A direita caricata e a CPI dos imorais

É forçoso reconhecer que nosso presidente da República abriga-se no covil da direita caricata e não tem filtro de consciência quando quer dizer o que pensa, de modo que não se sabe exatamente o que pensa ou se pensa.

Também é inevitável reconhecer que senadores que beiram à delinquência criaram a CPI da Covid-19, com o intuito escancarado de se servirem dela como palanque eleitoral antecipado com vistas às eleições de 2022.

Há pesquisa realizada pela imprensa atestando que quase todos os integrantes da CPI pretendem se candidatar a governador em seus estados. Alguns já estão rompidos com os atuais governadores ou são seus adversários.

Óbvio ululante que não é necessária uma CPI composta de hipócritas para apurar a incompetência do governo federal, com vistas ao combate à pandemia do coronavírus.

Os exemplos de descaso estão aí, claros, indubitáveis, estapafúrdios.

O presidente da República pouco ou nada fez para evitar o alastramento da doença, seu ministério da Saúde quedou-se de forma vergonhosa no que tange à viabilidade da vacina para imunizar a população e, mais, do que isto, o chefe do governo nunca omitiu sua opinião de desdém em relação à pandemia, ressalvada a liberação de recursos aos estados e municípios, que nunca dificultou, para enfrentarem a pandemia.

Em quadro assim, pra que CPI? Para apurar o óbvio?

Não pode ser séria, em nenhum aspecto, uma CPI que tem como membros os seguintes senadores, para citar apenas alguns. Os suplentes também navegam no mesmo barco da hipocrisia.

Renan Calheiros (MDB-AL): carrega nas costas nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal, alguns deles versando sobre corrupção e lavagem de dinheiro.

Este mesmo Renan Calheiros – que hoje ameaça prender depoentes na CPI – é o mesmo honestíssimo senador que foi acusado de receber dinheiro de um lobista da empreiteira Mendes Júnior, para sustentar uma jornalista de Brasília, sua amante.

“Em troca, o senador apresentava emendas que beneficiaram a construtora”, segundo fartamente noticiado na época pela conhecida grande imprensa, a mesma grande imprensa que hoje o afaga e lhe faz cafuné.

Dentre outras acusações espelhadas em investigações em andamento, pesa sobre os ombros de Renan Calheiros, a acusação de que ele recebeu R$ 1,3 milhão da Odebrecht, a título de propina, em troca de benefícios relacionados às obras de construção do Canal do Sertão, em Alagoas.

Humberto Costa (PT-PE): responde a um escabroso inquérito no Supremo Tribunal Federal, mas a bem da verdade, tem sido até comedido e educado em sua atuação na CPI, talvez porque já foi saco de pancada no governo petista. Suspeito de receber R$ 1 milhão da Odebrecht, parece ter se livrado recentemente da acusação por decisão do próprio STF.

Omar Aziz (PSD-AM): o presidente da CPI está às voltas com uma investigação e, por conta dela, chegaram a ser presos três irmãos e sua esposa, todos acusados de desvio de recursos destinados à saúde do Amazonas, quando o senador era governador daquele estado.

Hoje o senador Omar Aziz se vê moralmente habilitado para ser presidente de uma CPI que, inclusive, apura desvio de recursos públicos da saúde. Dá para acreditar?

Eduardo Braga (MDB-AM): responde a um inquérito e a uma ação cautelar no Supremo Tribunal Federal. Muito deselegante com os depoentes que comparecem à CPI, tenta demonstrar ser impoluto e de boa reputação, o que não parece ser o seu caso;

Ciro Nogueira (PP-PI): responde a cinco inquéritos no Supremo Tribunal Federal. É investigado por suspeita de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha;

Os demais integrantes da CPI, Eduardo Girão (Podemos-CE), Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO), Otto Alencar (PSD-BA), Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e Tasso Gereissatti (PSDB-CE) não respondem a inquéritos no Supremo Tribunal Federal, por enquanto.

Entretanto, contra o espevitado Randolfe Rodrigues, que se acha o suprassumo da honestidade, há um passado nebuloso.

Quando era do Partido dos Trabalhadores (PT) e deputado estadual no Amapá (1999-2002) foi acusado de receber “mensalinho” de R$ 20 mil, do então governador João Capibaribe, para votar a favor do governo estadual. Total da bufunfa: R$ 156 mil.

À época circularam até recibos supostamente assinados pelo próprio Randolfe, que provariam o recebimento da propina.

Roberto Gurgel, procurador-geral da República na ocasião, que não conhecia o PT, achou tão estranho e inocente um parlamentar passar recibo de propina, que arquivou o inquérito. Elevou Randolfe ao céu dos honestos.

No folclore do propinoduto nacional, só há dois casos conhecidos e hilários de supostos corruptos que assinaram recibos de propina: Lula da Silva (caso Odebrecht/Instituto Lula) e Randolfe Rodrigues (caso mensalinho do Amapá).  

São esses “puríssimos, sérios e honestos” senadores, acima de quaisquer suspeitas que, arrogantes e do alto de suas hipocrisias, constrangem e ameaçam de prisão depoentes que prestam esclarecimentos à CPI da Covid-19 e se acham aptos para investigarem eventuais transgressores da lei.

Transgressores investigando transgressores.

O plantio de peroba deve aumentar muito.

Esses indecentes e imorais vão precisar de muito óleo.

araujo-costa@uol.com.br

Fragmentos de Chorrochó

“Para enxergar longe é preciso despregar os olhos de si mesmo” (Nietzsche, 1844-1900, O crepúsculo dos ídolos).

Em tempo de cartões de crédito, bancos digitais e outros emaranhados mais, que os burocratas da economia mundial criaram, chega a ser tarefa difícil explicar para pessoas dos grandes centros urbanos, que ainda há comerciantes que vendem sem exigir nada assinado do devedor, em confiança no freguês. 

Por este Brasil de meu Deus, que os políticos ainda não conseguiram acabar, faz-se negócio apalavrado, sim senhor.

A garantia de pagamento da dívida é a palavra do freguês, que o comerciante acredita sem pestanejar. E só, somente só.

Esse costume ainda faz parte da cultura nordestina, principalmente, em qualquer rincão e em quaisquer quebradas do sertão.

Meu irmão, que mora lá no Riacho da Várzea, nas caatingas curaçaenses de Patamuté, me contou que estava precisando de uma bateria para sua camioneta, que há dias estava em baixo de uma árvore, por falta de dinheiro para o conserto necessário.

O Riacho da Várzea, para quem não é daquele sertão, é um afluente temporário que serpenteia entre cactos e terra da caatinga esturricada até desembocar no Rio São Francisco.

Sem dinheiro – e acanhado – procurou, meio sem jeito, Manoel Gomes de Menezes, da Mercearia Menezes, em Chorrochó.

Não sei se a mercearia, que evoluiu para mercado, ainda carrega esse nome, mas o certo é que à época vendia de tudo ou quase tudo.

Nezinho de Hermógenes, como o conhecemos desde o principiar de sua atividade comercial, ainda muito jovem, no início da década de 1970, é um senhor decente, honesto, trabalhador, bom caráter, prestativo e humilde.

Admiravelmente humilde.                                                            

Acanhado homem da caatinga, meu irmão levou o assunto da bateria ao ilustre comerciante Nezinho que, de pronto, lhe propôs vender uma bateria nova, como se diz por lá, novinha em folha.

Encostado ao balcão, o interessado lhe disse que não tinha dinheiro. A rigor, estava ali para consultar o preço, coisa e tal e quando pudesse voltaria para comprá-la ou encomendar.

Convenhamos, para um aposentado da caatinga, que vive em meio aos cactos e debaixo do sol escaldante, tratava-se de valor razoável, que ele não dispunha, beirando mesmo a impossibilidade.

Nezinho lhe disse, de chofre: “Pode levar, depois você me paga”.

Assim foi feito. O leitor não imagina, para o sertanejo necessitado, o que significa ouvir uma expressão dessas, num momento de dificuldade extrema: “Pode levar, depois você me paga”.

Em última análise, significa carregar consigo dupla gratidão: tanto pelo crédito concedido quanto pela consideração. O sertanejo preza mais as amizades do que as relações de negócios.

É gratidão que o caatingueiro leva para o túmulo.

O cronista às vezes se perde e se acha ao mesmo tempo. Mas continua no caminho, andando em direção ao tempo, tropeçando nas vicissitudes e contando histórias que colheu nas esquinas da vida.

Este assunto vem a propósito de uma conversa que este escrevinhador travou com um amigo sobre o clima geral de desconfiança por que todos nós passamos nestes tempos modernos.

Ninguém confia em ninguém.

Nas metrópoles, até o aceno e o cumprimento de um desconhecido nos faz recuar, desconfiados.

Não sei se meu irmão já pagou o valor da bateria para o atencioso comerciante de Chorrochó, ou se continua na caderneta dos fiados de Nezinho de Hermógenes, pendurada, ao modo antigo.

Nezinho é uma daquelas pessoas de caráter irrepreensível, que “desprega os olhos de si mesmo” e que encontramos na vida e nos pequenos e breves encontros que se agigantam.

araujo-costa@uol.com.br

O sorriso também deixa cicatrizes

Comumente as cicatrizes são vistas através do lado mais cruel, o sofrimento.

Contudo, elas são marcas deixadas ao longo do tempo e, como tais, também podem resultar de alguma face do caminhar que não seja somente sinais de tristeza.

As nódoas que se agarram ao nosso viver quase sempre decorrem de tropeços, perturbações que a vida nos permitiu experimentar, mas o passado também teve alegrias, sorrisos, flores no jardim.

A preparação para o envelhecimento pressupõe que caminhemos devagar com as tristezas, sem esquecer as alegrias do passado e, sobretudo, com a altivez do presente.

Somos possíveis hoje e isto nos basta.

As escolhas irreversíveis, o amoldar da consciência, as amizades, as dores e as descobertas fizeram parte da construção de nossos mistérios.

Lágrimas e risos emolduraram o viver até aqui.   

Passamos o tempo conjecturando formas de viver. Isto faz parte dos sonhos, da ambição de enxergar mais longe.

A efemeridade da vida encurta o tempo, corrói as forças e torna mais distante o ápice que pretendemos alcançar. Entanto, seguimos. E a razão maior do caminhar é a esperança.  

Até o amor que sentimos às vezes parece fraquejar. “Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor”, dizia o padre Vieira. Mas é preciso força, disposição para a luta, mesmo que ela nos pareça inglória.

Caminhar, sempre.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam assim, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande, os tropeços da vida, a poeira que não conseguiu sacudir.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente, disse: “Rapaz, me perdi, tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa e despedi-me mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da certeza da velhice. Chorar nesses momentos é muito fácil. Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, as músicas que ouvíamos em tempo de serestas.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida. Confessou-me lhe terem escapado as esperanças.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes.

São Bernardo do Campo, outono de 2021.                                             

araujo-costa@uol.com.br      

ACM Neto coloca João Dória no limbo

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, 1902-1985)

Arrogante, pernóstico, truculento, despreparado, petulante e vaidoso, João Dória tem todas as qualidades para ser inspetor de quarteirão em tempo de ditadura e nenhuma para ser governador do mais importante estado da Federação.

O governador-pavão de São Paulo e embusteiro-mor da República baixou a crista depois que a recente pesquisa Datafolha o colocou, num dos cenários, em 5º e último lugar na disputada para presidente da República.

A opinião pública o empurrou para o último lugar e o arrastrou para a insignificância.

João Dória se diz “o líder da oposição ao presidente da República, hoje”. Ao ouvir essa asneira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, também do PSDB, deve dar sonoras gargalhadas.

Pelo que se vê, o despreparado governador de São Paulo se esqueceu de combinar com Lula da Silva e com o Partido dos Trabalhadores (PT).

Não precisa ser inteligente, nem especialista em política, para saber que o líder da oposição a Bolsonaro hoje é o petista Lula da Silva e não João Dória, como apregoam o arrogante governador paulista e seus assessores.

Tendo em vista o despreparo político de João Dória, que vem desde 2020 engendrando situação para contar com o apoio do Democratas (DEM) na disputa pela presidência da República, agora parece claro, embora em política não se possa dizer nada com clareza e em definitivo, que não é bem assim.

Antonio Carlos Magalhães Neto (ACM Neto), ex-prefeito de Salvador e presidente nacional do Democratas (DEM) declarou que “o DEM não tem nenhuma disposição de discutir 2022 com João Dória. Descartamos conversar com o governador sobre 2022”.

Atrapalhado e inexperiente, João Dória meteu os pés pelas mãos e não costurou nada, simplesmente porque nada entende de costura política. Ao contrário, está espalhando possíveis aliados.

Já disse neste Blog que, por falta de experiência, João Dória vai implodir o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Dito e feito.

O processo de implosão começou ano passado.

O comedido ex-governador Geraldo Alckmin está em rota de colisão com João Dória, que é um forasteiro em se tratando do PSDB. Forasteiro e sem noção de conjunção e circunstância política.

Incapaz de conviver com pessoas mais experientes, João Dória criou caso com Alckmin porque, na condição de governador, se acha no direito de mandar até nos líderes políticos de São Paulo.

Geraldo Alckmin faz parte dos dez primeiros filiados do PSDB. É fundador histórico do partido.

Incomodado com a atuação de João Dória, Alckmin já sinalizou que vai deixar o partido. E se deixar, João Dória perde o apoio de grandes lideranças paulistas em sua aventura de disputar a presidência da República.

Deve continuar no limbo, por enquanto, como quer ACM Neto.

João Dória quer apressar o rio. Ele não sabe que o rio corre sozinho.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, a soberania moral de Luiz da Ema

Amigo sempre atencioso e que considero muito, Marcones Reis deu-me a notícia do falecimento de Luiz Pires Monte Santo (1938-2021), de Várzea da Ema.

Luiz Pires Monte Santo era filho de Antonia Tolentino e Manoel Pires Monte Santo – que tiveram oito filhos – e tinha raízes em Várzea da Ema, município de Chorrochó, onde fincou bases políticas e familiares.

Luiz Pires era sobrinho de Antonio Pires de Menezes (Dodô), também de Várzea da Ema, que foi prefeito de Chorrochó no período de 1971/1973.

Em 1988, Luiz Pires Monte Santo disputou a eleição para prefeito de Chorrochó com o apoio do ex-prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes, tendo Ariçon Gomes de Souza, de Barra do Tarrachil, como companheiro de chapa, na condição de vice.

Luiz Pires Monte Santo reclamava do estado de precariedade do município de Chorrochó, sem estradas, ainda que vicinais, escolas em estado de abandono, sem carteiras e sem material didático e professores mal remunerados.

A assistência médica era deficiente e não havia investimentos nas áreas de educação, saúde, transporte e demais serviços públicos, o que não mudou muita coisa.

José Evaldo de Menezes (1943-2020), político de grande expressão no município à época, deu-lhe respeitável sustentação eleitoral, o que não foi suficiente para assegurar a vitória de Luiz Pires.

José Evaldo concorreu, na mesma eleição, a uma vaga na Câmara Municipal.

Luiz Pires perdeu a eleição para João Bosco Francisco do Nascimento, de Barra do Tarrachil, apoiado pelo prefeito e líder respeitável José Juvenal de Araújo, mas continuou na vida pública.

Mais tarde, salvo engano deste escrevinhador de memória já esburacada, Luiz Pires foi vice-prefeito de Paulo de Tarço Barbosa da Silva (Paulo de Baião) no período de 1993/1996.

Sempre consultado politicamente, em razão de sua envergadura moral, Luiz Pires Monte Santo representava uma reserva de soberania moral de Várzea da Ema e deixa bons exemplos de caráter e conduta irrepreensível.

Deixo este registro da vida de Luiz Pires Monte Santo como forma de reverenciar sua memória.

Post scriptum:

Penitencio-me por eventuais erros de data, nomes e informações. Em respeito à história, o leitor pode, se quiser, apontar as incongruências do texto e pedir as necessárias correções, o que será feito prontamente.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva cresce sob as bênçãos do ministro Fachin

O Datafolha, em pesquisa presencial, aponta que Lula da Silva está à frente do presidente Bolsonaro na disputa pela presidência da República, com vistas às eleições de 2022.

Num dos confortáveis cenários, Lula supera Bolsonaro em, pelo menos, 23%. Isto deixou a esquerda em estado orgástico, embora faltando um ano e meio para as eleições presidenciais.

A situação só mudará se o presidente Bolsonaro se livrar dos mentecaptos que o cercam, a começar pelos filhos truculentos e os integrantes da direita radical e extremistas de toda ordem.

O presidente da República está rodeado de tolos, idiotas e malucos, que não têm nenhuma noção do que seja governo. São deslumbrados da direita  imbecilizada que somente dificultam o governo e arranham a popularidade do presidente.

Soma-se o costumeiro destempero do presidente da República, que é um sábio milenar quando está calado.

Portanto, se o cenário não mudar e o ex-presidente continuar crescendo nas pesquisas, o ministro Edson Fachin já pode arrumar as malas para deixar o Supremo Tribunal Federal e assumir a função de ajudante-de-ordem de Lula da Silva no Palácio do Planalto.

Ajudante-de-ordem, para lembrar, é uma digníssima função auxiliar do presidente da República. Exerce-a o assistente imediato, o secretário particular, uma espécie de sombra do presidente.

O ajudante-de-ordem é o dono da maçaneta da porta –  qualquer porta – por onde entra e sai o presidente da República. É o condutor da pasta com os pertences pessoais do presidente, tais como creme dental, escova de dente, pentes e outros penduricalhos mais. 

O ministro Edson Fachin cavou pacientemente essa função. Supõe-se que desde a época que subia em palanque para pedir votos para D. Dilma Rousseff que – muito grata – o nomeou ministro do Supremo Tribunal Federal.

Em data recente, Edson Fachin declarou que a 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba é incompetente para processar e julgar o ex-presidente Lula e, em consequência, anulou todos os processos que o envolviam, coisa que, na condição de relator da Lava Jato, poderia ter feito há cinco anos, como insistentemente pediu a defesa do ex-presidente.  À época, sem êxito.

Só agora Fachin determinou que as ações judiciais devem começar da estaca zero, desta vez no foro de Brasília.

Um maná para Lula da Silva. Até ser julgado novamente, já teremos ultrapassado pelo menos mais uma década que virá rebocando prescrições e outros benefícios.

Não precisa ser especialista em Lógica, nem mestre em Tratado da Consequência, para entender que Fachin deixou aproximar-se 2022 para anular as sentenças de Lula e permitir a inserção do nome do ex-presidente nas urnas.

Diante da exiguidade do tempo que nos separa de 2022, não haverá mais espaço para eventuais sentenças condenatórias, julgamento em segunda instância e inclusão de Lula na Lei da Ficha Limpa.

Edson Fachin desobstruiu o caminho eleitoral de 2022 e colocou Lula da Silva em condição de elegibilidade e, portanto, apto juridicamente para disputar a presidência da República em 2022.

Antes, Fachin teve o cuidado de combinar a decisão com os demais colegas de tribunal que, para inglês ver, disseram-se “surpresos” e “perplexos” com a posição de Fachin, mas referendaram-na com urgência incomum no STF.

Nada mais justo que o ministro Edson Fachin assuma a função de ajudante- de-ordem de Lula, num eventual mandato presidencial a iniciar-se em janeiro de 2023.

Até por um dever de gratidão e lealdade, Lula da Silva deve levá-lo para cuidar de sua maçaneta.

araujo-costa@uol.com.br

A farra parlamentar na Codevasf

O jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria cabeluda e bem fundamentada, segunda a qual existe no Congresso Nacional um orçamento secreto da ordem de R$ 3 bilhões, manuseado por deputados e senadores, de acordo com suas conveniências políticas.

Diz a matéria que esse orçamento foi engendrado pelo presidente da República para beneficiar aliados e manter sua base parlamentar nas duas casas do Congresso Nacional. Noutras palavras: comprar apoiadores.

Partindo desse pressuposto, é através desse orçamento sigiloso e paralelo, que corre longe das vistas dos contribuintes, que o governo afaga parlamentares de ideias flexíveis – ou vazios de ideias –  aqueles que mudam de lado a qualquer tempo e votam de acordo com a quantidade de “cascalho” que escorrega em seus bolsos.

A situação faz lembrar o tão conhecido mensalão do Partido dos Trabalhadores (PT), que abastecia parlamentares corruptos com dinheiro público e que Lula da Silva não sabia, não queria saber e tinha raiva de quem sabia. Mas apoiava.

A história é longa.

Em resumo, dá-se o seguinte:

O governo federal reserva uma estratosférica bufunfa para agradar os parlamentares que andam dizendo por aí que votam contra o governo, mas mudam rapidamente de ideia tão logo o Palácio do Planalto lhes faça um cochicho ao pé do ouvido.

Deputados e senadores adoram conversa ao pé do ouvido, principalmente se a conversa for nebulosa.

Um parêntese: outro dia o espevitado senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), pernambucano de Garanhuns radicado no Amapá, disse que, no seu entender, o político que mentir nas dependências do Senado Federal deve ser preso. Pelo jeito o senador Randolfe quer fechar o Congresso Nacional por falta de políticos.

O senador Randolfe Rodrigues se acha o suprassumo da honestidade, embora ostente, além da vontade de aparecer diante dos holofotes, um passado político não muito claro. Deve ser discípulo de Lula da Silva.

Voltando ao caso do orçamento secreto. Na Bahia, por exemplo, o deputado federal Charles Fernandes Silveira Santana (PSD) de Guanambi, da mesma turma do rico senador Ângelo Coronel (PSD), direcionou sua parte do dinheiro previsto nesse orçamento secreto a uma associação beneficente para comprar uma retroescavadeira e até disse o preço que a tal associação teria de pagar pela geringonça: R$ 300 mil.

Estranho aí é que foi o deputado que deu o preço da retroescavadeira e não o fornecedor que vendeu.

Ocorre que o preço da máquina se situava por volta de R$ 250 mil. Com o restante – R$ 50 mil – não se sabe exatamente o que Sua Excelência fez ou faria, se o caso não tivesse vindo à tona.

Essa perigosa conversa de comadres envolvendo dinheiro público passa, necessariamente, pelo Ministério do Desenvolvimento Regional que obedece a ordens dos políticos que mandam na Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba).

Na prática, os parlamentares recebem o dinheiro do governo federal e o direcionam para o Ministério de Desenvolvimento Regional que, por sua vez, manda desaguar na Codevasf e esta adquire tratores, caminhões pipa e retroescavadeiras para uso político de apadrinhados desses parlamentares (prefeitos, vereadores, líderes políticos) nos municípios que compõem seus redutos eleitorais.

O pior é que essas máquinas nem sempre são bem cuidadas pelos prefeitos. Há casos em que a manutenção não é feita regularmente e outros casos em que, para limpar uma barragem ou aguada, o beneficiário tem de comprar o óleo diesel para que a máquina possa fazer o serviço.   

Em Petrolina (PE) manda na Codevasf o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), líder do governo no Senado da República, que recebeu R$ 125 milhões e indicou Aurivalter Cordeiro para superintender a retro aludida companhia estatal.

Em Juazeiro (BA), manda na Codevasf o deputado Elmar Nascimento (DEM) que, salvo melhor juízo, indicou Marcelo Moreira e José Alselmo Moreira Bispo para comandarem a companhia por lá. 

Com o intuito de ajudar esses políticos de ideias frouxas, os governos deram um jeitinho e alargaram legalmente a área de atuação da Codevasf, que hoje abrange 2.675 municípios espalhados por 15 estados e distrito federal.

Até no Amapá,  Pará e Mato Grosso a Codevasf atua. Em Macapá – parece – a estatal terá uma superintendência comandada por apadrinhado do senador David Alcolumbre (DEM), aliado do governo Bolsonaro.

Do alto de minha ignorância, confesso que não sabia que os estados do  Amapá, Pará e Mato Grosso fazem parte dos vales do São Francisco e do Parnaíba.

Mas dinheiro público nas mãos de políticos espertos muda até a geografia do Brasil.

araujo-costa@uol.com.br

Prefeito de Curaçá abandona Patamuté

Igreja de Santo Antônio de Patamuté.

É recorrente o estado de abandono em que se encontra o distrito de Patamuté.

São frequentes as reclamações de moradores da sede do distrito e circunvizinhança, a começar pela ausência de atenção da Prefeitura relativamente aos problemas por que passa a população local.

Citá-los aqui seria enfadonho. São muitos.

Parece razoável entender que a Prefeitura de Curaçá passa por um período de apatia, de modo a beirar a negligência no que tange ao cumprimento de algumas de suas obrigações prementes.

A reclamação mais recente é a escuridão em Patamuté.

Noticia-se que as praças do distrito estão completamente às escuras porque, segundo moradores, a Prefeitura não faz a manutenção do sistema de iluminação e sequer substitui as lâmpadas queimadas ou defeituosas.

Este Blog apurou que o problema não é na rede de iluminação do distrito, propriamente, mas entre postes, residências, igreja e praças.

Sabe-se, inclusive, que há defeitos no circuito que interliga a fiação da Igreja de Santo Antonio às praças. Se o termo técnico não for este não importa. O que importa é que o problema existe e precisa ser resolvido com urgência.  

Evidente que não se pode exigir da Prefeitura que ela responda por demanda que não é de sua responsabilidade, mas é seguramente certo que o município deve estar atento às necessidades da população, independentemente do lastro eleitoral que o distrito assegurou ao prefeito de plantão.

Isto equivale a dizer que, se os problemas constantes e repetitivos de iluminação do distrito de Patamuté fogem à alçada do município, a Prefeitura deve diligenciar junto às autoridades e/ou empresas que cuidam do sistema de energia que abastece o distrito para que resolvam a situação de imediato.

O que não pode é a Prefeitura sentar-se em cima do problema ou fazer vista grossa e deixar a população desamparada.

Escuridão pressupõe menos segurança, mais riscos aos moradores.

Presume-se que o prefeito de Curaçá tenha assessores que lhe informam sobre questões afetas à gestão municipal. Se não tiver, precisa ter. E assessores diligentes, competentes, responsáveis.

Segundo Anselmo Vital, ouvido por este Blog, o sistema de iluminação de Patamuté precisa de urgentes reparos. A população vem reclamando insistentemente, sem êxito

Líder respeitável e sempre atento às questões locais, Anselmo Vital foi cauteloso ao responsabilizar o município pela situação. Entretanto, ponderou que a Prefeitura é responsável por parte dos problemas, nomeadamente a manutenção de lâmpadas e assuntos correlatos.   

Pelo que se vê, o município deixa a desejar neste particular.

Não é demais lembrar que Patamuté ressente-se com a ausência de atenção do prefeito de Curaçá e isto deixa o alcaide em situação de desvantagem em sua condição de administrador.

Em política, há duas classes de homens públicos: os que estão por baixo e querem subir e os que estão por cima e não querem descer.

Espero que o prefeito Pedro Oliveira, que subiu, não queira descer aos escombros da reprovação e rejeição pela população de Patamuté. É um caminho espinhoso, quiçá sem volta.

Abandonar Patamuté na escuridão pode significar escuridão também de mentalidade política.  

araujo-costa@uol.com.br

Para refletir:

“Os hipócritas, como as setas das encruzilhadas, indicam o caminho que eles não seguem” (Thomas Moore, escritor irlandês, 1779-1852).

Para acordar:

Folha de S. Paulo, Painel de 08/05/2021:

“Hoje. Nesta quinta-feira, 06/05/2021, o ex-presidente Lula (PT) escreveu mensagens em suas redes sociais em que lamenta a operação policial que acabou com 25 mortes na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio”.

 “Ontem. A postura contrasta com o posicionamento que o petista Lula teve em julho de 2007, quando, como presidente da República, defendeu ação da polícia fluminense no Complexo do Alemão, no mesmo Rio de Janeiro, que deixou 19 mortos na época”.

Não sou eu. É o insuspeito jornal Folha de S. Paulo, contumaz defensor intransigente de Lula, que afirma e aponta a contradição.

Aliás, Lula da Silva é mestre em contradições.

Thomas Moore estava certo.  

Observação:

Na verdade, o número de mortes aumentou, por enquanto, para 28.

araujo-costa@uol.com.br

Não se faz política com fome

No auge de minha vida acadêmica, hoje decadente – a velhice é sempre decadente – ouvi a seguinte frase de Alaôr Caffé Alves, professor de Filosofia do Direito e ícone da esquerda intelectual paulista: “Ninguém faz política com o estômago vazio”.

Essa frase me cutuca até hoje. Até então eu pensava que a fome impulsionava nossas ações políticas para eliminá-la.

Contextualizando, significa dizer: primeiro a população precisa ter o que comer e poder comer, para adquirir forças e cuidar do debate político-ideológico.

A capacidade de raciocínio sucumbe à fragilidade do corpo dilacerado pela fome.

Isso dito, explico a citação de décadas, que se afigura permanente, atualíssima.

Em conversa casual e despretensiosa, um amigo perguntou por que o povo não vai às ruas protestar contra o atual estado de coisas por que passa o Brasil e exigir que se coloquem os princípios democráticos acima da arrogância de nossos governantes, membros do Judiciário e do Legislativo.

O Poder Judiciário invadiu as esferas dos outros poderes da República, sem freios, sem limites, acintosamente e ilegalmente, embora esteja infestado, em todos os níveis, de juízes corruptos e portadores de “rabos de palha”.

O Poder Legislativo oscila entre a demagogia e o dever de legislar.

O Poder Executivo, sempre apático, claudica por todos os lados.

Há no Brasil, pelo menos 70 milhões de pessoas passando fome, entre desempregados, subempregados, subaposentados, miseráveis e famintos de toda ordem. É um terço da população, número assustador.

São órfãos de governos demagogos e massacrantes em os todos os tempos, quer de direita ou de esquerda. Quando o governo é ruim, pouco ou nada importa o viés ideológico.

Esses famintos fazem parte daqueles milhões que o PT e Lula da Silva alardeavam que excluíram da extrema pobreza.

Há quem acredite. Há quem acreditou. Há quem continua acreditando.

Famílias, por aí, recebem R$ 89,00 de Bolsa-Família, única renda e meio de vida para sobreviverem durante todo um mês. É possível viver assim? É possível comer? È possível alimentar os filhos?

São esses miseráveis, sem voz e sem amparo, que sustentam o discurso de políticos embusteiros e demagogos que abarrotam seus bolsos à custa da miséria alheia.

Nos rincões do Brasil e nas periferias das grandes cidades, os pobres se encolhem de fome, estômagos vazios, lágrimas se equilibrando diante da desesperança.

Faltam-lhes comida e esperança. Sobram-lhes desespero e angustia.

Outros, que ainda comem, entregam-se à imbecilidade e invadem as redes sociais defendendo políticos, muitos até sem argumentos plausíveis, mas embalados pelas paixões políticas.

São legiões vazias e polarizadas de lulopetistas e bolsonaristas que se agridem estupidamente em defesa de políticos que não têm quaisquer compromissos com a população. Mas esses seguidores acreditam que têm ou fingem acreditar.

Em resumo: o povo não sai às ruas para exigir seus direitos porque está com fome e espremido pelas restrições cruéis, ainda que necessárias, emanadas de prefeitos e governadores, nesse tempo de pandemia.

Há ausência de sustança material e política.

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