Vacina contra a insanidade

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Frase atribuída ao escritor americano Maurice Switzer).

Os jornais publicaram que nosso ministro da Saúde perguntou, acintosamente: “Por que essa ansiedade, angústia?”.

O ministro se referia à pressa dos brasileiros pela definição da vacina contra o covid-19 e a cobrança que a sociedade está fazendo sobre a aparente hesitação do governo do Brasil quanto às tratativas para a aquisição das vacinas.

Esta pergunta é imprudente, insensata e inoportuna. É um acinte aos brasileiros.

A resposta que o ministro da Saúde não sabe é simples: já morreram milhares, estão morrendo mil pessoas por dia no Brasil e centenas de outras estão sendo infectadas todos os dias. É o caminho cruel em direção à morte.

Os hospitais em todo Brasil já não dispõem de estrutura para atender a grande quantidade de internações diárias e necessárias, inclusive os particulares, para quem pode pagar.

A rede pública hospitalar se esgotou. Melhor dizer: acabou.

Estamos perdendo diariamente parentes e amigos e muitos brasileiros estão sofrendo com a doença, na difícil luta pela vida.

Estamos assustados, compreensivelmente assustados. Não se trata de pressa, mas de desespero.

Nossa esperança está no governo que a maioria escolheu nas urnas, democraticamente, para cuidar da administração do Brasil e, por isto, exigimos pressa das autoridades.

O generalíssimo ministro Pazuello talvez esteja precisando tomar urgentemente uma vacina contra a insanidade.

Ou ficar calado.

araujo-costa@uol.com.br

Queda do secretário de Segurança enfraquece Rui Costa

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o afastamento do secretário de Segurança Pública da Bahia. Em consequência forçada, o governador Rui Costa (PT) formalizou a exoneração.

Segundo alegação do Ministério Público Federal (MPF) acatada pelo STJ, o secretário desempenhava “papel central na garantia da impunidade dos diversos núcleos criminosos” que atuavam na venda de sentenças que envolvia membros do Poder Judiciário baiano, inclusive juízes e desembargadoras.

O MPF diz que a atuação do secretário “consistiria em neutralizar os opositores do esquema criminoso”.

O Ministério Público pediu a prisão temporária do secretário, mas o STJ negou. Aliás, o Ministério Público pede tudo, até o que não pode pedir. Sustentar processualmente a razão do pedido é outra história que não vem ao caso.

O ex-secretário Maurício Teles Barbosa é experiente, formado em Direito, delegado da Polícia Federal, com cursos na área de inteligência na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), além de ter comandado diversas operações, inclusive contra o crime organizado. Foi superintendente da Polícia Federal na Bahia.

Em quadro assim, é ingênuo acreditar, pelo menos por enquanto, que o ex-secretário tenha se embrenhado na prática de crime tão sofisticado, consoante alega o MPF, embora a palavra derradeira e definitiva seja do Judiciário.  

O governador Rui Costa tem se mantido longe de escândalos de corrupção, o que lhe garante, até agora, a confortável posição de possível candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores em 2022, se o morubixaba Lula da Silva não melar a indicação em favor do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad ou outro que vier a surgir no horizonte do delírio petista.

O escândalo que passou mais perto de Rui Costa, mas não o atingiu, foi o propinoduto por onde transitaram os marqueteiros e publicitários petistas João Santana e Valdemir Garreta e envolveu a famosa Torre Pituba, um sofisticado edifício que os petistas inventaram em Salvador, financiado com dinheiro da PETROS, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras.

William Ali Chaim, ex-guerrilheiro do MR8, que passou pelo histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se filiou ao Partido dos Trabalhadores apareceu como operador de propinas ofertadas ao PT pelas construtoras OAS e Odebrecht. Por suas mãos passaram, segundo investigações, pelo menos R$ 22 milhões de propinas endereçadas ao PT.

O Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8) foi um grupo guerrilheiro fundado na década de 1960, por militantes de esquerda, para combater o regime militar dos generais-presidentes. 

Mas o fato é que Rui Costa passou longe desse dinheiro ou passaram com o dinheiro longe dele.

De qualquer forma, a acusação de envolvimento do ex-secretário de Segurança da Bahia nesse rumoroso caso vinculado à venda de sentenças respinga em Rui Costa, por uma razão muito simples: Maurício Barbosa sempre foi um dos secretários mais próximos do governador e com ele mantém considerável afinidade de pensamento e atuação.

Todavia, parece que os orixás estão conspirando a favor do governador Rui Costa. É curioso o silêncio da imprensa sobre esse quiproquó envolvendo o ex-secretário baiano.

Meio caminho andado. Quando a imprensa dá de ombros para assuntos sérios é sinal de que alguém está sendo beneficiado com o silêncio, mesmo que involuntariamente.

Mutatis mutandis, como dizem os entendidos em direito, se esse secretário trabalhasse no Palácio do Planalto, sem dúvida a cobertura da imprensa seria outra e os comentaristas do Grupo Globo estariam roucos de tanto repetir o mesmo assunto.

Basta lembrar a polêmica que a imprensa criou sobre a morte do miliciano bolsonarista no município baiano de Esplanada. A imprensa transformou a operação policial em ridículo fato político que não se sustentou.

O governador Rui Costa sai enfraquecido desse episódio envolvendo seu ex-secretário de Segurança Pública e os prejuízos políticos podem aflorar na campanha presidencial, se ele for candidato.

No mínimo, o caso servirá de matéria-prima para a campanha dos adversários do Partido dos Trabalhadores, embora na Bahia o PT não tenha adversários, mas aliados disfarçados de opositores.

araujo-costa@uol.com.br

Obituários e tristezas

O cronista Rubem Braga dizia que “depois de certa idade, uma das seções do jornal que a gente lê com mais interesse é a dos mortos”. São os obituários.

Nas seções de falecimentos dos jornais estão nomes completos dos falecidos, famílias a que pertenciam, cemitérios e informações sobre funerais, datas da missa e outras coisas mais.

Como se vê, além de outros infortúnios, a senilidade traz alguns hábitos que, na mocidade, sequer sabíamos da existência deles: ler os obituários com o intuito de sabe se algum conhecido partiu desta para a melhor.

Chega um tempo em que nem conhecidos mais chegados temos mais, todos já se foram e os obituários não têm importância nenhuma.

O escritor Rubem Braga viveu noutro tempo mais ameno, até na velhice.

Os obituários não são mais lidos com a frequência costumeira, em razão, dentre outras, do amontoado de notícias ruins.

O coronavírus está matando implacavelmente centenas por dia, milhares em todo mundo, muito mais do que as autoridades publicam a conta-gotas, para não inflarem os números de mortes diárias.

Nesta triste fase por que passamos, já perdi alguns amigos e outros se encontram acometidos dessa terrível doença, o covid-19. O futuro cada vez mais se torna uma incógnita, um enigma inalcançável.

Estamos em tempo de reflexão. O sentido da vida e da morte cada vez mais se torna indecifrável.

Neste período difícil, uma das primeiras pessoas queridas que a pandemia levou foi um amigo de décadas, José Evaldo de Menezes.

Advogado e político, essencialmente amigo, José Evaldo deixou um vazio que não se pode mensurar.

José Evaldo era um esteio, uma segurança que eu tinha, embora distante. Com sua morte, desmoronou-se a construção da amizade por inteiro e passei a conviver com os escombros da saudade.

Volto ao hoje.

A angústia é saber que todos os dias a humanidade está cada vez mais cruel e indiferente.

É comum encontrarmos, no dia a dia, pessoas preocupadas somente com fama, poder e dinheiro. Para essas pessoas, nada mais existe em torno delas.

Uma coisa puxa outra, a conversa também.

Outro dia vi uma cena, difícil de esquecer. No balcão de uma instituição, estava um senhor acometido de grave doença, visivelmente alquebrado, saúde em pandarecos, discutindo arrogantemente sobre irrisória quantia de uma taxa que se negava a pagar, porque exorbitante, segundo ele.

Ou seja, naquele estado deplorável e com pouco tempo presumível de vida, aquele senhor estava preocupado com dinheiro.

Deu-me um ímpeto de lembrar àquele senhor que caixão de defunto não tem gaveta. Ele vai, o dinheiro fica, talvez para alimentar discórdia entre os herdeiros.  

Pra que se preocupar com dinheiro a essa altura da vida, já no despenhadeiro do tempo, precipitando-se em direção à morte?

Mas me aquietei. O problema era dele e não meu.  

Imaginei como teria sido esse arrogante senhor, quando mais novo e sem problema de saúde.

Precisamos rezar para diminuir os obituários e aplainar as tristezas.  

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia envergonhada

“O incorruptível. Apontem-me alguém que possa receber esse cognome atualmente no Brasil” (Carlos Eduardo Novaes, in O País dos Imexíveis)

O Poder Judiciário da Bahia vem passando por sérios e monumentais constrangimentos e vai precisar construir presídios para uma nova categoria de delinquentes: juízes, desembargadores e serventuários da Justiça.

Excetuam-se, por óbvio, os bons juízes, os bons desembargadores, os bons serventuários, que os há na Bahia e sempre houve, em todos os tempos. Esses são maioria.

Tirante os escândalos anteriores em que estava ou está envolvido até o então presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desta vez a coisa é mais abrangente, vergonhosamente mais ampla.

Em 11/12/2020, a Justiça Federal afastou cinco desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, com sede em Salvador, de modo que o ministro Coqueijo Costa (1924-1988), que deu nome ao Tribunal, deve estar se revirando na eternidade.

Além de magistrado respeitadíssimo, Coqueijo Costa foi cantor, compositor, cronista, letrista, maestro, jornalista e poeta. Logo, não teve tempo de praticar coisas ruins, como hoje fazem esses dublês de desembargadores da Bahia.  

Crimes praticados pelas subidas Excelências, segundo acusação que lhes pesa: venda de sentença e tráfico de influência. Pode?

Como se vê, simulacros de magistrados.

Suas Excelências os desembargadores afastados foram proibidos de usar os veículos oficiais e, por enquanto, perderam o direito de acesso a diversos equipamentos do Tribunal, dentre esses o setor de Recursos Humanos, gabinete virtual, Posto Judiciário Eletrônico e rede de computadores.

É o mínimo que se espera.

Já no Tribunal de Justiça da Bahia, órgão estadual, o Superior Tribunal de Justiça determinou a prisão temporária de duas desembargadoras. Acusação: venda de sentença, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e tráfico de influência.

Pode?

De roldão, também foi afastada uma ex-chefe do Ministério Público da Bahia. Isto mesmo, ex-chefe do Ministério Público. Pode?

Afastados, também, diversos servidores do Tribunal de Justiça, por envolvimento nesses supostos crimes.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também apura o caso, mas se depender das decisões de praxe do Conselho, Suas Excelências serão aposentadas com estratosféricos salários pagos por todos nós contribuintes de impostos.

Para esses magistrados, o crime compensa.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, saudade de minha província

O repórter chegou na hora marcada, como convém aos bons profissionais.

Queria amparar uma matéria sobre minha vida. Sem êxito.

Disse-lhe que minha vida não é lá grande coisa, mas uma luta pela sobrevivência, um confronto com os limites humanos do tempo, assim como “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (1899-1961).  

Acrescentei que alguns entendidos em vida alheia me chamam de saudosista e piegas e que me preocupo demais com coisas reles, desprezíveis, assuntos sem importância.

As coisas têm ou não importância a depender do ângulo de quem as vê. Eu dou importância às coisas, segundo minha visão do cotidiano e tenho errado pouco nesse particular.

Não é defeito ser assim, se é que sou assim. Por isto, quase sempre falo de amigos, de lugares, de lembranças, tais e tantas que um espaço de página não é suficiente. É minha característica de cronista, espectador do tempo, da vida e dos tropeços. Não faço mal a ninguém.

Toda cidade, seja metrópole ou do interior, tem o seu ponto de encontro. São famosos, em todas as cidades, os bares frequentados por artistas, jornalistas, políticos, intelectuais, escritores e gente que a fama não alcançou. Conheço alguns, vários.

Muitos se aconchegam nesses ambientes para lapidar seus vícios. Se “o vício é o estrume da virtude”, como dizia Machado de Assis, ele também, em certos casos, é bálsamo da boemia.  

Chorrochó, minúscula cidade do sertão baiano, também tinha o seu mais famoso ponto de encontro: o Bar Potiguar. Central, arejado, convidativo, muito procurado.

Na segunda metade da década de 1960 lá despontou – e durou por muito tempo – uma espécie de sociedade irrequieta, formada de jovens, geralmente estudantes do então Colégio Normal São José, que fazia uma cidade alegre e hospitaleira.

Esses jovens, a maioria proveniente da zona rural, construíram, dentro de seus limites interioranos possíveis, um mundo entrelaçado de fantasia e realidade.

O Bar Potiguar, hoje desaparecido, era o ponto de encontro desses jovens, ávidos por atingir seus sonhos e propensos, todos eles, a trilharem o caminho do futuro em busca dos seus ideais.

A boemia se tornou uma sadia forma de agregação de amizades que perduraram.

Muitas dessas pessoas hoje são profissionais, preocupadas com tempo e objetivo, mas inarredavelmente ligadas àquele passado de ternura e convivência responsável.

Outros tantos já morreram ou estão aposentados do trabalho e das peripécias da vida.

Sobressaíam-se, naquele tempo, nesse ambiente de amizade e cordialidade, uns mais jovens, outros mais experientes, como assíduos frequentadores do Bar Potiguar: Juracy Santana, Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, José Osório de Menezes, João Bosco de Menezes, Neusa Maria Rios Menezes, José Juvenal de Araújo, Antonio Wilson de Menezes, Geraldo José de Menezes, Maria Lenisse Oliveira Alves, Almira Marques Ribeiro, Eremita Marques Ribeiro, Antonia Marques Ribeiro, Marinalva Araujo, Raimunda Ribeiro Coelho, Ângela Maria da Silva, Carlos Bispo Damasceno, Fabrício Félix dos Santos, Ernani do Amaral Menezes, José Eudes de Menezes, José Claudionor Menezes, José Evaldo de Menezes, Francisco Afonso de Menezes, José Jazon de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, Antonio Geraldo Rodrigues de Menezes e tantos outros, alguns já falecidos.

A lista é extensa, mas limito-me a alguns nomes para evitar massacre maior da saudade. E havia, de quando em vez, a frequência dos mais velhos, que nos deixavam seguros e nos amparavam em nossas fragilidades de jovens inexperientes: Eloy Pacheco de Menezes, Horácio Pacheco de Menezes, o elegante José Calazans Bezerra (Josiel), Luiz Pacheco de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Francisco Arnóbio de Menezes, José Pires Filho, Joviniano Cordeiro de Menezes, et cetera e vai et cetera nisto. 

Surgiam presenças fortuitas e rápidas, a exemplo de Dorotheu Pacheco de Menezes.

As professoras de destaque na época, que eram nossos exemplos de vida, também passavam por lá, esporadicamente: Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Ita de Menezes, Maria Rita da Luz Menezes, Maria Therezinha de Menezes, Wilma Abia de Carvalho Menezes, Maria Joselita de Menezes, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Maria Daparecida Mazarelo de Menezes, etc.

Virgílio Ribeiro de Andrade era dono do Potiguar e responsável por agregar todas essas pessoas. Ágil, atencioso, exemplo de anfitrião e de decência.         

Qual a importância dessas lembranças? A resposta talvez esteja na certeza de que foram essas pessoas que sustentaram, naquele tempo, em Chorrochó, a melhor escola que se possa ter na vida: a amizade.

Depois de longa conversa, às vezes sem pé, outras vezes sem cabeça, o sol de primavera já alto, o repórter se despediu sem a matéria de minha vida.

Minha vida não é lá grande coisa.

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Caso Beatriz: a mancha que Petrolina carrega

“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça por toda a parte” (Martin Luther King Júnior, 1929-1968)

Completam-se cinco anos do bárbaro assassinato de Beatriz Angélica Mota, uma criança de sete anos, fato ocorrido nas dependências do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina.

Pela demora na elucidação do caso, é razoável supor que as linhas de investigação parecem mais estribadas em hipóteses ainda não esgotadas do que, propriamente, em caminhos científicos que levem ao autor ou autores do crime.

Houve uma sucessão de falhas primárias, antes e depois do crime, a começar pela ausência ou insuficiência de câmeras e de seguranças nas dependências e no entorno do colégio.

É razoável entender que a instituição de ensino negligenciou neste particular, mormente por se tratar da realização de evento tão importante na ocasião, uma festa de formatura.

Falhas também da polícia civil, quero crer. A primeira, pelo que se sabe, foi não ter isolado a escola, em sua totalidade, ainda no ambiente de flagrância. O isolamento parcial pode ter comprometido as investigações.

Meses depois, no decorrer das investigações, a polícia sequer sabia se havia mais de um participante na cena do crime. Salvo engano, o quadro continua ou parece o mesmo.

O noticiado sumiço de chaves do estabelecimento dias antes do crime parece auxiliar a linha investigatória, até agora sem êxito. Isto pode significar premeditação, preparo e engendramento da forma criminosa de agir.

Muita coisa pode ter mudado com o intuito de amparar as investigações nesses cinco anos, mas o fato é que a polícia judiciária de Pernambuco não saiu do lugar.

O crime foi perpetrado dentro de uma instituição de ensino católica e tradicional. Entretanto, o inegável primado da formação de caráter que esta instituição sempre ostentou não impede que em suas dependências circulem delinquentes perigosos, como ficou provado nessa barbaridade.

Pelo que se vê, faltou aí a cautela, a vigilância, a proteção necessária a seus frequentadores, ônus que a instituição de ensino não desempenhou eficientemente.

Contudo, a elucidação do crime esbarra na estupidez burocrática. As autoridades de outras jurisdições policiais demoraram em somar forças e entrar nas investigações, supõe-se que por entrave legal, burocrático.

É uma questão de competência funcional, esta expressão bonita que a legislação usa para dificultar o funcionamento e agilidade do serviço público, sempre aquém das exigências da sociedade.

A Polícia Federal, tantas vezes lembrada para auxiliar nas investigações, em princípio esteve impedida de fazê-lo, simplesmente porque este é um caso de competência da polícia civil de Pernambuco.

Nesta quadra do tempo é utópico acreditar que a vida vale mais do que os entraves burocráticos.

Todavia, sonhar é possível e as leis ainda não nos proibiram de externar nossos sonhos.

A união dos governos em todos os níveis, independentemente de suas esferas de competências legais, talvez possa flexibilizar a burocracia e possibilitar maior robustez às investigações do caso Beatriz.

Quiçá através de uma lei, de uma portaria, de um convênio ou, principalmente, da clarividência de espírito das autoridades.

A burocracia e a impunidade não podem ser aliadas de criminosos.

Custa acreditar que monstros capazes de praticarem delitos tão bárbaros ainda não tenham sido excluídos do convívio social.

Contudo, devemos acreditar em nossas autoridades e em nossas instituições.

“É uma dor que não tem nome”, diz a mãe de Beatriz. Não tem. Não pode ter.

A polícia civil de Petrolina é eficiente, cautelosa e diligente, mas não pode chamar para si este monstruoso atestado de ineficiência.  

Petrolina carrega esta mancha, este desdouro.

araujo-costa@uol.com.br         

João Dória não conhece o caminho da humildade

João Dória (PSDB), o governador-pavão de São Paulo, em reunião com o ministro da Saúde e governadores, levou uma carraspana de Ronaldo Caiado, governador de Goiás.

Tudo porque João Dória se portou com arrogância na reunião e chamou para si a paternidade da vacina contra o coronavírus, fato que os demais governadores não aceitam e, por óbvio, não podem aceitar.

João Dória faz uso político das lágrimas e das dores dos que sofrem em razão do covid-19. É vergonhoso e ridículo o comportamento do governador de São Paulo. Beira à insanidade.

João Dória chegou até a anunciar, um dia antes da reunião, a data de início da vacinação em São Paulo, sem sequer a Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA) ter aprovado os procedimentos necessários quanto à eficácia e segurança da vacina, dentre outros protocolos.

O protagonismo para imunizar a população do Brasil é do Ministério da Saúde, através de campanha nacional de vacinação e não do governador-pavão de São Paulo, mesmo considerando o atraso do governo federal no planejamento e na definição do programa de vacinação.

O escritor Nelson Rodrigues dizia que “o pior da bofetada é o som”.

O som da bofetada verbal de Ronaldo Caiado em João Dória deve indicar ao governador paulista o caminho da humildade, que ele nunca viu, não sabe o que é.

Magnata, que nunca viu a pobreza à sua porta, João Dória se escora no sofrimento alheio para se projetar politicamente. A ânsia pelo poder lhe causa cegueira, fecha-lhe a capacidade de compreender a dor dos que sofrem.

Concordaram com a posição de Ronaldo Caiado (DEM-GO), os governadores Camilo Santana (PT-CE), Ronaldo Leite (PSDB-RS) e Renato Casagrande (PSB-ES).

Como a reunião era para tratar de vacina e não de palanque eleitoral, como queria o governador-pavão de São Paulo, João Dória saiu de lá com cara de galo, melhor, com cara de pavão.

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Liberdade vigiada na Bahia

Primavera de Praga, 1968. Alexander Dubcek, serralheiro-mecânico e secretário geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, assumiu o poder e tentou implantar a renovação do socialismo no país, que denominou de reformas.

Os tanques soviéticos e do Pacto de Varsóvia invadiram Praga. Moscou entendeu que se tratava de “ação do imperialismo internacional, com apoio de forças internas, para corroer a unidade do campo socialista e restaurar o capitalismo”, segundo o jornal Pravda, órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista da então União Soviética.

Movido pelos ventos e gritos de liberdade, um cego enfrentou com bengaladas um tanque de guerra numa ponte de Praga. O homem recusava-se a aceitar a invasão soviética e pedia a liberalização política, liberdade de imprensa, protestos nas ruas e autocrítica do Partido comunista.

O jornalista Mauro Santayana à época correspondente do Jornal do Brasil em Praga conta o impressionante episódio em brilhante contribuição para o livro Liberdade vigiada, do filósofo e pensador francês Roger Garaudy (1913-2012). A notícia do Pravda é também citada por Santayana.

Na Bahia de maioria petista, a imprensa publicou que o governador Rui Costa (PT) vai autorizar as autoridades de segurança pública a monitorar as redes sociais no estado, com o intuito de identificar e reprimir eventuais desobediências a normas editadas por Sua Excelência contra o coronavírus.

O problema não é o monitoramento em si, mas a intromissão indevida do Estado na vida privada dos cidadãos, que beira a inconstitucionalidade, o despropósito, até mesmo a censura.

Não é novidade que alguns próceres do Partido dos Trabalhadores (PT) se espelham em Cuba e noutros países com arroubos autoritários, a exemplo da Venezuela, que muitos petistas tanto admiram, a começar pela presidente nacional do partido, Lula da Silva, José Dirceu e outros tantos mais.

Mas o mundo evoluiu, inclusive Cuba, embora muitos petistas não tenham evoluído para além das fronteiras ideológicas, o que parece ser o caso do governador Rui Costa, que deu essa recaída.

Como se vê, o governador da Bahia quer vigiar a liberdade dos baianos, os passos dos baianos, o dia a dia dos baianos, a privacidade dos baianos.

Não se trata aqui de crítica às medidas necessárias que o governador está tomando contra a propagação do coronavírus, em benefício de todos. É seu dever fazê-las e fiscalizar o cumprimento delas. Sem exageros.

Entretanto, as medidas devem ser rígidas, não ilegais.

O que não é plausível é o monitoramento das redes sociais, que pode resvalar em direção a objetivos políticos escusos e não, propriamente, beneficiar a população.

O governador quer bisbilhotar a vida dos baianos, talvez em razão da saraivada de votos contrários que o PT recebeu nas eleições municipais, mormente nos grandes centros urbanos.

Neste particular, o governador Rui Costa iguala-se ao presidente Bolsonaro, que se serve das redes sociais para se proteger politicamente e, segundo o noticiário, nem sempre amparado pela lei.

À semelhança do cego de Praga, estamos impotentes e desamparados, lutando contra o gigantismo do Estado, que parece pretender esmagar nossa liberdade individual e nossa privacidade.

Na Bahia de Rui Costa – feudo do PT – é preciso ter cuidado com o guarda da esquina.  

araujo-costa@uol.com.br

A dúvida do PT e a máscara de Sérgio Moro

“Eu não existiria, sem as minhas repetições” (Nelson Rodrigues, escritor e jornalista, 1912-1980)

A espevitada presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffman, insiste em não admitir a derrota do partido nas eleições municipais de 2020.

O PT tem dúvida se o partido perdeu nas urnas. Não exatamente o PT, mas sua presidente.

Para usar uma palavra da moda, Gleisi Hoffman passou a ser negacionista, defeito que o PT e seus aliados tanto apontam no presidente Bolsonaro, inclusive a imprensa de esquerda.

O jornal O Estado de S.Paulo publicou que “tá difícil cair a ficha” dos dirigentes petistas no que tange à derrota nas urnas.

O jornal acrescenta que no PT “os realistas avaliam que o distanciamento entre o partido e eleitorado é tão grande que o resultado teria sido pior se Lula não tivesse insistido para que veteranos fossem candidatos em cidades importantes” (Coluna do Estadão, 02/12/2020)

A presidente (ou seria presidenta, como os petistas gostam de dizer?) em sua subida honra partidária está culpando a pandemia do coronavírus pela derrota do partido (que ela ainda não admite), não se sabe exatamente a razão, já que os demais partidos políticos enfrentaram a mesma realidade pandêmica e alguns até saíram vitoriosos.

Um exemplo: no grande ABC, berço político de Lula da Silva, o PT ganhou em Diadema, não exatamente porque o prefeito eleito é do PT, mas porque Filippi Júnior é conhecidíssimo da população, já foi prefeito do município outras vezes e tem relevantes serviços prestados a Diadema. Se outro tivesse sido o candidato do PT teria perdido.

Ex-juiz Sérgio Moro

Na condição de juiz federal chefe da Laja Jato, Sérgio Moro arruinou a Odebrecht, a OAS e outras construtoras nacionais. Isto não significa dizer que ele agiu de forma errada, mas não exclui a realidade no sentido de que carreou as empresas para o despenhadeiro, gerou desemprego, provocou demissões em massa e, mais do que isto, puniu seus dirigentes com sentença penal condenatória e os mandou ao xilindró.

Agora, uma gritante contradição: a empresa americana M & A Marcos Ganut, a maior do planeta na área de recuperação empresarial, contratou o ex-juiz Sérgio Moro para o cargo de diretor-executivo da instituição. Função de Sérgio Moro: ajudar a Odebrecht e outras empresas a se recuperarem financeiramente da ruína que ele mesmo as impôs como juiz da Lava Jato.

Isto é ético?

Pergunta que o ex-juiz Sergio Moro está moralmente obrigado a responder.

Pergunta que o PT e Lula da Silva têm a oportunidade indeclinável de questioná-lo.

Parece que caiu a máscara de Sérgio Moro e não é a máscara que ele usa para proteção do coronavírus.

Post scriptum:

Assim como o ex-ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, terror do mensalão petista e que costumava passar reprimendas em advogados, embora no exercício da profissão, Sérgio Moro na condição de juiz federal da Lava Jato também tinha a péssima e abominável arrogância de passar descompostura em advogados, inclusive foi muito deselegante com defensores de Lula da Silva.

Primeira decisão de Sérgio Moro, ao deixar o governo Bolsonaro: pedir inscrição nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB concedeu imediatamente. Sérgio Moro hoje é advogado.

Esses juízes pequenos – aliás, pequeníssimos – que no exercício da magistratura menosprezam advogados no estrito cumprimento dos seus deveres constitucionais e legais não deveriam procurar os quadros da OAB quando se aposentam ou deixam a judicatura.

Eles são pequenos demais para ser advogados.

São pequenos demais diante da grandeza da advocacia.

araujo-costa@uol.com.br

O mapa que as urnas desenharam

“Acima da Pátria, ainda há alguma coisa: a liberdade” (Ruy Barbosa, 1849-1923)

As urnas de 2020 começaram a impor limites à esquerda e ao bolsonarismo exacerbado e, por extensão, ao extremismo político-ideológico.

Esquerda e direita saíram das urnas fragorosamente derrotadas. A liberdade indevassável do eleitor falou mais alto.

As urnas acomodaram políticos mais alinhados ao centro, embora já conhecidos.

A retumbância mais notada foi a incapacidade do ex-presidente Lula da Silva de ajudar eleitoralmente seus aliados. Lula é experiente e esperto, mas eticamente atrapalhado, o que não é nenhuma novidade.

Em Recife, Lula apostou todas as fichas em Marília Arraes e abandonou o filho de Eduardo Campos. Eduardo Campos foi seu elogiado ministro de Ciência e Tecnologia.

João Campos (PSB) ganhou a eleição, apesar de Lula e graças a Lula. A lógica e a ética recomendam que Lula devia, no mínimo, ter ficado neutro na disputa, mas ele caminhou em sentido inverso e até prometeu ir à posse de Marília Arraes.

Lula amargou derrota pessoal no Recife e o PT amargou em todas as demais capitais e em alguns municípios de grande porte, o que já se esperava.

Todavia, nada acontecerá de extraordinário no Recife, apesar disto. Vitorioso e derrotada são da mesma tradicional família Arraes e agora, certamente, voltarão a frequentar o mesmo seio familiar, as mesmas cozinhas.

No mapa que as urnas desenharam em todo o Brasil ficou clara a rejeição aos candidatos da esquerda e aos candidatos apoiados pelo presidente da República.

Bolsonaro parece ter notado que atrapalhava mais do que ajudava e ficou um tanto quieto durante a campanha eleitoral, com algumas exceções pouco notadas.

As urnas trouxeram outras novidades.

Na Bahia, feudo do PT, o querido governador dos baianos Rui Costa perdeu nos grandes municípios, a exemplo de Salvador, Juazeiro, Feira de Santana e Vitória da Conquista, dentre outros.

Em São Paulo, o invasor de propriedades Guilherme Boulos (PSOL) deu uma rasteira nos petistas já no primeiro turno e abocanhou votação estrondosa, mas insuficiente para ganhar a Prefeitura, que continua com o PSDB.

O governador-pavão João Dória se encarregará de enterrar o partido. É só esperar.

Os petistas vêm olhando diferente para Boulos desde o primeiro turno. Boulos goza da admiração de Lula da Silva e muitos petistas têm ciúme. Lula também tem predileção por Manuela D`Avila (PCdoB) do Rio Grande do Sul, que saiu derrotada nas urnas, embora esquerdistas dessem a vitória como favas contadas. 

A ultra esquerdista jornalista e comentarista Natuza Nery, da Globo News, fez impressionante contorcionismo para tentar demonstrar que, apesar da vontade contrária das urnas, o PT e Guilherme Boulos saíram vitoriosos nessas eleições.

Não conseguiu. Trampolinagem intelectual desnecessária.

Faltou o célebre mestre da Escolinha do Professor Raimundo para ponderar: menos Natuza, menos, menos…

Entretanto, o que vale mesmo é o mapa que as urnas desenharam.

A liberdade está acima da Pátria e parece estar curando a cegueira popular, afastando a ridícula polarização esquerda-direita e substituindo-a pela sensatez.

É um bom sinal. Aguardemos 2022.

araujo-costa@uol.com.br