João Dória agride a democracia

15.mar.2021 – Vagão de trem que leva pessoas de Itaquera até a Luz na manhã de hoje, em São Paulo. Imagem: Luís Adorno/UOL.

Democracia pressupõe também assegurar o direito de viver dos cidadãos.

São Paulo está jogado às traças, abandonado, espezinhado.

O governador João Dória (PSDB), na ânsia de se destacar nacionalmente, o que está sendo difícil, em razão da pequenez de seu pensamento político, negligenciou no tocante às medidas que seu comitê de acompanhamento do covid-19 vem recomendando muito antes das eleições municipais do ano passado.

João Dória diz uma coisa e faz outra. Exatamente porque não sabe o que fazer e lhe falta preparo para administrar o mais importante estado da federação.

Administrar um estado da grandeza populacional e pujança econômica de São Paulo não é para aventureiro, não é para qualquer um. E João Dória é um aventureiro atabalhoado, sem direção e sem rumo.

Semana passada São Paulo atingiu, em um único dia, 521 mortos por covid-19, contrariando a demagoga atuação do governador-pavão João Dória, que vem se vangloriando de estar cuidando bem da população – “salvando vidas”, diz ele – numa clara e indisfarçável demonstração de que se acha melhor do que os demais governadores.

Entretanto, o sistema de saúde paulista entrou em colapso. Faltam vagas em enfermarias e UTIs e já há casos de pessoas que morreram sem atendimento médico.

Em Mauá, simpática cidade do ABC, por exemplo, semana passada morreram três pessoas enquanto aguardavam vaga em hospitais. O quadro, hoje, deve ter aumentado.

Mui tardiamente, o governador paulista decretou severas restrições em todo o estado a partir de 15/03/2021, o que inclui a proibição do direito de ir e vir dos cidadãos, o que é inconstitucional.

Há um toque de recolher que nada recolhe, apenas dificulta o cotidiano de quem luta para alimentar sua família, pagar a conta de luz, a conta de água, o aluguel, comprar o remédio.

A elite continua leve e solta. João Dória quer assim. O pobre está confinado, passando fome.

João Dória transita entre a Flórida (EUA) e o sofisticado Jardim Europa, em São Paulo.

O governador mandou fechar estabelecimentos de toda ordem, qualquer que seja o porte, inclusive de prestação de serviços e até proibiu a prática de atividades religiosas.

Ordem mal elaborada, atabalhoada, ineficaz, inoportuna, tardia.

O transporte público continua apinhado de usuários, o que torna inevitável as aglomerações. A imagem acima é de hoje, 15/03/2021.

Nada o governador fez para disciplinar o funcionamento do transporte público.

Aliás, João Dória fez: retirou maldosamente dos idosos o direito da gratuidade da passagem, como se isto fosse a chave para acabar com o coronavírus.

Sequer o governador-pavão considerou que muitos idosos dependem do transporte público para comprar remédios e outras necessidades básicas do idoso.    

Em suma: João Dória está perdido. Não sabe por onde começar o ataque ao coronavírus, dificulta a vida dos trabalhadores e toma medidas absolutamente ineficazes.   

Mais do que isto, conta lorotas. Ou ele não obedece às orientações do seu comitê de cientistas ou precisa mudar esses assessores urgentemente.

Ou, ainda, precisa penitenciar-se e admitir que é incompetente e aliar-se ao presidente Bolsonaro, o que ele sabe fazer muito bem, porque a ele já se aliou em primeira hora e é difícil negar isto.

O direito de viver dos moradores de São Paulo está sendo severamente arranhado, em razão de negligência do governador paulista.

As restrições são necessárias, sim, desde que tomadas na ocasião certa, o que João Dória não fez e não o fez por conveniência política e por absoluta incompetência.   

Agora, com centenas de pessoas morrendo todos os dias, colapso do sistema de saúde e, sobretudo, incompetência do governador, parece que é tarde a adoção dessas restrições falhas e inconvenientes.

Não obstante esse caos por que passa São Paulo, João Dória teve a desfaçatez de criticar o governador do Rio de Janeiro, acusando-o de não estar atuando adequadamente contra a pandemia. Vontade de aparecer.

Arrogante e intrometido, João Dória recebeu a seguinte resposta do governador do Rio de Janeiro: “do Rio, cuido eu”.

E assim João Dória vai agredindo a democracia. Com cara de galo. Ou melhor, cara de pavão.

araujo-costa@uol.com.br

Em Patamuté, meu altar de admirações

Cota de Rita / foto Missão Geológica Alemã, 1969.

Tenho algumas pessoas em meu altar de admirações. Guardo-as em minha memória esburacada e faço referência até hoje, porque me foram importantes, caras, dignas, inesquecíveis.

Em Patamuté, meu rincão e meu orgulho, lembro Mário Matos Lopes, João Brandão Leite, Nicolau Cordeiro, Antonio Ferreira Dantas Paixão, José Henrique de Souza (Zeca Babau), Israel Henrique de Souza e outros mais que constam em meu caderno de consideração.

Outros mais: José de Souza Alcântara (Zé Lulu), Demerval de Souza Alcântara (Taxú), João Pedro Cunha (Didi Cunha), Francisco Ferreira Vital, que me ensinou regra de três e que até hoje tenho dificuldade de aplicá-la e quando aplicá-la, et cetera.

Ah! como tem et ceteras!

Mais ainda: Osmário Matos Torres (meu padrinho de batismo), Adonai Matos Torres e tantos outros.

Algumas senhoras de lá, que também foram minhas amigas, deixo para outra crônica, que será breve, mas não posso deixar de declinar hoje, em razão da saudade, Julieta Alcântara, Ambrosina Matos, Raquel do Carmo Paixão, Dudu de Moraizinho e Cota de Rita, que me ensinaram a enfrentar os primeiros tropeços da vida em Patamuté.  

Amizades naquele tempo tinham valor, muito valor, perduravam e se firmavam na memória indelevelmente.

A geração de hoje não tem ideia do quanto era dignificante manter amizades com as pessoas mais experientes. Elas nos davam a segurança e indicavam o caminho para a realização de nossos sonhos de jovens frágeis e utópicos.  

Mas hoje falo de Cota de Rita, minha companheira de conversas e idas ao chamado Serrote de Patamuté, catar umbu.

“Vamos de madrugada, as cabras levantam mais cedo e comem todos antes que a gente chegue”, dizia a experiente Cota de Rita.

Atravessávamos o riacho Paredão ao amanhecer e dividíamos com as cabras os umbus orvalhados caídos ao chão entre pedras e candeias.

Esta crônica é encimada por uma foto de Cota de Rita à janela de sua casa, como costumeiramente fazia.

Figura conhecidíssima em Patamuté, a Missão Geológica Alemã (MGA) registrou essa foto que foi publicada no Relato de uma viagem, elaborado pelo Serviço de Imprensa da Embaixada da Alemanha no Brasil.

A Missão Geológica Alemã (MGA) esteve em Patamuté estudando o solo no Sítio de Chicó, com vista à prospecção de cobre, em parceria com a SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste).

A publicação é de 1969.

O Jornal Folha de S. Paulo enviou o correspondente especial Pedro D’Alessio à região, experiente jornalista que publicou brilhante reportagem sobre Patamuté, sua gente, dificuldades, perspectivas e esperança.

A missão instalou equipamentos para sondagens profundas no Sítio de Chicó e registrou algumas imagens de Patamuté.

A população de Patamuté desconhece até hoje os resultados de tão sofisticada operação e o que isto representou para o lugar.

Chicó era irmão de Antonio Ferreira Dantas Paixão, líder político e comerciante em Patamuté.

Devo acrescentar, por último, que essas amizades que cito persistem em meu sentimento de gratidão.

araujo-costa@uol.om.br

Cadeia para os mortos

O Supremo Tribunal Federal (STF), esse subterrâneo de vaidades, acaba de inventar mais uma instituição no sistema penitenciário brasileiro: a cadeia para os mortos.

O ministro Edson Fachin, o mesmo que estendeu tapete vermelho para os donos da JBS, anulou todas as condenações de Lula da Silva decretadas pela 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, em razão de deslavada disputa contra o seu colega de tribunal Gilmar Mendes.

Até aí, nenhuma novidade. É sabida a animosidade que existe entre alguns ministros do STF que lá estão brincando de fazer Justiça – o que eles menos fazem – e vivem se engalfinhando.

Entretanto, neste caso de Lula da Silva, parece razoável entender que a decisão do ministro Edson Fachin é técnica e processualmente bem amparada, embora tardia e inexplicável.

É sobejamente conhecido, que desde 2016, os advogados de Lula da Silva arguiram a incompetência do então juiz Sérgio Moro para processar e julgar o ex-presidente. Sem êxito.

Insistentes recursos se sucederam e a Justiça negou ou não apreciou todos os pleitos dos advogados.

Qualquer primeiranista de Direito sabe que a competência daquele juiz de Curitiba para processar e julgar tais processos aflorava-se gritantemente desconforme a lei processual penal.

Mas os magistrados entendiam de forma diversa e não explicavam o porquê, exatamente em razão de não haver explicação jurídica sustentável.

Quem tem o poder tem tudo. O poder da caneta é assustador. E mais assustador, quando na mão de juízes arrogantes, vaidosos e que se acham intocáveis e inatingíveis.  

Em sede de Habeas Corpus impetrado pela defesa de Lula da Silva, em trâmite na 2ª Turma do STF, que se compõe de cinco ministros, em que figura como presidente daquela turma o ministro Gilmar Mendes, a defesa insiste na suspeição do arremedo de juiz Sérgio Moro.

Sérgio Moro, além de vaidoso e ingênuo, pensa que entende de Direito e há quem acredite.

Aprendiz de estrategista, Sérgio Moro nada sabe de estratégia. Aprendiz de político, nada entende de meandros da política, quer partidária, quer como ciência.

Os livros de História vão dizer que Sérgio Moro foi muita coisa, menos Juiz de Direito na acepção correta da palavra.

Gilmar Mendes sinalizou que colocaria em julgamento o Habeas Corpus impetrado pelos advogados de Lula da Silva, com grande chance de o ex-juiz Sérgio Moro ser declarado suspeito relativamente às ações que julgou, envolvendo a Petrobras.

O veredicto desse julgamento ainda desconhecemos. Está pendente, o processo suspenso.

Resultado da suspeição, se confirmada: todos os processos julgados pelo ingênuo Sérgio Moro relativamente a eventuais vínculos dos acusados com a Petrobras serão declarados nulos, com resultados impensáveis, por enquanto.

Todos os condenados – mais de cem, salvo melhor juízo – entrariam com recursos para anular suas condenações.

Se têm direito, devem exercê-lo em sua plenitude. Assim dizem a democracia e o estado de direito dela decorrente.

Aí é que entra a vaidade de Edson Fachin contra Gilmar Mendes. Fachin se antecipou e decretou a nulidade de todas as condenações de Lula da Silva para, segundo parece, tentar salvar as demais e muitas operações da Lava Jato, muitas delas viciadas pela atuação arrogante e atabalhoada de seus procuradores e do então juiz Sérgio Moro.

Petista declarado e admirador de Lula da Silva, não é demais lembrar o veemente discurso que Edson Fachin fez na campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT) em favor Dilma Rousseff. Está gravado, registrado, inegável.

Deu certo. Dona Dilma o indicou ministro do Supremo Tribunal Federal.

O ministro Edson Fachin ainda não explicou, nem conseguirá explicar decentemente, porque tomou essa estapafúrdia decisão e porque, sendo relator da Lava Jato, não decidiu antes sobre esse fato tão juridicamente relevante.

Por que só agora?

A pergunta mais necessária é esta: por que ele, na condição de relator dos processos da Lava Jato no STF não fez isto antes, conforme exaustivamente requerido pelos advogados do ex-presidente Lula da Silva?

Consequência lógica e natural da decisão do ministro Fachin, se o plenário do STF não a derrubar: as ações contra Lula da Silva voltarão à estaca zero. Começará tudo de novo, como se nada houvera: depoimentos, oitiva de testemunhas, colhimento de provas, perícias, análises de documentos, oferecimento de denúncia, et cetera.

Pelo andar da carruagem da Justiça, da primeira à última instância e tendo em vista o direito de defesa previsto na Constituição da República, considerados os recursos previstos na lei processual penal, quando a decisão final sair, Lula da Silva e outros condenados que eventualmente forem beneficiados pela decisão do vaidoso ministro Edson Fachin já serão falecidos, ou estarão por volta de cem anos, porque esse trâmite, no mínimo, durará anos, quiçá décadas.

No caminho vão-se operando as prescrições.

Lula da Silva e todos os envolvidos nesses processos da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba têm renomados advogados, porque dispõem de grande lastro financeiro, mesmo que adquirido ilicitamente, mas isto não vem ao caso.

Antes que mal me interpretem, desejo vida longa para Lula da Silva – é até divertido ouvir suas lorotas – e para todos os condenados pela Lava Jato que estão nesse imbróglio.

Mas quando essas condenações saírem – se saírem – as penas não poderão mais ser aplicadas por absoluta ineficácia.

O Supremo Tribunal Federal acabou de criar a cadeia para os mortos.

Post scriptum:

“Além das sentenças que somavam 29 anos de prisão em regime fechado, nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, Lula também foi condenado a pagar multas que chegam a R$ 1,78 milhão. Com a decisão de Fachin, as multas também foram anuladas” (O Antagonista/Crusoé).

araujo-costa@uol.com.br

A mansão da discórdia

Crédito da foto: Jornal O Estado de S. Paulo.

Quem escreve, jornalista ou não, às vezes tem de dizer o óbvio. E o óbvio aqui é o seguinte: não é proibido e nem pecado ser rico.

Entretanto – e sempre há um entretanto – a riqueza e seus sinais exteriores devem provir de fontes lícitas, dentre as quais, lastro em bens de família, suor do próprio rosto oriundo do trabalho e, até, proveniente de loterias, para quem acredita em seriedade de loterias, o que não é o caso deste escrevinhador.

Sabe-se que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) vem de classe média. Sabe-se, outrossim, que entrou na política muito jovem, eleito deputado estadual em 2002.

Permaneceu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até 2018 quando ascendeu ao Senado Federal.

Agora a imprensa noticiou – e o senador confirmou – que Sua Excelência comprou uma mansão em setor nobre de Brasília por R$ 5,97 milhões. Entrada de R$ de R$ 2,87 milhões e financiamento de R$ 3,1 milhões firmado com o Banco Regional de Brasília, com taxas diferenciadas, o que não é comum aos demais mortais deste querido e altaneiro Brasil.

O senador desembolsou mais R$ 182 mil com imposto de transmissão e emolumentos de cartórios.

Nada de mais, não fosse o salário líquido do senador girar em torno de R$ 24,9 mil e a prestação da mansão em 18,7 mil por mês, donde se conclui que Sua Excelência tem outras fontes de renda que amparam a prestação mensal, sem comprometer os meios de sobrevivência familiar. 

Nada de mais, não fosse também tratar-se de figura pública que deve prestar contas à sociedade e cingir-se aos ditames da ética pública.

Há outros questionamentos nesta história, a exemplo de o tabelião que lavrou a escritura do imóvel ter omitido, em certidão, os dados do senador comprador e do vendedor, o que não é previsto na Lei de Registros Públicos, mas esta é outra história, embora nebulosa, que aqui não vem ao caso.

O que se pergunta é: como o senador Flávio Bolsonaro, oriundo de classe média e tão jovem atingiu esse padrão de vida estratosférico, simplesmente lastreado em seus vencimentos de parlamentar?

É estranho, é esquisito. Mas somente ele pode explicar, se quiser explicar.

A aquisição da mansão do senador Flávio Bolsonaro em setor nobre de Brasília (setor de mansões Dom Bosco) pode estar conforme a lei e isto não se duvida, mas cabe ao senador, na condição de homem público, provar sua idoneidade moral à sociedade que está com a pulga atrás da orelha, mesmo que isto acrescente grande pitada de ingrediente político.

É direito da sociedade saber. É dever do senador explicar.

araujo-costa@uol.com.br     

O Poder Judiciário e os juízes delinquentes

“Brasil de ontem e amanhãDai-nos o de hoje, que nos falta” (Ruy Barbosa, 1849-1923)

É comum e até frequente, em todo o Brasil, desembargadores e juízes serem processados, afastados das funções, aposentados compulsoriamente e até presos, em razão da prática de crimes no exercício da honrosa função jurisdicional.

Os casos assombrosos vão desde venda de sentenças e decisões judiciais afins até outra infinidade de crimes tipificados nas leis penais e capazes de assustar até mesmo o mais esperto e perigoso dos delinquentes.

Em data recente, foram presos quatro desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro (TRT) pela prática de corrupção ativa e passiva, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Como se vê, esses arremedos de magistrados, que enxovalham o Poder Judiciário, devem ter passado todo o tempo de exercício da judicatura ocupados em urdirem formas de arrebanhar dinheiro ilícito em direção aos seus bolsos.

Isto envergonha todos os brasileiros decentes que veem no Poder Judiciário, às vezes erroneamente, a única e última solução e o amparo necessário para muitas das injustiças que lhes afligem em nossa sociedade desigual e cruel.

A quantidade de magistrados delinquentes em todo o País é assustadora. E muitos deles ainda se arvoram em paladinos da honestidade, da hombridade, da decência e da retidão de caráter. Mais: são arrogantes.

À semelhança dos antigos cavaleiros andantes, esses magistrados se dizem defensores dos oprimidos.  

Além de hipócritas, esses magistrados são criminosos que se igualam a centenas de presidiários, muitos deles até condenados injustamente, com uma diferença: os pobres criminosos apodrecem nas cadeias e os ricos delinquentes ficam soltos em suas mansões.

Os delinquentes do Judiciário desfrutam de outra vantagem vergonhosa: o corporativismo abunda nos tribunais e a punição esvai-se como cinza ao vento.

No Rio de Janeiro, dentre os acusados, estão o presidente do Tribunal Regional do Trabalho e um ex-presidente do mesmo TRT, todos corruptos, conforme sustenta a Procuradoria-Geral da República.

Somente um deles, o “articulador do grupo”, segundo as investigações, teria recebido a bagatela de R$ 3,6 milhões de propina.

Esses e outros criminosos da mesma espécie se escudam na toga para espezinhar a sociedade, que lhes paga salários e mordomias. Ao invés de exercerem a magistratura com dignidade, cometem crimes.

Uma realidade que se vê com frequência, infelizmente.

Este é o escandaloso e deprimente retrato de parte do Poder Judiciário que nos julga, que se encontra aos pedações e está sucumbindo a esta vergonhosa realidade incompatível com a Justiça.

O Poder Judiciário, em parte, está de cócoras.

araujo-costa@uol.com.br       

O flagrante perpétuo que o Supremo inventou

“O medo instaurou-se como poder no País” (jornalista e escritor Flávio Tavares, in Memória do Esquecimento)

Não é nenhuma novidade para os operadores do Direito e grande parte da sociedade que o Supremo Tribunal Federal se tem arvorado na condição de legislador e criado “leis” que não existiam no ordenamento jurídico nacional e passaram a fazer parte da bagunça de normas que o próprio Supremo instalou em nossa combalida República.

O Supremo Tribunal Federal fomenta a insegurança jurídica.

O exemplo mais solar é a prisão em segunda instância, que a Constituição da República veda inequivocamente e os ministros do STF autorizaram essa barbaridade, mas tiveram que recuar, depois do imbróglio que envolveu a prisão do ex-presidente Lula da Silva, de resto amigo pessoal de alguns dos ministros de nossa subida Corte.  

Ficaria feio não recuar. Ficaria feio deixar Lula preso ilegalmente e aqui não se discute o mérito da condenação do ex-presidente (se culpado ou inocente), mas a prisão indevida, que não podia prosperar, porquanto ainda com uma série de recursos interpostos pela defesa e pendentes de julgamento.

Ninguém será preso, enquanto não houver trânsito em julgado da sentença penal condenatória, diz a Constituição Federal.

Agora, outro problema criado pelo STF: a prisão dita em flagrante e por crime inafiançável do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ).

Primeiro é bom desanuviar as interpretações e as paixões políticas. O retro aludido deputado foi grosseiro, estapafúrdio e inconveniente. Feriu a honra de alguns ministros do STF e, por extensão, jogou no ralo o decoro parlamentar.

O deputado fluminense deve ser punido, se não com a cassação do mandato parlamentar, que não sabe exercer, ao menos com uma reprimenda judicial. É um destemperado incompatível relativamente ao Poder Legislativo.

O deputado vomitou palavras duras contra ministros da Suprema Corte. Aquilo não podia ser dito sequer contra o menor dos juízes. Sabemos que há juízes grandes e juízes pequenos, mas isto não nos autoriza a ofendê-los.

Todavia, o que se discute aqui é o corporativismo exacerbado que o Supremo Tribunal Federal deixou às claras.

Por unanimidade, que raramente existe em suas votações, os ministros referendaram a prisão do deputado decretada ilegalmente por Sua Excelência o ministro Alexandre de Moraes.

Tudo leva a crer que a unanimidade foi combinada. O ministro Alexandre de Moraes consultou primeiro os colegas sobre a decretação da prisão e, para inglês ver, submeteu a seguir o ato prisional ao plenário do Tribunal até por imposição regimental.

Tudo já estava acertado entre eles, tanto que os senhores ministros não fundamentaram seus votos, apenas concordaram com a prisão e disseram que depois juntariam seus votos ao processo, fato que não é incomum, desde que em situações normais .

Isto se deveu à pressa, ao atabalhoamento do momento, a ânsia dos ministros de mostrarem a decisão para a imprensa, imprensa de resto ávida por linchamento contra aliados do governo federal. Deu certo.

A prisão do deputado feriu frontalmente o artigo 53 da Constituição Federal. O deputado não podia ser preso em flagrante e, menos ainda, por crime inafiançável.

Não houve flagrante. Não houve crime inafiançável.

“Deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por qualquer de suas opiniões palavras e votos”. Ressalve-se que os excessos devem ser considerados e punidos na forma da lei.

O Supremo Tribunal Federal entendeu que tudo isto é verdade, está na Constituição, desde que palavras e opiniões ditas por deputados não sejam endereçadas aos membros do STF.  Em sendo, aí é outra coisa, muda de figura.

Elogio pode.

Entretanto, o absurdo maior na prisão do deputado foi o flagrante inventado pelo STF: o Tribunal entendeu que o vídeo do deputado estava nas redes sociais e isto caracteriza flagrante permanente.

O precedente é perigoso. Perigosíssimo.

Qualquer brasileiro que, por exemplo, há dez anos, tenha postado um vídeo ou um texto nas redes sociais considerado ofensivo a uma autoridade que se acha intocável, estará sujeito a ter sua prisão em flagrante e por crime inafiançável decretada por qualquer juiz de primeira instância, mesmo que dos rincões mais distantes.

Mais: Suas Excelências transformaram a liberdade de opinião em crime inafiançável.

Ou seja, os ministros do Supremo Tribunal Federal acabaram de inventar o flagrante perpétuo, permanente, inextinguível.

Há absurdo legal maior?

Noutras palavras: os ministros do STF rasgaram o artigo 53 da Constituição Federal, o Código Penal, o Código de Processo Penal e leis extravagantes correlatas.

O Supremo Tribunal Federal se acostumou a se imiscuir nos assuntos dos outros poderes da República (Legislativo e Executivo), de modo que a teoria da separação dos poderes idealizada pelo filósofo francês Montesquieu (1689-1755) e adotada em todo o mundo civilizado não existe para os atuais subidos ministros de nossa Suprema Corte.

O Supremo Tribunal Federal precisa entender que o poder de seus ministros não é absoluto.

Os ministros do STF precisam de freios, de humildade, de menos vaidade, menos arrogância e mais vigilância da sociedade.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó: Joãozito, uma saudade

“Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza, uma amargura e uma coisa externa que não está no meu poder alterar” (Fernando Pessoa, 1885-1935)

O tempo corrói em silêncio. Assim, a saudade. Assim, a dor da saudade. Assim, as lembranças, que se abancam e nos cutucam no dia a a dia.

Noticiou-se o falecimento de João Bosco de Menezes (Joãozito), honrado e digno filho de Chorrochó.

Joãozito vinha de estirpe exemplar. O pai Dorotheu Pacheco de Menezes e a mãe Izabel Argentina de Menezes (D. Biluca), exemplos de esteio de vida da sociedade de Chorrochó.

Inobstante as palavras de São Francisco de Assis, segundo o qual “é morrendo que se vive para a vida eterna”, a morte sempre representa uma tragédia que dilacera, rompe cruelmente os laços da existência e nos deixa atônitos e impotentes diante da realidade irreversível.    

Em Chorrochó, Joãozito representava a cordialidade, a afabilidade, a generosidade, a decência.

Joãozito era incapaz de melindrar, de ofender, de menosprezar qualquer pessoa. Era avesso a tudo isso.

Convivi com Joãozito algum tempo e guardo boas lembranças de seu comportamento sereno, educado e grandioso. Discreto, limitava-se ao seu mundo e de sua família, sempre indiferente às maldades e pequenezas da vida.

Caráter irrepreensível, Joãozito se agigantou diante de todos à medida em que foi deixando dignificantes traços de convivência sadia e socialmente responsável.

Não posso alterar a tristeza, a amargura, o vazio, a certeza da finitude, nem há nenhuma força de gesto suficiente para amenizar a dor da família. Resta-me tão-somente a solidariedade.

Registro aqui a saudade de Joãozito e deixo pêsames à família: Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, Pollyana Menezes Correia, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Virgílio Ribeiro de Andrade e todos do esteio familiar.

araujo-costa@uol.com.br

PSDB: a diferença entre a decência e o caráter

Ano passado, não vai muito longe, escrevi neste mesmo espaço – e agora isto se confirma – que o governador-pavão de São Paulo vai implodir o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

O processo de desmoronamento do partido já começou. João Dória deu início à derrocada da agremiação e levará com ele os escombros de sua inexperiência política.

João Dória arvorou-se, fora de hora, como único habilitado para ser o presidente nacional do partido e, de maneira arrogante e abominável, próprio de seu estilo, lançou e encabeçou um movimento baseado em São Paulo, para destituir o atual presidente e ocupar o lugar do dirigente.

Aliás, João Dória já tentou, sem sucesso, a expulsão do deputado mineiro Aécio Neves, que lhe faz sombra no partido. É possível que João Dória entenda que não há espaço no PSDB para dois embusteiros.

João Dória pretendia assumir o comando do PSDB para adquirir cacife com intuito de percorrer o País e viabilizar sua candidatura a presidente da República em 2022. Esqueceu-se de “combinar com os russos”.

Não deu certo. A Executiva Nacional vislumbrou a malandragem baixa de João Dória e, mais que depressa, amparada no regimento, aprovou por unanimidade, a recondução do deputado pernambucano Bruno Araújo à presidência nacional do partido.

João Dória ficou atordoado com a surpresa e a retumbante derrota que lhe foi imposta.

O problema de João Dória é a flexibilidade de caráter. Na ânsia de ser presidente da República saiu atropelando colegas de partido e correligionários e engendrou uma farsa insustentável segundo a qual o PSDB precisa fazer oposição ao governo Bolsonaro e ele deve ser o esteio dessa oposição.

Entretanto, sua clara intenção é tão-somente assumir o poder federal, sabe-se lá com que intenção, já que é inegável admirador de decisões autoritárias e seu péssimo governo em São Paulo tem mostrado isto indubitavelmente.  

O certo é que, para fazer oposição a Bolsonaro, o PSDB não precisa que João Dória determine o que deve ser feito.

Petulante e pernóstico, ele acha que o PSDB gira em torno dele.

No fundo, oposição a Bolsonaro é um elemento secundário para o governador-pavão de São Paulo. Se assim não fosse, ele não teria subido em palanques para tecer constrangedores elogios a Jair Bolsonaro em 2018, com o intuito de eleger-se governador de São Paulo à sombra do então candidato a presidente, que hoje renega e que à época a popularidade estava em alta.

A mente obsessiva de João Dória só vê uma coisa: ser presidente da República. Não importam os caminhos para chegar lá. E os caminhos, por enquanto, não parecem ser os mais recomendáveis.

João Dória revelou-se falso, embusteiro, interesseiro e, sobretudo, desleal politicamente.

Mas voltando ao início, aconteceu o que João Dória não esperava. O PSDB o rejeitou liminarmente e grande número de próceres do partido indicou o decente governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, para disputar a presidência da República em 2022.

No mínimo haverá prévias para definirem o candidato do partido em 2022, o que arranca de João Dória seu desejo autoritário de comandar o partido e se lançar candidato a presidente da República, como se o partido fosse uma propriedade dele e o único capaz de concorrer dentre tantos outros nomes, de resto mais respeitáveis que ele.

João Dória é o Lula da Silva II.

De qualquer modo, a eleição presidencial está distante.

O governador Eduardo Leite, jovem político de 35 anos, demonstra-se decente, equilibrado e avesso a qualquer tipo de narcisismo, ao contrário do governador de São Paulo, que se pavoneia a mais não poder e se acha o máximo dentre todos os demais políticos do Brasil.

Se, depois, por composição de membros do partido ou quaisquer circunstâncias que levem João Dória a ser o candidato do PSDB a presidente em 2022, isto representará, sem dúvida, a vitória do mau-caratismo sobre a decência.

O Brasil está carente de homens públicos sérios e João Dória certamente não é um deles.

A diferença de caráter entre o governador do Rio Grande do Sul e o governador de São Paulo é abismal.

araujo-costa@uol.com.br

O PT chega aos 41 anos

“Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo” (San Tiago Dantas, 1911-1964).

O Partido dos Trabalhadores (PT) chega aos 41 anos.

É inegável que o PT foi fundado com nobreza de propósitos, porque assim pensavam seus fundadores. Entretanto, muitos deles abandonaram o barco quando perceberam que o partido estava à deriva e rumando em sentido contrário às convicções que defendiam.

Insta acentuar que isto ficou evidente tão logo o PT assumiu o poder da República, nos primeiros anos de Lula e sinais do mensalão e com o surgimento de outras práticas antes condenadas pela agremiação.

Em 10/02/1980, o PT nasceu errado. Com grande apoteose, foi fundado nas dependências do tradicionalíssimo e centenário Colégio Nossa Senhora de Sion, frequentado pela elite quatrocentona paulistana.

Naquele dia, ali tinha de tudo: intelectuais exaltados, esquerdistas frustrados, sonhadores, líderes bem-intencionados, ex-presos políticos, opositores ferrenhos da ditadura militar e ingênuos de toda ordem, et cetera. Menos trabalhadores.

O simbolismo não podia ter sido maior. Lula diz até hoje, com todas as letras e até com uma ponta de orgulho, que nunca os banqueiros e a elite empresarial do Brasil ganharam tanto dinheiro como nos dois mandatos dele.

Com o tempo, o PT foi arrebanhando ativistas da esquerda católica, profissionais liberais e marxistas de alto costado, de forma que atingiu robustez suficiente para sustentar-se por longas décadas, como principal voz da esquerda.

O fôlego do PT ainda não acabou. Está longe disto. Ele tem estrutura e estofo para liderar o pensamento da esquerda no Brasil e carregar com ele outros partidos satélites, por muitos anos.

O PT também lidera grande massa de seguidores que sequer entende o que é ideário partidário. São os fanáticos lulistas e outros milhares que foram beneficiados com benesses, cargos públicos, mordomias e posições de destaque nos governos petistas.

São os deslumbrados que, à época dos governos petistas, gastavam com regabofes, jatinhos, viagens nababescas, hotéis, bebidas caríssimas e outras inacreditáveis coisas mais.

Em seu aniversário de 41 anos, o PT vive às voltas com o maior de seus dilemas: readquirir a confiança de milhões de trabalhadores e de grande parte da juventude que migraram para outras bandas, em razão do desmoronamento moral do partido.

Lula da Silva criou a polarização “nós” e “eles”, uma imbecilidade, sem dizer exatamente onde estão, distanciou-se arrogantemente de outros partidos e hoje, contraditoriamente, quer reaproximar-se desses segmentos que ele mesmo espezinhou.

O fato é que, com o passar do tempo, o PT foi-se desviando de seu ideário e descambou para a vala comum dos demais partidos comumente inchados de inescrupulosos, aproveitadores, mentirosos e meliantes ávidos por cargos públicos. Muitos deles conseguiram seu intento sob a égide petista.

Outro dilema do PT é a incapacidade de desatrelar-se do morubixaba Lula da Silva. O partido não consegue construir ou vislumbrar outra liderança nacional capaz de substituí-lo e possa assumir a candidatura presidencial em 2022, exceto se Lula indicar.

O PT é Lula. Sem Lula o PT é uma estátua corroída pelo tempo e pelas más ações do partido.

Vaidoso, Lula da Silva dificulta o caminhar do PT com suas próprias pernas. Ele determina com que e com quem o partido deve seguir para retomar o poder que jogou para o alto, em razão de ter priorizado as práticas abomináveis de nossa história política.

Fora da prisão, mas não livre, a estratégia de Lula da Silva foi lançar o maior número possível de candidatos nas eleições municipais de 2020 para lastrear a eleição presidencial de 2022.

O exemplo de 2016 gritou fundo nas entranhas do partido. O desempenho do PT nas eleições municipais daquele ano foi um descalabro em todo o Brasil.

Em São Bernardo do Campo, berço do partido, o PT sequer conseguiu reeleger vereador um dos filhos do ex-presidente que tinha mandato na Câmara Municipal.

Inegável é que, com o passar do tempo, o PT foi-se desviando de seu caminho e descambou para a vala comum dos demais partidos abarrotados de dirigentes inescrupulosos, aproveitadores, mentirosos, meliantes.

Daí para passar às páginas policiais foi um passo, situação que ofuscou o protagonismo do partido e levou alguns de seus dirigentes ao cárcere.

Deu no que deu: Lula da Silva, sua maior liderança, foi-se caindo no despenhadeiro das incertezas jurídicas e, seguramente, decepcionou parte dos brasileiros que nele acreditavam.

Lula nega seus desvios éticos, mas parece não ser o caso de continuar tapando o sol com a peneira.

Como dizia San Tiago Dantas, “nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo”.

Lula levou a malícia ao extremo. Seguirá líder, mas um líder capenga, desacreditado, inclusive por um grande número de pessoas que antes o admiravam.

Mesmo laborando na hipótese de que Lula da Silva possa ser absolvido, em fase recursal, em todos os processos, não há mais como ele e o PT recuperarem a credibilidade do patamar anterior aos governos petistas. Serão sempre vistos como raposas no galinheiro.

A presidente nacional do PT, destemperada e engajada na tentativa de desmoralizar as instituições nacionais, mormente Poder Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público, vomita impropérios a cada vez que abre a boca. É um mau exemplo.

Até petistas convictos vêm discordando do discurso piegas da direção do partido. Entendem que o discurso de perseguição alardeado pelos dirigentes não cola mais. E a direção do partido não sabe mudar de estratégia, ou por falta de inteligência ou por cara de pau mesmo.

O PT sabe que errou. Entretanto, não pode exteriorizar sua derrocada, para não desencorajar a militância desinformada e admiradores. Faz um discurso inverso, sem base fática, difícil de convencer, às vezes delirante.

Em consequência, a cada dia fica mais escancarado que o PT não prima pela verdade, mas por tudo aquilo que lhe interessa, principalmente dinheiro e poder.

O partido foi ávido por cargos em todos os níveis e posições da República, mas se descuidou de seu maior patrimônio: a ética.

O inventário de 41 anos do PT apresenta um amontoado de resultados abomináveis, entulhos de radicalismo e, sobretudo, falta de compromisso com a ética, que tanto defendeu.

Todavia, o PT não está isolado neste imbróglio de desfaçatez e lama. Estão aí os outros partidos políticos que lhe fazem companhia, igualmente desmoronados sob o ponto de vista ético. São aliados espertos, comparsas, malandros, velhacos.

A explicação para tudo isto é simples: o PT abandonou o caminho que idealizou e abraçou o fisiologismo, a avidez por posições e cargos, a ânsia pelo poder, o radicalismo, o apoio a ditaduras cruéis.

O PT faz 41 anos. Aniversário triste, macambúzio, insignificante.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva insiste em Haddad.

A semelhança entre Lula da Silva e Ciro Gomes é o copo.

A diferença é que, em estado etílico, Lula desanda-se a contar lorotas e a disputar com Deus para saber quem dos dois é mais poderoso no Universo. Deus sempre ganha, mas a ficha de Lula nunca cai.

Lula tem mágoa de Pedro Álvares Cabral. Não concorda que o navegador português tenha tirado dele a oportunidade de descobrir o Brasil.

Entretanto, Lula da Silva é um animal político inofensivo e, portanto, não se deve levá-lo a sério quanto aos destemperos, lorotas e afirmações inverossímeis que ele costuma dizer.

É o jeito dele, sempre foi assim.

Erros e eventuais desvios de conduta de Lula, enquanto presidente da República, são coisas diferentes, que aqui não vêm ao caso.

Ciro Gomes, ao contrário, em estado etílico, fica violento, agride Deus, o diabo e o mundo e já saiu por aí, tarde da noite, determinando aos desavisados que se atreviam a usar o direito de ir e vir:  “circulando, circulando, circulando”.

Outra feita, litro de uísque em punho, também à noite, enfrentou um grupo de pessoas que certamente não concordava com sua linha política.

À moda dos antigos inspetores de quarteirão, Ciro Gomes confunde poder com arrogância.

Mas a diferença mais robusta entre Lula e Ciro Gomes é que Lula é fiel aos amigos, dentro do possível; Ciro Gomes labora na ingratidão. Taí o exemplo de sua relação conturbada com o próprio Lula de quem foi ministro.

Antes de entrevistarem Ciro Gomes, os órgãos de imprensa deveriam exigir dele teste de bafômetro. Isto facilitaria mais o entendimento de seu raciocínio destrambelhado e violento.

O Supremo Tribunal Federal já sinalizou a Lula da Silva que o ex-juiz Sérgio Moro será declarado parcial no processo do tríplex do Guarujá, mas o ex-presidente continuará inelegível, por conta de outra condenação, a do sítio de Atibaia, cuja sentença condenatória não foi proferida pelo ingênuo Sérgio Moro

Sérgio Moro foi um arremedo de juiz que envergonhou o Poder Judiciário do Brasil. Enxovalhou a Justiça, que já anda capengando e com grande descrédito perante a sociedade.

Sérgio Moro construiu um pedestal para nele entronizar sua derrocada moral. O STF fará o resto.

Lula da Silva tem seguras fontes no STF para inteirar-se dos futuros e muitos julgamentos no tribunal que envolvem seu nome. Uma dessas fontes, de resto respeitável, é um membro da Corte que sempre fez parte da copa e cozinha de Lula, em São Bernardo do Campo.

Mas é bom que não se misturem as coisas. Ninguém é proibido de ser amigo de ninguém. O ministro em referência é amigo de Lula e de sua família muito antes de ser ministro do STF e de Lula ser famoso e presidente do Brasil. Não há nenhum mal nisto. Nem demérito.

Informado do previsível resultado do julgamento no STF, que provavelmente lhe será parcialmente desfavorável, Lula se antecipou e mandou o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad começar informalmente a campanha como pré-candidato do PT a presidente da República em 2022.

Tudo de novo: polarização entre direita e esquerda, petistas, antipetistas e Ciro Gomes no meio, ciscando, atrapalhando a seriedade das coisas, com direito a palavrões e outros destemperos.

Quem não deve estar contente com a decisão de Lula da Silva é Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão que, em tempo de pandemia, mandou construir “módulos de encontros íntimos” em 11 presídios maranhenses, os chamados “motéis”, ao tempo em que critica o governo federal por negligência quanto ao combate à pandemia do coronavírus.

Custo dos “motéis” de Flávio Dino: R$ 1,3 milhão. Infectados no Maranhão: 210 mil; mortos: 4,8 mil.

Há hipocrisia maior do governador? Deve haver.

O dinheiro dos “motéis” de Flávio Dino provém do Ministério da Justiça, verba para melhoria do sistema prisional. Ele está gastando na construção de “motéis”, que seu governo elegeu como prioridade.  

Flavio Dino ainda sonha com o apoio de Lula a uma eventual e certamente fracassada candidatura a presidente da República.

Lula da Silva dá de ombros e insiste em lançar o nome do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, mais uma vez, como pré-candidato do PT a presidente da República em 2022.

Lula quer o PCdoB como linha auxiliar do PT, subserviente, como sempre.

Todavia, o melhor nome do PT para disputar a presidência da República em 2022 ainda é o governador da Bahia, Rui Costa, mas Lula da Silva não quer, embora pretenda fortalecer o feudo petista na Bahia.

Além de Rui Costa, há o ex-ministro Tarso Genro, do Rio Grande do Suil. Mas Tarso Genro só aceita se o PT mudar e o PT não muda.

Lula prefere Fernando Haddad, seu confiável ex-ministro da Educação.

Haddad não carrega manchas em seu nome, por enquanto. Apenas alguns rumores incompatíveis com a conhecida conduta do ex-prefeito de São Paulo.  

Sujeito decente e educado, a dificuldade de Haddad é uma só: penetrar nos distantes rincões do Brasil e se tornar conhecido eleitoralmente, lugares em que Lula era visto como santo.

Em muitos desses lugares, os aplausos que Lula recebia transformaram-se em vaias.

A era dos postes não é a mesma.

Post scriptum:

Interessante.  Semana passada o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) aliou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) com o intuito de, juntos, elegerem os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

O fiasco todos conhecem,mormente na Câmara.

Neste domingo, 07/02, uma semana depois, o mesmo deputado Rodrigo Maia esteve na casa de João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo e ambos conjecturam a formação de uma frente contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e Jair Bolsonaro com vistas às eleições de 2022.

Como parte do conluio, João Dória convidou Rodrigo Maia para ingressar no PSDB.

Deram um chute no PT.

Difícil entender o caráter desses senhores.

araujo-costa@uo.com.br