Chorrochó vira curral eleitoral do prefeito

Expressão usada na República Velha (1889-1930) por historiadores e cientistas políticos, curral eleitoral significava o âmbito da influência que o chefe político exercia sobre determinada região e comandava confortavelmente o “voto de cabresto”.

Os chamados “coronéis” detinham o controle do poder político local. As oligarquias comandavam a seu talante os destinos de seus currais, de modo que o voto representava a vontade do chefe político e não do eleitor.

Não mudou muito.

Em Chorrochó, na Bahia, o município protagonizou um espetáculo sui generis nas eleições de 15 de novembro último.

O prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) foi reeleito com 67,99% dos votos válidos, mais que o dobro do principal adversário Silvandy Costa Alves (Bady), do PSD, que ainda conseguiu arrastar para as urnas 31,20% dois votos.

Não há novidade nisto. Até as formigas de Chorrochó sabiam, por antecipação, que a vitória do prefeito era certa, tamanhos os equívocos de percurso da campanha adversária. Mas surpreendeu a derrota acachapante que o prefeito impôs à oposição.

A oposição de Chorrochó gastou grande parte da pré-campanha ciscando no monturo da ingenuidade estratégica e não conseguiu sequer assegurar razoável presença na Câmara Municipal a partir de janeiro vindouro, ressalvadas eventuais mudanças ou composições que possam acontecer no decorrer da legislatura.

Na Câmara Municipal, dos nove vereadores que tomarão posse em janeiro de 2021, o prefeito contará com oito em sua base de apoio e sustentação.

Este blog se penitencia por eventual erro de avaliação e fará a correção, incontinentemente, se for preciso ou instado a fazê-lo.

A matemática é simples: cinco vereadores foram eleitos pelo partido do prefeito (PP) e três pelo partido do vice-prefeito (PCdoB) e, por óbvio, esses vereadores lhe darão retaguarda no Poder Legislativo.

Prefeito e vice são aliados históricos.

A mirrada oposição ficou isolada, apenas com um vereador, eleito pelo combativo Partido dos Trabalhadores (PT). É a andorinha que sozinha não fará verão. E se fizer, não conseguirá alçar voo seguro para sobrevoar os atos do prefeito e fiscalizá-los.

A oposição de Chorrochó está vivendo, mas não cresce, assim como dizia o paraibano José Cavalcanti, de Patos: “Oposição é como grama de jardim: tem direito de viver, mas sem direito de crescer”.

Esta circunstância confirma que, a partir desse vexame, a oposição de Chorrochó vai-se desidratando ou, no mínimo, se transformando num tosco e mal acabado monumento à ficção política.

O fato é que o ciclo comandado pelo prefeito Humberto Gomes Ramos e seu grupo político enraizado no distrito de Barra do Tarrachil não se acabará antes de completar duas décadas, o que representa inegável fraqueza de seus opositores.

Até aqui, em aproximados 16 anos, a oposição de Chorrochó não conseguiu encontrar o caminho para mandar o prefeito Humberto de volta para casa.

Dessa forma, Chorrochó confirma irresistível tendência para ser um curral eleitoral dominado por Humberto Gomes Ramos, que se tem demonstrado expert na arte de cativar eleitores e manter sua base política.

Pelo menos, nos próximos quatro anos, o prefeito manterá o controle da taramela da porteira do curral.   

Post scriptum:

Este blog deseja êxito aos eleitos e a todos que participaram dessa festa democrática de Chorrochó. O mérito é de todos, vitoriosos e derrotados. O exercício da democracia é salutar, independentemente dos resultados.

Salvo engano ou eventual decisão da Justiça Eleitoral ao contrário, os vereadores eleitos e seus respectivos partidos e votos são os seguintes:

Walber Alves dos Santos (PCdoB) – 691 votos

Samuel Fonseca de Souza Gomes (PP) – 642 votos

Marcos Vinicius Pereira Jericó (PCdoB) – 626 votos

Joelson Alves Moreira (PCdoB) – 579 votos

Jane Edla Fonseca de Souza (PP) – 507 votos

Luiz Alberto de Menezes (PT) – 477 votos

Pascoal Almeida Lima Tercius (PP) – 477 votos

Sheila Jaqueline Miranda Araujo (PP) – 441 votos

Tereza Maria Pires Alcantara Oliveira (PP) – 404 votos

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Curaçá, Chorrochó e as eleições municipais.

“Só um poeta sabe gritar na escuridão” (Joseph Brodsky, poeta russo, 1940-1996)

Hoje falo de meus queridos municípios do sertão da Bahia, simpáticos vizinhos debruçados à margem direita do São Francisco, orgulhosamente caatingueiros e impressionantemente belos.

O altaneiro Curaçá, meu berço e raiz e o não menos altaneiro Chorrochó, que me considero filho adotivo de lá.

Falo da esperança que o povo desses municípios espera florir das urnas de 15 de novembro vindouro.

Falo da costumeira apatia de nossos prefeitos, geralmente sem programas de governo, sem ideias, sem respeito às populações.  

Falo de nossas incertezas, falo do olhar esperançoso de nossa gente sofrida, sempre em busca de novos horizontes, que nunca alcança.

Falo do constrangedor estado de abandono em que se encontram nossas populações rurais, que até, em algumas ocasiões, dependem das bênçãos dos prefeitos para dispor do mínimo necessário como, por exemplo, água em suas casas.  

Mas como se diz lá nas montanhas de Minas, “vamos puxar essa conversa para mais perto”.

Em Curaçá, concorrem às eleições majoritárias três candidatos, cada um a seu modo, prometendo até o que não pode dar e, como de costume, os compromissos que alardeiam se transformam em promessas entre o último dia de campanha e a abertura das urnas.

O prefeito Pedro Oliveira (PSC), que não quer largar a doce rapadura curaçaense, é um tanto experiente, em razão do exercício do cargo que vem ocupando, mas carrega contra si uma série de acusações formuladas por seus adversários, o que não é nenhuma novidade em política.

Dentre outras, a função da oposição é cutucar e fiscalizar mesmo e com isto tentar aperfeiçoar os atos do gestor público, dentro da razoabilidade que se espera de quem se dispõe a discordar.

O que este escrevinhador tem dificuldade de entender, talvez por falta de suficiente inteligência, resume-se no seguinte: por que os denunciantes que hoje aparecem nas redes sociais fazendo cabeludas denúncias contra o chefe do Poder Executivo não o fizeram antes da campanha eleitoral ou o fizeram timidamente?

Deixa pra lá. Talvez estivessem aguardando o frigir dos ovos das composições político-partidárias para saber em que grupo ou lado seria conveniente ficar.

Entretanto, o que importa é que o prefeito está apto para disputar, segundo a legislação eleitoral e a população está com o poder de reconduzi-lo à Prefeitura ou mandá-lo embora.

Outro postulante é Murilo Bonfim (PT) que, segundo razoável parte da população de Curaçá, é um sujeito decente, humilde, prestativo, sem mácula, sem nenhuma mancha em sua vida pública e pessoal.

O terceiro candidato é o ex-vereador Flamber Feitosa (PSD) que, segundo se sabe, é um sujeito decente, correto, de boa índole, muito querido em todo território do município e com boas qualidades para investir-se no cargo de prefeito.

Em Chorrochó, disputam dois candidatos: o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP), que luta pela reeleição e o ex-vereador Silvandy Costa Alves (Bady), que se embrenhou na oposição e quer derrubar o reinado do atual prefeito, lastreado em duvidosa aliança com a ex-prefeita Rita Campos que, curiosamente, vem das hostes do prefeito Humberto, que a inventou politicamente.

Todavia, o que interessa nisso tudo é o resultado das urnas. O povo é soberano e sua vontade agiganta-se no esconderijo da sessão eleitoral e se sustenta na liberdade de escolha.

Se a maioria fizer a escolha errada e não surgir uma luz para clarear a consciência dos eleitos, resta ao povo seguir a lição do poeta: “gritar na escuridão” da mesmice.

E aí, como diz a sabedoria do centenário e longevo curaçaense Luizinho Lopes, “só escapa quem voar” (o sociólogo Esmeraldo Lopes anotou esta frase noutro contexto e eu tomo a liberdade de citá-la aqui).

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Curaçá: quando as eleições passarem

Antonio Balbino de Carvalho Filho (1912-1992), que foi governador da Bahia, fazia uma analogia entre a paixão política e o frasco de remédio.

A expressão “agite antes de usar”, que se vê nas embalagens, é para o remédio fazer efeito e não para quebrar o frasco.

Nessas eleições municipais de Curaçá, o clima de animosidade entre apoiadores de alguns candidatos chega a ser assustador.

Essa malquerença somente acirra os ânimos e não é benéfica para o município e sua população.

Em política, a pessoa que não consegue discernir que o direito de um vai até onde começa o direito do outro, absolutamente não sabe ou não interessa saber o que é democracia.

A convivência com os contrários significa entender que os antagonismos não se confundem com inimizades pessoais. Adversário político é uma coisa, inimigo pessoal é outra, completamente diferente. Isto é elementar, ademais.

A seara política não é lugar próprio para criar desavenças. A seara política é ambiente propício para a civilidade, para o saber conviver educadamente.

Pessoas estão ofendendo outras tão-somente porque têm pensamento político diverso. Os comentários não são polidos, mas agressivos, desnecessariamente agressivos.

Em Curaçá, um leitor de meu blog disse que sou petista, porque falei bem de um candidato que não faz parte de seu grupo político. Acho que foi o primeiro texto meu que ele leu na vida, o que agradeço.

Esclareço ao dileto leitor que nada tenho contra o PT e tampouco contra os petistas.

Outro leitor, este de meu querido Patamuté, disse que quero “aparecer”, exatamente pelas mesmas razões em que o primeiro se baseou para concluir minha suposta preferência partidária.

Quem conhece minha história de vida – e ninguém tem obrigação de conhecer – sabe que “querer aparecer” é uma de minhas incompatibilidades que carrego. Não é meu feitio, nunca foi meu feitio, nunca será meu feitio.

Um terceiro leitor, mais rancoroso, disse que me tinha em outra conta, mas mudou, após ler um dos meus textos, que entendeu ser contra o candidato dele, o que não é verdade.

De qualquer forma, agradeço pela conta que ele me tinha e também pela conta que ele me incluiu, certamente não muito boa.

Muitos seguidores de candidatos a prefeito de Curaçá estão quebrando os frascos e não estão preocupados com o efeito do remédio democrático e com as mudanças que pretendem fazer no município.

Quando as eleições passarem será muito trabalhoso juntar os pedaços e recompor o vidro quebrado, independentemente do candidato vitorioso nas urnas.

O exercício da democracia pressupõe atenuação das paixões políticas.

“A luta democrática é honestidade”, dizia José Félix Filho (Zé Borges), de Poço de Fora, que foi prefeito de Curaçá.

A vida ensina que o excesso não é bom conselheiro.

araujo-costa@uol.com.br

Os prefeitos e a pandemia

Perguntar não ofende. Ou ofende?

O conhecido radialista José Nello Marques, renomado professor de jornalismo, diz que perguntar ofende. E ofende quando a pergunta é  imbecil e desnecessária.

Exemplo de pergunta desse tipo, que constrange qualquer jornalista sério: num enterro, a repórter do programa policial de televisão pergunta à mãe do falecido: “como a senhora está se sentindo? ”

Vou fundamentar minha pergunta, que farei no final.

Antes do prazo previsto na legislação eleitoral, para o início da campanha, todos os prefeitos, principalmente aqueles que disputam a reeleição, foram freneticamente às televisões, imprensa em geral e redes sociais, para pedir “fique em casa”, “use máscara” e “evite aglomeração”. Mais: fizeram normas duras, rígidas, toque de recolher, barreiras sanitárias, confinamento social, etc.

Não estavam errados.

Suas Excelências apareciam em lives, falando pelos cotovelos e explicando medidas urgentes e necessárias, que hoje se sabe, não se esforçam para fazer cumpri-las.

Todavia, depois que a campanha eleitoral começou, esses mesmos prefeitos fazem carreatas e outros eventos, escandalosamente incompatíveis com as normas que eles próprios editaram. Nem mesmo parte de seus admiradores usam máscaras e as imagens que se vê são esclarecedoras. Mais do que isto, assustam.

Talvez, em certas situações, nem os candidatos obedecem às normas que eles fizeram.

Os jornalistas sabem – e principalmente os jornalistas independentes, que não são pagos para elogiar este ou aquele governante – que o covid-19 está aí implacável, assustadoramente implacável.

Profissionais de saúde que estão no batente atestam que todos os dias pessoas são internadas, muitas morrem e os prefeitos estão silentes, descaradamente silentes e até, em certos casos, omitindo as informações da população através das chamadas subnotificações.

Fácil explicar: se não há pessoas nas ruas, como os candidatos vão distribuir santinhos, fazer demagogia, “adesivaços”, promessas, exibir bandeiras partidárias, encher os ouvidos da população dessas insuportáveis propagandas em carros de som?

O prefeito de São Bernardo do Campo, em São Paulo, foi às redes sociais esta semana para dizer que a pandemia no município está “estável”. Aliás, muitos prefeitos estão dizendo isto.

E daí? A estabilidade dos números da doença significa descuidar-se, relaxar as normas de combate ao coronavírus?

Estabilidade significa dizer que as autoridades devam fechar os olhos para a cruel realidade durante a campanha eleitoral?

O fato é que nessa campanha veem-se multidões em qualquer lugar e a qualquer hora.

Cabos eleitorais abundam distribuindo propagandas a mando dos candidatos, até porque muitos precisam ganhar seu sustento, o que não está aqui em discussão. A discussão é sobre o afrouxamento das normas de prevenção da disseminação do vírus..

Anote aí, o leitor.

Quando se fecharem as urnas de 15 de novembro, não se surpreenda se esses mesmos prefeitos hipócritas voltarem aos meios de comunicação para dizer “use máscara, fique em casa, evite aglomeração”, mesmo porque não há vacinas nem cura para essa doença, por enquanto.

Mas por enquanto, é conveniente para esses políticos ficarem quietos, irresponsavelmente quietos.

É possível acreditar nesses políticos irresponsáveis?

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia vira capitania do PT

O escritor João Ubaldo Ribeiro, baiano nascido na Ilha de Itaparica, autor de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, dentre outros, gostava de tomar umas e outras ou todas.

Brincalhão e gozador, ele contava que nove horas da manhã já tinha ido à padaria três vezes, com a desculpa de comprar pão. Em cada ida, uma dose de uísque.

Lula da Silva já sinalizou – e a imprensa publicou – que vai se mudar para a gloriosa Bahia e é provável que se instale num condomínio fechado de luxo, em Lauro de Freitas, região das paradisíacas Sauipe e Praia do Forte.  

Na Bahia, será formada uma espécie de santíssima trindade do Partido dos Trabalhadores: o governador Rui Costa, o senador Jaques Wagner e o morubixaba Lula da Silva, que vai acabar se transformando num babalorixá, tamanha a admiração que os baianos têm pelo ex-presidente.

A admiração é compreensível. Além de nordestino, Lula é animal político experiente e seu poder de persuasão engana muito bem. É capaz de convencer os incautos que cobra usa suspensório.

Pelo que se vê, a Bahia vai se transformando, aos poucos, numa capitania hereditária petista. Lá manda Rui Costa, o capitão-mor, manda Jaques Wagner e agora, possivelmente, também vai mandar Lula da Silva.

O feudo será dividido entre os três, que pretendem comandar a Bahia, indefinidamente e distribuir partes a seus correligionários à moda da Coroa Portuguesa. Se os baianos deixarem.

Entretanto, a versão mais plausível vai ao sentido de que Lula da Silva pretende morar na Bahia para ficar mais perto dos nordestinos e tentar segurar e manter o eleitorado do Nordeste, marcadamente lulista e que Bolsonaro ameaça carregá-lo para suas hostes com a concessão do auxílio emergencial, embora um tanto difícil.

Lula da Silva está cansado de São Bernardo do Campo. Aqui viveu seu sucesso e seu fracasso pessoal e político.

Nada mais justo que, a esta altura da vida, aos 75 anos, Lula queira descansar, ficar longe da efervescência por que vem passando. É compreensível a mudança.

E terá tempo para ir à padaria comprar pão.

araujo-costa@uol.com.br

A sinceridade do sósia

Meu primeiro emprego em São Paulo foi na Companhia Vidraria Santa Marina, em Mauá, incorporada pelo grupo francês Saint-Gobain em 1960.

Deixei o emprego que tinha na Prefeitura de Curaçá, na Bahia, e rumei para São Paulo à procura da realidade de meus sonhos. Ainda hoje procuro. A realidade vai por um caminho e os sonhos por outro.

Cheguei sem eira e nem beira, numa madrugada fria e de muita chuva e até me perdi antes de chegar ao destino, uma ladeira escorregadia, sem calçamento, em frente a um cemitério.

A efervescente região do ABC paulista dava emprego e abrigo aos nordestinos e não somente nordestinos.

Sou antecedente de Lula da Silva. Quando ele começou a fazer greve em São Bernardo do Campo eu já havia enfrentado, como estudante, a polícia política do governador paulista Paulo Egydio Martins (ARENA), nos tempos da ditadura.

Eu e alguns colegas almoçávamos no restaurante da empresa, mas sobrava tempo para descanso, antes de retornar ao trabalho.

Então, caminhávamos pela Avenida Barão de Mauá, centro da cidade, à toa, aguardando o apito do relógio da fábrica convocando para o turno seguinte.

Um colega me disse: tem um rapaz que trabalha ali no banco da Barão de Mauá que é a sua cara. Parecidíssimo com você. É sósia ou seu irmão gêmeo.

Irmão gêmeo não podia ser, disse-lhe. Não tenho irmão gêmeo e para ser sósia, um dos dois deve ser muito azarado.

Certeza eu tinha. Ele não havia nascido nos barrancos do Riacho da Várzea, nas caatingas baianas de Patamuté, como eu. Logo, só podia ser coincidência física mesmo.

Os colegas me levaram até lá. Entramos na agência bancária e nos postamos à frente da mesa de trabalho do dito cujo e formamos um círculo, jogando conversa fora.

De fato, o rapaz era a minha cara ou eu era a cara dele, não sei exatamente.

Começou certa aglomeração ao redor da mesa e uma diligente funcionária do banco foi até o rapaz e falou baixo ao seu ouvido, não sei o quê.

Ele me olhou um tanto assustado, apontou em minha direção e perguntou em voz alta:

– Eu sou feio assim?

Podia não ser, mas teve sorte de nascer parecido comigo.

Tenho saudade dos meus primeiros tropeços em São Paulo.

Hoje os tropeços são mais cruéis, outras vezes incompreensíveis, outras tantas desumanos.

araujo-costa@uol.com.br

Eleições de Curaçá: a jovem liderança de Anselmo Filho

Anselmo Vital Matos Filho/arquivo pessoal

Com 22 anos, estudante de engenharia agronômica, Anselmo Vital Matos Filho desponta para a vida política de Curaçá ostentando vistosas bandeiras, com o intuito de robustecer o direito dos que não têm voz.

Descendente do lado paterno da estirpe de Francisco Ferreira Vital e Otaviano Matos, exemplos incontestes de retidão de caráter e honradez, quando se trata da história de Patamuté, Anselmo Filho vai se submeter à voz das urnas nesse momento de clara turbulência ideológica e acentuado descrédito pelo qual passam os atores da atividade política em todas as esferas.

Estamos numa quadra do tempo em que a política é vista com reservas. Mas a essencialidade da democracia está na atividade política e o viver democrático tem mecanismos para depurar a conduta do homem público.

O pai Anselmo Vital Matos, conhecido por seu ativismo desde a juventude, certamente deve contribuir com considerável lastro eleitoral construído em anos de atividade política.

A estrutura familiar de Anselmo Filho se completa com o esteio materno da família Brandão.    

Entre um momento e outro da campanha, este blog ouviu Anselmo Filho, que disputa uma vaga na Câmara Municipal de Curaçá pelo Partidos dos Trabalhadores (PT) na esteira da chapa majoritária Murilo Bonfim-Caíque Brandão.

O blog quis saber sobre alguns pilares do pensamento político de Anselmo Filho. A visão do jovem candidato não se restringe ao Legislativo Municipal, de modo que seu interesse se vincula a um ideário mais amplo, contextualizando-o noutros segmentos da sociedade.

Embora jovem, Anselmo Filho vem das fileiras do Partido Comunista do Brasil (PC do B), mas se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) em janeiro deste ano. Defende “os programas que o ex-presidente Lula dispôs” e diz identificar-se com o PT “pelo fato de ser de esquerda e defender as causas dos pobres, do homem do campo, do agricultor, dos negros”.

A seguir, alguns pontos principais da linha de pensamento de Anselmo Vital Matos Filho, que este blog conseguiu extrair e resumir.      

Papel do jovem na política:

“O jovem é um dos grandes contribuintes para a nossa sociedade. Cada dia que passa os jovens se interessam cada vez mais e querem representar algo, liderar algo, representar o seu povo, representar aqueles que não têm voz e representação no legislativo”.

Sobre a juventude de Curaçá:

“A juventude em Curaçá precisa ocupar os espaços de poder, participar dos movimentos políticos, se informar sobre os posicionamentos das decisões políticas. Infelizmente como em quase todos os lugares do Brasil, os jovens de Curaçá não têm se sentido atraído ativamente pela política.
No meio desse cenário, trago propostas para a juventude, meio ambiente, para a questão social e pretendo dar uma outra cara à Câmara de Vereadores. Quero convocar toda a juventude para participar dessa busca de solução para os problemas da juventude.

Não se resolve de uma hora para outra e sim com um mandato coletivo participativo”.

Distritos, associações e comunidades rurais

“Hoje mais do que nunca, vejo a necessidade de apoio ao meu distrito de Patamuté e demais distritos, como também, as associações, comunidades rurais, estudantes, jovens, comerciantes, esportistas, fazendeiros e outros que passam pela falta de atenção, assim como a implementação de políticas que apoiem a estrutura e desenvolvimento de todos.

Somos um município rico, com grutas, áreas irrigadas, beira de rio, mineração e ilhas e tudo isso é importante para o desenvolvimento do lugar”.

Jovens do meio rural

“Os jovens das áreas rurais passam por uma desassistência enorme. Existe falta de cursos preparatórios, ensino de qualidade para que se tenha um futuro próximo engajado no que o mercado atual precisa.

São dificuldades que vamos procurar soluções não só através do governo federal, e sim municipal também.

É preciso implantar novas formas de que os jovens tenham mais crescimento. É preciso implantar escolas integrais para se ter uma base do ensino fundamental ao médio para se ter uma maior facilidade no engajamento no mercado e vestibulares, cursos preparatórios, universidades, qualificação profissional e oportunidades na área do esporte com um projeto participativo”.

Representação de Patamuté no Legislativo Municipal

“Patamuté não tem uma representação que cobre e conheça a realidade do nosso povo, a falta de água, a falta de luz e a escassez de um representante que seja o porta-voz do nosso povo.

Falta uma participação no Poder Legislativo daquele que conhece a luta diária dos moradores, comerciantes, associações, estudantes, produtores rurais e do nosso lugar.

É preciso ouvir todos em um programa participativo para que assim possamos tomar medidas à altura”.

Mercado Municipal de Patamuté

“A avaliação que eu faço do mercado é que o mercado por ser o local em que se deve vender verduras, roupas, artesanatos, carnes e demais opções hoje encontra-se fechado por não ter estrutura para receber tudo que desejamos.

O estado crítico que hoje ele se encontra com telhado quebrado, paredes quebradas, portão aberto fez com que a feira dia de sábado em Patamuté se afastasse do público.

Hoje o que vemos é a cada dia que passa a nossa tradição de ir à feira de Patamuté dia de sábado está se afastando.

Fechamento de escolas

“O nosso município recebeu mais de 30 milhões dos precatórios, o município tem 54 escolas, 14 foram reformadas e apenas uma foi feita.

Patamuté, por sua vez, não recebeu nada e ainda acabou fechando as escolas do Sítio de Alexandre e Viturino. Então, nada foi feito pela atual gestão nas escolas de Patamuté, pelo contrário, algumas foram fechadas.

O que me deixa indignado é ver o descaso com a educação, tão essencial para o nosso crescimento”.

Carro-pipa no período eleitoral

“O nosso município passou por uma grande seca ao decorrer do mandato atual. Nenhuma medida foi tomada e só agora nesse período eleitoral está existindo pipas entregando água para o povo, que em nenhum momento deu assistência ao catingueiro e agora querem usar uma maquiagem para favorecer o voto na reta final”.

Juventude e sonhos:

“Precisamos incentivar a escola a se contextualizar com a nossa região. Desejo uma escola que prepare os nossos jovens a viver no campo com toda tecnologia necessária e que possa ajudá-los a ter uma formação que possa ser usufruída fora daqui também.

Sonho com toda juventude formada em cursos profissionalizantes, pré-vestibulares e universidades para que todos possam crescer no mundo atual, o que é necessário para o nosso crescimento.

Sonho com os jovens ingressando em universidades, empreendendo do seu próprio conhecimento. Sonho que pode se tornar realidade.

Sou um jovem sonhador, desejo ser o representante dos jovens, agricultores, estudantes, professores, das associações e esportistas da minha cidade e querido distrito de Patamuté, enquanto vereador.

Vou encampar melhorias e cobrar para que Patamuté seja digno daquilo que merece.

Sonho por dias melhores, com estradas boas, água nas fazendas, energia para aqueles que mais precisam e acima de tudo procurar sempre escutar a população.

Costumo dizer que o bom político não é aquele que sabe falar e sim aquele que sabe escutar e executar.

Em meu mandato o povo terá voz para seus clamores. O homem do campo precisa de atenção e ser escutado”

Anselmo Filho diz contar “com o apoio do deputado estadual Zó e do deputado federal Daniel Almeida”.

O blog agradece a atenção e presteza do candidato Anselmo Filho, sem dúvida uma liderança que surge no horizonte da política de Curaçá.

araujo-costa@uol.com.br

Propaganda às avessas

O presidente Bolsonaro tem uma irresistível tendência ao grotesco.

Todavia, não é privilégio deste presidente. Outros já o fizeram, embora não tenham merecido o estardalhaço comum nesses novos tempos.

Todos conhecem dois episódios, dentre muitos, protagonizados por Lula da Silva, guru da esquerda, quando ainda presidente: o caso de Pelotas (RS) e o apelido dado às parlamentares e ativistas apoiadoras do então presidente, ambos preconceituosos para os padrões da esquerda, que ficou quieta.

Típicos casos de ofensa, em se tratando do conceito introjetado pelo “politicamente correto”, a imprensa não deu nenhum destaque àquelas grotescas falas de Lula da Silva, exceto o noticiário de praxe e corriqueiro, an passant.  

Com o advento do governo Bolsonaro, toda e qualquer besteira que o presidente diz – e não deve dizer – é vista com lupa e passa a ser pauta de vazios programas de televisão.

Comentaristas ditos experientes se ocupam pateticamente dessas idiotices, dando ênfase a tudo que o presidente fala e destoa da hipocrisia seguida por parte da sociedade.

Em data recente, no Maranhão, o presidente Bolsonaro fez uma brincadeira inoportuna sobre os maranhenses, usando tradicional guaraná de lá, culturalmente enraizado. Conversa típica de balcão, de boteco.

Foi o suficiente para que o alvoroço se instalasse, até com ameaças de processo contra o presidente.

O governador do Maranhão, que parece não ter o que fazer, quer virar notícia a todo custo e se serviu do episódio para também aparecer, embora no Maranhão deva ter outras prioridades.

A escritora cearense Rachel de Queiroz dizia que o maior entendido em marketing que ela conheceu foi Lampião.

Quando o cangaceiro queria ser notícia, decidia invadir uma cidade, saqueava comerciantes, fechava povoados, etc.

Um marketing macabro e cruel, mas eficiente. Lampião virava notícia, como ele desejava.

O presidente Bolsonaro parece seguir a linha de Lampião. Cria fatos grotescos, reprováveis, abomináveis.

Aí passa a ser notícia em toda imprensa, inclusive mundial. É o que ele quer, dizem os entendidos em factoides.

Bolsonaro deve ter um irresistível pendor para a pulha.

Faz propaganda às avessas.

araujo-costa@uol.com.br

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Em Curaçá, a deselegância do candidato Flamber Feitosa

Este blog não teve dificuldade em fazer contato com as campanhas dos candidatos Pedro Oliveira (PSC) e Murilo Bonfim (PT) e suas coligações, talvez por razões facilmente compreensíveis.

O prefeito Pedro Oliveira vem de outras campanhas vitoriosas e, por conseguinte, adquiriu experiência para lidar com situações políticas complexas, até mesmo perguntas embaraçosas.

Por outro lado, o senhor Murilo Bonfim conta com a militância arraigada e buliçosa do Partido dos Trabalhadores (PT), que tem cacife para enfrentar as ruas, o que é inquestionável em Curaçá e fora de Curaçá, além de aliados até aqui leais ao candidato.  

O contato com qualquer blog ou órgão de imprensa não significa entrevista, necessariamente, que os candidatos têm o direito de recusar. Isto é elementar. É direito dos candidatos.

Em política, mormente em campanhas eleitorais, o que quase sempre o jornalismo pleiteia é o colhimento de impressões para análises e amparo de eventuais noticiários sobre candidatos que se dispõem a defender os interesses da população.  

Entretanto, o candidato Flamber Feitosa (PSD) se recusou a conversar com este blog.

Em 18/10/2020 o blog entrou em contato com o candidato Flamber Feitosa que, pessoalmente, se negou a conversar. “Vou te ligar mais tarde”, disse. Até a publicação deste artigo, não deu retorno. O silêncio é por demais explicativo: falta de consideração.

O candidato Flamber não apresentou razões plausíveis, até mesmo porque este blog sempre foi respeitoso com o senhor Flamber e sua campanha.

Um candidato que se recusa a falar com a imprensa e/ou com qualquer jornalista, isoladamente, ou não tem visão política ou prescinde de conhecimentos sobre democracia.

Até entendo que, do alto de sua importância inalcançável para os pobres mortais como este insignificante blogueiro, o senhor Flamber Feitosa não se disponha a falar, mas isto não deixa de ser uma deselegância incompatível com quem pretende ser prefeito de Curaçá.    

De qualquer forma, este blog deseja boa sorte nas urnas ao senhor Flamber Feitosa. Que seu sonho de ser prefeito de Curaçá – que é possível realizar – se desvie do caminho da arrogância.

É sempre bom lembrar a lição de D. Hélder Câmara, que foi arcebispo de Olinda e Recife, independentemente da religião que professamos: “A gente pode ter orgulho de ser humilde”.

Nós curaçaenses somos humildes. Precisamos de pessoas humildes no comando do município.

Parece que está faltando humildade ao senhor Flamber Feitosa. Que Deus lhe oriente o caminho.

araujo-costa@uol.com.br

ACM e as empreiteiras

O médico Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) foi governador da Bahia por três mandatos e o político que deteve mais poder no estado durante décadas.

ACM foi deputado estadual, deputado federal, prefeito biônico de Salvador, ministro das Comunicações, Senador da República, et cetera, principalmente et cetera. O que mais ACM exerceu na vida foi et cetera, em todos os governos, de 1964 até Fernando Henrique Cardoso.

ACM mandou construir a Linha Verde, bela estrada turística que começa nos domínios de Lauro de Freitas e vai até a divisa com Sergipe, também conhecida como Estrada do Coco, contemplando praias e outras belezas naturais.

A Construtora Norberto Odebrecht ganhou a concorrência e, em consequência, se encarregou da obra, mas subcontratou a OAS para executar o serviço ou parte dele.

A OAS pertencia ao genro de ACM, César Araújo Mata Pires.

Os adversários políticos de ACM diziam que OAS significava “Obrigado, Amigo Sogro”, numa maldosa insinuação de que o governador protegia a construtora do genro. ACM negava: “a OAS já existia antes de ele casar com a minha filha”. Dizia mais: “quem quiser fazer governo sério tem que tomar lição na Bahia”.

No decorrer da construção da estrada, a Odebrecht procurou ACM, alegando necessidade de um aditamento no valor de vinte milhões de dólares, porque, segundo a construtora, a obra estava dando prejuízo, inclusive para a OAS.

ACM recusou: “Quero que a estrada seja construída pelo valor acertado na licitação”. E não aditou.

O mesmo aconteceu com a construção da Adutora do Feijão, na região de Irecê. ACM não fez aditamento dos contratos, mesmo instado a fazê-lo e, mais tarde, já noutro governo, houve construtora com dificuldades de cumprir o contrato.

Norberto Odebrecht, fundador da construtora e pai de Emílio (que viria a ser amigo de Lula da Silva) e avô do príncipe Marcelo, era amigo de ACM e ficou melindrado com a recusa do aditamento. Ameaçou transferir a sede da construtora para o Rio de Janeiro. ACM deu de ombros e a Odebrecht acabou mudando, paulatinamente, por conta desse prejuízo alegado.

Depois, a OAS caiu definitivamente nas mãos de Léo Pinheiro, que presenteou Lula da Silva com o tríplex do Guarujá e a Odebrecht passou a ser administrada por Marcelo, que reformou o sítio de Atibaia para Lula, em parceria com a OAS, segundo o Poder Judiciário e por aí vai.

Não custa lembrar que Lula da Silva nega de pés juntos ter recebido esses e outros mimos das construtoras, de modo que toda riqueza que ele tem hoje presume-se que é fruto do seu árduo, diuturno e suado trabalho em benefício das “classes trabalhadoras”.

Léo Pinheiro e Marcelo Odebrecht se enrolaram com a chamada operação Lava Jato, porque fizeram nada mais, nada menos, do que suas construtoras costumavam fazer: além de aditamentos em contratos, para ampararem as propinas, valiam-se do uso delas para tapetar o caminho em direção a agentes públicos corruptos.

O uso do “cachimbo deixa a boca torta”, diz o ditado. OAS e Odebrecht confirmaram isto. Deu no que deu.

Agora, João Santana, baiano de Tucano, marqueteiro de Lula da Silva e de Dona Dilma, quer reeditar o lulopetismo e até sugeriu uma chapa Ciro Gomes-Lula da Silva, com empreiteiras e tudo que tem direito.

Nas calçadas de São Bernardo do Campo já há quem pergunte: meu Deus, vai começar tudo de novo?

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