Chorrochó, memória do Padre Conceição

Em 26/01/2021 completa-se 35 anos da morte do padre Conceição falecido durante os festejos do padroeiro Senhor do Bonfim de 1986.

Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

Neste tempo da festa de Senhor do Bonfim, católicos e povo de Chorrochó também reverenciam a memória do padre Conceição.

Conheci o padre Ulisses Mônico Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José.

A tendência para a observação, própria dos jovens, deu-me a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar-me isto. 

Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário do lugar, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja. Fomos assim educados.

A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral e sólida dedicação à Igreja.

Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó.

Muito presente na vida da comunidade, padre Conceição era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante, atendia a todos que o abordavam.

No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária à sede de absoluto da adolescência. A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes.

Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”. Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições que ajudou a sedimentá-las.

Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

Nascido em 09.09.1914, em Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade e que foi criada em 27.01.1985. Uma acertada decisão da diocese de Paulo Afonso em favor de Chorrochó.

Padre Conceição vinha de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloquência de seus ensinamentos. Eloquência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia.

As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó, onde outro pastor andante, Antonio Conselheiro, no final do século XIX, edificou a primeira igreja até hoje existente, que resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária.

Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens.

Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Sucedeu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, um italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.

araujo-costa@uol.com.br

Igreja de Chorrochó: a contribuição do padre Mariano

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo da envelhescência  – padre Mariano Pietro Brentan chegou a Chorrochó em 04.01.1986.

Portanto, trinta e cinco anos se completam neste mês de janeiro de 2021, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de suceder ao padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco da Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote, pescador de homens, com um trabalho simultâneo e incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, salvo engano: a capela Nossa Senhora da Conceição, a construção do Centro Paroquial de Chorrochó, a reforma e ampliação da Casa Paroquial e a instituição do Lar José e Maria.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para se transformar num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade, em Chorrochó.

Socorro e Virgílio são exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Tivemos uma conversa longa sobre a Igreja, suas tradições e, sobretudo, as dificuldades por que passava um vigário do interior. Em nenhum momento reclamou do exercício de seu mister religioso.

Conversa marcadamente auspiciosa, padre Mariano falou de ritos e de história e até me fez ver a importância do Hino Queremos Deus, um dos mais tradicionais da Igreja Católica. Falou do papel da Igreja no sentido de aplainar a insensatez e ingratidão dos homens que se “erguem em vão contra o Senhor”, em todo o tempo.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, inquieto, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiado, padre Mariano é defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha e, em razão dessas costumeiras decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Em 2018, fragilizado em razão de problemas de saúde, pela primeira vez padre Mariano não compareceu aos festejos da festa de Senhor do Bonfim de Chorrochó. Talvez estivesse refletindo sobre o caminho percorrido, sua luta e seu passado de feitos e glórias.  

Os esteios da contribuição de padre Mariano para Chorrochó são valiosos.

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Os parasitas do Poder Judiciário

A história registra que o português D. Rodrigo de Sousa Coutinho, um dos homens fortes do Império, ao saber inevitável a Independência do Brasil, endereçou carta ao nosso patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e o tranquilizou: “Sobre o seu Brasil, pode estar descansado. São grandes os seus destinos”.

É que ele não chegou a conhecer nossos magistrados.

Como se não bastassem os conhecidos casos de juízes e desembargadores que vendem sentenças e se despencam moralmente no antro da corrupção, agora é a vez do Judiciário de Mato Grosso envolver-se com um assunto escabroso.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso compõe-se de 29 desembargadores que, por lei, não podem ganhar mais do que R$ 39,3 mil, que é o teto constitucional auferido por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Assim diz a Constituição da República do Brasil.

A Constituição, ora a Constituição!

O mandamento constitucional não vale para magistrados, privilegiados e outros parasitas do poder público. Eles fazem o que bem entendem. Editam as normas para se locupletarem sob o manto da legalidade.

Em dezembro passado, cada um dos 29 desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso recebeu, além dos vencimentos, mais R$ 262,8 mil, a título de penduricalhos, tais como: verbas indenizatórias, auxílio-transporte, auxílio alimentação, auxílio moradia, auxílio saúde, serviços extraordinários, eventualidades, auxílio educação e por aí vai, até atingir a estratosférica quantia de R$ 262,8 mil, além dos vencimentos mensais das subidas e intocáveis Excelências.

Deve haver por lá auxílio-falta de vergonha, auxílio-cara de pau, auxílio-acinte à sociedade e outros mais.

Isto significa, nada mais nada menos, do que uma violenta e doída bofetada na cara dos brasileiros pobres que lutam diariamente para conseguir um prato de comida e alimentar seus filhos.

Mais: a dilapidação dos cofres públicos feita pelos magistrados de Mato Grosso aconteceu em tempo de pandemia do coronavírus e na vigência do decreto federal de calamidade pública.

Por si só o ataque aos cofres públicos é imoral e arranha sobremaneira a dignidade dos brasileiros.

A desfaçatez dos magistrados é constrangedora.

Os bolsos dos desembargadores mato-grossenses estão sendo abarrotados de dinheiro público, o que fere qualquer lógica plausível e, no mínimo, atenta contra a ética e a moralidade pública.

Os privilegiados desembargadores dizem que estão amparados em regras do Tribunal de Justiça. Regras que eles mesmos fazem.

O que pode acontecer com Suas Excelências, esses nobilíssimos e honestos magistrados de Mato Grosso?

Nada. Absolutamente nada.  

Risível  é a posição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que tem o dever de coibir esses abusos no Judiciário, embora de de lá não se possa esperar muita coisa: sinalizou que vai investigar se há irregularidades.

O Conselho Nacional de Justiça tem dúvida?

Com esses parasitas do Judiciário corroendo e demolindo as estruturas de nossa República, como sonhar com um Brasil melhor?

Como ser grande o destino de nossa Pátria?

Como evitar a fome dos miseráveis?

araujo-costa@uol.com.br

As façanhas e lorotas do governador de São Paulo

Em São Paulo, estamos jogados às traças.

O arremedo de governador de São Paulo, João “Pavão” Dória, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) sinalizou que a pandemia estava diminuindo no estado, como se ele tivesse o poder mágico de, com um gesto, espantar o coronavírus.

Em razão disto, João “Pavão” Dória (PSDB) tomou algumas decisões, todas equivocadas. Exemplos:

Permitiu que fossem desativados os hospitais de campanha no meio da pandemia e, em consequência, deixou os doentes desamparados;

Endureceu as regras da quarentena em setores econômicos que não podia endurecer;

Abrandou as regras da quarentena em setores econômicos que não podia flexibilizar;

Liberou geral a aglomeração nos dias que antecederam às eleições municipais, porque queria a população na rua para votar em seus aliados;

Escondeu da população e não publicou os dados sobre o número de mortes no estado na semana anterior às eleições municipais;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto estadual (ICMS) sobre alimentos, remédios e máquinas agrícolas, que produzem alimentos para a população, dentre outros produtos;

Nos dias mais críticos da pandemia, aumentou o imposto e taxas sobre veículos automotores, inclusive usados;

Nos dias mais críticos da pandemia, tirou a gratuidade do transporte público para idosos entre 60 e 65 anos, no âmbito de sua competência estadual;

Suprimiu empregos e permitiu demissões em massa, em razão de suas decisões estapafúrdias ao fechar estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços;

O governador atraiu a ira de um sem número de prefeitos paulistas, que reclamam de sua arrogância, tendo em vista decisões tomadas sobre a realidade de municípios e regiões que ele não conhece, nunca esteve por lá;

Mandou a população de São Paulo “ficar em casa”, saiu sorrateiramente do País e foi passear nos Estados Unidos. Deu errado. A imprensa descobriu e ele teve que voltar às pressas, com cara de galo.

Fez uso e propaganda política, em seu benefício, a partir da vacina do Instituto Butantan, produzida em parceria com a China;

Resultado: hoje São Paulo já ultrapassou 50 mil mortes em razão do covid-19, média de 200 mortes por dia.

As internações estão aumentando assustadoramente e os hospitais já não dispõem de vagas em enfermarias e UTIs.

E o governador-pavão está aí, com a maior cara de pau (“cheguei, sou o máximo!”) e culpando o governo federal por tudo que acontece de ruim no Brasil para desviar a atenção de seus embaraços.

Os erros do governo federal, que são muitos, não excluem os erros do governador de São Paulo, que são monumentais.

Aqui pra nós, que ninguém nos ouça: os comentaristas do Grupo Globo, inclusive da Globo News,  não tocam nessas façanhas, lorotas e decisões erradas do governador João “Pavão” Dória, do PSDB de São Paulo.

A hipocrisia rola solta.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, tempo de festa e oração.

A Igreja Católica de Chorrochó deu início aos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

A paróquia está triste, em razão da pandemia do coronavírus que chegou a dizimar vidas em Chorrochó.

Mas a Igreja é como um lírio que brota continuamente em meio aos rudes espinhos do tempo e dos escombros das tragédias humanas.

Assim, a Igreja de Chorrochó.

Desta vez mudaram-se as formas de celebração. A  abertura da festa deu-se fora do templo, o que, de certa forma, espelhou a beleza da devoção dos chorrochoenses católicos ao seu padroeiro.

Em meio a tantas atribulações a que as populações estão envolvidas, inclusive o aumento dos índices de violência, de vez em quando o calendário da Igreja possibilita uma pausa para permitir que todos se envolvam em orações.

Em Chorrochó, portanto, realiza-se a festa do padroeiro Senhor do Bonfim. É uma oportunidade para que os católicos abandonem seus momentos de egoísmo e arrogância e deem lugar às orações, normalmente negligenciadas no dia a dia, inclusive em razão da luta pela sobrevivência.

Todos os dias durante o novenário, época de contrição e louvor, após a bênção do Santíssimo Sacramento, o celebrante desperta os fiéis no sentido de que o nome de Jesus é sempre bendito: “Bendito seja Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar!”.

É o louvor em desagravo às blasfêmias, ao indiferentismo com as coisas que dizem respeito à fé.

O celebrante pede para que Deus derrame bênçãos “sobre o chefe da nação e do estado e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade, para que governem com justiça”.

Palavras fortes e necessárias – dignidade e justiça – sem as quais nenhum governante desempenha seu papel a contento.

A oração é uma velha fórmula adotada pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMC) do Convento da Piedade, em São Salvador da Bahia, que se estende historicamente deste o século XVII: oração pela pátria, pela Igreja e pelo Santo Padre.

Chorrochó, a exemplo de todos os lugares, padece das injunções de uma sociedade violenta, desrespeitosa, degradante, alheia às coisas da Igreja e, sobretudo, tendente à vulgaridade.

É notório que a Igreja Católica não tem conseguido manter em seu rebanho as pessoas que ela mesma batizou, em razão de seu apego a valores sabidamente ultrapassados que a Santa Sé não tem interesse em flexibilizá-los.

Contudo, não deixo de reconhecer que grande parte desse fenômeno deriva da instituição familiar, que se esfacelou de tal forma que se tornou incapaz de educar seus filhos para o caminho da Igreja.

Também é notório que a Igreja persiste em seu caminho sereno em benefício de seus fiéis.

É tempo de lembrar todos aqueles que sustentaram as colunas da Igreja de Chorrochó, quando tudo era ainda muito rudimentar e difícil: Antonio Conselheiro, monsenhor Elpídio Ferreira Tapiranga, celebrante da primeira missa em Chorrochó, em 1886, padre Manoel Félix de Moura, professora Antonina Gomes, João Alves dos Santos, professora Josefa Alventina de Menezes, padre Ulisses Mônico da Conceição, padre Mariano Pietro Bentran e todos os que vieram subsequentemente, como sacerdotes ou colaboradores.

É tempo também de lembrar os bispos da diocese de Paulo Afonso, que delinearam o caminho da fé na Igreja de Chorrochó: D. Jackson Berenguer Prado, D. Aloysio José Leal Penna, D. Mário Zanetta, D. Esmeraldo Barreto de Farias e o atual D. Guido Zendron, que adota o lema episcopal Cristo Redentor dos Homens e tem sido muito presente na vida da Igreja local.

Por fim, é tempo de reconhecer o papel das instituições Pia União das Filhas de Maria e Apostolado da Oração que dignificaram a história da Igreja de Chorrochó.

Chorrochó está em tempo de oração. Rezemos por todos nós.

araujo-costa@uol.com.br

Ditadura não, presidente.

“Na política, a coragem é fundamental. Mas não exagere” (Ulysses Guimarães, 1916-1992).

Em data recente, o presidente Bolsonaro andou misturando alhos com bugalhos – o que ele sabe fazer muito bem – e assegurou que são as Forças Armadas que definem se o País será democracia ou ditadura.

Não é por aí, presidente.

O assunto é inoportuno e o Brasil não está questionando isto. Aliás, estamos indo muito bem carregando nossa tenra democracia, apesar dos corruptos de direita e de esquerda, que ela produz.

Tentando submergir dos escombros de minha ignorância, ouso discordar do excelentíssimo presidente da República.

A democracia é definida pela soberania popular. A voz das urnas, a liberdade de escolha e a livre consciência política são os esteios, dentre outros, nos quais se assentam o regime democrático.

A ditadura, ao contrário, surge de mentes doentias, autoritárias, cruéis, incompatíveis com a convivência patriótica e com os antagonismos.

Assim, foi no Chile, de Augusto Pinochet; na Argentina, de Jorge Rafael Videla; nos países asiáticos e no mundo árabe, a exemplo da Coreia do Norte, Síria, Iraque e outros tantos.

Assim, foi no Brasil, dos marechais Castelo Branco e Costa e Silva e dos generais Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo.

Quando sinalizamos que dependemos das Forças Armadas para definirem o nosso regime político é sinal de que ainda não estamos vislumbrando o futuro, mas continuamos presos ao passado, de resto sombrio e escabroso.

As ditaduras não servem de bons exemplos. Nunca foram bons exemplos, em nenhuma época ou em quaisquer continentes.   

Nas democracias, as Forças Armadas se submetem ao poder civil; nas ditaduras elas se transformam em protagonistas da truculência e do desprezo aos cidadãos.   

As democracias sustentam a liberdade e compartilham as decisões políticas e de gestão.

As ditaduras matam, torturam, espezinham os cidadãos e suprimem seus direitos fundamentais, tornam-se senhoras da impunidade, em razão das barbáries que praticam e das regras que elas mesmas editam.

Não é por aí, presidente. Não exagere em sua coragem.

Estamos muito bem assim, convivendo democraticamente.

araujo-costa@uol.com.br

O BNDES, João Dória e Luciano Huck

Juros altos que nada!

João Dória (PSDB), o governador-pavão (cheguei, sou o máximo!) de São Paulo e Luciano Huck, apresentador da TV Globo, foram aquinhoados com financiamentos do BNDES, ainda não bem esclarecidos, para compra de jatinhos particulares da Embraer.

Tudo a juros diferenciados, de acordo com a política de fomento do banco, que eles não são de ferro.

João Dória embolsou R$ 44 milhões do banco, para financiar uma aeronave, ao passo que Luciano Huck abocanhou 17 milhões com o mesmo objetivo. E foram felizes para sempre.

Os demais brasileiros mortais comuns, quando necessitam de financiar veículos populares, recorrem aos bancos privados e pagam juros escorchantes, conforme as regras gerais bancárias, até porque não encontram guarida nos bancos públicos, tamanha a burocracia.

Mas João Dória e Luciano Huck não são mortais comuns, convenhamos.

A notícia não é nova. Esses financiamentos foram feitos em 2010, ainda no governo do PT, mas poderia ter acontecido em qualquer governo.

O governo aqui é o que menos interessa, mas o caminho que eles seguiram até chegar aos cofres do banco público.

Coincidência ou não, esses parasitas do dinheiro público, pretendem ser candidatos a presidente da República em 2022, cada um carregando a hipocrisia a seu modo. Ambos já estão cochichando.

Só pra lembrar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é uma empresa pública federal, que fomenta atividades econômicas através de financiamento a longo prazo e incentiva investimentos.

O perfil de João Dória, magnata notório e o perfil do apresentador Luciano Huck estão longe de pessoas que necessitam de financiamento diferenciado de banco público, menos ainda para a compra de jatinhos particulares.    

A mansão cinematográfica de Luciano Huck no litoral fluminense é conhecida mais em razão de um suposto drible que o apresentador deu nos órgãos do meio ambiente do que, propriamente, por ser seu sofisticado imóvel de lazer.

Luciano Huck vive explorando a miséria alheia e vendendo sonhos em seu programa de televisão global.

A dúvida é saber qual deles o Grupo Globo vai apoiar, vez que, por enquanto, o conglomerado de comunicação está apostando todas as fichas em João Dória (PSDB).

Mas ambos precisam explicar à sociedade as bases dos milionários contratos que entabularam com o BNDES.

É dinheiro público. Todos têm o direito de saber.

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Os desatinos do jornalismo político

O jornalismo, qualquer que seja ele, há de fundar-se em fatos e não em “ouvir-dizer”, tampouco na opinião de seus profissionais.

O jornalismo político tem uma função mais nobre: mostrar a seriedade dos homens públicos e seus eventuais defeitos éticos e morais. Mas há um fio bastante tênue entre a seriedade jornalística e o viés político que pode contaminar os profissionais de imprensa. 

A rigor, não existe jornalismo político, mas profissionais que se especializam em assuntos do poder político, assim como muitos se interessam por outras áreas da atividade humana, a exemplo da economia, educação, ecologia, polícia, religião, et cetera.

Isto vem a propósito de, às vezes, leitores e telespectadores da imprensa em geral se depararem com interpretações de fatos políticos mais adstritas às tendências partidárias dos articulistas, o que, de certa forma, distorce o conteúdo da matéria e retira o brilhantismo dos profissionais de imprensa, embora muitos desses profissionais deem azo a esse caminho.  

É comum, por exemplo, redes de televisão contratarem comentaristas para avaliarem tais assuntos e aí, infelizmente, esses profissionais exageram ao defender seus veículos de comunicação e apequenam-se em suas funções de comentaristas imparciais e transparentes.

Os exemplos são muitos, claros, recorrentes e inquestionáveis.

Assim acontece também com repórteres. Muitos saem para a rua com uma pauta e retornam com informações mais convenientes à linha de pensamento dos veículos de comunicação para os quais trabalham. Isto desfigura o exercício da profissão.

Outra maneira de camuflar a verdade é omitir-se sobre assuntos importantes que interessam à sociedade, mas não interessam aos grandes grupos de comunicação, aos governos e autoridades.

O Diário do Poder publicou o vergonhoso esbanjamento de dinheiro público protagonizado pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

Rodrigo Maia usou 882 vezes aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para seus deslocamentos pelo País. Não se sabe se todas as vezes em missão oficial, que ampara o uso dos aviões.

É preciso esclarecer, a bem da verdade, que o presidente da Câmara dos Deputados tem essa prerrogativa, assim como o presidente do Senado Federal, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministros de Estado e comandantes militares.

Mas essa prerrogativa não lhes dá direito a abusos e exageros que deem origem a despesas pagas pelos contribuintes.

O Diário do Poder listou: só em 2020, Rodrigo Maia requisitou aviões da FAB 140 vezes; em 2019, 250 vezes; em 2018, 198 vezes; em 2017, 211 vezes; em 2016, 79 vezes.

Rodrigo Maia anda muito inquieto.

“Aliados de Maia atribuem seu nervosismo à iminente perda da mordomia. Deixando de ser presidente, ele terá de voltar às filas nos aeroportos”, diz o Diário do Poder.

Os comentaristas do Grupo Globo, que apoia Rodrigo Maia, que apoia o governador-pavão João Dória (PSDB), não disseram uma palavra sobre esse desperdício.

Nem vão dizer. Não interessa dizer.

O jornalismo político comete esses desatinos.

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A Justiça e os vira-latas

O jurista Almir Pazzianotto Pinto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi ministro do Trabalho no governo do presidente José Sarney.

Elegante, educado, culto, inteligente, antes Almir Pazzianotto tinha sido advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje Metalúrgicos do ABC.

O presidente do sindicato à época era Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia ficado rico e nem incorporado Lula ao nome. Era simplesmente Luiz Inácio da Silva.

A riqueza de Lula veio mais tarde, depois de muito trabalho. É o único aposentado do INSS que ficou rico. Inteligência é isto e não se discute.

Na condição de ministro do Trabalho, Almir mandou redigir um documento sobre assunto qualquer de sua pasta. Documento pronto, o assessor o levou ao gabinete, para colher assinatura do ministro.

Depois do publique-se, do cumpra-se e da data, como de praxe em todos os documentos públicos, o nome pomposamente grafado: Almir Pazzianotto.

O assessor não achou muito elegante o Pinto do ministro e o omitiu na redação do documento, talvez pensando em agradar o chefe e criar um fato, uma marca no ministério. Sabe como é, puxa-saco e formiga existe em qualquer lugar.

O humilde Almir Pazzianotto correu os olhos sobre o documento e, com ar de reprovação, perguntou:

– Cadê o Pinto do meu nome?

O atabalhoado assessor não sabia como explicar a omissão de propósito, ponderou aqui e acolá, enrolou-se e acabou corrigindo e grafando o nome correto do ministro, que não abria mão do seu Pinto e, convenhamos, o ministro estava correto.

No livro O Aquário Negro (1986), o frade dominicano Frei Betto inseriu um personagem, que vivia à margem da sociedade e dizia o seguinte:

“Lembrei-me de meu pai falando que a Justiça não tardaria”.

“Prometi a mim mesmo que ia esperar a Justiça e arranjei um amigo, um cachorro vira-lata, cheio de pereba no corpo, fedorento como o diabo, mas muito bom amigo, com quem eu falava como seria o dia em que a Justiça chegasse”.

“Ele dormia comigo e comia da mesma farinha e do mesmo feijão e ele me dizia que tinha orgulho de ser vira-lata e que quando viesse a Justiça, os vira-latas iam tomar conta do mundo”.

Acho que João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo e o presidente da República Jair Bolsonaro estão rodeados de assessores à semelhança do assistente de Almir Pazzianotto Pinto, preocupados somente com detalhes sem importância e não, propriamente, com o conteúdo, o principal: o dever de governar com seriedade e decência.

João Dória vem apequenando a governadoria de São Paulo. Despreparado e pernóstico, agora se rebaixou até mais não poder e usou palavras inapropriadas na televisão contra o presidente da República, simplesmente com o intuito de firmar-se para a disputa presidencial de 2022.

Por sua vez, o presidente Bolsonaro revidou o palavreado sem freio do governador-pavão, também usando expressões inapropriadas para o elevado cargo que ocupa.

A população está definhando, centenas morrendo todos os dias, porque tanto o governo federal quanto os estaduais e prefeitos não tomaram as rédeas de suas atribuições e se descuidaram do avanço da pandemia do coronavírus.

Já falta oxigênio nos hospitais, como é o caso de Manaus, no Amazonas. Há quem esteja recorrendo à Justiça para, pelo menos, conseguir o básico: ar para respirar.

Enquanto isto, à semelhança do personagem de Frei Betto, os vira-latas que somos nós governados, aguardamos a Justiça chegar para dominarmos o mundo. Em vão.

A Justiça não chegará. Nunca chegará.

A Justiça existe para os ricos, para os afortunados, para a elite desavergonhada que dilapida os cofres públicos do Brasil, para os homens públicos inescrupulosos.

Alguns até furtaram o dinheiro destinado ao combate à pandemia do coronavírus.

Ah! Para esses a Justiça chega. Apressadamente. E os concede Habeas Corpus para se livrarem do xilindró e continuarem furtando.

araujo-costa@uol.com.br

Entre jatinhos, traições e dinheiro público.

A campanha para a presidência da Câmara dos Deputados está escancarando o que a sociedade já sabe: dinheiro público sendo esbanjado a torto e a direito, como se crise pandêmica e econômica não houvesse no Brasil e traições, muitas traições, além de promessas presumivelmente inconfessáveis em público.

Os dois candidatos declarados à presidência da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP) estão percorrendo os estados, para encontros com governadores, aliados e políticos locais, usando jatinhos particulares, geralmente modelos de oito lugares.

Segundo suas Excelências os candidatos, esses sofisticados jatinhos estão sendo pagos por seus partidos respectivos – dinheiro público do fundo partidário, portanto – mas desconfia-se que alguns conhecidos empresários estão financiando, à sorrelfa, dissimuladamente, as duas campanhas e, por certo, vão cobrar a fatura depois, cujo pagamento sairá do bolso do alquebrado contribuinte brasileiro.

Como é praxe, também acontecem traições de ambos os lados. Parte do Partido Social Liberal (PSL), que em princípio havia apoiado Baleia Rossi, rompeu o acordo e se bandeou para o ninho de Arthur Lira, o candidato do presidente Bolsonaro.

Aí surgiu no PSL uma figura estrambótica: a expulsão voluntária, ou seja, a direção do partido sinalizou que os deputados que não honraram o acordo no sentido de votar em Baleia Rossi serão expulsos da agremiação, desde que deixem o partido de livre e espontânea vontade.

É um novo tipo de expulsão, que o PSL inventou. Os humoristas gostaram.

Nesse balaio de gatos, o Partido dos Trabalhadores (PT) está apoiando o outrora “golpista” Baleia Rossi (MDB) e, na campanha simultânea para presidência do Senado Federal, este mesmo PT sinalizou que vai apoiar o candidato do presidente Bolsonaro, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Para o PT, coerência é um bicho que corre em disparada, sem nenhuma hipótese de ser alcançado pelo partido.

Só os petistas acreditam que a direção do partido está costurando esses acordos esquisitos e avessos ao pensamento da esquerda, sem nada em troca e tão-somente em nome da convivência democrática.

Diante disto, difícil descobrir o que o “golpista” paulista Baleia Rossi e o senador mineiro Rodrigo Pacheco prometeram ao PT, em troca desses estranhos e inexplicáveis apoios.  

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