A esquina do tempo e outras esquinas

“Quando o mundo fecha uma porta, Deus abre uma janela. Quando o mundo fecha as portas e as janelas, Deus derruba as paredes” (Lídia Vasconcelos).

Em meio às madrugadas perdidas – Foram tantas! São tantas! – tenho refletido sobre a fragilidade a que chegamos até esta quadra de nossa sociedade cruel, difícil e indiferente.

Espaçam-se as certezas entre as amizades que tivemos ao longo do tempo e as que ficaram ou o que resta delas.

Amizades também fracassam. Isto é o que atestam o burburinho e o fervor da juventude e a frieza cruel do amadurecimento.

Ficaram as boas amizades, que perduram, se ainda não se foram em direção à finitude da vida.

Ouvi muitas vezes reflexões parecidas sobre portas e janelas fechadas, repetidas por um amigo, em meio às incertezas de nossa mocidade.

Em Chorrochó, o amigo Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó, para os amigos e Corró, para o irmão Ernani do Amaral Menezes), que não está mais por aqui, deixou-me algumas reflexões.

Foi-se antes do combinado, como se diz no interior de São Paulo, mas as frases que ele tanto dizia e repetia sobre o andar da vida continuam cutucando a saudade e dilacerando meus momentos, quando me recolho à solidão.

Nunca esqueci essas reflexões nos momentos de tropeços, que foram muitos, são muitos, continuam sendo muitos.

Lembro alguns amigos. Muitos deles conhecidos nas esquinas da vida e no ziguezaguear do tempo.

Todos nós temos uma esquina em nossa vida. Se não é esta, mais próxima, será aqueloutra, mais distante e nem por isto menos importante.

Eu tive muitas e ainda as tenho. Em Patamuté, ao lado da casa de José Henrique de Souza, que também abrigava o Cartório do Registro Civil e não mais existe; em Chorrochó, a do desaparecido Bar Potiguar; em Curaçá, a do Teatro Raul Coelho; em Salvador, Rua Chile e Praça Castro Alves; em Petrolina, Rua Maurício Vanderley; em Juazeiro, Rua Coronel João Evangelista; em Santo André, Rua Brás Cubas; em Mauá, Rua D. José Gaspar; em São Bernardo do Campo, a esquina da Alameda D. Thereza Cristina, em frente ao meu antigo escritório.

Nas esquinas encontramos os amigos – ou aqueles que se dizem ser – colocamos a conversa em dia, sabemos da vida dos outros e, lá também, sabem da nossa. Espairecemos a sisudez da vida e construímos, às vezes, parte de nosso estado de espírito cultural.

Esquinas deveriam ser patrimônio cultural.

Esquinas costumam ser pontos para jogar conversa fora. Nelas se juntam jornalistas, escritores, políticos, estudantes, boêmios, curiosos, desocupados em geral e outros circunstantes.    

Há notícias boas e más nas esquinas. Foi numa esquina que, décadas atrás, abri o jornal e vi meu nome na lista de aprovados no vestibular da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.

Hoje isto não tem nenhuma importância, parece pouco, uma coisa vulgar, até visto como narcisismo, mas naquele tempo eu havia me mudado do interior do Nordeste para uma metrópole desconhecida, muito pobre e carregando sonhos, muitos sonhos. Não mudei muito. Continuo pobre e sonhador.

Havia estudado em escola pública do meu sertão da Bahia e, passando a viver em São Paulo, era o coroamento de uma trajetória humilde e difícil. Uma trajetória que começou na Fazenda Bom Jardim com a primeira professora Graziela Ferreira da Silva, depois na Escola Estadual de Patamuté (saudade da dileta professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes), passou pelo então Colégio Normal São José, de Chorrochó e, mais tarde, pelo Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de minha querida e distante Curaçá.

Também foi numa esquina, no interior de São Paulo, que um telefonema me alcançou e recebi a notícia da morte de minha mãe, momento muito difícil e dilacerante, talvez a primeira vez que me senti fragilizado ao extremo. Um desespero inominável e inexplicável.

O tempo também constrói suas esquinas. São as esquinas da reflexão e da sabedoria, para entendermos as quedas do caminho, os tropeços, o misturar da poeira, o esvoaçar das cinzas.

Surge da queda a grandeza para enfrentarmos as adversidades e há também a esquina para mostrar o horizonte e divisar as luzes da alvorada.

As esquinas da vida também se prestam para muitas outras coisas, inclusive para servir de assunto para uma crônica de saudade e entender que as amizades também fracassam ou desaparecem.

 araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó recupera prédio histórico da Prefeitura

Prédio-sede da Prefeitura de Chorrochó/foto Assessoria de Comunicação da Prefeitura.

Humberto Gomes Ramos, prefeito do município de Chorrochó, sertão da Bahia, em data recente, determinou a realização dos serviços de recuperação do antigo prédio-sede da Prefeitura Municipal.

Trata-se de reivindicação que parte da população vinha fazendo há anos, tendo em vista o valor histórico da construção.

Ademais, o estado de abandono da construção depunha contra seguidas administrações municipais.

Situado na área central da cidade, o prédio foi construído em 1962 por Dorotheu Pacheco de Menezes, segundo prefeito eleito de Chorrochó, para abrigar a sede da Prefeitura.

Lá, durante décadas, forjavam-se as decisões do município gestadas no Poder Executivo e também se realizavam as sessões da Câmara Municipal numa época em que o município ainda engatinhava em busca de seu destino.

O prédio vinha sofrendo inaceitáveis sinais de deterioração. Tornavam-se visíveis os reflexos sobre a história de Chorrochó, incompatível com a altivez de seu povo e com o declínio e decadência de seus valores culturais.

A Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Chorrochó, através do conspícuo e atencioso Edilson de Oliveira Maciel, informou a este blog que no prédio recuperado passaram a funcionar os seguintes órgãos da Municipalidade: Secretaria de Agricultura, Secretaria de Infraestrutura, Secretaria de Obras e o Departamento do INCRA, além de outras atividades correlatas.

O atendimento ao público no local dá-se, em dias úteis, das 08:00 às 14:00 horas.

A julgar por informações adicionais obtidas por este blog de outras fontes, presume-se que a Prefeitura de Chorrochó dará prosseguimento à reforma do prédio em referência, de modo a compatibilizá-lo com o slogan da atual gestão: Um novo tempo, Uma nova história.

A este Blog, que sempre defendeu mais atenção das autoridades do município em relação à história do lugar, cumpre fazer o registro desses primeiros e necessários sinais de recuperação do antigo prédio da Prefeitura.

Em consequência, este Blog torce para que a atual gestão de Chorrochó, além de suas metas administrativas já traçadas, passe a enveredar por seguros caminhos, em direção à sedimentação dos valores culturais e históricos do povo chorrochoense.

araujo-costa@uol.com.br

Políticos parasitas e embusteiros

“Parasitas necessitam de ruínas que os façam crescer”(Nathaniel Hawtorne, escritor americano, 1804-1864).

O lulopetismo deu um chute violento nas costas do Brasil e o empurrou para o despenhadeiro.

Os escombros provenientes da queda se transformaram nas ruínas que conhecemos: ruína moral, ruína econômica, ruína social, ruína política e outras tantas.

A sociedade ficou mais desamparada, em razão da incursão da corrupção nas ações dos governos petistas, de modo que ser corrupto no Brasil passou a ser normal, normalíssimo e até sinônimo de elitismo.

O PT institucionalizou a corrupção que, a bem da verdade, sempre existiu desde o colonialismo português.

Se assim não fosse, não veríamos o triste espetáculo em que o Supremo Tribunal Federal dedica todo o seu tempo em desmoronar os alicerces de defesa da moralidade pública.

Os exemplos estão aí escancarados, inegáveis, incontrastáveis. Os ministros do Supremo não têm o menor pudor em demonstrá-los, por uma razão muito simples: no Brasil manda quem tem poder, mesmo que não tenha moral.

“Que país é este? ” – Perguntaria o arenista da ditadura militar Francelino Pereira.

Os processos judiciais que envolvem contumazes ladrões do dinheiro público aportam no Supremo Tribunal Federal com o intuito de que o STF absolva os envolvidos e mande-os de volta para suas sofisticadas mansões. Sempre dá certo. Sempre tem dado certo.

No Brasil, furtar pouco dá cadeia brava, mesmo em se tratando de furtos famélicos, quando, por exemplo, o miserável em desespero, surrupia um pacote de biscoito do supermercado para alimentar seus filhos que se retorcem, em casa, com o estômago vazio. Esse é trancafiado no cárcere e até, em certos casos, morre lá.

Ao contrário, furtar milhões e até bilhões de dinheiro público, dá status e garantida absolvição, com direito ao acobertamento da conduta delitiva do delinquente pela Justiça que tem o dever de fazer Justiça, mas não faz.

Pior: o Supremo Tribunal Federal ampara essa conduta de políticos e agentes públicos corruptos, que passam a ostentar o título de pessoas irrepreensíveis diante da sociedade brasileira que elas assaltaram.

Em 2018, as urnas entregaram os destinos do País a uma parte da direita destrambelhada e incapaz de mostrar à população que os governos anteriores foram corruptos e quebraram o Brasil.

Há exemplos claros, inegáveis, incontestáveis, vergonhosos.

Dona Dilma Rousseff passou o Brasil para Michel Temer com aproximadamente 14 milhões de desempregados.

Hoje a esquerda contrariada, imbecilizada e desonesta diz que o desemprego é fruto da incompetência do governo Bolsonaro.

Outro exemplo: Lula da Silva permitiu a abertura de créditos para as pessoas de baixa renda financiarem eletrodomésticos, móveis para guarnição de suas residências e tudo o mais que necessário fosse, o que, em suma, não estava errado.

Todavia, Lula da Silva não engendrou com seus banqueiros amigos, que mandam na economia, regras capazes de impossibilitarem a negativação dos nomes dos inadimplentes, que caíram nessa situação por falta de emprego e em razão do sucateamento da economia nacional, fruto da desastrada política petista.

Resultado: hoje, há no Brasil,  60 milhões de pessoas negativadas, em números aproximados, com “o nome sujo”, porque, sem emprego e renda, não conseguiram pagar as prestações que Lula da Silva dizia, irresponsavelmente, ser a redenção dos pobres.

Lula da Silva lavou as mãos, deu de ombros aos pobres e hoje tem a cara de pau de criticar a situação econômica do Brasil, não obstante ter permitido a dilapidação dos cofres públicos montado no mensalão, petrolão e outras maracutaias que tais.

Mais: obcecadamente de olho nas eleições de 2022, Lula da Silva não considera a pandemia do coronavírus, que dilacerou a economia mundial.

Lula demonstra nítido desrespeito à inteligência dos brasileiros, que ele quer reconquistar e/ou mantê-los como seus eleitores.

Moral da história, em consequência: ressurgem e/ou aparecem os embusteiros, os “salvadores da Pátria”, dentre eles o ex-governador cearense Ciro Gomes, lulista enrustido, que adora uma mamata; Lula da Silva e seus conhecidos velhacos, cujo proceder todos conhecemos; João Dória, embusteiro-mor da República; ex-ministros traíras do atual governo, a exemplo de Sérgio Moro, de caráter duvidoso; Luiz Mandetta, que embora bom sujeito, está se perdendo na vaidade; e até aventureiros apresentadores de televisão, que entendem de administração pública tanto quanto entendem de suas privadas.  

O que se vê, neste cenário, é que as ruínas em que o Brasil se encontra servem de alicerce para os parasitas e embusteiros crescerem.

E crescem à medida em que o governo Bolsonaro patina na forma de conduzir os destinos nacionais.

Sobra muita canalhice aos políticos que faltam com seriedade e respeito aos brasileiros que, em sua maioria, está passando fome.

araujo-costa@uol.com.br   

A estrada da Igreja de Chorrochó

Igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó

O brevíssimo papado de Albino Luciani – 33 dias – patriarca de Veneza, que se tornou Papa João Paulo I em 1978, deixou aos católicos consideráveis lições de humildade, marcas daquele pontificado.

O então patriarca de Veneza se incomodava com as pessoas que estavam na Igreja para criar problemas e deixou esta frase lapidar:

“Parece que algumas pessoas só olham o sol à procura de manchas”.

Tenho acompanhado, dentro do possível, o caminhar da Igreja de Chorrochó nos últimos tempos e até escrevi esparsos artigos que se perderam por falta de importância ou em razão da corrosão produzida pelo tempo.  

Caiu-me às mãos a letra do Hino de Senhor do Bonfim de Chorrochó, composição do Dr. Francisco Afonso de Menezes e música de Isael de Jesus.

O Hino passou a ser entoado nas procissões de entrada das novenas de Senhor do Bonfim, a partir de 2017, ano de sua composição e se incorporou à história religiosa de Chorrochó e ao patrimônio cultural de seu povo.

A Igreja de Chorrochó prima por sua história e tem se esforçado em sedimentá-la. Vem contando, ao longo do tempo, com a dedicação e empenho de muitos dos seus filhos.

Assim pensavam todos quantos se empenharam no sentido de sedimentar as tradições embevecidas na religiosidade herdada dos antepassados que remonta a 1885, tempo de Antonio Conselheiro.

Dr. Francisco Afonso de Menezes se inclui entre aqueles que sempre estiveram atentos à Igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó. Não pertence àquelas pessoas que “só olham o sol à procura de manchas”.

Sempre somou, sempre acrescentou, sempre contribuiu com sua presença intelectual.

Dr. Francisco Afonso de Menezes engrandece o caminho da Igreja e compôs o mais retumbante Hino de louvor ao padroeiro Senhor do Bonfim, talvez a melhor contribuição que um filho de Chorrochó possa deixar para a posteridade.

Há outro Hino, que enriquece a Igreja de Chorrochó, também composto por Dr. Afonso em 2015 com música do mesmo Isael de Jesus: Hino do Jubileu do Apostolado da Oração, que será objeto, em breve, de outras considerações deste blog.

À guisa de registro, reproduzo a letra do Hino de Senhor do Bonfim de Chorrochó, ao tempo em que peço vênia ao autor para sugerir que viabilize o registro autoral do Hino, isto como intuito basilar tão-somente com vistas ao enriquecimento das tradições da Igreja de Chorrochó.

Ei-lo:

Hino ao Senhor do Bonfim de Chorrochó

Letra : Francisco Afonso de Menezes

Música : Isael de Jesus

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Esplendor de luz em Chorrochó  surgiu

Senhor do Bonfim – eis a nossa devoção 

Com os auspícios  de paz e de amor

Vinde a nós,  sois a nossa salvação 

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Glorioso Senhor do Bonfim

Nosso excelso Padroeiro imortal

Fazei-nos a Vossa vontade

E livrai-nos sempre do mal

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Vinde todos com santa alegria

A Jesus do Bonfim exaltar

Grande marco da nossa história 

Água viva a sede matar

……………………………………………………

Glorioso Senhor do Bonfim 

Nosso excelso Padroeiro imortal

Fazei-nos a Vossa vontade

E livrai-nos sempre do mal.

……………………………………………………

Em tudo cantamos Vossas glórias 

Gerações Vosso auxílio  vem buscar

Na certeza das graças divinas

Nossa luz Sois nosso caminhar.

………………………………………………………………

Termino dizendo que a beleza do Hino soma-se à grandeza de Senhor do Bonfim e suaviza a estrada da Igreja de Chorrochó.

Somos caminheiros, andantes incertos, peregrinos sujeitos às tempestades e ávidos por novos horizontes.

Precisamos ter fé. Reavivar a fé.  

araujo-costa@uol.com.br

Memória do PT

Gilson Menezes (1949-2020), baiano de Miguel Calmon, mudou-se para São Paulo aos 12 anos de idade. Seu primeiro emprego foi numa fábrica de peças de bicicleta no bairro do Ipiranga, na Capital.  

Sindicalista atuante no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (hoje Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), ao lado de Lula da Silva, que ainda era Luiz Inácio da Silva, Gilson Menezes foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e primeiro prefeito eleito pelo partido no Brasil.

Integrante da chamada esquerda democrática, Gilson Menezes elegeu-se prefeito de Diadema com 23.210 votos e passou a ser um símbolo do partido, que o PT deixou escapulir.

Em Diadema, na região do ABC, Gilson Menezes montou seu palco de luta e lá estruturou sua carreira política.  

Saiu do PT quando sentiu que o partido descambava para os vícios comuns às demais agremiações políticas e entrincheirou-se, em princípio, no Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Homem de princípios, Gilson Menezes morreu em fevereiro de 2020.

Abaixo uma entrevista que Gilson Menezes concedeu a Veja em 07/10/2016.

A entrevista serve para despertar os petistas mais jovens, que chegaram depois às fileiras do partido e desconhecem a história de seus primeiros idealistas.

Para aqueles petistas sonhadores, o dinheiro não devia ser a mola propulsora do partido, mas os ideais que o sustentavam. Como se vê, o PT mudou de rumo.

Gilson Menezes foi um desses sonhadores.

Havia muitos. Ainda há. Nem tudo está perdido.

https://veja.abril.com.br/brasil/hoje-tenho-vergonha-do-pt-diz-1o-prefeito-eleito-pelo-partido/

araujo-costa@uol.com.br

Resposta ao leitor

Lá dos confins do sertão do Nordeste, um leitor perguntou o que faço na vida.

Tanta coisa importante para se preocupar e ele vem logo querer saber da vida deste escrevinhador pé rapado.

É meu dever responder, equilibrando-me para não incorrer em narcisismo, que não é meu feitio.

Cavo a vida, o sustento, cutuco meios de sobrevivência, como a maioria dos brasileiros.

Subo e desço o caminho que escolhi, aos solavancos. Ladeiras difíceis e íngremes, descidas escorregadias, destino incerto, sonhos inabaláveis.

Às vezes escrevo essas baboseiras que alguns leitores gostam, outros nem tanto e muitos detestam. Faço-as na condição de jornalista responsável pelo blog https://www.araujocosta.blog

Ultimamente estou pensando em fundar uma associação de juristas, que está na moda.  

Fiquei animado, depois que o novel ministro do Supremo Tribunal Federal, Kássio Nunes Marques, concedeu liminar a uma associação de juristas que, embora parte ilegítima, nos termos da Constituição Federal, ingressou no STF com o intuito de questionar os decretos de governadores e prefeitos sobre assuntos da pandemia, mas ingressou e o sapiente ministro aceitou.

Não é preciso diploma de jurista para ser jurista. Conheço advogados saídos das cantinas das faculdades que andam por aí se dizendo juristas.

Pior: exigem que sejam chamados de Doutores, embora sequer tenham frequentado um curso de Doutorado.  

Portanto, acho que vou ser jurista. Com quatro décadas de exercício diuturno da advocacia, devo ter adquirido alguma experiência para, no mínimo, ser jurista.

Com todo esse tempo de intensa batalha, se não aprendi alguma coisa de Direito, então sou caso perdido. Devo ir para a baixa da égua.

Ser jurista é fácil. Ser advogado é difícil. Advogar é coisa séria. É o que faço ou, pelo menos, penso que faço.

Jurista, ao contrário, sai por aí, fundando associação, colhendo liminar de ministro do Supremo Tribunal Federal e ganhando dinheiro.

Então, já que alguns fundaram a associação de juristas, que o ministro Kássio Nunes Marques achou o máximo, por que eu, maltrapilho peregrino das caatingas baianas de Patamuté, também não posso fundar uma?

Portanto, curvo-me à minha insignificância e vou andando resoluto em direção ao desconhecido.

Pois é, caro leitor: é isto que faço na vida. E pretendo continuar, se Deus permitir.

No mais, agradeço pela leitura de meu textos.

araujo-costa@uol.com.br

O Supremo Tribunal Federal precisa se reinventar

“Em casa que todos ralham e ninguém obedece, tudo fenece” (Provérbio português)

Põe-se a questão: no Brasil não temos um Supremo Tribunal Federal composto de 11 ministros, como diz a Constituição Federal, mas 11 ministros vaidosos e arrogantes que, individual e monocraticamente vivem fomentando a insegurança jurídica.

Talvez o STF seja a única suprema corte do mundo em que a decisão monocrática de qualquer de seus ministros tem o condão de derrubar outra decisão sobre a mesma questão já resolvida, por maioria, em plenário.

Fácil explicar. Comumente as decisões emanadas do STF não se amparam na Constituição da República, como manda nosso ordenamento jurídico nacional, mas se fundamentam naquilo que cada ministro impõe, vaidosamente, mesmo que contrário aos ditames constitucionais.

Os exemplos são muitos, inúmeros, inegáveis, vergonhosos. Está aí a prisão após condenação em segunda instância. Estão aí os processos que envolvem o ex-presidente Lula da Silva, em que numa hora o STF diz uma coisa, noutra diz outra sobre o mesmo questionamento jurídico e os processos se arrastam como tantos outros que lá tramitam.  

É uma patacoada só, uma confusão só.

Exemplifiquemos mais: ano passado, o plenário do STF decidiu que os governadores e prefeitos têm competência, concorrente com a União Federal, para decidirem sobre confinamento (lockdown) e demais medidas que disciplinam, nesta quadra da pandemia, as restrições sobre atividades econômicas e atividades de toda ordem.

Essa decisão do STF até ocasionou o descontentamento do presidente da República. Jair Bolsonaro repete em toda oportunidade, exaustivamente, que o STF retirou do governo federal a competência de decidir sobre essas questões e passou tais atribuições para governadores e prefeitos.  

Parece que não é bem assim. O que o tribunal decidiu foi no sentido de que a competência dá-se entre todos os entes federativos, União, Estados e Municípios.

Se o plenário decidiu assim, assim deve ser. É inquestionável, segundo a lei e o regimento da Corte. Ou não é?

Entretanto, neste final de semana, o ministro Kássio Nunes Marques, laborando contra a decisão do plenário do tribunal, suspendeu a eficácia dos decretos dos governadores e prefeitos e autorizou a abertura dos templos para realização de missas e cultos, já a partir deste domingo de Páscoa.

O ministro Kássio Nunes Marques deu de ombro para o aumento gigantesco de mortes diárias em razão da covid-19 e também deu de ombro para as recomendações dos cientistas no sentido de que ainda não é o momento de afrouxar o distanciamento social.

Liberou geral, em todo território nacional. A decisão é liminar e pode ser atacada juridicamente no próprio Supremo.

Aqui não se trata de questionar o princípio da liberdade religiosa prevista na Constituição Federal. Trata-se de uma exceção, em tempo de pandemia, que não retira o direito à liberdade de religião, mas disciplina, temporariamente, a forma e os meios de exercê-lo.

Ademais, trata-se de saber se, em tempo de pandemia, os governadores e prefeitos podem ou não tomar decisões sobre restrições e quarentena, que o próprio STF disse antes que podem.

Mudou? O que mudou?

A decisão estapafúrdia do ministro Kassio Nunes Marques já ocasionou um quiproquó danado entre os demais ministros, que com ele não concordam porque, parece, o novel ministro arranhou a autoridade do plenário da Corte, sem necessidade.  

Aliás, brigas entre Suas Excelências são comuns no tribunal.

As estocadas que os ministros do STF costumam dar entre eles são mais apropriadas para frequentadores de botequim, já embriagados, em final de feira.

O ministro Marco Aurélio Mello, decano do STF, atacou Nunes Marques, nos seguintes termos:

“O novato, pelo visto, tem expertise no tema. Pobre Supremo, pobre Judiciário. Aonde vamos parar? Tempos estranhos!”.

Ainda bem que caiu a ficha do ministro Marco Aurélio, embora tardiamente. Se tivesse caído antes, ele não teria mandado soltar em outubro de 2020 um dos maiores traficantes do mundo, que em seguida fugiu do Brasil com alvará de soltura em punho expedido pelo STF.   

Pobre Supremo, pobre Judiciário.

A sociedade sabe disto há muito tempo. Os ministros do STF não sabem ou fingem não saber.

A sociedade sabe que o Poder Judiciário está infinitamente distante dos interesses dos brasileiros que pagam impostos, constroem o Brasil e sustentam as mordomias de Suas Excelências em todos os níveis.

O Supremo Tribunal Federal precisa se reinventar e deixar de ser uma casa que todos ralham.

A começar pela arrogância e vaidade de seus ministros.

araujo-costa@uol.com.br   

Chorrochó, Páscoa e lembrança

Há alguns anos li uma frase de James Taylor em que ele dizia que “o segredo da vida é desfrutar a passagem do tempo”.

A juventude dá-nos a utopia, os sonhos, o desejo de mudar o mundo, a vontade de vislumbrar horizontes promissores.

É aquela quadra do tempo em que o escritor Sérgio Granja diz: “A gente gasta a juventude na ilusão de transformar o mundo. Quanto se dá conta, já não sobra tempo para se adaptar a ele”.

A maturidade nos dá as preocupações, a necessidade de contornar as dificuldades, a tentativa de seguir adiante.

A envelhescência nos impõe o olhar para trás, o remoer da saudade, o analisar do tempo decorrido, nem sempre perdido, nem sempre desfrutado.

É o retrovisor da vida.

Parte de minha juventude vivi em Chorrochó, simpático município encravado no sertão da Bahia. Fiz parte da mocidade irrequieta do Colégio Normal São José.

Sou do tempo em que o prédio da Prefeitura, que o descaso de hoje transformou em ruínas, era o coração da cidade e o motor de suas decisões.

De lá às vezes vêm as notícias que não quero saber, mas preciso saber: a morte de amigos, pessoas queridas que turbinaram minha juventude de alegria e atapetaram meu caminho com as primeiras experiências.

Em datas recentes, foram-se José Evaldo de Menezes e João Bosco de Menezes, exemplos de vida e de caráter irrepreensível.

Neste tempo de Semana Santa, que as vicissitudes de agora não mais nos permitem vivê-la plenamente, recordo alguns pontos dessa passagem do tempo, em Chorrochó.

As vigílias da Quinta-Feira Santa na igreja de Senhor do Bonfim, em companhia da eterna professora Josepha Alventina de Menezes (D.Nilinha) hoje merecidamente nome de escola em Chorrochó.

D. Nilinha levava café, biscoitos e, algumas vezes, o refrigerante Fratelli Vita, que não mais existe.  

Saíamos da igreja mais leves, cônscios de nossa pequenez diante do sentido da vigília.

Hoje parece que não levamos Deus muito a sério e quiçá, por isso, a humanidade descamba e definha em seus escombros.  

Físico um tanto frágil, a grandeza de D. Nilinha estava no esteio de sua fé e no agigantamento da luta em defesa das tradições da igreja de Chorrochó, que remontam à fundação da Pia União das Filhas de Maria, que ela cuidava tão bem.

No sábado de Aleluia, em meio às brincadeiras folclóricas do Judas, destacava-se Francisco Arnóbio de Menezes, que alegrava o dia com seu espírito irreverente.

Espirituoso, Arnóbio preencheu, com a amizade, o sentido da vida de quantos com ele conviveram. Orgulho-me de ter sido, em algum tempo, um de seus interlocutores mais presentes.

Elegante, atencioso, gentil, incapaz de ofender qualquer pessoa, Arnóbio  completava aquele tempo de decência e convivência sadia em Chorrochó.

Uma das grandes qualidades de Arnóbio era saber ouvir e apreender, com segurança, o pensamento do interlocutor.

Penso que desfrutar a passagem do tempo significa, fundamentalmente, fincar-se na construção de amizades duradouras.

No meu caso, em Chorrochó, difícil citar todas, mas algumas continuam presentes naquele recôndito da alma e do tempo: Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, José Eudes de Menezes, José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Juracy Santana, José Juvenal de Araújo, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos (o querido “compadre Bilicinho”), José Claudionor de Menezes, Francisco Afonso de Menezes e tantos outros.

Feliz Páscoa a todos de Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br  

Deputados aumentam suas mordomias

Mesmo em tempo de pandemia, de brasileiros passando fome, de milhões de desempregados, mesmo neste caos por que passa o Brasil que se transformou em tragédia humana…

Às escondidas, sem estardalhaço, a Câmara dos Deputados alargou, sem nenhum pudor, as mordomias dos deputados federais.  

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, reajustou em 170,8% o valor destinado ao reembolso de gastos com saúde dos deputados federais. Passou de R$ 50 mil para R$ 135,4 mil.

Com esse maná – nenhum deputado subiu à tribuna para protestar ou recusar o agrado – a Câmara dos Deputados destinará R$ 135,4 mil para cada deputado fazer sua farra.

Alguém viu os demagogos deputados da esquerda protestarem ou recusarem essa vergonhosa mordomia?

Quando as benesses entram no bolso da esquerda ela fica muda.

Cadê os petistas, psolistas e outros istas mais, hipócritas e velhacos, que se dizem suprassumos da honestidade e defensores do povo?

Alguém viu algum deputado da direita jurássica protestar ou recusar a mordomia?

Mas certamente alguém viu deputados da esquerda, da direita, do centro e de outras posições políticas, dando entrevistas e dizendo que o governo não cuida dos pobres e dos mais necessitados.

Explica-se, embora não seja novidade para o leitor.

Quando nós, mortais comuns, ficamos doentes, procuramos as UPAs, os tradicionais prontos socorros ou postos de saúde da vida.

Isto porque somos bangalafumengas, sem importância, maltrapilhos da sociedade. Somos vistos como burundangas, coisas de pouca valia.

Ficamos horas nas filas dilacerantes, em macas pelos corredores dos equipamentos de saúde, sem remédios, sem vagas para internação, et cetera e tal.

Falta-nos tudo, principalmente respeito à dignidade de cada um.

Ao contrário, quando um deputado federal adoece – senador também – independentemente do lugar onde esteja, em Brasília ou em seu Estado de origem, embarca num jatinho particular ou fretado e vai se consultar ou se internar no Hospital Israelita Albert Einstein, no Hospital Sírio-Libanês, ou no Hospital Alemão Osvaldo Cruz, todos em São Paulo, para ficar em alguns exemplos de estabelecimentos Vips.

Aí é que entra o bom negócio para o deputado, o chamado reembolso que a Câmara dos Deputados aumentou para R$ 135,4 mil e disponibilizou para cada uma de Suas Excelências.  

O deputado apresenta a estratosférica conta hospitalar à Câmara dos Deputados e as demais despesas decorrentes e a Câmara paga, diligentemente. São as regras que eles mesmos criam em benefício próprio.

À nossa custa.

Observe-se, ainda, que a Câmara dos Deputados assegura plano de saúde, com cobertura nacional, para os deputados e dependentes e mantém o Departamento Médico na Câmara para atendimento a Suas Excelências.

Há casos registrados na Câmara dos Deputados em que deputados pediram reembolso de café da manhã, compra de aparelhos de medir pressão, compra de remédio para dormir e até despesas de acompanhante, entre outros absurdos.

Interessante é a expressão que a Câmara dos Deputados usou para justificar a concessão desse aumento esdrúxulo, vergonhoso, fora de hora e do contexto sanitário que o Brasil enfrenta: “inflação médica”.

A democracia tem disto e outras coisas mais que o povo paga sem tugir, nem mugir.

araujo-costa@uol.com.br

Ideais invertidos: o presidente Bolsonaro e a crise militar.

Manhã tensa de 12 de outubro de 1977.

O general Ernesto Geisel, penúltimo presidente da safra de 1964, convocou ao Palácio do Planalto o seu ministro do Exército, Sylvio Frota, general da linha dura, que vinha conspirando nos quartéis para derrubar o presidente.  

Sentado à cabeceira da mesa de despacho no Palácio do Planalto, às 8:30h, Geisel começou o ríspido diálogo:

– Eu estou incompatibilizado com você; solicite demissão.

– Não vejo razão para demitir-me, porque não me julgo incompatibilizado com o cargo, disse o general Frota.

– Mas o cargo é meu, ponderou Geisel.

– Cabe ao senhor demitir-me. Não pedi para ocupar o cargo.  

– É o que farei.

Ao despedir-se, cioso da autoridade presidencial, Geisel deu as últimas instruções ao ainda ministro Frota:

– Mantenha a unidade do Exército.

Às 16h, Geisel empossava o comandante do III Exército, general Fernando Bethlem, como ministro do Exército, em substituição a Sylvio Frota. De imediato, sem delongas, estrategicamente, para evitar reações do ministro demitido e seus apoiadores.

A crise acabou aí, por duas razões principais: Geisel tinha caráter e pulso firmes e era muito respeitado dentro das Forças Armadas e no ambiente militar como um todo. Não admitia que a autoridade presidencial fosse arranhada.

Em 1977, havia uma conspiração do ministro do Exército para derrubar o presidente da República, que foi prontamente debelada pelo presidente.

Geisel sinalizava com a abertura política “lenta, gradual e segura”, o que significava afrouxamento das regras do regime militar e a consequente devolução dos direitos e garantias individuais e constitucionais à sociedade, barbaramente suprimidos pela ditadura.

A linha dura do Exército, à frente Sylvio Frota, não aceitava o retorno ao regime democrático supresso em 1964 e queria a continuidade da ditadura e seus consectários, tal como vinha ocorrendo.  

Naquela quadra do tempo, parte do Exército comungava das mesmas ideias de Sylvio Frota, mas isto não era suficiente para que se operasse um golpe gerado nas entranhas do próprio governo.

Em 2021, dá-se exatamente o contrário: o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, que compõem as Forças Armadas, agasalhadas sob o manto do Ministério da Defesa, estão coesas, unidas, professando os mesmos ideais, quais sejam, o exercício da função constitucional e o necessário e quanto possível distanciamento político dos quartéis em assuntos de governo.

O presidente Bolsonaro, ao contrário de Geisel, em 1977, ostenta ideais invertidos. Pensa em endurecer o governo, mas não conta com o apoio das Forças Armadas. O contexto é outro, outra é a sociedade, outros são os quartéis.

Insatisfeito, principalmente com a posição do comandante do Exército, Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Não houve justificativas plausíveis para tanto. O ministro foi chamado ao Palácio do Planalto e surpreendido com a demissão.

Em consequência do gesto que beirou à infantilidade, o presidente Bolsonaro foi abalroado com o pedido de demissão simultâneo dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Criou uma crise desnecessária nos quartéis.

Noutras palavras, os comandantes militares colocaram os cargos à disposição, em solidariedade ao chefe e ministro da Defesa demitido. Esse fato seria normal, se normais fossem as circunstâncias que levaram à demissão do general Fernando Azevedo e Silva.

Bolsonaro vinha sinalizando seu descontentamento com o comandante do Exército e esperava providência do ministro da Defesa, que nunca veio. E não veio porque não havia razões para vir.

Então, o presidente da República optou pela demissão do ministro da Defesa. Convenhamos, um erro estratégico ou, no mínimo, de cálculo político divorciado de sabedoria governamental.

Na contramão do mundo, o presidente Bolsonaro parece entender que os regimes autoritários são ideais.

Como se vê, os ideais do presidente Bolsonaro estão invertidos no que tange ao pensamento das Forças Armadas.

Em tempo:

31.03.1964 – 31.03.2021: 57 anos do movimento que implantou a ditadura militar no Brasil.

Estranha coincidência com essa crise militar que o presidente Bolsonaro criou envolvendo as Forças Armadas.

araujo-costa@uol.com.br