A outra face da ditadura

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram.
Já não havia mais ninguém para reclamar.”

(Martin Niemoller, pastor luterano alemão e antinazista, 1892-1984)

As ditaduras se apresentam de muitas formas, quer ostentando tanques e armas de guerra, quer ostentando canetas. Todas são temerárias.

No Brasil de hoje, o que menos preocupa é o destempero verbal e o extremismo inoportuno do presidente da República.  “Cachorro que late não morde”, diz o ditado.

Os golpes ditatoriais não são precedidos de avisos. Quem quer instalar golpe não avisa antes. Isto é elementar. É ingenuidade pensar de modo diverso.  

Os golpes militares são engendrados estrategicamente, em silêncio, sem estardalhaço, com serviços eficientes de inteligência e vigilância de setores da sociedade.

Ou não será golpe. Assim foi em 1964.

O que deve preocupar a população em geral é a ditadura do Poder Judiciário, que está a todo vapor e a sociedade não percebe. Pior: sob o argumento de que está agindo em defesa da democracia.

Democracia não se exerce com prisões arbitrárias, tampouco com a disseminação do medo e da insegurança jurídica e, menos, ainda, rasgando páginas da Constituição Federal.

Parece que o Supremo Tribunal Federal está abdicando de sua condição de Corte Constitucional para assumir o protagonismo de juiz criminal de primeira instância.

O STF tem expedido mandados de prisão contra deputado federal, presidente nacional de partido político, jornalistas, blogueiros e cidadãos comuns, até contra caminhoneiros e ameaçando fazê-lo em desfavor de inofensivos cantores da Jovem Guarda, a exemplo de Eduardo Araújo e Sérgio Reis que, inocentemente, andaram falando um bocado de asneiras.

Não precisa ser inteligente para saber que os cantores Eduardo Araújo e Sérgio Reis não têm índole de terroristas. Mas o STF acredita que têm.

Quem passou a vida inteira cantando e enaltecendo o amor não vai se transformar de um dia para outro, já na velhice octogenária, num perigoso terrorista e demolidor de instituições.

Em consequência, o que assusta é que esses mandados de prisão, geralmente preventiva, são expedidos ao arrepio da lei, sem o devido processo legal e sem o amplo direito de defesa, de resto assegurado na Constituição, que o Supremo Tribunal Federal diz defendê-la.  

O Supremo Tribunal Federal inventou uma figura que não existe em nenhum ordenamento jurídico, exceto em regimes arbitrários: o flagrante permanente baseado na internet.

Exemplo: um texto escrito há dez anos. Ao ler a matéria hoje e achar-se ofendida, qualquer autoridade pode pedir a prisão do autor, porque, diz o STF, se o texto continua no ar, o flagrante persiste. Um absurdo, uma ilegalidade.

É a caçada contínua a escritores, jornalistas, cronistas em geral, pessoas que lutam com as palavras. É a ameaça permanente de censura prévia, o tolhimento da livre manifestação do pensamento.

Ninguém se assuste se vereadores dos mais afastados rincões do Brasil, prefeitos, deputados estaduais e líderes políticos do interior, mesmo sem mandato, forem surpreendidos com decisões do Supremo Tribunal Federal, com decretos de prisão, por simplesmente terem usado o sagrado direito de expressão para fazer críticas a poderosos.

Ninguém se assuste se o guarda da esquina, em qualquer cidade ou povoado do interior, começar a dar voz de prisão a incautos internautas, porque expressaram suas opiniões em redes sociais. O Supremo Tribunal Federal certamente dará o beneplácito, se não mudar o entendimento.  

O que mais assusta é o silêncio de quem tem o dever de protestar contra o desmoronamento do direito dos cidadãos: de falar, de opinar, de defender, de contestar, de manifestar-se livremente.

Cadê a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), cadê os partidos políticos, cadê as entidades que se dizem defensoras dos direitos humanos?

Estão todos silentes, coniventes, extasiados com esse estado de coisas.

Exemplo claro, cristalino e inegável dessa indiferença estarrecedora:

O ex-presidente Lula da Silva foi regularmente processado, teve assegurado seu direito de ampla defesa, foi julgado e, por fim, condenado e preso, após o trâmite em todas as instâncias, como mandam as normas processuais.  

O PT, o lulopetismo e a esquerda em geral alardearam para o Brasil e o  mundo que Lula da Silva foi encarcerado na condição de preso político. Até levaram isto a cortes internacionais. 

Hoje o PT – maior partido de esquerda – o lulopetismo e a esquerda em geral aplaudem – ou, no mínimo, silenciam – quanto às prisões decretadas pelo Supremo Tribunal Federal contra jornalistas, blogueiros, deputado federal, presidente nacional de partido político, mesmo não havendo condenação contra essas pessoas.

Por quê?

Porque as prisões ainda não atingiram pessoas da esquerda, mas estão concentradas em correntes políticas adversárias.

Por aí se vê, que no Brasil não se faz política com seriedade. Os partidos políticos não defendem ideais, mas interesses nem sempre confessáveis.

As ditaduras às vezes se apresentam sorrateiramente, caneta em punho, prendendo, arrebentando consciências, suprimindo direitos, oprimindo e calando a voz de cidadãos que ousam discordar dos poderosos.

A obediência às leis e decisões judiciais é dever de todo cidadão.

Eventuais excessos devem ser evitados e punidos na forma da lei. Mas a subserviência não é virtude, não é dever. É covardia.

Parafraseando Martin Niemoller: quando nos levarem, poderá não haver mais ninguém para reclamar.

araujo-costa@uol.com.br   

Adonai Matos Torres e a história de Patamuté

Adonai Matos Torres e Cleonice Pedroza Torres/álbum de Cleonaide Pedroza Torres

“Aprendi que não há homem meio honesto. Ou são inteiramente honestos ou não o são” (Jânio Quadros, 1917-1992)

Adonai Matos Torres, nascido em 22.08.1925 e falecido em 30.10.2007, seguramente foi o político de maior destaque de Patamuté antes da ascensão de Theodomiro Mendes da Silva.

Entretanto, na época de Theodomiro, que foi prefeito de Curaçá por dois mandatos (1973-1977/1983-1988), surgiram outros homens públicos que também se dedicaram inegavelmente ao distrito. Exemplos, que não são únicos: João Brandão Leite e João Pedro Cunha (Didi). Ambos foram vereadores de Curaçá.

Noutra quadra do tempo, mais tarde, da mesma linhagem familiar de Adonai, outros filhos de Patamuté foram vereadores de Curaçá e o fizeram com brilhantismo e considerável destaque e dedicação ao lugar: José Valberto Matos Leite e Anselmo Vital Matos (legislatura 2000-2004), ambos sobrinhos de Adonai.

O cotidiano de político do interior é sinônimo de presença diuturna na vida das pessoas carentes. Adonai fez isto com maestria. Filho de Otaviano Matos, major da Guarda Nacional, uma honraria instituída pelo Império e neto do coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté, Adonai herdou de seus ascendentes o gosto e a dedicação à causa do povo.

A política partidária foi sua glória e seu fracasso.

Político marcadamente populista, Adonai entendia que o povo é a razão de ser do homem público. Assim, teve seus momentos efêmeros de glória e outros tantos de fracasso, que não ofuscaram sua biografia.

Tinha qualidades inquestionáveis, dentre essas a fidelidade aos amigos e o respeito aos eleitores.

Quando aliado do prefeito José Félix Filho (Zé Borges), talvez nesse período tenha experimentado o auge de sua glória como político e representante de Patamuté.

Seu declínio político deu-se espontaneamente, por não mais acreditar nos homens da terra e em razão de decepções constantes e traições de próprios correligionários.

Homem sincero, Adonai não aceitava falhas de caráter. Nunca transigiu com falcatruas e jamais aceitou vantagens para flexibilizar as posições que defendia.

Irredutível em seus pontos de vista, a tocha que iluminava o seu caminho era a honestidade. Quando os ventos deixaram de lhe ser favoráveis, achou melhor ficar à margem da política, não obstante décadas de presença e atuação na vida de Patamuté.

Casado com D. Cleonice Pedroza Torres, uma elegante e respeitável senhora e esposa exemplar, Adonai constituiu família numerosa. Com ela viveu seus dias de ostracismo político, recolhido aos ditames de sua consciência.

A esposa Cleonice era sua fortaleza e seu esteio. Com ela dividiu os momentos de glória e de angústia.

Exemplo de dedicação aos filhos, mesmo em tempo de dificuldades, deixou-os criados, encaminhados profissionalmente, respeitáveis e moralmente sadios.

Homem de caráter irrepreensível, a atividade política de Adonai não lhe tirou a capacidade de dedicação aos mais humildes, independentemente de cor partidária. Era presença de destaque em tudo que se discutia no distrito de Patamuté.

Em 13.06.1968 foi um dos fundadores da Sociedade 13 de Junho de Patamuté e fez parte de sua primeira Diretoria ao lado de Manoel Brandão Leite, Mário Matos Lopes, José Mendes Fonseca e José Gomes Reis Filho.

Exemplo de homem público, Adonai Matos Torres deixou um legado para Patamuté: a honestidade e o amor que sempre dedicou à terra. Filho ilustre do lugar, merece ser reverenciado, sempre.

A história também se escreve com os ideais dos antepassados que indicaram, cada um a seu modo, o caminho por onde hoje trilhamos.

Adonai faz parte da história de Patamuté.

araujo-costa@uol.com.br

Sete de setembro, o rei e a barriga do rei

“Bafejado pelo êxito qualquer homem se imagina predestinado a grandes missões. Se é um medíocre, não tardará a cair, mas se estiver à altura da oportunidade, a vitória lhe proporcionará energias imprevistas” (Luís Viana Filho, 1908-1990, historiador, ex-governador da Bahia)

Alfredo Sirkis (1950-2020), jornalista e escritor, esquerdista carioca de relevante atuação política na ditadura militar, conta em seu livro Os carbonários (Global Editora, 1980) um episódio que aconteceu quando regressou ao Brasil.

De volta do exílio, ao desembarcar no aeroporto do Rio de Janeiro, o policial que o atendeu, antes treinado pela ditadura para perseguir e torturar militantes de esquerda, ao analisar seu passaporte e sua condição de anistiado, disse-lhe ironicamente:

– “Agora que tu vais ficar complexado, né rapaz? Não damos mais bola pra ti”.

Quando o Brasil mostrar aos torcedores do caos, que o 7 de setembro de 2021 será apenas mais uma data cívica no calendário, ministros do Supremo Tribunal Federal, que gostam de holofotes, vão ficar complexados ao se darem conta de que os brasileiros exigem deles trabalho e não militância política.

Ministros do Supremo Tribunal Federal ganham estratosféricos salários e mordomias inalcançáveis pelo cidadão comum, pagos pelos brasileiros, para trabalhar e não para fazer política.

Só para dar um exemplo: em 2016, segundo dados do próprio STF, cada um dos 11 ministros do Supremo tinha uma média de 222 assessores.

Rapadura doce, não é?

Quem quer fazer política não deve usar toga. Deve habilitar-se nas urnas e usar a tribuna democrática, que é o lugar próprio para arroubos, defesa de ideias e campo para a luta em benefício da sociedade.

Entretanto, o que se pode esperar de ministros do STF que nunca foram magistrados e sequer redigiram uma sentença na vida e estão no topo do Judiciário por serem amigos do rei de plantão que os indicou?

O Brasil precisa prosseguir em sua caminhada, em paz, independentemente da arrogância de alguns poderosos que se elevam acima dos ombros dos demais brasileiros.

Uma das aulas mais memoráveis que tive – e guardei a lição – foi na condição de ginasiano no querido Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de meu belo município baiano de Curaçá.

Dr. Pompílio Possídio Coelho, médico, exemplo de caráter irrepreensível, ex-prefeito do município no período 1967-1971, então professor de Português do Colégio, em aula memorável, transformou em prosa os versos do Hino Nacional.

Foi lá que aprendi, de verdade, que “as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um pouco heroico”.

Continuemos sendo heroicos, apesar do rei e da barriga do rei. E de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal.

Não devemos dar bola para gestos extremados, mesmo que venham de lugares de onde se espera a moderação.  

Que fiquem complexados os que apostam no caos.

Algum rei, nalgum lugar, pode estar grávido de arrogância. Não é bom, nunca será bom.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté, Antonio Paixão e seu tempo

Antônio Ferreira Dantas Paixão/foto álbum de Josias Paixão

“Digo a verdade não tanto quanto sei, mas tanto quanto ouso. E ouso mais à medida que envelheço” (Michael de Montaigne, 1533-1592)

Recolho parte de fragmentos de minha memória esburacada pelo tempo e ouso dizer algumas coisas, embora à semelhança de Montaigne, essas coisas tenham muito de ousadia.

Recolho informações de meus amarelados papéis de arquivo, já conhecidas de todos, de modo que não há novidade nisto que escrevo hoje, mas o cronista às vezes se perde e se acha e se enrola no próprio tempo, eleva-se pretensiosamente à condição de memorialista e, quase sempre, acaba colocando os burros n’água.

Quiçá este seja o meu caso que, reconheço, quase sempre meto o bedelho onde não fui chamado.

Em minha trajetória de vida fui ajudado por algumas pessoas que me são caras até hoje, mesmo que já se tenham ido para a eternidade “antes do combinado”, como diz o caipira paulista.  

Prolegômenos à parte, vou aos fatos. Importam aqui os fatos e não o achismo do escrevinhador.

Década de 1960. Em Patamuté, sertão baiano de Curaçá, Antonio Ferreira Dantas Paixão (1899-1976) e sua esposa Rachel do Carmo Paixão (que me chamava “meu filho”, honra que carrego até hoje) muito me ajudaram no princípio de minha caminhada rumo ao desconhecido.

Sob os auspícios de ambos, que condição eu não tinha, foi-me possível frequentar o curso primário na Escola Estadual de Patamuté, então pertencente ao Departamento de Educação Primária, da Secretaria de Educação da Bahia.

A ordem natural na época, para quem podia estudar fora de Patamuté – e eu não podia –  era alcançar o ginásio e depois o curso clássico ou científico.

O prédio da escola ainda está lá, salvo engano, em ruínas, recusando-se ao desmoronamento completo e ao abandono da história, graças ao descaso de nossas competentes autoridades do estado e do município de Curaçá que o ignoram.

Há quem pondere que o prédio escolar de Patamuté é de responsabilidade do Estado da Bahia e não do município de Curaçá. Este argumento não exclui o dever de zelar por ele, já que o prefeito, qualquer que seja ele e seu partido político, tem atribuições para reivindicar do governo estadual tudo que se faça necessário à população.

Ou, então, se o prefeito do município não souber disto, é caso de pegar o boné e escafeder-se em direção ao ostracismo.

Considerando o estado de abandono do prédio escolar de Patamuté, parece razoável entender que o prefeito de Curaçá não conhece bem o alcance de suas atribuições. Possivelmente o prefeito está confundindo política com politicalha.

Em ciência política e na estrutura de direito do estado, há outras figuras importantes no município: os vereadores, por exemplo. Patamuté está precisando de vereadores. Carece de vereadores. Se os tem, precisam ser cobrados, já que não atuam a contento.

Autoridades eleitas pelo povo que não operam em benefício da população devem ser ignoradas e, na primeira oportunidade, substituídas por outras, nas urnas.

Política é arte, nem todos sabem exercê-la. Mas deixa pra lá.

Volto-me à memória de Antonio Ferreira Dantas Paixão, comerciante e político de Patamuté, que é mais importante neste espaço.

Empreendedor de visão, Antonio Paixão exercia o comércio em Patamuté e instalou uma fábrica de beneficiamento de sisal e caroá na Fazenda Bom Jardim. Lá fundou escola e nomeou professora com destaque para Graziela Ferreira da Silva, baluarte do ensino na localidade e circunvizinhanças.    

Antonio Paixão foi vereador de Curaçá em dois mandatos e chegou a arriscar-se na disputa ao cargo de prefeito do município contra o impoluto Gilberto da Silveira Bahia, que ganhou a eleição e governou no período de 1959-1963.  

Gilberto Bahia capitaneou orgulho e admiração dos curaçaenses e seu legado estende-se até os dias de hoje. Sua linhagem herdou a decência política e o amor a Curaçá.

Homem de caráter irrepreensível e reputação ilibada, Antonio Paixão tinha bons relacionamentos com respeitáveis homens públicos.

Em Curaçá, por exemplo, Antonio Paixão foi aliado de Euvaldo Torres de Aquino e Jayme da Silveira Coelho. Em âmbito estadual, Francisco Waldir Pires de Souza e Oliveira Brito, ícones da decência política na Bahia.

Termino este artigo como comecei. Citando Montaigne: “Digo a verdade não tanto quanto sei, mas tanto quanto ouso. E ouso mais à medida que envelheço”.

araujo-costa@uol.com.br     

O ministro e o padre

Em recente artigo na Folha de S.Paulo, o ministro Ricardo Lewandowiski, do Supremo Tribunal Federal, ao discorrer sobre a crise política e as iminentes manifestações previstas para 7 de setembro vindouro,  acaba alertando sobre a inconveniência da impunidade quanto a eventuais transgressores da ordem constitucional.

Titulo do contundente artigo do supremo ministro: Intervenção armada: crime inafiançável e imprescritível.

Admiro muito o ministro Ricardo Lewandowiski. Foi meu professor na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, quando seus cabelos ainda não tinham sido tingidos pelo tempo e numa época em que o Brasil tinha juízo.

Mestre preocupado com o andar da sociedade e com aquilo que o Direito podia fazer por ela, Lewandowiski brilhava na cátedra e entusiasmava todos nós, seus discípulos. Seus cabelos esvoaçavam à semelhança do poeta baiano Castro Alves.

Qualquer aula de Lewandowiski era memorável, inesquecível, enriquecedora.

Contudo, hoje o ministro Lewandowiski me faz lembrar a história do padre bonito.

Mulheres iam à missa com o intuito de purgar seus pecados, mas quando se deparavam com o padre, diziam que era impossível não continuar pecando, ainda que por pensamento, tamanha a beleza do sacerdote celebrante, já que por palavras e obras não podiam pecar.

O ministro Lewandowiski abomina a impunidade como todos nós, mas  peca, neste particular, pelo apego à teoria e ao excesso de formalismo doutrinário.

Vejamos.

Reiteradas decisões do Supremo Tribunal Federal ou reflexos delas, muitas com o voto de Lewandowiski, mandaram para a rua mais de uma centena de ricos, magnatas e famosos delinquentes que a Lava Jato mandou para os presídios por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outros delitos mais, todos adstritos à dilapidação dos cofres públicos.  

Recente notícia veiculada na imprensa diz que, dos sentenciados pela Lava Lato – cerca de 140 ou perto disto – mesmo considerando os exageros da operação, somente está preso Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro.   

Pergunta-se:

Todos os demais são inocentes ou foram alcançados pela impunidade?

É justa a justiça tardia, quando os crimes já prescreveram?

Deixá-los soltos não é impunidade?

É elementar e óbvio que todos os brasileiros devem respeitar nossas instituições.

Devemos respeito ao Poder Judiciário como um todo e, por extensão, ao Supremo Tribunal Federal e aos seus supremos ministros.

Mas é preciso ponderar, sem excluir a obediência às normas legais e às instituições nacionais que o Brasil construiu.

Em respeito ao Direito e à democracia, não podemos admitir que a impunidade preocupe o insigne magistrado Lewandowiski somente em relação a eventuais manifestantes discordantes nas ruas e, ao contrário, se transforme num manto aconchegante e protetor para amparar ladrões do dinheiro público.

Pecar em razão da beleza do padre, como as beatas, é admissível. Mas pecar por conivência com o mal feito é, no mínimo, trair o Brasil, independentemente das leis.

A moral fala mais alto, não é, ilustre professor Lewandowiski?

araujo-costa@uol.com.br

Lula quer amordaçar a imprensa

“Os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás” (Celso Furtado, 1920-2004)

Em espalhafatosa entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, Lula da Silva desenterrou seu desejo de instituir a censura no Brasil.

A repercussão foi imediata e negativa para Lula, nacionalmente. Vista como sinal de censura à imprensa, a fala do ex-presidente não caiu bem.  

A ideia é sustentada por Franklin Martins, ex-guerrilheiro comunista do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), de extrema-esquerda, que em ação armada com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick em 1969 e provocou um quiproquó danado na ditadura militar.

Exilado, Franklin Martins fez curso de guerrilha rural em Cuba e hoje integra a elite abastada da esquerda do Brasil. É um esquerdista que adora dinheiro público, mas esta é outra história.

Franklin Martins foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do segundo governo Lula entre 2007 e 2010 e agora cuida da comunicação da embrionária e possível candidatura presidencial de Lula em 2022.  

Quando chefe de comunicação do governo Lula, Franklin Martins engendrou um projeto de regulação da imprensa, que não prosperou em razão de pressões contrárias de setores da sociedade.

Mais tarde, D. Dilma Rousseff, sabiamente, desestimulou a desastrada iniciativa do ex-guerrilheiro atabalhoado.

Como se vê, Lula não desistiu do projeto ou não querem que ele desista. O morubixaba petista quer implantar o modelo de Cuba, embora negue.

Em Cuba, que Lula da Silva e os petistas menos moderados se espelham, funciona assim: o Partido Comunista controla os sindicatos, as associações de bairro, as entidades profissionais e artísticas, inclusive teatros, assim como editoras de livros e toda forma de manifestação cultural.

Imprensa livre não existe em Cuba. A imprensa é monopolizada pelo Comitê Central do Partido Comunista e, portanto, a notícia é viciada e publicada de acordo com a vontade dos governantes da Ilha.

Cuba tem uma população de 11 milhões de pessoas. O Partido Comunista tem 700 mil filiados e forma, compulsoriamente, os Comitês de Defesa da Revolução. Esses comitês, são os “olhos e ouvidos da revolução”. Assim dizia o líder Fidel Castro, que foi amigo pessoal de Lula da Silva e seu mentor político.

Os Comitês de Defesa da Revolução vigiam intelectuais e população em geral. Eventuais protestos são punidos com a perda de emprego dos participantes e familiares e com o cancelamento dos restritos direitos civis que ainda restam por lá.

O jornalista Franklin Martins quer que a imprensa do Brasil se transforme numa extensão do Partido Comunista de Cuba e quintal de Lula da Silva e publique somente o que for de interesse dos petistas e de seus seguidores.

Lula da Silva foi claro na entrevista à Rádio Metrópole. Disse textualmente: “Estou conversando com muita gente, ouvindo muito desaforo, leio muito a imprensa e tem setores da imprensa que não querem que eu volte a ser candidato porque, se eu voltar, vou regular os meios de comunicação desse país”.

Daí, não é exagero concluir que, se a imprensa estiver de acordo com ele e apoiar sua candidatura, não será necessária a regulação.

Ato falho ou sincericídio, o fato é que Lula escorregou politicamente.    

Lula de quando em vez dá uma recaída em seu viés autoritário.

É conhecido o episódio de 2004, quando Lula exigiu a expulsão do jornalista americano Larry Rohter, do The New York Times, porque o profissional publicou uma matéria naquele jornal dizendo que o então presidente tem preferência por bebidas alcóolicas, ou seja, gosta de umas canjibrinas, o que passa longe de ser inverdade.

Ao ler a matéria, Lula deu murros na mesa, exigiu a expulsão do jornalista, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu um salvo-conduto para que o profissional americano permanecesse no Brasil e a turma do “deixa disso” convenceu Lula a abandonar a ideia de expulsão.  

O advogado e ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos, teve papel fundamental para debelar a crise de estrelismo do então presidente da República.

Contudo, a rigor, Lula não tem pinta de ditador, não tem jeito de ditador. De vez em quando ele pensa que é Deus, mas depois passa.

Lula gosta mesmo é de lorotas e embromação, sua especialidade. É um sujeito divertido, apaixonado pelo poder.

O estorvo que acompanha Lula é a presença dos radicais do PT ao seu redor, os monstros que ele criou e foram responsáveis pelos seus tropeços morais à frente do governo da República.

Mas Lula não vive sem eles.     

araujo-costa@uol.com.br      

Jânio Quadros, 60 anos da renúncia

Jânio Quadros/Crédito da foto: Jânio Quadros Neto

“A conspiração está em marcha, mas vergar eu não vergo” (Jânio Quadros, 1917-1992)

Dia do soldado, 25.08.1961: Sob a égide da Constituição de 1946 e eleito em votação histórica com 48% dos votos, Jânio da Silva Quadros renunciava à presidência da República, depois de participar da solenidade militar em Brasília.

Assim como hoje, o Brasil estava em crise, experimentando momentos de turbulência política, incompreensão generalizada e incapacidade dos homens públicos de resolverem os problemas nacionais.

Jânio Quadros alegava que o Congresso Nacional e a elite política não o deixavam governar.  

Naquela quadra do tempo – 1961 – a situação era menos grave. O Supremo Tribunal Federal não se imiscuía em política partidária, como hoje, nem se envolvia em assuntos privativos do Legislativo.

Ministros do STF não se reuniam às escondidas com líderes políticos. Os ministros do Supremo Tribunal Federal eram magistrados mesmos, o que conferia grande respeitabilidade ao tribunal e à nobreza da toga.

Mas Jânio preferiu sair.

Conheci Jânio Quadros, frequentei sua casa em São Paulo e fiquei impressionado com sua altivez e firmeza de caráter, qualidades que faltam nos políticos de nosso tempo.

“Não nasci presidente da República. Nasci sim, com a minha consciência. É a esta que devo atender e respeitar”, disse Jânio. E foi embora.

araujo-costa@uol.com.br

Os hipócritas da CPI do Senado

O rabo de palha do senador amazonense Omar Aziz ainda não pegou fogo porque no Amazonas tem muita água.

Presidente da CPI da Pandemia no Senado, Omar Aziz (PSD) arrasta nas costas uma tenebrosa investigação na Polícia Federal por desvio de dinheiro público da saúde, quando governador do Amazonas. 

Três pessoas da família de Omar Aziz, que ele omite, foram presas – e depois soltas – acusadas de participarem do esquema, mas ele escapou do xilindró, por enquanto, porque tem foro privilegiado, o famoso foro por prerrogativa de função. É senador, está acima de qualquer pessoa pobre, por isto, o Poder Judiciário lhe beneficia e o coloca no pedestal.

Alguém duvida que o Supremo Tribunal Federal vá declará-lo inocente?

Outro, que não pode passar perto do fogo é o honestíssimo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Este, petista enrustido, acima de qualquer suspeita e, como Lula da Silva, nascido no município pernambucano de Garanhuns.

O Núcleo de Jornalismo Investigativo da Record TV, tendo à frente o premiado repórter investigativo Tony Chastinet, descobriu algumas façanhas do espevitado senador do Amapá, no mínimo cabeludas, dentre elas, esta: ele recebeu do seu chefe de gabinete no Senado Federal, da mulher deste e do filho, expressiva quantia em dinheiro.

Rachadinha?

Não, que é isto?

O senador Randolfe Rodrigues é honesto. Ele vive condenando a prática de rachadinhas e, convenhamos, não está errado em condenar.

Mas seria Randolfe Rodrigues discípulo do colega senador Flávio Bolsonaro, acusado da prática de rachadinha?

Dentre as façanhas honestas de Randolfe Rodrigues está o fretamento de um avião por R$ 8,9 mil, pago pelo Senado Federal, sábado, 08 de maio de 2021.

A aeronave com capacidade para seis pessoas fez o trajeto ida e volta entre a capital Macapá (AP) e o município de Almeirim, no Pará.

Ocorre que, como se sabe, os senadores não trabalham de sexta a segunda, exceto em situações especialíssimas. E preguiçosos não trabalham, nem em situações especiais.

Logo, Sua Excelência Randolfe Rodrigues não estava a serviço, num sábado, para justificar o fretamento do avião para viagem tão longa com seis pessoas a bordo.

Turismo?

Que é isto? Randolfe Rodrigues é honesto.

Mais: Randolfe Rodrigues, que havia usado verba pública para pagar R$ 561 mil a uma produtora de filmes para fazer sua campanha ao Senado em 2018, agora contratou a mesma produtora para fazer propaganda de sua atuação política e, por esse serviço, pagou R$ 16,3 mil.

Agora em julho de 2021, Randolfe Rodrigues contratou uma empresa de pesquisa para avaliar sua atuação na CPI, por R$ 15 mil, ou seja, para saber como está sua imagem diante dos holofotes.

Quem pagou? O Senado Federal, evidentemente.

Não, não foi o Senado. Fomos nós, pagadores de impostos.

Todavia, tanto Omar Aziz quanto Randolfe Rodrigues são políticos honestos e cuidam bem do dinheiro público, assim como Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI.

Esses são os hipócritas da CPI, que parte de nossa sociedade e da grande imprensa os enaltecem.

Observação 1:

Para quem está lendo a palavra rachadinha pela primeira vez, explica-se como funciona: o político contrata um auxiliar, geralmente com salário alto. Ao receber o pagamento mensal, o auxiliar devolve parte do salário para o político/patrão. Isto é previamente combinado entre eles e há casos em que o contratado não trabalha, mas recebe o salário.

Como se trata de dinheiro público, a prática configura-se delito previsto nas leis penais. 

Observação 2:

A CPI do Senado é necessária e deve investigar e pedir a punição dos envolvidos em falcatruas, seja presidente da República, ministros, auxiliares, etc.

Mas a CPI deve ser composta de senadores de boa reputação, honestos, sem mácula, moralmente irrepreensíveis.

Não é o que se vê na CPI da Pandemia.   

araujo-costa@uol.com.br

Página dispersa de Patamuté

Otaviano Matos Filho/Álbum de família

Palmilhei da juventude à maturidade e, por consequência, à velhice, sempre respeitando os mais velhos e atento aos seus exemplos. Coisa do passado. Hoje não é mais assim.    

E nessa constância, aprendi a admirar algumas pessoas, mormente em minha terra.

Otaviano Matos Filho que, por óbvio, o nome indica, era filho do major Otaviano Ferreira Matos, fez parte de uma estirpe de valor e tradição que se arrastam desde o coronel Galdino Ferreira Matos.

O pai Otaviano Matos, major da Guarda Nacional, uma honraria instituída pelo Império não necessariamente militar e o avô Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté, deixaram os rumos em que se estruturou a construção de sua esteira familiar.

Otaviano Matos Filho foi casado com a professora Ana Mendes Vital Matos que, à semelhança do marido, provém de outra referência de Patamuté, Francisco Ferreira Vital (Chiquinho Vital), senhor culto, atencioso, educado, respeitador, exemplo de caráter.

Guardei seus ensinamentos voltados à moral e aos bons costumes que, confesso, ainda não consegui segui-los à risca.

O esteio familiar de ambos – Otaviano Matos Filho e Ana Mendes Vital Matos – é rico, embora considerações mais detalhadas limitem-se aqui, por conta da ignorância deste escrevinhador. O caminho histórico dessas famílias é rico e brilhante o legado deixado à história de Patamuté.

O que se sabe – e isto é sobejamente conhecido – é que Patamuté foi estruturado também sobre as bases dessas famílias, que acrescentaram, em muito, grandes feitos à história e às tradições do lugar.

Otaviano Matos Filho e seus irmãos, embora de formação urbana, viveram basicamente da pecuária, que se sustentava na tradicional Fazenda Papagaio, nos arredores de Patamuté, hoje uma espécie de relíquia rural ainda em mãos de descendentes da família Matos e Brandão.

Esse registro é fundamental para lastrear a referência aos demais irmãos de Otaviano Matos Filho e situá-los em sua constelação familiar: Cleómenes Brandão Matos (Quezinho), Marieta Matos, Belaniza Matos Torres Leite (Nizinha), Osmário Matos Torres, Adonai Matos Torres, Haidê Matos (Dezinha) e outros que, eventualmente, minha memória não alcança e que, por isto, penitencio-me diante das críticas.

Sustentado no propósito de não mutilar a história de Patamuté – e se instado a fazer por sugestão de algum leitor – o blog acrescentará outros nomes, se aqui omitidos.

Portanto, este blog é receptivo a críticas e sugestões.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, uma cerca no meio da rua

“No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Ao contrário da pedra no caminho do poeta mineiro de Itabira, em Chorrochó, poeticamente, existe uma cerca no meio da rua ou, pelo menos, dizem que existe, se não for ilusão de ótica.

Redes sociais mostraram a rua e a cerca, estrategicamente fincada, à semelhança de um monumento à vida de nosso sofrido agricultor.

Para nós, nordestinos, as cercas dizem muito de nossa vida esturricada e sofrida. Elas nos amparam de muitos transtornos.  

O que não costumávamos era fazer cercas no meio das ruas, em perímetro urbano.

Chorrochó inaugurou esse ineditismo e dizem que a cerca estava lá, até ontem.

Não sei quem chegou primeiro, se a rua ou a cerca, mas o fato é que ambas estão lá e –parece – há moradores da rua que estão incomodados, tanto que alguém foi até um programa de TV e contou a história.

A Rua Aureliano da Costa Andrade, onde dizem que fica a cerca, é um tributo ao primeiro prefeito eleito de Chorrochó, que governou no período de 1955/1959.  

A história registra que Eloy Pacheco de Menezes foi Gestor dos Negócios Municipais, logo depois da emancipação e instalação do município e, portanto, tinha a função de estruturar os serviços municipais, de modo que o primeiro prefeito eleito foi Aureliano da Costa Andrade.

Mas esta é outra história. Assim está registrada.

O fato é que a cerca está lá, disputando galantemente espaço com a rua, pelo menos é o que mostram as imagens que circulam por aí.

Não me atrevo a criticar o alcaide-mor de Chorrochó, neste particular, mesmo porque Sua Excelência deve ter razões plausíveis para manter a cerca ou as posturas municipais assim o permitem.

Se, de fato, a cerca estiver lá – e parece mesmo que está – é porque o prefeito, seu secretário da área e as equipes que os assessoram acham normal e, logo, este humilde escrevinhador não pode achar anormal.

Ou a Prefeitura não tem dinheiro para indenizar o proprietário da cerca e desobstruir a rua.   

Cumbuca esquisita essa. Pode ser um atrativo turístico para Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br