A República, o cárcere e os presidentes

O tempo vem humilhando nossa combalida República e sucateando a conduta de políticos que detêm ou detiveram o poder.

Já escrevi, neste espaço, que a cadeira presidencial em que se sentou Jânio Quadros não podia ter acolhido as “nádegas indevidas” de Lula da Silva e dona Dilma Rousseff, ressalvada a vontade soberana e inquestionável do povo, que os escolheu.

O próprio Jânio a desinfetaria – se vivo fosse – como fez em 1985, ao desinfetar a cadeira do gabinete da Prefeitura de São Paulo, na qual equivocada e apressadamente se sentou Fernando Henrique Cardoso, que concorreu com Jânio, sentiu-se vitorioso a ponto de tirar foto na cadeira do prefeito, mas perdeu. Acreditou demais em pesquisas de opinião e passou o vexame histórico.

“Desinfeto porque nádegas indevidas se sentaram nela”, disse Jânio Quadros.

Contudo, a democracia ainda é o melhor de todos os regimes políticos, porque fruto da soberania popular. Escolher errado não exclui e nem macula o direito de escolher.

Há uma disparidade entre o caráter inflexível de Jânio, o respeito que ele tinha com a coisa pública e a postura de estadista comparados com a conduta e forma de governar de Lula e de dona Dilma.

O ex-ministro Palocci, que foi ministro e pessoa de extrema confiança de ambos, apresentou uma enxurrada de acusações e, segundo ele, de provas, contra Lula e dona Dilma, envolvendo o uso indevido de dinheiro público. Entristece-nos a todos.

Hoje, acrescento a esta lista de desajustados presidentes, o senhor Michel Temer, que se mostrou uma decepção e inegável vergonha no comando da República.

No curto período de seu governo, ainda em curso, Temer se preocupou mais em se defender de pesadas acusações do que da administração pública, até por falta de tempo e tranquilidade para, simultaneamente, cuidar de sua defesa e da administração.

Se os ventos não soprarem em rumo diverso, pelo andar da carruagem teremos três ex-presidentes presos ou, no mínimo, com prováveis chances de serem condenados: Lula da Silva, que já amarga o cárcere, Dilma Rousseff e Michel Temer, coisa nunca vista na história do Brasil.

Salvo engano ou tecnicismo das leis penais, os crimes pelos quais Michel Temer está sendo acusado – corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa – são os mesmos atribuídos a Lula da Silva, o que faz pressupor que existia uma identidade de propósito político entre ambos, mais por conta da estrutura partidária (PT e MDB) que comandavam, estrutura esta que mandava no governo.

Lula da Silva empurrou Michel Temer goela abaixo de Dilma Rousseff, que não o queria, para compor a chapa na condição de vice-presidente no primeiro mandato dela e o manteve, estranhamente, no segundo mandado.

Hoje os petistas e aliados chamam Michel Temer de golpista, mas omitem que ele foi posto lá estrategicamente por Lula da Silva.

“Neste angu tem caroço”, diriam os desconfiados. Algumas das práticas delituosas atribuídas a Michel Temer se irmanam com as práticas das quais Lula é acusado: o uso de decretos e medidas provisórias para beneficiar empresas em troca de propinas, dentre outras parecidas. O caminho para o delito parece igual. Coincidência? Pode ser.

Lula e Michel Temer dizem que são inocentes. Como diria o humorista, “esta nem brasileiro acredita”.

Todavia, isto nos remete para conjecturas: ou Lula da Silva ensinou a maracutaia a Michel Temer ou Michel Temer ensinou a maracutaia a Lula, mas parece que um aprendeu com o outro.

É verdade que tudo isto será apurado, o que não significa que restará provado. Ninguém pode ser condenado por antecipação ou com base em notícias veiculadas na imprensa. O que vale é a palavra final do Poder Judiciário, considerados todos os recursos processualmente cabíveis. Mas está cheirando mal.

Neste tempo de safadeza, altas figuras da República passam a ter estreito e possível relacionamento com o cárcere, o que é uma tristeza para todos os brasileiros.

araujo-costa@uol.com.br

Para refletir, para acordar, para chorar

Dilacerante a reportagem abaixo do Câmera Record, programa jornalístico exibido em fevereiro pela TV Record.

Este é o Nordeste. Este é o retrato do Brasil desamparado que luta pela sobrevivência.

Este é o Nordeste que Lula da Silva e o PT dizem que tiraram da pobreza.

O PT e seus arraigados apoiadores têm sofisticadas técnicas para distorcer a verdade. Mas a verdade está aí, nua, crua, inegável, inescondível.

Quem não conhece a região Nordeste e a miséria que dilacera a vida dos que ainda sobrevivem por lá nos locais mais inóspitos acredita na conversa desses impostores.

Há pessoas que conhecem o Nordeste apenas pela televisão e redes sociais e não têm a mínima ideia do que seja uma região entregue a políticos inescrupulosos durante seguidas décadas, séculos até.

Na região Nordeste, como noutras partes do Brasil, ainda vale o tapinha que os políticos embusteiros dão no ombro do eleitor, em época de campanhas eleitorais. Eleitos, viram as costas para a população, desaparecem, vão cuidar dos seus interesses pessoais. É regra, não é exceção. Os exemplos estão aí claros. Assim se sustentaram as oligarquias, assim se sustentam os políticos até hoje.

O nordestino é humilde, hospitaleiro, simplório, gosta de atenção, atenção esta que quase sempre vem em forma de interesses escusos de políticos malandras.

Sou nordestino da caatinga. Conheço bem. Ninguém me contou nada disto. Eu vi. Ainda é assim, continuará assim.

A pobreza no Nordeste existe há séculos. Não é culpa do PT. Seria insensato dizer isto. O PT não pode ser responsabilizado por tudo. O que está errado é o PT e Lula da Silva alardearem, acintosamente, que exterminaram a pobreza ou quase toda ela.

Não sei se é cara de pau ou menosprezo à inteligência alheia, inclusive dos nordestinos que sofrem.

Dados recentes noticiados pela imprensa dão conta de que há, pelo menos, 52 milhões de pessoas no Brasil, abaixo da linha da pobreza, isto significa dizer que essas pessoas vivem em condições subumanas. Ou seja, não comem ou, se comem, o pouco que comem não é suficiente para eliminar a fome. Moram em situações de risco, expostas a intempéries, insetos, insegurança, fome, descaso do poder público, etc.

Até dezembro de 2017, o programa bolsa família do governo federal atingiu aproximados 13,4 milhões de brasileiros. É pouco nesse universo de desamparados.

Entretanto, esse programa assistencialista, apesar de valioso, não resolve a situação da extrema pobreza. O que resolve é a adoção de pesados investimentos da União, estados e municípios que atinjam educação, saneamento básico, saúde, moradia, produção de alimentos, preparo escolar e técnico de jovens e, sobretudo, uma política perene e constante com o intuito de permitir opções para que os necessitados se levantem e andem de acordo com sua própria vontade e não dependam de promessas mirabolantes de políticos e governos irresponsáveis.

Outro dia o governador do Piauí Wellington Dias (PT) emocionou-se diante das câmeras de televisão, porque foi eleito para o quarto mandato.

Não sei se Sua Excelência se emociona ao transitar nos paupérrimos municípios do seu estado, principalmente na zona rural, onde a cara da fome é o retrato mais presente, inclusive Guaribas, objeto da reportagem do Câmera Record.

Sintomático que esse município visitado pela reportagem tenha sido escolhido por Lula da Silva para lançar o fracassado programa Fome Zero, que os governos petistas de Lula e de dona Dilma Rousseff foram abandonando no meio do caminho, ao tempo em que dilapidavam os cofres públicos de estatais e afins.

Nesta campanha eleitoral, o Nordeste está, mais uma vez, diante do fogo cruzado de petistas e aliados de um lado e, de outro lado, não petistas e seguidores de outras denominações partidárias.

Trata-se de uma imbecilidade, que nada acrescenta aos moradores da Região, mormente os desesperançados e expõe as vísceras e a falta de caráter dos políticos regionais ou com interesses e ramificações nacionais.

O Nordeste é dono de sua vontade, queiram ou não os idiotas de plantão.

A reportagem a que me referi acima é do jornalístico Câmera Record. Ei-la:

Chorrochó, tempo de contar: Francisco Afonso de Menezes

“A verdadeira juventude é uma qualidade que só se adquire com a idade” (Jean Cocteau, 1889-1963)

Deixo de lado a modéstia – se é que a tive nalgum tempo – e cuido aqui de um amigo precioso: Francisco Afonso de Menezes.

Amigos que tenho, alguns tantos que não são meus amigos e outros mais que detestariam ser meus amigos já me disseram, por vezes, que sou mais arrogante do que modesto. Eles devem ter razão.

Todavia, vivo também meus momentos de humildade. Lembro os amigos, os caminhos percorridos, os tropeços, as pessoas boas com as quais convivi e, sobretudo, sou grato a todas, mormente aquelas que me suportaram. Foram tantas! São tantas!

Francisco Afonso de Menezes é chorrochoense da gema. Mantém-se ligado ao município por simultâneos vínculos de família e tradição. Defensor intransigente da cultura de Chorrochó, Afonso tem sido vigilante no sentido de preservar as tradições da Paróquia de Senhor do Bonfim, embora tenha sido cauteloso no trato com o entendimento às vezes exaltado de pessoas que pensam de modo diverso. Quase sempre é contemporizador em benefício das tradições locais.

Afonso é uma espécie de personal consultant de muitos. Confesso que aprendi muito com ele em momentos em que era preciso saber lidar com os impulsos que me empurravam para o despenhadeiro da inconsequência e do imponderável.

Afonso é cria da pioneira Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco (FAMESF), que lhe concedeu a graduação e o tecnicismo profissional que soube exercer com afinco e responsabilidade.

É estudioso dos assuntos de sua formação e profissional respeitado em seu meio de atuação. Ostenta considerável folha de serviços prestados ao desenvolvimento da agricultura moderna da região como grande conhecedor das ciências agrárias.

Começou sua vida profissional na então conceituada EMATER-BA, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia, instituição que prestou, em sua área, valiosa e eficiente contribuição para a população do semiárido baiano.

Contudo, não trato aqui do profissional. Não tenho preparo para tanto. Quero dizer mesmo é que me fiz amigo de Afonso, coisa lá de algumas décadas. Também, não quero falar aqui de sua conspícua família, esteio de pessoas de bem de Chorrochó, tampouco de seu pai Joviniano Cordeiro de Menezes (Jovino) e de sua mãe Maria Alventina de Menezes (Iaiá).

Limito-me ao jovem Afonso que conheci em Chorrochó: afável, estudioso, inteligente, cortês, encantador.

Na juventude, em Chorrochó, ele fazia parte de um vistoso quarteto: José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Juracy Santana e ele próprio. A eles se somavam outros tantos, a exemplo de Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes. Eu não fazia parte dessa saudável confraria.

Quase todos já se foram. Continuamos alguns poucos, saudosos e circunstantes, cônscios da efemeridade da vida, meditando, remoendo, ruminando as vicissitudes do existir.

Admiro algumas qualidades de Afonso, dentre essas o apego às tradições da terra natal, o arraigado interesse pela história do município e, sobretudo, a lealdade aos seus princípios.

Outra qualidade de Afonso é a aptidão para preservar amizades, dentro as quais me incluo, honrosamente, não obstante tropeços ao longo do caminho, que ele sempre soube entender e contornar. Mantenho-o amigo. Mantemo-nos amigos. É um amigo generoso, sábio, compreensivo, prudente.

Afonso já se debruçou em tarefas ingentes com vistas ao enriquecimento da história de Chorrochó. Sobressaem-se dois livros: Memorial Cordeiro de Menezes e História de Chorrochó, este em coautoria com a insigne professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes de quem sou renitente admirador.

Afonso é autor do Hino de Chorrochó e da Bandeira do município, relevantíssimos feitos que, por si sós, enriquecem e emolduram sua biografia de forma perene e contribuem valiosamente para a grandeza de Chorrochó.   

Afonso é também administrador de empresas. Extraí estas suas palavras do discurso de formatura: “A capacidade sonhadora é bem maior que as realidades existenciais e a força de identificar sonhos com a vida faz com que acreditemos que o amanhã será melhor”.

Trata-se de pensamento otimista, eloquente, estribado na esperança e na crença de horizontes promissores. É um bálsamo para a juventude, mesmo aquela que se tornou jovem com o envelhecimento, com o passar dos anos.

Deixei para o final, adredemente, a inclusão do título (Doutor) que omiti no texto e que Afonso dignamente ostenta: Dr. Francisco Afonso de Menezes.

E como iniciei este texto citando a frase de Jean Cocteau sobre a juventude e, presumindo que Afonso algum dia venha a se deparar com esta crônica, faço-lhe a pergunta, usando o linguajar de nosso tempo: continua jovem, bicho?

araujo-costa@uol.com.br

Haddad tenta dialogar com a indiferença

“Não se faz política sem vítimas” (Tancredo Neves).

Fernando Haddad foi obrigado a assumir sua candidatura presidencial, em decisão tardia, mas necessária.

A equipe de confiança de Haddad o convenceu de que é por demais constrangedor ele ir quase todos os dias ao cárcere, ajoelhar-se aos pés de Lula e ouvir as ordens do morubixaba petista, o que tem sido para ele uma rotina embaraçosa.

Pessoas próximas a Haddad orientaram-no no sentido de assumir sua identidade, ser ele próprio o candidato presidencial e não fantoche do ex-presidente Lula, o que lhe desmoraliza como político e dá munição aos adversários. Haddad aceitou a sugestão aliviado.

Haddad não é títere, mas vítima da malandragem política de Lula, que o usou até mais não poder.

Já está dando certo a decisão da campanha de Haddad. O nome de Lula vai ser omitido, paulatinamente, nas falas e propagandas do segundo turno e, mais do que isto, a coordenação da campanha petista está adquirindo ares de seriedade, o que não se via antes.

O senador eleito e ex-governador da Bahia Jaques Wagner parece que vai integrar a coordenação da campanha presidencial petista e já ponderou: “o povo precisa conhecer o Haddad. Ele tem de assumir personalidade própria”.

Jaques Wagner era a primeira opção de Lula para a cabeça de chapa, em sua substituição. Experiente, declinou do abacaxi e abraçou a candidatura ao Senado da República. Está rindo à toa, sentado na prerrogativa de foro adquirida nas urnas da Bahia. Se a Lava Jato não lhe importunar até 31 de janeiro de 2019, somente poderá fazê-lo depois de oito anos.

Entretanto, Lula sinalizou para que Jaques Wagner passe a coordenar a campanha de Haddad, diante do clima de desânimo que tomou conta do candidato, após o primeiro turno das eleições, tendo em vista que ainda persiste a divisão do PT no que tange à candidatura Haddad.

Também faz parte da equipe que tenta mudar os rumos da campanha presidencial petista o ex-guerrilheiro Franklin Martins, homem de estrita confiança de Lula e profundo conhecedor de suas intenções na área da imprensa e Gilberto Carvalho, “o seminarista” de Santo André, pés e mãos de Lula.

A preocupação petista é que Jair Bolsonaro cresceu em todas as regiões, exceto no Nordeste, o que já era esperado. Isto tem dificultado as negociações do núcleo da campanha de Haddad para angariar apoios no segundo turno.

Os eleitores de Bolsonaro não se vinculam a líderes partidários e por isto a ausência de canais na campanha de Haddad tendentes a atrair tais eleitores para seu lado e mais alguns incautos.

Certo mesmo, por enquanto, só o apoio do lulista convicto Ciro Gomes, o que já se esperava e também o pífio apoio do invasor de propriedades Guilherme Boulos.

Haddad forçosamente terá de tentar dialogar com a indiferença, com o antipetismo e com os eleitores decepcionados com os desacertos da era Lula/Dilma.

É um tanto difícil.

araujo-costa@uol.com.br

Haddad e a sabedoria de Jaques Wagner

Diz o conhecido ditado popular que “água de morro abaixo, fogo de morro acima e eleitor querendo trair, ninguém segura”.

O encerramento da campanha de primeiro turno de Fernando Haddad dar-se-ia no ABC paulista, mais precisamente em São Bernardo do Campo, berço do Partido dos Trabalhadores e local da residência de Lula da Silva. Este é um simbolismo muito caro ao lulopetismo.

Todavia, o vertiginoso crescimento do capitão da reserva do Exército Jair Bolsonaro nas pesquisas de opinião, mormente no Nordeste, reduto de Lula até aqui inquestionável, fez com que a direção da campanha do candidato petista o deslocasse para o município baiano de Feira de Santana, salvo alguma mudança de última hora.

Lá, mais à vontade, ao lado de Jaques Wagner e do governador Rui Costa, Haddad vai repetir o discurso lulista de defensor dos pobres e oprimidos.

A estratégia parece errada, como outras que o PT adotou nesta campanha. Na Bahia, Jaques Wagner e Rui Costa, salvo improvável tsunami nas urnas, estão com a eleição garantida para o Senado e governo da Bahia, respectivamente, ao passo que há outros lugares mais desfavoráveis a Haddad, que precisam da presença dele.

Todavia, o PT quer encerrar a campanha com apoteose e a Bahia é o lugar ideal, porque a maioria do eleitorado vota no PT, segundo os institutos de pesquisas, diferentemente do ABC paulista. Na Bahia, todo mundo o agrada, eleva-o à glória, exalta-o.

Quanto ao sensato Jaques Wagner é homem de partido. Desde a indefinição do nome de Lula, em razão de entraves jurídico-processuais, ele entendia que, no caso de impedimento do ex-presidente, o PT não deveria lançar candidato próprio, mas apoiar um nome viável de outro partido.

Wagner tinha simpatia por Ciro Gomes que, segundo ele, ainda tem chances de corresponder às “expectativas dos eleitores”.

O PT não aceitou a sugestão do ex-governador baiano. E Jaques Wagner passou a falar a mesma língua do partido e até embarcou na patacoada do ineficaz movimento “Lula livre”, embora soubesse que Lula estava juridicamente impedido de disputar a eleição presidencial. Mas é homem de equipe, estava fazendo o seu papel.

Jaques Wagner era o nome ideal para substituir Lula na chapa presidencial de 2018. Esperto, declinou da condição e preferiu a eleição para o Senado da República, que lhe garante oito anos de mandato, além de foro privilegiado.

Sobrou para Fernando Haddad, a outra opção de Lula.

Haddad segurou o rojão, embora uma parte dos petistas graúdos não o quisesse. Houve muita conversa,  Lula bateu o martelo e mandou que todos obedecessem.

No PT ainda é muito clara a máxima “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. E quem manda no partido é Lula e os demais obedecem, baixam a cabeça, subservientemente.

Contudo, Haddad não é homem de palanque. É uma cria da universidade. Intelectual, professor, mestre em economia e doutor em filosofia. Tem dificuldade de conviver com as cobras e lagartos petistas. Haddad tem pinta de sério e de defensor de suas convicções, o que é muito difícil estando no PT.

Em recente visita a Juazeiro da Bahia, Haddad ficou visivelmente desconfortável, quando um militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra colocou um boné vermelho na cabeça do candidato presidencial. Haddad o tirou de imediato. Percebeu a gafe e o recolocou, mas, em seguida, livrou-se do incômodo boné. Um pouco de timidez, quiçá falta de costume com a demagogia das campanhas eleitorais.

Quando o PT o abandonou em 2016, depois de derrotado na disputa pela reeleição de prefeito de São Paulo, Haddad esteve em vias de deixar o partido, mas o esperto e estratégico Lula o impediu. Lula sabia o que estava fazendo.

Agora, às vésperas do primeiro turno, Haddad encarna o sonho de vitória dos petistas e aliados e ostenta a dificuldade de carregar o pesado fardo com os erros do partido. Até o momento, não tem conseguido justificar o conteúdo da maracutaia que o PT lhe passou às mãos.

Difícil mesmo de Haddad carregar é a tendência do eleitor no sentido de aderir à candidatura de Bolsonaro nesta reta final da campanha.

Não deixa de ser uma preocupação para o polido Fernando Haddad. Se ele for eleito, sairá das urnas com cacife suficiente para mudar o rumo das práticas estrambóticas do PT e firmar-se como líder à semelhança de Jaques Wagner.

araujo-costa@uol.com.br

Entrevista: Lula da Silva também pode

Há inúmeros precedentes de presidiários que concederam entrevistas à imprensa, mormente à televisão, em programas de apresentadores e repórteres sensacionalistas, com claro intuito de angariar audiência e não, propriamente, de prestar informação à sociedade.

Para ficar em alguns exemplos, cito os questionáveis Roberto Cabrini e Gugu Liberato, mestres do sensacionalismo televisivo.

Se outros presos podem, Lula da Silva também pode. A lei é igual para todos ou, pelo menos, deveria ser. Cabe à administração do presídio, em primeiro lugar, permitir ou não a entrevista, desde que não arranhe os ditames da Lei de Execuções Penais e regulamentos internos.

Agora, o Supremo Tribunal Federal envolveu-se num considerável quiproquó, porque a Folha de S. Paulo pediu autorização para entrevistar Lula da Silva na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba.

Em princípio autorizada, a possível entrevista foi contestada e deslizou-se até chegar à mesa do amigo e habitué da cozinha de Lula da Silva, ministro Enrique Ricardo Lewandowisk, que autorizou a entrevista. Creio que com razão. O homem entende de direito, sim. É uma sumidade. Foi meu professor.

Entretanto, o vice-presidente do STF, ministro Luiz Fux revogou a decisão de Lewandowisk, que não gostou, obviamente. Ambos não podem se encontrar nos corredores do Supremo Tribunal Federal.

O caso caiu no colo do neófito presidente do STF, ministro Dias Toffolli, que o remeteu para o plenário do Tribunal, a instância certa para dirimir casos assim, envolvendo conflitos de interpretação entre ministros da Corte Suprema.

O plenário do Supremo Tribunal Federal certamente vai autorizar a entrevista de Lula, não somente à Folha de S. Paulo, mas a quaisquer órgãos de imprensa que eventualmente tenham interesse.

A liberdade de expressão do pensamento é direito de Lula da Silva e de todos os brasileiros abrigados sob o manto constitucional.

Entretanto, a questão chegou a esse ponto pelo seguinte: a entrevista foi pedida por uma jornalista sabidamente petista de carteirinha e, mais do que isto, solicitada às vésperas das eleições de sete de outubro próximo.

A conceituada jornalista teve tempo de sobra para pedir a entrevista com Lula. Ele está encarcerado desde abril. Propositadamente, deixou o pedido para as vésperas das eleições, para dar “Ibope”, melhor “Datafolha” .

Não precisa ser inteligente para pressupor que a entrevista de Lula não obedecerá a nenhum estilo jornalístico. Será um palanque para seu manjado discurso político, com o intuito de pedir votos para o PT, aliados e seus candidatos, mormente para Haddad.

Mas, se outros presos podem dar entrevista, Lula da Silva também pode. É inquestionável. Ou então, não se permita entrevista com nenhum preso.

A jornalista combinou a entrevista com a eficiente e estratégica assessoria de Lula da Silva, mas esqueceu de “combinar com os russos”, ou seja, com o Poder Judiciário que, ainda, apesar de tudo, é o poder mais sensato da República.

A entrevista foi pedida corretamente. O momento é que está errado. Podia ter sido antes. Pode ser depois das eleições.

Lula faria  e fará campanha do mesmo jeito. É seu direito, é seu estilo.

Aliás, por mais que a Polícia Federal e a Justiça silenciem, a cela-suíte de Lula da Silva em Curitiba é um sofisticado comitê eleitoral. Se permitem, ele pode usar.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva e o uso do cachimbo

“Quem não gosta do Brasil não me interessa” (Gilberto Amado, 1887-1969, diplomata e jurisconsulto)

Diz o conhecido ditado que “o uso do cachimbo deixa a boca torta”.

Todos sabem que Lula da Silva fuma charutos somente de finíssima qualidade, sendo certo que muitos deles foram presenteados pelo amigo e ditador cubano Fidel Castro.

Fidel Castro morreu, mas Lula continuou fumando charutos cubanos. Tinha muitos, inclusive armazenados no famigerado sítio de Atibaia, que Lula diz que não é dele e nunca foi dele, mas havia muitas caixas de charutos cubanos guardados lá.

Lula não sabe como os charutos cubanos que ele fumava foram parar no sítio de Atibaia, que não é dele.

Entretanto, fumar charuto ou cachimbo, não tem importância. O que se ventila é a repetição de atos pelo ex-presidente, atos esses já exaustivamente criticados pela sociedade.

Parece razoável entender que Lula não aprendeu amargas lições do passado, mormente as advindas do mensalão. Está incorrendo em contumácia, aquela figura jurídica prevista nas leis penais que depõe contra a conduta do delinquente, o que não significa necessariamente que ele seja um.

Revista de circulação nacional, a ISTOÉ publicou que Lula mandou um condenado do mensalão petista, que até hoje ele diz que nunca existiu, fornecer dinheiro para o deputado Weverton Rocha, candidato ao Senado da República pelo PDT do Maranhão.

Lula autorizou o amigo presidiário em bilhete: “Faça chegar dinheiro à campanha de Weverton Rocha”.

O também presidiário e amigo de Lula, segundo a revista, é o político paulista Valdemar Costa Neto, que comanda o Partido da República (PR) e tem tentáculos no Ministério dos Transportes. Dizem que ele mandou lá durante o governo Lula, no governo de dona Dilma Rousseff e continua mandando no governo Michel Temer.

Fala-se que o preço do deputado maranhense foi avaliado em R$ 6 milhões. O dinheiro foi transportado de jatinho, como acontecia antes nos tempos do mensalão e do petrolão – que Lula não sabia – e serviu para comprar o deputado federal e candidato ao Senado.

Até aí, nenhum surpresa, porquanto prática conhecida do PT, que Lula não sabia. O que surpreende é a contumácia de Lula e, sobretudo, o objetivo da compra do vendável deputado e candidato ao Senado: abandonar o apoio a Ciro Gomes – que nada mais é do que um lulista enrustido e traído pelo próprio Lula – e passar a apoiar Haddad, ventríloquo de Lula, o que o deputado comprado fez imediatamente, que não é de ferro,  tendo em vista tanto dinheiro.

Ironia: o dinheiro que Lula pagou, por intermédio do amigo presidiário, para o candidato maranhense trair Ciro foi transportado num avião marca Cirrus. Uma coincidência que mais parece código.

“Dinheiro por onde passa amolece”, dizia o sábio nordestino e paraibano José Cavalcanti, que costumo citá-lo neste espaço. Este escrevinhador costuma citar os sábios, os inteligentes, os experientes.

Assim, no Maranhão, o dinheiro amoleceu o vendável deputado Weverton Rocha, que mudou de lado e hoje – parece – é Haddad roxo, apesar de ser do PDT, partido do presidenciável ex-governador cearense Ciro Gomes.

A imprensa lulista e os blogs que o apoiam ficaram silentes, talvez estupefatos e nada comentaram sobre o fato de o ex-presidente, mesmo preso, continuar cometendo as mesmas práticas reprováveis da época do mensalão e do petrolão, que ele nunca ouviu falar.

Não importa se o deputado comprado é do Maranhão ou de outro estado, mas vale aqui o registro: Lula da Silva corre o risco de ficar com a boca torta de tanto usar o cachimbo da malandragem.

Lula precisa gostar mais do Brasil e menos dos políticos. Quem gosta do Brasil não precisa se vender. Quem gosta do Brasil não precisa comprar votos.

araujo-costa@uol.com.br

Para o PT, a lógica não tem lógica.

 

O PT tem dito e repetido, inclusive nas propagandas eleitorais, que “Lula é Haddad” e “Haddad é Lula”.

Esse subterfúgio interessa unicamente ao partido porque, além de confundir os eleitores dos chamados grotões, que não acompanham noticiários, os votos de Lula são carreados para Haddad, a chamada transferência de votos, por uma questão razoavelmente simples: Lula tem votos, Haddad não tem.

Em diversas partes do Brasil, o PT até distribuiu impressos com a conhecida cola, orientando o eleitor a votar. Nesses impressos, o nome de Haddad é substituído pelo nome de Lula. Ou seja, o PT admite que o eleitor vota em Lula, porque Haddad não existe. É uma ficção eleitoral.

Na Bahia e em Santa Catarina, a Justiça Eleitoral mandou apreender a propaganda enganosa, constando Lula como candidato a presidente, o que também deve acontecer noutros estados.

O PT tenta justificar a malandragem, dizendo que os impressos já estavam prontos antes da impugnação da candidatura de Lula. Conversa mole. Desde a confirmação da sentença condenatória de primeiro grau pelo Tribunal Regional Federal competente, Lula já sabia que não podia ser candidato.

Lula pode ser chamado de tudo, menos de ingênuo. Mais: é bem informado e rodeado de assessores experientes.

Lula determinou que a batalha jurídica em sua defesa adquirisse viés político, para ficar em evidência, até o momento da substituição de seu nome na disputa eleitoral.

Ontem, em São Bernardo do Campo, berço do PT, adversários do partido em campanha, inflaram o conhecido boneco pixuleco representando Lula da Silva com roupa de presidiário, mas colocaram uma fotografia de Haddad cobrindo a cara de Lula. Até ficou bonitinha a cara do Haddad.

Foi o suficiente. Defensores do PT e admiradores de Lula fizeram o maior escarcéu e, por pouco, não houve violência física. A Polícia e a “turma do deixa disso” evitaram as agressões.

A lógica do PT só funciona quanto favorável ao partido. Se não for, não tem lógica.

Se “Lula é Haddad” e “Haddad é Lula”, como diz o PT, que diferença faz substituir no pixuleco o rosto de Lula pelo rosto do Haddad?

Neste caso, parece que o folclore político substituiu, com vantagem, qualquer interpretação de possível ofensa.

araujo-costa@uol.com.br

A milionária mudança da juíza da Bahia

“Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos” (Stanislaw Ponte Preta).

Uma juíza do Trabalho de Irecê, centro-norte da Bahia, foi transferida para Eunápolis, que fica no sul do Estado. Sorte dela.

Sua Excelência ganhou, a título de ajuda de custo, para fazer a mudança, a mísera quantia de R$ 28,9 mil, o que aumentou seus vencimentos e demais penduricalhos, num único mês, para R$ 62,7 mil. Ela já tem direito ao auxílio moradia de R$ 4,3 mil por mês.

Em agosto, a juíza baiana recebeu vencimentos de R$ 62,7 mil, bem acima do teto constitucional de R$ 33,7 mil que a Constituição da República diz que é o máximo que um servidor público pode ganhar.

Sabemos que o teto é uma ficção, uma previsão constitucional hipócrita. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, um juiz de 47 anos de idade ganhou R$ 500 mil num único mês. O Tribunal de Justiça de lá disse que está certo. E o Conselho Nacional de Justiça, que ampara o corporativismo, confirmou.

O Tribunal Regional do Trabalho da Bahia disse que, neste caso, está certo, como dirá que está certo em todos os outros casos. Baseia-se numa regra de 2012 do próprio Tribunal, validada pelo Conselho Nacional de Justiça.

Está certo, mas sustenta a imoralidade.

A regra do Tribunal “prevê pagamento de despesas de transporte pessoal do magistrado, servidor e de seus dependentes, além do transporte de mobiliário, bagagem e automóvel” (Bahia Notícias, 12/09/2018).

A distância entre Irecê e Eunápolis parece ser de 789 quilômetros ou próximo disto.

Presume-se que uma transportadora idônea – e há muitas – cobraria bem mais barato do que os R$ 28,9 mil que o Tribunal pagou à magistrada para arcar com suas despesas de mudança.

Não só alguns privilegiados juízes precisam mudar de residência. O Brasil também precisa mudar de mentalidade e restaurar a moralidade, a começar pelo Poder Judiciário.

araujo-costa@uol.com.br

 

Chorrochó e a professora Maria Therezinha de Menezes.

“É não saindo de casa que a gente acaba sabendo das coisas” (Joel Silveira, 1918-2007).

Hoje completa-se mais um ano na vida de minha professora Maria Therezinha de Menezes.

A professora Maria Therezinha de Menezes, ícone da educação de Chorrochó, não saiu de casa, nunca abandonou sua aldeia, mas acabou sabendo muito das coisas. Entende de conhecimento, de vida, de experiência.

É conhecida a frase de Leon Tolstoi (1828-1910): “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

A professora Therezinha sempre pintou com tintas próprias a aldeia em que vive. E pinta muito bem até hoje, com dedicação e maestria.

Eficiente e refinada professora, lídima e notável integrante da família Menezes é mestra conspícua de estilo próprio e sábia intérprete da sociedade chorrochoense.

Católica tradicional e respeitável educadora, a professora Therezinha ocupa ilustre destaque em Chorrochó, inclusive enriquecendo as atividades da Paróquia Senhor do Bonfim. É fervorosa defensora do centenário Apostolado da Oração e de tantas outras tradições que lá se fazem presentes.

Lembro uma frase de D. Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, ao se referir ao Apostolado da Oração de Chorrochó: “Na história da salvação, o que importa não são os anos, os meses ou os dias, mas as pessoas. Dentro dessa história, nós vamos encontrar pessoas que de um jeito ou de outro corresponderam ao amor de Deus com toda fragilidade humana” (Rádio Vale do Vaza Barris, 17/08/2015).

A professora Therezinha deve pensar assim, creio que pensa assim. Sempre demonstrou preocupação com a fragilidade humana. Parece entender o âmago, o sentimento das pessoas. Tanto que se esmera com absoluta dedicação e seriedade no sentido de evitar o esmorecimento da história da Igreja de Chorrochó. E a história da Igreja não pode se dissociar da fraqueza humana. Assim atestam os séculos.

Conheci a professora Maria Therezinha de Menezes em 1971. Como se vê, algumas décadas já se passaram. À época, eu era ginasiano do Colégio Normal São José, cujo prédio histórico o progresso transformou em escombros, em poeira, em nada. Ela era professora da instituição.

Fui seu aluno de Português. Confesso, apoucado e envergonhado, que não me fiz capaz de guardar seus sábios ensinamentos. Guardei poucos, negligenciei com outros tantos e fui deixando muitos pelo caminho.

Saí de Chorrochó tropeçando em minha ignorância relativamente ao norte do saber e até hoje sonho em aprender alguma coisa deixada nalgum lugar do passado. Difícil, para quem vive às voltas com os buracos da memória, porque a juventude se distanciou nos esconderijos do tempo. Ah! Como se distanciou!

Em seu mister, a professora Maria Therezinha de Menezes era didática ao extremo, criteriosa e essencialmente prática. Formal, atenciosa, admirável.

Já se disse, por aí, que não fica bem a pessoa escrever sobre suas próprias memórias e continuar vivendo. Deve ser. Mas não sofro desse mal, não corro esse risco. Conto a história dos outros, porque não construí, em meu caminhar, nenhuma história pra contar.

Assim, o faço relativamente à professora Maria Therezinha de Menezes, honra e glória de Chorrochó. Espero poder contar com sua compreensão no que concerne à pobreza do texto. De fato, não fui um bom aluno de Português.

Parabéns pelo aniversário, insigne mestra.

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