novembro de 1889. A mais tradicional era a “bico de pena” efetivada com a adulteração das atas elaboradas pelas mesas eleitorais, responsáveis pela apuração dos votos. Nesse cenário os mortos e ausentes já “votavam”.

O processo era todo controlado no interior pelos “coronéis” que através do “voto de cabresto” indicava em quem o eleitor deveria votar. Havia ainda a fraude que consistia em dividir entre candidatos em conluio os votos em branco e nulo, evidentemente com mesários cúmplices” (A Tarde, 16/11/2015).

Outra questão que a Justiça Eleitoral ainda não conseguiu resolver é a discrepância entre a quantidade de eleitores e o número de habitantes de alguns municípios.

O Portal G1 Bahia, de 14/06/2018, publicou matéria sobre o assunto, como se vê a seguir:

“Maetinga, na região sudoeste do estado, é o município baiano com a maior discrepância entre eleitorado e população. A cidade possui 6.736 pessoas aptas a votar, enquanto a população não passa de 4.456 – diferença de 2.280 pessoas.

O município aparece na quarta posição nacional e na terceira do Nordeste entre as cidades com maior diferença entre o número de eleitores e o de habitantes.

Serra Preta, a cerca de 150 quilômetros de Salvador, aparece em segundo lugar na Bahia. Possui eleitorado formado por 16.941 pessoas, enquanto a população é de 16.036. A cidade ocupa a 14ª posição nacional e a 7ª posição no nordeste.

Outra cidade com mais eleitores do que habitantes é Lajedão, no sul da Bahia, que tem eleitorado de 4.805 pessoas, enquanto a população não passa de 4.068. Completam a lista Potiraguá (com 8.747 eleitores e 8.438 habitantes) e Ribeirão do Largo (7.502 eleitores e 7.437 habitantes)”.

O Tribunal Superior Eleitoral justifica, ainda segundo o G1 Bahia:

“A explicação do TSE para as discrepâncias consiste na distinção entre domicílio eleitoral e domicílio civil.

Enquanto o chamado domicílio civil é mais restrito por limitar-se à residência na qual se anseia permanência definitiva, o domicílio eleitoral é aplicado de forma mais flexível, abarcando a localidade na qual o eleitor comprova residência acrescida de envolvimentos afetivos, familiares e sociais. Dessa forma, é possível o cidadão morar em uma cidade e votar em outra”.

Então, tá.

Como se vê, na Bahia, minha querida província, nem sempre dois mais dois dá quatro.

araujo-costa@uol.com.br

Edifício, ratos e escândalos

“Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos. E começaram a roer o edifício” (Carlos Drummond de Andrade)

O Partido dos Trabalhadores (PT) ainda não conseguiu desmoronar o edifício chamado Brasil, não obstante tenha tentado roer suas estruturas durante esses anos que ficou no poder.

Os escândalos se sucedem, desde o primeiro governo Lula da Silva, a começar pelo mensalão, que nunca existiu, segundo o morubixaba petista, passando pelo petrolão e outros que tais.

O mais recente escândalo é de deixar qualquer um boquiaberto.

O ex-guerrilheiro da organização Var-Palmares, companheiro de guerrilha, amigo e ex-ministro de Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, atual governador de Minas Gerais,  cometeu alguns exageros. Segundo denúncia do governador eleito daquele estado, loteou o centenário Instituto de Previdência dos Servidores de Minas Gerais (IPSEMG) e nele empregou petistas de todo o Brasil, muitos deles sequer têm conhecimento técnico da função que supostamente exercem.

Aliás, nas eleições de 2018, o sábio povo de Minas expulsou simultaneamente das esferas do poder, tanto o PSDB (leia-se Aécio Neves) quanto o PT (leia-se Fernando Pimentel). Aécio Neves agarrou-se ao cargo de deputado federal, para não perder o foro privilegiado e Fernando Pimental será lançado às traças, a partir de janeiro próximo.

Quem não presta tem de sair mesmo.

Os mineiros também deram um chega pra lá em dona Dilma Rousseff, que disputou uma vaga para o Senado Federal por Minas, mas não teve o beneplácito das urnas.

Os mineiros despacharam-na para cantar noutro terreiro.

Em resumo, o governador eleito de Minas denunciou, em campanha, o seguinte: que o IPSEMG tinha 16 conselheiros e o PT elevou o número para 540, forma engendrada para dar emprego a companheiros petistas derrotados nas urnas em diversos rincões do Brasil.

Resta saber se o espaço onde trabalhavam 16 conselheiros cabe todos esses 540 felizardos petistas.

A situação é tão estapafúrdia que, francamente, fica difícil acreditar, mas o governador eleito disse que é verdade e cabe a ele retificar a informação, se tiver errado e, no mínimo, pedir desculpas ao PT. Se errou, tem de dizer que errou, penitenciar-se. Não pode deixar o equívoco no ar. É feio, é desonesto.

Insta registrar – a bem da verdade – que o IPSEMG soltou nota desmentindo as informações do governador eleito e afirmou que a autarquia opera dentro das normas estatutárias e que não houve loteamento, coisa e tal.

Entretanto, partindo do pressuposto de que a informação do governador eleito esteja correta – e tendo em vista outros escândalos surgidos em governos petistas – há roedores demais tentando derrubar o edifício chamado Brasil.

Só o exercício regular da democracia coíbe esses desvios éticos e dá parâmetros para administrações decentes.

araujo-costa@uol.com.br

Corrupção: a Bahia também contribuiu

O último depoimento de Lula da Silva à Justiça Federal se assemelhou ao humorístico Escolinha do Professor Raimundo e ao seu célebre aluno Rolando Lero.

Lula estava lá para ser interrogado, mas não sabia como responder às perguntas da Juíza do feito e do Ministério Público e, ao invés de responder, deu uma de Rolando Lero:

– Eu sou dono do sítio ou não?

Lógico que a estratégia não deu certo.  Não podia dar certo.

Lula sabia do que estava sendo acusado. Ali não se tratava do sítio, propriamente, mas das reformas que lhe beneficiaram. A pergunta não fazia sentido para quem estava ao lado de seu advogado.

Não cabia à juíza responder. Quem estava ali sendo interrogado era Lula.

A linha adotada pelos acusados de corrupção é mais ou menos a mesma.

Em 1992, instalou-se no Congresso Nacional a CPI do Orçamento, com o intuito de apurar desvio de recursos do Orçamento da União pelos deputados conhecidos como “anões do Orçamento”.

Só da Bahia, havia dois deputados enrolados, acusados de desvio de recursos do Orçamento da União: Genebaldo Correia, ex-prefeito de Santo Amaro e João Alves de Almeida (1919-2004), uma espécie emblemática que ficou 41 anos na Câmara dos Deputados.

Ambos renunciaram aos seus mandatos para evitar a cassação.

Um terceiro deputado, José Carlos Aleluia, se safou das acusações, porque todas as provas contra ele desapareceram misteriosamente. Os documentos estavam armazenados em envelopes na própria CPI e escafederam-se.

A CPI requereu a repetição das provas ao Banco Central, que havia fornecido os documentos bancários de Aleluia, mas venceu o prazo da comissão e não houve tempo de incluir o nome do deputado no relatório.

Os jornalistas investigativos Gustavo Krieger, Fernando Rodrigues e Elvis Cesar Bonassa, autores de Os Donos do Congresso, de 1994, diziam que a operação para salvar Aleluia partiu de outro deputado baiano, Benito Gama, que ocupava uma subcomissão na CPI do Orçamento.

O deputado João Alves não encontrou amparo para justificar seu avantajado patrimônio, tampouco a enorme quantidade de dinheiro amealhado com a corrupção e invocou a ajuda de Deus.

– Deus tem me ajudado muito. Ganhei dezenas de vezes na loteria.

O deputado José Geraldo Ribeiro, de Minas Gerais, também investigado, não conseguiu justificar a compra de uma fazenda em Januária, lá nas barrancas do São Francisco. Negou até mais não poder a propriedade da fazenda.

O deputado petista José Dirceu, membro da CPI, que se dizia honesto e todo mundo acreditava, apresentou a escritura da fazenda em nome do deputado mineiro, registro do imóvel, CPF e tudo. O deputado acusado ponderou:

– É, pelo que está aí, eu comprei. Mas não me lembro dessa fazenda.

Ao deputado Genebaldo Correia foi perguntado se havia recebido algum cheque em pagamento de vantagem indevida. A CPI tinha cópias de dois cheques nominais ao parlamentar. Desmemoriado, Genebaldo preferiu a dúvida:

– Não me consta de ter recebido. Como posso afirmar? Não sei quando foi isto.

Como se vê, a linha adotada nas defesas dos acusados de corrupção e lavagem de dinheiro é sempre a mesma: vazia, frágil, inconsistente.

Naquela ocasião, a Odebrecht já aparecia como vedete preferida dos parlamentares. Os nomes de deputados apareciam nos papéis da construtora, analisados pela CPI, sempre associados a um percentual.

José Carlos Aleluia, por exemplo, então no extinto PFL, foi acusado de “coordenador dos interesses da empresa dentro do Congresso”. Não ficou provado, mas tinha fumaça.

Tudo isto aconteceu em 1992. Se as instituições de controle tivessem sido atuantes, talvez hoje Lula da Silva e outros tantos não estariam passando por esse vexame. E a corrupção talvez não tivesse persistido tão devastadoramente.

A Bahia, infelizmente, arquiva esse histórico vergonhoso.

araujo-costa@uol.com.br