Natal e solidão do dia seguinte

O carteiro que serve minha rua, que é jovem, não viveu a época em que as pessoas mandavam cartões desejando votos de “feliz Natal e próspero Ano Novo” para parentes, amigos, conhecidos e sujeitos de suas relações, ainda que comerciais.

Não só o carteiro desconhece tais costumes dessa época, mas as gerações mais recentes, que vivem embevecidas nessas confusões eletrônicas e necessárias a essa quadra do tempo, que vão de redes sociais, e-mails e outras geringonças digitais mais.

Aliás, com os avanços tecnológicos, carteiros já se aproximam da extinção.

Os envelopes continham traços de sinos, manjedouras e adereços alusivos à ocasião e dizeres bonitos, floridos, admiráveis, sinceros.

As mensagens abarrotavam as agências e postos dos correios em finais de ano.

Ao receber as correspondências, perguntei ao diligente estafeta se havia cartões de Natal.

Surpreso, diante da novidade, respondeu seco, quase assustado com minha pergunta ultrapassada e envelhescente:

– Acho que não.

Esse costume não existe mais. As comunicações online extinguiram essa forma tão eficiente de relacionamento: as felicitações pela passagem das festas de fim de ano.

Hoje quase ninguém mais manda cartões, chega a ser uma cafonice, um atestado de desinformação e até, em certos casos, um comportamento irrefletido diante de tanta parafernália eletrônica em tempo real.  

Interessante é que a mudança se deu mui rapidamente.

Eu tinha o hábito de mandar cartões de Natal, até por educação e etiqueta. Vi-me ultrapassado de repente. Neste 2021 não mandei sequer um. Fui desencorajado pela onda de frieza que assola as metrópoles e para não correr o risco de ser chamado de jurássico.

A indiferença passou a ditar o comportamento, ainda mais neste tempo de pandemia cruel e de distanciamento físico e emocional.

A evolução da sociedade vai dizimando, em seu bojo, as formas simples de convivência, destruindo friamente os relacionamentos e corroendo os vínculos sociais que já eram escassos.

Estamos todos menos calorosos, desinteressados pelos outros, excessivamente críticos e egoístas, de sorte que muitas coisas perderam importância, embora muitos de nossos valores estejam ínsitos nas pequenas coisas.

Em breve os cartões de Natal serão lembranças e relíquias para colecionadores, assim como as cartas que não escrevemos mais e os recados verbais que não mais mandamos para amigos e familiares.

As cartas foram substituídas por mensagens eletrônicas frias, sucintas, às vezes automáticas, insignificantes diante da grandeza humana.

Mais: quem menos é lembrado no Natal é o aniversariante do dia, Jesus Cristo.

Todos os dias, recebemos dolorosos e cruéis chutes de contumazes indiferenças.

E vivemos à espera da solidão do dia seguinte.  

Bom e feliz Natal para meus leitores, amigos, parentes e aderentes.

Desejo a todos próspero 2022 com muita saúde, compreensão e disposição para o prosseguimento da difícil caminhada em direção ao desconhecido.  

Deus sempre.

araujo-costa@uol.com.br         

Órfãos da tragédia

“Políticos são homens que contraíram o hábito de mentir, o habito de prometer, o hábito de sorrir, o hábito de subornar e o hábito de estar de acordo com qualquer auditório. Não me agradam as pessoas que se promovem através da política. São desprezíveis” (Jorge Luís Borges, escritor argentino, 1899-1986)  

Estamos chegando no final de 2021 com pelo menos 19 milhões de pessoas passando fome.

Dados alarmantes atestam que mais da metade da população sofre algum tipo de insegurança alimentar, o que beira 116 milhões de pessoas e corresponde duas vezes a população da Argentina.

Até 19/12/2021 havia o registro de 617.838 mortes por covid-19. Pessoas continuam morrendo, aumentando esse número e engrossando as estatísticas.

A economia do País está aos frangalhos, em razão de diversos fatores, dentre eles a pandemia, que esgarçou todas as formas de exercício regular do trabalho e a produção de riquezas e renda.

Nossas autoridades são pífias, em todas as esferas de poder. Nossos políticos são inescrupulosos e egoístas.

Os mais pobres, os desamparados, que não dispõem de reserva financeira são os que mais sofrem.

Aumentou a miséria, aumentaram os miseráveis.

A pandemia nos fez órfãos. Perdemos parentes, amigos, conhecidos, patrícios e aderentes.

Uma parcela significativa da população foi dizimada pelo vírus. Outros milhares ficaram com sequelas físicas e emocionais muito difíceis de suportar.

A solidão passou a frequentar nosso cotidiano, em razão do isolamento obrigatório para proteção própria e de familiares.

A solidão trouxe também a solidariedade, o cuidado com o próximo, o medo de sucumbir à doença.

Enquanto isto, é estarrecedor ver diariamente defensores de direita e de esquerda se engalfinhando e se agredindo, com o intuito de entronizarem seus “heróis” corruptos.

Esses são os desprezíveis, como dizia Jorge Luís Borges.

Somos todos órfãos da tragédia pandêmica, econômica e política.

araujo-costa@uol.com.br    

Em Chorrochó, a paixão de Geraldo Menezes

“Amizade é um amor que nunca morre” (Mário Quintana, jornalista e poeta gaúcho (1906-1994).

Geraldo Menezes

Nascido Geraldo José de Menezes, hoje é mais conhecido pelo sugestivo nome de Geraldo Paixão.

Creio que o adotou para firmar-se no meio artístico e, sobretudo, no que mais gosta de fazer: compor e cantar.

A mãe Maria Menezes (Pina) e o pai Francisco Arnóbio de Menezes, ambos de família tradicional de Chorrochó, deixaram prole numerosa e decente sustentada nas tradições locais e representada pelos dez filhos que tiveram: Geraldo José de Menezes, Antonio Wilson de Menezes, Tarcísio Roberto de Menezes, Rita Maria de Menezes Maia, Francisco Arnóbio de Menezes Filho, Luiz Alberto de Menezes, João Eloy de Menezes, Paulo Ernani de Menezes, Cícero Leonardo de Menezes e Rosângela Maria Menezes

Se a memória não me falha – e a memória sempre falha – são esses os nomes dos filhos de Pina e Arnóbio, família hoje ornamentada com netos, alguns já famosos e, sobretudo, com amor e muita sabedoria.   

Jovem ainda, Geraldo Menezes optou pela arte. Canta e compõe músicas desde a juventude.

Não consigo esquecê-lo em Chorrochó, década de 1970, jovem bonito e elegante de cabelos longos, sonhador e inteligente, cantando sucessos no então famoso Bar Potiguar, que iam de Quem mandou você errar, de Claudia Barroso a Detalhes, de Roberto Carlos.  

Geraldo andou por São Paulo, viveu no meio artístico e por lá vislumbrou a carreira de cantor, sem contudo abdicar de suas raízes interioranas chorrochoenses e, mais do que isto, nunca se tenha esmorecido quando enfrentou os tropeços naturais tão comuns na vida de artista. 

Tempos difíceis, que acompanhei como amigo e admirador de Geraldo Menezes.

As noites insones, a procura de gravadora que lhe desse oportunidade, a possibilidade consequente de um contrato, a concorrência com cantores famosos, o mundo desconhecido e cruel dos shows, empresários, programas de televisão e a janela em direção ao sucesso tão sonhado e sempre distante e difícil.

Perseverante e persistente, Geraldo Paixão sempre trouxe consigo a força em defesa do que luta e acredita: compor e cantar. E viver e sonhar.

Não parece inoportuno lembrar que o pai Francisco Arnóbio de Menezes e o tio Vivaldo Cardoso de Menezes eram músicos, embora não se dedicassem a este mister, por força da profissão que exerciam.

Profissionais de sucesso, em suas respectivas áreas de atuação, Arnóbio e Vivaldo herdaram dos antepassados esse pendor pela arte, mormente pela música instrumental.  

Recordo-me, com saudade, Arnóbio declamando e cantando músicas de Vicente Celestino com tal perfeição que Ébrio parecia mais uma invenção sua do que do verdadeiro autor.     

A título de exemplo, lembro que a história registra que Francisco Arnóbio Cardoso Varjão, que fazia parte da raiz familiar de Francisco Arnóbio de Menezes, era maestro e poeta. 

Há quinze anos estive em Chorrochó por ocasião da festa de Senhor do Bonfim. Encontrei Geraldo Paixão numa daquelas barracas expostas na praça em frente à igreja.

Geraldo me presenteou com um CD e, mais do que isto, o autografou.  Guardo-o até hoje, com carinho e consideração. Lá está “A raposa e as uvas”, de Reginaldo Rossi, um de seus cantores preferidos.

Relapso, não costumo fazer contato regular com amigos, o que não exclui minha consideração.

Com o intuito de publicar esta matéria, à época fiz contato com Geraldo Paixão. Queria uma fotografia do nosso tempo de jovens, em Chorrochó, ele de cabelos longos, próprio da juventude rebelde da época.

Modesto, Geraldo disse que não tinha. Sei que ele tem, mas se preservou, evitou a lembrança de um tempo que não se pode mais explicar ao frio e conturbado mundo de hoje.  

Gosto do meu amigo Geraldo José de Menezes, Geraldo Paixão.

Hoje faço este registro em nome da amizade e da incerteza da vida.

Post scriptum:

Matéria editada, publicada pela primeira vez em 18/12/2021.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá, Durval Torres e a quadra do tempo  

Dona Elzita e Durval Torres/álbum de família.

José Januário da Silva, senhor sério e circunspecto que nasceu, se criou e morreu na Fazenda Estreito, nos barrancos do Riacho da Várzea, caatinga do município de Chorrochó e foi vereador de lá por alguns mandatos, inclusive presidente da Câmara Municipal, costumava dizer que tinha um amigo em Curaçá de nome Durval Torres.

José Januário era homem de poucos amigos, de caráter forjado ao modo antigo, respeitoso e respeitado. Por aí se vê, a grandeza e a decência da amizade a que ele se referia e a consideração que tinha a Durval Torres.

Este escrevinhador, ainda jovem, morando no mato, não conhecia Durval Torres, mas ouvia lá, na caatinga, as referências que José Januário cultivava sobre o ilustre curaçaense, arrastando-as desde o tempo em que Chorrochó pertencia ao município de Curaçá. A emancipação se deu em setembro de 1954, salvo engano.

A política os havia aproximado.

Ambos – José Januário e Durval Torres – tinham caráter inflexível e eram honestos, honrados, corretos, gente de “outros tempos”, que hoje não mais se vê. O caráter e a conduta desses homes de então indicavam o norte para as novas gerações.

Os homens daquela quadra do tempo, por exemplo, faziam seus negócios e contratavam através da palavra empenhada entre eles, prescindiam de contrato escrito e de regras formais. Valia o compromisso acertado no “fio do bigode” e não a assinatura.    

A honra ditava a conduta deles e não os contratos escritos, tampouco o jamegão tão fundamental nos dias de hoje.

O mundo gira, as pessoas se movem como folhas ao vento outonal e, em razão disto e mais do que isto, conheci Durval Torres, em Curaçá.

Difícil separar o homem das referências que ouvi, ainda jovem, de José Januário.

Lembro até hoje quando o vi pela primeira vez. Eu estava conversando sobre amenidades com Juvêncio Ferreira de Oliveira (Maroto) e o ex-prefeito Gilberto da Silveira Bahia, honra e glória de Curaçá. Gilberto foi prefeito no período de 1959-1963 e deixou feitos memoráveis no município.

A conversa se dava na calçada de uma rua estreita, ao lado do Teatro Raul Coelho, centro de Curaçá. Não me recordo o nome da rua.

Durval Torres chegou, conversa franca, sem embaraços, cativante, abancou-se e enriqueceu o ambiente e a conversa com sua presença e seus olhos lancinantes, não me lembro se verdes ou azuis, mas marcantes, como se uma janela do tempo e da alma.

Durval Torres tinha conhecimento enciclopédico. Falava de tudo com absoluta experiência adquirida nos percalços da vida, só comum aos grandes homens. Sua humildade e generosidade eram impressionantes.

O desenrolar dessa conversa, naquele dia, em Curaçá – e de outras – vou contar numa futura crônica neste blog, não sei quando, se continuar vivendo e a memória ajudar.

Falar de pessoas de condutas especiais requer muito traquejo com as palavras, conhecimento sobre suas vidas e, sobretudo, disposição de não cometer gafes.

Minhas gafes costumam ser monumentais e incontornáveis. Tento evitá-las.

Nesta altura da vida, em idade quase septuagenária e a depender da memória, corro o risco de cometer vexame sobre nomes de pessoas e fatos históricos.

De todo modo, para ilustrar este artigo, surrupiei a foto de Durval Torres do álbum da neta Gardênia Torres; e afanei a foto de D. Elzita do álbum de um dos filhos ilustres  do casal, Omar “Babá” Torres. Em benefício da história.

D. Elzita e Durval foram exemplos e esteios de uma das famílias mais respeitadas e queridas de Curaçá.

Está aí a prole, a descendência honrada.

araujo-costa@uol.com.br

Uma rua de Patamuté

Igreja de Santo Antonio, padroeiro de Patamuté

Em minha mocidade existia uma rua em Patamuté, a Rua dos Ferreiras.

Ainda há. Hoje maior, mais movimentada, com mais casas, mais moradores e adaptada à passagem do tempo.

Lá morava Nicolau Cordeiro, um dos grandes amigos que tive na vida. Nicolau fez a façanha de viabilizar minha vida de professor particular em Patamuté, mas esta é outra história.

Uma rua nascida da tradição do povo, sem alcunha oficial atribuída pelo poder público.

Rua pequena, limitando-se com as pedras disformes do mármore de Patamuté sobre as quais pastavam animais.

José Henrique de Souza Sobrinho, distinto senhor da sociedade de Patamuté, tinha um chiqueiro nas imediações para cuidar de sua criação de caprinos.

Aos sábados, ao lado da casa “dos Chias”, uma construção antiga e rudimentar dos primórdios de Patamuté, Maria fritava seus “manuês” e lá cuidava de sua freguesia. Maria era irmã de Balbina, Senhora e Silvina e todas eram muito queridas em Patamuté.   

A história registra, sem muita certeza, que os “Chias” foram vaqueiros do Barão de Jeremoabo e essa casa da Rua dos Ferreiras teria sido a sede de uma de suas fazendas.

Uns diziam chamar-se Rua dos Ferreiras, alusão ao nome de uma família; outros diziam Rua dos Ferreiros, porque ali, contavam, artesãos exerciam a profissão de cunhar ferro a fogo, aquecido através de fole, uma geringonça que, acionada manualmente, alimentava com ar as brasas para o ferro amolecer e ser moldado. Daí, Ferreiros.

Mas isto é assunto para historiadores e conhecedores dos meandros da História – e eu não sou – não é assunto para explicar a saudade.

Hoje certamente o nome da Rua deve constar corretamente no mapa e nos registros da Prefeitura de Curaçá, de modo a não haver mais dúvida quanto a sua origem.

Reuníamos ali, às vezes, jovens e velhos.

Na década de 1960, quando lá só existiam vitrolas movidas a pilha, porque em Patamuté não tinha energia elétrica, ouvíamos, entre outros, Gigliola Cinqüetti, Dio come ti amo e Waldick Soriano, Paixão de um homem, que embalavam nossos sonhos de jovens e tapetava a coragem para conquistar as primeiras namoradas. 

Ali mesmo, em qualquer casa cedida por um morador generoso, fazíamos bailes, à época chamados de “assustados”.

Pobres, fazíamos “vaquinha” e comprávamos as pilhas para a vitrola no bar de Taxú, assim como o conhaque Castelo. Às vezes comprávamos fiado. Bom amigo, Taxú confiava em todos nós.

Taxú faleceu em 1998, uma semana antes de completar 70 anos. Ainda hoje a saudade dele cutuca, faz constantes visitas e não me permite esquecê-lo.

São amigos que perduram, ultrapassaram décadas e se firmaram na sinceridade. Quando é assim, difícil acabar.

Sempre me perguntam quais são meus amigos, se os tenho, se existem ou se diluíram no tempo e nos lugares por onde passei e morei, que são muitos, vários.

Mas em alguns desses lugares permanecem amigos ainda firmes. Em Patamuté, inclusive. Esses ficaram. Coisas da juventude. Difícil de explicar.

Os grandes amigos são aqueles que aparecem nos momentos mais difíceis. Como dizia Walter Winchell, “amigo é aquele que chega quando as outras pessoas estão indo embora”.

Minha formação de vida deu-se numa atmosfera de muitos percalços. Tropecei, algumas vezes. Caí, outras tantas. E toda vez que me encontro na encruzilhada do tempo passado e do presente, lembro-me das amizades adquiridas ao longo do caminho. E faço um balanço: valeu a pena tê-las.  

Bateu-me uma saudade inominável de Patamuté, das pessoas, da fé que os filhos de lá professam, as procissões de Santo Antonio e, sobretudo, de minhas raízes que estão lá intactas e imunes ao desgaste do tempo.

É o que ficou do que passou.

araujo-costa@uol.com.br

Reclamações dos leitores (III)

De Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Maria Léa Santos Souza, que conheço e admiro desde os tempos da Fazenda Bom Jardim, de Antonio Paixão, em Patamuté (Curaçá-BA), pergunta sobre a postagem que fiz intitulada Com o chapéu dos outros: “Quem pagou as diárias?”.

Dita postagem comenta que Lula da Silva foi à Europa a passeio e gastou R$ 312 mil dos cofres públicos, sendo R$ 200 mil de diárias.

O pagamento das despesas em referência é de responsabilidade da União Federal e é assegurado a todos os ex-presidentes da República, seja Lula da Silva, Fernando Collor, José Sarney, Fernando Henrique, Dilma Rousseff ou outro qualquer, de direita ou de esquerda.

Aqui o lado ideológico não vem ao caso. O espectro político não conta.

Maria Léa é inteligente e bem informada (tem formação em jornalismo) e profissional respeitada dos quadros do IBGE, com destacada liderança entre seus pares.

Ela sabe quem paga as diárias elencadas nesse tipo de rubrica, mas creio que o questionamento tem o condão apenas de estimular o debate, o que é saudável na democracia.

A imprensa adestrada, aquela que publica somente o que interessa aos bolsos e aos interesses dos grandes órgãos de comunicação, não publicou o contínuo regabofe de Lula da Silva por quatro países (França, Alemanha, Bélgica e Espanha), exceto para dizer que o morubixaba de Caetés foi recebido com honras de chefe de Estado pelo presidente francês.

Essa mesma imprensa adestrada publicou alguns exageros, o que não é nenhuma novidade em se tratando de notícia enaltecendo Lula da Silva. Exemplo: que o Parlamento Europeu “aplaudiu Lula de pé”.

Não chegou a tanto.

Salvo engano, o Parlamento Europeu compõe-se de 705 membros, que representam os países da União Europeia.

Natural que alguns membros do Parlamento e partidos da esquerda desses países tenham comparecido ao evento e aplaudido Lula da Silva.

Além de natural, é protocolar que um ex-presidente de esquerda de qualquer país, em visita a outras nações, seja prestigiado por membros da esquerda mundial.

Mas daí a dizer que “o Parlamento Europeu aplaudiu Lula de pé” vai uma grande distância.

Eliane Cantanhêde, experiente jornalista e comentarista da GloboNews, numa crise de tietagem, ao vivo (Programa em Pauta), acabou fazendo campanha para Lula da Silva. Ao comentar esse suposto aplauso “de pé” que o ex-presidente teria recebido no Parlamento Europeu, Cantanhêde confundiu jornalismo com militância política.

O mínimo que ela disse de Lula foi que “é um estadista”. Só faltou compará-lo ao inglês Winston Churchill e ao americano Abraham Lincoln.

Ciente do exagero e da gafe, a respeitada Eliane Cantanhêde tentou justificar, sem jeito: “não estou fazendo campanha pra Lula”.

Era tarde. Sem graça, não conseguiu consertar o desapontamento.

Quase Eliane Cantanhêde tira da Folha de S.Paulo o título de porta-voz da esquerda e o atribui à GloboNews.

Voltando ao pagamento das diárias de Lula da Silva em seu sofisticado passeio pela Europa, a presidência da República não está errada em pagar, tampouco Lula está errado em receber.

É lei.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e o tempo: Juracy Santana

Juracy Santana abraçado à esposa Lenisse/Álbum de família

“Talvez a velhice seja um naufrágio” (Milton Hatoum, escritor, tradutor e professor amazonense)  

Quando olho no retrovisor da vida, vislumbro coisas que ficaram para trás e não posso esquecê-las.

Mas é preciso avançar no tempo, colher as vicissitudes inarredáveis que plantei ou plantaram em meu caminho.

O prosseguimento da caminhada significa às vezes tédio, às vezes boas lembranças e sempre a expectativa de que, nesta altura da vida, não iremos muito longe.

Os horizontes se estreitam, a alvorada demora a clarear, os sonhos se ofuscam diante das dificuldades. Mas é a vida, a luta, o desenlace do viver ou da morte inevitável.   

Em quadro assim, surge a conversa de envelhescente, que a poucos ou a ninguém interessa, mas se dá em razão da maturidade e do desalinhar das emoções.

Na primeira metade da década de 1970, conheci em Chorrochó, uma turma um tanto alegre e irreverente.

Essa turma formava-se de Juracy Santana, José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Francisco Afonso de Menezes e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó para nós, seus amigos; Corró, para Ernani do Amaral Menezes, seu irmão). Todos jovens, na aurora da mocidade.

Havia outros, mas já falei alhures, muitas vezes. Torna-se cansativo repetir.

Hoje refiro-me a Juracy Santana. Éramos muito próximos, em razão do acolhimento que tivemos do então prefeito de Chorrochó, Dorotheu Pacheco de Menezes e de sua honrada família: Izabel Argentina (Biluca), Socorro, Evaldo, Joãozito, Virgílio e demais do núcleo familiar.

Assim como eu, Juracy vinha de outras paragens. Não nasceu em Chorrochó. Adotou-o como sua terra e seu amparo.

A juventude por si só é sonhadora, às vezes intransigente, quase sempre sustentáculo dos tesouros, dentre esses a amizade.

As amizades amealhadas na juventude geralmente são as mais seguras, as mais puras, as mais duradouras.

Assim éramos nós. Construíamos nossa universidade da vida, que era o conhecimento fundado nas dificuldades e em nossos próprios tropeços.

Juracy era exímio mecânico de automóveis, ocupação na qual se destacou e com ela cavava a vida e o sustento. Profissional respeitável, criou a família no esteio de seu trabalho responsável e diário.

Juracy fez uma façanha, dentre muitas. Se casou com Maria Lenisse Oliveira Alves, minha amiga até hoje, que passou a ser Santana e tiveram as filhas Cilene Cristianne de Oliveira Santana, Samira Liane de Oliveira Santana e criaram a neta Nayara Cristiane Santana Nascimento.

Este era o núcleo familiar de Juracy.

Nayara Cristiane também passou à condição de filha do casal e considerava Juracy seu pai. Ele adorava a neta-filha.

A estrutura familiar paterna de Lenisse está em Patamuté, descendência de Macário Alves, exemplo de vida e caráter. Sinhorzinho é o pai. O esteio materno assenta-se em Chorrochó.

A última vez que vi Juracy, eu já morava em São Paulo. Em visita à cidade, sentamo-nos num banco em frente à casa do então prefeito de Chorrochó, José Juvenal de Araújo, nosso amigo comum.

Conversamos bastante. Conversa saudosa, como se um balanço de nossa humildade, de nossas incertezas, como se um voltar às nossas origens pobres e dependentes do aconchego de quem nos deu a mão em momentos difíceis.

Tanto para Juracy quanto para este cronista, Dorotheu Pacheco de Menezes foi o iluminar de nosso caminho, o amparo, a direção. Éramos jovens, dependíamos de rumo. Dorotheu deu esse rumo, afastou as pedras do caminho.

Tudo isto foi alegria particular. Em Memorial de Aires, Machado de Assis saiu-se com esta: “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular”.

Tinha razão.

Volto à turma que conheci em 1970.

Juracy, Osório, Francisco, Afonso, Antonio Euvaldo. Intrometi-me nessa turma, embora dela não fizesse parte e passei a ser amigo de todos eles. Foram-se Juracy, Osório, Francisco, Antonio Euvaldo.

Valeu a pena tê-los conhecido.

Não posso me queixar daqueles tempos de sonhos. Não devo atribuir os tropeços que se seguiram até hoje àquele iniciar de construção de vida. As amizades me foram mais importantes que os sonhos. Os sonhos seguirão sempre, muitas das amizades se foram.  

Vale a pena a saudade de Juracy e de todos eles.

araujo-costa@uol.com.br

Algumas reclamações dos leitores (II)

Da simpática cidade pernambucana de Santa Maria da Boa Vista uma postagem de Iracema Medrado, que muito me honra.

Dita postagem se refere a uma matéria deste blog intitulada Em Patamuté, uma imagem de desolação e desamparo e traz a opinião abalizada de Iracema sobre o assunto.

Conheci Iracema Medrado em Curaçá. À época morávamos no Curaçá Hotel, de Maria Roselita e Adelson Xavier e estudávamos no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, Iracema mais à frente, já bem adiantada no caminho da formação escolar e eu tropeçando no desconhecido curso ginasial.

Sempre elegante, discreta, comedida e, sobretudo, impressionantemente educada, Iracema Medrado é uma daquelas pessoas que valeu a pena ter conhecido.

Estávamos na segunda metade da década de 1970. Saí de Curaçá, nunca mais vi Iracema. O passar das décadas alargou o caminho para a distância.

Ficou a saudade do tempo, das pessoas, de tudo.  

Volto à postagem de Iracema.

Diz Iracema Medrado, dentre outras reflexões e ponderações:

“Quanto ao êxodo da Igreja Católica para outros seguimentos, a culpa é nossa e não da falta de assistência da Igreja.

A Igreja Católica, pela quantidade de fiéis que tem, se torna impossível, acompanhar cada um de forma minuciosa.

Enquanto os seguimentos de outras religiões e seitas, bem menores, insaciáveis por adeptos, caem em cima, com unhas e dentes, num momento que o fiel está fragilizado, carente, muitas vezes passando por momentos de dificuldade financeira e muitos são arrastados pela famosa teoria da evolução, por um enriquecimento rápido, por tantas propagandas enganosas e tantas lavagens cerebrais.

Insisto na nossa culpa, porque batizamos nossos filhos na nossa fé, ainda inocentes, e não cumprimos com nossa responsabilidade de sermos os primeiros catequistas dos nossos filhos.

Sempre delegamos a terceiros nosso compromisso de tornar concreta, conhecida, imbuídos na fé, a religião que escolhemos seguir com nossa família.

Sempre achamos que os responsáveis pela catequese de nossos filhos são os padres ou catequistas.

Ninguém pega o catecismo da Igreja Católica pra estudar e repassar para família.

É bem mais fácil culpar a Igreja como um todo. Muita gente boa deveria deixar de batizar seus filhos quando a fé e o conhecimento não fossem suficientes para conduzir o rebanho.

Infelizmente, ainda batizam pra completar o álbum da criança e fazer aquele churrasco, movido á bebida alcoólica, o que não é permitido dentro da “Igreja Una Santa Católica e Apostólica Romana”.

Fechadas as aspas, pergunto: o momento de fragilidade dos fiéis católicos que enseja a mudança para outras denominações religiosas não seria decorrente da ausência da Igreja Católica na vida dessas pessoas? O caso de Patamuté a que o blog se refere não seria um exemplo desse descaso da Igreja?

Como se vê, não é bem uma reclamação de Iracema Medrado, mas uma constatação e uma verdade que o blog acolhe, concorda e agradece.

No mais, deixo um abraço para Iracema Medrado e o registro da saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Algumas reclamações dos leitores

Um leitor questiona este escrevinhador se “formador de opinião se acha no direito de falar mal de todo mundo a torto e a direito”.

Não. Não acho.

Contudo, esclareço que não me considero formador de opinião. Se, nalgumas situações, meus modestos pontos de vista servem para ajudar algumas pessoas a discernirem certos emaranhados dos tropeços da vida, mormente política, isto me basta.

Nunca tive a pretensão de indicar o caminho supostamente certo para qualquer pessoa, mesmo porque, muitas e constantes vezes, as encruzilhadas me mostram surpresas.

Outro dia encontrei um conhecido de longa data, com cara de desembargador aposentado (todo juiz se acha o máximo, mesmo aposentado), lulista até a alma, que foi logo dizendo: “hoje não li seu blog e não gostei”.

Pergunto a razão de tanta ojeriza a este humilde escrevinhador e ele esclareceu, para me provocar: “você fala mal do Lula, dia sim e outro também”.

Tento contemporizar. Não tenho nada contra Lula da Silva, nem costumo falar mal de nosso feliz morubixaba de Caetés, até em razão do tempo que o conheço.

Conheço Lula desde o tempo que ele era pobre. Em São Bernardo do Campo, acompanhei os passos de Lula rumo aos degraus do sucesso político. Lá, mais na frente, ele se desviou para o despenhadeiro moral, nódoa que nunca mais se vai desgrudar de sua biografia, condenado judicialmente ou não.

A condenação moral é mais cruel, cortante, lancinante. O tribunal da consciência coletiva não costuma absolver os desvios de conduta.  

Mas daí a dizer que costumo falar mal de Lula vai uma grande e elástica distância. Não é meu feitio, nem tenho razão para isto.

Contudo, gosto das lorotas de Lula, das mentiras cabeludas que Lula conta, dentre essas a de que tirou os brasileiros da miséria e da linha da pobreza e quando o PT estava no governo o Brasil era um paraíso, mesmo sem Adão e Eva.

Lula deveria ser humorista e não político. Mas se ele tivesse escolhido a carreira de humorista não teria tanto dinheiro como amealhou fazendo política.

Outro leitor, mais sisudo, beirando ao esbregue, disse que não gostou de um artigo que escrevi sob o título Sérgio Moro e chapéu de couro são incompatíveis.

Esse atento leitor deve ser futuro eleitor de Moro. Que Deus tenha piedade dele, de todos nós e deste Brasil altaneiro.

Outro educado leitor, que não diz a idade, mas presumo que seja jovem, repreende-me em relação a artigo que escrevi versando sobre os senadores da Bahia.

Noutras palavras, eu havia dito que a Bahia tem um senador e dois arremedos de senador.

O leitor puxou a sardinha para o lado de um senador que admira, espinafrou outro que detesta e por fim sentenciou: “o senhor só devia falar sobre aquilo que sabe”.

O leitor tem razão. Vou tentar.

araujo-costa@uol.com.br

Sérgio Moro e chapéu de couro são incompatíveis

Jurema branca ou preta é uma árvore que dá em qualquer pé de serra e na caatinga do Nordeste. É símbolo de resistência e pertinácia.

Em data recente, a imprensa mostrou uma patética foto do ex-juiz Sérgio Moro, no Recife, ao lado de apoiadores, usando um chapéu de couro, indumentária símbolo do sertanejo de bom caráter.

Dentre os muitos papéis da imprensa, um deles é noticiar, inclusive a existência de dejetos e indignidades, em alguns casos e em alguns locais.

O ultradireitista Sérgio Moro, índole de ditador e travestido de democrata, é o avesso do nordestino sincero, generoso, honesto e, sobretudo, de bom caráter.

Enquanto juiz federal, Sérgio Moro cercou-se de gigantesca estrutura pessoal e jurídica, dentre dezenas de serventuários, seguranças, informantes, jornalistas e muito poder.

Ostentava a judicatura, a arrogância e a caneta e, nesta condição, Sérgio Moro levou o terror até muitos, sem critérios plausíveis de julgador que estava sendo pago pelos contribuintes para fazer justiça.

Perseguiu réus, investigados, advogados, empresários, decretou a prisão de mais de uma centena de criminosos ou supostos criminosos, mandou executar conduções coercitivas ilegais, divulgar áudios inoportunos e mais um amontoado de disparates incompatíveis com as leis substantivas e processuais penais.

Sérgio Moro fez conluio com algumas conhecidas figuras do Ministério Público, de modo que meteu os pés pelas mãos e acabou cometendo muitas e reiteradas injustiças.

Pior: presume-se que fez tudo de caso pensado, ciente de que estava proferindo decisões processuais contrárias à lei e de olho em seu futuro de poder, financeiro e político.

Um dos exemplos de mau-caratismo de Sérgio Moro – só um exemplo, dentre muitos – é este:

Como juiz da Lava Jato, inviabilizou economicamente a Construtora Norberto Odebrecht (hoje Novonor) e extirpou milhares de empregos dessa e de outras empresas.

Estrago feito, retirou-se do governo Bolsonaro e foi trabalhar num famoso escritório de advocacia americano, certamente muito bem pago, que tem a tarefa de recuperar empresas, inclusive a que ele mesmo quebrou.

É sério isto?

Na contramão do bom senso, que recomenda punir os empresários delinquentes e manter intactas as empresas que produzem e dão empregos, Sérgio Moro fez essa lambança para beneficiar-se pessoalmente, à frente.

Hoje isto está claro, indubitável.

O auge da Laja Jato e do estrelismo de Sérgio Moro deu-se em 2019. Dados daquele ano atestam que a Odebrecht chegou a empregar 276 mil pessoas e, com a operação comandada por Moro, reduziu o quadro de funcionários em 80%, ou seja, só da Odebrecht Sérgio Moro tirou o pão da boca de 221 mil pessoas e seus familiares, aproximadamente.

Sérgio Moro não resiste a uma investigação séria.

Assim como a jurema, o chapéu de couro é símbolo da coragem, do caráter e da força nordestina. Não fica bem na cabeça de Sérgio Moro.

A democracia pressupõe a convivência com os contrários e absorção dos antagonismos, mas isto não significa apequenar-se diante de embusteiros.  

Chapéu de couro é coisa séria.

Não fica bem na cabeça de Sérgio Moro.

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