O PT e os “golpistas”

Quem tinha dúvida de que a principal ideologia do Partido dos Trabalhadores (PT) é poder e dinheiro deixou de ter.

Só há duas categorias de pessoas que acreditam na seriedade do PT: os petistas e os aliados dos petistas.

Com vistas às eleições para a presidência da Câmara dos Deputados, o PT formalizou seu apoio ao candidato do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) do ex-presidente Michel Temer.

Temer comandou a agremiação em diversos períodos e manda no partido desde sempre. As decisões mais importantes do MDB passam por Michel Temer.

Esse alinhamento PT-MDB sempre houve. O principal fiador da chapa Dilma-Temer foi o morubixaba Lula da Silva. Mas depois do impeachment de Dilma Rousseff, as coisas azedaram entre eles. A situação era de vaca não conhecer o bezerro.

Agora, o PT apoia o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), um dos homens de confiança do ex-presidente Michel Temer, na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, que acontecerá em fevereiro.

O deputado Baleia Rossi fez campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e votou pela queda da então presidente, assim como os mesmos emedebistas que hoje o PT senta no colo e os afaga.

Ninguém sabe – nem saberá nunca – o que está envolvido nesse apoio do PT ao deputado Baleia Rossi e o que o partido pediu em troca.

O PT diz que Baleia Rossi prometeu independência da Câmara e rejeição de alguns projetos de Bolsonaro que passam pelo Legislativo e contrariam a esquerda. Alguém acredita?

Pergunta-se:      

Para o PT e seus aliados, o MDB e os emedebistas não eram golpistas durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Não eram golpistas durante todo o governo de Michel Temer?

Não eram golpistas ao viabilizarem a ascensão de Michel Temer à presidência da República que, no fundo – diziam os petistas – era um plano para implodir o PT e suas ideias?

O deputado Baleia Rossi não era golpista até ontem?

O PT mudou ou mudaram os golpistas?

Ninguém se assuste se, algum dia, o PT vier apoiar politicamente o pernóstico e grosseiro ex-juiz Sérgio Moro, algoz de Lula da Silva.

O PT faz coisas inimagináveis. Despudoradamente.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, boato e expectativa

O jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto (1956-2016), dizia que “o jornalista é o único animal vertebrado capaz de acreditar em boatos, porque nenhum boato é gratuito”.

“O boato é o mais antigo meio de comunicação de massa, muito antes do ouvir-dizer. Ninguém é responsável pelo boato, mas todo mundo está a par dele. A fonte do boato é inacessível, oculta e misteriosa”, diz o professor Jean Noel, que escreveu um livro sobre o tema.   

As urnas não trouxeram surpresas no que tange à composição da Câmara Municipal de Chorrochó.

Aliás, as urnas não trouxeram quaisquer surpresas, quer relativamente à Câmara, quer no que concerne ao Poder Executivo. Mas é preciso considerar alguns aspectos que estão carreando para firmar o contexto da administração municipal que se inicia em janeiro de 2021.

Fechadas as urnas, mais que boatos, surgiram expectativas de que o prefeito reeleito Humberto Gomes Ramos faria alguma construção política no sentido de alterar o desenho da composição da Câmara Municipal, uma espécie de engendramento para robustecer-se ainda mais no Executivo e assegurar a inquestionável solidez de sua base no Legislativo.

A rigor, o prefeito não precisa disto, mas em política não há nada impensável. O prefeito tem estrondosa maioria no Legislativo, quase unanimidade e ampara-se em inegável lastro popular e político no Executivo.

Eventuais acomodações aqui e acolá não significam necessidade de fortalecer-se, vez que o prefeito é politicamente forte, talvez um mimo, um afago político a aliados.  

Mudam-se as peças do tabuleiro, mas o jogo continua o mesmo. O grupo político do prefeito é coeso e cada vez mais se fecha em torno do alcaide, que caminha para duas décadas no comando político de Chorrochó.

Embora ainda não confirmado, tudo leva a crer que o prefeito levará pelo menos duas vereadoras de sua extrema confiança para o Executivo e abrirá espaço na Câmara Municipal para entronizar aliados leais, entre eles o ex-vereador Wellython Luiz Pacheco de Menezes, que ficou pendurado em uma das suplências.  

A razão é compreensível e relativamente simples. Por exemplo, a vereadora Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que deve ser reconduzida à Secretaria de Saúde do município, fato já esperado, ostenta sólida lealdade ao prefeito.

Em política, a lealdade é fundamental, como é em todas as áreas da atividade humana.

Lealdade pressupõe grandeza, firmeza de caráter, humildade, decência e respeito mútuo.

Profissional de destaque, Sheila Jaqueline é descendente de família de caráter irrepreensível. Esteia-se nas raízes políticas do pai e ex-prefeito José Juvenal de Araújo e do avô Oscar Araújo Costa, honra e glória do povoado de Caraíbas.

Oscar foi uma espécie de patriarca respeitado e reverenciado por sua gente de Caraíbas e circunvizinhanças. Ainda hoje persistem por lá os andaimes que ele engendrou em benefício do povo.

Em quadro assim, o prefeito Humberto Gomes Ramos se sente confortável para reconduzir a vereadora Sheila Jaqueline às hostes do Executivo, porque conhece seu trabalho e dedicação, o que, de resto, é sobejamente conhecido da população.

A outra vereadora que certamente será guinada a uma secretaria no Executivo é a socióloga Jane Edla Fonseca de Souza, também leal ao prefeito e proveniente de família tradicional e correta de Barra do Tarrachil, maior base eleitoral do prefeito Humberto.

Boatos ou expectativas à parte, o fato é que Wellython Luiz Pacheco de Menezes é uma acertada escolha para a Câmara Municipal. Experiente, já exerceu outros mandatos de vereador, de modo que é um bom quadro para assumir qualquer vaga no Legislativo.  

Ademais, Wellython conhece bem a maçaneta do Legislativo e provém de família respeitável cuja seriedade política não comporta dúvida.

Wellython é filho de Walmir Prudente de Menezes, que deixou exemplo de dignidade e decência e neto de Antonio Pacheco de Menezes, um dos esteios da sociedade de Chorrochó. Isto por si só lhe credencia como homem público, de modo que o prefeito Humberto está bem acompanhado.

Outras costuras políticas podem estar no radar do prefeito Humberto Gomes Ramos.

araujo-costa@uol.com.br

Solidão do dia seguinte

O carteiro que serve minha rua, que é jovem, não viveu a época em que as pessoas mandavam cartões desejando votos de “feliz Natal e próspero Ano Novo” para parentes, amigos, conhecidos e sujeitos de suas relações, ainda que comerciais.

Não só o carteiro desconhece essa época, mas as gerações mais recentes, que vivem nessa confusão eletrônica e necessária a essa quadra do tempo.

Aliás, com os avanços tecnológicos, carteiros já se aproximam da extinção.

Os envelopes continham traços de sinos e adereços alusivos à ocasião e dizeres bonitos, floridos, admiráveis. As mensagens abarrotavam as agências e postos dos correios em finais de ano.

Ao receber as correspondências, perguntei ao diligente estafeta se havia cartões de Natal. Surpreso, diante da novidade, respondeu seco, quase assustado com a minha pergunta envelhescente:

– Acho que não.

Esse costume não existe mais. As comunicações online extinguiram essa forma tão eficiente de relacionamento: as felicitações pela passagem das festas de fim de ano.

Hoje quase ninguém mais manda cartões, chega a ser uma cafonice, um atestado de desinformação e até, em certos casos, um comportamento irrefletido diante de tanta parafernália eletrônica em tempo real.  

Interessante é que a mudança se deu mui rapidamente. Eu tinha o hábito de mandar cartões de Natal, até por educação e etiqueta. Vi-me ultrapassado de repente. Neste 2020 não mandei sequer um. Fui desencorajado pela onda de frieza que assola as metrópoles e para não correr o risco de ser chamado de jurássico.

A indiferença passou a ditar o comportamento, ainda mais neste tempo de pandemia cruel e de distanciamento físico e emocional.

A evolução da sociedade vai dizimando, em seu bojo, as formas simples de convivência, destruindo friamente os relacionamentos e corroendo os vínculos sociais que já eram escassos.

Estamos todos menos calorosos, desinteressados pelos outros, excessivamente críticos e egoístas, de sorte que muitas coisas perderam importância, embora muitos de nossos valores estejam ínsitos nas pequenas coisas.

Em breve os cartões de Natal serão lembranças e relíquias para colecionadores, assim como as cartas que não escrevemos mais e os recados verbais que não mais mandamos para amigos e familiares.

As cartas foram substituídas por mensagens eletrônicas frias, sucintas, às vezes automáticas, insignificantes diante da grandeza humana.

Vivemos à espera da solidão do dia seguinte.  

Desejo a todos próspero 2021 com muita saúde e compreensão.  

araujo-costa@uol.com.br                       i

Se tivessem vergonha

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados” (Apparecido Torely, Barão de Itararé, 1895-1971)

Primeiro, foram os promotores de São Paulo, do alto de suas intocabilidades, reivindicaram que fossem vacinados contra o covid-19 antes de toda a população de São Paulo, um privilégio escandaloso e inaceitável.

A imprensa descobriu a ilegalidade e eles recuaram, não foram adiante. Não fosse isto, teriam formalizado o privilégio junto às autoridades de saúde, com o beneplácito do governador-pavão João Dória .

Risível a justificativa dos promotores: eles trabalham em contato com o público. Esqueceram de dizer que a população em geral tem contato com o público e não somente Suas Excelências.  

Na mesma linha, dias depois, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) endereçou ofício à Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) sinalizando que seus intocabilíssimos ministros e servidores do tribunal deveriam ser os primeiros a ser vacinados, também contra o covid-19.

A séria Fiocruz negou o pedido, obviamente.

Pior, muito pior: semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF), que é o guardião da Constituição, também endereçou ofício à Fiocruz solicitando que disponibilize 7.000 doses de vacina contra o covid-19 para seus supremos ministros e servidores do tribunal.

Servidores aqui compreendem: terceirizados do tribunal, funcionários, cônjuges, filhos, netos, bisnetos, tataranetos, pais, mães, avós, bisavós, todos que fazem parte do ambiente familiar do STF. Os verdadeiros privilegiados, uma média de 636 pessoas para cada dos 11 intocáveis e elitistas ministros..

Nos dois casos, a Fiocruz negou os pedidos sob o sensato e inquestionável argumento de que as vacinas, quando estiverem prontas, serão entregues ao Ministério da Saúde, de modo que a fundação não tem autonomia para assegurar tais privilégios a Suas Excelências.

O presidente do STF, em entrevista à televisão, sem nenhum constrangimento, tentou justificar a desfaçatez, dizendo que o tribunal teve a “preocupação ética” de ponderar que o pedido seria “dentro das possibilidades”.

“Preocupação ética” teria ocorrido se o STF não tivesse pedido as doses de vacina e pretendido furar a fila num claro desrespeito ao mandamento constitucional.

É o famoso “sabe com quem está falando?”, também conhecido como “carteirada”. A elite desavergonhada se acha no direito de pisotear o direito dos demais brasileiros, mormente da classe pobre.

Em última análise, ao tentar justificar o injustificável, o presidente do STF demonstrou não acreditar na inteligência dos brasileiros. Zombou de nossa capacidade de entendimento. Bastava dizer: o STF pretendia transgredir a Constituição Federal e pronto.

O que assusta nisso tudo é o fato de promotores e ministros dos tribunais superiores, que têm o dever de cumprir a lei e dar o exemplo, desrespeitem acintosamente a Constituição Federal, que diz em seu artigo 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

Essas autoridades precisam aprender a ler a Constituição da República, os compêndios de gramática e os dicionários, para entenderem a expressão ínsita na Constituição, que diz cristalinamente: todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza.

A impressão que fica é que a Constituição Federal e o ordenamento jurídico nacional, como um todo, devem ser cumpridos somente por nós mortais comuns e não por Suas Excelências os privilegiados.

Por outro lado, o governador de São Paulo mandou fechar o estado e determinou que sua equipe desse a notícia ruim, segundo a qual o laboratório chinês não aprovou, por enquanto, o índice de eficácia da vacina Coronavac produzida pelo Instituto Butantan. Deixou o desgaste político para o vice-governador.

João Dória mandou os paulistas ficarem em casa, pegou o avião e foi curtir férias em Miami, na Flórida, com a esposa.

O governador não esperava que aliados políticos, adversários e as redes sociais em geral o detonassem pelo gesto irresponsável: no momento em que aumentam assustadoramente os casos e as mortes por covid-19 em São Paulo, ele virou as costas à população e foi passear, como se vivesse nos melhores dos mundos. Magnata, pouco importa o sofrimento dos outros.

Mas o resultado não saiu de acordo com o figurino do governador. Calhou que o vice adoeceu e ele teve de voltar às pressas para reassumir o Palácio dos Bandeirantes.

Só retornou antes do previsto, em razão dessa circunstância inesperada.

João Dória inventou uma desculpa esfarrapada ao regressar, que não convenceu nem a ele próprio. Disse que foi participar de duas conferências nos Estados Unidos e aproveitou para descansar 10 dias.

Lorota. Embromação. Falta de sinceridade.

O jornalista Alexandre Garcia, conferencista renomado, disse que não é comum a realização de conferências no período entre o Natal e Ano Novo, as chamadas festas de fim de ano, mais improvável agora, em tempo de pandemia que, inclusive, castiga os Estados Unidos.    

Pífio, vergonhoso e insustentável o argumento do governador.

Ficou feio, como tudo que faz o governador-pavão de São Paulo.

O embuste do governador não colou e ele teve que absorver o desgaste. Mais que depressa, gravou um vídeo pedindo desculpas à população, como se o pedido de desculpas reparasse o erro.

O estrago político está feito, não há conserto.

Se nossas autoridades tivessem vergonha, o Brasil seria diferente e estaria noutro patamar de civilidade.

É uma elite escabrosa e defensora das negociatas disfarçadas com manto legal, desde que o povo seja excluído.

araujo-costa@uol.com.br

Os deslumbrados de Chorrochó

A Câmara Municipal de Chorrochó aprovou e o prefeito sancionou duas curiosas leis, neste tempo de pandemia, concedendo vultosos aumentos de subsídios ao prefeito, vice-prefeito, vereadores e secretários municipais.

As leis de 01 de dezembro, editadas em momento de extrema dificuldade por que passa a população, não se adéquam à realidade do município neste tempo de pandemia.

Noutras palavras e em resumo: o prefeito e os vereadores aumentaram seus próprios salários. Ressalva-se, a bem da verdade, que alguns vereadores estão em final de mandato, não foram reeleitos e, portanto, não se beneficiarão desse engendramento jurídico inoportuno.

Argumentar-se-á que se trata de reajuste previsto em lei, o que é verdade, mas também é verdade que a legalidade do ato não está sendo aqui questionada.

A impressão que fica é que o prefeito mandou as leis prontas para a Câmara Municipal e os vereadores disseram amém, muito obrigado, mande sempre e apuseram suas assinaturas.

Há um costume nos legislativos, que chega a ser cultural: quando o projeto de lei proposto é para beneficiar os legisladores, a unanimidade se faz presente, sempre. Silenciosamente, sem estardalhaço.

Discussões acaloradas em plenário são para outros assuntos. Assuntos que interessam aos bolsos de Suas Excelências são tratados com conversa ao pé do ouvido, à sábia maneira dos conchavos.

Em se tratando do ponto de vista legal, não há nenhum reparo a fazer e, se houvesse, não caberia a este humilde escrevinhador laborar neste terreno movediço.

É praxe os legislativos definirem/fixarem aumentos, em benefício de seus membros, para vigorarem no exercício seguinte, de modo que não há nenhuma novidade nisto. Nosso sistema legal permite. De roldão acoplam-se membros do Executivo, também por previsão legal.

Entretanto, esses aumentos de Chorrochó não encontram amparo em nenhum parâmetro moral. Significa dizer que o ato é moralmente insustentável. Fácil explicar.

Grande parte da população do município de Chorrochó enfrenta um pauperismo degradante. Convenhamos, isto não é culpa do prefeito e tampouco dos vereadores.

Trata-se de uma situação que se arrasta há séculos no Nordeste, embora agravada pelo descaso dos governantes em todos os tempos e em todos os níveis, o que não exclui o dever de parcimônia e sobriedade do prefeito e dos vereadores de Chorrochó, se assim desejassem.

O Legislativo e o Executivo de Chorrochó estão na contramão do bom senso.

Entes públicos, inclusive municípios, estão freando seus gastos em razão da cruel realidade econômica imposta pela pandemia do coronavírus, o que pode ser entendido como respeito às suas populações.

Portanto, é no mínimo imoral, conceder agora aumentos e/ou reajustes, mesmo previstos em lei, a membros privilegiados do Legislativo e do Executivo, embora eles insistam em dizer que são defensores do povo.

Todavia, para essas autoridades, o importante é o dinheiro e não o discurso.

Em razão da triste penúria por que passa Chorrochó, quem sabe os vereadores que tomarão posse em janeiro abrirão mão desses aumentos e os destinem a entidades do município que cuidam de pessoas carentes, inclusive crianças, ou mesmo a programas assistenciais mantidos pela Prefeitura.  

Os subsídios previstos nas leis municipais retro aludidas situam-se em valores de R$ 4,5 mil, R$ 7,5 mil, R$ 9 mil e R$ 18 mil, além das demais vantagens pecuniárias de praxe carreadas para os respectivos cargos.

Como se vê, Chorrochó tem seus deslumbrados.

araujo-costa@uol.com.br

João Soares, a vida e as marcas da vida

João Soares de Carvalho/foto do Facebook

João Soares de Carvalho nos deixou ao apagar das luzes deste conturbado ano de 2020, aos 63 anos completados em junho.

João era filho de Eugênia Soares do Nascimento Arnaldo e Abraão de Carvalho Arnaldo, de estirpe tradicional e bem conceituada de Chorrochó.

João de Abraão, como era mais conhecido entre amigos, deixa a vida e as marcas da vida. Foram tantas!

Ainda muito jovem João deixou Chorrochó e foi para São Paulo, assim como tantos outros milhares de nordestinos. Ele tinha um sonho a mais na bagagem, que lhe acompanhou por décadas: firmar-se como cantor e viver da profissão.  

Joao participou dos mais badalados programas de auditório e de calouros da televisão de São Paulo, a exemplo de Sílvio Santos, Bolinha, Raul Gil, etc.

Não tenho conhecimento de programas do gênero de que ele não tenha participado nos áureos tempos dos jurados de televisão, uns sisudos, outros generosos, mas que sempre lhe atribuíam notas máximas.

João tinha voz admirável, postura e estrutura formal de cantor de grandes palcos. Interpretava respeitados nomes da música, agigantava-se no ofício de cantar. Transitava dos clássicos boleros ao forró pé de serra, do romântico ao popular. No repertório de João não havia barreiras.

Já cantor profissional, embora ausente na mídia, por razões que nunca entendemos, João fundou uma banda e com ela passou a animar bailes e eventos do gênero, com boa estrutura e nome profissional firmado no meio artístico.

Assim, João cavou a vida em São Paulo, honestamente, diuturnamente. Exemplo de profissional dedicado, amealhou muitas amizades, dentro e fora do meio artístico, porque seu feitio era este, desde a juventude.

Todavia, não quero falar aqui somente do João cantor, do João artista, do João que frequentou, com desenvoltura, por muito tempo, os camarins da televisão de São Paulo.

Falo também de João de Abraão, do adolescente educado, colega ginasiano do então Colégio Normal São José, de Chorrochó, lá no começo da década de 1970, das conversas despretensiosas no Bar Potiguar, da realização dos sonhos que nos parecia tão distante. De fato, era distante.

Estávamos no início do caminho para a distância. Caminho longo, desconhecido, cheio de pedras.

Simples, sorriso largo, traço que carregou por toda a vida, João não se enrolava com as intempéries da vida.  

Caminho difícil, não foi, João? Mas uma jornada vitoriosa, trilhada com muita honra, persistência, dedicação e humildade, muita humildade.

No penúltimo contato que tive com João, ano passado, ele escreveu: “Sou seu fã, desde muito tempo”. Ele sabia que o inverso é verdadeiro. Desde nossos tempos de Chorrochó.

Deixo aqui o registro da saudade e os pêsames a todos da família.

araujo-costa@uol.com.br

Vacina contra a insanidade

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Frase atribuída ao escritor americano Maurice Switzer).

Os jornais publicaram que nosso ministro da Saúde perguntou, acintosamente: “Por que essa ansiedade, angústia?”.

O ministro se referia à pressa dos brasileiros pela definição da vacina contra o covid-19 e a cobrança que a sociedade está fazendo sobre a aparente hesitação do governo do Brasil quanto às tratativas para a aquisição das vacinas.

Esta pergunta é imprudente, insensata e inoportuna. É um acinte aos brasileiros.

A resposta que o ministro da Saúde não sabe é simples: já morreram milhares, estão morrendo mil pessoas por dia no Brasil e centenas de outras estão sendo infectadas todos os dias. É o caminho cruel em direção à morte.

Os hospitais em todo Brasil já não dispõem de estrutura para atender a grande quantidade de internações diárias e necessárias, inclusive os particulares, para quem pode pagar.

A rede pública hospitalar se esgotou. Melhor dizer: acabou.

Estamos perdendo diariamente parentes e amigos e muitos brasileiros estão sofrendo com a doença, na difícil luta pela vida.

Estamos assustados, compreensivelmente assustados. Não se trata de pressa, mas de desespero.

Nossa esperança está no governo que a maioria escolheu nas urnas, democraticamente, para cuidar da administração do Brasil e, por isto, exigimos pressa das autoridades.

O generalíssimo ministro Pazuello talvez esteja precisando tomar urgentemente uma vacina contra a insanidade.

Ou ficar calado.

araujo-costa@uol.com.br

Queda do secretário de Segurança enfraquece Rui Costa

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o afastamento do secretário de Segurança Pública da Bahia. Em consequência forçada, o governador Rui Costa (PT) formalizou a exoneração.

Segundo alegação do Ministério Público Federal (MPF) acatada pelo STJ, o secretário desempenhava “papel central na garantia da impunidade dos diversos núcleos criminosos” que atuavam na venda de sentenças que envolvia membros do Poder Judiciário baiano, inclusive juízes e desembargadoras.

O MPF diz que a atuação do secretário “consistiria em neutralizar os opositores do esquema criminoso”.

O Ministério Público pediu a prisão temporária do secretário, mas o STJ negou. Aliás, o Ministério Público pede tudo, até o que não pode pedir. Sustentar processualmente a razão do pedido é outra história que não vem ao caso.

O ex-secretário Maurício Teles Barbosa é experiente, formado em Direito, delegado da Polícia Federal, com cursos na área de inteligência na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), além de ter comandado diversas operações, inclusive contra o crime organizado. Foi superintendente da Polícia Federal na Bahia.

Em quadro assim, é ingênuo acreditar, pelo menos por enquanto, que o ex-secretário tenha se embrenhado na prática de crime tão sofisticado, consoante alega o MPF, embora a palavra derradeira e definitiva seja do Judiciário.  

O governador Rui Costa tem se mantido longe de escândalos de corrupção, o que lhe garante, até agora, a confortável posição de possível candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores em 2022, se o morubixaba Lula da Silva não melar a indicação em favor do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad ou outro que vier a surgir no horizonte do delírio petista.

O escândalo que passou mais perto de Rui Costa, mas não o atingiu, foi o propinoduto por onde transitaram os marqueteiros e publicitários petistas João Santana e Valdemir Garreta e envolveu a famosa Torre Pituba, um sofisticado edifício que os petistas inventaram em Salvador, financiado com dinheiro da PETROS, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras.

William Ali Chaim, ex-guerrilheiro do MR8, que passou pelo histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se filiou ao Partido dos Trabalhadores apareceu como operador de propinas ofertadas ao PT pelas construtoras OAS e Odebrecht. Por suas mãos passaram, segundo investigações, pelo menos R$ 22 milhões de propinas endereçadas ao PT.

O Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8) foi um grupo guerrilheiro fundado na década de 1960, por militantes de esquerda, para combater o regime militar dos generais-presidentes. 

Mas o fato é que Rui Costa passou longe desse dinheiro ou passaram com o dinheiro longe dele.

De qualquer forma, a acusação de envolvimento do ex-secretário de Segurança da Bahia nesse rumoroso caso vinculado à venda de sentenças respinga em Rui Costa, por uma razão muito simples: Maurício Barbosa sempre foi um dos secretários mais próximos do governador e com ele mantém considerável afinidade de pensamento e atuação.

Todavia, parece que os orixás estão conspirando a favor do governador Rui Costa. É curioso o silêncio da imprensa sobre esse quiproquó envolvendo o ex-secretário baiano.

Meio caminho andado. Quando a imprensa dá de ombros para assuntos sérios é sinal de que alguém está sendo beneficiado com o silêncio, mesmo que involuntariamente.

Mutatis mutandis, como dizem os entendidos em direito, se esse secretário trabalhasse no Palácio do Planalto, sem dúvida a cobertura da imprensa seria outra e os comentaristas do Grupo Globo estariam roucos de tanto repetir o mesmo assunto.

Basta lembrar a polêmica que a imprensa criou sobre a morte do miliciano bolsonarista no município baiano de Esplanada. A imprensa transformou a operação policial em ridículo fato político que não se sustentou.

O governador Rui Costa sai enfraquecido desse episódio envolvendo seu ex-secretário de Segurança Pública e os prejuízos políticos podem aflorar na campanha presidencial, se ele for candidato.

No mínimo, o caso servirá de matéria-prima para a campanha dos adversários do Partido dos Trabalhadores, embora na Bahia o PT não tenha adversários, mas aliados disfarçados de opositores.

araujo-costa@uol.com.br

Obituários e tristezas

O cronista Rubem Braga dizia que “depois de certa idade, uma das seções do jornal que a gente lê com mais interesse é a dos mortos”. São os obituários.

Nas seções de falecimentos dos jornais estão nomes completos dos falecidos, famílias a que pertenciam, cemitérios e informações sobre funerais, datas da missa e outras coisas mais.

Como se vê, além de outros infortúnios, a senilidade traz alguns hábitos que, na mocidade, sequer sabíamos da existência deles: ler os obituários com o intuito de sabe se algum conhecido partiu desta para a melhor.

Chega um tempo em que nem conhecidos mais chegados temos mais, todos já se foram e os obituários não têm importância nenhuma.

O escritor Rubem Braga viveu noutro tempo mais ameno, até na velhice.

Os obituários não são mais lidos com a frequência costumeira, em razão, dentre outras, do amontoado de notícias ruins.

O coronavírus está matando implacavelmente centenas por dia, milhares em todo mundo, muito mais do que as autoridades publicam a conta-gotas, para não inflarem os números de mortes diárias.

Nesta triste fase por que passamos, já perdi alguns amigos e outros se encontram acometidos dessa terrível doença, o covid-19. O futuro cada vez mais se torna uma incógnita, um enigma inalcançável.

Estamos em tempo de reflexão. O sentido da vida e da morte cada vez mais se torna indecifrável.

Neste período difícil, uma das primeiras pessoas queridas que a pandemia levou foi um amigo de décadas, José Evaldo de Menezes.

Advogado e político, essencialmente amigo, José Evaldo deixou um vazio que não se pode mensurar.

José Evaldo era um esteio, uma segurança que eu tinha, embora distante. Com sua morte, desmoronou-se a construção da amizade por inteiro e passei a conviver com os escombros da saudade.

Volto ao hoje.

A angústia é saber que todos os dias a humanidade está cada vez mais cruel e indiferente.

É comum encontrarmos, no dia a dia, pessoas preocupadas somente com fama, poder e dinheiro. Para essas pessoas, nada mais existe em torno delas.

Uma coisa puxa outra, a conversa também.

Outro dia vi uma cena, difícil de esquecer. No balcão de uma instituição, estava um senhor acometido de grave doença, visivelmente alquebrado, saúde em pandarecos, discutindo arrogantemente sobre irrisória quantia de uma taxa que se negava a pagar, porque exorbitante, segundo ele.

Ou seja, naquele estado deplorável e com pouco tempo presumível de vida, aquele senhor estava preocupado com dinheiro.

Deu-me um ímpeto de lembrar àquele senhor que caixão de defunto não tem gaveta. Ele vai, o dinheiro fica, talvez para alimentar discórdia entre os herdeiros.  

Pra que se preocupar com dinheiro a essa altura da vida, já no despenhadeiro do tempo, precipitando-se em direção à morte?

Mas me aquietei. O problema era dele e não meu.  

Imaginei como teria sido esse arrogante senhor, quando mais novo e sem problema de saúde.

Precisamos rezar para diminuir os obituários e aplainar as tristezas.  

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia envergonhada

“O incorruptível. Apontem-me alguém que possa receber esse cognome atualmente no Brasil” (Carlos Eduardo Novaes, in O País dos Imexíveis)

O Poder Judiciário da Bahia vem passando por sérios e monumentais constrangimentos e vai precisar construir presídios para uma nova categoria de delinquentes: juízes, desembargadores e serventuários da Justiça.

Excetuam-se, por óbvio, os bons juízes, os bons desembargadores, os bons serventuários, que os há na Bahia e sempre houve, em todos os tempos. Esses são maioria.

Tirante os escândalos anteriores em que estava ou está envolvido até o então presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desta vez a coisa é mais abrangente, vergonhosamente mais ampla.

Em 11/12/2020, a Justiça Federal afastou cinco desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, com sede em Salvador, de modo que o ministro Coqueijo Costa (1924-1988), que deu nome ao Tribunal, deve estar se revirando na eternidade.

Além de magistrado respeitadíssimo, Coqueijo Costa foi cantor, compositor, cronista, letrista, maestro, jornalista e poeta. Logo, não teve tempo de praticar coisas ruins, como hoje fazem esses dublês de desembargadores da Bahia.  

Crimes praticados pelas subidas Excelências, segundo acusação que lhes pesa: venda de sentença e tráfico de influência. Pode?

Como se vê, simulacros de magistrados.

Suas Excelências os desembargadores afastados foram proibidos de usar os veículos oficiais e, por enquanto, perderam o direito de acesso a diversos equipamentos do Tribunal, dentre esses o setor de Recursos Humanos, gabinete virtual, Posto Judiciário Eletrônico e rede de computadores.

É o mínimo que se espera.

Já no Tribunal de Justiça da Bahia, órgão estadual, o Superior Tribunal de Justiça determinou a prisão temporária de duas desembargadoras. Acusação: venda de sentença, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e tráfico de influência.

Pode?

De roldão, também foi afastada uma ex-chefe do Ministério Público da Bahia. Isto mesmo, ex-chefe do Ministério Público. Pode?

Afastados, também, diversos servidores do Tribunal de Justiça, por envolvimento nesses supostos crimes.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também apura o caso, mas se depender das decisões de praxe do Conselho, Suas Excelências serão aposentadas com estratosféricos salários pagos por todos nós contribuintes de impostos.

Para esses magistrados, o crime compensa.

araujo-costa@uol.com.br