A estranha eficiência do Supremo Tribunal Federal

Em 12/05/2021, a imprensa noticiou fartamente, inclusive os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo que, em delação premiada devidamente homologada pelo Poder Judiciário, o ex-governador fluminense Sérgio Cabral, que está preso, denunciou que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, recebeu R$ 4 milhões pela venda de sentenças e, em consequência, livrou dois prefeitos fluminenses de condenação.

Segundo a Folha de S. Paulo, a suposta negociata teria acontecido quando Dias Toffoli era ministro do Tribunal Superior Eleitoral (2012 a 2016), onde os processos tramitaram.

Acrescente-se que Toffoli também foi presidente da Corte Eleitoral no período de maio de 2014 a maio de 2016.

O dinheiro, segundo o ex-governador Sérgio Cabral, foi operacionalizado pelo à época secretário de Obras do Rio de Janeiro e provinha de valores desviados do governo do estado.  

Bem detalhada, a delação sustentava, ademais, que o supremo ministro Dias Toffoli recebeu a bufunfa por intermédio do escritório de advocacia de sua mulher.

Sérgio Cabral indicou que Dias Toffoli havia proferido decisões condenatórias em dois processos envolvendo prefeitos fluminenses e, em razão do suposto dinheiro recebido, mudou o voto em favor de tais gestores.

Essa delação premiada do ex-governador Sérgio Cabral foi homologada pelo ministro Edson Fachin, colega de Toffoli, em fevereiro de 2020.

Em princípio, supõe-se que a delação estava tecnicamente apta para homologação, tanto que o ministro Fachin o fez.

Em quadro assim, não se vislumbra que um ministro do Supremo Tribunal Federal homologue um documento de tamanha importância sem que se tenha dado ao trabalho de ler.

Como se sabe, delação homologada pelo Judiciário, tem valor probante, excetuadas eventuais reviravoltas durante as confirmações em Juízo.    

Entretanto, no recesso do Judiciário de julho de 2020 e, mais tarde, em setembro de 2020, antes de sair da presidência do STF, Dias Toffoli mandou arquivar e obstou os procedimentos investigatórios decorrentes da delação.

Agora em maio último, a Polícia Federal pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal para investigar Dias Toffoli, tendo em vista a robustez das informações prestadas por Sérgio Cabral que, inclusive, apresentou uma agenda com o registro dos encontros para tratar da suposta negociata.   

O Supremo Tribunal Federal agiu rápido.

Em 27/05/2021, presumivelmente em caráter de urgência, os ministros do STF se reuniram virtualmente e determinaram a anulação da homologação da delação premiada de Sérgio Cabral, que colocava Dias Toffoli em maus lençóis.

Dias Toffoli votou pela anulação da delação e, em consequência, votou a seu favor, que não é de ferro.

E não se fala mais nisto. Onde já se viu acusar ministro do Supremo?

Mesmo assim, ainda há quem diga que o Supremo Tribunal Federal não é eficiente.

Como se vê, o STF é eficientíssimo.

araujo-costa@uol.com.br

O Exército e a imprensa contrariada

Em jornalismo (falo do bom jornalismo, entenda-se bem), a notícia publicada deve se fundamentar nas seguintes perguntas: o quê?  quem? quando? onde? como? por quê?

É a forma segura e correta de publicar a verdade, depois de apurá-la minudente e criteriosamente e não laborar em afirmações vagas tais como “uma fonte me disse”, “conversei com fontes seguras”, “pessoa que me pediu o anonimato”, et cetera.

Evidente que não estou aqui desqualificando as fontes, tão comuns e necessárias ao exercício do jornalismo e, mais do que isto, asseguradas constitucionalmente.

A chamada grande imprensa empanturra-se de comentaristas pífios, despreparados, tendenciosos e ideologicamente comprometidos, de modo que os comentários se sobressaem eivados de inverdades e sem amparo na correção dos fatos.

Esses comentaristas conseguem banalizar as fontes.

O assunto que mais se ouviu nesses últimos dias foi sobre o Exército não ter punido o general Pazuello, ex-ministro da Saúde, em razão de suposta transgressão ao Regulamento Disciplinar do Exército, quando aquele militar da ativa participou de evento político no Rio de Janeiro ao lado do presidente da República.

Os comentaristas embora insistam em dizer que apuraram os fatos, em muitos casos isto não ocorre ou, embora apurados, tais fatos foram ou são distorcidos para ajustarem-se à vontade dos donos dos órgãos de comunicação que fazem oposição ao governo (TV, grandes jornais e seus penduricalhos digitais).

Muitos desses magnatas da comunicação estão contrariados pela forma abrupta com que o governo federal suprimiu a publicidade oficial que antes abarrotava seus cofres. Em contrapartida, falavam bem do governo, qualquer governo.  

Exemplo clássico é o caso das Organizações Globo, que cresceram à sombra das benesses dos governos militares e se transformaram em potência em troca de apoiá-los, de Castello Branco a Figueiredo. A história todos conhecem.  

Ao decidir sobre o arquivamento do processo disciplinar contra o general Pazuello, o comandante do Exército ouviu o Alto Comando da tropa, que se compõe de quinze generais de Exército e ocupam o topo da carreira militar da Força.

O Alto Comando sempre é ouvido em casos de razoável importância.

O Alto Comando do Exército aquiesceu à decisão do comandante do Exército, quanto ao arquivamento do caso Pazuello. Validou, concordou, referendou.

Tendenciosa, em nenhum momento a imprensa disse ou diz com clareza que o Alto Comando do Exército foi ouvido. Mas é seguramente certo que comentaristas e noticiários omitem isto e dizem que o Exército está dividido, assim como Marinha e Aeronáutica.

Apostam no caos.

Outra omissão proposital da grande imprensa, mormente órgãos do Grupo Globo: no sistema presidencialista de governo, o comandante supremo das Forças Armadas é o presidente da República, seja ele Bolsonaro ou outro qualquer, seja de direita, de centro, de esquerda ou de qualquer lado.

A hierarquia e a disciplina são pilares que norteiam e sustentam as Forças Armadas.

É no mínimo desonesto com os leitores e telespectadores dizer que as Forças Armadas estão contra o presidente da República.

Mesmo que estivessem, elas não interferem na cadeia de comando, a partir do presidente, seu comandante em chefe, por conta da obediência aos princípios hierárquicos e disciplinares.

A interferência só se dá em caso de ruptura institucional, leiam-se: golpes de estado, derrubadas de governos ou coisa parecida.

Em qualquer governo, não há unanimidade, seja na sociedade civil ou nos estamentos militares. Isto é elementar e faz parte da democracia.

O militar é cidadão como todos os outros e, isoladamente, pensa como os demais brasileiros. Tem direito de opinar e discordar, dentro dos limites de seus regulamentos.

É uma lástima o Brasil contar com uma imprensa parasita que torce pelo desmoronamento do governo por conveniência econômica e, por consequência, das instituições, sejam militares ou civis, sem nenhum respeito às urnas e à vontade da maioria.

Quaisquer que sejam, governos derrubam-se através das urnas, em eleições livres e não através de conspiração disfarçada de exercício democrático.

Quando a notícia é favorável ao governo, os comentaristas fazem ridículos contorcionismos com o intuito de demonstrarem o contrário e transformá-la e situação diversa e desfavorável.

Militares no governo, em casos isolados, não significa comprometimento político das Forças Armadas com o presidente da República.  

O Exército está onde sempre esteve: nos quartéis.

A imprensa contrariada não sai do mesmo lugar.

araujo-costa@uol.com.br

Retrato em preto e branco

Autor, foto de 1990

Quando eu era mais abestado do que hoje – continuo sendo – candidatei-me a vereador em São Bernardo do Campo.

O Partido da Reconstrução Nacional (PRN), através do qual disputei uma vaga na Câmara Municipal, vivia em estado de euforia coletiva, em razão da filiação do então “caçador de marajás” e candidato à presidência da República, Fernando Collor de Mello, que saiu vitorioso e a história é sobejamente conhecida.

As forças políticas que abrigavam minha candidatura respondiam pelo nome de União Democrática Cristã (UDC), embora de forças nada tivessem, até por uma questão lógica. Se forças fossem, eu teria sido eleito.

Minha pomposa plataforma de campanha cingia-se, basicamente, às seguintes áreas: educação, saúde, habitação e transporte.

Utópico, eu pensava que seria possível consertar o mundo. Melhor, consertar os problemas do mundo de São Bernardo do Campo.

Quanta ingenuidade a minha!

Estamos em 2021. Em São Bernardo do Campo, tudo continua como dantes, com uma diferença abismal: piorou. O município tem 844.483 habitantes, segundo últimos dados disponíveis. Imagine o tamanho dos problemas.

Abandonei a política e os pilantras da política, logo depois da abertura das urnas, porque o dinheiro destinado à minha candidatura nunca chegou ao meu comitê e eu fiquei, com cara de galo, fazendo das tripas coração para sustentar minha campanha até chegar às urnas.

Pressuponho que o dinheiro tenha ancorado no bolso dos espertos, como ainda hoje acontece. E pressuposto é pressuposto, nada mais do que isto.

Embora estreante, tive boa votação, mas insuficiente para conquistar uma vaga na Câmara Municipal.

Quando me lembro de minha derrota nas urnas, sempre recordo que, em 2016, o Partido dos Trabalhadores (PT) não conseguiu reeleger vereador o filho de Lula da Silva, que ocupava uma cadeira no Legislativo de São Bernardo do Campo.

O caso dele foi pior. O pai tinha sido presidente da República.   

O escritor Ernest Hemingway (1899-1961), autor do clássico Por quem os sinos dobram, dizia que “a luta pela sobrevivência confronta com os limites humanos”.

A luta pela sobrevivência política tem outro nome: safadeza. Independentemente dos limites humanos.

Os políticos no Brasil lutam pela sobrevivência de seus próprios bolsos e dane-se o povo, danem-se as necessidades do povo, dane-se a miséria do povo.

Como não sou disto, nem concordo com isto, peguei meu boné de baiano e escafedi-me em direção à luta honesta da vida.

Esta, sim, tem bons resultados, mesmo que nunca alcancemos a vitória.

araujo-costa@uol.com.br

Otto Alencar e o esgoto político

“Cada homem tem direito a seu caminho. Mas há duas veredas políticas: a que leva ao cofre e a que leva à luta de cada tempo” (Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, jornalista e escritor)

O senador Otto Alencar (PSD-BA), membro da CPI da Covid-19, protagonizou cenas de explícita deselegância ao questionar a médica oncologista Nise Yamaguchi, testemunha ouvida na aludida comissão.

Já demonstrando visíveis sinais de senilidade, o que não é nenhum demérito, mas a soma de janeiros, melhor, de agostos (ele nasceu no mês de agosto), Otto Alencar insistiu no sentido de que a médica lhe explicasse, didaticamente, tecnicamente, a diferença entre protozoário e vírus.

Para a CPI, que está investigando omissão e negligência do governo federal quanto ao combate à pandemia, saber da diferença entre protozoário e vírus tem tanta importância quanto ejaculação precoce.

Otto Alencar protagonizou um espetáculo pífio, imbecil, deplorável.

Adolescentes discutindo matéria de prova seriam mais competentes.

Médico, professor e católico, talvez o senador Otto tenha-se esquecido das mínimas regras de educação e civilidade, tamanhos os inoportuníssimos questionamentos.

Quiçá, também tenha se esquecido, na condição de católico, do preceito bíblico segundo o qual os humildes serão exaltados. A humildade da médica foi impressionante.

O senil senador impôs uma acachapante humilhação à médica, espetáculo que somente o diminui, porquanto sem nenhuma necessidade de fazê-lo, constrangendo-a diante das câmeras.

Otto Alencar apequenou-se, desceu ao esgoto da política.

Não é novidade. Otto Alencar não tem ideias. Nunca teve.

Em sua carreira política, pulou de partido em partido, sem nenhum pudor. Esgueirou-se do Partido Democrático Social (PDS), sustentáculo da ditadura militar, passando por PTB, PL, PFL, DEM, PP e hoje se encostou ao PSD de Gilberto Kassab, até aparecer outro que lhe estale os dedos.

De filhote da ditadura passou a aliado da esquerda petista. A rigor, sua vida partidária meneia de acordo com a conveniência de momento.   

Otto Alencar beberou nos cofres da Bahia e o faz até hoje. É contumaz sugador das benesses do poder.

Em 2002, assumiu a governadoria, em razão da saída do titular César Borges, que renunciou para disputar o Senado, de acordo com a legislação. Exerceu o cargo de governador da Bahia de abril a dezembro de 2002.

Daí, nunca mais largou a rapadura. Foi secretário de Estado duas vezes e até arrumou uma boca de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Otto Alencar também.

Elegeu-se vice de Jaques Wagner (PT) em 2010 e, ato contínuo, assumiu a Secretaria Estadual de Infraestrutura nela permanecendo até 2014.

Otto Alencar não representa bem a Bahia e isto ficou bem claro na sessão da CPI da Covid-19 de 01/06/2021.

Elevar-se arrogantemente acima dos ombros do semelhante não é mérito, mas pequenez de caráter.

Falta-lhe a elegância, a sensatez e a estrutura que se espera de um senador da República sério, impoluto e, sobretudo, educado em relação às mulheres, o que ele não foi.

Otto Alencar espezinhou a mulher, a médica, a profissional, humilhando-a em público.

A garbosa Bahia de Ruy Barbosa, que já foi tão bem representada no Senado da República por Heitor Dias, Otávio Mangabeira, Luís Viana Filho, Josaphá Marinho, Juracy Magalhães, Landulfo Alves, Pinto Aleixo, Aloísio de Carvalho Filho e tantos outros, hoje se vê tristemente representada por Otto Alencar.

Contudo, as urnas erram, mas a democracia ainda é o melhor dos regimes políticos.

araujo-costa@uol.com.br

Caraíbas, Oscar Araújo Costa e seu legado político

Marina Araújo – álbum de família.

Durante algumas décadas, a essência do engendramento político do município de Chorrochó passou, necessariamente, pela família de Oscar Araújo Costa e ramificações dela decorrentes.

Oscar foi o esteio, a estrutura, o início do caminhar, o olhar para a distância.

Líder em Caraíbas e circunvizinhança, Oscar Araújo Costa era casado com a elegante e altiva Umbelina Miranda de Araújo, mais conhecida como D. Bela, que com ela construiu base familiar e política sólida e respeitável.

A liderança política de Oscar foi-se transferindo paulatinamente para o filho José Juvenal de Araújo, cuja história de vida e dedicação à causa do município de Chorrochó é sobejamente conhecida e não comporta nenhum acréscimo.

O livro História de Chorrochó, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e do Dr. Francisco Afonso de Menezes traz merecida homenagem ao grande líder popular e ex-prefeito José Juvenal, falecido em 2015.

Noutro livro, Dorotheu: caminhos, lutas e esperanças, de autoria deste escrevinhador, deixei lançado o registro: à semelhança de Oscar, José Juvenal tinha qualidade inquestionável de lidar com aliados e adversários e isto lhe sustentou politicamente durante muito tempo.   

Com a morte de José Juvenal, que deixou uma rica e inquestionável estrutura política e eleitoral, é inevitável constatar que sua liderança foi-se transferindo para os filhos Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que foi vice-prefeita – e, salvo engano, integra o secretariado municipal de Chorrochó – e o irmão Oscar Araújo Costa Neto.

Sheila e Oscar Neto continuam ostentando razoável influência na atual administração do prefeito Humberto Gomes Ramos que, se tiver juízo, os manterá ao seu lado, até por gratidão.      

Contudo, vale destacar que a família Araújo sempre teve, em seus quadros, outra liderança respeitável, embora se tenha mantido discreta e modesta: Marina Maria de Araújo Menezes.

Marina foi casada com o serventuário da Justiça da Bahia, José Eudes de Menezes, lídimo integrante dos Menezes de Chorrochó, homem de caráter irrepreensível, insuspeito defensor da moral e dos bons costumes chorrochoenses, herança do pai Eloy Pacheco de Menezes.

Abro parêntese, para registrar, com orgulho, que fui amigo de José Eudes de Menezes (Iê). Muito aprendi com ele, que me habilitou a enfrentar as peripécias da vida, que entendia muito bem. Emociona-me lembrar de nossa convivência.

Marina sempre teve grande participação na vida local, na condição de professora e coordenadora das escolas do município, assim como na condição inconteste de defensora da cultura do município de Chorrochó.       

Neste contexto, Marina Maria Araújo Menezes participou, com muito empenho, de importantes eventos do município, que se firmaram no calendário local.

A organização inicial da festa dos vaqueiros, que hoje é tradição, teve sua decidida contribuição, assim como melhorias no sistema educacional à época atrelado a formas antigas de ensino.

A história de Chorrochó contou com sua participação decisiva na idealização da Bandeira do Município, o que fez na condição de Coordenadora Municipal de Educação, cargo que exercia à época.

Marina determinou a confecção da Bandeira, o que não é pouco no cenário cultural de Chorrochó. Decisão perene, culturalmente enraizada na defesa das tradições locais.

Marina Araújo sempre atuou politicamente ao lado de José Juvenal, com admirável fidelidade à liderança do irmão e, em certas situações, serviu como ponto de apoio diante da iminente tendência da família em dividir-se politicamente, aparando arestas desnecessárias.

Sua sábia atuação evitou que se alterassem a coesão, o entendimento e o espírito de civilidade entre os familiares em determinado momento político de Chorrochó.

Com o desaparecimento de alguns membros da família Araújo, inclusive Maria Pequena e José Juvenal, Marina Araújo despontou como uma liderança natural nos próximos movimentos políticos chorrochoenses e, como tal, será capaz de somar com as novas lideranças, como por exemplo, Adriana Araújo, a ex-vereadora Rafaela Araújo, os filhos de José Juvenal, ambos admiravelmente presentes e atuantes na vida do município.
                      
O fato é que Caraíbas se mantém na política de Chorrochó através da família Araújo, não obstante a liderança inconteste de Barra do Tarrachil. Marina Maria de Araújo Menezes faz parte desta espinha sobre a qual devem se firmar as decisões políticas.

Doravante, sem nenhuma sombra de dúvida, ela será ouvida, consultada e respeitada tanto em anos eleitorais quanto fora deles e passa a ocupar uma espécie de matriarcado importantíssimo na vida política de Chorrochó. 

Nas futuras eleições municipais, certamente Marina Araújo será obrigatoriamente consultada por todos os interessados em construir o xadrez político de Chorrochó.  

Como se vê, o legado deixado por Oscar Araújo Costa se estendeu à história de Chorrochó como um todo.

Difícil apagar a marca e a estrutura política familiar de Oscar Araújo Costa.

araujo-costa@uol.com.br

A direita caricata e a CPI dos imorais

É forçoso reconhecer que nosso presidente da República abriga-se no covil da direita caricata e não tem filtro de consciência quando quer dizer o que pensa, de modo que não se sabe exatamente o que pensa ou se pensa.

Também é inevitável reconhecer que senadores que beiram à delinquência criaram a CPI da Covid-19, com o intuito escancarado de se servirem dela como palanque eleitoral antecipado com vistas às eleições de 2022.

Há pesquisa realizada pela imprensa atestando que quase todos os integrantes da CPI pretendem se candidatar a governador em seus estados. Alguns já estão rompidos com os atuais governadores ou são seus adversários.

Óbvio ululante que não é necessária uma CPI composta de hipócritas para apurar a incompetência do governo federal, com vistas ao combate à pandemia do coronavírus.

Os exemplos de descaso estão aí, claros, indubitáveis, estapafúrdios.

O presidente da República pouco ou nada fez para evitar o alastramento da doença, seu ministério da Saúde quedou-se de forma vergonhosa no que tange à viabilidade da vacina para imunizar a população e, mais, do que isto, o chefe do governo nunca omitiu sua opinião de desdém em relação à pandemia, ressalvada a liberação de recursos aos estados e municípios, que nunca dificultou, para enfrentarem a pandemia.

Em quadro assim, pra que CPI? Para apurar o óbvio?

Não pode ser séria, em nenhum aspecto, uma CPI que tem como membros os seguintes senadores, para citar apenas alguns. Os suplentes também navegam no mesmo barco da hipocrisia.

Renan Calheiros (MDB-AL): carrega nas costas nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal, alguns deles versando sobre corrupção e lavagem de dinheiro.

Este mesmo Renan Calheiros – que hoje ameaça prender depoentes na CPI – é o mesmo honestíssimo senador que foi acusado de receber dinheiro de um lobista da empreiteira Mendes Júnior, para sustentar uma jornalista de Brasília, sua amante.

“Em troca, o senador apresentava emendas que beneficiaram a construtora”, segundo fartamente noticiado na época pela conhecida grande imprensa, a mesma grande imprensa que hoje o afaga e lhe faz cafuné.

Dentre outras acusações espelhadas em investigações em andamento, pesa sobre os ombros de Renan Calheiros, a acusação de que ele recebeu R$ 1,3 milhão da Odebrecht, a título de propina, em troca de benefícios relacionados às obras de construção do Canal do Sertão, em Alagoas.

Humberto Costa (PT-PE): responde a um escabroso inquérito no Supremo Tribunal Federal, mas a bem da verdade, tem sido até comedido e educado em sua atuação na CPI, talvez porque já foi saco de pancada no governo petista. Suspeito de receber R$ 1 milhão da Odebrecht, parece ter se livrado recentemente da acusação por decisão do próprio STF.

Omar Aziz (PSD-AM): o presidente da CPI está às voltas com uma investigação e, por conta dela, chegaram a ser presos três irmãos e sua esposa, todos acusados de desvio de recursos destinados à saúde do Amazonas, quando o senador era governador daquele estado.

Hoje o senador Omar Aziz se vê moralmente habilitado para ser presidente de uma CPI que, inclusive, apura desvio de recursos públicos da saúde. Dá para acreditar?

Eduardo Braga (MDB-AM): responde a um inquérito e a uma ação cautelar no Supremo Tribunal Federal. Muito deselegante com os depoentes que comparecem à CPI, tenta demonstrar ser impoluto e de boa reputação, o que não parece ser o seu caso;

Ciro Nogueira (PP-PI): responde a cinco inquéritos no Supremo Tribunal Federal. É investigado por suspeita de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha;

Os demais integrantes da CPI, Eduardo Girão (Podemos-CE), Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO), Otto Alencar (PSD-BA), Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e Tasso Gereissatti (PSDB-CE) não respondem a inquéritos no Supremo Tribunal Federal, por enquanto.

Entretanto, contra o espevitado Randolfe Rodrigues, que se acha o suprassumo da honestidade, há um passado nebuloso.

Quando era do Partido dos Trabalhadores (PT) e deputado estadual no Amapá (1999-2002) foi acusado de receber “mensalinho” de R$ 20 mil, do então governador João Capibaribe, para votar a favor do governo estadual. Total da bufunfa: R$ 156 mil.

À época circularam até recibos supostamente assinados pelo próprio Randolfe, que provariam o recebimento da propina.

Roberto Gurgel, procurador-geral da República na ocasião, que não conhecia o PT, achou tão estranho e inocente um parlamentar passar recibo de propina, que arquivou o inquérito. Elevou Randolfe ao céu dos honestos.

No folclore do propinoduto nacional, só há dois casos conhecidos e hilários de supostos corruptos que assinaram recibos de propina: Lula da Silva (caso Odebrecht/Instituto Lula) e Randolfe Rodrigues (caso mensalinho do Amapá).  

São esses “puríssimos, sérios e honestos” senadores, acima de quaisquer suspeitas que, arrogantes e do alto de suas hipocrisias, constrangem e ameaçam de prisão depoentes que prestam esclarecimentos à CPI da Covid-19 e se acham aptos para investigarem eventuais transgressores da lei.

Transgressores investigando transgressores.

O plantio de peroba deve aumentar muito.

Esses indecentes e imorais vão precisar de muito óleo.

araujo-costa@uol.com.br

Fragmentos de Chorrochó

“Para enxergar longe é preciso despregar os olhos de si mesmo” (Nietzsche, 1844-1900, O crepúsculo dos ídolos).

Em tempo de cartões de crédito, bancos digitais e outros emaranhados mais, que os burocratas da economia mundial criaram, chega a ser tarefa difícil explicar para pessoas dos grandes centros urbanos, que ainda há comerciantes que vendem sem exigir nada assinado do devedor, em confiança no freguês. 

Por este Brasil de meu Deus, que os políticos ainda não conseguiram acabar, faz-se negócio apalavrado, sim senhor.

A garantia de pagamento da dívida é a palavra do freguês, que o comerciante acredita sem pestanejar. E só, somente só.

Esse costume ainda faz parte da cultura nordestina, principalmente, em qualquer rincão e em quaisquer quebradas do sertão.

Meu irmão, que mora lá no Riacho da Várzea, nas caatingas curaçaenses de Patamuté, me contou que estava precisando de uma bateria para sua camioneta, que há dias estava em baixo de uma árvore, por falta de dinheiro para o conserto necessário.

O Riacho da Várzea, para quem não é daquele sertão, é um afluente temporário que serpenteia entre cactos e terra da caatinga esturricada até desembocar no Rio São Francisco.

Sem dinheiro – e acanhado – procurou, meio sem jeito, Manoel Gomes de Menezes, da Mercearia Menezes, em Chorrochó.

Não sei se a mercearia, que evoluiu para mercado, ainda carrega esse nome, mas o certo é que à época vendia de tudo ou quase tudo.

Nezinho de Hermógenes, como o conhecemos desde o principiar de sua atividade comercial, ainda muito jovem, no início da década de 1970, é um senhor decente, honesto, trabalhador, bom caráter, prestativo e humilde.

Admiravelmente humilde.                                                            

Acanhado homem da caatinga, meu irmão levou o assunto da bateria ao ilustre comerciante Nezinho que, de pronto, lhe propôs vender uma bateria nova, como se diz por lá, novinha em folha.

Encostado ao balcão, o interessado lhe disse que não tinha dinheiro. A rigor, estava ali para consultar o preço, coisa e tal e quando pudesse voltaria para comprá-la ou encomendar.

Convenhamos, para um aposentado da caatinga, que vive em meio aos cactos e debaixo do sol escaldante, tratava-se de valor razoável, que ele não dispunha, beirando mesmo a impossibilidade.

Nezinho lhe disse, de chofre: “Pode levar, depois você me paga”.

Assim foi feito. O leitor não imagina, para o sertanejo necessitado, o que significa ouvir uma expressão dessas, num momento de dificuldade extrema: “Pode levar, depois você me paga”.

Em última análise, significa carregar consigo dupla gratidão: tanto pelo crédito concedido quanto pela consideração. O sertanejo preza mais as amizades do que as relações de negócios.

É gratidão que o caatingueiro leva para o túmulo.

O cronista às vezes se perde e se acha ao mesmo tempo. Mas continua no caminho, andando em direção ao tempo, tropeçando nas vicissitudes e contando histórias que colheu nas esquinas da vida.

Este assunto vem a propósito de uma conversa que este escrevinhador travou com um amigo sobre o clima geral de desconfiança por que todos nós passamos nestes tempos modernos.

Ninguém confia em ninguém.

Nas metrópoles, até o aceno e o cumprimento de um desconhecido nos faz recuar, desconfiados.

Não sei se meu irmão já pagou o valor da bateria para o atencioso comerciante de Chorrochó, ou se continua na caderneta dos fiados de Nezinho de Hermógenes, pendurada, ao modo antigo.

Nezinho é uma daquelas pessoas de caráter irrepreensível, que “desprega os olhos de si mesmo” e que encontramos na vida e nos pequenos e breves encontros que se agigantam.

araujo-costa@uol.com.br

O sorriso também deixa cicatrizes

Comumente as cicatrizes são vistas através do lado mais cruel, o sofrimento.

Contudo, elas são marcas deixadas ao longo do tempo e, como tais, também podem resultar de alguma face do caminhar que não seja somente sinais de tristeza.

As nódoas que se agarram ao nosso viver quase sempre decorrem de tropeços, perturbações que a vida nos permitiu experimentar, mas o passado também teve alegrias, sorrisos, flores no jardim.

A preparação para o envelhecimento pressupõe que caminhemos devagar com as tristezas, sem esquecer as alegrias do passado e, sobretudo, com a altivez do presente.

Somos possíveis hoje e isto nos basta.

As escolhas irreversíveis, o amoldar da consciência, as amizades, as dores e as descobertas fizeram parte da construção de nossos mistérios.

Lágrimas e risos emolduraram o viver até aqui.   

Passamos o tempo conjecturando formas de viver. Isto faz parte dos sonhos, da ambição de enxergar mais longe.

A efemeridade da vida encurta o tempo, corrói as forças e torna mais distante o ápice que pretendemos alcançar. Entanto, seguimos. E a razão maior do caminhar é a esperança.  

Até o amor que sentimos às vezes parece fraquejar. “Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor”, dizia o padre Vieira. Mas é preciso força, disposição para a luta, mesmo que ela nos pareça inglória.

Caminhar, sempre.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam assim, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande, os tropeços da vida, a poeira que não conseguiu sacudir.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente, disse: “Rapaz, me perdi, tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa e despedi-me mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da certeza da velhice. Chorar nesses momentos é muito fácil. Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, as músicas que ouvíamos em tempo de serestas.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida. Confessou-me lhe terem escapado as esperanças.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes.

São Bernardo do Campo, outono de 2021.                                             

araujo-costa@uol.com.br      

ACM Neto coloca João Dória no limbo

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, 1902-1985)

Arrogante, pernóstico, truculento, despreparado, petulante e vaidoso, João Dória tem todas as qualidades para ser inspetor de quarteirão em tempo de ditadura e nenhuma para ser governador do mais importante estado da Federação.

O governador-pavão de São Paulo e embusteiro-mor da República baixou a crista depois que a recente pesquisa Datafolha o colocou, num dos cenários, em 5º e último lugar na disputada para presidente da República.

A opinião pública o empurrou para o último lugar e o arrastrou para a insignificância.

João Dória se diz “o líder da oposição ao presidente da República, hoje”. Ao ouvir essa asneira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, também do PSDB, deve dar sonoras gargalhadas.

Pelo que se vê, o despreparado governador de São Paulo se esqueceu de combinar com Lula da Silva e com o Partido dos Trabalhadores (PT).

Não precisa ser inteligente, nem especialista em política, para saber que o líder da oposição a Bolsonaro hoje é o petista Lula da Silva e não João Dória, como apregoam o arrogante governador paulista e seus assessores.

Tendo em vista o despreparo político de João Dória, que vem desde 2020 engendrando situação para contar com o apoio do Democratas (DEM) na disputa pela presidência da República, agora parece claro, embora em política não se possa dizer nada com clareza e em definitivo, que não é bem assim.

Antonio Carlos Magalhães Neto (ACM Neto), ex-prefeito de Salvador e presidente nacional do Democratas (DEM) declarou que “o DEM não tem nenhuma disposição de discutir 2022 com João Dória. Descartamos conversar com o governador sobre 2022”.

Atrapalhado e inexperiente, João Dória meteu os pés pelas mãos e não costurou nada, simplesmente porque nada entende de costura política. Ao contrário, está espalhando possíveis aliados.

Já disse neste Blog que, por falta de experiência, João Dória vai implodir o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Dito e feito.

O processo de implosão começou ano passado.

O comedido ex-governador Geraldo Alckmin está em rota de colisão com João Dória, que é um forasteiro em se tratando do PSDB. Forasteiro e sem noção de conjunção e circunstância política.

Incapaz de conviver com pessoas mais experientes, João Dória criou caso com Alckmin porque, na condição de governador, se acha no direito de mandar até nos líderes políticos de São Paulo.

Geraldo Alckmin faz parte dos dez primeiros filiados do PSDB. É fundador histórico do partido.

Incomodado com a atuação de João Dória, Alckmin já sinalizou que vai deixar o partido. E se deixar, João Dória perde o apoio de grandes lideranças paulistas em sua aventura de disputar a presidência da República.

Deve continuar no limbo, por enquanto, como quer ACM Neto.

João Dória quer apressar o rio. Ele não sabe que o rio corre sozinho.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, a soberania moral de Luiz da Ema

Amigo sempre atencioso e que considero muito, Marcones Reis deu-me a notícia do falecimento de Luiz Pires Monte Santo (1938-2021), de Várzea da Ema.

Luiz Pires Monte Santo era filho de Antonia Tolentino e Manoel Pires Monte Santo – que tiveram oito filhos – e tinha raízes em Várzea da Ema, município de Chorrochó, onde fincou bases políticas e familiares.

Luiz Pires era sobrinho de Antonio Pires de Menezes (Dodô), também de Várzea da Ema, que foi prefeito de Chorrochó no período de 1971/1973.

Em 1988, Luiz Pires Monte Santo disputou a eleição para prefeito de Chorrochó com o apoio do ex-prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes, tendo Ariçon Gomes de Souza, de Barra do Tarrachil, como companheiro de chapa, na condição de vice.

Luiz Pires Monte Santo reclamava do estado de precariedade do município de Chorrochó, sem estradas, ainda que vicinais, escolas em estado de abandono, sem carteiras e sem material didático e professores mal remunerados.

A assistência médica era deficiente e não havia investimentos nas áreas de educação, saúde, transporte e demais serviços públicos, o que não mudou muita coisa.

José Evaldo de Menezes (1943-2020), político de grande expressão no município à época, deu-lhe respeitável sustentação eleitoral, o que não foi suficiente para assegurar a vitória de Luiz Pires.

José Evaldo concorreu, na mesma eleição, a uma vaga na Câmara Municipal.

Luiz Pires perdeu a eleição para João Bosco Francisco do Nascimento, de Barra do Tarrachil, apoiado pelo prefeito e líder respeitável José Juvenal de Araújo, mas continuou na vida pública.

Mais tarde, salvo engano deste escrevinhador de memória já esburacada, Luiz Pires foi vice-prefeito de Paulo de Tarço Barbosa da Silva (Paulo de Baião) no período de 1993/1996.

Sempre consultado politicamente, em razão de sua envergadura moral, Luiz Pires Monte Santo representava uma reserva de soberania moral de Várzea da Ema e deixa bons exemplos de caráter e conduta irrepreensível.

Deixo este registro da vida de Luiz Pires Monte Santo como forma de reverenciar sua memória.

Post scriptum:

Penitencio-me por eventuais erros de data, nomes e informações. Em respeito à história, o leitor pode, se quiser, apontar as incongruências do texto e pedir as necessárias correções, o que será feito prontamente.

araujo-costa@uol.com.br