Diários, segredos e miséria

Nos meus áureos tempos – já se vão algumas décadas – eu tinha um assistente que cuidava de minhas correspondências.

Certo dia, ao ver o nome do município do remetente, ele sapecou essa observação: “você recebe carta de cada lugar com nome esquisito!”.

Fiz-lhe ver que os lugares não são esquisitos. Esquisitos somos nós que achamos lugares, coisas e pessoas esquisitas e até fazemos observações esquisitas.

Mais de uma vez, em conversa com paulistas, eles acharam estranhos nomes como Abaré, Chorrochó, Curaçá, Canché, Uauá, Patamuté, Cumbe, etc.

Eles têm nomes muito parecidos com os nossos da Bahia e, no entanto, não acham estranhos: Avaré, Anhangabaú, Anhanguera, Mauá, Sumaré, Caraguatatuba, Cubatão, etc.

Outro dia encontrei, em minha rua, ao sair do trabalho, um senhor visivelmente fragilizado, fome estampada no rosto. Passou por mim, cambaleando, desviando-se dos tropeços, não me pediu nada.

Provoquei: tudo bem?

Ele respondeu: “Tudo bem, senhor”. E se foi, nada mais disse. Altivo, sereno, grande diante de si mesmo.

Deixar marcas é especialidade da pobreza. É só observar os maltrapilhos, desdentados, os miseráveis que nossa sociedade cruelmente constrói com a indiferença de sua ganância. e os joga debaixo dos pés.

Há marca mais cruel do que o rosto de uma pessoa faminta? Há marca mais dilacerante do que a dor de uma criatura pobre e desamparada?  

Tenho sugerido à pobreza para escafeder-se de minha vida, baixar noutro terreiro, mas não tive sucesso nessa empreitada até agora. Cara de pau, ela se faz de desentendida, parece surda e faz questão de me aporrinhar cotidianamente.  

Vira e mexe está me cutucando.

Quando tento me livrar da dita cuja, retiro-me sorrateiramente, mas ela me alcança na primeira esquina.

A miséria é cruel, crudelíssima. Persegue e maltrata.

Um pesquisador, mais de fofocas do que de coisas relevantes, manifestou desejo de conhecer meu possível diário, alegando curiosidade sobre minha vida.

Disse-lhe que não tenho diário nenhum, nunca me preocupei em anotar circunstâncias do meu viver, o que visivelmente o deixou desapontado.

Entendo que não tenho lições e experiências para servirem de modelo e, se as tivesse, não colocaria num diário frio, particularíssimo, solitário, passível de pesquisa, mas deixaria ao conhecer de todos.

Quanto a possíveis segredos, se os tivesse, seriam inconfessáveis ou não seriam segredos. Como diz a sabedoria mineira, “conversa com mais de dois é comício”. 

Os confidentes de hoje podem não ser confiáveis amanhã.  

As pessoas somente se interessam por detalhes da vida de um pé-rapado se ele for meliante, assim mesmo para espezinhá-lo, trucidá-lo, expor suas entranhas, desgraças e fraquezas diante de todos.

Se eu tivesse de contar alguma coisa não seria sobre minha vida. Seria sobre peregrinos, famintos, miseráveis, tristes, solitários e outros desafortunados mais que encontro no meu dia a dia.

Eles têm muito o que dizer. Ninguém os ouve.

Todavia, no recôndito de nosso ser, no âmago da existência, há sempre alguma coisa que não gostaríamos que outros conhecessem.

E se é assim, guarda-se, não se coloca em diário, senão acaba virando uma crônica como esta.  

araujo-costa@uol.com.br

Os “honestos” procuradores da República

“Na vida, nunca vi um rei que não estivesse nu” (Joel Silveira, jornalista sergipano, 1918-2007)

O Tribunal de Contas da União (TCU) investigou e descobriu.

Os procuradores da República que atuaram na operação Lava Jato e arrotavam honestidade cometeram deslizes que beiram à imoralidade, para dizer o mínimo.

Embora morando em Curitiba, sede da operação Lava Jato, esses procuradores recebiam diárias e passagens dos cofres públicos (leiam-se: impostos que pagamos), como se morassem fora e lá trabalhassem.

O TCU quer que os espertos procuradores devolvam o dinheiro embolsado indevidamente:

Antonio Carlos Welter: embolsou R$ 506 mil em diárias e R$ 186 mil em passagens;

Carlos Fernando dos Santos Lima: embolsou R$ 361 mil em diárias e R$ 88 mil em passagens;

Diogo Castor de Mattos: embolsou 387 mil em diárias;

Januário Paludo: embolsou R$ 391 mil em diárias e R$ 87 mil em passagens;

Orlando Martello Júnior: embolsou 461 mil em diárias e R$ 90 mil em passagens.

O chefe deles, Daltan Dallagnol que, segundo o TCU, criou a maracutaia, também está na mira do TCU para devolver a bufunfa recebida indevidamente, de forma solidária, assim como o então procurador-geral da República Rodrigo Janot, aquele que foi flagrado às escondidas reunido no fundo de um boteco, em Brasília, atrás de grades de cervejas, em conversa com advogado de réus da Lava Jato.

O Tribunal de Contas da União (TCU) alega que ditos procuradores criaram uma situação supostamente transitória, para justificarem o recebimento do dinheiro: moravam em Curitiba, mas informaram que continuavam morando em suas cidades de origem.

Com uma rapadura doce dessas, difícil de largar, está explicado por que Suas Excelências faziam tanta questão de acusar todo mundo a torto e a direito, certamente com o intuito de manterem a Lava Jato em funcionamento, já que ela se tornou fonte de recursos para abarrotar seus bolsos.

Esses excelentíssimos senhores integram o Ministério Público Federal, que tem o dever de zelar pelos interesses da sociedade e se dizem aptos para saírem por aí acusando Deus e todo mundo da prática de delitos.

Hoje – sabe-se – com um rabo de palha desses, esses procuradores não podem passar perto do fogo.  

Essa a hipocrisia de nossas instituições que muitos dizem que “estão funcionando”.

Podem estar funcionando, sim. Mas viciadas, deturpadas, hipócritas, promíscuas.

Os reis da Lava Jato estão todos nus.

araujo-costa@uol.com.br

Preciosos tesouros, minha riqueza

Thábata e Bruno/Thamara e Otávio/Thássia e Thales.

Há uma frase atribuída a José Martí, filósofo e político nacionalista cubano (1853-1895), segundo a qual há três coisas que a pessoa deve fazer durante a vida: “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”.

Fiz as três coisas, com modéstia. A ordem não foi necessariamente esta. Quiçá a ordem tenha obedecido minha humildade e meu cauteloso caminhar, difícil, espinhoso, às vezes titubeante, outras vezes resoluto.

Plantei árvores. Algumas cresceram frondosamente e floresceram. Outras não suportaram minha insípida e insignificante contribuição à natureza e não se foram adiante.

Escrevi livros, poucos. Não com a intenção de ficar famoso ou ganhar dinheiro. Nunca procurei fama, posições, badalações sociais, estrelismo.

Escrevo para robustecer o “teatro da alma”, registrar os ruídos do tempo, afastar os espinhos do caminho. São tantos!

Escrevo para firmar meu pensamento. Sem destinatários. É uma luta em defesa de nossa Pátria tão vilipendiada, destroçada e, sobretudo, espezinhada por supostos patriotas que se arvoram em únicos responsáveis pelos destinos dos brasileiros humildes. Péssimos responsáveis, abomináveis responsáveis.

Escrevo, também, para exaltar as amizades que tive, agradecer às pessoas que me ajudaram na vida e a todos aqueles que, humildes como eu, não se elevaram ao pedestal da arrogância, nem acima dos ombros dos semelhantes.

Sempre dispensei os hipócritas, a falsidade, a fragilidade dos que não sabem conviver com as dificuldades do caminho. Caminhar é difícil, não importa o destino.

Às vezes e quase sempre a solidão é a melhor companheira nessa jornada de plantar árvores, ter filhos e escrever livros.

Muitos se aproximam diante do sucesso, quase todos se afastam no infortúnio, nos momentos mais difíceis. Ficam os poucos e raros amigos, aqueles que chegam quanto as outras pessoas estão indo embora.

Penso como o poeta espanhol Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar”. Mas nunca me verguei diante das dificuldades, nem me apequenei frente às vicissitudes da vida.

Sou de berço humilde. Orgulho-me disto. A defesa de meus valores não depende de minha condição social e financeira, nem se sustenta nos sonhos que procurei alcançar, mas da inflexibilidade do caráter que carrego desde a juventude.

Tive filhas: três. Meus maiores tesouros, os únicos tesouros, insubstituíveis tesouros, incomparáveis tesouros relativamente a quaisquer outros.

Entretanto, as árvores plantadas e os livros escritos são insignificantes diante do sentido da construção de meu mundo retratado em minhas filhas, todas humildes como eu.

Cito-as todas, com indisfarçável orgulho: Thábata Aline Faria de Araújo Costa, Thamara Annelise Faria de Araújo Costa e Thássia Anneyse Faria de Araújo Costa.

Sempre fui renitente, arredio e reticente em trazê-las para meu mundo da escrita, dos livros e das redes sociais, por uma razão muito simples e óbvia: evitar a exposição de todas elas a esse mundo perigoso, cruel e incompreensivo.

As agressões geralmente partem de quem não nos conhecem, sequer sabem o sentido de ofender e agredir. São inconsequentes, desprezíveis. Difícil entender essa selvageria. Jogam-se pedras em qualquer direção, a esmo.

Entretanto, nesse 2022, estou completando idade septuagenária. Minha importância se vai diminuindo no contexto familiar e minhas filhas não mais dependem de mim para continuarem em busca de seus horizontes, de seus sonhos, da caminhada em direção ao desconhecido.

Cresceram, cada uma escorando-se em seu próprio esforço.

Estudaram, se destacaram profissionalmente. Erigiram-se diante da sociedade e se sustentam em suas próprias convicções, belas convicções,que as admiro.   

Nesse caminhar, confesso: lutei, amei, sorri, chorei, tropecei e andei sobre escombros de meus próprios erros. Mas não desisti. Não desisto, não vou desistir, nunca vou desistir.

Dificuldades muitas, mas antevendo sempre o começo de um novo caminhar.

Há esperança, sempre. A alvorada continuará bonita, o sol sempre vai iluminar a todos.  

Minha caminhada ainda não chegou ao fim. Mesmo quando o sol se esconde nas montanhas do tempo há a esperança do amanhã.

Quando minha vida se expirar, não deixarei riqueza, tampouco fama e, menos ainda, deixarei ruína de caráter que possa envergonhar minhas filhas. Elas são gigantes morais diante do mundo.

Deixarei o amor e o rastro do amor que sinto por elas. Infinitamente.

Dentre os amigos que encontrei no decorrer do caminhar, alguns me chegaram por intermédio delas e passaram a fazer parte do meu dia a dia. São os genros: Thales Henrique, Otávio Virgínio e Bruno Marcel.

Estamos caminhando juntos. Pretendemos continuar caminhando juntos.

araujo-costa@uol.com.br

Bahia: catástrofe exige decência política

Governador da Bahia, Rui Costa (PT) parece desconhecer que, se ele sair de férias – o que deve ter acontecido algumas vezes – o governo da Bahia não deixará de funcionar em sua ausência.

Talvez os baianos nem sintam sua falta, não porque ele seja desnecessário ou insignificante, mas porque é a estrutura governamental, em qualquer governo e em qualquer esfera, que faz a máquina administrativa funcionar e não a presença física do governante.

O governador foi à imprensa reclamar que o presidente da República, em férias, ainda não foi aos municípios baianos castigados pelas chuvas, embora Bolsonaro tenha ido antes noutras localidades, quando a situação ainda não estava tão catastrófica como agora.

É verdade. O governador tem razão. Mas também é verdade que o presidente determinou que pelo menos quatro de seus ministros acompanhassem, in loco, tanto os estragos quanto as necessidades das populações atingidas pelas chuvas.

É o caso do ministro da Cidadania, João Roma, que é baiano. Ele foi a alguns municípios acompanhar o problema, além dos ministros Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), Marcelo Queiroga (Saúde) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

O ministro João Roma informou que, num só dia, o presidente lhe telefonou cerca de dez vezes, a partir das cinco horas da manhã, para inteirar-se da situação.

Por outro lado, o governo federal liberou cerca de R$ 80 milhões para reconstrução de estradas e infraestrutura urbana, inclusive sinalizou que vai disponibilizar recursos da Caixa Econômica Federal e BNDES, salvo engano.

Não se afigura decente fazer politicagem, nem parece que a ocasião seja apropriada para isto.

Se os recursos destinados pelo governo federal são insuficientes – e certamente são – é o caso das autoridades baianas reivindicarem mais recursos e cobrarem do governo da União, que deve agir com urgência, independentemente de cobrança e de partido político.

Talvez seja o caso de os parasitas baianos no Congresso Nacional – senadores e deputados federais – repensarem sobre o bilionário fundo eleitoral que vão embolsar e encontrarem formas legais de destinar parte dessa bufunfa ( R$ 4,9 bilhões reservados à campanha eleitoral de 2022) para socorro às populações atingidas pelas chuvas, seja na Bahia ou em qualquer estado.  

De qualquer modo, Rui Costa, que é um sujeito decente, vai-se apequenando. Corre o risco de cair na vale dos petistas pequenos, aqueles que colocaram o fanatismo lulopetista acima de quaisquer argumentos políticos.

Minha limitada inteligência não consegue entender como petistas que foram processados e condenados, alguns até presos, por corrupção e desvio de dinheiro público, hoje vão à imprensa dizer que precisam voltar ao poder para consertar o Brasil.

Isto não é bravata somente de Lula da Silva, cujas fanfarrices são sobejamente conhecidas e já fazem parte do anedotário nacional. Lula é exímio humorista.

É um tanto contraditório, tendo em vista a relação do PT com a Lava Jato. Mas esses petistas caras de pau parecem discípulos do ex-juiz Sérgio Moro que, com suas decisões tresloucadas, ilegais e arrogantes, quebrou a Construtora Odebrecht, dentre outras empresas e depois foi trabalhar num escritório americano que cuida da recuperação financeira da Odebrecht que ele mesmo arruinou.

Agora o já desmascarado Sérgio Moro está tentando explicar esse imbróglio indecente às autoridades (quanto recebeu por isto), mormente ao Tribunal de Contas da União (TCU) que entrou nessa história, não sei por que cargas d’água.

Voltando à tragédia da Bahia, outro dia, um canal de televisão de São Paulo estava preocupado em saber de um professor do Nordeste quais as causas de tanta chuva na Bahia.

Irrelevante a matéria jornalística diante de tanto sofrimento dos baianos. Parece fora de contexto discutir a causa das chuvas e não as formas urgentes de resolver os problemas das populações atingidas.

Entretanto, há coisa pior. Uma vez, há décadas, nosso Senado Federal aprovou “uma comissão para estudar as causas da pobreza do Nordeste”.

Nossos sábios senadores da época descobriram o óbvio e o que todo nordestino sabe há séculos: os nordestinos têm fome porque não comem, não podem comprar comida.

Sou de lá. Sei disto. Ninguém me contou. Passei fome. Vi e senti no estômago.

Como se vê, a Bahia está precisando de comida, abrigo, remédio e solidariedade.

Debates, politicagem e reclamações estéreis são dispensáveis.

araujo-costa@uol.com.br

…E a máscara do ministro voou

Cá, entre nós, hipocrisia tem outro sinônimo que não consta nos dicionários: Poder Judiciário.

O ministro Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que também é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é um dos mais ferrenhos defensores do uso de máscaras e vira e mexe dá estocadas no governo federal porque – diz ele – as autoridades negligenciam quanto ao combate à pandemia e nisto ele tem razão.

O Supremo Tribunal Federal, no governo Bolsonaro, passou a ser um balcão provisório de emissão de decisões judiciais arrogantes e desnecessárias, tamanha a intromissão dos ministros do STF em assuntos de governo, leia-se Poder Executivo.

Enquanto isso, o STF está abarrotado de processos e os ministros não têm tempo de julgar, porque estão ocupados com o ativismo político, fato estranho às nobres atividades judicantes. Coisas da esquerda ideológica de que alguns ministros fazem parte.

Vira e mexe, Sua Excelência o ministro Barroso profere decisões, inclusive liminares a torto e a direito, todas sobre regras obrigatórias no combate à pandemia do coronavírus, inclusive, extensivamente, ao uso de máscaras pela população.

Pois bem. Sábado, 18/12/2021, este mesmo ministro Barroso foi a uma festa em Rio Claro, interior de São Paulo.

Até aí, tudo bem. Ministros do STF também vão a festas. Aliás, é o que eles mais fazem. Nós contribuintes de impostos, pagamos.

Ocorre que o ministro Barroso caiu na farra, sem máscara, pegou o microfone e passou a cantar euforicamente em companhia do grande e respeitado jornalista Eraldo Pereira, do Grupo Globo.

Pior: o ministro estava sem máscara. Eraldo Pereira estava sem máscara. Os demais que estavam ao lado de ambos, estavam sem máscaras. Todos sem máscaras.

O ministro Barroso dançava, agitava e balançava os braços para a plateia cantando Aquarela Brasileira, de Martinho da Vila.

As imagens do ministro festeiro, sem máscara – que ele manda os brasileiros usarem – estão nas redes sociais, que a publicaram ad nauseam.

Diante das imagens patéticas, deixo de ilustrar esta matéria com essas ditas imagens, para poupar os leitores da cena ridícula envolvendo nosso ministro do STF e presidente do TSE.

Convenhamos, não fica bem a um ministro da Corte Suprema optar pelo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Outra não é a conclusão. Ao analisar a patética imagem, conclui-se: o ministro que obriga os brasileiros a usarem máscara e critica aglomerações, não só participa de aglomerações, como não usa máscara nas aglomerações de que participa.

Talvez o ministro Barroso entenda que o vinho e o uísque caríssimos que ele deve tomar nos regabofes da alta sociedade que ele frequenta contêm antídoto contra o coronavírus.

Lembrete: a grande imprensa silenciou quanto à cena do ministro festeiro e hipócrita, por uma razão óbvia: essa mesma imprensa dá respaldo a todas as decisões do STF, mesmo que contrárias à lei e à Constituição Federal.

O ministro, sem máscara, se divertia à beça.

Ninguém se assuste se depois o ministro Barroso vá ao STF –  toga às costas –  e, hipocritamente, ditará regras rígidas, inclusive para o uso de máscara.

Triste Poder Judiciário que carrega essas anomalias!

Cadê o Conselho Nacional de Justiça que não vê isto?

Perdão. O ministro Barroso faz parte do Conselho Nacional de Justiça, em situações eventuais. Exemplo: se ele assume a presidência do STF. Então, o CNJ não pode enxergar isto. É míope. Convenientemente míope.

araujo-costa@uol.com.br                                                                                                                

Natal e solidão do dia seguinte

O carteiro que serve minha rua, que é jovem, não viveu a época em que as pessoas mandavam cartões desejando votos de “feliz Natal e próspero Ano Novo” para parentes, amigos, conhecidos e sujeitos de suas relações, ainda que comerciais.

Não só o carteiro desconhece tais costumes dessa época, mas as gerações mais recentes, que vivem embevecidas nessas confusões eletrônicas e necessárias a essa quadra do tempo, que vão de redes sociais, e-mails e outras geringonças digitais mais.

Aliás, com os avanços tecnológicos, carteiros já se aproximam da extinção.

Os envelopes continham traços de sinos, manjedouras e adereços alusivos à ocasião e dizeres bonitos, floridos, admiráveis, sinceros.

As mensagens abarrotavam as agências e postos dos correios em finais de ano.

Ao receber as correspondências, perguntei ao diligente estafeta se havia cartões de Natal.

Surpreso, diante da novidade, respondeu seco, quase assustado com minha pergunta ultrapassada e envelhescente:

– Acho que não.

Esse costume não existe mais. As comunicações online extinguiram essa forma tão eficiente de relacionamento: as felicitações pela passagem das festas de fim de ano.

Hoje quase ninguém mais manda cartões, chega a ser uma cafonice, um atestado de desinformação e até, em certos casos, um comportamento irrefletido diante de tanta parafernália eletrônica em tempo real.  

Interessante é que a mudança se deu mui rapidamente.

Eu tinha o hábito de mandar cartões de Natal, até por educação e etiqueta. Vi-me ultrapassado de repente. Neste 2021 não mandei sequer um. Fui desencorajado pela onda de frieza que assola as metrópoles e para não correr o risco de ser chamado de jurássico.

A indiferença passou a ditar o comportamento, ainda mais neste tempo de pandemia cruel e de distanciamento físico e emocional.

A evolução da sociedade vai dizimando, em seu bojo, as formas simples de convivência, destruindo friamente os relacionamentos e corroendo os vínculos sociais que já eram escassos.

Estamos todos menos calorosos, desinteressados pelos outros, excessivamente críticos e egoístas, de sorte que muitas coisas perderam importância, embora muitos de nossos valores estejam ínsitos nas pequenas coisas.

Em breve os cartões de Natal serão lembranças e relíquias para colecionadores, assim como as cartas que não escrevemos mais e os recados verbais que não mais mandamos para amigos e familiares.

As cartas foram substituídas por mensagens eletrônicas frias, sucintas, às vezes automáticas, insignificantes diante da grandeza humana.

Mais: quem menos é lembrado no Natal é o aniversariante do dia, Jesus Cristo.

Todos os dias, recebemos dolorosos e cruéis chutes de contumazes indiferenças.

E vivemos à espera da solidão do dia seguinte.  

Bom e feliz Natal para meus leitores, amigos, parentes e aderentes.

Desejo a todos próspero 2022 com muita saúde, compreensão e disposição para o prosseguimento da difícil caminhada em direção ao desconhecido.  

Deus sempre.

araujo-costa@uol.com.br         

Órfãos da tragédia

“Políticos são homens que contraíram o hábito de mentir, o habito de prometer, o hábito de sorrir, o hábito de subornar e o hábito de estar de acordo com qualquer auditório. Não me agradam as pessoas que se promovem através da política. São desprezíveis” (Jorge Luís Borges, escritor argentino, 1899-1986)  

Estamos chegando no final de 2021 com pelo menos 19 milhões de pessoas passando fome.

Dados alarmantes atestam que mais da metade da população sofre algum tipo de insegurança alimentar, o que beira 116 milhões de pessoas e corresponde duas vezes a população da Argentina.

Até 19/12/2021 havia o registro de 617.838 mortes por covid-19. Pessoas continuam morrendo, aumentando esse número e engrossando as estatísticas.

A economia do País está aos frangalhos, em razão de diversos fatores, dentre eles a pandemia, que esgarçou todas as formas de exercício regular do trabalho e a produção de riquezas e renda.

Nossas autoridades são pífias, em todas as esferas de poder. Nossos políticos são inescrupulosos e egoístas.

Os mais pobres, os desamparados, que não dispõem de reserva financeira são os que mais sofrem.

Aumentou a miséria, aumentaram os miseráveis.

A pandemia nos fez órfãos. Perdemos parentes, amigos, conhecidos, patrícios e aderentes.

Uma parcela significativa da população foi dizimada pelo vírus. Outros milhares ficaram com sequelas físicas e emocionais muito difíceis de suportar.

A solidão passou a frequentar nosso cotidiano, em razão do isolamento obrigatório para proteção própria e de familiares.

A solidão trouxe também a solidariedade, o cuidado com o próximo, o medo de sucumbir à doença.

Enquanto isto, é estarrecedor ver diariamente defensores de direita e de esquerda se engalfinhando e se agredindo, com o intuito de entronizarem seus “heróis” corruptos.

Esses são os desprezíveis, como dizia Jorge Luís Borges.

Somos todos órfãos da tragédia pandêmica, econômica e política.

araujo-costa@uol.com.br    

Em Chorrochó, a paixão de Geraldo Menezes

“Amizade é um amor que nunca morre” (Mário Quintana, jornalista e poeta gaúcho (1906-1994).

Geraldo Menezes

Nascido Geraldo José de Menezes, hoje é mais conhecido pelo sugestivo nome de Geraldo Paixão.

Creio que o adotou para firmar-se no meio artístico e, sobretudo, no que mais gosta de fazer: compor e cantar.

A mãe Maria Menezes (Pina) e o pai Francisco Arnóbio de Menezes, ambos de família tradicional de Chorrochó, deixaram prole numerosa e decente sustentada nas tradições locais e representada pelos dez filhos que tiveram: Geraldo José de Menezes, Antonio Wilson de Menezes, Tarcísio Roberto de Menezes, Rita Maria de Menezes Maia, Francisco Arnóbio de Menezes Filho, Luiz Alberto de Menezes, João Eloy de Menezes, Paulo Ernani de Menezes, Cícero Leonardo de Menezes e Rosângela Maria Menezes

Se a memória não me falha – e a memória sempre falha – são esses os nomes dos filhos de Pina e Arnóbio, família hoje ornamentada com netos, alguns já famosos e, sobretudo, com amor e muita sabedoria.   

Jovem ainda, Geraldo Menezes optou pela arte. Canta e compõe músicas desde a juventude.

Não consigo esquecê-lo em Chorrochó, década de 1970, jovem bonito e elegante de cabelos longos, sonhador e inteligente, cantando sucessos no então famoso Bar Potiguar, que iam de Quem mandou você errar, de Claudia Barroso a Detalhes, de Roberto Carlos.  

Geraldo andou por São Paulo, viveu no meio artístico e por lá vislumbrou a carreira de cantor, sem contudo abdicar de suas raízes interioranas chorrochoenses e, mais do que isto, nunca se tenha esmorecido quando enfrentou os tropeços naturais tão comuns na vida de artista. 

Tempos difíceis, que acompanhei como amigo e admirador de Geraldo Menezes.

As noites insones, a procura de gravadora que lhe desse oportunidade, a possibilidade consequente de um contrato, a concorrência com cantores famosos, o mundo desconhecido e cruel dos shows, empresários, programas de televisão e a janela em direção ao sucesso tão sonhado e sempre distante e difícil.

Perseverante e persistente, Geraldo Paixão sempre trouxe consigo a força em defesa do que luta e acredita: compor e cantar. E viver e sonhar.

Não parece inoportuno lembrar que o pai Francisco Arnóbio de Menezes e o tio Vivaldo Cardoso de Menezes eram músicos, embora não se dedicassem a este mister, por força da profissão que exerciam.

Profissionais de sucesso, em suas respectivas áreas de atuação, Arnóbio e Vivaldo herdaram dos antepassados esse pendor pela arte, mormente pela música instrumental.  

Recordo-me, com saudade, Arnóbio declamando e cantando músicas de Vicente Celestino com tal perfeição que Ébrio parecia mais uma invenção sua do que do verdadeiro autor.     

A título de exemplo, lembro que a história registra que Francisco Arnóbio Cardoso Varjão, que fazia parte da raiz familiar de Francisco Arnóbio de Menezes, era maestro e poeta. 

Há quinze anos estive em Chorrochó por ocasião da festa de Senhor do Bonfim. Encontrei Geraldo Paixão numa daquelas barracas expostas na praça em frente à igreja.

Geraldo me presenteou com um CD e, mais do que isto, o autografou.  Guardo-o até hoje, com carinho e consideração. Lá está “A raposa e as uvas”, de Reginaldo Rossi, um de seus cantores preferidos.

Relapso, não costumo fazer contato regular com amigos, o que não exclui minha consideração.

Com o intuito de publicar esta matéria, à época fiz contato com Geraldo Paixão. Queria uma fotografia do nosso tempo de jovens, em Chorrochó, ele de cabelos longos, próprio da juventude rebelde da época.

Modesto, Geraldo disse que não tinha. Sei que ele tem, mas se preservou, evitou a lembrança de um tempo que não se pode mais explicar ao frio e conturbado mundo de hoje.  

Gosto do meu amigo Geraldo José de Menezes, Geraldo Paixão.

Hoje faço este registro em nome da amizade e da incerteza da vida.

Post scriptum:

Matéria editada, publicada pela primeira vez em 18/12/2021.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá, Durval Torres e a quadra do tempo  

Dona Elzita e Durval Torres/álbum de família.

José Januário da Silva, senhor sério e circunspecto que nasceu, se criou e morreu na Fazenda Estreito, nos barrancos do Riacho da Várzea, caatinga do município de Chorrochó e foi vereador de lá por alguns mandatos, inclusive presidente da Câmara Municipal, costumava dizer que tinha um amigo em Curaçá de nome Durval Torres.

José Januário era homem de poucos amigos, de caráter forjado ao modo antigo, respeitoso e respeitado. Por aí se vê, a grandeza e a decência da amizade a que ele se referia e a consideração que tinha a Durval Torres.

Este escrevinhador, ainda jovem, morando no mato, não conhecia Durval Torres, mas ouvia lá, na caatinga, as referências que José Januário cultivava sobre o ilustre curaçaense, arrastando-as desde o tempo em que Chorrochó pertencia ao município de Curaçá. A emancipação se deu em setembro de 1954, salvo engano.

A política os havia aproximado.

Ambos – José Januário e Durval Torres – tinham caráter inflexível e eram honestos, honrados, corretos, gente de “outros tempos”, que hoje não mais se vê. O caráter e a conduta desses homes de então indicavam o norte para as novas gerações.

Os homens daquela quadra do tempo, por exemplo, faziam seus negócios e contratavam através da palavra empenhada entre eles, prescindiam de contrato escrito e de regras formais. Valia o compromisso acertado no “fio do bigode” e não a assinatura.    

A honra ditava a conduta deles e não os contratos escritos, tampouco o jamegão tão fundamental nos dias de hoje.

O mundo gira, as pessoas se movem como folhas ao vento outonal e, em razão disto e mais do que isto, conheci Durval Torres, em Curaçá.

Difícil separar o homem das referências que ouvi, ainda jovem, de José Januário.

Lembro até hoje quando o vi pela primeira vez. Eu estava conversando sobre amenidades com Juvêncio Ferreira de Oliveira (Maroto) e o ex-prefeito Gilberto da Silveira Bahia, honra e glória de Curaçá. Gilberto foi prefeito no período de 1959-1963 e deixou feitos memoráveis no município.

A conversa se dava na calçada de uma rua estreita, ao lado do Teatro Raul Coelho, centro de Curaçá. Não me recordo o nome da rua.

Durval Torres chegou, conversa franca, sem embaraços, cativante, abancou-se e enriqueceu o ambiente e a conversa com sua presença e seus olhos lancinantes, não me lembro se verdes ou azuis, mas marcantes, como se uma janela do tempo e da alma.

Durval Torres tinha conhecimento enciclopédico. Falava de tudo com absoluta experiência adquirida nos percalços da vida, só comum aos grandes homens. Sua humildade e generosidade eram impressionantes.

O desenrolar dessa conversa, naquele dia, em Curaçá – e de outras – vou contar numa futura crônica neste blog, não sei quando, se continuar vivendo e a memória ajudar.

Falar de pessoas de condutas especiais requer muito traquejo com as palavras, conhecimento sobre suas vidas e, sobretudo, disposição de não cometer gafes.

Minhas gafes costumam ser monumentais e incontornáveis. Tento evitá-las.

Nesta altura da vida, em idade quase septuagenária e a depender da memória, corro o risco de cometer vexame sobre nomes de pessoas e fatos históricos.

De todo modo, para ilustrar este artigo, surrupiei a foto de Durval Torres do álbum da neta Gardênia Torres; e afanei a foto de D. Elzita do álbum de um dos filhos ilustres  do casal, Omar “Babá” Torres. Em benefício da história.

D. Elzita e Durval foram exemplos e esteios de uma das famílias mais respeitadas e queridas de Curaçá.

Está aí a prole, a descendência honrada.

araujo-costa@uol.com.br

Uma rua de Patamuté

Igreja de Santo Antonio, padroeiro de Patamuté

Em minha mocidade existia uma rua em Patamuté, a Rua dos Ferreiras.

Ainda há. Hoje maior, mais movimentada, com mais casas, mais moradores e adaptada à passagem do tempo.

Lá morava Nicolau Cordeiro, um dos grandes amigos que tive na vida. Nicolau fez a façanha de viabilizar minha vida de professor particular em Patamuté, mas esta é outra história.

Uma rua nascida da tradição do povo, sem alcunha oficial atribuída pelo poder público.

Rua pequena, limitando-se com as pedras disformes do mármore de Patamuté sobre as quais pastavam animais.

José Henrique de Souza Sobrinho, distinto senhor da sociedade de Patamuté, tinha um chiqueiro nas imediações para cuidar de sua criação de caprinos.

Aos sábados, ao lado da casa “dos Chias”, uma construção antiga e rudimentar dos primórdios de Patamuté, Maria fritava seus “manuês” e lá cuidava de sua freguesia. Maria era irmã de Balbina, Senhora e Silvina e todas eram muito queridas em Patamuté.   

A história registra, sem muita certeza, que os “Chias” foram vaqueiros do Barão de Jeremoabo e essa casa da Rua dos Ferreiras teria sido a sede de uma de suas fazendas.

Uns diziam chamar-se Rua dos Ferreiras, alusão ao nome de uma família; outros diziam Rua dos Ferreiros, porque ali, contavam, artesãos exerciam a profissão de cunhar ferro a fogo, aquecido através de fole, uma geringonça que, acionada manualmente, alimentava com ar as brasas para o ferro amolecer e ser moldado. Daí, Ferreiros.

Mas isto é assunto para historiadores e conhecedores dos meandros da História – e eu não sou – não é assunto para explicar a saudade.

Hoje certamente o nome da Rua deve constar corretamente no mapa e nos registros da Prefeitura de Curaçá, de modo a não haver mais dúvida quanto a sua origem.

Reuníamos ali, às vezes, jovens e velhos.

Na década de 1960, quando lá só existiam vitrolas movidas a pilha, porque em Patamuté não tinha energia elétrica, ouvíamos, entre outros, Gigliola Cinqüetti, Dio come ti amo e Waldick Soriano, Paixão de um homem, que embalavam nossos sonhos de jovens e tapetava a coragem para conquistar as primeiras namoradas. 

Ali mesmo, em qualquer casa cedida por um morador generoso, fazíamos bailes, à época chamados de “assustados”.

Pobres, fazíamos “vaquinha” e comprávamos as pilhas para a vitrola no bar de Taxú, assim como o conhaque Castelo. Às vezes comprávamos fiado. Bom amigo, Taxú confiava em todos nós.

Taxú faleceu em 1998, uma semana antes de completar 70 anos. Ainda hoje a saudade dele cutuca, faz constantes visitas e não me permite esquecê-lo.

São amigos que perduram, ultrapassaram décadas e se firmaram na sinceridade. Quando é assim, difícil acabar.

Sempre me perguntam quais são meus amigos, se os tenho, se existem ou se diluíram no tempo e nos lugares por onde passei e morei, que são muitos, vários.

Mas em alguns desses lugares permanecem amigos ainda firmes. Em Patamuté, inclusive. Esses ficaram. Coisas da juventude. Difícil de explicar.

Os grandes amigos são aqueles que aparecem nos momentos mais difíceis. Como dizia Walter Winchell, “amigo é aquele que chega quando as outras pessoas estão indo embora”.

Minha formação de vida deu-se numa atmosfera de muitos percalços. Tropecei, algumas vezes. Caí, outras tantas. E toda vez que me encontro na encruzilhada do tempo passado e do presente, lembro-me das amizades adquiridas ao longo do caminho. E faço um balanço: valeu a pena tê-las.  

Bateu-me uma saudade inominável de Patamuté, das pessoas, da fé que os filhos de lá professam, as procissões de Santo Antonio e, sobretudo, de minhas raízes que estão lá intactas e imunes ao desgaste do tempo.

É o que ficou do que passou.

araujo-costa@uol.com.br