Em 03/03/2022 celebra-se, na catedral de Juazeiro, a missa de sétimo dia do falecimento de João Menezes, segundo noticiou a família.
João Menezes era meu padrinho de Crisma.
Crisma – ou Confirmação – é o sacramento que a pessoa batizada recebe do bispo, uma unção com óleo, segundo os ritos e doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.
Os mais antigos, nos quais me incluo, ainda guardam o respeito aos padrinhos, àquelas pessoas que guiaram nossos primeiros passos dentro da Igreja e, neste particular, os padrinhos são fundamentais nessa caminhada de fé e esperança.
Os padrinhos são uma espécie de norte, a luz que ilumina o caminho em direção à vida e, sobretudo, o horizonte que nos dá a certeza da fé que professamos.
São nossos primeiros exemplos, além de nossos pais. Espécies de farol para clarear o desconhecido.
Mantive o respeito e o dever de “tomar a bênção” aos padrinhos de batismo (Marieta Matos e Osmário Matos, ambos filhos de Otaviano Matos), o que me dava a impressão de revigorar a vida e robustecer a coragem para o prosseguimento do caminhar.
Assim, também o fiz com João Menezes, padrinho de Crisma, que agora partiu para a eternidade.
Entretanto, há anos que não o encontrava, em razão das atribulações da vida que me impôs a distância, mas me recordo da última vez que o encontrei em frente ao Bar de Taxú, em Patamuté.
Notei sua preocupação comigo, perguntou como eu estava e onde morava.
Padrinhos são assim, sempre se preocupam com a gente, não importa a idade do afilhado.
Foi uma conversa respeitosa, abençoada.
Registro e deixo aqui meus pêsames à ilustre família de João Menezes, nosso querido Joãozinho, da Urtiga de Baixo, como às vezes chamávamos e agradeço a Rosângela Menezes pelo aviso do falecimento e da data da missa.
Que Deus o ampare.
Observação:
Colhi a foto de João Menezes do grupo de WhatsApp Patamuté City, um de seus momentos de rotina de fazendeiro.
Costumo escrever sobre pessoas que me foram caras até aqui, ao longo de minha existência.
Não é lá muito tempo de vida, mas já se vão alguns anos de tropeços e quedas ao longo do caminhar. Deu para registrar algumas lembranças. A memória reteve fatos, circunstâncias, sonhos sonhados.
Chego em idade septuagenária. É tempo de esmiuçar o sofrimento, tentar juntar os cacos das recordações, olhar para trás, antever o futuro que ainda me resta.
No mister de cronista, escrevo sobre amigos, conhecidos, circunstantes, pessoas que estiveram ao meu redor ou comigo conviveram nos lugares por onde passei, que foram diversos, muitos.
Admirei algumas pessoas e guardo outras tantas no livro da consideração.
De quando em vez leio páginas desse livro e fecho com saudoso cuidado. Tenho receio de esquecer os momentos que se não podem apagar.
Contudo, nunca escrevi sobre D. Sátira Araújo Costa, uma senhora nascida em 12.01.1914 e falecida em 22.11.2008, aos 94 anos.
D. Sátira nasceu, viveu quase um século e morreu em casa de taipa no esturricado sertão da Bahia. Sua vida foi uma combinação entre a pobreza, a luta diária e a esperança.
Morreu lúcida, atenta ao pequeno mundo – ou ao grande mundo – que ela construiu, durante quase um século, com sabedoria exemplar adquirida na universidade da vida.
D. Sátira nasceu e viveu na caatinga do município baiano de Curaçá. Contemporânea da fase barulhenta do cangaço, contava muitos fatos e “causos” que presenciou ou deles teve conhecimento.
Tinha uma memória prodigiosa e impressionante interesse pelas coisas do conhecimento. Não frequentou escolas. Era autodidata.
Sabia fazer amigos, sabia conservá-los, sabia elevá-los ao indizível dos meandros da amizade.
Viveu as agruras de um tempo difícil. Sem nenhum conforto, trabalhava de sol a sol para cuidar da família.
Criou seis filhos com dificuldade, enfrentando o cabo da enxada para plantar o sustento, carregando feixes espinhentos de lenha na cabeça e água em potes de barro, equilibrando-os sobre a cabeça, em rodilhas acomodadas para amenizar o incômodo do peso e as dores do corpo.
Quando podia ia à feira de Patamuté, aos sábados. Quando podia significa dizer ter dinheiro para comprar comida. Enfrentava a pé três léguas, um percurso grande e cansativo, mas necessário.
Seu maior companheiro foi o sofrimento. Sua maior tarefa foi driblar o turbilhonar das dificuldades. A fé foi o farol que iluminou seu padecer.
D. Sátira cavou cacimbas com suor e mãos calejadas. A água difícil de encontrar no solo esturricado amenizava seu sofrimento, dos filhos e dos animais.
D. Sátira fez cercas de roças para poder plantar, cuidar da lavoura e engendrar o sustento da família.
Em época de seca, o sertão é muito difícil. As dificuldades se multiplicam, parecem não ter fim – e não têm mesmo.
Comíamos macambira cozida, fruta de xique-xique, umbu e, mais do que isto, o que era possível para matar a fome. Orgulho-me de tudo isto. Podia ser diferente?
Os animais fazem parte do lidar diuturno das pessoas que vivem na caatinga. Elas se desesperam ao vê-los sofrer por falta de comida e água pra beber. É doído ver uma vida definhar, desamparada, por lhe faltar comida e água e escapar-lhe o socorro.
D. Sátira enfrentou e resistiu bravamente muitas secas. Anos seguidos sem chuva, como é comum no Nordeste. Conviveu com árvores ressequidas e desfolhadas, terra quente, pedras disformes difíceis de pisar.
Enfrentou os espinhos e a poeira quente das entradas da caatinga, muitas vezes com os pés descalços, porque lhe faltava condições de comprar uma alpercata para amenizar a dor da vida.
O fardo da pobreza é muito grande, pesado demais para carregar. Somente quem conviveu com ela tem condições de tentar explicar. “A pobreza tem cara de herege”, diziam os antigos. E tem.
D. Sátira nasceu e viveu em casa de taipa, erguida toscamente entre cactos, no sertão da Bahia. Lá edificou seu viver estribado mais na certeza das constantes dificuldades do que na esperança de dias melhores que nunca vieram.
Lá cuidou dos filhos e não teve tempo de cuidar de si própria.
D. Sátira derramou muitas lágrimas diante do sofrimento, desesperançada por não antever uma luz que lhe iluminasse a vida e lhe desse claridade para desanuviar a estrada do tempo.
Muitas lágrimas que ela não se permitiu derramar as levou para o túmulo. Certamente foram muitas.
Ela tinha muita fé. Talvez a fé lhe tenha sustentado durante toda a vida, dando-lhe condições de enfrentar os percalços. Era devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Vi muitas vezes fazendo orações, dignando-se ao amparo de Deus para si e sua família.
D. Sátira merece um monumento de amor. Não consegui erguê-lo para que ela mesma o inaugurasse.
Em visita à casa de minha mãe Sátira Araújo Costa, na caatinga de Patamuté, município de Curaçá (BA), recebi a visita de Zumba, nosso querido Zé de Euzébio, senhor muito decente, prestativo e amigo de minha família, desde sempre.
Início da década de 1990, aqui aparecem Zumba e minha primeira filha Thábata na Fazenda Estreito. Lá estão minhas raízes e minha razão de viver.
Foi a última vez que vi Zumba.
Agora, chega-me a notícia do falecimento de Zumba, já beirando os 100 anos de vida.
Pêsames à família, que prezo muito: D. Patrocínia, Maria Auxiliadora, Maria Izabel, José Carlos, meu compadre “Seu Né” e todos do núcleo familiar de Zumba.
“Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece” (Hannah Arendt, filósofa alemã (1906-1975)
Edilson de Oliveira Maciel é um mestre da comunicação. Seguramente o é e exerce este mister com brilho, dinamismo e dedicação.
Idealizador dos andaimes estruturais da Rádio Líder do Sertão FM e pioneiro nesse setor, Edilson Oliveira enfrentou seguidos percalços, quando ainda eram rudimentares os alicerces que sustentaram seu ambicioso projeto de comunicação em Chorrochó.
Rádio comunitária, a Líder nasceu lá por volta da segunda metade de 1998 e exigia trabalho ingente, persistência, ideias sustentáveis e, mais do que isto, dedicação e clareza de propósitos.
Edilson também exerceu dignificante trabalho na condição de técnico de urnas na 158ª Zona Eleitoral sediada em Chorrochó, função que desempenhou com brilho e competência no período de 2000 a 2014, considerados os interregnos decorrentes do calendário eleitoral.
Nessa condição, foi considerado um dos melhores técnicos daquela Zona Eleitoral e seu trabalho reconhecido como essencial e necessário em todos os municípios abrangidos por aquela circunscrição da Justiça Eleitoral da Bahia (Chorrochó, Abaré, Macururé e Rodelas).
Referência na área de comunicação, Edilson Oliveira atualmente é assessor de Comunicação da Prefeitura Municipal de Chorrochó, função sobre a qual se assenta todo o sistema de divulgação dos atos legais que amparam as atividades administrativas do município para conhecimento da população.
Edilson Oliveira ainda tem relevantes serviços prestados na área social do município. Entende que a solidariedade é a forma mais abrangente de olhar com presteza as necessidades inseridas no contexto da vida social .
Atento aos prementes problemas do município, Edilson Oliveira comandou uma agenda robusta de comunicação, prestativa, necessária e, sobretudo, voltada para a comunidade de Chorrochó e circunvizinhanças.
Em consequência, pode-se dizer que, em certas ocasiões, Edilson se tornou indispensável na vida local, quer por sua presteza e seriedade em tudo que faz, quer em razão de seu desempenho em prol do município de Chorrochó.
Registro aqui uma gafe de cronista despreparado. Há alguns anos, já morando em São Paulo, em visita a Chorrochó, eu desconhecia a existência da Rádio Líder do Sertão FM.
Não existia internet no sertão, tampouco celular fartamente disponível aos moradores da região, de modo que a comunicação se dava precariamente, quase sempre através de cartas ou ligações interurbanas custosas e difíceis realizadas através dos postos telefônicos.
Jovem e eficiente repórter, Edilson me abordou numa daquelas barracas da festa de Senhor do Bonfim, microfone em punho e me fez, de supetão, algumas perguntas sobre a festa.
Desinformado, eu não sabia o que responder diante do microfone da Rádio Líder do Sertão FM, por uma razão muito simples: desconhecia a existência da Rádio Líder de Chorrochó.
Como se vê, uma gafe inominável, já que morei em Chorrochó, conhecia a política local em todos os seus meandros, as coisas e a vida cotidiana de Chorrochó, mas desconhecia a existência da Líder do Sertão à época tão brilhantemente conduzida por Edilson Oliveira.
O registro é para dizer que Edilson Oliveira vem de longe na área de comunicação.
Edilson é filho de José de Oliveira Maciel e de D. Maria do Socorro de Oliveira Maciel. É casado e pai de duas filhas.
Como se vê, o profissional Edilson estrutura-se em família exemplar. Talvez aí, esteja a razão de seu êxito e de sua dedicação às causas que abraçou em Chorrochó.
Evaldo Menezes e João Bosco de Menezes/álbum de família.
“O coração, cofre de um tesouro, era material: desfez-se. Ficou o tesouro incorruptível e sagrado: a honra” (Camilo Castelo Branco, 1825-1890)
Chorrochó, sempre Chorrochó, sustentáculo da vida de quem sabe amar, gosta de amar, de quem ensina amar:
Quando José Evaldo de Menezes faleceu em 2020, citei nalgum lugar, em sua homenagem, uma frase do escritor português Camilo Castelo Branco que hoje reproduzo.
No ano seguinte, faleceu seu irmão João Bosco de Menezes (Joãozito), aumentando o vazio da família, o que nos fez muito refletir sobre nossas fraquezas, a efemeridade da vida e a certeza da morte.
A frase do escritor português ajusta-se a um e ao outro. Ambos honrados, Evaldo e Joãozito souberam construir, ao seu redor, o que de mais precioso se pode deixar para familiares e amigos: a honra e a retidão de caráter.
Sou grato aos dois – Evaldo e Joãozito – por me terem acolhido na juventude, em situação muito difícil.
Sou grato a Maria do Socorro Menezes Ribeiro, minha distinta comadre, irmã de Evaldo e Joãozito, por tudo que fez em meu benefício. E grato também a Virgílio Ribeiro de Andrade, seu esposo e meu compadre, distinto compadre.
Confesso admirador de Evaldo e Joãozito, enquanto viveram e, hoje, in momoriam, relembro essa admiração que não se acaba, não pode acabar, nunca vai se acabar.
Jamais a gratidão pode se esvair no tempo, mesmo em razão da morte.
Lula da Silva/Capa do livro “Lula, o filho do Brasil”, de Denise Paraná, Fundação Perseu Abramo, 2002
“O ser humano é inviável. Mas eu não sou” (Millor Fernandes, jornalista, escritor e humorista carioca, 1923-2012)
Cabo eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT), outrora ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, em 2010 fez campanha eleitoral para D. Dilma Rousseff.
Deu certo. Grata, D. Dilma o nomeou em 2015 para ministro do STF. O sentimento de gratidão é muito relevante e esta é uma qualidade inegável da ex-presidente petista (Opa! A turma do politicamente correto diz que o certo é presidenta).
Anos mais tarde, numa só canetada petista, Edson Fachin declarou incompetente a 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba – que julgou e condenou Lula da Silva à prisão – e abriu caminho para o STF declarar suspeito o ingênuo e atabalhoado Sérgio Moro, que hoje virou uma espécie de político aventureiro e despreparado e está levando bordoadas de todos os lados, da direita e da esquerda.
Mais: mui diligentemente, Edson Fachin anulou as sentenças (leiam-se condenações) que mandaram Lula da Silva para o xilindró porque, afinal, foi o PT que o indicou ministro vitalício do STF e não é errado exercer o sentimento de gratidão.
Em consequência, embora não tenha sido declarado inocente, por força de disposição processual – que, em quadro assim, manda os processos começarem da estaca zero – Lula está leve e solto da silva, apto e habilitado para disputar a presidência da República, graças ao cabo eleitoral Edson Fachin.
Dentre os membros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), três são também ministros do STF, por mandamento constitucional. Até aí, tudo bem, deve-se cumprir fielmente a Constituição da República.
Entretanto, como o STF virou uma espécie de partido político defensor da esquerda, os três ministros da Corte, que compõem o STF, conseguiram levar para a instância máxima da Justiça Eleitoral uma pitada ardente de participação política que costumam cultivar dentro do Supremo ao arrepio da Constituição da República.
Nesses 90 anos da Justiça Eleitoral (o Código Eleitoral foi criado em 24/02/1932, por Getúlio Vargas), essas eleições vindouras de 2022 terão mais ministros do TSE se imiscuindo em assuntos políticos do que julgando questões estritamente eleitorais.
Lula da Silva precisa ganhar. Outros precisam perder. Assim querem seus famosos cabos eleitorais.
Mas Lula é um sujeito esperto, aliás espertíssimo. Anda dizendo por aí que a eleição não está ganha e ainda há muito trabalho pela frente.
As pesquisas sustentadas pela esquerda estão exagerando a seu favor e Lula não está engolindo esse maná tão facilmente. Lula sabe onde pisa.
Amigos muito próximos de Lula dizem que ele está com o “pé no chão” e não anda tão eufórico assim como seus apoiadores, tanto que está arrebanhando votos do paulista Geraldo Alckmin, ex-PSDB e outrora seu adversário, para tentar construir uma margem segura nas urnas.
O PT nunca ganhou eleição para o governo de São Paulo, mesmo nos tempos que estava no auge e Alckmin sempre foi uma pedra no sapato de Lula.
Antes adversários ferrenhos e irreconciliáveis, Lula e Alckmin viviam se engalfinhando. Hoje vivem se beijando. O amor é lindo.
Lula conhece política, é mestre em campanha eleitoral e, se ele estiver achando assim, é porque tem informações seguras de que há otimistas demais exagerando e dizendo que a eleição dele está garantida.
Lula vem perdendo os cabelos de tanto andar na estrada da malandragem política.
Nesse quiproquó todo – e Lula pisando no chão – os cabos eleitorais de Lula da Silva, inclusive o ministro Edson Fachin, devem estar perdendo o sono com uma possível queda do morubixaba de Caetés nas pesquisas, embora fortemente maquiadas pela esquerda.
Millor Fernandes tinha razão: “o ser humano é inviável”.
O jornalista Elio Gaspari conta uma história engraçada em sua coluna na Folha de S.Paulo de 20/02/2022:
“O marquês do Paraná, grande ministro do Império, morreu em 1856. Velado na velha catedral, a família aproveitou a madrugada para descansar em casa. Quando voltou, o marquês estava sem o fardão de senador e sem as condecorações nele espetadas”.
Levaram o fardão e as condecorações do defunto, sorrateiramente.
Lembrete às más línguas: naquele tempo, por óbvio, não existia o PT, nem todo esse amontoado de excrescência partidária, que abunda hoje, especialista em surrupiar dinheiro público. A arte de furtar vem de longe.
Capa do livro Raízes, de autoria de Railda Vieira da Silva
Agradabilíssima a leitura de Raízes, valioso livro de autoria de Railda Vieira da Silva, professora, agrônoma e mestre em Administração Rural e Comunicação Rural. Acresce-lhe a importância de ser graduada pela tradicional Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco-FAMESF.
A orelha do livro é do saudoso poeta curaçaense Herval Francisco Félix e o substancioso prefácio da lavra do reconhecido pedagogo José Espedito Félix de Martins, que também cuidou da revisão geral.
O professor Herval, meu mestre de tertúlias em Curaçá, lembrou que “um povo sem história é um povo sem nome, cuja tradição tende a se dissolver na noite dos tempos, o que não deverá acontecer com o povo de Poço de Fora, porque Railda não permitirá”.
Lançado em 28/11/2015, a capa é de Sérgio Eduardo F. da Silva e guarda impressionante consentaneidade com o conteúdo proposto pela autora.
Por aí se vê, que a porta de entrada do livro por si só justifica sua importância. A autoridade de ambos é indiscutível. O conhecimento e a experiência inegáveis.
Quanto a Herval Félix, carrego dupla honra: em Curaçá, foi meu professor no Colégio Municipal Professor Ivo Braga e, simultaneamente, colega de trabalho na Prefeitura daquele município do submédio São Francisco.
Colega é modo dizer porque, na verdade, éramos amigos, ajudados pela convivência e faina diárias e constantes discussões que travávamos sobre assuntos gerais e de literatura. Óbvio, eu sempre saía perdendo, diante da monumental cultura do professor Herval.
Contudo, eram saudáveis e enriquecedores os debates que construíamos, alguns no recinto da Prefeitura e muitos outros na calçada do armazém de Juvêncio Ferreira de Oliveira, o espirituoso e querido Maroto.
No que tange ao pedagogo e intelectual Espedito Martins, não o conheço pessoalmente, o que, inobstante, em nada ofusca minha admiração por este profissional exemplar, mormente em razão de sua inteligência e cultura .
Entrementes, vamos ao livro. A autora esmerou-se em fazê-lo baseada em valiosa e ingente pesquisa, certamente coligida em condições adversas, porquanto sabemos que são rudimentares os registros históricos regionais da época. E ela conseguiu com êxito. Uma façanha. Melhor, transformou tais registros num livro rico e essencialmente valioso.
Entendo que, para compreender o indivíduo será preciso, sempre, a investigação de suas origens. Mais: a formação sociológica de um povo dita o futuro de suas gerações.
A professora Railda não se descuidou disto. Admirável seu trabalho em busca dos valores que sustentam nossa formação regional, com destaque para o município de Curaçá.
O distrito de Poço de Fora está fielmente delineado no livro, esmiuçado, explicado. Líderes e figuras históricas do lugar foram fielmente retratados, de modo a situá-los diante de fatos, épocas, feitos, engendramento social.
A formação político-social e econômica dita o caminho seguro da obra da professora Railda. Significa dizer que é uma obra séria, incontroversa, recomendável.
O livro começa pelas trilhas do povoamento de Curaçá, Pambu como esteio, preocupa-se com as características do Nordeste, retrata o distrito de Poço de Fora no tempo, envereda-se pelos conflitos e disputas regionais, assim como suas influências externas.
No todo, é um apanhado histórico cientificamente amparado e sedimentado nos anos, contradições sociais e formação da gente sertaneja.
O livro é imperdível. É o resultado de pesquisa robusta, séria, vasta e, sobretudo, confiável.
Os elementos que embasam a obra são importantes, coerentes com o tempo, essencialmente justificáveis sob o ponto de vista histórico.
O livro traz epílogo encantador, lembra o sertão como cenário e a cultura ínsita na história de nosso povo.
Já escrevi, alhures, sobre Raízes e o primeiro contato com a obra, que se deu por intermédio do Dr. Francisco Afonso de Menezes, chorrochoense afeito às coisas da cultura regional.
Escritora de linguagem escorreita e texto aprumado, Railda Vieira é um agradável destaque no mundo das letras e certamente traz grande contribuição para aprendizes como eu.
Raízes tem admirável qualidade, vasto conteúdo e enriquece a história de Poço de Fora, de Curaçá e, por extensão, de toda região sanfranciscana.
“Tudo se torna impossível se, de saída, você concluir que é impossível”. jornalista Ricardo Noblat)
Não sei se a imagem e a postagem são antigas ou recentes o que, neste caso, pouco ou nada importa.
Importam o registro da situação, o protesto veemente do filho indignado de Patamuté, a crítica necessária e o cutucar veemente às autoridades municipais que parecem inertes, acomodadas, irresponsavelmente indiferentes.
Josiná Possidônio da Silva, nosso querido Lalá de Patamuté, assim como eu já beirando os 70 anos (Lalá nasceu em outubro de 1952), aparece nas redes sociais firmemente protestando contra o estado de abandono em que se encontra o cemitério de Patamuté.
É uma indignidade à memória dos mortos.
Lembro que em Patamuté, quando uma pessoa falecia, seguia-se um ritual lúgubre, triste, desalentador, marcante: a conversa do sino da igreja, uma espécie de diálogo que ele mantinha com os vivos.
O sino tristemente badalava, indicando o falecimento de alguém do distrito, sítios, fazendas, circunvizinhança.
O sino da igreja de Santo Antonio anunciava a morte a todos. Uma tradição que vem se arrastando há um século, pelo menos.
Quem primeiro tinha conhecimento do infortúnio era o sineiro, um senhor responsável por aquele mister, que cumpria o seu importante papel diante da circunstância: fazia o sino dialogar com a população de Patamuté, informando-a sobre o acontecido e gerando dúvidas, expectativas, curiosidades e esclarecimentos sobre o finado.
Hoje o cemitério de Patamuté para onde iam esses mortos que o sino anunciava encontra-se humilhado pela passagem do tempo e pelo descaso.
Cruzes tristemente espetadas no ar ostentam as marcas da indiferença. O que existe sobrando por lá é a presença inconteste do descaso, do esquecimento, do descuido e do entorpecimento.
A imagem mostrada por Lalá é desalentadora. Ausência de limpeza, manutenção e de organização e, sobretudo, de respeito aos mortos.
O cemitério é municipal e, como tal, deve ser cuidado pela Municipalidade, o que não está sendo feito.
Há quem entenda que a comunidade de Patamuté deve cuidar da manutenção do cemitério. Não acho ser esta a decisão mais correta. A Prefeitura tem atribuições, dentre elas cuidar dos próprios municipais.
Parece razoável ponderar que o distrito de Patamuté carece de uma atenta representação na Câmara Municipal que cobre esse e outros serviços da Prefeitura.
Quando o sino da igreja de Santo Antonio dialogava mais fortemente com a população, o cemitério era bem mais cuidado. Dava-se mais atenção àquela morada dos mortos, abrigo do ocaso das ilusões.
Todavia, mortos não falam, não cobram, não exigem, não reivindicam, não votam. E para suas excelências, as autoridades municipais, pouco ou nada importa um cemitério abandonado. Em Patamuté ou em qualquer lugar.
Mas os parentes dos mortos votam.
Mais do que isto: a memória dos mortos não pode ser espezinhada, desdenhada e tristemente empurrada em direção à nossa cruel indiferença, indiferença de todos nós (inclusive minha) que não exigimos das autoridades os direitos básicos da população de Patamuté.
Todavia, é possível que a Prefeitura de Curaçá retome a decência e dê mais atenção ao distrito de Patamuté.
Observação:
Não cito o crédito das fotos/imagens do cemitério, por desconhecer a autoria, mas deixo o registro do trabalho valioso e útil à população de Patamuté.
O conhecimento do ex-juiz Sérgio Moro sobre o Nordeste é tão duvidoso quanto o seu caráter.
Pré-candidato a presidente a República (Podemos), depois de recente visita ao Ceará, Sérgio Moro escreveu em sua rede social:
“Ouvi de agricultores do agreste cearense que as maiores dificuldades enfrentadas por eles são a falta de chuva, de crédito e de seguro. Garantir boas condições ao homem do campo e fortalecer o agronegócio, trator da nossa economia, estão no centro do nosso projeto”.
Entretanto, agreste é uma sub-região que não existe no Ceará.
Todo o território do estado do Ceará assenta-se no sertão, de clima quente e seco, diferentemente do agreste, que é semiárido e abrange, por exemplo, os estados de Alagoas, Bahia, Sergipe, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Sérgio Moro errou geograficamente, rude e grosseiramente .
Em toda a região Nordeste, Sérgio Moro amarga 3% das intenções de voto e com esse assustador conhecimento sobre a região a tendência é exalar-se no limbo da indiferença dos nordestinos.
O mínimo que se espera de um candidato a presidente da República é que seja bem informado, bem assessorado ou, no mínimo, adquira alguns conhecimentos sobre os lugares que visita e pretende angariar votos.
Sérgio Moro ainda não conseguiu explicar – nem vai conseguir – como fez a façanha de ganhar R$ 3,7 milhões somente em um ano, da empresa americana Alvarez & Marsal, que cuida da recuperação financeira da Odebrecht, que ele arruinou quando juiz de Curitiba à frente da operação Lava Jato.
O Tribunal de Contas da União (TCU) sinalizou que seu serviço de inteligência identificou contradições entre os documentos apresentados por Sérgio Moro, para tentar justificar a bufunfa recebida e a documentação exibida, com a mesma finalidade, pela empresa onde o ex-juiz trabalhou (Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, 18/02/2022).
Ressalte-se que não é errado qualquer ex-juiz prestar serviços a consultorias da iniciativa privada, qualquer que seja ela e a qualquer tempo.
Todavia, Sérgio Moro não consegue explicar porque, em meio a tantas empresas privadas, inclusive no Brasil, ele foi prestar serviços nos Estados Unidos, exatamente para uma empresa americana que cuida da recuperação financeira da Odebrecht, alvo da operação Lava Jato que ele comandou.
Coisas do caráter? Coincidência? Conflito de interesse? Como ele descobriu a vaga? Quem o indicou?
Atabalhoado e perdido, em data recente Sérgio Moro acusou a Polícia Federal de não combater a corrupção. Logo ele que foi ministro da Justiça ao qual a corporação está historicamente vinculada.
A Polícia Federal, em nota oficial, deu um chega pra lá no ingênuo ex-juiz, que ficou com cara de galo e podia ter evitado esse vexame.
Em nota assinada pela Polícia Federal, o órgão acusou Moro de “mentir” e se defendeu, afirmando que efetuou “mais de mil prisões apenas por crimes de corrupção nos últimos três anos” (O Globo, 15/02/2022).
Mais uma fumaça que será esvoaçada na campanha eleitoral contra Sérgio Moro se a ingenuidade do ex-juiz permitir que ele chegue até lá ou Lula da Silva, os petistas, a imprensa lulopetista e parte da esquerda não o aniquilarem politicamente durante a campanha, o que é muito provável.
Josiel abraçado ao filho/álbum do filho Josiel Calazans Menezes Bezerra
Exemplo de homem público, de dignidade e de caráter irrepreensível, Josiel faleceu em 16/02/2022.
José Calazans Bezerra (Josiel) nasceu em Quijingue, ainda município de Tucano e se mudou jovem para Chorrochó. Elegante, cabelos negros, boa pinta, sorriso fácil, educado e atencioso, logo ganhou a simpatia de todos, ou de quase todos de Chorrochó.
Casou-se com Maria Menezes Mattos Bezerra, de tradicional família de Chorrochó, filha de Anna Mattos de Menezes (Quininha) e João Matos Cardoso e com ela constituiu família decente e honrada, incluídos aí os filhos José Calazans Bezerra Filho, Ana Maria Mattos Bezerra Brandão e Josiel Calazans Menezes Bezerra.
Todavia, isto é assunto longo para quem entende de história e este não é o meu caso. Preocupo-me tão somente com o registro do caminhar das boas pessoas, dos feitos que praticaram e das amizades que construíram.
A memória esburacada pode produzir o vexame de grafar nomes errados, confundir datas e misturar alhos com bugalhos. Corro o risco de arranhar os fatos e mutilar a história. É melhor deixar a tarefa para os entendidos.
Mas – e sempre há um mas – Josiel entrou na política, impulsionado pelos ventos soprados sobre o ainda jovem município e se elegeu prefeito de Chorrochó com 1.888 votos apoiado pelos deputados estaduais José Bezerra Neto e José Eloy de Carvalho e de duas lideranças nacionais, ícones da política da Bahia, os deputados federais Manoel Cavalcanti Novaes, pernambucano de Floresta e sua esposa, a paulista Necy Novaes.
Município novo à época (1963/1967), Chorrochó vivia um clima saudável com um prefeito jovem, socialmente admirável e impressionantemente dinâmico.
Josiel era mesmo admirável.
Josiel cercou-se de nomes respeitáveis da sociedade chorrochoense, a exemplo de José Pacheco de Menezes (Deca), João Mattos Cardoso e Joviniano Cordeiro.
A Câmara Municipal deu-lhe folgada maioria com os vereadores Sebastião Pereira da Silva (Baião), Aurélio Alves de Barros, Lucas Alventino, Pascoal de Almeida Lima e seu cunhado Vivaldo Cardoso de Menezes.
Vivaldo entendia desde burocracia da fiscalização estadual até política de bastidores de Chorrochó, além de instrumentos musicais. Vereador atuante, presidiu a Câmara Municipal e sustentou, com sabedoria, os altos e baixos da política local.
A administração de Josiel registrou alguns feitos compatíveis com as condições que o município permitia na ocasião: construiu uma barragem para abastecer a sede do município, iniciou a construção do Grupo Escolar Luís Viana Filho e do Posto Médico Francisco Pacheco (terminado na segunda administração de Dorotheu Pacheco de Menezes) e impulsionou o esporte local, além da conservação de estradas, prédios públicos e do campo de aviação.
Já fora da atividade política, Josiel manteve grande carisma junto aos munícipes, incompatível com o ostracismo a que se impôs voluntariamente depois de deixar a vida política.
Juazeiro foi seu refúgio voluntário.
Simpático, atencioso, sensato, indispensável em qualquer reunião de amigos. Afastou-se de disputas eleitorais, embora nunca tenha se afastado de Chorrochó e do apego às tradições locais.
Quando podia, era assíduo frequentador e participante ativo da principal festa da cidade, a do padroeiro Senhor do Bonfim.
Pessoa admirável, Josiel também construiu a história de Chorrochó.
É salutar que os órgãos públicos municipais responsáveis pela sedimentação da história de Chorrochó não se esqueçam de evidenciar o nome de Josiel, dando-lhe o destaque merecido que teve na construção da sociedade local.
Deixo pêsames à família de Josiel.
Que Senhor do Bonfim lhe indique o caminho rumo à eternidade e Deus o ampare.