Chorrochó, tempo de festa e oração.

A Igreja Católica de Chorrochó deu início aos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

A paróquia está triste, em razão da pandemia do coronavírus que chegou a dizimar vidas em Chorrochó.

Mas a Igreja é como um lírio que brota continuamente em meio aos rudes espinhos do tempo e dos escombros das tragédias humanas.

Assim, a Igreja de Chorrochó.

Desta vez mudaram-se as formas de celebração. A  abertura da festa deu-se fora do templo, o que, de certa forma, espelhou a beleza da devoção dos chorrochoenses católicos ao seu padroeiro.

Em meio a tantas atribulações a que as populações estão envolvidas, inclusive o aumento dos índices de violência, de vez em quando o calendário da Igreja possibilita uma pausa para permitir que todos se envolvam em orações.

Em Chorrochó, portanto, realiza-se a festa do padroeiro Senhor do Bonfim. É uma oportunidade para que os católicos abandonem seus momentos de egoísmo e arrogância e deem lugar às orações, normalmente negligenciadas no dia a dia, inclusive em razão da luta pela sobrevivência.

Todos os dias durante o novenário, época de contrição e louvor, após a bênção do Santíssimo Sacramento, o celebrante desperta os fiéis no sentido de que o nome de Jesus é sempre bendito: “Bendito seja Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar!”.

É o louvor em desagravo às blasfêmias, ao indiferentismo com as coisas que dizem respeito à fé.

O celebrante pede para que Deus derrame bênçãos “sobre o chefe da nação e do estado e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade, para que governem com justiça”.

Palavras fortes e necessárias – dignidade e justiça – sem as quais nenhum governante desempenha seu papel a contento.

A oração é uma velha fórmula adotada pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMC) do Convento da Piedade, em São Salvador da Bahia, que se estende historicamente deste o século XVII: oração pela pátria, pela Igreja e pelo Santo Padre.

Chorrochó, a exemplo de todos os lugares, padece das injunções de uma sociedade violenta, desrespeitosa, degradante, alheia às coisas da Igreja e, sobretudo, tendente à vulgaridade.

É notório que a Igreja Católica não tem conseguido manter em seu rebanho as pessoas que ela mesma batizou, em razão de seu apego a valores sabidamente ultrapassados que a Santa Sé não tem interesse em flexibilizá-los.

Contudo, não deixo de reconhecer que grande parte desse fenômeno deriva da instituição familiar, que se esfacelou de tal forma que se tornou incapaz de educar seus filhos para o caminho da Igreja.

Também é notório que a Igreja persiste em seu caminho sereno em benefício de seus fiéis.

É tempo de lembrar todos aqueles que sustentaram as colunas da Igreja de Chorrochó, quando tudo era ainda muito rudimentar e difícil: Antonio Conselheiro, monsenhor Elpídio Ferreira Tapiranga, celebrante da primeira missa em Chorrochó, em 1886, padre Manoel Félix de Moura, professora Antonina Gomes, João Alves dos Santos, professora Josefa Alventina de Menezes, padre Ulisses Mônico da Conceição, padre Mariano Pietro Bentran e todos os que vieram subsequentemente, como sacerdotes ou colaboradores.

É tempo também de lembrar os bispos da diocese de Paulo Afonso, que delinearam o caminho da fé na Igreja de Chorrochó: D. Jackson Berenguer Prado, D. Aloysio José Leal Penna, D. Mário Zanetta, D. Esmeraldo Barreto de Farias e o atual D. Guido Zendron, que adota o lema episcopal Cristo Redentor dos Homens e tem sido muito presente na vida da Igreja local.

Por fim, é tempo de reconhecer o papel das instituições Pia União das Filhas de Maria e Apostolado da Oração que dignificaram a história da Igreja de Chorrochó.

Chorrochó está em tempo de oração. Rezemos por todos nós.

araujo-costa@uol.com.br

Ditadura não, presidente.

“Na política, a coragem é fundamental. Mas não exagere” (Ulysses Guimarães, 1916-1992).

Em data recente, o presidente Bolsonaro andou misturando alhos com bugalhos – o que ele sabe fazer muito bem – e assegurou que são as Forças Armadas que definem se o País será democracia ou ditadura.

Não é por aí, presidente.

O assunto é inoportuno e o Brasil não está questionando isto. Aliás, estamos indo muito bem carregando nossa tenra democracia, apesar dos corruptos de direita e de esquerda, que ela produz.

Tentando submergir dos escombros de minha ignorância, ouso discordar do excelentíssimo presidente da República.

A democracia é definida pela soberania popular. A voz das urnas, a liberdade de escolha e a livre consciência política são os esteios, dentre outros, nos quais se assentam o regime democrático.

A ditadura, ao contrário, surge de mentes doentias, autoritárias, cruéis, incompatíveis com a convivência patriótica e com os antagonismos.

Assim, foi no Chile, de Augusto Pinochet; na Argentina, de Jorge Rafael Videla; nos países asiáticos e no mundo árabe, a exemplo da Coreia do Norte, Síria, Iraque e outros tantos.

Assim, foi no Brasil, dos marechais Castelo Branco e Costa e Silva e dos generais Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo.

Quando sinalizamos que dependemos das Forças Armadas para definirem o nosso regime político é sinal de que ainda não estamos vislumbrando o futuro, mas continuamos presos ao passado, de resto sombrio e escabroso.

As ditaduras não servem de bons exemplos. Nunca foram bons exemplos, em nenhuma época ou em quaisquer continentes.   

Nas democracias, as Forças Armadas se submetem ao poder civil; nas ditaduras elas se transformam em protagonistas da truculência e do desprezo aos cidadãos.   

As democracias sustentam a liberdade e compartilham as decisões políticas e de gestão.

As ditaduras matam, torturam, espezinham os cidadãos e suprimem seus direitos fundamentais, tornam-se senhoras da impunidade, em razão das barbáries que praticam e das regras que elas mesmas editam.

Não é por aí, presidente. Não exagere em sua coragem.

Estamos muito bem assim, convivendo democraticamente.

araujo-costa@uol.com.br

O BNDES, João Dória e Luciano Huck

Juros altos que nada!

João Dória (PSDB), o governador-pavão (cheguei, sou o máximo!) de São Paulo e Luciano Huck, apresentador da TV Globo, foram aquinhoados com financiamentos do BNDES, ainda não bem esclarecidos, para compra de jatinhos particulares da Embraer.

Tudo a juros diferenciados, de acordo com a política de fomento do banco, que eles não são de ferro.

João Dória embolsou R$ 44 milhões do banco, para financiar uma aeronave, ao passo que Luciano Huck abocanhou 17 milhões com o mesmo objetivo. E foram felizes para sempre.

Os demais brasileiros mortais comuns, quando necessitam de financiar veículos populares, recorrem aos bancos privados e pagam juros escorchantes, conforme as regras gerais bancárias, até porque não encontram guarida nos bancos públicos, tamanha a burocracia.

Mas João Dória e Luciano Huck não são mortais comuns, convenhamos.

A notícia não é nova. Esses financiamentos foram feitos em 2010, ainda no governo do PT, mas poderia ter acontecido em qualquer governo.

O governo aqui é o que menos interessa, mas o caminho que eles seguiram até chegar aos cofres do banco público.

Coincidência ou não, esses parasitas do dinheiro público, pretendem ser candidatos a presidente da República em 2022, cada um carregando a hipocrisia a seu modo. Ambos já estão cochichando.

Só pra lembrar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é uma empresa pública federal, que fomenta atividades econômicas através de financiamento a longo prazo e incentiva investimentos.

O perfil de João Dória, magnata notório e o perfil do apresentador Luciano Huck estão longe de pessoas que necessitam de financiamento diferenciado de banco público, menos ainda para a compra de jatinhos particulares.    

A mansão cinematográfica de Luciano Huck no litoral fluminense é conhecida mais em razão de um suposto drible que o apresentador deu nos órgãos do meio ambiente do que, propriamente, por ser seu sofisticado imóvel de lazer.

Luciano Huck vive explorando a miséria alheia e vendendo sonhos em seu programa de televisão global.

A dúvida é saber qual deles o Grupo Globo vai apoiar, vez que, por enquanto, o conglomerado de comunicação está apostando todas as fichas em João Dória (PSDB).

Mas ambos precisam explicar à sociedade as bases dos milionários contratos que entabularam com o BNDES.

É dinheiro público. Todos têm o direito de saber.

araujo-costa@uol.com.br

Os desatinos do jornalismo político

O jornalismo, qualquer que seja ele, há de fundar-se em fatos e não em “ouvir-dizer”, tampouco na opinião de seus profissionais.

O jornalismo político tem uma função mais nobre: mostrar a seriedade dos homens públicos e seus eventuais defeitos éticos e morais. Mas há um fio bastante tênue entre a seriedade jornalística e o viés político que pode contaminar os profissionais de imprensa. 

A rigor, não existe jornalismo político, mas profissionais que se especializam em assuntos do poder político, assim como muitos se interessam por outras áreas da atividade humana, a exemplo da economia, educação, ecologia, polícia, religião, et cetera.

Isto vem a propósito de, às vezes, leitores e telespectadores da imprensa em geral se depararem com interpretações de fatos políticos mais adstritas às tendências partidárias dos articulistas, o que, de certa forma, distorce o conteúdo da matéria e retira o brilhantismo dos profissionais de imprensa, embora muitos desses profissionais deem azo a esse caminho.  

É comum, por exemplo, redes de televisão contratarem comentaristas para avaliarem tais assuntos e aí, infelizmente, esses profissionais exageram ao defender seus veículos de comunicação e apequenam-se em suas funções de comentaristas imparciais e transparentes.

Os exemplos são muitos, claros, recorrentes e inquestionáveis.

Assim acontece também com repórteres. Muitos saem para a rua com uma pauta e retornam com informações mais convenientes à linha de pensamento dos veículos de comunicação para os quais trabalham. Isto desfigura o exercício da profissão.

Outra maneira de camuflar a verdade é omitir-se sobre assuntos importantes que interessam à sociedade, mas não interessam aos grandes grupos de comunicação, aos governos e autoridades.

O Diário do Poder publicou o vergonhoso esbanjamento de dinheiro público protagonizado pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

Rodrigo Maia usou 882 vezes aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para seus deslocamentos pelo País. Não se sabe se todas as vezes em missão oficial, que ampara o uso dos aviões.

É preciso esclarecer, a bem da verdade, que o presidente da Câmara dos Deputados tem essa prerrogativa, assim como o presidente do Senado Federal, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministros de Estado e comandantes militares.

Mas essa prerrogativa não lhes dá direito a abusos e exageros que deem origem a despesas pagas pelos contribuintes.

O Diário do Poder listou: só em 2020, Rodrigo Maia requisitou aviões da FAB 140 vezes; em 2019, 250 vezes; em 2018, 198 vezes; em 2017, 211 vezes; em 2016, 79 vezes.

Rodrigo Maia anda muito inquieto.

“Aliados de Maia atribuem seu nervosismo à iminente perda da mordomia. Deixando de ser presidente, ele terá de voltar às filas nos aeroportos”, diz o Diário do Poder.

Os comentaristas do Grupo Globo, que apoia Rodrigo Maia, que apoia o governador-pavão João Dória (PSDB), não disseram uma palavra sobre esse desperdício.

Nem vão dizer. Não interessa dizer.

O jornalismo político comete esses desatinos.

araujo-costa@uol.com.br

A Justiça e os vira-latas

O jurista Almir Pazzianotto Pinto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi ministro do Trabalho no governo do presidente José Sarney.

Elegante, educado, culto, inteligente, antes Almir Pazzianotto tinha sido advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje Metalúrgicos do ABC.

O presidente do sindicato à época era Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia ficado rico e nem incorporado Lula ao nome. Era simplesmente Luiz Inácio da Silva.

A riqueza de Lula veio mais tarde, depois de muito trabalho. É o único aposentado do INSS que ficou rico. Inteligência é isto e não se discute.

Na condição de ministro do Trabalho, Almir mandou redigir um documento sobre assunto qualquer de sua pasta. Documento pronto, o assessor o levou ao gabinete, para colher assinatura do ministro.

Depois do publique-se, do cumpra-se e da data, como de praxe em todos os documentos públicos, o nome pomposamente grafado: Almir Pazzianotto.

O assessor não achou muito elegante o Pinto do ministro e o omitiu na redação do documento, talvez pensando em agradar o chefe e criar um fato, uma marca no ministério. Sabe como é, puxa-saco e formiga existe em qualquer lugar.

O humilde Almir Pazzianotto correu os olhos sobre o documento e, com ar de reprovação, perguntou:

– Cadê o Pinto do meu nome?

O atabalhoado assessor não sabia como explicar a omissão de propósito, ponderou aqui e acolá, enrolou-se e acabou corrigindo e grafando o nome correto do ministro, que não abria mão do seu Pinto e, convenhamos, o ministro estava correto.

No livro O Aquário Negro (1986), o frade dominicano Frei Betto inseriu um personagem, que vivia à margem da sociedade e dizia o seguinte:

“Lembrei-me de meu pai falando que a Justiça não tardaria”.

“Prometi a mim mesmo que ia esperar a Justiça e arranjei um amigo, um cachorro vira-lata, cheio de pereba no corpo, fedorento como o diabo, mas muito bom amigo, com quem eu falava como seria o dia em que a Justiça chegasse”.

“Ele dormia comigo e comia da mesma farinha e do mesmo feijão e ele me dizia que tinha orgulho de ser vira-lata e que quando viesse a Justiça, os vira-latas iam tomar conta do mundo”.

Acho que João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo e o presidente da República Jair Bolsonaro estão rodeados de assessores à semelhança do assistente de Almir Pazzianotto Pinto, preocupados somente com detalhes sem importância e não, propriamente, com o conteúdo, o principal: o dever de governar com seriedade e decência.

João Dória vem apequenando a governadoria de São Paulo. Despreparado e pernóstico, agora se rebaixou até mais não poder e usou palavras inapropriadas na televisão contra o presidente da República, simplesmente com o intuito de firmar-se para a disputa presidencial de 2022.

Por sua vez, o presidente Bolsonaro revidou o palavreado sem freio do governador-pavão, também usando expressões inapropriadas para o elevado cargo que ocupa.

A população está definhando, centenas morrendo todos os dias, porque tanto o governo federal quanto os estaduais e prefeitos não tomaram as rédeas de suas atribuições e se descuidaram do avanço da pandemia do coronavírus.

Já falta oxigênio nos hospitais, como é o caso de Manaus, no Amazonas. Há quem esteja recorrendo à Justiça para, pelo menos, conseguir o básico: ar para respirar.

Enquanto isto, à semelhança do personagem de Frei Betto, os vira-latas que somos nós governados, aguardamos a Justiça chegar para dominarmos o mundo. Em vão.

A Justiça não chegará. Nunca chegará.

A Justiça existe para os ricos, para os afortunados, para a elite desavergonhada que dilapida os cofres públicos do Brasil, para os homens públicos inescrupulosos.

Alguns até furtaram o dinheiro destinado ao combate à pandemia do coronavírus.

Ah! Para esses a Justiça chega. Apressadamente. E os concede Habeas Corpus para se livrarem do xilindró e continuarem furtando.

araujo-costa@uol.com.br

Entre jatinhos, traições e dinheiro público.

A campanha para a presidência da Câmara dos Deputados está escancarando o que a sociedade já sabe: dinheiro público sendo esbanjado a torto e a direito, como se crise pandêmica e econômica não houvesse no Brasil e traições, muitas traições, além de promessas presumivelmente inconfessáveis em público.

Os dois candidatos declarados à presidência da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP) estão percorrendo os estados, para encontros com governadores, aliados e políticos locais, usando jatinhos particulares, geralmente modelos de oito lugares.

Segundo suas Excelências os candidatos, esses sofisticados jatinhos estão sendo pagos por seus partidos respectivos – dinheiro público do fundo partidário, portanto – mas desconfia-se que alguns conhecidos empresários estão financiando, à sorrelfa, dissimuladamente, as duas campanhas e, por certo, vão cobrar a fatura depois, cujo pagamento sairá do bolso do alquebrado contribuinte brasileiro.

Como é praxe, também acontecem traições de ambos os lados. Parte do Partido Social Liberal (PSL), que em princípio havia apoiado Baleia Rossi, rompeu o acordo e se bandeou para o ninho de Arthur Lira, o candidato do presidente Bolsonaro.

Aí surgiu no PSL uma figura estrambótica: a expulsão voluntária, ou seja, a direção do partido sinalizou que os deputados que não honraram o acordo no sentido de votar em Baleia Rossi serão expulsos da agremiação, desde que deixem o partido de livre e espontânea vontade.

É um novo tipo de expulsão, que o PSL inventou. Os humoristas gostaram.

Nesse balaio de gatos, o Partido dos Trabalhadores (PT) está apoiando o outrora “golpista” Baleia Rossi (MDB) e, na campanha simultânea para presidência do Senado Federal, este mesmo PT sinalizou que vai apoiar o candidato do presidente Bolsonaro, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Para o PT, coerência é um bicho que corre em disparada, sem nenhuma hipótese de ser alcançado pelo partido.

Só os petistas acreditam que a direção do partido está costurando esses acordos esquisitos e avessos ao pensamento da esquerda, sem nada em troca e tão-somente em nome da convivência democrática.

Diante disto, difícil descobrir o que o “golpista” paulista Baleia Rossi e o senador mineiro Rodrigo Pacheco prometeram ao PT, em troca desses estranhos e inexplicáveis apoios.  

araujo-costa@uol.com.br

Liberdade de opinião e direito de divergir

“No mesmo dia já me chamaram de bolsonarista e radical de esquerda, por desconhecidos da internet, sem nenhum conhecimento de minha história” (Fafá de Belém, cantora).

Este escrevinhador também. Alguns desinformados já me chamaram de bolsonarista e outros lunáticos dizem que sou antipetista e antilulista. Há até quem use a expressão “seu presidente” ao se referir a Bolsonaro. 

Só há uma explicação para pessoas que pensam assim: elas padecem de falta de informação e de capacidade de conviver com os antagonismos de maneira democrática. Não têm respeito às opiniões contrárias e se apegam às paixões políticas.

A liberdade de opinião e a livre expressão do pensamento são bens inquestionáveis e inatacáveis assegurados em mandamento constitucional.

Por óbvio e elementar, ninguém é obrigado a concordar com a opinião de outrem, mas também é insensato sair por aí distribuindo rótulos simplesmente porque pensa de forma contrária. Isto é pequenez de raciocínio, pensamento acanhado.

O político mineiro Tancredo Neves, conhecido articulador e defensor do diálogo entre adversários, dizia que “são as ideias que devem brigar e não os homens”, ou seja, não se devem misturar as coisas.

Lembro da conhecida frase do jornalista Reinaldo Azevedo (O País dos Petralhas), que lhe rendeu gigantescos protestos da esquerda: “Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil”.

Outrora crítico contumaz do Partido dos Trabalhadores e de seus métodos, Reinaldo Azevedo hoje deita-se esplendidamente no colo de Lula e dos petistas, o que significa dizer que as opiniões mudam, os fatos mudam, a realidade se transforma e, apesar disto, o mundo não acaba e, se vier acabar, não será por isto.

Tenho o hábito de acompanhar e comentar os fatos políticos relevantes de minha região, especialmente de dois municípios encravados no sertão baiano, que me são caros: Curaçá e Chorrochó.

É uma forma de contribuir modestamente com o debate político de lá, sem nenhuma pretensão de ofender este ou aquele grupo político ou qualquer pessoa, isoladamente.

Em razão disto, tenho recebido manifestações severas de defensores de grupos políticos locais, embora poucas, felizmente. Sou aberto às críticas, tanto que deixo meu e-mail ao final de cada texto publicado.

Essas manifestações acompanham-se de um quê de rancor incapaz de colocar-se no campo da civilidade.

Contudo, a maioria compreende meu intuito de contribuir para o debate de ideias. Logo, a maioria inteligente “captou a mensagem”, como diria o aluno do professor Raimundo.

De outro turno, esses debates, qualquer que seja o autor – e não somente este escrevinhador – contribuem modestamente para despertar nos jovens e estudantes de hoje o hábito de aprenderem a pensar, de modo que não se transformem mais tarde em massa de manobra de políticos espertos, inescrupulosos e moralmente indecentes.

Ao contrário, quando meus textos versam sobre assuntos nacionais, as críticas são mais amenas, o que significa entender que o acanhamento de ideias ainda se concentra nos pequenos municípios de nossos rincões.

Ou, num raciocínio mais amplo, o enraizamento das paixões políticas ainda não se desvinculou do mandonismo dos chefes políticos locais e da proximidade entre a troca de favores e as urnas.

Para as pessoas desvalidas e abandonadas, a promessa de um emprego público ou a limpeza de uma barragem no sertão, para saciar a sede do criatório do sertanejo, estão acima de qualquer opinião ou crítica política.  

Em resumo, o bom da democracia, dentre outros esteios, é a convivência polida com os contrários e a liberdade de opinião, sem excessos, dentro dos parâmetros permitidos por lei.

Temos o direito de divergir, em quaisquer situações.

Todavia, não custa ponderar primeiro os fatos e auscultar a verdade, antes de sairmos por aí apedrejando os outros, tão-somente porque pensam diferente de nós.

araujo-costa@uol.com  

Sobre vacinas, jacarés e escárnios

Toda asneira que o presidente da República diz – e não devia dizer – a imprensa faz estardalhaço porque, ademais, o papel da imprensa é este: informar.

O presidente Bolsonaro andou duvidando da eficácia e segurança de uma das vacinas em estudo e até levantou a hipótese do imunizante transformar pessoas em jacarés.

Evidente que se trata de uma brincadeira sem graça e inoportuna nesta quadra difícil por que a humanidade vem passando.

Todavia, a imprensa não fala de outro assunto. Parece que as besteiras que o presidente fala são mais importantes do que a seriedade dos demais problemas que o Brasil enfrenta.

Com o aumento dos casos da pandemia do coronavírus e o consequente colapso do sistema de saúde, que já se mostra incapaz de absorver e tratar os infectados, melhor que nos vacinemos, quando for possível e nos arrisquemos em ser transformados em jacarés do que faltarem cemitérios para enterrar nossos mortos e a nós próprios.

Pântanos e lagoas há muitos.

O cenário é assustador. Em São Paulo já não há vagas em hospitais.

O governador-pavão de São Paulo, que a imprensa adora e o eleva ao pedestal da hipocrisia, diz que São Paulo vai bem, sim senhor. Mas João Dória não explicou, até hoje, porque concordou em enterrar milhões de reais nos hospitais de campanha e permitiu que fossem desativados em plena pandemia.

Em todo caso, já é hora de o presidente da República deixar que seus assessores falem dos assuntos de governo, inclusive sobre campanha de vacinação e fique quieto para não fragilizar ainda mais o estado emocional dos brasileiros.

Até na ditatura militar (1964-1985) os generais-presidentes tinham porta-voz para falar em nome do governo e não saíam por aí falando impropriedades asnáticas.

Escárnio I

“Sem precisar participar de nenhuma votação e nem sequer pisar em Brasília, a senadora Nailde Panta (Progressistas-PB) poderá receber R$ 52 mil entre salários e verbas indenizatórias por apenas 15 dias no cargo, no recesso parlamentar.

Segunda suplente na chapa de Daniella Ribeiro (PP-PB), a parlamentar tomou posse anteontem, mas só deve ocupar a vaga até o dia 21 deste mês, quando a titular retorna de licença.

Mesmo assim, terá direito a todos os benefícios previstos nas regras do Senado” (O Estado de S.Paulo, 08/01/2021).

Um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes.

Escárnio II

A Câmara dos Deputados paga para cada um deputado a quantia de R$ 33,7 mil, a título de auxílio-mudança.

Ou seja, os deputados federais recebem esse auxílio-mudança no início e no fim do mandato, mesmo que morem em Brasília e não precisem fazer qualquer mudança.

Total da conta que os brasileiros pagam por essa maracutaia indecente: R$ 20 milhões, como ajuda de custo. Isto mesmo, ajuda de custo.

Mais um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes

Esta história é antiga. Só se repete a cada legislatura.

Ninguém muda. Ninguém quer mudar.

As regras são feitas pelos próprios parlamentares que delas se beneficiam.

araujo-costa@uol.com.br

A grandeza e a humildade de João Gilberto

O mistério faz parte da construção dos mitos ou, no mínimo, dá-lhes razões para crescerem à sombra das idiossincrasias nem sempre explicáveis.

Assim, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), ou simplesmente João Gilberto, um desses mitos construídos a partir de Juazeiro, sua cidade natal.

João Gilberto abeberou-se na cultura de Barro Vermelho, sertão de Curaçá, onde o pai Joviniano Domingos mantinha raízes culturais e nos encantos ribeirinhos do Rio São Francisco. De lá saiu para o mundo.

Esculpiu um temperamento difícil, solitário, avesso a badalações.

A fama o protegeu das vulgaridades e não lhe permitiu o apego aos holofotes. Fez o caminho inverso daquele seguido pelas celebridades ligadas à música. 

Muito já se escreveu sobre suas manias e esquisitices. São muitas, inumeráveis, algumas delas fazem parte do mito, viraram lendas.

O experiente jornalista Ricardo Noblat conta uma. Entrevista previamente marcada, o repórter ligou o gravador, para começar a conversa. João Gilberto pergunta: “Vai ligar o gravador? Olhe, não ligue não. Eu mudo muito de ideia. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”.

Agora, a cantora Joyce, conta outra no livro Aquelas Coisas Todas.

Joyce chegou ao apartamento de João Gilberto, em Nova York e o anfitrião pediu sanduíches. Ao abrir as embalagens, Joyce notou que faltava um garfo. João resolveu a situação: “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”.  

Juazeiro, Rua Góes Calmon. Há alguns anos, eu conversava amenidades na calçada da Sociedade Apolo Juazeirense, uma das instituições tradicionais de Juazeiro. Do alto de minha ignorância, não sei se ainda existe e se o endereço continua o mesmo.

O assunto resvalou para João Gilberto.

Lá para as tantas, meu interlocutor ponderou que João Gilberto não visitava Juazeiro porque tinha vergonha dos alagadiços e esgotos da cidade. Maldade. João Gilberto adorava Juazeiro e dizem que até visitava a cidade humildemente, sem estardalhaço.

Já naquele tempo – década de 1970 – os prefeitos Joca de Souza Oliveira e Américo Tanuri prometiam resolver o problema dos pântanos e esgotos a céu aberto existentes em Juazeiro e João Gilberto nunca teve nada com isto. Os administradores subsequentes devem ter resolvido o problema. Certamente resolveram e aquela nódoa deve ter sido extirpada da cidade.

Talvez os esgotos nem fizessem mais parte de suas lembranças da infância vivida por lá na década de 1940. Mas Juazeiro gosta muito dele. É uma honra para o lugar. O Centro de Cultura João Gilberto está aí para atestar o amor de seu povo pelo filho ilustre.   

João Gilberto mantinha uma vida misteriosa. Vivia em reclusão voluntária.

Vizinhos de seu apartamento carioca no Leblon sempre disseram que nunca o viram e que não atendia a porta.

Sabe-se que trabalhava à noite e dormia durante o dia, normalmente até às 17:00 h. Pedia as refeições por telefone e os entregadores nunca ultrapassaram a soleira da porta. Não recebia visitas, exceto familiares e um restrito número de profissionais ligados ao seu trabalho.

Perfeccionista, misterioso, detalhista, dedicava-se solitariamente à música.

Como todo mito, ninguém o via, ninguém o tocava, ninguém o conhecia de perto. Sua grandeza residia na humildade.

João Gilberto deixou a vida e seus mistérios em 2019.

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Patamuté: memória da professora Beatriz

Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes/arquivo Wagner Reis

“Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro” (José Marti, poeta cubano, 1853-1895)

Esta é uma crônica de saudade, com algum quê de envelhescência. Um olhar sobre a memória e dignidade de uma mestra na arte de educar.

Guardo, com muito carinho, um documento expedido em 10 dezembro de 1967. Trata-se do diploma de conclusão do meu curso primário na Escola Estadual de Patamuté.

Naquele tempo fazia-se o primário em cinco anos, que habilitava o aluno para a admissão ao curso ginasial, que se constituía no sonho da maioria dos estudantes pobres do sertão, inalcançável para muitos.

Hoje esse documento – diploma – apequenou-se e é comumente chamado de certificado. Melhor, apequenaram-no, talvez em razão das exigências do tempo.

O diploma traz a assinatura da professora que me ensinou e acompanhou meus dias naquela fase estudantil tão difícil e importante em minha vida: Beatriz Gonçalves dos Reis.

Mais tarde, em razão do casamento com José Gomes Reis Filho, ilustre senhor de família tradicional de Patamuté, ela passou a assinar Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.

Com a professora Beatriz aprendi a antever novos horizontes, contemplar as perspectivas, expandir os sonhos da mocidade e colocar o pé no estribo em direção ao desconhecido.

Beatriz era lotada no Departamento de Educação Primária do Estado da Bahia e, como tal, professora em Patamuté.

Como se dizia à época, “professora formada”, ou seja, habilitada formalmente, para o exercício da profissão, porque naqueles idos as professoras do interior raramente tinham formação em magistério.

Beatriz tinha formação, porque seu pai, Júlio Reis, um sujeito decentíssimo, permitiu que ela estudasse fora do então modorrento Patamuté.

O documento é importante em minha vida. Será sempre. É o segundo, depois da certidão de nascimento. E importante porque a assinatura da professora Beatriz é uma láurea para este humilde escrevinhador. E se o é, é-o no que concerne à minha satisfação. Eu admirava e ainda hoje a guardo na memória como um dos pilares do ensino em Patamuté e de minha formação.

Beatriz era conspícua, atenciosa, inteligente, educada, elegante. Olhar ativo e altivo, sorriso largo e sincero, irradiava bondade aos circunstantes. Deixou-me sólidos e robustos exemplos de ética, profissionalismo e decência.

Penitencio-me diante de sua memória por ter seguido alguns desses exemplos e outros nem tanto. Mas isto deve ser debitado unicamente à minha fraqueza humana.

Embora não tenha nenhuma pretensão de ser memorialista ou historiador, devo lembrar que Patamuté deve muito à professora Beatriz pelo seu trabalho, quase sempre em condições inóspitas, em benefício da infância e da juventude da época. Sua memória merece mais atenção das autoridades do município de Curaçá, evidenciando-a perante todos, mormente relativamente aos jovens, às gerações de hoje.

Quando Beatriz se dedicava à luta para educar jovens, por extensão estava construindo um novo tempo para Patamuté, que ainda hoje reluta em alcançar.

Se no presente o ensino em Patamuté dá-se em condições precárias, imaginemos cinco décadas atrás.

Deixo aqui meu respeito e admiração aos professores de hoje, em Patamuté, que lutam arduamente em seu difícil mister de ensinar.

As condições de ensino que Beatriz enfrentou eram adversas, difíceis. Todavia, ela nunca abdicou de seu dever de ensinar e o fazia com generosidade, esforço e bravura.

Patamuté deve prestar-lhe reverência. Há muitas formas de fazê-la. É preciso resgatar sua memória do ostracismo. É necessário que a sociedade patamuteense reconheça o seu trabalho em prol da educação e da dignidade de sua gente. E isto deve ser feito através das autoridades do lugar.

Deixo aqui uma sugestão aos vereadores e ao prefeito de Curaçá:

Considerem o nome da professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes para nomear algum equipamento público no distrito de Patamuté. Mais do que homenagem, trata-se de respeito à sua memória.

Se, à semelhança do poeta, não temos o condão de perfumar o século, pelo menos tenhamos a coragem de guardar com dignidade a memória de nossos antepassados.

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