Chorrochó, saudade de minha província

O repórter chegou na hora marcada, como convém aos bons profissionais.

Queria amparar uma matéria sobre minha vida. Sem êxito.

Disse-lhe que minha vida não é lá grande coisa, mas uma luta pela sobrevivência, um confronto com os limites humanos do tempo, assim como “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (1899-1961).  

Acrescentei que alguns entendidos em vida alheia me chamam de saudosista e piegas e que me preocupo demais com coisas reles, desprezíveis, assuntos sem importância.

As coisas têm ou não importância a depender do ângulo de quem as vê. Eu dou importância às coisas, segundo minha visão do cotidiano e tenho errado pouco nesse particular.

Não é defeito ser assim, se é que sou assim. Por isto, quase sempre falo de amigos, de lugares, de lembranças, tais e tantas que um espaço de página não é suficiente. É minha característica de cronista, espectador do tempo, da vida e dos tropeços. Não faço mal a ninguém.

Toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro. São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Muitos se aconchegam nesses ambientes para lapidar seus vícios. Se “o vício é o estrume da virtude”, como dizia Machado de Assis, ele também, em certos casos, é bálsamo da boemia.  

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o Bar Potiguar. Central, arejado, convidativo, muito procurado.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira.

Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O Bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram.

Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Outros tantos já morreram ou estão aposentados do trabalho e das peripécias da vida.

Sobressaíam-se, naquele tempo, nesse ambiente de amizade e cordialidade, uns mais jovens, outros mais experientes, como assíduos frequentadores do Bar Potiguar: Juracy Santana, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, José Osório de Menezes, João Bosco de Menezes, Neusa Maria Rios Menezes, José Juvenal de Araújo, Antonio Wilson de Menezes, Geraldo José de Menezes, Maria Lenisse Oliveira Alves, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro, Antonia Marques Ribeiro, Marinalva Araujo, Raimunda Ribeiro Coelho, Ângela Maria da Silva, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos, Ernani do Amaral Menezes, José Eudes de Menezes, José Claudionor Menezes, José Evaldo de Menezes, Francisco Afonso de Menezes, José Jazon de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e tantos outros, alguns já falecidos.

A lista é extensa, mas limito-me a alguns nomes para evitar massacre maior da saudade. E havia, de quando em vez, a frequência dos mais velhos, que nos deixavam seguros e nos amparavam em nossas fragilidades de jovens inexperientes: Eloy Pacheco de Menezes, Horácio Pacheco de Menezes, o elegante José Calazans Bezerra (Josiel), Luiz Pacheco de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Francisco Arnóbio de Menezes, José Pires Filho, Joviniano Cordeiro de Menezes, et cetera e vai et cetera nisto. 

Surgiam presenças fortuitas e rápidas, a exemplo de Dorotheu Pacheco de Menezes.

As professoras de destaque na época, que eram nossos exemplos de vida, também passavam por lá, esporadicamente: Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Ita de Menezes, Maria Rita da Luz Menezes, Maria Therezinha de Menezes, Wilma Abia de Carvalho Menezes, Maria Joselita de Menezes, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Maria Daparecida Mazarelo de Menezes, etc.

Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de decência.         

Qual a importância dessas lembranças? A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

Depois de longa conversa, às vezes sem pé, outras vezes sem cabeça, o sol de primavera já alto, o repórter se despediu sem a matéria de minha vida.

Minha vida não é lá grande coisa.

araujo-costa@uol.com.br

Caso Beatriz: a mancha que Petrolina carrega

“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça por toda a parte” (Martin Luther King Júnior, 1929-1968)

Completam-se cinco anos do bárbaro assassinato de Beatriz Angélica Mota, uma criança de sete anos, fato ocorrido nas dependências do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina.

Pela demora na elucidação do caso, é razoável supor que as linhas de investigação parecem mais estribadas em hipóteses ainda não esgotadas do que, propriamente, em caminhos científicos que levem ao autor ou autores do crime.

Houve uma sucessão de falhas primárias, antes e depois do crime, a começar pela ausência ou insuficiência de câmeras e de seguranças nas dependências e no entorno do colégio.

É razoável entender que a instituição de ensino negligenciou neste particular, mormente por se tratar da realização de evento tão importante na ocasião, uma festa de formatura.

Falhas também da polícia civil, quero crer. A primeira, pelo que se sabe, foi não ter isolado a escola, em sua totalidade, ainda no ambiente de flagrância. O isolamento parcial pode ter comprometido as investigações.

Meses depois, no decorrer das investigações, a polícia sequer sabia se havia mais de um participante na cena do crime. Salvo engano, o quadro continua ou parece o mesmo.

O noticiado sumiço de chaves do estabelecimento dias antes do crime parece auxiliar a linha investigatória, até agora sem êxito. Isto pode significar premeditação, preparo e engendramento da forma criminosa de agir.

Muita coisa pode ter mudado com o intuito de amparar as investigações nesses cinco anos, mas o fato é que a polícia judiciária de Pernambuco não saiu do lugar.

O crime foi perpetrado dentro de uma instituição de ensino católica e tradicional. Entretanto, o inegável primado da formação de caráter que esta instituição sempre ostentou não impede que em suas dependências circulem delinquentes perigosos, como ficou provado nessa barbaridade.

Pelo que se vê, faltou aí a cautela, a vigilância, a proteção necessária a seus frequentadores, ônus que a instituição de ensino não desempenhou eficientemente.

Contudo, a elucidação do crime esbarra na estupidez burocrática. As autoridades de outras jurisdições policiais demoraram em somar forças e entrar nas investigações, supõe-se que por entrave legal, burocrático.

É uma questão de competência funcional, esta expressão bonita que a legislação usa para dificultar o funcionamento e agilidade do serviço público, sempre aquém das exigências da sociedade.

A Polícia Federal, tantas vezes lembrada para auxiliar nas investigações, em princípio esteve impedida de fazê-lo, simplesmente porque este é um caso de competência da polícia civil de Pernambuco.

Nesta quadra do tempo é utópico acreditar que a vida vale mais do que os entraves burocráticos.

Todavia, sonhar é possível e as leis ainda não nos proibiram de externar nossos sonhos.

A união dos governos em todos os níveis, independentemente de suas esferas de competências legais, talvez possa flexibilizar a burocracia e possibilitar maior robustez às investigações do caso Beatriz.

Quiçá através de uma lei, de uma portaria, de um convênio ou, principalmente, da clarividência de espírito das autoridades.

A burocracia e a impunidade não podem ser aliadas de criminosos.

Custa acreditar que monstros capazes de praticarem delitos tão bárbaros ainda não tenham sido excluídos do convívio social.

Contudo, devemos acreditar em nossas autoridades e em nossas instituições.

“É uma dor que não tem nome”, diz a mãe de Beatriz. Não tem. Não pode ter.

A polícia civil de Petrolina é eficiente, cautelosa e diligente, mas não pode chamar para si este monstruoso atestado de ineficiência.  

Petrolina carrega esta mancha, este desdouro.

araujo-costa@uol.com.br         

João Dória não conhece o caminho da humildade

João Dória (PSDB), o governador-pavão de São Paulo, em reunião com o ministro da Saúde e governadores, levou uma carraspana de Ronaldo Caiado, governador de Goiás.

Tudo porque João Dória se portou com arrogância na reunião e chamou para si a paternidade da vacina contra o coronavírus, fato que os demais governadores não aceitam e, por óbvio, não podem aceitar.

João Dória faz uso político das lágrimas e das dores dos que sofrem em razão do covid-19. É vergonhoso e ridículo o comportamento do governador de São Paulo. Beira à insanidade.

João Dória chegou até a anunciar, um dia antes da reunião, a data de início da vacinação em São Paulo, sem sequer a Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA) ter aprovado os procedimentos necessários quanto à eficácia e segurança da vacina, dentre outros protocolos.

O protagonismo para imunizar a população do Brasil é do Ministério da Saúde, através de campanha nacional de vacinação e não do governador-pavão de São Paulo, mesmo considerando o atraso do governo federal no planejamento e na definição do programa de vacinação.

O escritor Nelson Rodrigues dizia que “o pior da bofetada é o som”.

O som da bofetada verbal de Ronaldo Caiado em João Dória deve indicar ao governador paulista o caminho da humildade, que ele nunca viu, não sabe o que é.

Magnata, que nunca viu a pobreza à sua porta, João Dória se escora no sofrimento alheio para se projetar politicamente. A ânsia pelo poder lhe causa cegueira, fecha-lhe a capacidade de compreender a dor dos que sofrem.

Concordaram com a posição de Ronaldo Caiado (DEM-GO), os governadores Camilo Santana (PT-CE), Ronaldo Leite (PSDB-RS) e Renato Casagrande (PSB-ES).

Como a reunião era para tratar de vacina e não de palanque eleitoral, como queria o governador-pavão de São Paulo, João Dória saiu de lá com cara de galo, melhor, com cara de pavão.

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Liberdade vigiada na Bahia

Primavera de Praga, 1968. Alexander Dubcek, serralheiro-mecânico e secretário geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, assumiu o poder e tentou implantar a renovação do socialismo no país, que denominou de reformas.

Os tanques soviéticos e do Pacto de Varsóvia invadiram Praga. Moscou entendeu que se tratava de “ação do imperialismo internacional, com apoio de forças internas, para corroer a unidade do campo socialista e restaurar o capitalismo”, segundo o jornal Pravda, órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista da então União Soviética.

Movido pelos ventos e gritos de liberdade, um cego enfrentou com bengaladas um tanque de guerra numa ponte de Praga. O homem recusava-se a aceitar a invasão soviética e pedia a liberalização política, liberdade de imprensa, protestos nas ruas e autocrítica do Partido comunista.

O jornalista Mauro Santayana à época correspondente do Jornal do Brasil em Praga conta o impressionante episódio em brilhante contribuição para o livro Liberdade vigiada, do filósofo e pensador francês Roger Garaudy (1913-2012). A notícia do Pravda é também citada por Santayana.

Na Bahia de maioria petista, a imprensa publicou que o governador Rui Costa (PT) vai autorizar as autoridades de segurança pública a monitorar as redes sociais no estado, com o intuito de identificar e reprimir eventuais desobediências a normas editadas por Sua Excelência contra o coronavírus.

O problema não é o monitoramento em si, mas a intromissão indevida do Estado na vida privada dos cidadãos, que beira a inconstitucionalidade, o despropósito, até mesmo a censura.

Não é novidade que alguns próceres do Partido dos Trabalhadores (PT) se espelham em Cuba e noutros países com arroubos autoritários, a exemplo da Venezuela, que muitos petistas tanto admiram, a começar pela presidente nacional do partido, Lula da Silva, José Dirceu e outros tantos mais.

Mas o mundo evoluiu, inclusive Cuba, embora muitos petistas não tenham evoluído para além das fronteiras ideológicas, o que parece ser o caso do governador Rui Costa, que deu essa recaída.

Como se vê, o governador da Bahia quer vigiar a liberdade dos baianos, os passos dos baianos, o dia a dia dos baianos, a privacidade dos baianos.

Não se trata aqui de crítica às medidas necessárias que o governador está tomando contra a propagação do coronavírus, em benefício de todos. É seu dever fazê-las e fiscalizar o cumprimento delas. Sem exageros.

Entretanto, as medidas devem ser rígidas, não ilegais.

O que não é plausível é o monitoramento das redes sociais, que pode resvalar em direção a objetivos políticos escusos e não, propriamente, beneficiar a população.

O governador quer bisbilhotar a vida dos baianos, talvez em razão da saraivada de votos contrários que o PT recebeu nas eleições municipais, mormente nos grandes centros urbanos.

Neste particular, o governador Rui Costa iguala-se ao presidente Bolsonaro, que se serve das redes sociais para se proteger politicamente e, segundo o noticiário, nem sempre amparado pela lei.

À semelhança do cego de Praga, estamos impotentes e desamparados, lutando contra o gigantismo do Estado, que parece pretender esmagar nossa liberdade individual e nossa privacidade.

Na Bahia de Rui Costa – feudo do PT – é preciso ter cuidado com o guarda da esquina.  

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A dúvida do PT e a máscara de Sérgio Moro

“Eu não existiria, sem as minhas repetições” (Nelson Rodrigues, escritor e jornalista, 1912-1980)

A espevitada presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffman, insiste em não admitir a derrota do partido nas eleições municipais de 2020.

O PT tem dúvida se o partido perdeu nas urnas. Não exatamente o PT, mas sua presidente.

Para usar uma palavra da moda, Gleisi Hoffman passou a ser negacionista, defeito que o PT e seus aliados tanto apontam no presidente Bolsonaro, inclusive a imprensa de esquerda.

O jornal O Estado de S.Paulo publicou que “tá difícil cair a ficha” dos dirigentes petistas no que tange à derrota nas urnas.

O jornal acrescenta que no PT “os realistas avaliam que o distanciamento entre o partido e eleitorado é tão grande que o resultado teria sido pior se Lula não tivesse insistido para que veteranos fossem candidatos em cidades importantes” (Coluna do Estadão, 02/12/2020)

A presidente (ou seria presidenta, como os petistas gostam de dizer?) em sua subida honra partidária está culpando a pandemia do coronavírus pela derrota do partido (que ela ainda não admite), não se sabe exatamente a razão, já que os demais partidos políticos enfrentaram a mesma realidade pandêmica e alguns até saíram vitoriosos.

Um exemplo: no grande ABC, berço político de Lula da Silva, o PT ganhou em Diadema, não exatamente porque o prefeito eleito é do PT, mas porque Filippi Júnior é conhecidíssimo da população, já foi prefeito do município outras vezes e tem relevantes serviços prestados a Diadema. Se outro tivesse sido o candidato do PT teria perdido.

Ex-juiz Sérgio Moro

Na condição de juiz federal chefe da Laja Jato, Sérgio Moro arruinou a Odebrecht, a OAS e outras construtoras nacionais. Isto não significa dizer que ele agiu de forma errada, mas não exclui a realidade no sentido de que carreou as empresas para o despenhadeiro, gerou desemprego, provocou demissões em massa e, mais do que isto, puniu seus dirigentes com sentença penal condenatória e os mandou ao xilindró.

Agora, uma gritante contradição: a empresa americana M & A Marcos Ganut, a maior do planeta na área de recuperação empresarial, contratou o ex-juiz Sérgio Moro para o cargo de diretor-executivo da instituição. Função de Sérgio Moro: ajudar a Odebrecht e outras empresas a se recuperarem financeiramente da ruína que ele mesmo as impôs como juiz da Lava Jato.

Isto é ético?

Pergunta que o ex-juiz Sergio Moro está moralmente obrigado a responder.

Pergunta que o PT e Lula da Silva têm a oportunidade indeclinável de questioná-lo.

Parece que caiu a máscara de Sérgio Moro e não é a máscara que ele usa para proteção do coronavírus.

Post scriptum:

Assim como o ex-ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, terror do mensalão petista e que costumava passar reprimendas em advogados, embora no exercício da profissão, Sérgio Moro na condição de juiz federal da Lava Jato também tinha a péssima e abominável arrogância de passar descompostura em advogados, inclusive foi muito deselegante com defensores de Lula da Silva.

Primeira decisão de Sérgio Moro, ao deixar o governo Bolsonaro: pedir inscrição nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB concedeu imediatamente. Sérgio Moro hoje é advogado.

Esses juízes pequenos – aliás, pequeníssimos – que no exercício da magistratura menosprezam advogados no estrito cumprimento dos seus deveres constitucionais e legais não deveriam procurar os quadros da OAB quando se aposentam ou deixam a judicatura.

Eles são pequenos demais para ser advogados.

São pequenos demais diante da grandeza da advocacia.

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O mapa que as urnas desenharam

“Acima da Pátria, ainda há alguma coisa: a liberdade” (Ruy Barbosa, 1849-1923)

As urnas de 2020 começaram a impor limites à esquerda e ao bolsonarismo exacerbado e, por extensão, ao extremismo político-ideológico.

Esquerda e direita saíram das urnas fragorosamente derrotadas. A liberdade indevassável do eleitor falou mais alto.

As urnas acomodaram políticos mais alinhados ao centro, embora já conhecidos.

A retumbância mais notada foi a incapacidade do ex-presidente Lula da Silva de ajudar eleitoralmente seus aliados. Lula é experiente e esperto, mas eticamente atrapalhado, o que não é nenhuma novidade.

Em Recife, Lula apostou todas as fichas em Marília Arraes e abandonou o filho de Eduardo Campos. Eduardo Campos foi seu elogiado ministro de Ciência e Tecnologia.

João Campos (PSB) ganhou a eleição, apesar de Lula e graças a Lula. A lógica e a ética recomendam que Lula devia, no mínimo, ter ficado neutro na disputa, mas ele caminhou em sentido inverso e até prometeu ir à posse de Marília Arraes.

Lula amargou derrota pessoal no Recife e o PT amargou em todas as demais capitais e em alguns municípios de grande porte, o que já se esperava.

Todavia, nada acontecerá de extraordinário no Recife, apesar disto. Vitorioso e derrotada são da mesma tradicional família Arraes e agora, certamente, voltarão a frequentar o mesmo seio familiar, as mesmas cozinhas.

No mapa que as urnas desenharam em todo o Brasil ficou clara a rejeição aos candidatos da esquerda e aos candidatos apoiados pelo presidente da República.

Bolsonaro parece ter notado que atrapalhava mais do que ajudava e ficou um tanto quieto durante a campanha eleitoral, com algumas exceções pouco notadas.

As urnas trouxeram outras novidades.

Na Bahia, feudo do PT, o querido governador dos baianos Rui Costa perdeu nos grandes municípios, a exemplo de Salvador, Juazeiro, Feira de Santana e Vitória da Conquista, dentre outros.

Em São Paulo, o invasor de propriedades Guilherme Boulos (PSOL) deu uma rasteira nos petistas já no primeiro turno e abocanhou votação estrondosa, mas insuficiente para ganhar a Prefeitura, que continua com o PSDB.

O governador-pavão João Dória se encarregará de enterrar o partido. É só esperar.

Os petistas vêm olhando diferente para Boulos desde o primeiro turno. Boulos goza da admiração de Lula da Silva e muitos petistas têm ciúme. Lula também tem predileção por Manuela D`Avila (PCdoB) do Rio Grande do Sul, que saiu derrotada nas urnas, embora esquerdistas dessem a vitória como favas contadas. 

A ultra esquerdista jornalista e comentarista Natuza Nery, da Globo News, fez impressionante contorcionismo para tentar demonstrar que, apesar da vontade contrária das urnas, o PT e Guilherme Boulos saíram vitoriosos nessas eleições.

Não conseguiu. Trampolinagem intelectual desnecessária.

Faltou o célebre mestre da Escolinha do Professor Raimundo para ponderar: menos Natuza, menos, menos…

Entretanto, o que vale mesmo é o mapa que as urnas desenharam.

A liberdade está acima da Pátria e parece estar curando a cegueira popular, afastando a ridícula polarização esquerda-direita e substituindo-a pela sensatez.

É um bom sinal. Aguardemos 2022.

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Em Salvador, PT elege neta de Marighella

“Não tive tempo para ter medo” (Carlos Marighella, 1911-1969)

A vereadora eleita Maria Marighella vai ocupar uma das 43 cadeiras da Câmara Municipal de Salvador, a partir de 2021.

Eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), ela é neta do guerrilheiro comunista Carlos Marighella, da Ação Libertadora Nacional (ALN), ícone da resistência à ditadura militar de 1964.

Líder da luta armada, Marighella foi assassinado pelas forças de segurança da ditadura, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, em 04/11/1969. Está enterrado no Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador.

Na Alameda Casa Branca há uma pedra na calçada, solitária e silenciosa, como convém às pedras, colocada para significar o marco da morte do líder comunista.

A lápide no cemitério de Salvador foi estilizada por Oscar Niemeyer, arquiteto construtor de Brasília, com significativa participação do escritor Jorge Amado, também comunista, que conviveu com Marighella deste os tempos da ditadura Vargas. Ambos foram deputados federais pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jorge Amado por São Paulo e Marighella pela Bahia.

Maria Marighella, não obstante eleita pelo PT, tem visão crítica do partido, o que é um bom sinal. A vereadora eleita diz que o PT colocou à frente o instinto de preservação e abandonou os planos do partido.   

A vereadora promete. Formada pela Universidade Federal da Bahia, tem discurso fluente, esticado, ideologicamente bem calçado e carrega uma rica e pesada história de luta política empreendida pelos avós.  

Maria Marighella pode ser uma das vozes importantes do decadente Partido dos Trabalhadores na Câmara de Salvador.

A vereadora eleita diz que “não houve um primeiro dia de luta” em sua vida. Nasceu “imersa” nas águas das vicissitudes e delineia algumas circunstâncias históricas: quando nasceu, seu avô Carlos Marighella já estava morto, o pai estava preso e a avó Clara Charf, também militante comunista histórica, amargava o exílio em Cuba.

Clara Charf ajudou a fundar o PT e foi membro da Secretaria Nacional de Mulheres, braço do partido.

O Partido dos Trabalhadores tem um bom quadro para soerguer-se politicamente em Salvador.

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O solavanco das urnas

As eleições municipais de 2020 não acabaram, porque ainda vem o segundo turno, mas é possível antever o resultado da chacoalhada que o povo deu em alguns políticos. 

A verdade é que as urnas deram um solavanco nos políticos medíocres, que insistem em agarrar-se ao poder e também nos aventureiros (são tantos!), que queriam alcançá-lo.

Por extensão, as urnas sacudiram os partidos políticos.

Por exemplo: o Partido dos Trabalhadores (PT) perdeu 32% das prefeituras conquistadas em 2016, mesmo caso do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que deixou escapulir 38% das prefeituras arrebanhadas em 2016.

O PT puxou para um lado, o PSDB esticou para o outro e daí surgiu a polarização, ou melhor, o “nós e eles”, que o morubixaba pernambucano de Caetés celebrizou, equivocadamente.

Contudo, o povo agora começou a mandar o recado através das urnas. Há outros caminhos e nem todos levam ao PT e ao PSDB.  

Até o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que reina absoluto em número de prefeituras em todo o Brasil, encolheu 27%.     

Alguns partidos cresceram. É o caso do Democratas (DEM), que Lula da Silva, quando pensava que era Deus, queria extirpar da política do Brasil, mas errou o cálculo político.

O DEM deu um salto e elegeu mais 70% dos prefeitos relativamente a 2016, engordando, sobremaneira, sua fatia no cenário nacional.

O segundo turno parece não trazer surpresas. Haverá eleições em 57 municípios, mas as pesquisas de opinião já sinalizam os candidatos que sairão vitoriosos, de modo que a estatística não beneficia muito o atual cenário partidário. Alguma alteração aqui e acolá, sem nenhuma importância no cômputo geral.

A direita bolsonarista – extrema, para alguns – murchou significativamente nas urnas. A vontade do povo optou por outros caminhos que em nada robustecem a base eleitoral do presidente da República, por enquanto.

Por outro lado, a esquerda também encolheu, como é o caso do PT, que até aqui vinha se portando como matriz controladora dos demais partidos de esquerda, todos afoitos para dividirem o bolo da corrupção nacional.

Na capital de São Paulo, em segundo turno, a esquerda labuta para abocanhar a vitória do invasor de propriedades Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que deu um baile no PT no primeiro turno e empurrou o candidato concorrente petista para o constrangedor sexto lugar.

Guilherme Boulos está se escorando na credibilidade de Luíza Erundina, paraibana de Uiraúna, ex-prefeita de São Paulo e candidata a vice-prefeita. Erundina é um dos grandes nomes da esquerda democrática convicta e ex-petista. Sustenta princípios que o PT jogou no ralo ao optar pela corrupção.

Guilherme Boulos tem a cara de Lula da Silva, cabeça de Lula, barba de Lula, demagogia de Lula e uma capacidade impressionante para contar lorotas, como Lula.

Ou, como dizia Leonel Brizola, “se o bicho tem couro de jacaré, cabeça de jacaré e olho de jacaré, só pode ser jacaré”.

À semelhança de Lula, Guilherme Boulos pode surpreender e ter sucesso político. Até se mudou para a periferia de São Paulo, para dizer que é pobre, mas isto não exclui sua condição anterior de morador de bairro de elite.

Lula começou assim: engabelando os incautos. Deu no que deu.

Os incautos acreditaram e continuam pobres. Lula ficou rico.

araujo-costa@uol.com.br

Os números que João Dória escondeu.

Se o PSDB estava procurando um pretexto para começar seu processo de liquidação, encontrou: João Dória.

O governador-pavão é arrogante, pernóstico, pedante, demagogo e, sobretudo, hipócrita. Tudo que a política abomina.

João Dória tem todas as qualidades para ser vendedor de ilusões, aliás o que ele sempre fez, organizando eventos e palestras para a elite empresarial. Mas não ostenta nenhum atributo para governar o mais importante estado da federação.

João Dória está apequenando a cadeira em que se sentaram Jânio Quadros e o professor Carvalho Pinto, dentre outros honrados governadores paulistas.

Pois bem. A imprensa está noticiando o que já se esperava.

O governador-pavão de São Paulo, João Dória, esperou abrir as urnas do primeiro turno das eleições municipais para publicar que os números do covid-19 estão aumentando em São Paulo assustadoramente. Todo mundo sabia. As ruas sabiam. Mas o governador negava.

Médicos e outros profissionais de saúde vinham alertando que as internações estavam aumentando, inclusive nos hospitais particulares, embora o governador insistisse em dizer o contrário.

João Dória sempre faz questão de dizer que obedece o que a ciência determina e que está sendo orientado por uma equipe de dezenas de especialistas em pandemia. Ou ele precisa trocar seus especialistas ou mudar o rumo da prosa.

Antes das eleições, ele havia dito que os casos estavam diminuindo. Mais: não publicou corretamente os números do período de 08 a 14/11/2020, exatamente uma semana antes das eleições, sob alegação de inconsistência no sistema.

O governador apressou-se em dizer que o problema não foi do governo de São Paulo, mas uma falha no sistema de totalização. Estranho, estranhíssimo.

Presume-se que para João Dória não interessava divulgar a verdade e com isso atrapalhar as eleições municipais, que ele tem interesse.

Esses são os números divulgados hoje:

Em 22/11/2020, São Paulo já contabiliza 41.267 mortes pelo covid-19 e 1.209.588 casos confirmados. Nos últimos dias, a doença aumentou 22% na grande São Paulo. A média de crescimento no estado é 18%.

Dados de 18/11/2020 revelavam que a média diária de internações passou de 859 para 1.009.

Passadas as eleições do primeiro turno, o secretário de saúde do governador-pavão disse que o governo de São Paulo poderá tomar “medidas mais austeras e restritivas”, o que significa endurecimento das regras da quarentena. Mas só a partir de 30/11/2020.

Certamente João Dória está aguardando se fecharem as urnas do segundo turno das eleições municipais para anunciar medidas mais rígidas que ele próprio mandou afrouxá-las em todo o estado.

Antes das eleições do primeiro e segundo turnos, nem pensar em endurecer normas. Tudo está às mil maravilhas para João Dória.

Começa o declínio do PSDB, independentemente da provável vitória do partido na capital de São Paulo. João Dória está à frente da derrocada

O PSDB começou a se desmoronar, lentamente, quando Aécio Neves caiu em desgraça.

Agora é a vez de João Dória, apesar da torcida da grande imprensa, que se transformou em bajuladora do governador-pavão.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó: o professor Joaci Campos Lima e os currais eleitorais

Faço uma deferência ao conspícuo professor Joaci Campos Lima, mestre em tudo que faz e ponderado em tudo que diz.

Esta particular consideração vem a propósito de recente artigo que escrevi em 18/11/2020 sob o título Chorrochó vira curral eleitoral do prefeito.

O sábio professor Joaci, sempre com a lhaneza que lhe é comum, discordou do artigo, mormente no que concerne à comparação que fiz da influência do prefeito Humberto Gomes Ramos à frente da administração do município de Chorrochó e os currais eleitorais da Primeira República.

Argumentou o ilustre Joaci que “as gestões de Humberto têm se caracterizado pela descentralização administrativa e, sempre que possível, pela busca da promoção das pessoas”.   

Não duvido, tampouco questionei essas particularidades em quaisquer ocasiões.

Meu artigo cingiu-se à questão político-eleitoral e ao engendramento matreiro que o prefeito vem fazendo ao longo dos anos, com o intuito de manter-se no poder – legitimamente, claro – através do voto popular e sua capacidade de neutralizar a oposição. Não há demérito nisto.

Aliás, o prefeito Humberto sabe laborar nesse terreno com impressionante desenvoltura.

Conseguintemente, o termo curral eleitoral usado por este escrevinhador no retro aludido artigo, segundo o abalizado Joaci, está em desconformidade com o significado daquele da República Velha.

Tem razão o professor Joaci. Os tempos são outros, outras são as idiossincrasias do poder em todos os níveis, diverso é o eleitor. 

A sociedade evoluiu, o que não exclui a esperteza dos chefes políticos no sentido de agarrarem-se indefinidamente ao poder, valendo-se de suas astúcias e raposices.

Todavia, é inegável que o comportamento do eleitor de hoje é diferente daqueloutro da República Velha, adstrito às ordens e comando dos coronéis oligarcas.

Contudo, peço vênia ao professor Joaci para lembrar-lhe que a similitude considerada no artigo não desnaturou a intenção deste articulista: mostrar a força política e o lastro eleitoral do prefeito Humberto Gomes Ramos. Só isto, em síntese.  

A magnífica e clara intervenção do professor Joaci, que muito me honra, serviu para desfazer interpretações equivocadas de alguns leitores deste blog que leram no artigo coisa que lá não está escrito.

O professor foi ao cerne do artigo: os currais eleitorais como fatos históricos.

Assustam-me as redes sociais, confesso. Assustam-me, muito e sobremaneira, interpretações arrevesadas que pessoas menos cautelosas, embora em pequeno número, fazem acerca do que é escrito na imprensa. Ou por falta de conhecimento ou porque não conseguem enxergar nada além das paixões políticas.

Por exemplo: uma leitora que leu o artigo em referência – e certamente não entendeu – disse que rotulei de “cabras e vacas” as pessoas que votaram no prefeito Humberto.      

Credo em cruz, Ave-Maria. Onde isto está escrito no artigo?

Valei-me São Francisco de Barra do Tarrachil!

Valei-me Senhor do Bonfim!

O artigo fala da realidade histórica do Brasil e de nossos costumes políticos. E como é difícil transformar uma expressão da História, que está nos livros, em “cabras e vacas”!

De qualquer forma, salamaleques à parte, deixo registrada minha admiração pelo professor Joaci Campos Lima, certamente um dos orgulhos da Escola Tercina Roriz.

araujo-costa@uol.com.br