Juazeirense Luiz Galvão lança livro sobre João Gilberto

Luiz Galvão, baiano de Juazeiro, amigo de João Gilberto e integrante dos Novos Baianos, lançou o livro João Gilberto, A Bossa.

Conhecedor abalizado de João Gilberto, de quem era amigo desde a juventude em Juazeiro, Luiz Galvão mostra outro lado do criador da Bossa Nova: “boêmio, divertido, generoso, simpático, brincalhão”, segundo relato do jornalista Thales de Menezes que classificou o livro como “obra íntima” (Ilustrada, Folha de S.Paulo, 25/06/2021).

O mistério faz parte da construção dos mitos ou, no mínimo, dá-lhes razões para crescerem à sombra das idiossincrasias nem sempre explicáveis.

Assim, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), ou simplesmente João Gilberto, um desses mitos construídos a partir de Juazeiro, sua cidade natal.

João Gilberto abeberou-se na cultura de Barro Vermelho, sertão de Curaçá, onde o pai Juveniano Domingos mantinha raízes culturais e nos encantos ribeirinhos do Rio São Francisco. De lá saiu para o mundo.

Esculpiu um temperamento difícil, solitário, avesso a badalações.

A fama o protegeu das vulgaridades e não lhe permitiu o apego aos holofotes. Fez o caminho inverso daquele seguido pelas celebridades ligadas à música. 

Muito já se escreveu sobre suas manias e esquisitices. São muitas, inumeráveis, algumas delas fazem parte do mito, viraram lendas.

O experiente jornalista Ricardo Noblat conta uma. Entrevista previamente marcada, o repórter ligou o gravador, para começar a conversa. João Gilberto pergunta: “Vai ligar o gravador? Olhe, não ligue, não. Eu mudo muito de ideia. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”.

A cantora Joyce, conta outra no livro Aquelas Coisas Todas.

Joyce chegou ao apartamento de João Gilberto, em Nova York e o anfitrião pediu sanduíches. Ao abrir as embalagens, Joyce notou que faltava um garfo. João resolveu a situação: “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”.  

Rua Góes Calmon. Há alguns anos, eu conversava amenidades na calçada da Sociedade Apolo Juazeirense, uma das instituições tradicionais de Juazeiro, que não sei se ainda existe e se o endereço continua o mesmo.

O assunto resvalou para João Gilberto.

Lá para as tantas, meu interlocutor ponderou que João Gilberto não visitava Juazeiro porque tinha vergonha dos alagadiços e esgotos da cidade. Maldade. João Gilberto adorava Juazeiro e dizem que até visitava a cidade humildemente, sem estardalhaço.

Já naquele tempo – década de 1970 – os prefeitos Joca de Souza Oliveira e Américo Tanuri prometiam resolver o problema dos pântanos e esgotos a céu aberto existentes em Juazeiro e João Gilberto nunca teve nada com isto. Os administradores subsequentes devem ter resolvido o problema. Certamente resolveram.

Talvez os esgotos nem fizessem mais parte de suas lembranças da infância vivida por lá na década de 1940. Mas Juazeiro gosta muito dele. É uma honra para o lugar. O Centro de Cultura João Gilberto está aí para atestar o amor de seu povo pelo filho ilustre.   

João Gilberto mantinha uma vida misteriosa. Vivia em reclusão voluntária.

Vizinhos de seu apartamento carioca no Leblon sempre disseram que nunca o viram e que não atendia a porta.

Sabe-se que trabalhava à noite e dormia durante o dia, normalmente até às 17:00h. Pedia as refeições por telefone e os entregadores nunca ultrapassaram a soleira da porta. Não recebia visitas, exceto familiares e um restrito número de profissionais ligados ao seu trabalho.

Perfeccionista, misterioso, detalhista, dedicava-se solitariamente à música.

Como todo mito, ninguém o via, ninguém o tocava, ninguém o conhecia de perto.

Deixou a vida e seus mistérios em 2019.

Agora o livro de Luiz Galvão espalha luz sobre os mistérios de João Gilberto que, ainda segundo Thales de Menezes, “é o retrato mais abrangente do gênio”.

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O que Otto Alencar não diz

Aficionado por protozoários, embora médico ortopedista, o senador Otto Alencar (PSD-BA) tem feito tudo para aparecer na CPI do Senado Federal, de olho na candidatura ao governo da Bahia em 2022.

Os holofotes estão fazendo bem ao admirador de protozoários.

Inquisidor espalhafatoso, todo depoente que vai à CPI do Senado é questionado pelo senador baiano como se fosse delinquente. Ele não pergunta, acusa.

É a inversão do dever de inquirir. Acusar, não perguntar.

Otto Alencar não conhece o benefício da dúvida, ou seja, a inexistência da certeza de culpabilidade. Para o senador baiano, qualquer depoente que senta na cadeira da CPI do Senado é presumivelmente criminoso.

Mas o passado do senador baiano não é lá muito puro, nem inquestionável.

Hoje, uma filha de Otto Alencar trabalha no Tribunal de Contas do Estado da Bahia, apadrinhada por Gildásio Penedo Cavalcanti de Albuquerque Filho, ex-deputado estadual pelo PFL e DEM e presidente do Tribunal, que foi filiado ao PSD, partido de Otto Alencar.

Gildásio Penedo é casado com Roberta Alencar de Santana Penedo, sobrinha de Otto Alencar.

Se não for nepotismo – e não deve ser, tratando-se de um Tribunal de Contas sério – é, no mínimo imoral, este apadrinhamento esdrúxulo.

No exíguo período em que foi governador da Bahia, Otto Alencar enfrentou dois episódios que lhe deixaram algumas marcas em sua vida política que ele parece ter esquecido ou finge esquecer.

Otto Alencar foi acusado de patrocinar e/ou acobertar escutas ilegais de adversários políticos, o chamado “escândalo dos grampos”, supostamente a mando do poderoso Antonio Carlos Magalhães (ACM), a maior liderança política que a Bahia já teve.

A Assembleia Legislativa criou uma CPI para investigar o caso, mas Otto Alencar safou-se dela, em razão de maioria que contava a seu favor no Legislativo baiano, lastreada no poder e influência de Antonio Carlos Magalhães a quem Otto Alencar estava pendurado à semelhança de um carrapato.

Ato contínuo, sobreveio o rumoroso caso da EBAL-Empresa Baiana de Alimentos, responsável por uma rede de supermercados públicos. Novamente criou-se uma CPI para investigar suposto rombo apontado no orçamento da empresa estatal.

Mais uma vez, a rede de apoio político de Otto Alencar impediu que ele comparecesse à CPI para depor.

Em 2018, salvo engano, a EBAL foi privatizada, vendida para um grupo espanhol com base em São Paulo e com ela foram-se as Cestas do Povo tão fundamentais para os baianos.

Em 2014, Otto Alencar foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, com base em propaganda antecipada feita em Ruy Barbosa, sua cidade natal, por ter distribuído adesivos e pintado muro noticiando sua candidatura, sem amparo na legislação eleitoral.

Pelo que se vê, tirante o serviço voluntário que Otto Alencar prestou às Obras Sociais Irmã Dulce – e neste ponto ele merece ser elogiado – seu passado não parece tão irrepreensível assim, a ponto de habilitá-lo como feroz acusador de depoentes da CPI do Senado Federal.

Todavia, diz a lenda que Otto Alencar tem uma rede de amigos prefeitos, ex-prefeitos e membros de Câmaras Municipais nos 417 municípios baianos, em razão de ter sido conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios durante seis anos. Mas esta é outra história que não vem ao caso.

Arrogante e inconveniente, Otto Alencar se acha a última bolacha do pacote na CPI do Senado. O diabo é se os eleitores baianos descobrirem que a bolacha pode estar estragada e não faz bem.

Como diz o ditado, “humildade e caldo de galinha não faz mal a ninguém”.

O retrovisor do senador Otto Alencar deve estar quebrado. Ele não consegue ver seu passado nebuloso.

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Lamartine e uma página dispersa de Chorrochó

Lamartine/Álbum de família

“Para onde foi o tempo?” (Nietzsche, filósofo prussiano, 1844-1900)

Recolho do tempo e da saudade a lembrança de Francisco Lamartine de Menezes.

Guardo o envelope amarelado pelo tempo e a tristeza do conteúdo.

Naquele tempo – 1997 – ainda se escreviam cartas aos amigos, parentes, aderentes e conhecidos. Hoje, não mais. O progresso e as coisas modernas tolheram as formas de sustentar as amizades, cultivar as lembranças.

A douta professora Maria Rita da Luz Menezes dava-me a notícia do falecimento do esposo Francisco Lamartine de Menezes.

A saudade e a lembrança cutucam, fragilizam os momentos, tingem as páginas do tempo e nos dão a medida de nossa pequenez diante da vida e da morte.

Ilustre professor de Chorrochó, Lamartine nasceu em 12/08/1931 e faleceu em 30/03/1997.

Já se vão, por aí, mais de 26 anos de sua morte. Mais apropriado, diria, 26 anos de seu adeus. A morte é vida, para São Francisco de Assis: “é morrendo que se vive para a vida eterna”.   

Lamartine deixou Maria Rita da Luz Menezes com quem constituiu família exemplar, que sustenta suas raízes, como convém às proles bem estruturadas na educação e na firmeza de caráter.

Filhos de Da Luz e Lamartine: Paulo José de Menezes, Geraldo Robério de Menezes, Humberto Antonio Pacheco de Menezes, Thereza Helena Cordeiro de Menezes e Ivana Lúcia Menezes de Menezes.   

Faço o registro – e antes já havia feito – com o intuito de contribuir para a perpetuação de sua memória, porque “as peças que faltam à memória deixam buracos nos céus, hiatos nas águas e rombos nos sorrisos”, como disse o escritor mineiro Pedro Nava.

Lamartine tinha um fascínio que se compunha num quê de seriedade diante de todos nós que o admirávamos.

Passos largos, como se em direção aos desafios da vida, às vezes introspectivo, sorriso contido e presença marcante, sempre.

Respeitoso e respeitador, demonstrava impressionante segurança no que dizia e acreditava. Contundente na defesa de suas ideias, firme em suas opiniões.

Guardo boas lembranças de Lamartine.

“Para onde foi o tempo?” – perguntava o filósofo.

Não sabemos. Lamartine certamente não sabia.

Sabíamos – nós e ele – sobre a efemeridade da vida. E só.

Post scriptum:

Publicada em 22/06/2021, esta crônica foi atualizada.

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Polícia Federal, eficiente e respeitada

Nova sede da Polícia Federal em Brasília/foto O Estado de S.Paulo

A Polícia Federal do Brasil, uma das mais bem preparadas do mundo, mudará de endereço.

A sede, em Brasília, ocupará três torres na Avenida W3 Norte, com oito elevadores, 518 vagas privativas de garagem, auditório e restaurante, dentre outras mordomias como, por exemplo, academia de ginástica e gabinetes espaçosos e confortáveis.

Custo da luxuosa sede: R$ 1,2 milhão de aluguel mensal, mais R$ 243 mil de condomínio. Área total, 15,6 mil metros quadrados.

Só em fornos de micro-ondas, a Política Federal vai gastar R$ 10,4 mil e R$ 31,2 mil em novos eletrodomésticos.

Pelo menos 1,5 mil servidores se mudarão da antiga sede para o novo e luxuoso conjunto arquitetônico.

A estrutura da Polícia Federal é fantástica. Fantásticos também são seus servidores, preparados nas melhores academias policiais e que enfrentam o arcabouço criminal instalado pela corrupção do Brasil, dentre outras atribuições, tais como combate ao tráfico internacional de drogas, crimes correlatos e vigilância das fonteiras.

Partindo desse pressuposto, essa estrutura não é cara ao País, tendo em vista, ainda, o papel primordial que a Polícia Federal desempenha em benefício dos brasileiros.

Cara é a estrutura do Poder Judiciário para, muitas vezes e quase sempre, desfazer juridicamente o esforço de valorosos policiais federais que investigam a corrupção já antevendo a impunidade dos corruptos.

Não é preciso ir muito longe. As constantes absolvições de políticos corruptos com foro privilegiado, pelo Poder Judiciário, estão aí claras e vergonhosas, assim como o agigantamento do corporativismo judicial que envergonha o Brasil.

No Brasil, o crime ainda compensa, sempre compensou, mormente se cometido por poderosos de alto costado.

Advogados de políticos ricos, por exemplo, têm acesso aos gabinetes de magistrados a qualquer dia e hora, sem agendamento e participam de regabofes com Suas Excelências, regados a bebidas caras, que a fama abastece suas adegas.

Advogados de pobres amargam esperas crudelíssimas em salas contíguas aos gabinetes de magistrados arrogantes. Nem sempre são atendidos por Suas Excelências, intocáveis e inatingíveis.

O tratamento é desigual. O defensor é visto consoante a conta bancária de seu cliente.

Contudo – ou, mesmo por isso – a Polícia Federal é fundamental e é uma instituição ainda respeitada pela sociedade.

araujo-costa@uol.com.br  

A corcunda do senador

Antes que o sol de outono me surpreendesse, ainda madrugada, alcancei o amigo por telefone, sonolento, mas receptivo.

Quase não durmo à noite. Insônia que carrego como companheira desde a juventude.  

Como se vê, não é só petista que tem “companheiro e companheira”, eu também tenho, a insônia.

Dado o horário inconveniente, o amigo me ouviu mais receptivo do que eu esperava e foi logo dizendo: “eu ia ligar mesmo pra você, mas esta é hora?”.

À noite anterior, ao assistir ao noticiário, ele descobriu que o senador Renan Calheiros (MDB-AL) é honesto.

Dizia ele que não há dúvida quanto à honestidade do senador, tamanhos os elogios que a GloboNews e seus comentaristas fazem ao excelentíssimo político alagoano, relator da CPI dos imorais que, vira e mexe, ameaça de prisão atônitos depoentes da comissão.

Confortavelmente acomodado na poltrona da CPI, Renan Calheiros se acha o suprassumo da intocabilidade e promete prender testemunhas como se fosse o cidadão mais correto do Brasil.

Também não duvido da honestidade de Sua Excelência, mas a impressão que tenho é que a corcunda dele já se enverga com o peso dos inquéritos cabeludos e investigações, todos envolvendo rapina de dinheiro público.

E dai? O homem pode ser honesto.

Para atestar a honestidade do senador alagoano é muito simples. Basta que o Supremo Tribunal Federal anule os inquéritos contra Renan Calheiros, que tramitam na Corte, assim como anulou a delação premiada do ex-governador fluminense Sérgio Cabral, que noticiou que o ministro petista Dias Tóffoli recebeu propina de R$ 4 milhões numa complicada e suposta venda de sentença para beneficiar prefeitos fluminenses.

O Supremo Tribunal Federal tem mais o que fazer do que se preocupar com inquéritos de Renan Calheiros. Ocupa-se em absolver corruptos de bolsos abarrotados e a condenar pobres miseráveis de bolsos vazios.

Voltando às madrugadas, um conterrâneo, militar da Força Aérea Brasileira, que morava no Rio de Janeiro, membro da distinta família de Macário Alves, de Patamuté, telefonou-me alta madrugada num dia qualquer da década de 1980 e foi logo dizendo: “eu gosto de misturar alhos com bugalhos” e deitou falação sobre nossa cultura e costumes nordestinos, de maneira que, de fato, conversamos muito sobre alhos e bugalhos e nada sobre coisas importantes, como aliás, acontece em toda conversa entre amigos.

Hoje recorri ao amigo Agamenon Fonseca dos Santos, em Patamuté, irmão do dito conterrâneo, para lembrar-me o nome do notívago militar João Batista.

Minha memória esburacada e a passagem do tempo me permitiram que eu cometesse a gafe de não lembrar o nome de uma pessoa que me telefonou algumas vezes para falarmos de nossa terra.

Quanto ao senador Renan Calheiros e outros “honestos” da CPI dos imorais, Suas Excelências precisam cuidar bem de suas corcundas.

Elas podem não aguentar o peso das maracutaias que aprontam.

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Os “picaretas” que Lula da Silva noticiou

Ganhar R$ 183 mil por mês ou R$ 2,19 milhões por ano – e ficar em casa – até eu que sou besta gostaria.

É esta a quantia que cada deputado federal embolsa, entre salário, verbas de gabinete, cotas, mordomias, passagens áreas, assessores et cetera, segundo dados de 2020, certamente desatualizados.

Mas a desconfiança aumentou quanto à seriedade de Suas Excelências.

A própria Câmara dos Deputados acha que, com a pandemia e os deputados em casa, há assessores votando como se deputados fossem.

Na última quinta-feira aconteceu fato inédito: 504 deputados “compareceram” a 26 votações na Câmara dos Deputados e, mais do que isto, “votaram”.

Pior foi o ineditismo da afronta: das 09:00 h da manhã às 20:00 h, todos esses 504 parlamentares “permaneceram” em plenário, “votando”.

Quanta dedicação à causa do povo!

Excetuadas ocasiões especialíssimas, isto não acontece. Quinta-feira os deputados já estão esvaziando Brasília em revoada para seus estados.

A Folha de S.Paulo fez o registro. Em 25/05/2021, “apesar do quórum de uma das votações totalizar 454 parlamentares, a sala virtual de discussão só tinha 44 participantes, sendo boa parte com o microfone e o vídeo do celular desligados. No plenário físico, havia cerca de 30 parlamentares”.

Os deputados votam pelo celular – ou dizem que votam – onde quer que estejam.

A maracutaia funciona assim: o deputado cadastra o celular no sistema da Câmara, cria uma senha e login e a bagunça está feita.

Basta passar a senha de acesso para os assessores e ir tomar banho de praia ou descansar na chácara com a família e amigos.

Aliás, nem precisa ser assessor. Com os dados de acesso, qualquer um vota.

Há precedentes em 1988 e 1998 envolvendo parlamentares. Deputado e senador votaram no lugar de colegas ausentes.

E o dinheiro cai mensalmente na conta de Suas Excelências.

O povo paga.

Em 1993, quando era presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), num discurso em Ariquemes (RO), Lula da Silva disse que no Congresso Nacional havia pelos menos “300 picaretas”.

Não deve ter mudado muita coisa.

Observação:

Artigo baseado em matéria da Folha de S.Paulo, 14/06/2021, edição impressa, página A4.

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Curaçá: lançamento de livro em Barro Vermelho

No próximo dia 24 de junho de 2021, ápice das comemorações da festa do padroeiro São João Batista, o simpático distrito de Barro Vermelho, no município baiano de Curaçá, viverá outro evento simultâneo que, certamente, muito contribuirá para o enriquecimento da cultura local.

O conspícuo advogado Hélio Coelho Oliveira, que sustenta larga história da cultura regional, lançará o livro Barro Vermelho da minha vida, Juazeiro da minha gratidão.

O lançamento dar-se-á às 14 h, no Prédio Escolar Professora Philadelphia Fonseca Ribeiro, lugar muito caro ao autor do livro.

Em razão da conhecida experiência do autor, vislumbra-se livro de grande valor histórico.

Aliás, Barro Vermelho tem história rica e efervescente. Em 2015, outro curaçaense de boa cepa, o jornalista e pedagogo Maurízio Bim, lançou Barro Vermelho – memória e espaço, monumental livro baseado em alentada pesquisa sobre a formação social, econômica, cultural e política do distrito.

Hélio Coelho Oliveira tem histórico de vida exemplar e transita por diversas áreas com impressionante desenvoltura, dentre essas a seara política. Salvo engano, foi vice-prefeito de Curaçá no período de 1977-1983, eleito na chapa de Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote) do grupo político do líder Theodomiro Mendes da Silva, que também foi prefeito de Curaçá em dois períodos: 1973-1977 e 1983-1998.

Radicado em Juazeiro, lá Hélio Coelho Oliveira foi professor e vice-diretor do Colégio Estadual Rui Barbosa ainda jovem e trilhou os caminhos da vida profissional e cultural, sem abdicar do vínculo telúrico com Barro Vermelho.

Nome de destaque na região, Hélio Coelho Oliveira nunca abandonou suas raízes fincadas em Barro Vermelho e tem sido, com frequência, batalhador atento e incansável pela sedimentação da história do distrito.

Hélio Coelho Oliveira é defensor intransigente dos traços culturais de Barro Vermelho. Exemplifica-se sua participação na fundação do Memorial Filemon Gonçalves Martins, de primordial importância para o lugar.

O maestro Filemon, ícone da Filarmônica 15 de Março, está inserido no contexto cultural de Barro Vermelho na condição de esteio fundamental que alicerça o tempo e a história de seu povo. Daí o interesse de Hélio Coelho Oliveira em tornar evidente esse patrimônio histórico-cultural.

O livro Barro Vermelho da minha vida, Juazeiro da minha gratidão certamente trará grande subsídio para a história de Curaçá e região.

Desejo êxito ao autor . Parabéns para Barro Vermelho.

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Chorrochó: a visita da saudade e a crônica de João Marcus

Em 21 de fevereiro último, escrevi neste espaço uma crônica sobre João Bosco de Menezes (Joãozito), de Chorrochó, que tomou o caminho em direção à eternidade.

Há alguns anos, em momento de alegria e de sorrisos, eu escrevia outra crônica, esta em razão do nascimento de João Marcus, neto de Joãozito.

Não sei se Joãozito chegou a ler a crônica de João Marcus.

Reproduzo-a abaixo e dedico à memoria de Joãozito, uma das boas criaturas que conheci na vida.

A saudade hoje me veio visitar. Ela insiste em fazer isto.

Crônica de João Marcus                            

A notícia é alvissareira. João Marcus está chegando em terras da Bahia, com muita pompa e  alegria.

É filho de Pollyanna e Marcus Vinicius. Chorrochó está alegre, a Bahia está alegre, todos os santos da Bahia estão alegres.

Os avós Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e João Bosco de Menezes, Consuelo Correia da Silva e Francisco de Assis Silva, nesta quadra do tempo, já se estão em estado de graça.

É assim que os avós recebem os netos, em êxtase, em estado indecifrável de carinho, flutuando em contentamento, anestesiados de afeto e entusiasmo.

João Marcus, que tem nome expressivo e forte, vai integrar este nosso mundo, que nós, que chegamos primeiro, ainda não conseguimos decifrá-lo.

Mas ele está trazendo a paz de criança, a inocência do nascer e a alegria do encontro familiar, para preencher este vazio tão presente em todos nós, que estamos habituados a nos preocupar somente com coisas de gente grande. E coisas de gente grande precisam de alegria, de bálsamo para amenizá-las.

Eu que tenho a petulância de ser amigo da família de João Marcus e o atrevimento de dizer que sou, estou me sentindo feliz.

Já estou até pensando que o mundo vai ficar melhor com a chegada do João Marcus.

Se o mundo dos outros não ficar, o nosso mundo baiano ficará. Porque nosso mundo não é tão grande assim, que a felicidade não possa preenchê-lo.

É a Bahia, é Chorrochó, são as famílias de lá. Nosso mundo é muito bonito, aconchegante, hospitaleiro, simples, muito simples.

Gostamos de amizades, de amigos, de jogar conversa fora, de saber como os amigos vivem, porque a amizade é como o sândalo, perfuma a vida. E ainda temos um privilégio enorme: somos abençoados por Senhor do Bonfim. 

Como disse outro Marcus (Tullius Cícero), pensador e filósofo, nascido em Roma antes de Cristo, “a vida é um prestígio que Deus nos deu. Plante sua árvore da vida e viverá eternamente”.

Se for assim – e acho que é – Pollyanna e Marcus Vinicius já plantaram a sua árvore. Estão muito prestigiados.

Quero ver o sorriso deste João Marcus e a mudança que ele vai fazer em torno da família. Seja bem vindo, rapaz. Que Jesus Cristo, redentor do mundo, lhe dê amparo em todo o seu viver. 

araujo-costa@uol.com.br    

Post scriptum:

Ainda não vi o sorriso de João Marcus, como desejei na crônica. Imagino suas lágrimas com a perda do avô Joãozito, seu coração apertado com a ausência.

Minha dor é diferente da sua, João Marcus. Mas eu também sinto a falta dele.           

Apostolado da Oração de Chorrochó

Poucas instituições religiosas se mantêm tão firme e perene quanto o Apostolado da Oração.

Movimento eclesial da Igreja Católica Apostólica Romana, o Apostolado da Oração foi fundado pela Companhia de Jesus (padres jesuítas) e remonta à segunda metade do século XIX.

A semente germinou, a árvore cresceu, as flores perduram.

Mater e Magistra, mãe e mestra, a Igreja Católica é essencialmente conservadora e se sustenta em dogmas, segredos e mistérios. Tem uma capacidade exemplar de manter inabaláveis os pilares de suas instituições seculares nas quais os fiéis amparam a fé e seu cajado para orientar o caminho em busca da esperança salvífica.   

Na Paróquia de Senhor do Bonfim de Chorrochó, sertão da Bahia, o Apostolado da Oração atua ativamente através da participação em novenários, procissões, terços, vias-sacras e missas, de modo que estimula a prática de orações e dá vida à comunidade católica.

Além do incentivo à vida espiritual, o Apostolado da Oração cuida das obras de misericórdia, dentre essas, visitas a pessoas idosas e enfermas e atenção especial aos necessitados. Colabora, ademais, com os trabalhos sociais e materiais da paróquia.

A professora Josepha Alventina de Menezes (1893-1987) foi o esteio do Apostolado da Oração de Chorrochó e a ele se dedicou desde 1922. Em razão dessa valiosa e generosa dedicação, foi-lhe concedido o título de presidente emérita da instituição quando, já fragilidade pelo tempo, não mais dispunha de condições para continuar as atividades religiosas.

O Apostolado da Oração é uma das formas que a Igreja encontrou para estar ao lado e junto do povo, mediante a promoção dos valores cristãos.

Em Chorrochó, enriquece-o o Hino do Centenário do Apostolado da Oração de Chorrochó, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes e música de Isael de Jesus.

Ei-lo, para registro e avivamento da memória e das tradições religiosas de Chorrochó:

“Na aridez do Sertão Nordestino

Em Chorrochó um grupo de fé  

Com o amor dos irmãos neste pedaço de chão

Assim nasceu, assim cresceu o Apostolado da Oração

……………………………………………………………………………….

Coração Sagrado de Jesus

Bendito sois Vós glorioso

Sempre força e coragem nos dais

Nosso Deus de clemência e bondoso

……………………………………………………………………………….

Ao longo de nosso Apostolado

Levantamos essa bandeira vibrante

Mostrando as vitórias de 100 anos

Com gestos no puro amor abundante

………………………………………………………………………………..

Vinde a nós Vosso Reino de Glória

Confiantes a Vos esperar

Em Cristo queremos sempre estar

Dai-nos a graça de sempre, de sempre Vos amar.

……………………………………………………………………………….

Como se vê, a Igreja de Chorrochó mantém-se atenta à fé do seu povo e fiel à obra maior de sua mãe e mestra.

araujo-costa@uol.com.br  

Esquerda milionária e fome de poder

“No Brasil existem milionários de esquerda” (Simone de Beauvoir, ativista política, feminista e filósofa existencialista francesa, 1908-1986).

O jornalista Antonio Callado (1917-1997) ao ler a frase de Simone de Beauvoir que, em suas palavras, consta “numa espantada nota de pé de página” da autobiografia da francesa, ponderou:

“Dona Simone não teve foi tempo de ver muitas outras coisas estranhas que existem no Brasil” (Tempo de Arraes, Editora Paz e Terra, 1979).

Este escrevinhador acrescenta: isto porque ela não conheceu os milionários que vieram depois, montados no poder, a exemplo de Lula da Silva, Jaques Wagner (o homem do sofisticado Corredor da Vitória, em Salvador), ambos sindicalistas espertos e mais uma penca de petistas e esquerdistas que se dizem defensores do povo, mas adoram dinheiro público. 

Esquerdista respeitado e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Callado amargou duas prisões na ditadura militar: em 1964 e em 1968, por ocasião do fechamento do Congresso Nacional.

O poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016), outro esquerdista e comunista histórico, que apoiou tenazmente Lula da Silva durante muito tempo – e depois acordou – costumava dizer que “de tanto defenderem os pobres os petistas acabaram ficando ricos”.

Ferreira Gullar, que também pertenceu à Academia Brasileira de Letras, se alongou mais:

“O Lula é a fome do poder. Transparece nele. É a arrogância. Como toda pessoa ignorante, chega a um ponto e não tem autocrítica, não tem medida. Ele disse várias vezes que é o único presidente do Brasil em 500 anos. Porque veio do povo. Do povo vem qualquer coisa” (Entrevista ao Sul21, 26/10/2010).

Há um congestionamento de esquerdistas ávidos por desejos outros que não o bem público. Assim como os hipócritas da direita.

Uns e outros se igualam.

Por isto, Simone de Beauvoir se espantou.

araujo-costa@uol.com.br