Em Chorrochó, crime, estupidez e desamparo.

Qualquer crime por si só é estúpido. E traz desamparo.

O crime organizado explodiu a agência bancária da cidade de Chorrochó, sertão da Bahia, na noite de 04/10/2021.

Imagens que estão circulando nas redes sociais são impressionantes e desoladoras.

A ação dos bandidos fez reféns e – parece – chegou a danificar imóveis residenciais vizinhos ao banco.

Beirando um século, em 22/12/1929, o bando do cangaceiro Lampião invadiu e barbarizou Queimadas, na região de Canudos.

Lampião assassinou friamente sete soldados, todos do destacamento local, extorquiu moradores, prendeu o juiz e todos os serventuários da Justiça e dominou violentamente a localidade durante horas.  

A história vem se repetindo, desta vez com deslindes cruéis e em proporções mais sofisticadas. Os delinquentes estão se modernizando.

Hoje, os órgãos policiais denominam de “novo cangaço” essas quadrilhas fortemente armadas que invadem cidades, explodem agências bancárias, tomam pessoas como reféns, espalham medo generalizado e roubam violentamente.

Isto vem acontecendo até em grandes cidades, como foi o recente caso acontecido na bem estruturada Araçatuba, interior de São Paulo.

Decorrido quase um século do episódio de Lampião, as populações continuam desprotegidas e à mercê de bandidos, não propriamente por negligência dos governos estaduais, que cuidam da segurança pública, mas em razão do crescimento desenfreado do banditismo e sua forma de agir, mormente nos grandes centros urbanos.

O banditismo está migrando para as pequenas cidades, mais vulneráveis e menos seguras.

Entretanto, convém ponderar que os governos pouco têm investido em segurança pública ao longo dos anos.

Os efetivos policiais são diminutos sobretudo nas pequenas cidades e o policiamento não dispõe de efetivo e equipamentos suficientes para enfrentar o crime organizado que está à frente da sucateada estrutura militar.

O crime organizado importa armas modernas, com alto poder de destruição, que passam por nossas fronteiras facilmente, por conivência de agentes públicos corruptos ou em razão de sofisticadas estratégias dos meliantes ainda não detectadas pelos órgãos de segurança.

A ousadia e preparo logístico dos bandidos são tantos que até aeronaves são usadas por eles para o cometimento de crimes.

Helicópteros resgatam ou tentam resgatar presos em presídios, aviões transportam drogas e armas, chefes de organizações criminosas se deleitam com iates, mansões, aeronaves, etc.

Para ilustrar o desamparo da população, há o caso do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que mandou soltar um traficante de cocaína de alta periculosidade e, como se sabe, mola do crime organizado.

Ao mandar soltar o traficante, o “cuidadoso” ministro do STF ainda determinou pomposa e inocentemente: “Advirtam-no da necessidade de permanecer em residência indicada ao Juízo, atendendo aos chamados judiciais, de informar possível transferência e de adotar a postura que se aguarda do cidadão integrado à sociedade”.   

O traficante, com razão, colocou o Habeas Corpus concedido pelo STF debaixo do braço e foi comandar o tráfico por aí. Tudo isto reflete nesses crimes de explosões de agências bancárias que financiam esses criminosos.

Portanto, é seguro afirmar que, em muitos casos, os bandidos superam, em muito, a capacidade de armamento em relação às forças policiais estaduais.  

A estupidez que o crime provoca, em situação assim, resvala em prejuízo da população, que fica desprovida da estrutura da agência bancária, a exemplo de Chorrochó.

Idosos, doentes, pessoas de baixa renda e população em geral que dependem do banco, inclusive para receber salários, precisam se deslocar, com dificuldade, principalmente financeira, a municípios vizinhos, para receber aposentadorias e outras demandas que hoje são centralizadas nos bancos.     

Se os bilhões do fundo eleitoral destinados aos políticos fossem canalizados para a segurança pública dos estados, certamente se criariam meios pelos quais a população se sentiria mais segura.

A democracia não precisa enriquecer uns poucos e dizimar a sobrevivência de muitos.

araujo-costa@uol.com.br   

O coronel e as vaias a Ciro Gomes

Em seu livro Vila Nova da Rainha Doida, o escritor e jornalista Guido Guerra, baiano de Santaluz, que o amigo Jorge Amado o apelidou de Papagaio Devasso, em recurso de admirável inteligência, conta a história de um certo coronel Asclepíades, truculento e mandão, senhor e dono de tudo em sua região.

Como regra, as celebrações religiosas católicas eram feitas em língua nacional. Asclepíades determinou ao vigário local que celebrasse uma cerimônia em latim, à moda antiga.

O padre argumentou:

– “O Vaticano determinou que agora seja em Português”.  

– “Aqui mando eu, só eu”, disse o coronel Asclepíades.

A vaidade existente nas entranhas dos partidos de esquerda e parte da direita estrambólica e dissidente não permitiu que levassem às ruas um número considerável de opositores ao governo Bolsonaro nas manifestações convocadas para 02/10/2021.

Único presidenciável declarado presente na Avenida Paulista, o “coronel” e ex-governador cearense Ciro Gomes foi retumbantemente vaiado pela esquerda que ele tanto admira, inclusive por petistas exaltados que, como ele, fizeram parte do governo de Lula.

Ao fim de sua fala, patética e repetitiva, Ciro Gomes, que não leva desaforo para casa, deu o troco e chamou os petistas e esquerdistas em geral de “fascistas de vermelho”.

Ao deixar a manifestação, Ciro Gomes foi cercado e quase leva uma surra dos petistas, mas a turma do “deixa disso” e a Polícia Militar de São Paulo impediram a sova.

O Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Ciro Gomes, diz que não foi bem assim e tenta evitar o visível desgaste.

O PDT tem à frente a conhecida e abominável figura do trabalhismo nacional, Carlos Lupi, ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff.

Como se vê, Ciro Gomes não está bem acompanhado.

À semelhança do coronel Asclepíades, de Guido Guerra, Ciro Gomes se acha o máximo e, sozinho, tentou enfrentar a “estrondosa multidão” de 8 mil pessoas que a esquerda conseguiu levar à Avenida Paulista, segundo dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Ou seja, enquanto a vaidade dominar a esquerda, fica difícil ela reunir multidões contra o presidente Bolsonaro. Cada segmento da esquerda quer assumir o poder. Melhor: quer devastar os cofres públicos ou participar da devastação.  

O principal protagonista da esquerda, Lula da Silva não tem ido a essas manifestações, por duas razões: experiente e politicamente inteligente, Lula sabe que nesses ambientes podem surgir vaias e isto ele não quer, o fragiliza; depois, porque Lula prefere fazer campanha de bastidores, articulando alianças nos estados e com lideranças de todos os espectros, o que vem fazendo com grande desenvoltura e êxito comprovado.

Em resumo: Lula não quer assumir que está fazendo campanha antecipada à semelhança de Bolsonaro. Mas o PT está em campanha. Inegável que está.

O comentarista Gerson Camarotti, da Globo News, em hercúleo contorcionismo verbal, tentou omitir o nome de Ciro Gomes, como destinatário das vaias da Avenida Paulista.

Entretanto, a emissora concorrente mostrava um cabisbaixo Ciro Gomes, em palanque, sendo estrondosamente vaiado pela perdida esquerda, que deveria apoiá-lo ou, pelo menos, ser educada e comportada.

Esperemos as próximas manifestações.

Quem sabe os opositores do presidente Bolsonaro se unam em prol do mesmo objetivo: derrubá-lo nas urnas de 2022.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, ex-prefeito Salvador ilustra a data

“A felicidade não é uma estação de chegada, mas uma maneira de viajar” (Margareth Runbeck, 1905-1956)

Hoje quero me referir a um sujeito decentíssimo, culto e politicamente inteligente: Salvador Lopes Gonsalves, assim como eu, filho do altaneiro município de Curaçá e aniversariante neste primeiro dia de outubro.

Este senhor a que me refiro foi, numa quadra do tempo, eficiente prefeito do baiano município de Curaçá, debruçado à margem direita do São Francisco.

Salvador Lopes Gonsalves governou Curaçá num período inquestionavelmente difícil: o município saía de uma quadra de administrações conservadoras, porque assim ditavam o momento e as circunstâncias da época.

Salvador tinha consciência de que a mudança pressupunha ruptura de valores já sedimentados na estrutura municipal, nem sempre fáceis de serem alterados.

Ele se definia como oposição às práticas políticas da ocasião.

A esquerda de Salvador é outra, sempre foi outra, qual seja, a verdadeira esquerda: ideologicamente fincada em princípios defensáveis e possíveis de praticá-los a qualquer tempo.

Salvador é sensato, inteligente, enxerga longe, antever horizontes. Difere da esquerda tresloucada, que não sabe exatamente o que quer e vive embevecida em picuinhas do poder.

O poder, para Salvador, é consequência da luta democrática.

Em Curaçá, Salvador representava a mudança, a necessidade de mudança, a razão da mudança.

Salvador mudou Curaçá?

Não sei. Mas chacoalhou a forma de fazer política no município, atapetou o caminho, indicou direções e acendeu a luz do horizonte político, iluminando o caminho de muitos que se seguiram.

Salvador é politicamente culto. Também é humilde demais. Entende de seu povo, de suas origens, entende de Brasil.

Aliás, dentre as muitas observações de meus leitores, faz muito tempo um curaçaense me corrigiu. Dizia ele que Gonçalves se escreve com ç e não com s.

Concordei com o atento e exigente leitor, mas relativamente ao Gonsalves de Salvador, continuo escrevendo com s.

Hoje, se me perguntarem por que, insisto que não sei. Presumo que em seu registro de nascimento o tabelião tenha grafado assim. É o bastante.

Mas Salvador é tão importante que um ç ou um s não faz a menor diferença em seu nome, em sua vida e, por conseguinte, na história de Curaçá.

Importantes são as lições de Luizinho que Salvador aprendeu. Quanto a Luizinho, não importa aqui o dizer de sua vida. Só os sábios explicam o seu saber. E eu não sou sábio, não sei explicar.

Como dizem os mineiros, Salvador Lopes Gonsalves está onde sempre esteve: à espera de um novo tempo.E o novo tempo para o sábio e silencioso Salvador é a luta em defesa do município de Curaçá, com mandato ou sem mandato.

Não importam os partidos políticos, os conchavos e, muito menos, as alianças partidárias, a costura das estratégias.

Que Salvador encontre sempre essa maneira de viajar em direção à continuidade da vida.

Daqui mando parabéns.

araujo-costa@uol.com.br.

O vento da aventura, a vida, a arte

Há tempo, acho que no prefácio que me foi generosamente pedido num livro ou em crônica dispersa, citei uma frase do dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900): “Toda arte é absolutamente inútil. A única desculpa para se fazer uma coisa inútil é admirá-la imensamente”.

Um leitor atento, certamente amante da arte, pergunta-me onde foi que Oscar Wilde disse isto. Parece que ele não acreditou muito ou em nada do que escrevi e, por óbvio, não é minha intenção que acredite.

Explico. A frase está no romance filosófico O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, publicado na Inglaterra em 1890. Mas a frase não deve ser interpretada isoladamente.

Sempre há um contexto para tudo, até mesmo para nossas ações e para o que dizemos. Em nenhum momento eu disse ou quis dizer que a arte é inútil por si só, nem que a citação de Oscar Wilde é estanque em si mesma.

A vida tem um quê de aventura.

Desde a tenra idade, passando pela mocidade, até chegar à senectude, todos experimentam momentos de alegria, felicidade e tristeza.

Uns se embevecem tanto nessa aventura que se tornam eternos espectadores dos outros, alheios à cruel realidade que passa.

Outros, mais cônscios, se entregam às vicissitudes da vida e parecem cada vez mais preocupados com tempo e objetivos.  

Nessa inarredável aventura, algumas vezes caímos, noutras tropeçamos, mas quase sempre adquirimos forças para seguir avante em busca dos sonhos e de novos horizontes.

O importante, nisso tudo, é saber sacudir a poeira depois da queda. E seguir em frente. 

Construímos amizades que perduram até o entardecer outonal da vida e convivemos com outras que não tiveram tenacidade para enfrentar a realidade da convivência, porque ser amigo é muito difícil.

E no fim da caminhada, poucos sobram ao nosso lado. É o parâmetro que o viver nos dá para que possamos aquilatar o valor de quem nos rodeia, a peneira da experiência que vai escoando as futilidades.    

Nesse caminhar a vida vai passando. Ou o vento da aventura vai soprando.

Existe uma constante presença entre a juventude e os dias de hoje: a lembrança. É ela que impulsiona o prosseguimento da caminhada. 

A ingenuidade da adolescência, a pureza da juventude, a edificação dos sonhos e, sobretudo, a vontade de ser feliz são, também, formas eficientes para levar adiante o caminhar.

E muitos alcançam seus objetivos. Outros, diversamente, não conseguem porque a distância entre o sonho e a realidade torna-se infinitamente elástica para eles.

Uns persistem, outros fracassam. Mas o vento da aventura sopra sobre todos.

A vida também é arte. Mas não é inútil.

araujo-costa@uol.com.br

Decoro parlamentar.

Semana espalhafatosa na CPI da Pandemia do Senado Federal.

O senador Jorginho Mello (PL-SC) espinafrou o colega Renan Calheiros (MDB-AL) que, do alto da elevada função de relator da CPI, chamou o catarinense de “vagabundo”.

Nessas alturas, a expressão “Vossa Excelência”, como mandam o regimento e o decoro, já tinha sido espezinhada e chutada por Renan Calheiros.

Jorginho Mello devolveu o insulto e elevou o tom, grosseiramente: “você é ladrão e picareta”.

Não precisava dizer. Aí já é demais.

Coitado do Renan, tão honesto!

Renan Calheiros partiu para o ataque físico ao colega de Santa Catarina, mas foi impedido por outros colegas, que evitaram o pugilismo do senador alagoano.

Quinta-feira, dia 23.09.2021. Ao repercutir a matéria vergonhosa e constrangedora, a apresentadora do Jornal das 10, da GloboNews, emissora protetora de Renan Calheiros, perguntou aos colegas comentaristas Merval Pereira e Carlos Sardenberg:

– E o decoro?

Sem ter o que dizer, Sardenberg saiu-se com uma piada sem graça. Merval Pereira, mais contido, silenciou.

A apresentadora do programa jornalístico global desconhece que a história política de Renan Calheiros é uma falta de decoro, por si só. Como, aliás, é a história de grande parte de nossos senadores que se dizem decentes e corretos.

O certo é que decoro parlamentar só existe no dicionário político desses embusteiros, independentemente de qualquer espectro político de que façam parte.  

Quando deputados e senadores se engalfinham, dão um ponta pé no decoro, que sai voando junto com a indecência vocabular deles e se espatifa no esgoto da hipocrisia.

araujo-costa@uol.com.br

Rachadinhas e delinquentes

“A ocasião apenas o revela. O ladrão já nasce feito” (Machado de Assis, escritor, 1839-1908)

Nordestinos espirituosos diziam que “prostituta e político ruim têm sempre que mudar de zona”.

A diferença é que o caráter da prostituta é infinitamente melhor em relação aos políticos, excetuados alguns políticos, poucos políticos. Evidentemente que sempre há.

Generalizar não é de todo justo, nem de bom tom, tampouco exercício razoável da inteligência.

Há políticos sonhadores, utópicos, de boa vontade, ingenuamente esperançosos de mudar os rumos do País e o norte da vida política nacional.

A imprensa noticiou que 42 dos 70 deputados estaduais do Rio de Janeiro de diversos partidos estão envolvidos com as chamadas rachadinhas, prática segunda a qual o político se apropria de parte dos salários dos funcionários que contratou.

Há até casos de funcionários fantasmas, que recebem o salário e nunca moveram sequer uma palha em benefício do serviço público.

Como se vê, a Assembleia Legislativa fluminense está infestada de desonestos. Esses deputados estão sendo investigados pelo Ministério Público de lá.

O Tribunal Superior Eleitoral classifica a prática como “clara e ostensiva modalidade de corrupção”, o que de fato é.

Mais do que isto, a prática é crime de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Um dos acusados é o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) que, segundo consta no noticiário, quando deputado estadual era useiro e vezeiro da prática de rachadinhas, assim como seu irmão Carlos Bolsonaro (Republicanos), atual vereador carioca, filhos do presidente da República.

Ambos já mudaram de zona. O senador Flávio mora em Brasília, por ser senador e o irmão Carlos continua no Rio de Janeiro, mas fica mais na capital da República, em razão da proximidade com o pai presidente.

Todavia, é preciso esclarecer que a rachadinha é uma prática comum em assembleias legislativas, câmaras municipais e Congresso Nacional, segundo noticia-se com frequência.

Em data recente uma ex-vereadora de São Paulo foi condenada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo uso da rachadinha.

A condenação, quando há, implica em cassação do registro e inelegibilidade do político embusteiro, além dos reflexos na esfera penal.

O boquirroto Ciro Gomes diz que o hoje presidente Jair Bolsonaro se beneficiava da rachadinha quando deputado federal. Mas o que Ciro Gomes diz não é lá de se levar muito a sério.

Um sujeito que vivia pendurado nos quibas de Lula, foi até seu ministro e hoje tem como predileção falar mal do ex-presidente é ingrato e leviano, para dizer o mínimo.

Os Bolsonaros citados estão no bico do corvo e frequentam diariamente as páginas policiais, porque são filhos do presidente da República e isto lhes expõe ao massacre da mídia, que silencia quanto aos demais políticos cariocas e não cariocas que se utilizam das rachadinhas.

Os filhos de Lula da Silva também foram expostos e massacrados pela imprensa, embora por outras razões, simplesmente por serem filhos de Lula.

Mudam-se os governos e a imprensa esquece o que disse e vai baixar no terreiro do próximo que estiver no poder, em busca de audiência, exceto  quando beneficiada com publicidade oficial.

A publicidade oficial cala a boca dos magnatas das comunicações. Quando o governo de plantão suprime a boca do cofre oficial dos grandes órgãos de comunicação, estes se transformam em oposição e partem para o massacre diário, nem sempre razoável.

Quanto às rachadinhas, na verdade existe um parasitismo dos políticos delinquentes que rapinam os cofres públicos sob o manto da impunidade.

araujo-costa@uol.com.br

O triplex de Lula que não é de Lula

A coluna Radar, da revista Veja, publicou em 15/09/2021, que a defesa do ex-presidente Lula da Silva ajuizou pedido de execução provisória contra a construtora OAS, de Léo Pinheiro, para que a empresa devolva R$ 662.473,32 referente a aquisição do famoso triplex do Guarujá.

A Veja mostrou parte do pedido formulado pelo advogado de Lula que, em resumo, diz o seguinte:

“Requer-se seja dado início à execução provisória da sentença, com a intimação da ré OAS, na pessoa de seus advogados constituídos, para que pague o valor atualizado da condenação, que em setembro de 2021 é de R$ 662.473.32 (seiscentos e sessenta e dois mil, quatrocentos e setenta e três reais e trinta e dois centavos), conforme cálculo descritivos anexos, sob pena da aplicação de multa de dez por cento e, também, de honorários de advogado de dez por cento”.

Ato contínuo, surgiram dúvidas compreensíveis de mortais comuns e até com razão: Lula sempre disse que o triplex não é dele, nunca foi dele. Como quer o dinheiro que pagou de volta?

O caso é juridicamente intrincado, mas não o é, na prática. Juridicamente o triplex não é de Lula, mas no mundo real é.

O triplex sempre foi de Lula. Ele comprou e pagou. Nunca negou que tivesse pago por ele, embora negasse que o triplex fosse dele.

O triplex é de Lula, mas não é de Lula.

O que Lula sempre negou foi que as reformas feitas no triplex pela Construtora OAS tenham sido feitas a pedido dele, embora feitas no triplex dele, que não é dele.

Ou seja: O triplex é de Lula, mas o elevador que ele colocou lá, a sofisticada cozinha projetada, a piscina e as reformas não são dele, nunca foram dele, mesmo tendo sido feitas e instaladas no triplex dele, que não é dele.

Há uma foto/imagem que circulou exaustivamente na imprensa em que aparecem Léo Pinheiro e Lula no triplex, mas deve ser fantasma. Fantasmas aparecem.

O que Léo Pinheiro e Lula teriam para conversar no triplex de Lula, que não é de Lula?

Antes que alguém se atreva a dizer que o triplex e as reformas são tudo de Lula, alto lá. Cuidado, muito cuidado. O Supremo Tribunal Federal já disse que não.

E, portanto, não podemos contrariar ou discordar do elevado saber jurídico e da ilibada reputação de Suas Excelências os ministros do STF.

Lula tem amigos fidelíssimos no Supremo Tribunal Federal, mas isto não tem nada a ver com o triplex de Lula, que não é de Lula.  

Não é crime ter amigos no STF que, numa eventualidade, decidem a nosso favor. Crime é cometer o crime que o STF absolve e que, evidentemente, não é o caso de Lula.

Os mais velhos lá nas caatingas do meu Nordeste diziam que “mais vale um amigo na praça do que dinheiro no caixa”. Mas isto não tem nada a ver com Lula e os ministros amigos de Lula, nem com o triplex do Guarujá.

Lula pagou o triplex, fez reformas no triplex, mobiliou o triplex, visitou o triplex com Léo Pinheiro, dono da construtora que mandou fazer as reformas no triplex, mas não é dono do triplex. E quer o dinheiro que pagou pelo triplex, que não é dele.

Mas, para os leigos, ouso ponderar: eles não precisam consultar os compêndios de Direito, nem os filósofos pré-socráticos. Basta consultarem os ministros do Supremo Tribunal Federal que eles explicam tim-tim por tim-tim que o triplex de Lula não é de Lula.

Esse triplex do Lula, que não é de Lula, ainda faz um barulho danado.

Nunca vai sair do imaginário popular.

araujo-costa@uol.com.br

Saudade em tempo de primavera.           

Borboleteava entre bares, desde o cair da noite, até o amanhecer do dia seguinte.

Boêmio, simpático, espirituoso, culto, inteligente. Boa pinta, extrovertido, respeitador.

Quando cumprimentava uma mulher, nova ou adiantada em anos, fazia um salamaleque qualquer e, por fim, beijava-lhe a mão, cerimoniosamente.

Tinha um estranho hábito: telefonar para a casa dos amigos, madrugada afora, etilicamente calibrado, dando sustos desesperadores. Naquele tempo não existia telefone celular.

Acreditem os jovens leitores. Sou do tempo em que não existia telefone celular.

Convenhamos, não fica bem telefonar para a casa dos outros na madrugada, exceto para tratar de assuntos urgentes e inadiáveis, como, por exemplo, noticiar a inesperada visita da morte a algum amigo ou conhecido.

Mas ele telefonava, sem constrangimento. Alongava-se em bate-papo e misturava alhos com bugalhos à vontade como se fosse a coisa mais normal do mundo ou uma conversa ao claro do dia.

Advogado de sucesso, não precisava ganhar o pão com o exercício da profissão porque, segundo ele, o “pai deixou alguns réis” que davam para comprar um destilador de uísque para abastecer-lhe até o fim da vida. E “morrer bêbado”, acrescentava com alegre desenvoltura. 

Feriado prolongado, telefonou agitado, coisa que só amigo faz, só amigo tem a liberdade de fazer:

– Preciso de uma garrafa de uísque, urgente. Os bares estão fechados e não vou ficar sem beber.

– E eu com isso? Procure nos supermercados, disse-lhe.

– Eu não quero uísque de supermercado, quero de sua casa, para me ajudar a beber.

Logo entendi. Queria a companhia, como sempre. O uísque era desculpa.

Era assim, meu amigo. Bom amigo, grande amigo, difícil nos dias de hoje. Seguiu o caminho para a distância, obedeceu à morte. Deixou as marcas da saudade.

Eu costumava recitar pra ele o verso de José Amâncio Filho, “Meu Mano do Abaré”, ícone das serestas baianas de Curaçá das primeiras décadas do século XX.

“Vivo hoje satisfeito

Gordo, sadio e forte

De nada tenho receio

Não temo nem mesmo a morte

E ainda tem gente que diz

Que cachorro não tem sorte”.

Mas o que ele gostava mesmo era dessa tirada de “Meu Mano”:

“Bebe hoje todo mundo

Branco, preto, pobre e rico

Isto vem de longa data

E eu sem beber não fico”

Dava gostosas gargalhadas.

Deixemos que o inverno se vá. Esperemos a primavera, que se aproxima. Ainda há flores, sempre haverá flores.

Ainda há sorrisos, sempre haverá sorrisos.  

Sempre haverá lembrança dos amigos.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá falta esperança.

Os Programas de Aceleração do Crescimento, os chamados PACs, estiveram em evidência nos governos petistas de Lula da Silva e D. Dilma Rousseff e se transformaram numa espécie de carro-chefe daqueles governos.

Esses programas devem ter acelerado alguma coisa, sim.

Em Curaçá, na região do Submédio São Francisco, à época desses programas tocados pelo governo federal, o município foi beneficiado, salvo engano, com algumas retroescavadeiras que se destinavam à agricultura local e familiar, inclusive limpeza e formação de aguadas.

Tudo bem, tudo muito direito.

Por outro lado, a Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA) da Bahia desenvolve um projeto chamado PROMER (Projeto de Mecanização Rural) que é executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e consiste dito projeto em fazer convênios com as prefeituras baianas no sentido de beneficiar famílias no preparo de solo e limpeza de aguadas, com claros reflexos na agricultura familiar.

É uma forma eficiente de assistência ao homem do campo que, convenhamos, torna-se valiosa e necessária.

Tudo bem, tudo muito direito.

Não obstante isto ou tudo isto, sabe-se que em Curaçá pequenos proprietários rurais vinham reclamando com a falta de assistência da Prefeitura no sentido de fazer chegar esses benefícios a alguns deles.

No caso do PROMER cabe à Prefeitura, através de seus órgãos competentes, informar o governo estadual sobre cadastros, prioridades de inscrições e demanda do município.

Parece aí haver a falha ou isto não está sendo razoavelmente explicado à população, inclusive no que tange a eventuais convênios.

O exercício da função pública exige transparência, o que pressupõe, em última análise, que o munícipe não deve ser engambelado com conversas de cerca-lourenço.  

Este  blog recebeu informação de que na região de Patamuté, por exemplo, há gritante falta de atenção da Prefeitura relativamente a alguns pequenos proprietários rurais, mormente no que tange à limpeza de aguadas, de resto sustentada por esses programas que, a rigor, ajudam o município a cuidar de sua população rural.

E aqui não se discute se esses equipamentos chegaram ao município através de PAC, emendas parlamentares ou outro caminho qualquer e, menos ainda, partidos ou políticos aliados ou não ao prefeito.

Discute-se a eficiência em utilizá-los, inclusive a manutenção permanente e necessária.  

Houve um caso em Patamuté em que o pequeno agricultor solicitou os serviços de uma máquina para limpar pequena aguada em sua diminuta propriedade,porque, segundo ele, achava que tinha direito.

Ledo engano. Direito ele pode ter. Difícil é exercê-lo.

“Cansei de pedir” – diz o desesperançado agricultor.

“Uma hora dizem que a máquina está quebrada, outra que não tem combustível, que vão entrar em contato e por aí vai”, acrescentou o abandonado homem do campo.

Mas o que parece mais grave é a Prefeitura nunca agendar o serviço desse agricultor, apesar de suas constantes solicitações.

A Prefeitura deixa o coitado a ver navios, o que chega a ser uma crueldade, porque nem navios há por lá.

Por mera curiosidade, perguntei ao abandonado lavrador da caatinga de Patamuté, se ele tinha votado no atual prefeito de Curaçá.

Disse que sim. “Até gostava desse camarada”, disse ele.

Ousei dar-lhe uma sugestão:

– Então, não espere a máquina. Ela nunca vai fazer seu serviço, nem lhe socorrer nesse momento de extrema necessidade. Espere as urnas das próximas eleições e vote contra o prefeito, contra o candidato do prefeito, contra o vereador do prefeito.

Em Curaçá está faltando esperança.

araujo-costa@uol.com.br

Dória e Bolsonaro: os ruins se atraem

Não sei exatamente se é um princípio de Física ou de Psicologia ou de nenhuma dessas ciências, mas o fato é que li nalgum lugar, que os opostos se atraem.

Já se vão distantes minhas aulas ginasiais. A memória tropeça, claudica, me envergonha.

Mas –  parece – cientificamente os opostos não se atraem ou ainda são objetos de discussão, o que aqui não interessa.

À semelhança do que dizia o escritor e jornalista baiano Raimundo Reis, do antigo município de Santo Antonio da Glória, não sou filósofo para querer saber a origem das coisas.

A Folha de S. Paulo, que num dia fala mal do presidente Bolsonaro e no outro também, ao tempo em que elogia desbragadamente o governador paulista João Dória (PSDB), teve que se curvar à ultima pesquisa do seu instituto DataFolha e admitir que tanto Bolsonaro quanto João Dória estão empatados no quesito aprovação de seus governos (24%),embora desta vez a pesquisa não tenha incluído Bolsonaro na sondagem.  

A reprovação a João Dória, segundo o DataFolha está na casa de 38%, entre ruim e péssima.

Isto significa dizer que, se estão tecnicamente empatados na aprovação, presume-se que ambos  – Bolsonaro e João Dória – colecionam reprovação idêntica, considerando que a nota média de aprovação do governador de São Paulo situa-se no patamar de 4,7%.  

Logo, no quesito ruindade, Bolsonaro e João Dória se equivalem.

João Dória patina no interior de São Paulo, onde quase ninguém gosta dele, com ligeira melhora na região metropolitana e Bolsonaro escorrega em todo o Brasil.

Mesmo que cientificamente os opostos não se acheguem, politicamente é provável que sim. Inegável, talvez.

Em certas ocasiões, os ruins também se atraem.

Nas eleições de 2018, João Dória se pavoneou, como ainda hoje o faz e até inventou um slogan “Bolsodória” que estampou em camisetas e demais propaganda política para significar que ele e Bolsonaro estavam juntos. E estavam.

João Dória se elegeu governador na esteira do prestígio que até então Bolsonaro gozava eleitoralmente.

Eleito, arrogante e traidor, João Dória depois virou-lhe as costas, o que não é, propriamente, sinal de bom caráter.  

João Dória vai disputar as prévias do PSDB com outras figuras conhecidas do partido. Mais forte é o governador Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul.

Mas João Dória tem chances de ganhar as prévias, em razão do peso político de São Paulo e de suas constantes e frequentes viagens por todo o Brasil, cujos jatinhos e outros regabofes até agora ele não disse quem paga.

De qualquer modo, hoje Dória e Bolsonaro situam-se em patamares iguais.

Embora se digam opostos, são politicamente ruins e isto os aproximou.

araujo-costa@uol.com.br