A arte de amparar paredes.

O assunto é recorrente e até faz parte da cultura nacional: a preguiça de baianos e cariocas.

O jornalista mineiro Ivan Ângelo diz, em brilhante crônica: “No caso dos baianos, é mais estilo do que preguiça, é ritmo. Enquanto outros praianos descansam a metade da semana e trabalham a outra metade, os baianos vão trabalhando e descansando ao mesmo tempo”. 

Como se vê, um mérito. Os baianos também sabem inventar.

Cronista e romancista, Ivan Ângelo foi buscar lá, no começo do século XX, um amparo para sustentar essa suposta preguiça. Conta que o poeta Olavo Bilac escreveu que, em 1903, diante da grande quantidade de pessoas desocupadas no Rio de Janeiro, ouviu a seguinte pergunta de um jornalista argentino: “Que faz toda essa gente, que ampara as paredes das casas com as costas?”

Parece que o argentino confundiu não ter o que fazer com preguiça.

Na condição de baiano, saio em defesa de todos nós de minha encantadora província. Não somos preguiçosos. Damos um duro danado. Talvez tenhamos uma malemolência elegante, filosófica, uma sábia forma de viver.

Grande entendedor de hábitos e costumes baianos, o cantor Dorival Caymmi vivia em constante malemolência. Honra e glória da Bahia, Caymmi ria-se desse seu estado de graça e enfeitava essa sua maneira de viver e de muitos baianos.

Até Toquinho e Vinicius de Moraes entenderam esse espírito baiano e cantaram “Tarde em Itapoã:

“Depois, na Praça Caymmi

Sentir preguiça no corpo

E numa esteira de vime

Beber uma água de côco”.

Baiano não é preguiçoso. Sente preguiça no corpo, o que é diferente. E não cuida dessa arte de amparar paredes.

araujo-costa@uol.com.br

No meio do caminho

“Saí da autoestrada que me trazia de Florença, vinha distraído, pensando na vida, tomei um atalho que me parecia cortar caminho em direção ao centro de Roma e, de repente, me senti perdido.

Não conhecia aquelas árvores que minguavam com a chegada do inverno, nem aquelas casas esparsas e descascadas que volta e meia apareciam de um lado e de outro.

Sem referencial, sem bússola e sem cartas topográficas, o jeito foi me aproximar do homem que vinha andando pela estrada, meio curvado e, como eu, pensando na vida.

Perguntei onde estava. A resposta foi rápida e breve: “aqui”.

Não ousei contraditar a evidência de que estava ali, mas indaguei onde ficava aquele “aqui”, que ele mencionava com tanta e tamanha autoridade.

– “E eu sei?” – disse o homem, que a apesar da resposta rude, não parecia chateado.

Então, estávamos empatados, eu geograficamente, ele filosoficamente.

O diálogo seria impossível se o homem não fosse um italiano que, interrompido de pensar na própria vida, logo tratou de pensar na vida dos outros.

– “E aonde o senhor que ir? A Roma? Fazer o que lá? Sempre me perguntam onde fica Roma, e eu não sei o que tanta gente vai fazer lá”.

Pelo modo como ele falava, desconfiei de que todos os caminhos levavam a Roma, menos aquele em que me metera.

Um antepassado daquele homem, Dante Alighieri, também se perdera no meio do caminho e fora parar no inferno.

Preferi negociar:

– Olha, preciso chegar a Roma, se o senhor me der uma informação, eu posso lhe dar uns trocados.

– “Uns trocados? Pensava que Roma valia mais. Em todo caso, o senhor pegue a primeira à direita e depois vire sempre à esquerda”.

– Chegarei a Roma? Perguntei.

– “Não sei. Mas chegará a alguma parte”.

Texto extraído de “Eu, aos pedaços”, de Carlos Heitor Cony.

Observação do blogueiro:

Saudade doida de você, Cony! Você se foi antes do combinado.

araujo-costa@uol.com.br

O inoportuno Guilherme Boulos

“Nada acentua mais a autoridade do que o silêncio. Nenhum grande feito foi realizado pela loquacidade” (Charles de Gaulle, 1890-1970)

O invasor de propriedades Guilherme Boulos sofre de verborragia em estado avançado.

Disputou a eleição presidencial de 2018 e amargou 0,58% dos votos válidos do primeiro turno, o que significa que os brasileiros não lhe dão crédito. Ocupou o ridículo 10º lugar entre os concorrentes.

Entretanto, nem ao menos se fecharam as urnas, o senhor Boulos está indo às redes sociais insuflar os brasileiros a cometerem desatinos contra o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Certamente não será ouvido, tamanha sua insignificância, a julgar pelos votos que obteve nas urnas de 07 de outubro.

A insensatez do senhor Boulos é tanta, que não lhe permite enxergar que oposição se faz a quem está no poder. É prematuro chamar o povo às ruas neste momento, sem razão plausível, porquanto a posse do eleito dar-se-á somente em janeiro.

Contesta-se o que está errado ou não se aceita por questões razoáveis. Por enquanto, existe uma expectativa de poder, que somente se completará com a posse do eleito.

Ir para as ruas agora, como quer o senhor Boulos, significa ir contra a maioria que escolheu o presidente e não contra o escolhido.

É um desrespeito a quem votou diferente do senhor Boulos. Não há outra explicação que se aproxime da razoabilidade.

Despreparado e inoportuno, Boulos ainda se diz democrata. Ele precisa ler mais os compêndios de ciência política, para aprender que democracia não se compatibiliza com radicalismo.

Ser democrata é, basicamente, conviver com os contrários, saber respeitar a decisão da maioria.

Oposição se faz com debates de ideias na ocasião própria e não se valendo de baderna.

O senhor Boulos fala em democracia a todo instante e diz acintosamente que a pratica. Sofre de verborragia. Falta-lhe conteúdo responsável, útil, aproveitável.

Como ser democrata uma pessoa que não respeita a vontade das urnas?

Como ser democrata um sujeito que invade bens particulares, lixando-se para o direito de propriedade assegurado a todos os brasileiros pela Constituição da República?

Como ser democrata um suposto líder que, embora rico, usa a boa-fé de pessoas humildes, prometendo-lhes moradias, com o intuito de se destacar politicamente?

Pelo que se vê, o senhor Boulos aposta na confusão e não na democracia, talvez por ser incapaz de ostentar voz de liderança respeitável.

O senhor Boulos se arvorou líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), desafortunados que não têm onde morar.

Não se tem notícia de que o senhor Guilherme Boulos já mostrou a esses desafortunados a casa e o bairro onde mora em São Paulo. Certamente está longe de ser um sem teto.

Encerradas as eleições presidenciais de 2018, somente duas lideranças se destacam no cenário nacional como capazes de fazer oposição ao presidente Bolsonaro: Ciro Gomes e Fernando Haddad.

Ciro Gomes, porque é líder por excelência e Haddad, porque saiu fortalecido da disputa presidencial, não obstante o descaso que lhe fizeram lideranças do seu próprio partido.

Guilherme Boulos não se situa nessa expectativa de opositor respeitável. É um zero à esquerda, em se tratando de oposição séria. Não sabe negociar, ponderar, discordar, qualidades essenciais a quem faz oposição séria.

Os estrategistas políticos americanos têm uma máxima: “as pessoas às vezes se cansam de ouvir um político falar e é sensato que ele se retire de tempos em tempos da arena pública para, quando voltar, suas palavras adquirirem impacto muito maior”.

Seria bom para os ouvidos de muitos brasileiros que o senhor Guilherme Boulos se retirasse por algum tempo do cenário político. Quem sabe voltaria mais maduro e mais sábio, qualidades que hoje lhe faltam.

araujo-costa@uol.com.br

Brasil: o PT cavou a própria derrota

O Brasil escolheu Jair Bolsonaro para seu trigésimo oitavo presidente da República no período 2019-2022.

Capitão da reserva do Exército, o novo presidente é graduado pela respeitada Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), de Resende (RJ), cérebro do ensino militar. Seu concorrente Fernando Haddad é graduado pela também respeitada Universidade de São Paulo (USP), instituição de peso no ensino do Brasil.

Não houve surpresa no resultado da eleição. A vitória de Bolsonaro era esperada nos bastidores e ambientes politizados e bem informados de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

Em São Bernardo do Campo, berço político de Lula da Silva, padrinho político de Haddad, até as moscas sabiam que a derrota do candidato petista era favas contadas, não em razão do candidato em si, que é um bom rapaz, mas pela pouco caso que o PT fez dos brasileiros quando ocupou o poder, dilapidando os cofres públicos vergonhosa e acintosamente.

O PT desdenhou dos brasileiros ao fazer cara de paisagem na campanha, como se os graves erros que cometeu tivessem de ser engolidos pela sociedade, subservientemente.

Sequer pediu desculpas à sociedade. Sequer pediu outra chance aos brasileiros para voltar ao governo da República. Sequer teve a humildade de dizer que errou.

O PT engasgou-se com a própria arrogância.

Cientistas políticos, comentaristas de televisão, jornalistas, blogueiros e influentes líderes nacionais não podiam admitir a derrota de Haddad antecipadamente, por uma questão ética e para não ferir os princípios do bom jornalismo. Primeiro fazia-se necessário ouvir a voz última das urnas, o veredicto da vontade popular.

Até eleitores tradicionais do PT decepcionados com o lulopetismo passaram a exigir mudança. Compreensível. O surrado discurso do PT (“o Brasil feliz de novo”) não colou, porque petistas conscientes e aliados de sempre sabiam que se tratava de embuste com o intuito de ganhar a eleição. Abandonaram o barco.

Não se sabe por que o slogan “o Brasil feliz de novo”. Não se sabe sequer, se o País foi feliz algum dia. Com o PT no poder certamente não foi. Está provado.

Petistas mais arraigados não notaram que o barco estava à deriva. Uns por convicção, outros por fanatismo e outros tantos por ainda estarem pendurados em benesses, posições, cargos, salários e vantagens que o partido e aliados lhes viabilizaram.

Esses continuaram na contra mão da história e defendendo ferozmente o partido, ao contrário dos petistas pragmáticos, aqueles que laboram no terreno da seriedade partidária e preferem andar ao lado da verdade. São muitos, felizmente.

Diga-se a verdade: há muitas pessoas decentes no PT. Nem tudo está perdido.

O PT aliou-se ao PCdoB, que ainda acredita em Papai Noel. O comunismo acabou aqui e no mundo ou está se extenuando, mas pretensos idealistas insistem que ele ainda existe e governará os povos.

As matrizes do comunismo se dissolveram. Hoje o comunismo é tão somente uma teoria ultrapassada. Não há como passar da teoria à prática.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se desfez para não perder o bonde mundial; Cuba massacrou sua população de fome, restrição de direitos e atraso e hoje está saindo aos poucos do sufocante casulo em direção ao mundo; a China abraçou o capitalismo e disputa o mercado internacional com outros países, para não se isolar do mundo consumidor, que é a mola do desenvolvimento. São apenas alguns exemplos.

As atentas jornalistas Marina Dias e Catia Seabra,  da Folha de S.Paulo, captaram o estado de ânimo de Haddad, em forma de desabafo, num momento da campanha eleitoral.

Visivelmente nervoso, antes de uma entrevista à televisão, Haddad disse a um assessor preocupado, que queria saber o que estava acontecendo: “Minha vida está fácil: só me pediram para entrar no lugar do Lula, ganhar a eleição, tirá-lo da cadeia, arrumar a economia e depois voltar a ser Fernando Haddad”.

De outra feita, em confidência a um amigo, Haddad desabafou: “Se eu ganhar, o mérito será do Lula. Se eu perder, a culpa será minha”.

Haddad estava certo. Mas fraquejou ao aceitar ser marionete de Lula da Silva, ajoelhar-se seguidamente aos seus pés no presídio, obedecer a suas ordens e rebaixar-se diante dos brasileiros. Virou ventríloquo.

Um dos pontos baixos da campanha de Haddad foi quando ele declarou que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto em companhia de Lula, que seria seu conselheiro.

Parece razoável entender que essa declaração lhe tirou milhões de votos. Espezinhou a sociedade e isto não lhe caiu bem. Como os brasileiros poderiam aceitar que um presidiário, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, preso e cumprindo pena, pudesse ditar as normas do governo da República?

Haddad demonstrou fragilidade, ausência de vontade própria, servilismo, caráter duvidoso. Sua liderança se ofuscou em meio à fumaça da malandragem petista. O eleitor notou isto e Haddad passou a ser conhecido como “pau mandado” de Lula. A imagem grudou.

Mais: parte de graúdos dirigentes do PT não queria Haddad. Ele sempre foi um estranho no ninho petista e até chegou a sinalizar que sairia da agremiação, após a derrota na eleição de 2016, quando não conseguiu se reeleger prefeito da capital de São Paulo e o PT lhe abandonou. Sustentou-se no partido porque Lula o queria lá para lhe servir quando e onde precisasse, o que acabou acontecendo. Haddad caiu na esparrela.

O primeiro sinal de derrocada do PT foi nas eleições municipais de 2016. As urnas foram cruéis com o partido naquele ano em todos os estados. O PT deu de ombro, fez de conta que não era com ele. Está pagando o preço da arrogância.

O PT escolheu sua derrota em 2018 bem lá atrás, quando, no governo, abandonou seus princípios estatutários e igualou-se aos demais partidos políticos tradicionais e corruptos, comprou deputados (mensalão), chafurdou na lama da corrupção (petrolão), somou-se ao fisiologismo e trilhou o caminho da mesmice vivida pelos políticos durante séculos.

O povo viu, compreendeu, deu o troco.

Mas o PT cavou a própria derrota.

Post scriptum:

Confesso que não consigo vislumbrar a importância do apoio de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, à candidatura de Haddad. A imprensa deu grande destaque. Joaquim Barbosa é advogado, ex-presidente do STF. Nada mais. É incapaz de mudar os rumos de uma eleição presidencial no penúltimo dia da campanha. Tem apenas o seu voto, que é secreto e por isto não se sabe se votou mesmo em Haddad.

araujo-costa@uol.com.br

Os erros da campanha de Jair Bolsonaro

A campanha eleitoral do candidato do Partido Social Liberal (PSL) não é uma campanha, propriamente. Mas é seguramente certo, que é um amontoado de erros, mormente em razão da falta de experiência do partido e aliados mais próximos do capitão Jair Bolsonaro.

Bolsonaro e sua equipe não têm know how, não têm conhecimento e saber prático na condução de campanhas eleitorais. O PT tem. Experiência e malandragem política, com um diferencial: não joga limpo, nunca jogou limpo. Ou porque o jogo eleitoral é mesmo sujo ou porque o PT não prima pela dignidade.

A esteira de apoio a Bolsonaro nasceu e cresceu espontaneamente, com destaque nas redes sociais, pulverizou-se em todas as regiões do Brasil e, mais do que isto, o PSL não conta com altas somas de dinheiro para sustentar a campanha, a exemplo do PT, que só de Fundo Partidário abocanhou mais de R$ 212 milhões.

Bolsonaro, ao contrário, sustenta-se na vontade de parte da sociedade, que leva adiante a campanha e sonha em sair vitoriosa nas urnas de domingo próximo.

Contudo, no decorrer da campanha do PSL surgiram erros monumentais. Tais erros começam por asneiras ditas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do candidato presidencial e, mais do que isto, com opiniões de alguns militares da reserva do Exército, inegavelmente despreparados para lidarem com estratégias e questões eleitorais.

Uma coisa é a linguagem dura, a conduta castrense, a disciplina dos quartéis. Outra é, completamente diferente, a selvageria das disputas eleitoras.

Campanhas eleitorais devem ser dirigidas e tocadas por quem entende, como é o caso do PT, que contrata marqueteiros profissionais mediante pagamento de somas milionárias. É tradição do partido.

Quem não entende dos meandros da política e estratégias eleitorais, o mínimo que deve fazer é fechar a boca para não atrapalhar e, se puder e de preferência, ficar em casa quietinho.

Por outro lado, falas e opiniões do próprio Bolsonaro desenterradas de sua vida  e atuação parlamentar estão sendo usadas pelo PT para desconstruir a imagem do adversário. São opiniões na linha diversa do politicamente correto, sabiamente exploradas pela esquerda, em desfavor do candidato do PSL. Vem dando certo.

Outra falha da campanha de Bolsonaro é a incapacidade de derrubar as acusações feitas pelo PT e, ato contínuo, apontar os erros do partido, que são muitos e comprovados. Bastava ter apresentado a folha corrida dos dirigentes petistas e provar que eles estão muito longe de parecer freiras contemplativas.

Por outro lado, há um silêncio patético da parte do candidato do PSL sobre as acusações do adversário, postura que beneficia sobremaneira o candidato do PT, que Lula da Silva jogou nessa fogueira de vaidades.

Há exageros na propaganda eleitoral do PT, mas se a legislação não coíbe tais exageros, o partido faz.  “Vai que cola?”. E tem colado, eficientemente.

Por exemplo, atribuir ao candidato do PSL a predileção pelo sofrimento humano através de tortura e, mais do que isto, levar para a televisão imagens ilustrativas dessas práticas abomináveis, que não mais existem, não é ético, além de incompatível com o momento por que passa a sociedade brasileira.

A tortura é página virada de nossa história. É desonesto o PT insistir nisto.

O que menos Haddad e Bolsonaro discutiram foi proposta de governo.

O PT partiu para chutes certeiros abaixo da cintura do adversário. Isto o partido sabe fazer e, convenhamos, com desenvoltura e eficiência. Prioriza as acusações, o vale tudo, os ataques. Danem-se a ética e a decência.

De qualquer forma, a inexperiência do PSL e a desfaçatez do PT tiraram o brilho da campanha eleitoral.

A campanha podia ter-se baseado em propostas de mudança, que os brasileiros precisam. Faltou razoabilidade no nível da campanha.

O Brasil comporta campanhas eleitorais sérias, limpas, respeitosas, embora pareça estar longe disto.

Os erros primários da campanha de Jair Bolsonaro e a acidez da propaganda do PT contribuíram enormemente para dificultar o eleitor no momento de escolher o próximo presidente da República.

araujo-costa@uol.com.br

Conversa de “envelhescente”

Já se vão, por aí, alguns lustros, décadas, tempestades.

Na década de 1970 havia uma pensão na Rua Brás Cubas, centro de Santo André, coração do ABC paulista. A pensão não existe mais. O progresso imobiliário extirpou-a do local, mas não conseguiu extirpar as lembranças e a saudade dos amigos da época. 

A pensão abrigava rapazes, geralmente estudantes e alguns senhores circunspectos, que ainda cavavam a vida. Morei lá, vivi lá, aprendi muitas coisas lá. Dessas, pratiquei umas, abandonei outras e tenho dúvidas se acertei ou errei ao não ter seguido outras tantas.

O ambiente era central e acolhedor, vizinho à bela e histórica catedral diocesana de Nossa Senhora do Carmo, onde está enterrado Dom Jorge Marcos de Oliveira, o primeiro bispo de lá, perto de tudo e inserido nos acontecimentos da fervilhante região do ABC.

A história de Dom Jorge Marcos é encantadora, mas já me referi noutras crônicas.

Como é praxe nesses ambientes de juventude e de luta inicial da vida, naquela pensão nasceram amizades, sedimentaram-se experiências, dissolveram-se arrogâncias e, mais do que isso, aprendiam-se modos de viver.

Aliás, toda pensão e seus quartos têm modus vivendi, regras sociais sadias criadas por seus ocupantes. Toda pensão é um simulacro de nossa sociedade, às vezes conturbada, outros vezes tranquila, quase sempre incompreensível.

Lembro um amigo, Elias Pedro dos Santos. Convivemos lá na pensão, inquietos, barulhentos, combativos. Ele já professor de uma respeitável instituição paulista; eu ainda estudante, sem nenhuma âncora profissional, impaciente com as incertezas da vida.

Elias é um sujeito que cultiva as amizades, preocupa-se com elas e, sobretudo, não as abandona. É intransigente na defesa de seus amigos. Quase quatro décadas depois me localizou e honrou-me com a sua visita.

Senti-me vaidoso, rejuvenescido com sua visita. Como nos tempos de pensão, continua inquieto, buliçoso, bem humorado. Mas a passagem do tempo lhe trouxe uma marca: os cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo. Marca que, além da experiência, significa fidelidade aos seus princípios de berço tradicional nordestino. É intransigente defensor da família e, sobretudo, reverencia Deus e a plenitude de seus desígnios.  

O escritor Mario Prata adotou uma teoria um tanto lógica e curiosa: o período da “envelhescência”. Diz ele que essa fase da vida se situa entre a maturidade e a velhice, vai dos 45 aos 65 anos. É a preparação para a velhice, aduz o escritor, assim como depois da infância segue-se a adolescência, que é a porta de entrada da maturidade. Sendo assim, já estou mais adiante no caminho da vida.

Então, creio, a “envelhescência” traz reflexão e inquietude. Inevitável olhar para trás e perceber o diluir de muitas esperanças, até mesmo as idealizadas em quartos de pensão; inevitável antever o futuro e observar o pouco tempo que resta para a realização dos sonhos que ainda pretendemos alcançar. A construção desses sonhos claudica diante da exiguidade do tempo. O horizonte se distancia, mas a coragem persiste. 

Mas o certo é que na “envelhescência” adquirimos envergadura para não aceitar mais algumas coisas. Por exemplo, que pessoas empoleiradas no poder nos empurrem goela abaixo coisas que elas se acham no direito de fazer e determinar. Os governantes gostam muito disto. Adoram empurrar imbecilidades em nossos orifícios.

Também temos dificuldade de aceitar, que mentecaptos outros, que querem chegar ao poder, achem que somos todos idiotas, mormente em épocas de eleições, a ponto de aceitarmos as esdrúxulas ideias deles, ideias vazias, frágeis, inaceitáveis, imbecis, desprezíveis.

Naquele tempo da pensão de Santo André, lutávamos por um Brasil melhor. Hoje os momentos de reflexão insistem em dizer que fracassamos.

O Brasil piorou. Minha geração não.

Como “envelhescente”, a única certeza é que valeu a pena a sequência dos tropeços e a poeira que sacudimos ao caminhar em direção aos nossos sonhos.

                                                   São Bernardo do Campo, outubro, 2018

Tempo de insensatez: até tu, Geraldo?

O cantor Geraldo Azevedo, honra e glória de Petrolina que, com Elba Ramalho e Alceu Valença, forma a vistosa santíssima trindade da decência artística nordestina, meteu os pés pelas mãos e acusou o general Hamilton Mourão de torturador.

Durante show, entre as serras baianas de Jacobina, Geraldo disse, segundo a imprensa, que o candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro havia lhe torturado na prisão na época da ditadura.

Um equívoco monumental. Isto explica os tempos de insensatez por que passamos. Na ânsia de criticar e discordar, pessoas vão falando impropriedades, vociferando, acusando, extrapolando o bom senso.

O hoje general Mourão, da reserva do Exército, nasceu em 1953 e à época da primeira prisão de Geraldo Azevedo, em 1969, contava com 16 anos de idade e, presume-se, era um mero estudante.

Mourão ingressou no Exército em 1972. Logo, por óbvio, não podia ter participado de sessões de tortura a presos, mesmo considerando a segunda prisão de Geraldo Azevedo, parece que em 1974.

Oh, Geraldo! As datas precisam ser compatibilizadas com a história e, neste caso, as datas não batem. Até tu, Geraldo?

O candidato petista Fernando Haddad embarcou na mesma canoa furada da informação falsa e, apressadamente, confirmou o equívoco em entrevista à televisão, em rede nacional.

Oh, Haddad! Por que sua assessoria não checou essas informações antes de sua entrevista?

Ficou feio, porque demonstrou certo atabalhoamento da campanha presidencial petista, falta de apreço à verdade, o que não é novidade tratando-se do PT.

De qualquer forma, parece que Geraldo Azevedo reconheceu o equívoco e se retratou, pediu desculpas pelo vexame, o que era de se esperar, vez que é cabra decente, correto, inteligente, de bom caráter, pernambucano de boa cepa.

Todavia, o bom moço Fernando Haddad demonstrou que ainda é “maria vai com as outras”, fala o que sua assessoria de campanha manda falar, mesmo que não seja verdade.

Dona Dilma Rousseff fez isto, a pedido dos marqueteiros dela, que foram presos. Deu no que deu.

Acho que tem gente no PT sacaneando o Haddad. Deve ser a turma de Gleisi Hoffmann.

araujo-costa@uol.com.br

Perguntar não ofende. Ou ofende? (II)

“O deputado federal Jorge Solla (PT-BA) ingressou nesta segunda-feira (22) com uma representação na Procuradoria Geral da República (PGR) contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) por crime de segurança nacional.

O deputado pediu a investigação e punição de Bolsonaro nas linhas dos artigos 1º, II e III, 22, I, 26, parágrafo único, 28 e 31, II, todos da Lei nº 7.170/83, que define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social” (Bahia Notícias, 22/10/2018).

Ou seja, Sua Excelência invocou  a Lei de Segurança Nacional que a esquerda sempre abominou.

Este mesmo deputado Jorge Solla (PT-BA) é o mesmo que, em rede nacional, chamou de “bandidos e criminosos” os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e o juiz da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba.

Interessante nisto tudo, é que à época não apareceu nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal em defesa do Poder Judiciário e da democracia, como fizeram agora com o episódio do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que andou por aí falando umas besteiras.

Como perguntar não ofende, pergunto:

Onde estavam os ministros Dias Toffolli, Rosa Weber, Celso de Melo, Marco Aurélio Melo e Alexandre de Moraes que não se pronunciaram contra as duras palavras do deputado petista?

A Justiça não pode ser cega apenas quando não quer ver as coisas. Tem de ser cega, sempre.

Está aí o vídeo com as palavras do deputado, então vice-lider do PT, que os ministros do Supremo não viram ou não quiseram ver.

Perguntar não ofende. Ou ofende?

Está circulando um vídeo em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) diz algumas asneiras sobre o Supremo Tribunal Federal. Errou. Ele é membro do Poder Legislativo, precisa ser comedido, cauteloso, responsável.

Imediatamente alguns ministros do Supremo Tribunal Federal se sentiram ofendidos e vieram a público repudiar a fala do deputado e, salvo engano, um ministro até sinalizou com pedido de investigação.

Evidente que é dever dos ministros do STF defenderem a instituição. Não se discute isto. E é evidente que deputado não pode sair por aí, dizendo besteiras.

Ocorre que, em data não muito distante, outro deputado federal, este do PT, Wadih Damous, do Rio de Janeiro, também pediu rispidamente o fechamento do Supremo Tribunal Federal e, pior, pronunciou palavras duras contra um de seus ministros.

Nenhum ministro do STF veio a público rebater o deputado petista.

Como perguntar não ofende, pergunto:

Onde estavam os ministros Dias Toffolli, Rosa Weber, Celso de Melo, Marco Aurélio Melo e Alexandre de Moraes que não se pronunciaram contra as duras palavras do deputado petista?

A Justiça não pode ser cega apenas quando não quer ver as coisas. Tem de ser cega, sempre.

Está aí o vídeo com o pronunciamento do deputado, que os ministros do Supremo não viram ou não quiseram ver.

Haddad e os votos do Nordeste

É comum que candidatos façam suas estratégias de campanha com base em levantamentos próprios e não, unicamente, baseados em dados apontados pelos institutos de pesquisas.

Não há novidade nisto. Candidatos também fazem pesquisas próprias e se servem delas para traçar planos, roteiros, estratégias e antever vitórias ou derrotas.

Sendo assim, deve haver algo preocupante na campanha de Fernando Haddad relativamente ao Nordeste.

No primeiro turno, ele foi muito bem votado nos estados do Nordeste, aliás sua melhor votação, assim como os governadores de lá que lhe apoiam incondicionalmente.

Entretanto, se não mudar, parece que Haddad voltará ao Nordeste na reta final da campanha, quinta e sexta-feira próximas, exatamente para fazer comícios em alguns dos estados em que obteve expressiva votação: Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Ou Haddad tem informações internas no sentido de que está perdendo votos para o adversário naqueles estados e precisa recuperar ou a direção da campanha do PT está perdida.

No primeiro turno, foi esta a votação que teve nos estados que ele pretende visitar:

Bahia: 60,28%;

Pernambuco: 48,87%;

Rio Grande do Norte: 41,19%;

Inegável a supremacia de Haddad no Nordeste sobre Jair Bolsonaro, graças ao carisma de Lula.

Haddad esteve no Ceará no último final de semana, mas isto é compreensível. Lá ele obteve 33,12% dos votos no primeiro turno, mas em seguida o senador eleito Cid Gomes fez um estrago na campanha do PT, que justificou a visita do candidato. Botar panos quentes, serenar os ânimos. E até, para ficar bonito, tirou foto com chapéu de couro aos pés do padre Cícero, em Juazeiro do Norte.

Magoado com Lula e o PT, após o primeiro turno Ciro Gomes foi para a Europa e deixou o irmão para jogar esterco no ventilador de Haddad. Deu certo.

É a vingança maligna contra Lula, que Ciro ama, mas não é de ferro. Sentiu-se traído.

Quando Ciro Gomes voltar, não haverá mais tempo para fazer alguma coisa em benefício de Haddad, se quisesse. Mas ele não quer.

Pelo que se vê, parece desnecessária a presença de Haddad nesses estados em que saiu vitorioso no primeiro turno. A tendência é manter a votação do primeiro turno, com a força dos governadores, que foram bem avaliados pela população de seus estados.

Observe que Haddad encerrou a campanha de segundo turno na Bahia, lá para as bandas de Feira de Santana.

Na Bahia, os votos de Rui Costa, eleito no primeiro turno com 75,50%, Jaques Wagner e aliados vão para ele, independentemente de sua visita ao estado.

A lógica indica que o razoável seria Haddad visitar as regiões em que se saiu mal nas urnas, tentar evitar abstenções e tirar votos do adversário.

Haddad sonhou com uma frente partidária lhe apoiando no segundo turno. Alguns partidos foram subindo ao telhado, um a um e se negaram a apoiá-lo publicamente. Outros sequer chegaram ao telhado. Ficaram em cima do muro e lhe ofereceram  o chamado “apoio crítico”.

Ao invés de ver navios, Fernando Haddad ficou a ver Bolsonaro.

araujo-costa@uol.com.br