Crônica desconexa

Walter Araújo Costa/arquivo pessoal

“Talvez a velhice seja um naufrágio” (Milton Hatoum, escritor amazonense)

Quando a ditadura militar corria solta, estudantes, escritores, jornalistas e um sem número de antagonistas do statu quo mantinham seus redutos de boemia, muitos dos quais ficaram famosos. Como dizia Carlos Heitor Cony, intelectuais reunidos incomodam muito.

Refiro-me, por óbvio, aos anos de chumbo, propriamente: governos Costa e Silva, Garrastazu Médici e parte do governo Geisel.

A ditadura, embora una, indivisível, teve períodos mais escabrosos que outros.  

O temido Serviço Nacional de Informações (SNI) se infiltrava até em botequins e lá auscultava se havia ou não a presença de subversivos.

Lá, nesses redutos, se discutia e falava-se mal do governo, das pessoas do governo, dos amigos do governo e de todo mundo que não comungasse as mesmas ideias sustentadas naqueles ambientes.

De tanto beberem cerveja, a direita os apelidou de “esquerda diurética”.

Essa esquerda – ou o que sobrou dela – quando vislumbrou o poder no governo de Fernando Henrique Cardoso e, mais adiante, nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, passou a ser chamada de “esquerda caviar”, pelas razões que todos conhecem. É a esquerda deslumbrada e elitista que adora lambuzar-se no dinheiro público.

Quando fora do poder, a esquerda critica as mordomias, os exageros das mordomias. Quando chega lá, incorpora-as, acintosamente, ao seu cotidiano de glamour.  Os exemplos pululam.

Mas esta é outra história e só faz parte desta crônica porque muitos dos meus amigos daquela época, que também contestavam, já morreram. Sobraram poucos, alguns, que estão por aí cavando a persistência da vida, tropeçando no caminho do tempo, ainda com força de sacudir a poeira.

A velhice chega, mas os sonhos não vão embora. Ela se vem anunciando como uma brisa agradável e depois se vai abancando como uma tempestade. Em muitos casos chega a ser um naufrágio.

Com frequência, chegam notícias de amigos que se foram, alguns inesperadamente, porque não estavam doentes.

Um amigo, dentre os poucos que me restam, gozador e espirituoso, me disse:

– Não se impressione. Sua vez vai chegar. Não tenha pressa.

Disse-lhe que não tenho pressa de cair nos braços da finitude.

De qualquer modo, embeveço-me de lembranças e vou dando seguidos pontapés nas notícias ruins, que são muitas e chegam aos borbotões.

Prefiro dar espaço às lembranças dos redutos boêmios contestatórios, quando nossos sonhos eram utópicos, ingenuamente utópicos.  

É uma forma de achar que ainda irei longe, mesmo que seja duvidosa.

Como diz o Prefácio dos mortos, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola.

A vida é mudada, não é tirada.  

Termino com a incoerência desta crônica, a rigor, desconexa.

araujo-costa@uol.com.br

Coisas da política: a rasteira de ACM Neto

Em política, o importante não é o que se vê, mas o que não se vê.

As coisas vistas, mais do que fatos, vão-se para o universo das versões; as não vistas, embora fatos, têm o condão de decidir momentos importantes da história.

Em data recente, deu-se a inauguração de uma ponte lá para as bandas de Sergipe (Propriá) e Alagoas (Porto Real do Colégio) se, geograficamente, não estou equivocado a ponto de misturar alhos com bugalhos.

A Bahia – feudo do PT – nada tinha com a inauguração, mas ACM Neto estava lá, matreiramente, conjecturando com o presidente Bolsonaro, sem estardalhaço.

A imprensa não notou o fato político ou não quis dar importância, uma maldosa e silenciosa forma de dizer que o presidente da República está isolado politicamente.

A imprensa, que tem o dever de informar, não informou.

A experiente jornalista Rosângela Bittar (O Estado de S.Paulo) saiu à frente e resumiu o fato político: “A Bahia, ausente do fato, estava na foto”.

É o bastante.

O que veio depois, todos sabem. ACM Neto deu uma monumental rasteira em Rodrigo Maia (DEM-RJ), então presidente da Câmara dos Deputados que, em conluio com João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo, engendrava impor uma derrota ao presidente da República na Câmara e no Senado Federal.

Rodrigo Maia contava com a força do DEM, mas se esqueceu de avisar ACM Neto, presidente do partido.

Não deu certo. Ingênuos e pedantes, Rodrigo Maia e João Dória se viram diante de uma cilada preparada por ACM Neto e ambos perderam retumbantemente as presidências da Câmara e do Senado, que davam a vitória como favas contadas.

Quem acompanha política de bastidores sabe. As eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senador Federal estavam sendo transformadas em trampolim para o palanque sujo que João Dória está montando para 2022. Rodrigo Maia fazia parte do complô.

João Dória está irritadíssimo, principalmente depois que, em debate ao vivo, o colunista e ideólogo Rodrigo Constantino disse ao governador que ele não ganhará mais eleição nem para síndico de prédio, tamanha a desfaçatez de suas ações gritantemente voltadas aos seus interesses pessoais escusos.

À beira de um ataque de nervos, João Dória não tem preparo para governar o Estado de São Paulo e tem dificuldade de absorver as críticas.

Péssimo estrategista, João Dória vale-se da pandemia do coronavírus, da vacina do Instituto Butantan e do sofrimento do povo para se promover politicamente.

Convenhamos, este não é um bom atestado de caráter.

Um governador decente e atento às suas atribuições fá-lo-ia diferente, diria Jânio Quadros.

Mas os erros que as urnas produzem também fazem parte do exercício democrático e João Dória está lá por vontade soberana do povo.  

De outro turno, ACM Neto está preparando o terreno para sair candidato ao governo da Bahia nas futuras eleições e cavando a estrutura do PT para desmoroná-lo no estado. Por isto seu desempenho nas eleições da Câmara e Senado.

Por aí se vê que as eleições para o comando das duas casas do Congresso Nacional acabaram sinalizando como será o cenário das eleições de 2022.

Quase egresso da adolescência política – tem 42 anos – ACM Neto pode surpreender.

araujo-costa@uol.com.br

As vergonhosas mordomias pagas com dinheiro público

Estão aí as razões pelas quais o Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal) não tem interesse em votar as privatizações pretendidas pelo governo federal, quaisquer que sejam os governos.

O Ministério da Economia divulgou a lista parcial de benefícios de 46 empresas estatais com controle direto da União, dentre elas Petrobras, Eletrobras e BNDES.

Essas empresas são antros de apadrinhamento de políticos, com ou sem mandato, de modo que, se privatizadas, esses políticos perdem as mordomias asseguradas a filhos, genros, noras, parentes, aderentes, amigos, amigos dos amigos, avó do amigo do filho do amigo e et cetera.

A seguir, alguns exemplos estarrecedores:

O adicional de férias que nas empresas privadas é 1/3 do salário, de acordo com a CLT, na Petrobras é 100%, ou seja, as férias correspondem ao dobro do salário do privilegiado.

O salário médio na Petrobras é R$ 18.930,00 e no BNDES é R$ 29.200,00 e teto de R$ 75.600,00, o que se depreende que há funcionário ganhando esse valor e/ou acima disto, considerados os penduricalhos.

A Petrobras paga por mês R$ 1.261,65 para cada filho de funcionário menor de 18 anos, a título de ajuda educacional. Só a título de ajuda educacional.  

Somente para lembrar, milhões de aposentados brasileiros ganham um salário mínimo por mês, R$ 1.100,00.

O BNDES paga para cada funcionário R$ 3.673,63, a título de assistência à saúde, mesmo sendo aposentado da estatal e 13 cestas de alimentação a um custo que varia de R$ 654,88 a R$ 1.521,80.

Só para se ter uma ideia do desperdício de dinheiro público, devemos considerar que o BNDES tem 2.500 funcionários.  

O Ministério da Economia diz que há funcionários na Petrobrás que ganham R$ 106.189,00. Esses afortunados quando saem de férias embolsam nada menos do que R$ 212.378,00, acrescido de todas as demais vantagens acima referenciadas e outras mais.

Na Eletrobras, dentre um sem número de benefícios, a empresa paga para cada filho de funcionário até 6 anos de idade a quantia de R$ 863,83, a título de ajuda–creche.

Fiquemos nesses exemplos. Persistir com a lista dá enjoo.

Taí as explicações pelas quais deputados e senadores se negam a discutir as privatizações.

Privatizar significa suprimir a mamata de parlamentares e seus privilegiados.

araujo-costa@uol.com.br

A autodestruição da Oposição

O principal derrotado na eleição para presidência da Câmara dos Deputados não é, propriamente, o deputado fluminense Rodrigo Maia (DEM), artífice da candidatura de oposição ao eleito Arthur Lira (PP-AL), como apregoa a grande imprensa.

O derrotado-mor é João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo, que se aliou a Rodrigo Maia com o intuito de forjar um conluio nacional com vistas à eleição presidencial de 2022, via presidência da Câmara, mas a imprensa silencia quanto a isto para preservar João Dória.

A ingenuidade de Rodrigo Maia foi achar que podia manusear o DEM a seu modo e esqueceu que o partido tem um presidente nacional formado na mais maquiavélica escola política da Bahia: ACM Neto, que apesar da idade tenra, carrega respeitável bagagem política que angariou com o avô Antonio Carlos Magalhães.

Uma semana antes da eleição da Câmara, ACM Neto reuniu deputados baianos e sinalizou que ia abandonar a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP), candidato esculpido no colo de João Dória e Rodrigo Maia, embora oficialmente referendado pelo partido.  

Na véspera da eleição, ACM Neto deu o tiro de misericórdia nas pretensões de João Dória e Rodrigo Maia: liberou os deputados do partido para votarem de acordo com suas convicções e não com fulcro na orientação partidária.

Em política, isto significa dizer que nos bastidores já havia um acordo firmado para abandonar a candidatura de Baleia Rossi.

No Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) ganhou com folga acachapante a disputa contra a candidata do MDB, senadora Simone Tebet, um dos nomes mais respeitados da política de Mato Grosso do Sul.

O problema aí não se deve ao desempenho político da senadora do MDB, de resto inquestionável, mas aos respingos da trágica costura que Rodrigo Maia e João Dória fizeram a partir da candidatura de Baleia Rossi, também do MDB.

O fato é que a oposição ao governo está-se destruindo. O Partido dos Trabalhadores (PT), mais importante partido de esquerda, aliou-se a antigos desafetos, os chamados “golpistas”, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal e carregou de roldão os sobejamente conhecidos puxadinhos do PT, integrantes do bloco “Maria vai com as outras”, dentre esses PSOL e PCdoB.  

Neste cenário político desenhado na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o presidente Bolsonaro se fortaleceu, embora não se saiba até que ponto terá fôlego suficiente para enfrentar essa oposição destrambelhada e vítima de sua própria ingenuidade.

A sorte da oposição e da esquerda em geral é que o presidente Bolsonaro tem-se mostrado despreparado para o exercício do cargo, mormente em razão de seus destemperos verbais, que os opositores sabem explorar muito bem.

Post scriptum 1:

O PDT de Ciro Gomes, que se diz o suprassumo da honestidade, está no despenhadeiro. Em Diadema, município do ABC paulista, o PDT também é suspeito de cultivar um laranjal à semelhança do PSL, que elegeu o presidente Bolsonaro e que Ciro Gomes tanto critica.

Diz a denúncia de um membro do PDT que o partido burlou a cota legal de gênero.

Uma candidata a vereadora do partido em 2020, que recebeu dinheiro do fundo eleitoral não teve sequer um voto. Ou seja, nem ela votou em si própria. Aí tem!

Bom assunto para Ciro Gomes explicar, do alto de sua honestidade.

Post scriptum 2:

Patético o comentarista Gerson Camarotti, da GloboNews, tentando justificar o choro de  Rodrigo Maia (DEM-RJ) após a derrota de Baleia Rossi.

Só faltou Gerson Camarotti chorar também em solidariedade ao protegido do Grupo Globo.

araujo-costa@uol.com.br

Ângelo Coronel e as formigas gigantes do Congresso

“Estou perdendo algumas ilusões, talvez para adquirir outras” (Virgínia Woolf, escritora britânica, 1882-1941)

A diferença entre as formigas e nossos parlamentares é que as formigas trabalham.

Cada um de nossos 513 deputados federais custa-nos, por mês, a quantia aproximada de R$ 183 mil. Por ano essa quantia eleva-se para R$ 2,2 milhões.

A Câmara dos Deputados gasta, por ano, R$ 1,3 bilhão só para sustentar salários e penduricalhos dos parlamentares.

Incluem-se nessas benesses, salário de R$ 34 mil, verba de gabinete de R$ 112 mil, cota para o exercício da atividade parlamentar, varável por estado, de aproximados R$ 40 mil, auxílio moradia, ajuda de custo e por aí vai.

Os deputados ainda têm direito a diárias, quando em viagens nacional e internacional e ressarcimento por despesas médicas, além de contarem com o sofisticado departamento médico da Câmara.

Cada deputado tem direito a contratar 25 assessores com salários que podem chegar a R$ 16 mil.

Suas Excelências, que não são de ferro, ainda têm direito a uma robusta aposentadoria, que nós mortais nunca alcançamos, ressalvadas a proporcionalidade do tempo de mandato e a idade de 60 anos

É o preço da democracia. Ainda assim, o sistema democrático é o mais ideal.

O problema é que Suas Excelências não produzem ou produzem pouco. Tirante os poucos parlamentares que se destacam, a maioria situa-se no chamado baixo clero. Noutras palavras: são ilustres figuras decorativas que seguem os ditames dos líderes partidários e referendam decisões conchavadas pelos mais experientes.

O ínclito escritor e jornalista Raimundo Reis, baiano de Santo Antonio da Glória, contava que em sua estreia como deputado estadual na Assembleia Legislativa da Bahia fazia, com entusiasmo, fundamentado discurso na tribuna e lá, para as tantas, notou que ninguém prestava atenção.

Formou-se um burburinho no plenário, rodas de deputados discutindo entre eles, de sorte que todos viraram as costas para a tribuna e não deram a mínima atenção para o discurso do estreante orador.

Raimundo Reis abreviou o discurso e desceu da tribuna preocupado. Procurou saber o que estava acontecendo. Coisa grave, talvez. Um colega lhe disse:

– Hoje é dia de pagamento aos deputados e o tesoureiro veio trazer os contracheques.

Lição aprendida, Raimundo Reis dizia, com fina ironia: “No parlamento, o importante é o dinheiro e não o discurso”.

Em nossa Câmara dos Deputados o que se vê é um amontoado de formigas gigantes corroendo os cofres públicos. O mesmo acontece no Senado Federal.

Nesses últimos dias, por exemplo – e isto não é novidade – nossos digníssimos representantes estão debruçados no balcão, noite adentro, negociando com o governo federal a liberação de emendas e cargos, condição que eles exigem para votar a favor do candidato do Palácio do Planalto a presidente da Câmara dos Deputados. 

No Senado, o senador Ângelo Coronel (PSD-BA), recebeu R$ 40 milhões de verbas extras do Planalto para, na cabine indevassável de votação, não esquecer de Rodrigo Pacheco (DEM-MG), candidato do Palácio do Planalto à presidência do Senado Federal. Sabe como é, não se deve confiar muito na memória.

Ângelo Coronel é o presidente da CPI das Fake News, criada para investigar supostos atos ilegais de bolsonaristas, inclusive do vereador carioca Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República.

O senador Ângelo Coronel apressou-se em dizer que é independente e isto não influi em sua atuação na direção da CPI. Ah, bom!

Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da mesma CPI, não acredita que a bufunfa recebida por Ângelo Coronel possa interferir no resultado da comissão instalada contra os bolsonaristas.

Solidária ao colega, Lídice jogou a culpa no governo: “Desse governo, pode-se esperar tudo”.

É verdade, desse governo pode-se esperar tudo. E dos senadores também.  

Isto nos faz perder algumas ilusões. De ver o Brasil melhor, por exemplo.

Mas viva a democracia!

araujo-costa@uol.com.br    

ACM Neto e a presidência da Câmara dos Deputados.

O bom da democracia não é somente poder escolher nossos representantes, mas tirá-los de lá, quando necessário.  

O reino nababesco do deputado fluminense Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, parece chegar ao fim de forma melancólica e atrapalhada.

Conhecido como o homem dos jatinhos, até a primeira semana de janeiro deste ano, Rodrigo Maia tinha usado 882 vezes aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para seus deslocamentos pelo País. Não se sabe se todas as vezes em missão oficial.

Um rápido passeio pela seara política e o simples uso das regras de tabuada que se aprendia no curso primário dão conta de que o candidato do presidente Bolsonaro vai emplacar a presidência da Câmara dos Deputados.

E se assim acontecer, adeus impeachment de Bolsonaro, como querem a esquerda e demais contrariados. É o presidente da Câmara dos Deputados quem decide se coloca ou não na pauta os pedidos de impeachment.

Em números de hoje, o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) tem seguras chances de vencer a disputa contra o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) candidato do atual presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), que entende muito de costura de bastidores e pouco de traição política.

ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e presidente nacional do DEM hipotecou apoio a Arthur Lira e com ele, na condição de líder nacional, levou um grupo de deputados baianos, dentre esses Leur Lomanto Júnior e Elmar Nascimento e suas frustrações.

Elmar Nascimento, lídimo representante da oligarquia de Campo Formoso, pretendia disputar a presidência da Câmara, o que parecia favas contadas, mas Rodrigo Maia o vetou e preferiu apoiar o deputado paulista, embora de outro partido.

Elmar Nascimento quer ver Rodrigo Maia pelas costas e teme perder o cargo de diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF) atualmente entregue a Marcelo Andrade Moreira Pinto, que faz parte de seu reduto e é seu afilhado político.

Oficialmente o DEM apoia Baleia Rossi.

Também na Bahia, o deputado Adolfo Viana de Castro Neto (PSDB) abriu dissidência no partido e vai apoiar Arthur Lira, de olho na manutenção do cargo de coordenador do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) na Bahia, que está com Lucas Lobão, seu apadrinhado.

Adolfo Viana também vem de vistosa oligarquia. O avô Adolfo Viana foi prefeito de Casa Nova, município do norte da Bahia e o pai Antonio Honorato exerceu o mandato de deputado estadual da Bahia em diversas legislaturas.

Oficialmente o PSDB apoia Baleia Rossi.

Como se vê, tratando-se de partidos políticos, fidelidade e nada é a mesma coisa. Membros partidários obedecem mais a seus interesses e instintos traiçoeiros do que a orientação do partido a que pertencem.

Com o apoio do presidente nacional do DEM a Arthur Lira, a candidatura de Baleia Rossi vai-se derretendo.

Rodrigo Maia tem pouco tempo e algumas noites insones para tentar reverter essa situação de derrota.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, memória do Padre Conceição

Em 26/01/2021 completa-se 35 anos da morte do padre Conceição falecido durante os festejos do padroeiro Senhor do Bonfim de 1986.

Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

Neste tempo da festa de Senhor do Bonfim, católicos e povo de Chorrochó também reverenciam a memória do padre Conceição.

Conheci o padre Ulisses Mônico Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José.

A tendência para a observação, própria dos jovens, deu-me a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar-me isto. 

Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário do lugar, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja. Fomos assim educados.

A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral e sólida dedicação à Igreja.

Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó.

Muito presente na vida da comunidade, padre Conceição era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante, atendia a todos que o abordavam.

No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária à sede de absoluto da adolescência. A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes.

Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”. Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições que ajudou a sedimentá-las.

Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

Nascido em 09.09.1914, em Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade e que foi criada em 27.01.1985. Uma acertada decisão da diocese de Paulo Afonso em favor de Chorrochó.

Padre Conceição vinha de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloquência de seus ensinamentos. Eloquência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia.

As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó, onde outro pastor andante, Antonio Conselheiro, no final do século XIX, edificou a primeira igreja até hoje existente, que resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária.

Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens.

Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Sucedeu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, um italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.

araujo-costa@uol.com.br

Igreja de Chorrochó: a contribuição do padre Mariano

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo da envelhescência  – padre Mariano Pietro Brentan chegou a Chorrochó em 04.01.1986.

Portanto, trinta e cinco anos se completam neste mês de janeiro de 2021, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de suceder ao padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco da Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote, pescador de homens, com um trabalho simultâneo e incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, salvo engano: a capela Nossa Senhora da Conceição, a construção do Centro Paroquial de Chorrochó, a reforma e ampliação da Casa Paroquial e a instituição do Lar José e Maria.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para se transformar num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade, em Chorrochó.

Socorro e Virgílio são exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Tivemos uma conversa longa sobre a Igreja, suas tradições e, sobretudo, as dificuldades por que passava um vigário do interior. Em nenhum momento reclamou do exercício de seu mister religioso.

Conversa marcadamente auspiciosa, padre Mariano falou de ritos e de história e até me fez ver a importância do Hino Queremos Deus, um dos mais tradicionais da Igreja Católica. Falou do papel da Igreja no sentido de aplainar a insensatez e ingratidão dos homens que se “erguem em vão contra o Senhor”, em todo o tempo.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, inquieto, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiado, padre Mariano é defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha e, em razão dessas costumeiras decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Em 2018, fragilizado em razão de problemas de saúde, pela primeira vez padre Mariano não compareceu aos festejos da festa de Senhor do Bonfim de Chorrochó. Talvez estivesse refletindo sobre o caminho percorrido, sua luta e seu passado de feitos e glórias.  

Os esteios da contribuição de padre Mariano para Chorrochó são valiosos.

araujo-costa@uol.com.br

Os parasitas do Poder Judiciário

A história registra que o português D. Rodrigo de Sousa Coutinho, um dos homens fortes do Império, ao saber inevitável a Independência do Brasil, endereçou carta ao nosso patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e o tranquilizou: “Sobre o seu Brasil, pode estar descansado. São grandes os seus destinos”.

É que ele não chegou a conhecer nossos magistrados.

Como se não bastassem os conhecidos casos de juízes e desembargadores que vendem sentenças e se despencam moralmente no antro da corrupção, agora é a vez do Judiciário de Mato Grosso envolver-se com um assunto escabroso.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso compõe-se de 29 desembargadores que, por lei, não podem ganhar mais do que R$ 39,3 mil, que é o teto constitucional auferido por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Assim diz a Constituição da República do Brasil.

A Constituição, ora a Constituição!

O mandamento constitucional não vale para magistrados, privilegiados e outros parasitas do poder público. Eles fazem o que bem entendem. Editam as normas para se locupletarem sob o manto da legalidade.

Em dezembro passado, cada um dos 29 desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso recebeu, além dos vencimentos, mais R$ 262,8 mil, a título de penduricalhos, tais como: verbas indenizatórias, auxílio-transporte, auxílio alimentação, auxílio moradia, auxílio saúde, serviços extraordinários, eventualidades, auxílio educação e por aí vai, até atingir a estratosférica quantia de R$ 262,8 mil, além dos vencimentos mensais das subidas e intocáveis Excelências.

Deve haver por lá auxílio-falta de vergonha, auxílio-cara de pau, auxílio-acinte à sociedade e outros mais.

Isto significa, nada mais nada menos, do que uma violenta e doída bofetada na cara dos brasileiros pobres que lutam diariamente para conseguir um prato de comida e alimentar seus filhos.

Mais: a dilapidação dos cofres públicos feita pelos magistrados de Mato Grosso aconteceu em tempo de pandemia do coronavírus e na vigência do decreto federal de calamidade pública.

Por si só o ataque aos cofres públicos é imoral e arranha sobremaneira a dignidade dos brasileiros.

A desfaçatez dos magistrados é constrangedora.

Os bolsos dos desembargadores mato-grossenses estão sendo abarrotados de dinheiro público, o que fere qualquer lógica plausível e, no mínimo, atenta contra a ética e a moralidade pública.

Os privilegiados desembargadores dizem que estão amparados em regras do Tribunal de Justiça. Regras que eles mesmos fazem.

O que pode acontecer com Suas Excelências, esses nobilíssimos e honestos magistrados de Mato Grosso?

Nada. Absolutamente nada.  

Risível  é a posição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que tem o dever de coibir esses abusos no Judiciário, embora de de lá não se possa esperar muita coisa: sinalizou que vai investigar se há irregularidades.

O Conselho Nacional de Justiça tem dúvida?

Com esses parasitas do Judiciário corroendo e demolindo as estruturas de nossa República, como sonhar com um Brasil melhor?

Como ser grande o destino de nossa Pátria?

Como evitar a fome dos miseráveis?

araujo-costa@uol.com.br

As façanhas e lorotas do governador de São Paulo

Em São Paulo, estamos jogados às traças.

O arremedo de governador de São Paulo, João “Pavão” Dória, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) sinalizou que a pandemia estava diminuindo no estado, como se ele tivesse o poder mágico de, com um gesto, espantar o coronavírus.

Em razão disto, João “Pavão” Dória (PSDB) tomou algumas decisões, todas equivocadas. Exemplos:

Permitiu que fossem desativados os hospitais de campanha no meio da pandemia e, em consequência, deixou os doentes desamparados;

Endureceu as regras da quarentena em setores econômicos que não podia endurecer;

Abrandou as regras da quarentena em setores econômicos que não podia flexibilizar;

Liberou geral a aglomeração nos dias que antecederam às eleições municipais, porque queria a população na rua para votar em seus aliados;

Escondeu da população e não publicou os dados sobre o número de mortes no estado na semana anterior às eleições municipais;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto estadual (ICMS) sobre alimentos, remédios e máquinas agrícolas, que produzem alimentos para a população, dentre outros produtos;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto e taxas sobre veículos automotores, inclusive usados;

Nos dias mais críticos da pandemia, tirou a gratuidade do transporte público para idosos entre 60 e 65 anos, no âmbito de sua competência estadual;

Suprimiu empregos e permitiu demissões em massa, em razão de suas decisões estapafúrdias ao fechar estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços;

O governador atraiu a ira de um sem número de prefeitos paulistas, que reclamam de sua arrogância, tendo em vista decisões tomadas sobre a realidade de municípios e regiões que ele não conhece, nunca esteve por lá;

Mandou a população de São Paulo “ficar em casa”, saiu sorrateiramente do País e foi passear nos Estados Unidos. Deu errado. A imprensa descobriu e ele teve que voltar às pressas, com cara de galo.

Fez uso e propaganda política, em seu benefício, a partir da vacina do Instituto Butantan, produzida em parceria com a China;

Resultado: hoje São Paulo já ultrapassou 50 mil mortes em razão do covid-19, média de 200 mortes por dia.

As internações estão aumentando assustadoramente e os hospitais já não dispõem de vagas em enfermarias e UTIs.

E o governador-pavão está aí, com a maior cara de pau (“cheguei, sou o máximo!”) e culpando o governo federal por tudo que acontece de ruim no Brasil para desviar a atenção de seus embaraços.

Os erros do governo federal, que são muitos, não excluem os erros do governador de São Paulo, que são monumentais.

Aqui pra nós, que ninguém nos ouça: os comentaristas do Grupo Globo, inclusive da Globo News,  não tocam nessas façanhas, lorotas e decisões erradas do governador João “Pavão” Dória, do PSDB de São Paulo.

A hipocrisia rola solta.

araujo-costa@uol.com.br