Os “picaretas” que Lula da Silva noticiou

Ganhar R$ 183 mil por mês ou R$ 2,19 milhões por ano – e ficar em casa – até eu que sou besta gostaria.

É esta a quantia que cada deputado federal embolsa, entre salário, verbas de gabinete, cotas, mordomias, passagens áreas, assessores et cetera, segundo dados de 2020, certamente desatualizados.

Mas a desconfiança aumentou quanto à seriedade de Suas Excelências.

A própria Câmara dos Deputados acha que, com a pandemia e os deputados em casa, há assessores votando como se deputados fossem.

Na última quinta-feira aconteceu fato inédito: 504 deputados “compareceram” a 26 votações na Câmara dos Deputados e, mais do que isto, “votaram”.

Pior foi o ineditismo da afronta: das 09:00 h da manhã às 20:00 h, todos esses 504 parlamentares “permaneceram” em plenário, “votando”.

Quanta dedicação à causa do povo!

Excetuadas ocasiões especialíssimas, isto não acontece. Quinta-feira os deputados já estão esvaziando Brasília em revoada para seus estados.

A Folha de S.Paulo fez o registro. Em 25/05/2021, “apesar do quórum de uma das votações totalizar 454 parlamentares, a sala virtual de discussão só tinha 44 participantes, sendo boa parte com o microfone e o vídeo do celular desligados. No plenário físico, havia cerca de 30 parlamentares”.

Os deputados votam pelo celular – ou dizem que votam – onde quer que estejam.

A maracutaia funciona assim: o deputado cadastra o celular no sistema da Câmara, cria uma senha e login e a bagunça está feita.

Basta passar a senha de acesso para os assessores e ir tomar banho de praia ou descansar na chácara com a família e amigos.

Aliás, nem precisa ser assessor. Com os dados de acesso, qualquer um vota.

Há precedentes em 1988 e 1998 envolvendo parlamentares. Deputado e senador votaram no lugar de colegas ausentes.

E o dinheiro cai mensalmente na conta de Suas Excelências.

O povo paga.

Em 1993, quando era presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), num discurso em Ariquemes (RO), Lula da Silva disse que no Congresso Nacional havia pelos menos “300 picaretas”.

Não deve ter mudado muita coisa.

Observação:

Artigo baseado em matéria da Folha de S.Paulo, 14/06/2021, edição impressa, página A4.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: lançamento de livro em Barro Vermelho

No próximo dia 24 de junho de 2021, ápice das comemorações da festa do padroeiro São João Batista, o simpático distrito de Barro Vermelho, no município baiano de Curaçá, viverá outro evento simultâneo que, certamente, muito contribuirá para o enriquecimento da cultura local.

O conspícuo advogado Hélio Coelho Oliveira, que sustenta larga história da cultura regional, lançará o livro Barro Vermelho da minha vida, Juazeiro da minha gratidão.

O lançamento dar-se-á às 14 h, no Prédio Escolar Professora Philadelphia Fonseca Ribeiro, lugar muito caro ao autor do livro.

Em razão da conhecida experiência do autor, vislumbra-se livro de grande valor histórico.

Aliás, Barro Vermelho tem história rica e efervescente. Em 2015, outro curaçaense de boa cepa, o jornalista e pedagogo Maurízio Bim, lançou Barro Vermelho – memória e espaço, monumental livro baseado em alentada pesquisa sobre a formação social, econômica, cultural e política do distrito.

Hélio Coelho Oliveira tem histórico de vida exemplar e transita por diversas áreas com impressionante desenvoltura, dentre essas a seara política. Salvo engano, foi vice-prefeito de Curaçá no período de 1977-1983, eleito na chapa de Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote) do grupo político do líder Theodomiro Mendes da Silva, que também foi prefeito de Curaçá em dois períodos: 1973-1977 e 1983-1998.

Radicado em Juazeiro, lá Hélio Coelho Oliveira foi professor e vice-diretor do Colégio Estadual Rui Barbosa ainda jovem e trilhou os caminhos da vida profissional e cultural, sem abdicar do vínculo telúrico com Barro Vermelho.

Nome de destaque na região, Hélio Coelho Oliveira nunca abandonou suas raízes fincadas em Barro Vermelho e tem sido, com frequência, batalhador atento e incansável pela sedimentação da história do distrito.

Hélio Coelho Oliveira é defensor intransigente dos traços culturais de Barro Vermelho. Exemplifica-se sua participação na fundação do Memorial Filemon Gonçalves Martins, de primordial importância para o lugar.

O maestro Filemon, ícone da Filarmônica 15 de Março, está inserido no contexto cultural de Barro Vermelho na condição de esteio fundamental que alicerça o tempo e a história de seu povo. Daí o interesse de Hélio Coelho Oliveira em tornar evidente esse patrimônio histórico-cultural.

O livro Barro Vermelho da minha vida, Juazeiro da minha gratidão certamente trará grande subsídio para a história de Curaçá e região.

Desejo êxito ao autor . Parabéns para Barro Vermelho.

araujo-costa@uol.com.br  

Chorrochó: a visita da saudade e a crônica de João Marcus

Em 21 de fevereiro último, escrevi neste espaço uma crônica sobre João Bosco de Menezes (Joãozito), de Chorrochó, que tomou o caminho em direção à eternidade.

Há alguns anos, em momento de alegria e de sorrisos, eu escrevia outra crônica, esta em razão do nascimento de João Marcus, neto de Joãozito.

Não sei se Joãozito chegou a ler a crônica de João Marcus.

Reproduzo-a abaixo e dedico à memoria de Joãozito, uma das boas criaturas que conheci na vida.

A saudade hoje me veio visitar. Ela insiste em fazer isto.

Crônica de João Marcus                            

A notícia é alvissareira. João Marcus está chegando em terras da Bahia, com muita pompa e  alegria.

É filho de Pollyanna e Marcus Vinicius. Chorrochó está alegre, a Bahia está alegre, todos os santos da Bahia estão alegres.

Os avós Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e João Bosco de Menezes, Consuelo Correia da Silva e Francisco de Assis Silva, nesta quadra do tempo, já se estão em estado de graça.

É assim que os avós recebem os netos, em êxtase, em estado indecifrável de carinho, flutuando em contentamento, anestesiados de afeto e entusiasmo.

João Marcus, que tem nome expressivo e forte, vai integrar este nosso mundo, que nós, que chegamos primeiro, ainda não conseguimos decifrá-lo.

Mas ele está trazendo a paz de criança, a inocência do nascer e a alegria do encontro familiar, para preencher este vazio tão presente em todos nós, que estamos habituados a nos preocupar somente com coisas de gente grande. E coisas de gente grande precisam de alegria, de bálsamo para amenizá-las.

Eu que tenho a petulância de ser amigo da família de João Marcus e o atrevimento de dizer que sou, estou me sentindo feliz.

Já estou até pensando que o mundo vai ficar melhor com a chegada do João Marcus.

Se o mundo dos outros não ficar, o nosso mundo baiano ficará. Porque nosso mundo não é tão grande assim, que a felicidade não possa preenchê-lo.

É a Bahia, é Chorrochó, são as famílias de lá. Nosso mundo é muito bonito, aconchegante, hospitaleiro, simples, muito simples.

Gostamos de amizades, de amigos, de jogar conversa fora, de saber como os amigos vivem, porque a amizade é como o sândalo, perfuma a vida. E ainda temos um privilégio enorme: somos abençoados por Senhor do Bonfim. 

Como disse outro Marcus (Tullius Cícero), pensador e filósofo, nascido em Roma antes de Cristo, “a vida é um prestígio que Deus nos deu. Plante sua árvore da vida e viverá eternamente”.

Se for assim – e acho que é – Pollyanna e Marcus Vinicius já plantaram a sua árvore. Estão muito prestigiados.

Quero ver o sorriso deste João Marcus e a mudança que ele vai fazer em torno da família. Seja bem vindo, rapaz. Que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe dê amparo em todo o seu viver. 

araujo-costa@uol.com.br    

Post scriptum:

Ainda não vi o sorriso de João Marcus, como desejei na crônica. Imagino suas lágrimas com a perda do avô Joãozito, seu coração apertado com a ausência.

Minha dor é diferente da sua, João Marcus. Mas eu também sinto a falta dele.           

Apostolado da Oração de Chorrochó

Poucas instituições religiosas se mantêm tão firme e perene quanto o Apostolado da Oração.

Movimento eclesial da Igreja Católica Apostólica Romana, o Apostolado da Oração foi fundado pela Companhia de Jesus (padres jesuítas) e remonta à segunda metade do século XIX.

A semente germinou, a árvore cresceu, as flores perduram.

Mater e Magistra, mãe e mestra, a Igreja Católica é essencialmente conservadora e se sustenta em dogmas, segredos e mistérios. Tem uma capacidade exemplar de manter inabaláveis os pilares de suas instituições seculares nas quais os fiéis amparam a fé e seu cajado para orientar o caminho em busca da esperança salvífica.   

Na Paróquia de Senhor do Bonfim de Chorrochó, sertão da Bahia, o Apostolado da Oração atua ativamente através da participação em novenários, procissões, terços, vias-sacras e missas, de modo que estimula a prática de orações e dá vida à comunidade católica.

Além do incentivo à vida espiritual, o Apostolado da Oração cuida das obras de misericórdia, dentre essas, visitas a pessoas idosas e enfermas e atenção especial aos necessitados. Colabora, ademais, com os trabalhos sociais e materiais da paróquia.

A professora Josepha Alventina de Menezes (1893-1987) foi o esteio do Apostolado da Oração de Chorrochó e a ele se dedicou desde 1922. Em razão dessa valiosa e generosa dedicação, foi-lhe concedido o título de presidente emérita da instituição quando, já fragilidade pelo tempo, não mais dispunha de condições para continuar as atividades religiosas.

O Apostolado da Oração é uma das formas que a Igreja encontrou para estar ao lado e junto do povo, mediante a promoção dos valores cristãos.

Em Chorrochó, enriquece-o o Hino do Centenário do Apostolado da Oração de Chorrochó, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes e música de Isael de Jesus.

Ei-lo, para registro e avivamento da memória e das tradições religiosas de Chorrochó:

“Na aridez do Sertão Nordestino

Em Chorrochó um grupo de fé  

Com o amor dos irmãos neste pedaço de chão

Assim nasceu, assim cresceu o Apostolado da Oração

……………………………………………………………………………….

Coração Sagrado de Jesus

Bendito sois Vós glorioso

Sempre força e coragem nos dais

Nosso Deus de clemência e bondoso

……………………………………………………………………………….

Ao longo de nosso Apostolado

Levantamos essa bandeira vibrante

Mostrando as vitórias de 100 anos

Com gestos no puro amor abundante

………………………………………………………………………………..

Vinde a nós Vosso Reino de Glória

Confiantes a Vos esperar

Em Cristo queremos sempre estar

Dai-nos a graça de sempre, de sempre Vos amar.

……………………………………………………………………………….

Como se vê, a Igreja de Chorrochó mantém-se atenta à fé do seu povo e fiel à obra maior de sua mãe e mestra.

araujo-costa@uol.com.br  

Esquerda milionária e fome de poder

“No Brasil existem milionários de esquerda” (Simone de Beauvoir, ativista política, feminista e filósofa existencialista francesa, 1908-1986).

O jornalista Antonio Callado (1917-1997) ao ler a frase de Simone de Beauvoir que, em suas palavras, consta “numa espantada nota de pé de página” da autobiografia da francesa, ponderou:

“Dona Simone não teve foi tempo de ver muitas outras coisas estranhas que existem no Brasil” (Tempo de Arraes, Editora Paz e Terra, 1979).

Este escrevinhador acrescenta: isto porque ela não conheceu os milionários que vieram depois, montados no poder, a exemplo de Lula da Silva, Jaques Wagner (o homem do sofisticado Corredor da Vitória, em Salvador), ambos sindicalistas espertos e mais uma penca de petistas e esquerdistas que se dizem defensores do povo, mas adoram dinheiro público. 

Esquerdista respeitado e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Callado amargou duas prisões na ditadura militar: em 1964 e em 1968, por ocasião do fechamento do Congresso Nacional.

O poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016), outro esquerdista e comunista histórico, que apoiou tenazmente Lula da Silva durante muito tempo – e depois acordou – costumava dizer que “de tanto defenderem os pobres os petistas acabaram ficando ricos”.

Ferreira Gullar, que também pertenceu à Academia Brasileira de Letras, se alongou mais:

“O Lula é a fome do poder. Transparece nele. É a arrogância. Como toda pessoa ignorante, chega a um ponto e não tem autocrítica, não tem medida. Ele disse várias vezes que é o único presidente do Brasil em 500 anos. Porque veio do povo. Do povo vem qualquer coisa” (Entrevista ao Sul21, 26/10/2010).

Há um congestionamento de esquerdistas ávidos por desejos outros que não o bem público. Assim como os hipócritas da direita.

Uns e outros se igualam.

Por isto, Simone de Beauvoir se espantou.

araujo-costa@uol.com.br  

A estranha eficiência do Supremo Tribunal Federal

Em 12/05/2021, a imprensa noticiou fartamente, inclusive os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo que, em delação premiada devidamente homologada pelo Poder Judiciário, o ex-governador fluminense Sérgio Cabral, que está preso, denunciou que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, recebeu R$ 4 milhões pela venda de sentenças e, em consequência, livrou dois prefeitos fluminenses de condenação.

Segundo a Folha de S. Paulo, a suposta negociata teria acontecido quando Dias Toffoli era ministro do Tribunal Superior Eleitoral (2012 a 2016), onde os processos tramitaram.

Acrescente-se que Toffoli também foi presidente da Corte Eleitoral no período de maio de 2014 a maio de 2016.

O dinheiro, segundo o ex-governador Sérgio Cabral, foi operacionalizado pelo à época secretário de Obras do Rio de Janeiro e provinha de valores desviados do governo do estado.  

Bem detalhada, a delação sustentava, ademais, que o supremo ministro Dias Toffoli recebeu a bufunfa por intermédio do escritório de advocacia de sua mulher.

Sérgio Cabral indicou que Dias Toffoli havia proferido decisões condenatórias em dois processos envolvendo prefeitos fluminenses e, em razão do suposto dinheiro recebido, mudou o voto em favor de tais gestores.

Essa delação premiada do ex-governador Sérgio Cabral foi homologada pelo ministro Edson Fachin, colega de Toffoli, em fevereiro de 2020.

Em princípio, supõe-se que a delação estava tecnicamente apta para homologação, tanto que o ministro Fachin o fez.

Em quadro assim, não se vislumbra que um ministro do Supremo Tribunal Federal homologue um documento de tamanha importância sem que se tenha dado ao trabalho de ler.

Como se sabe, delação homologada pelo Judiciário, tem valor probante, excetuadas eventuais reviravoltas durante as confirmações em Juízo.    

Entretanto, no recesso do Judiciário de julho de 2020 e, mais tarde, em setembro de 2020, antes de sair da presidência do STF, Dias Toffoli mandou arquivar e obstou os procedimentos investigatórios decorrentes da delação.

Agora em maio último, a Polícia Federal pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal para investigar Dias Toffoli, tendo em vista a robustez das informações prestadas por Sérgio Cabral que, inclusive, apresentou uma agenda com o registro dos encontros para tratar da suposta negociata.   

O Supremo Tribunal Federal agiu rápido.

Em 27/05/2021, presumivelmente em caráter de urgência, os ministros do STF se reuniram virtualmente e determinaram a anulação da homologação da delação premiada de Sérgio Cabral, que colocava Dias Toffoli em maus lençóis.

Dias Toffoli votou pela anulação da delação e, em consequência, votou a seu favor, que não é de ferro.

E não se fala mais nisto. Onde já se viu acusar ministro do Supremo?

Mesmo assim, ainda há quem diga que o Supremo Tribunal Federal não é eficiente.

Como se vê, o STF é eficientíssimo.

araujo-costa@uol.com.br

O Exército e a imprensa contrariada

Em jornalismo (falo do bom jornalismo, entenda-se bem), a notícia publicada deve se fundamentar nas seguintes perguntas: o quê?  quem? quando? onde? como? por quê?

É a forma segura e correta de publicar a verdade, depois de apurá-la minudente e criteriosamente e não laborar em afirmações vagas tais como “uma fonte me disse”, “conversei com fontes seguras”, “pessoa que me pediu o anonimato”, et cetera.

Evidente que não estou aqui desqualificando as fontes, tão comuns e necessárias ao exercício do jornalismo e, mais do que isto, asseguradas constitucionalmente.

A chamada grande imprensa empanturra-se de comentaristas pífios, despreparados, tendenciosos e ideologicamente comprometidos, de modo que os comentários se sobressaem eivados de inverdades e sem amparo na correção dos fatos.

Esses comentaristas conseguem banalizar as fontes.

O assunto que mais se ouviu nesses últimos dias foi sobre o Exército não ter punido o general Pazuello, ex-ministro da Saúde, em razão de suposta transgressão ao Regulamento Disciplinar do Exército, quando aquele militar da ativa participou de evento político no Rio de Janeiro ao lado do presidente da República.

Os comentaristas embora insistam em dizer que apuraram os fatos, em muitos casos isto não ocorre ou, embora apurados, tais fatos foram ou são distorcidos para ajustarem-se à vontade dos donos dos órgãos de comunicação que fazem oposição ao governo (TV, grandes jornais e seus penduricalhos digitais).

Muitos desses magnatas da comunicação estão contrariados pela forma abrupta com que o governo federal suprimiu a publicidade oficial que antes abarrotava seus cofres. Em contrapartida, falavam bem do governo, qualquer governo.  

Exemplo clássico é o caso das Organizações Globo, que cresceram à sombra das benesses dos governos militares e se transformaram em potência em troca de apoiá-los, de Castello Branco a Figueiredo. A história todos conhecem.  

Ao decidir sobre o arquivamento do processo disciplinar contra o general Pazuello, o comandante do Exército ouviu o Alto Comando da tropa, que se compõe de quinze generais de Exército e ocupam o topo da carreira militar da Força.

O Alto Comando sempre é ouvido em casos de razoável importância.

O Alto Comando do Exército aquiesceu à decisão do comandante do Exército, quanto ao arquivamento do caso Pazuello. Validou, concordou, referendou.

Tendenciosa, em nenhum momento a imprensa disse ou diz com clareza que o Alto Comando do Exército foi ouvido. Mas é seguramente certo que comentaristas e noticiários omitem isto e dizem que o Exército está dividido, assim como Marinha e Aeronáutica.

Apostam no caos.

Outra omissão proposital da grande imprensa, mormente órgãos do Grupo Globo: no sistema presidencialista de governo, o comandante supremo das Forças Armadas é o presidente da República, seja ele Bolsonaro ou outro qualquer, seja de direita, de centro, de esquerda ou de qualquer lado.

A hierarquia e a disciplina são pilares que norteiam e sustentam as Forças Armadas.

É no mínimo desonesto com os leitores e telespectadores dizer que as Forças Armadas estão contra o presidente da República.

Mesmo que estivessem, elas não interferem na cadeia de comando, a partir do presidente, seu comandante em chefe, por conta da obediência aos princípios hierárquicos e disciplinares.

A interferência só se dá em caso de ruptura institucional, leiam-se: golpes de estado, derrubadas de governos ou coisa parecida.

Em qualquer governo, não há unanimidade, seja na sociedade civil ou nos estamentos militares. Isto é elementar e faz parte da democracia.

O militar é cidadão como todos os outros e, isoladamente, pensa como os demais brasileiros. Tem direito de opinar e discordar, dentro dos limites de seus regulamentos.

É uma lástima o Brasil contar com uma imprensa parasita que torce pelo desmoronamento do governo por conveniência econômica e, por consequência, das instituições, sejam militares ou civis, sem nenhum respeito às urnas e à vontade da maioria.

Quaisquer que sejam, governos derrubam-se através das urnas, em eleições livres e não através de conspiração disfarçada de exercício democrático.

Quando a notícia é favorável ao governo, os comentaristas fazem ridículos contorcionismos com o intuito de demonstrarem o contrário e transformá-la e situação diversa e desfavorável.

Militares no governo, em casos isolados, não significa comprometimento político das Forças Armadas com o presidente da República.  

O Exército está onde sempre esteve: nos quartéis.

A imprensa contrariada não sai do mesmo lugar.

araujo-costa@uol.com.br

Retrato em preto e branco

Autor, foto de 1990

Quando eu era mais abestado do que hoje – continuo sendo – candidatei-me a vereador em São Bernardo do Campo.

O Partido da Reconstrução Nacional (PRN), através do qual disputei uma vaga na Câmara Municipal, vivia em estado de euforia coletiva, em razão da filiação do então “caçador de marajás” e candidato à presidência da República, Fernando Collor de Mello, que saiu vitorioso e a história é sobejamente conhecida.

As forças políticas que abrigavam minha candidatura respondiam pelo nome de União Democrática Cristã (UDC), embora de forças nada tivessem, até por uma questão lógica. Se forças fossem, eu teria sido eleito.

Minha pomposa plataforma de campanha cingia-se, basicamente, às seguintes áreas: educação, saúde, habitação e transporte.

Utópico, eu pensava que seria possível consertar o mundo. Melhor, consertar os problemas do mundo de São Bernardo do Campo.

Quanta ingenuidade a minha!

Estamos em 2021. Em São Bernardo do Campo, tudo continua como dantes, com uma diferença abismal: piorou. O município tem 844.483 habitantes, segundo últimos dados disponíveis. Imagine o tamanho dos problemas.

Abandonei a política e os pilantras da política, logo depois da abertura das urnas, porque o dinheiro destinado à minha candidatura nunca chegou ao meu comitê e eu fiquei, com cara de galo, fazendo das tripas coração para sustentar minha campanha até chegar às urnas.

Pressuponho que o dinheiro tenha ancorado no bolso dos espertos, como ainda hoje acontece. E pressuposto é pressuposto, nada mais do que isto.

Embora estreante, tive boa votação, mas insuficiente para conquistar uma vaga na Câmara Municipal.

Quando me lembro de minha derrota nas urnas, sempre recordo que, em 2016, o Partido dos Trabalhadores (PT) não conseguiu reeleger vereador o filho de Lula da Silva, que ocupava uma cadeira no Legislativo de São Bernardo do Campo.

O caso dele foi pior. O pai tinha sido presidente da República.   

O escritor Ernest Hemingway (1899-1961), autor do clássico Por quem os sinos dobram, dizia que “a luta pela sobrevivência confronta com os limites humanos”.

A luta pela sobrevivência política tem outro nome: safadeza. Independentemente dos limites humanos.

Os políticos no Brasil lutam pela sobrevivência de seus próprios bolsos e dane-se o povo, danem-se as necessidades do povo, dane-se a miséria do povo.

Como não sou disto, nem concordo com isto, peguei meu boné de baiano e escafedi-me em direção à luta honesta da vida.

Esta, sim, tem bons resultados, mesmo que nunca alcancemos a vitória.

araujo-costa@uol.com.br

Otto Alencar e o esgoto político

“Cada homem tem direito a seu caminho. Mas há duas veredas políticas: a que leva ao cofre e a que leva à luta de cada tempo” (Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, jornalista e escritor)

O senador Otto Alencar (PSD-BA), membro da CPI da Covid-19, protagonizou cenas de explícita deselegância ao questionar a médica oncologista Nise Yamaguchi, testemunha ouvida na aludida comissão.

Já demonstrando visíveis sinais de senilidade, o que não é nenhum demérito, mas a soma de janeiros, melhor, de agostos (ele nasceu no mês de agosto), Otto Alencar insistiu no sentido de que a médica lhe explicasse, didaticamente, tecnicamente, a diferença entre protozoário e vírus.

Para a CPI, que está investigando omissão e negligência do governo federal quanto ao combate à pandemia, saber da diferença entre protozoário e vírus tem tanta importância quanto ejaculação precoce.

Otto Alencar protagonizou um espetáculo pífio, imbecil, deplorável.

Adolescentes discutindo matéria de prova seriam mais competentes.

Médico, professor e católico, talvez o senador Otto tenha-se esquecido das mínimas regras de educação e civilidade, tamanhos os inoportuníssimos questionamentos.

Quiçá, também tenha se esquecido, na condição de católico, do preceito bíblico segundo o qual os humildes serão exaltados. A humildade da médica foi impressionante.

O senil senador impôs uma acachapante humilhação à médica, espetáculo que somente o diminui, porquanto sem nenhuma necessidade de fazê-lo, constrangendo-a diante das câmeras.

Otto Alencar apequenou-se, desceu ao esgoto da política.

Não é novidade. Otto Alencar não tem ideias. Nunca teve.

Em sua carreira política, pulou de partido em partido, sem nenhum pudor. Esgueirou-se do Partido Democrático Social (PDS), sustentáculo da ditadura militar, passando por PTB, PL, PFL, DEM, PP e hoje se encostou ao PSD de Gilberto Kassab, até aparecer outro que lhe estale os dedos.

De filhote da ditadura passou a aliado da esquerda petista. A rigor, sua vida partidária meneia de acordo com a conveniência de momento.   

Otto Alencar beberou nos cofres da Bahia e o faz até hoje. É contumaz sugador das benesses do poder.

Em 2002, assumiu a governadoria, em razão da saída do titular César Borges, que renunciou para disputar o Senado, de acordo com a legislação. Exerceu o cargo de governador da Bahia de abril a dezembro de 2002.

Daí, nunca mais largou a rapadura. Foi secretário de Estado duas vezes e até arrumou uma boca de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Otto Alencar também.

Elegeu-se vice de Jaques Wagner (PT) em 2010 e, ato contínuo, assumiu a Secretaria Estadual de Infraestrutura nela permanecendo até 2014.

Otto Alencar não representa bem a Bahia e isto ficou bem claro na sessão da CPI da Covid-19 de 01/06/2021.

Elevar-se arrogantemente acima dos ombros do semelhante não é mérito, mas pequenez de caráter.

Falta-lhe a elegância, a sensatez e a estrutura que se espera de um senador da República sério, impoluto e, sobretudo, educado em relação às mulheres, o que ele não foi.

Otto Alencar espezinhou a mulher, a médica, a profissional, humilhando-a em público.

A garbosa Bahia de Ruy Barbosa, que já foi tão bem representada no Senado da República por Heitor Dias, Otávio Mangabeira, Luís Viana Filho, Josaphá Marinho, Juracy Magalhães, Landulfo Alves, Pinto Aleixo, Aloísio de Carvalho Filho e tantos outros, hoje se vê tristemente representada por Otto Alencar.

Contudo, as urnas erram, mas a democracia ainda é o melhor dos regimes políticos.

araujo-costa@uol.com.br

Caraíbas, Oscar Araújo Costa e seu legado político

Marina Araújo – álbum de família.

Durante algumas décadas, a essência do engendramento político do município de Chorrochó passou, necessariamente, pela família de Oscar Araújo Costa e ramificações dela decorrentes.

Oscar foi o esteio, a estrutura, o início do caminhar, o olhar para a distância.

Líder em Caraíbas e circunvizinhança, Oscar Araújo Costa era casado com a elegante e altiva Umbelina Miranda de Araújo, mais conhecida como D. Bela, que com ela construiu base familiar e política sólida e respeitável.

A liderança política de Oscar foi-se transferindo paulatinamente para o filho José Juvenal de Araújo, cuja história de vida e dedicação à causa do município de Chorrochó é sobejamente conhecida e não comporta nenhum acréscimo.

O livro História de Chorrochó, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e do Dr. Francisco Afonso de Menezes traz merecida homenagem ao grande líder popular e ex-prefeito José Juvenal, falecido em 2015.

Noutro livro, Dorotheu: caminhos, lutas e esperanças, de autoria deste escrevinhador, deixei lançado o registro: à semelhança de Oscar, José Juvenal tinha qualidade inquestionável de lidar com aliados e adversários e isto lhe sustentou politicamente durante muito tempo.   

Com a morte de José Juvenal, que deixou uma rica e inquestionável estrutura política e eleitoral, é inevitável constatar que sua liderança foi-se transferindo para os filhos Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que foi vice-prefeita – e, salvo engano, integra o secretariado municipal de Chorrochó – e o irmão Oscar Araújo Costa Neto.

Sheila e Oscar Neto continuam ostentando razoável influência na atual administração do prefeito Humberto Gomes Ramos que, se tiver juízo, os manterá ao seu lado, até por gratidão.      

Contudo, vale destacar que a família Araújo sempre teve, em seus quadros, outra liderança respeitável, embora se tenha mantido discreta e modesta: Marina Maria de Araújo Menezes.

Marina foi casada com o serventuário da Justiça da Bahia, José Eudes de Menezes, lídimo integrante dos Menezes de Chorrochó, homem de caráter irrepreensível, insuspeito defensor da moral e dos bons costumes chorrochoenses, herança do pai Eloy Pacheco de Menezes.

Abro parêntese, para registrar, com orgulho, que fui amigo de José Eudes de Menezes (Iê). Muito aprendi com ele, que me habilitou a enfrentar as peripécias da vida, que entendia muito bem. Emociona-me lembrar de nossa convivência.

Marina sempre teve grande participação na vida local, na condição de professora e coordenadora das escolas do município, assim como na condição inconteste de defensora da cultura do município de Chorrochó.       

Neste contexto, Marina Maria Araújo Menezes participou, com muito empenho, de importantes eventos do município, que se firmaram no calendário local.

A organização inicial da festa dos vaqueiros, que hoje é tradição, teve sua decidida contribuição, assim como melhorias no sistema educacional à época atrelado a formas antigas de ensino.

A história de Chorrochó contou com sua participação decisiva na idealização da Bandeira do Município, o que fez na condição de Coordenadora Municipal de Educação, cargo que exercia à época.

Marina determinou a confecção da Bandeira, o que não é pouco no cenário cultural de Chorrochó. Decisão perene, culturalmente enraizada na defesa das tradições locais.

Marina Araújo sempre atuou politicamente ao lado de José Juvenal, com admirável fidelidade à liderança do irmão e, em certas situações, serviu como ponto de apoio diante da iminente tendência da família em dividir-se politicamente, aparando arestas desnecessárias.

Sua sábia atuação evitou que se alterassem a coesão, o entendimento e o espírito de civilidade entre os familiares em determinado momento político de Chorrochó.

Com o desaparecimento de alguns membros da família Araújo, inclusive Maria Pequena e José Juvenal, Marina Araújo despontou como uma liderança natural nos próximos movimentos políticos chorrochoenses e, como tal, será capaz de somar com as novas lideranças, como por exemplo, Adriana Araújo, a ex-vereadora Rafaela Araújo, os filhos de José Juvenal, ambos admiravelmente presentes e atuantes na vida do município.
                      
O fato é que Caraíbas se mantém na política de Chorrochó através da família Araújo, não obstante a liderança inconteste de Barra do Tarrachil. Marina Maria de Araújo Menezes faz parte desta espinha sobre a qual devem se firmar as decisões políticas.

Doravante, sem nenhuma sombra de dúvida, ela será ouvida, consultada e respeitada tanto em anos eleitorais quanto fora deles e passa a ocupar uma espécie de matriarcado importantíssimo na vida política de Chorrochó. 

Nas futuras eleições municipais, certamente Marina Araújo será obrigatoriamente consultada por todos os interessados em construir o xadrez político de Chorrochó.  

Como se vê, o legado deixado por Oscar Araújo Costa se estendeu à história de Chorrochó como um todo.

Difícil apagar a marca e a estrutura política familiar de Oscar Araújo Costa.

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