O programa Mais Médicos e a decisão de Cuba

Conforme fartamente noticiado, a ditadura cubana rescindiu unilateralmente o convênio do programa Mais Médicos, que mantinha com o Brasil desde 2013.

Não esperou o novo presidente tomar posse.

Em resumo, o programa funciona assim: o Brasil paga para a ditadura cubana, em valores atuais, a quantia R$ 11.865,60, a título de bolsa, para cada médico cubano.

A ditadura da família Castro repassa R$ 3.000,00 para cada médico e embolsa a diferença.

Esse critério é viabilizado através de contrato feito por intermédio da Organização Pan-Amecinana da Saúde (Opas), braço da OMS.

Cuba adotou esses convênios não só com o Brasil, mas com países do mundo inteiro e faz da exportação de seus médicos uma atividade comercial altamente rentável.

Entretanto, o presidente eleito Jair Bolsonaro sinalizou que, a partir da instalação do novo governo, em janeiro vindouro, o Brasil exigiria algumas condições para manter o convênio Mais Médicos com a ditadura de Cuba.

Essas condições são, basicamente: que o total pago pelo governo brasileiro seja repassado integralmente aos médicos; que os médicos possam trazer suas famílias para o Brasil;  que os médicos sejam submetidos à revalidação junto às instituições brasileiras competentes,  o chamado teste de capacidade técnica e, por fim, a possibilidade de concessão de asilo aos médicos que quiserem permanecer no Brasil.

A ditadura cubana ficou furiosa. As ditaduras impõem condições aos seus cidadãos, não negociam, não transigem.

A ditadura de Cuba considerou as condições “inaceitáveis” e rompeu o convênio sob a alegação ideológica de que o Brasil perpetrou um “golpe de Estado legislativo-judicial contra Dilma Rousseff”, em cujo governo foi instituído o programa Mais Médicos por aqui.

A saída de Cuba assim, de repente, causará sérios transtornos à população, pelo menos em curto prazo.

Somente para argumentar: há 2.817 médicos cubanos trabalhando na região Nordeste. Só na Bahia são 822 médicos de Cuba. Na região Norte, 1.314; No Sudeste, 2.420; Centro-Oeste, 459 e Sul, 1.322.

Esses médicos trabalham em lugares inóspitos, muitos deles sem estradas, sem saneamento básico, sem estrutura e sem equipamentos adequados para o exercício da profissão. Mas são necessários.

Fica a lição para o Brasil. O governo de Dilma Rousseff tomou uma decisão emergencial louvável, embora espremido pelos movimentos das ruas de 2013. Mas parou por aí.

Nada foi feito depois relativamente à contratação de profissionais brasileiros, de sorte que a população está jogada às traças, sem nenhum amparo do governo na área da saúde, a não ser essas decisões vergonhosamente tímidas.

Para se ter uma ideia, são formados anualmente no Brasil 20 mil médicos ou próximo disto, o que significa que há profissionais suficientes. Não há necessidade de ir buscar médicos fora.

Contudo, faltam condições adequadas e pagamento digno e respeitoso para que esses médicos possam ser contratados e deslocados para as regiões mais afastadas e periferias dos centros urbanos, onde a necessidade de atendimento é mais premente.

O governo sempre alegou que os médicos brasileiros não se dispõem a trabalhar em regiões afastadas.

Não se dispõem ou o salário oferecido pelo governo é irrisório?

Os médicos cubanos são fundamentais, hoje, exatamente em razão do desleixo de nossos governos relativamente à contratação de profissionais brasileiros.

Mas ainda vai correr muita água. Ou lama.

Lula da Silva e Dilma Rousseff emprestaram à ditadura de Cuba, quando Fidel Castro ainda era vivo, nada menos do que R$ 2,230 bilhões do BNDES, para os irmãos Castro (Fidel e Raul) cuidarem da ampliação e modernização do porto Mariel.

Sabe-se que esse empréstimo nebuloso deverá ser pago até o ano de 2034 e que Cuba está com os pagamentos atrasados.

Um lembrete: a construtora da obra do porto Mariel, em Cuba, por indicação de Lula da Silva é a Odebrecht.

A amizade de Lula da Silva e Dilma Rousseff com os irmãos Castro pode ter criado um problema para o Brasil, tanto financeiro quanto diplomático.

Talvez vislumbrando uma inevitável auditoria do governo Bolsonaro nesse empréstimo do BNDES, Cuba tenha se antecipado e rompido de forma unilateral o programa Mais Médicos.

Não parece plausível o rompimento do convênio, unilateralmente, com base numa possível exigência ainda não formalizada do governo Bolsonaro, que sequer tomou posse.

Quanto à alegação da ditadura de Cuba no sentido de que o Brasil deu um “golpe de Estado legislativo-judicial contra Dilma Rousseff”, parece linguagem de petista.

Aliás, o petista histórico José Dirceu treinou táticas de guerrilha em Cuba.

Como se sabe, o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff obedeceu aos procedimentos previstos na Constituição da República e nas leis ordinárias.

Mais: o processo de impeachment foi presidido pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowiski, amigo pessoal de Lula da Silva e petista nas horas vagas.

Lewandowiski até deu uma amaciada na situação, para deleite dos petistas. Criou uma brecha e manteve os direitos políticos de Dilma Rousseff, embora a Constituição determine de modo diverso.

A ditadura comunista de Cuba condenar golpe é risível.

araujo-costa@uol.com.br

José Dirceu, condenação e miséria humana

A pena de prisão está falida. Conclusão interessante para quem deseja entender o sistema prisional, não somente brasileiro, mas universal. É um assunto que interessa aos operadores do direito, interessa à sociedade, interessa aos condenados à pena privativa de liberdade.

Há uma imagem histórica e deprimente nos registros recentes da política. A televisão mostrou o ex-ministro José Dirceu de Oliveira e Silva à época da CPI da Petrobras sendo conduzido da carceragem para prestar depoimento aos membros da comissão, que acabou não acontecendo, porque ele se valeu do direito constitucional de permanecer em silêncio.

A imagem é triste. José Dirceu se mostrava alquebrado, moribundo, humilhado, silente, fragilizado. Uma gritante contradição entre o irrequieto líder estudantil da segunda metade da década de 1960, na agitada Rua Maria Antonia, em São Paulo, mais tarde todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil da República e o agora condenado.

Não cuido do mérito da questão. Não me atrevo a isto, tampouco das razões antecedentes que levaram José Dirceu à condenação. Esta é atribuição do Poder Judiciário e suas instâncias. Aqui a seara é outra.

Refiro-me à proximidade entre a delinquência e o tênue fio que prende o ser humano às adversidades e às surpresas que suas fraquezas e misérias nos causam.

Parte da geração a que José Dirceu pertence cresceu lutando contra as atrocidades dos governos militares advindos do movimento de 1964. Muitos o elevaram à condição de líder, entronando-o no pedestal de seus sonhos, cientes de que ele defendia os valores morais e democráticos de toda uma geração e, quiçá, do Brasil inteiro.

É decepcionante vê-lo hoje cumprindo pena, sob acusação de corrupção e da prática de  crimes correlatos. Conduta exatamente contrária a tudo que ele pregou e dizia defender nos idos da efervescente juventude.

É difícil comparar o José Dirceu da época do surgimento dos Beatles, cabelos longos, altivo, combativo e estrategista, passando pelo auge de sua luta política de 1968 e 1969 e pelos congressos estudantis, desaguando, afinal, no estuário da situação de hoje, moralmente despido e aguardando ser recolhido novamente ao encarceramento.

É difícil admitir que seus discursos fossem hipócritas, que suas palavras eram vazias e dirigidas ao vento e não à consciência dos jovens que tanto sonhavam com um Brasil grande, justo, decente e de oportunidades para todos.

A juventude daquela época via José Dirceu como porta-voz de seus anseios legítimos.

Contudo, a prisão não freia a delinquência. Ao contrário, oportuniza outros vícios e degradações aos apenados, tornando-os mentalmente doentes, porque ficam espremidos em horrendos calabouços e distantes de outras formas de convivência minimamente sadias.

Dir-se-á: a função das prisões é mesmo arrancar os condenados do convívio social, obrigando-os a pagar por suas atividades delitivas. Correto. Mas é ponderável desejar que a grandeza humana encontre outras formas mais eficientes de puni-los pelo mal que fizeram à sociedade.

A prisão é um mal necessário, mas não resolve o cerne da questão, que é extirpar da sociedade todas as formas de desvio moral e criminoso.

A segregação do condenado por muito tempo ocasiona difícil reinserção à sociedade.

É preciso punir exemplarmente o delinquente de tal sorte que não se veja aniquilado moralmente e impedido de voltar ao convívio social.

Pode ser difícil, pode ser contraditório. Mas é humano.

As prisões não educam. Embrutecem, aniquilam, dilaceram.

A história seria outra, talvez pior, não se sabe ao certo. O candidato natural do PT para a sucessão de Lula da Silva seria José Dirceu e não Dilma Rousseff.

Entretanto, José Dirceu se envolveu em tudo aquilo que conhecemos, foi processado e condenado pelo Supremo Tribunal Federal em razão do mensalão e cassado pela Câmara dos Deputados.

O curso da história mudou e mudaram-se as perspectivas da política.

Recentemente José Dirceu lançou um livro. Lá conta sua história, seu trajeto, suas misérias. Mas não explica o desvio do caminho.

araujo-costa@uol.com.br

Página de um diário inexistente

Quando eu era famoso – acredite o leitor, já fui famoso nalguma quadra da vida – tinha um assistente que cuidava de minhas correspondências.

Certo dia, ao ver o nome do município do remetente, ele sapecou a observação: “você recebe carta de cada lugar esquisito!”.

Fiz-lhe ver que os lugares não são esquisitos. Esquisitos somos nós que achamos lugares, coisas e pessoas esquisitas e até fazemos observações esquisitas.

A fama passou em minha vida como um relâmpago e foi-se embora, rapidamente, sem deixar vestígios de sua passagem. Não deixou saudade.

Já a pobreza, à semelhança de uma tartaruga, chegou lenta, devagar, paciente. Companheira fiel e diuturna insiste em não me abandonar e faz questão de deixar suas marcas.

Deixar marcas é a especialidade da pobreza. É só observar os maltrapilhos, desdentados, os miseráveis que nossa sociedade cruelmente constrói com a indiferença de sua ganância.

Há marca mais cruel do que o rosto de uma pessoa faminta? Há marca mais dilacerante do que a dor de uma criatura pobre e desamparada?  

Tenho sugerido à pobreza para escafeder-se, baixar noutro terreiro, mas não tive sucesso nessa empreitada até agora. É cara de pau, faz-se de desentendida, parece surda e faz questão de me aporrinhar cotidianamente. Quando me livro da dita cuja, retiro-me sorrateiramente, mas ela me alcança na primeira esquina.

Ainda falando de fama, um pesquisador, mais de fofocas do que de coisas relevantes, manifestou desejo de conhecer meu possível diário, alegando curiosidade sobre alguns pontos de minha vida.

Disse-lhe que não tenho diário nenhum, nunca me preocupei em anotar circunstâncias do meu viver, o que visivelmente o deixou desapontado.

Entendo que não tenho lições e experiências para servirem de modelo e, se as tivesse, não colocaria num diário frio, particularíssimo, solitário, passível de pesquisa, mas deixaria ao conhecer de todos.

Quanto a possíveis segredos, se os tivesse, seriam inconfessáveis ou não seriam segredos. Como diz a sabedoria mineira, “conversa com mais de dois é comício”.  Os confidentes de hoje podem não ser confiáveis amanhã.  

As pessoas somente se interessam por detalhes da vida de um pé-rapado se ele for meliante, assim mesmo para espezinhá-lo, trucidá-lo, expor suas entranhas, desgraças e fraquezas diante de todos.

Todavia, no recôndito de nosso ser, no âmago da existência, há sempre alguma coisa que não gostaríamos que outros conhecessem. E se é assim, guarda-se, não se coloca em diário, senão acaba virando uma crônica como esta.  

araujo-costa@uol.com.br

 

O museu do Lula, que não é do Lula

A novela do museu do Lula, em São Bernardo do Campo, parece se encaminhar para o fim.

A Justiça Federal autorizou a troca da finalidade do equipamento público por uma fábrica de cultura que, honestamente, não sei bem o que diabo é isto.

Acontece que, desde o início em 2012, a obra enfrentou problemas. Idealizada por Luiz Marinho, ex-ministro e amigo pessoal de Lula da Silva e à época prefeito de São Bernardo do Campo, a construção se transformou em dor de cabeça.

O Ministério Público Federal enxergou o desvio de, pelo menos, R$ 7,9 milhões de recursos públicos, além de superfaturamento.

A obra havia sido orçada em R$ 18,3 milhões. O dinheiro acabou com a construção ainda no esqueleto e o prefeito pediu mais R$ 4,5 milhões ao Ministério da Cultura, que negou.

Surgiu outra situação grave: o Ministério Público descobriu que um dos sócios da construtora licitada para cuidar da obra era um desempregado que, no contrato social, participava do capital da empresa com R$ 10,4 milhões.

Procurado, o coitado do desempregado, presumivelmente laranja, declarou que nunca teve construtora na vida e não sabe do que se trata tanta riqueza atribuída a ele, que nunca viu.

O PT conseguiu que o homem ficasse rico sem saber, embora continuasse pobre e desempregado. É uma simbiose que só o PT consegue fazer. Coisa de gênio.

Resultado: a Justiça Federal mandou prender quatro secretários de Luiz Marinho, que também foi indiciado e ainda não conseguiu explicar a maracutaia. Ele diz que é inocente. Eu acredito  que seja.

Luiz Marinho disputou a eleição para governador de São Paulo em 2018, mas amargou o quarto lugar. Perdeu inclusive em São Bernardo do Campo, onde mora e foi prefeito por oito anos.

São Bernardo do Campo é o berço do deslumbrado Partido dos Trabalhadores (PT). Agora, com a senadora Gleisi Hoffmann na presidência nacional, o partido está em queda livre. Se tirarem ela de lá, o PT melhora, volta a crescer. Qualquer um que colocarem lá é melhor do que ela.

Segundo o ex-prefeito e idealizador do equipamento, o prédio destinar-se-ia ao Museu do Trabalho e do Trabalhador. Como se vê, uma genialidade. Certamente lá seriam colocadas algumas réplicas de máquinas industriais antigas e fotografias do início da fase industrial paulista.

Entretanto, dizem os entendidos em desconfianças, que o então prefeito Luiz Marinho queria mesmo era prestar uma homenagem ao seu padrinho político e amigo Lula da Silva de quem foi ministro duas vezes.

Convenhamos, Lula merece um museu para expor suas megalomanias, mas pago com seu dinheiro e não com dinheiro público. Ele poderá fazê-lo a qualquer tempo.

Todavia, neste mesmo São Bernardo do Campo, quem precisa de atendimento médico fica nos corredores do Ponto Socorro Central da cidade e nas UPAs e UBSs da vida, em macas improvisadas, por falta de leitos hospitalares.

Pior: não faltam somente leitos. Falta tudo, inclusive remédios e decência.

Pujante, São Bernardo do Campo não disponibiliza atendimento médico decente aos seus habitantes. Nem o fará tão cedo, pelo andar da carruagem.

Os R$ 18,3 milhões que Luiz Marinho empregou no museu eram suficientes para construir no mesmo lugar um hospital, uma escola ou mesmo uma creche para pessoas carentes.

O melhor Museu do Trabalhador é uma aposentadoria digna para cuidar de sua velhice e não ostentação dessa envergadura, cara e inútil.

De qualquer forma, o museu do Lula, que Luiz Marinho dizia que  não era do Lula, não será mais museu e muito menos do Lula. Por enquanto.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia que o PT esconde

A Bahia é o estado onde a miséria mais cresceu nos últimos quatro anos, dentre as vinte e sete unidades da federação, segundo levantamento da Consultoria Tendências (Valor Econômico, 09/10/2018). Curiosamente, o estado é governado pelo PT há doze anos. Simples assim. O PT conseguiu aumentar a miséria na Bahia.

A extrema pobreza na Bahia é estratosférica. E estratosférico é o embuste idealizado pelo PT para alardear por aí, aos incautos, que desviou o Brasil do caminho da miséria e, por consequência, certamente também desviou a Bahia, que o partido governa ininterruptamente desde 2007.

Um pouco mais de 1,8 milhão de famílias baianas com renda domiciliar per capta de R$ 85,00, tornaram-se presas fáceis de políticos em discursos recheados de lorotas.

Cadastrar famílias nos programas sociais do governo federal não é privilégio do PT. Outros fizeram. Inclusão social decorre da lei, basta cumprir.

Em 2016, o Ministério Público Federal da Bahia mandou apurar a suspeita de que até servidores públicos e empresários recebiam o benefício do programa bolsa-família, entre outras irregularidades, alguns até doadores de campanhas eleitorais.

Sem dúvida, esses devem constar nas robustas estatísticas do PT na condição de excluídos da extrema pobreza e como uma glória alcançada pelo partido.

Os discursos dos petistas sobre distribuição de renda são hilários, extravagantes, exagerados.

Nos governos do PT, segundo Lula da Silva e os radicais do partido bem remunerados para contarem lorotas, o Brasil virou um paraíso. Só faltou o Jardim do Éden.

O fato é que a miséria dobrou na Bahia, em quatro anos. De 4,8% em 2014, atingiu 9,8% em 2017. Deve ser por conta da eficiência administrativa dos governos petistas, que se intitulam os únicos capazes de impulsionarem o desenvolvimento do Brasil.

Eles têm razão. Impulsionaram muito bem o Brasil de ladeira abaixo. No despenhadeiro jogaram 11,4 milhões de desempregados, que dona Dilma Rousseff empurrou para Michel Temer e só com a rapina na Petrobras, a Polícia Federal estimou R$ 42,8 bilhões de prejuízo, em números modestos, para ficar nestes dois exemplos.

Entretanto, o governador Rui Costa foi reeleito em outubro, no primeiro turno, com 75,5% dos votos válidos dos baianos, o que faz pressupor que o homem é bom de argumento e consegue tapar o sol com peneira.

Num quadro desses, convencer mais de cinco milhões de eleitores que a Bahia vai bem é o mesmo que colocar suspensório em cobra. Ele conseguiu, com a ajuda providencial de seu padrinho político Jaques Wagner.

Danem-se os índices econômicos, dane-se a cruel realidade, que insiste em surrupiar a comida da mesa do povo.

O PT diz que a Bahia vai bem. E há muita gente que acredita. A voz das urnas sinalizou isto, sem dúvida.

Temos, portanto, a Bahia da propaganda, que o PT mostra e a Bahia real, que o PT esconde.

Um registro: dois estados apresentaram queda da pobreza nos últimos quatro anos, Paraíba e Tocantins.

Interessante, os governadores de lá não são do PT.

Seria bom o governador Rui Costa conversar com eles para aprender a receita e melhorar os índices da Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

Assaltos na BR 116: falta governo, sobra descaso.

Bahia e Pernambuco jogaram a toalha. Não conseguem negar a vergonhosa ausência de atuação governamental no que concerne à segurança pública em algumas áreas nevrálgicas de seus territórios.

Bandidos tomaram conta de diversos trechos da BR 116, mormente na chamada Faixa de Gaza, que compreende o trevo de Ibó, município de Abaré, no território baiano e o outro famigerado trevo, que abrange o município pernambucano de Cabrobó e se estende por Salgueiro e circunvizinhanças.

Não é de hoje que caminhoneiros e usuários daquela estrada, de modo geral, sofrem e reclamam dos constantes e violentos assaltos e os governos de ambos os estados dão de ombro, como se não fosse atribuição deles cuidarem da segurança pública na região.

A população daqueles municípios e todos que trafegam por lá estão atônitos, assustados, desamparados, abandonados, ao deus-dará.

Meliantes colocam pedras, pedaços de madeira, miguelitos e toda sorte de obstáculos sobre a pista, com o intuito de atrapalhar o tráfego e oportunizar a prática de assaltos até, com frequência,  na modalidade arrastão.

Em decorrência dessa prática criminosa, esses assaltantes já causaram inúmeros acidentes, alguns com mortes. Fortemente armados, assaltam à vontade, impunemente, porque contam com o descaso dos governos estaduais.

É sabido e inegável que os agentes da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Militar são insuficientes, embora façam o possível para evitar a ocorrência da criminalidade na região, mas falta-lhes apoio dos governos estaduais.

Por se tratar de uma rodovia federal, a Polícia Rodoviária Federal também se faz presente na região, mas com as naturais dificuldades, inclusive de efetivo.

Com tanto descaso dos governantes, a ação preventiva da polícia torna-se fragilizada e ineficiente, inobstante a abnegação e conhecida dedicação desses policiais.

A divisa dos estados da Bahia e Pernambuco, região também conhecida como “Polígono da Maconha”, está infestada de meliantes que lá encontram guarida, exatamente em razão da ausência de ações enérgicas desses relapsos governantes.

Os assaltos acontecem também e frequentemente na rodovia estadual BA 210, que liga os municípios de Juazeiro a Paulo Afonso e passa pelos territórios de Curaçá, Abaré, Rodelas e Glória.

Há anos, as ações criminosas vêm acontecendo a qualquer hora do dia ou da noite, porque onde falta autoridade sobram malfeitores.

Não obstante assaltos acontecerem em grande quantidade nos municípios baianos de Chorrochó, Abaré e Macururé, que abrangem a chamada Faixa de Gaza do sertão, tem-se notícia de que há caso em que o Boletim de Ocorrência foi elaborado em Euclides da Cunha, porque esses municípios não dispõem de estrutura próxima aos locais dos fatos.  Pelo que se vê, os municípios retro aludidos não estão preparados para enfrentar tais situações, sequer para viabilizarem a elaboração de boletins de ocorrência.

Se isto não for descaso do governo da Bahia, presume-se que tem outro nome: falta de responsabilidade ou, no mínimo, negligência em seu dever de cuidar da população.

Em quadro assim, é razoável entender que até os agentes de segurança que cuidam daquele trecho da BR 116 estão correndo perigo, máxime por duas razões: efetivo insuficiente e armamento em desvantagem com o usado pelos meliantes, geralmente abastecidos pelo tráfico de entorpecentes.

É seguramente certo que muitos desses delinquentes perigosos, que atuam na região, estão homiziados na zona rural daqueles municípios, mas o policiamento disponível não consegue alcançá-los, excetuados alguns casos eventuais.

Como se vê, as populações dessa região estão desamparadas, incluídos os usuários da BR 116, da BA 210 e estradas vicinais da Bahia e de Pernambuco.

Falta vigilância, falta policiamento ostensivo, falta governo, sobra descaso.

Todavia, Bahia e Pernambuco avaliaram muito bem seus governadores nas últimas eleições, reconduzindo-os a seus cargos, o que autoriza a entender que eles vão bem. A população é que vai mal.

araujo-costa@uol.com.br

Luta de palavras

“De literatura não se vive. Ao contrário, morre-se” (Everaldo Moreira Veras, da Academia de Letras e Artes do Nordeste)

Antigamente os amigos mandavam cartas. Hoje, se ainda nos restam amigos, mandam e-mails, quando muito.

As cartas eram emocionantes, extensas, saudosas. As mensagens eletrônicas de hoje são curtas, sucintas, frias, porque não redigidas à semelhança das cartas, calmamente, no remoer das emoções, no dizer da saudade.

Recebi e-mail de um leitor, que parece dar-se ao trabalho de ler meus textos. Pergunta, com a curiosidade de jovem: “Escrever é bom?”.

Não é. Escrever é uma luta de palavras. Contudo, vale a pena, quando essa luta é feita em benefício dos outros, principalmente de quem não tem voz para defender seus direitos. E neste caso, a luta sempre valerá a pena.

Eu comecei a fazer isto, ainda na vigência da ditadura militar, sujeitando-me a inúmeros riscos. Nos meus tempos de estudante em São Paulo fui vigiado, monitorado, questionado. Era perigoso contestar, discordar, sugerir, protestar.

Mas cito, para ilustrar, em resposta à curiosidade daquele leitor, algumas frases de escritores famosos, sobre o ofício de escrever. São conhecidíssimas, inclusive fartamente citadas pelo também escritor Fernando Sabino, em seu livro “Deixa o Alfredo falar!”.

Carlos Drummond de Andrade: “Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar”;

Ernest Hemingway: “Procure lembrar-se dos ruídos e do que eles lhe dizem. Então, escreva sobre eles da maneira mais clara possível para que o leitor tenha o mesmo sentimento que você”;

William Faulkner: “Se a gente perde muito tempo se preocupando com o estilo, acaba não sobrando nada, além do estilo”;

Rachel de Queiroz: “Não gosto de escrever. Escrever é um sacrifício”;

Dionísio Jacob: “Eu acredito que o que leva alguém a escrever é uma necessidade profunda de dar expressão a uma voz interna. Seu foco é sempre o teatro da alma. Tudo aquilo que fala à alma pode inspirar ou motivar um texto”.

E por último, uma frase que li muitas vezes em minha mocidade, mas não me recordo o nome do autor. Fernando Sabino também nunca o citou, ou porque não sabia ou porque, de tanto conversar consigo e com os outros, acabou esquecendo: “O escritor é um homem que passa a vida conversando consigo mesmo. Só há uma verdadeira vantagem em envelhecer: é que, com o correr do tempo, a conversa vai ficando cada vez mais interessante”.

Por isto, escrever é difícil. Quem escreve fica esgueirando-se entre cristais para não dizer besteiras, cometer ofensas, produzir polêmicas desnecessárias e aguçar incompreensões.

Hoje, tempo de tanta idiotice, inclusive do “politicamente correto”, qualquer deslize pode ultrapassar o âmbito da gafe e enveredar-se para a esfera da ofensa. É muito tênue o fio entre o que é certo e o que os outros acham que é o certo.

Assim, vale citar outra frase de Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Todavia, o que mais gratifica no espinhoso ofício de escrever é o interesse demonstrado por algumas pessoas sobre o que escrevemos. Mesmo que o escritor não seja famoso – e este é o meu caso – mas seja um sonhador incorrigível, um utópico que rema contra a maré do impossível, uma palavra sua pode servir de despertar.

E neste caminhar, é imperioso contribuir para que os jovens não descambem para o abismo da alienação e da mediocridade. É preciso mantê-los acordado para o mundo, mostrar-lhes a beleza da vida sem drogas, sem violência, sem agressão à sociedade.

É preciso ter coragem. Todos nós precisamos ter coragem, escrevendo ou não, para lutar por uma Pátria mais humana, onde todos sejam respeitados e tenham dignidade, independentemente da condição social que ostentam.

É estarrecedor ver pessoas humildes sendo tratadas com menosprezo, até mesmo nos tribunais, ao passo que, para os ricos, entendem-se tapetes vermelhos. Tapetes impregnados pelo odor da hipocrisia e da arrogância.

A luta de palavras far-se-á necessária, sempre. E lutar é bom. Talvez entre as palavras esteja alguma centelha de esperança para enfrentar o amanhã.

 araujo-costa@uol.com.br

A arte de amparar paredes.

O assunto é recorrente e até faz parte da cultura nacional: a preguiça de baianos e cariocas.

O jornalista mineiro Ivan Ângelo diz, em brilhante crônica: “No caso dos baianos, é mais estilo do que preguiça, é ritmo. Enquanto outros praianos descansam a metade da semana e trabalham a outra metade, os baianos vão trabalhando e descansando ao mesmo tempo”. 

Como se vê, um mérito. Os baianos também sabem inventar.

Cronista e romancista, Ivan Ângelo foi buscar lá, no começo do século XX, um amparo para sustentar essa suposta preguiça. Conta que o poeta Olavo Bilac escreveu que, em 1903, diante da grande quantidade de pessoas desocupadas no Rio de Janeiro, ouviu a seguinte pergunta de um jornalista argentino: “Que faz toda essa gente, que ampara as paredes das casas com as costas?”

Parece que o argentino confundiu não ter o que fazer com preguiça.

Na condição de baiano, saio em defesa de todos nós de minha encantadora província. Não somos preguiçosos. Damos um duro danado. Talvez tenhamos uma malemolência elegante, filosófica, uma sábia forma de viver.

Grande entendedor de hábitos e costumes baianos, o cantor Dorival Caymmi vivia em constante malemolência. Honra e glória da Bahia, Caymmi ria-se desse seu estado de graça e enfeitava essa sua maneira de viver e de muitos baianos.

Até Toquinho e Vinicius de Moraes entenderam esse espírito baiano e cantaram “Tarde em Itapoã:

“Depois, na Praça Caymmi

Sentir preguiça no corpo

E numa esteira de vime

Beber uma água de côco”.

Baiano não é preguiçoso. Sente preguiça no corpo, o que é diferente. E não cuida dessa arte de amparar paredes.

araujo-costa@uol.com.br

No meio do caminho

“Saí da autoestrada que me trazia de Florença, vinha distraído, pensando na vida, tomei um atalho que me parecia cortar caminho em direção ao centro de Roma e, de repente, me senti perdido.

Não conhecia aquelas árvores que minguavam com a chegada do inverno, nem aquelas casas esparsas e descascadas que volta e meia apareciam de um lado e de outro.

Sem referencial, sem bússola e sem cartas topográficas, o jeito foi me aproximar do homem que vinha andando pela estrada, meio curvado e, como eu, pensando na vida.

Perguntei onde estava. A resposta foi rápida e breve: “aqui”.

Não ousei contraditar a evidência de que estava ali, mas indaguei onde ficava aquele “aqui”, que ele mencionava com tanta e tamanha autoridade.

– “E eu sei?” – disse o homem, que a apesar da resposta rude, não parecia chateado.

Então, estávamos empatados, eu geograficamente, ele filosoficamente.

O diálogo seria impossível se o homem não fosse um italiano que, interrompido de pensar na própria vida, logo tratou de pensar na vida dos outros.

– “E aonde o senhor que ir? A Roma? Fazer o que lá? Sempre me perguntam onde fica Roma, e eu não sei o que tanta gente vai fazer lá”.

Pelo modo como ele falava, desconfiei de que todos os caminhos levavam a Roma, menos aquele em que me metera.

Um antepassado daquele homem, Dante Alighieri, também se perdera no meio do caminho e fora parar no inferno.

Preferi negociar:

– Olha, preciso chegar a Roma, se o senhor me der uma informação, eu posso lhe dar uns trocados.

– “Uns trocados? Pensava que Roma valia mais. Em todo caso, o senhor pegue a primeira à direita e depois vire sempre à esquerda”.

– Chegarei a Roma? Perguntei.

– “Não sei. Mas chegará a alguma parte”.

Texto extraído de “Eu, aos pedaços”, de Carlos Heitor Cony.

Observação do blogueiro:

Saudade doida de você, Cony! Você se foi antes do combinado.

araujo-costa@uol.com.br

O inoportuno Guilherme Boulos

“Nada acentua mais a autoridade do que o silêncio. Nenhum grande feito foi realizado pela loquacidade” (Charles de Gaulle, 1890-1970)

O invasor de propriedades Guilherme Boulos sofre de verborragia em estado avançado.

Disputou a eleição presidencial de 2018 e amargou 0,58% dos votos válidos do primeiro turno, o que significa que os brasileiros não lhe dão crédito. Ocupou o ridículo 10º lugar entre os concorrentes.

Entretanto, nem ao menos se fecharam as urnas, o senhor Boulos está indo às redes sociais insuflar os brasileiros a cometerem desatinos contra o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Certamente não será ouvido, tamanha sua insignificância, a julgar pelos votos que obteve nas urnas de 07 de outubro.

A insensatez do senhor Boulos é tanta, que não lhe permite enxergar que oposição se faz a quem está no poder. É prematuro chamar o povo às ruas neste momento, sem razão plausível, porquanto a posse do eleito dar-se-á somente em janeiro.

Contesta-se o que está errado ou não se aceita por questões razoáveis. Por enquanto, existe uma expectativa de poder, que somente se completará com a posse do eleito.

Ir para as ruas agora, como quer o senhor Boulos, significa ir contra a maioria que escolheu o presidente e não contra o escolhido.

É um desrespeito a quem votou diferente do senhor Boulos. Não há outra explicação que se aproxime da razoabilidade.

Despreparado e inoportuno, Boulos ainda se diz democrata. Ele precisa ler mais os compêndios de ciência política, para aprender que democracia não se compatibiliza com radicalismo.

Ser democrata é, basicamente, conviver com os contrários, saber respeitar a decisão da maioria.

Oposição se faz com debates de ideias na ocasião própria e não se valendo de baderna.

O senhor Boulos fala em democracia a todo instante e diz acintosamente que a pratica. Sofre de verborragia. Falta-lhe conteúdo responsável, útil, aproveitável.

Como ser democrata uma pessoa que não respeita a vontade das urnas?

Como ser democrata um sujeito que invade bens particulares, lixando-se para o direito de propriedade assegurado a todos os brasileiros pela Constituição da República?

Como ser democrata um suposto líder que, embora rico, usa a boa-fé de pessoas humildes, prometendo-lhes moradias, com o intuito de se destacar politicamente?

Pelo que se vê, o senhor Boulos aposta na confusão e não na democracia, talvez por ser incapaz de ostentar voz de liderança respeitável.

O senhor Boulos se arvorou líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), desafortunados que não têm onde morar.

Não se tem notícia de que o senhor Guilherme Boulos já mostrou a esses desafortunados a casa e o bairro onde mora em São Paulo. Certamente está longe de ser um sem teto.

Encerradas as eleições presidenciais de 2018, somente duas lideranças se destacam no cenário nacional como capazes de fazer oposição ao presidente Bolsonaro: Ciro Gomes e Fernando Haddad.

Ciro Gomes, porque é líder por excelência e Haddad, porque saiu fortalecido da disputa presidencial, não obstante o descaso que lhe fizeram lideranças do seu próprio partido.

Guilherme Boulos não se situa nessa expectativa de opositor respeitável. É um zero à esquerda, em se tratando de oposição séria. Não sabe negociar, ponderar, discordar, qualidades essenciais a quem faz oposição séria.

Os estrategistas políticos americanos têm uma máxima: “as pessoas às vezes se cansam de ouvir um político falar e é sensato que ele se retire de tempos em tempos da arena pública para, quando voltar, suas palavras adquirirem impacto muito maior”.

Seria bom para os ouvidos de muitos brasileiros que o senhor Guilherme Boulos se retirasse por algum tempo do cenário político. Quem sabe voltaria mais maduro e mais sábio, qualidades que hoje lhe faltam.

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