Inspetor de quarteirão, CUT, Alckmin e jornalismo militante

Alguns ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conseguiram a façanha de ressuscitar a figura do inspetor de quarteirão, o guarda da esquina.

Essa figura está hoje bem representada por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com assento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que – parece – abdicaram de suas nobres e altas funções de ministros constitucionais de nossa Suprema Corte e passaram a vigiar picuinhas, destemperos verbais e inoportunos de Bolsonaro, idiotices do governo e fofocas inconsequentes disseminadas nas redes sociais.

Essa função seria competentemente exercida por quaisquer inspetores de quarteirão, guardas de esquina (se houvessem) e auxiliares de agentes policiais em início de carreira, sem necessidade de que elevados, respeitáveis e conspícuos ministros se afastassem de suas nobilíssimas e precípuas tarefas no tribunal para se ocuparem de redes sociais e outros assuntos de somenos.

As Brigadas da CUT

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) criou um projeto ambicioso chamado Brigadas Digitais.

Segundo a entidade, “o projeto Brigadas Digitais da CUT nasce como um instrumento estratégico para a classe trabalhadora ocupar as redes sociais e fortalecer a pressão em defesa das pautas e lutas do movimento sindical”.

Ainda segundo a CUT: “Integrantes do Coletivo de Comunicação das CUTs nos estados e ramos, dirigentes sindicais, lideranças, trabalhadoras e trabalhadores em comunicação das entidades sindicais, educadoras e educadores militantes de sindicatos, trabalhadoras e trabalhadores nos seus locais de trabalho e todo  movimento sindical CUTista estão sendo convidados para serem uma ou um comunicador popular, atuar em rede e de forma organizada em uma Brigada Digital para contribuir com a construção de uma nova política de comunicação que dialogue com a classe trabalhadora, com as pautas e saberes e sonhos da classe trabalhadora”. 

Se o objetivo é esse, nada demais. É até louvável. Admirável.

Mas perguntar não ofende

Se essas Brigadas Digitais da CUT tivessem sido criadas por quaisquer entidades ligadas ao bolsonarismo não seriam acusadas de milícias digitais perigosas à democracia?

Se essas Brigadas Digitais da CUT tivessem sido criadas por quaisquer entidades ligadas ao bolsonarismo, o senador-holofote Randolfe Rodrigues (Rede-AP) já não teria acionado o STF contra elas?

Se essas Brigadas Digitais da CUT tivessem sido criadas por quaisquer entidades ligadas ao bolsonarismo, a grande imprensa não estaria dando destaque exaustivo em seus noticiários diários?

O provável vice de Lula vira caricatura

Há uma corrente do PSDB de São Paulo, incluídos a filha de Mário Covas (um dos fundadores do partido) e José Henrique Lobo, figuras históricas do PSDB, que estão classificando Geraldo Alckmin como “caricatura de si mesmo”.

Só para lembrar: o insigne ministro Alexandre de Moraes (STF/TSE), que presidirá as eleições presidenciais de 2022, foi secretário de Justiça e Defesa da Cidadania do então governador paulista Geraldo Alckmin entre 2002 a 2005.

Agora, Geraldo Alckmin está sendo engendrado como provável vice de Lula, que tem o apoio de ministros do STF, que indicou Alexandre de Morais para o TSE, que comandará as eleições na condição de presidente da Corte Eleitoral.   

Coincidências e coisas da democracia e de nossa privilegiada elite. Viva a democracia!

Jornalismo militante

O veterano jornalista Carlos Alberto Sardenberg, do Grupo Globo, está confundindo formador de opinião com militante político.

Em recente comentário no Jornal das 10, da GloboNews, Sardenberg fez indisfarçável campanha a favor de Lula da Silva, o que, convenhamos, arranha a credibilidade do programa e da emissora, que já é pouca.

Meses atrás, no programa Em Pauta, da mesma emissora, a experiente e sempre elogiável Eliane Cantanhêde surtou de repente e passou a fazer um discurso veemente e fora de lugar, ao vivo, a favor de Lula da Silva, por ocasião da visita do ex-presidente ao Parlamento Europeu.

Não o comparou com Deus, mas chegou perto.

Diante do exagero constrangedor, alguém da produção do programa deve ter advertido a jornalista, pelo ponto eletrônico.

Eliane se recompôs imediatamente do surto lulopetista e ponderou, como se tivesse respondendo à produção do programa: “eu não estou fazendo campanha para o Lula”.

Tarde demais. Ao vivo, não foi possível consertar a gafe.

Lula da Silva é um homem de sorte.   

Dúvida

Médica, pneumologista e pesquisadora respeitada da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, ardorosa defensora do “Fique em Casa”, aliada da esquerda e estrela da GloboNews no auge da pandemia, até hoje não explicou como conseguiu ser infectada pela Covid-19 em 2020, já que estava em casa.

Se ficar em casa evitava a infecção, por que ela se infectou?

araujo-costa@uol.com.br     

Festival de besteiras

Palácio do Planalto

Fosse vivo o jornalista Stanislaw Ponte Preta (1923-1968) ele teria material de sobra para lançar outras edições de seu livro FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País).

Primeira besteira:

Alguns ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desconfiam do inexpressivo e vaidoso vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o elegeram como perigosa ameaça à democracia do Brasil, quiçá do mundo.

Suas Excelências querem saber o que o vereador, filho do presidente da República, foi fazer na Rússia, em companhia do pai, que esteve por lá recentemente em visita oficial àquele país.

Presumo que os subidos ministros desconfiam que o obscuro vereador carioca foi vasculhar os antigos arquivos da extinta KGB – a polícia secreta da também extinta URSS – sobre como aprender meios para derrubar a democracia do Brasil.

Neste particular, nossos respeitáveis ministros contam com a idiotice inominável e sempre presente do senador-holofote Randolfe Rodrigues (Rede-AP) que, por falta do que fazer, vive provocando o Judiciário com pedidos estrambólicos e esquizofrênicos como ele.

Supremo Tribunal Federal

Segunda besteira:

Neste mês de março, a diretoria de uma escola do bairro da Penha, zona leste da capital de São Paulo, expulsou um aluno do terceiro ano do ensino médio, por um dia, porque, segundo a escola, ele cometeu atos de indisciplina e transgrediu o regimento escolar.

Transgressão do aluno: levou uma melancia e a dividiu com os colegas nas dependências da escola, no horário do intervalo.

A propósito, Stanislaw Ponte Preta contava que, na época da ditadura militar de 1964, uma mãe de aluno do interior de São Paulo denunciou uma professora aos perigosos órgãos de repressão, acusando-a de comunista, porque tal professora deu nota zero ao filho da denunciante.

Terceira besteira:

Lula da Silva, em vídeo, não sei se já por conta de inserções do PT, disse que os combustíveis estão caro, inclusive gás de cozinha, porque a BR Distribuidora foi privatizada. Demagogo, ele sabe que não é isto, não se trata disto. A BR não decidia política de preços da Petrobras. Compunha-os no final.

Quarta besteira:

A recente entrevista que o ministro Edson Fachin, presidente do TSE, concedeu ao Roda Viva (TV Cultura) foi primorosa. Magistral, tudo que se esperava de um magistrado e, mais ainda, ministro do STF e do TSE. Serve de aula para estudantes de Direito.

Até tive saudade de meu tempo na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e dos ensinamentos do mestre Ricardo Lewandovisky que, cá entre nós, mudou muito.

Mas, na prática – ora, a prática – o ministro Fachin faz tudo ao contrário. Acha que a democracia do Brasil resulta da vontade de alguns ministros do Judiciário que, como ele, se acham cobertos pelo manto da intocabilidade. Equivocadamente.

Tribunal Superior Eleitoral

A democracia emerge das urnas, da vontade e da soberania popular. E os ministros do STF e TSE, sejam eles esquerdistas, direitistas, militantes do PT ou não, têm a obrigação de submeter-se às leis, como todos nós, pobres mortais.  

O equívoco que o ministro Fachin escancara na prática é monumental.

Entretanto, a entrevista que ele concedeu à TV Cultura, convenhamos, foi esplêndida. Pena que hipócrita.

Stanislaw Ponte Preta faz falta.

araujo-costa@uol.com.br

Prefeitura de Curaçá, descaso e situação vexatória

“Toda ideia precisa de outra que se lhe oponha para aperfeiçoar-se”. (Hegel, filósofo germânico, 1770-1831)

As imagens são constrangedoras e degradantes, para dizer o mínimo. Ou, no mínimo, entender que o nosso bem público não é tão público assim e muito menos nosso.

Pacientes de Curaçá, que precisam de atendimento clínico, inclusive hemodiálise, vêm passando por constantes descasos que beiram à humilhação, em razão de padrões seguidos pela Prefeitura.  

Por exemplo, em Curaçá não há equipamentos e serviços disponíveis para o atendimento de hemodiálise, tendo em vista a precariedade da estrutura do município. Compreensível que seja assim.

Em razão disto, a Prefeitura transporta os pacientes em veículo da Secretaria da Saúde até Juazeiro e, neste particular, o faz corretamente, embora aqui não se esteja questionando as condições do transporte.  

Em Juazeiro, os pacientes são submetidos a procedimento de hemodiálise numa clínica de nefrologia com endereço na Rua José Pititinga, 292 e Rua do Paraíso, Bairro Santo Antonio.

Ressalte-se que, por óbvio, dita clínica não tem responsabilidade sobre eventual ato e descaso da Prefeitura.

Até aí, presume-se que esteja tudo bem. Mas não está. Não pode estar.

Os pacientes já fragilizados em razão do procedimento de hemodiálise sentam-se na calçada e no meio fio, em meio a animais e ali mesmo fazem suas refeições.

Este blog não tem conhecimento da existência de ponto de apoio da Prefeitura de Curaçá, em Juazeiro, de modo a permitir aos munícipes, nesse momento de dor e fragilidade, que façam as refeições em local decente e apropriado e usem sanitários e banheiros, se necessário. E geralmente é necessário, em situação assim.

O blog pede escusas à administração municipal se, neste particular, a verdade dos fatos caminha em sentido inverso e se dispõe a corrigir essa informação se necessário fazê-lo, mas ousa perguntar: se tem casa de apoio, por que os pacientes ficam ao desabrigo da rua?.

Não é função deste blog criticar apenas por criticar, mas publicar, com cautela, o que consegue apurar e seja de interesse público.

Em quadro assim, parece sobrar desrespeito e incapacidade da Prefeitura de Curaçá no sentido de sustentar a dignidade desses munícipes expostos a essa espécie de abandono moral.   

As situações são recorrentes. Este blog teve acesso a imagens estarrecedoras, que remontam a fevereiro de 2021, retratando situação semelhante.

A lógica autoriza a presumir que essa demanda está afeta à Secretaria Municipal de Saúde e, por extensão e subsidiariamente, à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, salvo melhor juízo.    

Pelo que se vê, ambas as secretarias não estão desempenhando satisfatoriamente seu mister ou fazem em desacordo com as necessidades da população, o que dá no mesmo, a julgar por esse caso vergonhoso a que nos referimos.

Registro, com clareza indubitável, que esta matéria não pretende arranhar o mérito profissional e a capacidade dos ilustríssimos senhores secretários municipais das referidas pastas e tampouco do prefeito, mas é inegável constatar que essas imagens depõem contra nosso querido município de Curaçá. E isto entristece.

É razoável presumir que a oposição ao prefeito de Curaçá está capengando ou, no mínimo, cochilando. E se estiver cochilando está errada, porque oposição não pode cochilar.

A Câmara Municipal se faz silente, inexplicavelmente silente.

Aliás, neste cenário, é difícil entender o papel da oposição de Curaçá, se é que Curaçá tem oposição ao prefeito.

A oposição tem o dever de vigiar, fiscalizar, acompanhar, perguntar, cutucar, sugerir e, mais do que isto, apontar as falhas da administração, para que o gestor possa melhorar. É a lição do filósofo Hegel que abre esta matéria.  

Ressalte-se, a bem da verdade, que a função de fiscalizar o Executivo Municipal não é somente da oposição. É também da situação, dos vereadores que dão sustentação ao prefeito e não sejam adeptos da subserviência.

Entretanto, nem sempre as falhas eventuais, costumeiras ou constantes do prefeito e de sua equipe resultam de conduta proposital. Pode resultar de visão diversa àquela esperada pela população. É aí que surge a necessidade de ajuste no caminhar da administração, para coadunar-se ao interesse público.

Se a população não reclama, não exige e fica calada, é natural entender que o prefeito acha que está tudo bem.

Ninguém sabe o que calado quer. E o que pensa, se pensa.

Mas é seguramente certo que ninguém deve se apequenar diante de descalabros perpetrados pela administração pública, qualquer que seja a esfera de atuação, municipal, estadual e federal.

Nenhum ato moralmente inaceitável, qualquer que seja ele, deve ser tolerado e absorvido pela sociedade, mormente quando atinge os mais humildes, os economicamente desamparados.

Para isto, estamos construindo a democracia.

araujo-costa@uol.com.br

O Juiz eleitoral

“Uma sociedade de carneiros acaba por gerar um governo de lobos” (Victor Hugo, romancista e ensaísta francês (1802-1885), autor de Os Miseráveis.

Bahia, eleições de outubro de 1962.

O general Juracy Magalhães era governador e exercia poderosa influência sobre líderes municipais em todo o estado.

Famoso tenente na década de 1930, integrante do movimento tenentista que derrubou o presidente Washington Luiz, habituado a mandar nos quartéis, Juracy também passou a mandar na Bahia.

Era anticomunista roxo.

Na marcha das apurações em Santo Antonio de Jesus, recôncavo baiano, as urnas asseguravam expressiva votação ao jornalista Sebastião Nery, candidato a deputado estadual pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR), socialista convicto e buliçoso, baiano de Jaguaquara e ex-seminarista em Amargosa.

O juiz eleitoral, subserviente ao governador, na hora de preencher o mapa da apuração, se espantou com o expressivo resultado do candidato e perguntou ao membro da junta apuradora:

– Quantos votos para Sebastião Nery?

– 160, Doutor.

– Corta o zero. Bota no mapa da apuração só 16 votos. O que o governador vai pensar de mim se este comunista ganhar em minha comarca.

E sumiu com 144 votos de Sebastião Nery. E com o seu caráter. E se apequenou moralmente, como tantos juízes de hoje. 

Como se vê, naquela quadra do tempo, havia juízes e juízes. Ainda hoje há. Pior: eles fazem ressobrar desfaçatez e escasseiam-lhes escrúpulos e vergonha.

Qualquer semelhança com atuais magistrados, que visivelmente não escondem o pendor por determinados candidatos, terá sido mera coincidência.

Fonte: A Nuvem, de Sebastião Nery, Geração Editorial, Belo Horizonte (MG), 2009.

araujo-costa@uol.com.br

Os pedreiros de Lula e de Jaques Wagner

Agamenon Magalhães (1893-1952) era governador de Pernambuco.

Chamou secretários próximos, saiu do Palácio do Campo das Princesas e resolveu visitar o interior.

Chegou a uma casa à beira da estrada.

Crianças, galinhas e porcos no terreiro.

A dona da casa – que não conhecia o visitante – e um dos filhos estavam sentados no alpendre.

O governador pediu água, puxou conversa, perguntou:

– Como é o nome deste menino?

– É Agamenon, respondeu a mulher.

O governador sentiu-se homenageado e fez mais uma pergunta para completar sua satisfação diante de seus secretários que o acompanhavam:

– E por que a senhora colocou o nome dele de Agamenon?

– Porque ele danou-se a roubar, virou gatuno e eu coloquei o nome do governador.

Há momentos que é melhor não perguntar.

Folclore político à parte, não perguntem a Lula da Silva quais os pedreiros que ele vai contratar, se ganhar a eleição, para “reconstruir o Brasil”, como ele e outros petistas mais arraigados estão alardeando por aí.

Em janeiro de 2003, Lula assumiu o governo federal. Depois se reelegeu, indicou e elegeu Dona Dilma Rousseff, escolheu Michel Temer como vice dela e dos sonhos dele e o resto da história não precisa repetir.

Lula da Silva contratou muitos pedreiros que, invés de cuidarem bem da construção, provocaram o desmoronamento moral de petistas e aliados e, por consequência, transformaram o Brasil em escombros.

Somente a título de exemplo, vão alguns nomes de petistas e aliados condenados, presos ou ainda investigados por corrupção, todos escolhidos por Lula e pelo PT para cuidarem da construção que ele mesmo ruiu e hoje diz que vai reconstruir.

Os ex-presidentes nacionais do PT: José Dirceu e José Genoíno; os ex-ministros Antonio Palocci, Guido Mantega e Paulo Bernardo; os ex-tesoureiros do PT: Delúblio Soares, Paulo Ferreira e João Vaccari Neto; políticos de diversos estados: Fernando Pimentel, Gleisi Hoffmann, Humberto Costa, Lindbergh Farias, Marco Maia, João Paulo Cunha, André Vargas; parte da diretoria da Petrobras que o PT indicou ou se aliou: o presidente Aldemir Bendine; os diretores Pedro Barusco, Renato Duque, Zelada, Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e outros tantos.

E o mensalão? Ah! Esta é outra história.

O senador Jaques Wagner (PT-BA) também diz que vai ajudar Lula a reconstruir o Brasil.

Convenhamos, Jaques Wagner e Lula da Silva entendem de construção. Ambos eram sindicalistas pobres e viviam fazendo greves em cima de caminhões, em Camaçari e São Bernardo do Campo, respectivamente.

Deu certo, não se sabe se exatamente por isto. Hoje ambos são ricos.

Isto não significa dizer que eles são “amigos do alheio”, como se dizia antigamente nas delegacias de furtos e roubos.

O que se pode dizer é que Jaques Wagner e Lula da Silva, dentre outros petistas, têm inteligência acima da média de nós, mortais brasileiros e trabalhadores de sol a sol. Conseguiram ficar ricos fazendo política e sem trabalhar.

Inteligentíssimos, portanto. Devemos ter orgulho de ter políticos inteligentes assim.

Jaques Wagner é dono de um apartamento avaliado em R$ 10 milhões, com direito a píer que leva ao mar, num dos metros quadrados mais caros do Brasil, o Corredor da Vitória, em Salvador, endereço nobre da elite baiana.

O novo brinquedo onde Jaques Wagner mora é bem diferente do modesto apartamento em São Lázaro, na Federação, sua residência anterior, que ele dizia valer R$ 150 mil.

Como se vê, com uma equipe dessas ou semelhante, não é possível reconstruir nada, mesmo sendo Lula da Silva mestre de obras. Ou principalmente, em razão disto.

Essa equipe de Lula e Jaques Wagner deve estar preocupada com outra coisa e certamente não é Brasil.

araujo-costa@uol.com.br

Em Patamuté, o adeus de João Menezes

João Menezes em sua rotina na Fazenda

Em 03/03/2022 celebra-se, na catedral de Juazeiro, a missa de sétimo dia do falecimento de João Menezes, segundo noticiou a família.

João Menezes era meu padrinho de Crisma.

Crisma – ou Confirmação – é o sacramento que a pessoa batizada recebe do bispo, uma unção com óleo, segundo os ritos e doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.

Os mais antigos, nos quais me incluo, ainda guardam o respeito aos padrinhos, àquelas pessoas que guiaram nossos primeiros passos dentro da Igreja e, neste particular, os padrinhos são fundamentais nessa caminhada de fé e esperança.

Os padrinhos são uma espécie de norte, a luz que ilumina o caminho em direção à vida e, sobretudo, o horizonte que nos dá a certeza da fé que professamos.

São nossos primeiros exemplos, além de nossos pais. Espécies de farol para clarear o desconhecido.

Mantive o respeito e o dever de “tomar a bênção” aos padrinhos de batismo (Marieta Matos e Osmário Matos, ambos filhos de Otaviano Matos), o que me dava a impressão de revigorar a vida e robustecer a coragem para o prosseguimento do caminhar.

Assim, também o fiz com João Menezes, padrinho de Crisma, que agora partiu para a eternidade.

Entretanto, há anos que não o encontrava, em razão das atribulações da vida que me impôs a distância, mas me recordo da última vez que o encontrei em frente ao Bar de Taxú, em Patamuté.

Notei sua preocupação comigo, perguntou como eu estava e onde morava.

Padrinhos são assim, sempre se preocupam com a gente, não importa a idade do afilhado.

Foi uma conversa respeitosa, abençoada.

Registro e deixo aqui meus pêsames à ilustre família de João Menezes, nosso querido Joãozinho, da Urtiga de Baixo, como às vezes chamávamos e agradeço a Rosângela Menezes pelo aviso do falecimento e da data da missa.

Que Deus o ampare.   

Observação:

Colhi a foto de João Menezes do grupo de WhatsApp Patamuté City, um de seus momentos de rotina de fazendeiro.

araujo-costa@uol.com.br

Mãe, uma saudade de sempre

Sátira Araújo Costa/Fazenda Estreito

Costumo escrever sobre pessoas que me foram caras até aqui, ao longo de minha existência.  

Não é lá muito tempo de vida, mas já se vão alguns anos de tropeços e quedas ao longo do caminhar. Deu para registrar algumas lembranças. A memória reteve fatos, circunstâncias, sonhos sonhados.

Chego em idade septuagenária. É tempo de esmiuçar o sofrimento, tentar juntar os cacos das recordações, olhar para trás, antever o futuro que ainda me resta.

No mister de cronista, escrevo sobre amigos, conhecidos, circunstantes, pessoas que estiveram ao meu redor ou comigo conviveram nos lugares por onde passei, que foram diversos, muitos.

Admirei algumas pessoas e guardo outras tantas no livro da consideração.

De quando em vez leio páginas desse livro e fecho com saudoso cuidado. Tenho receio de esquecer os momentos que se não podem apagar. 

Contudo, nunca escrevi sobre D. Sátira Araújo Costa, uma senhora nascida em 12.01.1914 e falecida em 22.11.2008, aos 94 anos.

D. Sátira nasceu, viveu quase um século e morreu em casa de taipa no esturricado sertão da Bahia. Sua vida foi uma combinação entre a pobreza, a luta diária e a esperança.

Morreu lúcida, atenta ao pequeno mundo – ou ao grande mundo – que ela construiu, durante quase um século, com sabedoria exemplar adquirida na universidade da vida.

D. Sátira nasceu e viveu na caatinga do município baiano de Curaçá. Contemporânea da fase barulhenta do cangaço, contava muitos fatos e “causos” que presenciou ou deles teve conhecimento.

Tinha uma memória prodigiosa e impressionante interesse pelas coisas do conhecimento. Não frequentou escolas. Era autodidata.

Sabia fazer amigos, sabia conservá-los, sabia elevá-los ao indizível dos meandros da amizade.  

Viveu as agruras de um tempo difícil. Sem nenhum conforto, trabalhava de sol a sol para cuidar da família.

Criou seis filhos com dificuldade, enfrentando o cabo da enxada para plantar o sustento, carregando feixes espinhentos de lenha na cabeça e água em potes de barro, equilibrando-os sobre a cabeça, em rodilhas acomodadas para amenizar o incômodo do peso e as dores do corpo.

Quando podia ia à feira de Patamuté, aos sábados. Quando podia significa dizer ter dinheiro para comprar comida. Enfrentava a pé três léguas, um percurso grande e cansativo, mas necessário.

Seu maior companheiro foi o sofrimento. Sua maior tarefa foi driblar o turbilhonar das dificuldades. A fé foi o farol que iluminou seu padecer.

D. Sátira cavou cacimbas com suor e mãos calejadas. A água difícil de encontrar no solo esturricado amenizava seu sofrimento, dos filhos e dos animais.

D. Sátira fez cercas de roças para poder plantar, cuidar da lavoura e engendrar o sustento da família.

Em época de seca, o sertão é muito difícil. As dificuldades se multiplicam, parecem não ter fim – e não têm mesmo.

Comíamos macambira cozida, fruta de xique-xique, umbu e, mais do que isto, o que era possível para matar a fome. Orgulho-me de tudo isto. Podia ser diferente?

Os animais fazem parte do lidar diuturno das pessoas que vivem na caatinga. Elas se desesperam ao vê-los sofrer por falta de comida e água pra beber. É doído ver uma vida definhar, desamparada, por lhe faltar comida e água e escapar-lhe o socorro.

D. Sátira enfrentou e resistiu bravamente muitas secas. Anos seguidos sem chuva, como é comum no Nordeste. Conviveu com árvores ressequidas e desfolhadas, terra quente, pedras disformes difíceis de pisar.  

Enfrentou os espinhos e a poeira quente das entradas da caatinga, muitas vezes com os pés descalços, porque lhe faltava condições de comprar uma alpercata para amenizar a dor da vida.

O fardo da pobreza é muito grande, pesado demais para carregar. Somente quem conviveu com ela tem condições de tentar explicar.  “A pobreza tem cara de herege”, diziam os antigos. E tem.

D. Sátira nasceu e viveu em casa de taipa, erguida toscamente entre cactos, no sertão da Bahia. Lá edificou seu viver estribado mais na certeza das constantes dificuldades do que na esperança de dias melhores que nunca vieram.

Lá cuidou dos filhos e não teve tempo de cuidar de si própria.

D. Sátira derramou muitas lágrimas diante do sofrimento, desesperançada por não antever uma luz que lhe iluminasse a vida e lhe desse claridade para desanuviar  a estrada do tempo.

Muitas lágrimas que ela não se permitiu derramar as levou para o túmulo. Certamente foram muitas.

Ela tinha muita fé. Talvez a fé lhe tenha sustentado durante toda a vida, dando-lhe condições de enfrentar os percalços. Era devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Vi muitas vezes fazendo orações, dignando-se ao amparo de Deus para si e sua família.

D. Sátira merece um monumento de amor. Não consegui erguê-lo para que ela mesma o inaugurasse.

Hoje meu coração apertou.

Saudade de D. Sátira. Ela era minha mãe.

araujo-costa@uol.com.br

Registro de uma saudade

Zumba, numa tarde na Fazenda Estreito

Esta foto registra uma ocasião e uma saudade.

Em visita à casa de minha mãe Sátira Araújo Costa, na caatinga de Patamuté, município de Curaçá (BA), recebi a visita de Zumba, nosso querido Zé de Euzébio, senhor muito decente, prestativo e amigo de minha família, desde sempre.

Início da década de 1990, aqui aparecem Zumba e minha primeira filha Thábata na Fazenda Estreito. Lá estão minhas raízes e minha razão de viver.

Foi a última vez que vi Zumba.

Agora, chega-me a notícia do falecimento de Zumba, já beirando os 100 anos de vida.

Pêsames à família, que prezo muito: D. Patrocínia, Maria Auxiliadora, Maria Izabel, José Carlos, meu compadre “Seu Né” e todos do núcleo familiar de Zumba.

Que Deus o ampare.

araujo-costa@com.br

Em Chorrochó, o indispensável Edilson Oliveira  

Edilson de Oliveira Maciel

“Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece” (Hannah Arendt, filósofa alemã (1906-1975)

Edilson de Oliveira Maciel é um mestre da comunicação. Seguramente o é e exerce este mister com brilho, dinamismo e dedicação.

Idealizador dos andaimes estruturais da Rádio Líder do Sertão FM e pioneiro nesse setor, Edilson Oliveira enfrentou seguidos percalços, quando ainda eram rudimentares os alicerces que sustentaram seu ambicioso projeto de comunicação em Chorrochó.

Rádio comunitária, a Líder nasceu lá por volta da segunda metade de 1998 e exigia trabalho ingente, persistência, ideias sustentáveis e, mais do que isto, dedicação e clareza de propósitos.

Edilson também exerceu dignificante trabalho na condição de técnico de urnas na 158ª Zona Eleitoral sediada em Chorrochó, função que desempenhou com brilho e competência no período de 2000 a 2014, considerados os interregnos decorrentes do calendário eleitoral.

Nessa condição, foi considerado um dos melhores técnicos daquela Zona Eleitoral e seu trabalho reconhecido como essencial e necessário em todos os municípios abrangidos por aquela circunscrição da Justiça Eleitoral da Bahia (Chorrochó, Abaré, Macururé e Rodelas).  

Referência na área de comunicação, Edilson Oliveira atualmente é assessor de Comunicação da Prefeitura Municipal de Chorrochó, função sobre a qual se assenta todo o sistema de divulgação dos atos legais que amparam as atividades administrativas do município para conhecimento da população.

Edilson Oliveira ainda tem relevantes serviços prestados na área social do município. Entende que a solidariedade é a forma mais abrangente de olhar com presteza as necessidades inseridas no contexto da vida social .

Atento aos prementes problemas do município, Edilson Oliveira comandou uma agenda robusta de comunicação, prestativa, necessária e, sobretudo, voltada para a comunidade de Chorrochó e circunvizinhanças.

Em consequência, pode-se dizer que, em certas ocasiões, Edilson se tornou indispensável na vida local, quer por sua presteza e seriedade em tudo que faz, quer em razão de seu desempenho em prol do município de Chorrochó.

Registro aqui uma gafe de cronista despreparado. Há alguns anos, já morando em São Paulo, em visita a Chorrochó, eu desconhecia a existência da Rádio Líder do Sertão FM.

Não existia internet no sertão, tampouco celular fartamente disponível aos moradores da região, de modo que a comunicação se dava precariamente, quase sempre através de cartas ou ligações interurbanas custosas e difíceis realizadas através dos postos telefônicos.

Jovem e eficiente repórter, Edilson me abordou numa daquelas barracas da festa de Senhor do Bonfim, microfone em punho e me fez, de supetão, algumas perguntas sobre a festa.

Desinformado, eu não sabia o que responder diante do microfone da Rádio Líder do Sertão FM, por uma razão muito simples: desconhecia a existência da Rádio Líder de Chorrochó.

Como se vê, uma gafe inominável, já que morei em Chorrochó, conhecia a política local em todos os seus meandros, as coisas e a vida cotidiana de Chorrochó, mas desconhecia a existência da Líder do Sertão à época tão brilhantemente conduzida por Edilson Oliveira.

O registro é para dizer que Edilson Oliveira vem de longe na área de comunicação.

Edilson é filho de José de Oliveira Maciel e de D. Maria do Socorro de Oliveira Maciel. É casado e pai de duas filhas.

Como se vê, o profissional Edilson estrutura-se em família exemplar. Talvez aí, esteja a razão de seu êxito e de sua dedicação às causas que abraçou em Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br

O cutucar da saudade

Evaldo Menezes e João Bosco de Menezes/álbum de família.

“O coração, cofre de um tesouro, era material: desfez-se. Ficou o tesouro incorruptível e sagrado: a honra” (Camilo Castelo Branco, 1825-1890)

Chorrochó, sempre Chorrochó, sustentáculo da vida de quem sabe amar, gosta de amar, de quem ensina amar:

Quando José Evaldo de Menezes faleceu em 2020, citei nalgum lugar, em sua homenagem, uma frase do escritor português Camilo Castelo Branco que hoje reproduzo.

No ano seguinte, faleceu seu irmão João Bosco de Menezes (Joãozito), aumentando o vazio da família, o que nos fez muito refletir sobre nossas fraquezas, a efemeridade da vida e a certeza da morte.

A frase do escritor português ajusta-se a um e ao outro. Ambos honrados, Evaldo e Joãozito souberam construir, ao seu redor, o que de mais precioso se pode deixar para familiares e amigos: a honra e a retidão de caráter.

Sou grato aos dois – Evaldo e Joãozito – por me terem acolhido na juventude, em situação muito difícil.

Sou grato a Maria do Socorro Menezes Ribeiro, minha distinta comadre, irmã de Evaldo e Joãozito, por tudo que fez em meu benefício. E grato também a Virgílio Ribeiro de Andrade, seu esposo e meu compadre, distinto compadre.

Confesso admirador de Evaldo e Joãozito, enquanto viveram e, hoje, in momoriam, relembro essa admiração que não se acaba, não pode acabar, nunca vai se acabar.

Jamais a gratidão pode se esvair no tempo, mesmo em razão da morte.

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