Conversa de boêmio e outras conversas

Luiz Carlos Paraná, paranaense de Ribeirão Claro, boêmio e compositor de Maria, Carnaval e Cinzas, que Roberto Carlos gravou, era dono do bar Jogral, no centro de São Paulo, primeiro na Galeria Metrópolis e depois na Rua Avanhandava.

O Jogral era ponto de encontro de jornalistas, escritores, músicos, cantores, compositores e intelectuais de toda ordem e de todos os lugares.

O escritor Mário Prata, que ainda não era famoso, havia escrito e mimeografado o livro O morto que morreu de rir.

Luiz Carlos Paraná comprou 50 exemplares do livro para presentear amigos e clientes do Jogral e propôs a Mário Prata o pagamento em 50 doses de uísque.

Mário Prata aceitou. Consumidas as 50 doses combinadas, não parou e continuou tomando uísque por muito tempo por conta dos livros.

Até hoje ele conta a história.

Talvez tenham sido os livros mais caros de Mário Prata.

Ainda não vivíamos em tempo de “politicamente correto” e nossas inocentes gafes não chegavam a ser interpretadas como ofensas à sociedade, diferente do que acontece hoje.

Em ambientes de descontração, a fumaça dos cigarros de alegres e noctívagos boêmios se misturava à voz de Núbia Lafayette cantando Devolvi, clássico de Adelino Moreira, Lama, de Mário Lago, A Flor e o espinho, de Nelson Cavaquinho e tantas outras, ao tempo em que boêmios despretensiosos comentavam casos de dor de cotovelo, paixões e pretensões amorosas.

Não existia fumódromo em bares, não havia lei restritiva do cigarro em quaisquer ambientes.

Mas, por educação – e educação sempre coube em qualquer lugar – era comum fumantes perguntarem ao vizinho de mesa se podia fumar ao redor ou se a fumaça estava incomodando.

Tudo isso era normal. 

Ato tão corriqueiro, ainda que em ambientes de boemia, fumar passou a ser um comportamento reprovável. É como se a sociedade inteira se preocupasse com a saúde do indivíduo que fuma e de seus circunstantes.

Hipocrisia. Ninguém está preocupado com a saúde de ninguém e tampouco fiscaliza o cumprimento da lei neste tempo de egoísmo avassalador.

A lei só é boa quando pune o quintal dos outros.

Não sou fumante. Não me sinto confortável com chaminés fumegando ao meu lado. Mas isto não me habilita a excluir o direito de quem fuma. Tudo deve se circunscrever a alguns e razoáveis limites.

Como se vê, o chamado “politicamente correto” está interpretado ao avesso. 

Fumar hoje chega a ser uma gafe. Deslize menor, isto não pode ser interpretado como comportamento reprovável, que não é.

Em certos casos, o ambiente se faz com a soma da educação que cada um carrega dentro de si, de modo que o bom senso é o melhor caminho para superar a arrogância.

O fumante deve saber onde é permitido fumar. Mas também deve saber que seu direito não pode ser invadido por qualquer um que se acha incomodado.

Não trafego na contramão das hipocrisias sociais.

Convivo com elas, estrategicamente, mas, no caminho, tento parar de vez em quando, para conversar com quem vem em sentido contrário.

Este diálogo tem sido difícil.

Quando não existia o “politicamente correto”, os boleros  Angústia e Perfume de gardênia na voz do cantor cubano Bienvenido Granda eram perfeitamente compatíveis com noites boêmias e fumaça de cigarros.

Outros tempos, outros valores, outra quadra da sociedade.  

araujo-costa@uol.com.br

A embromação de João Dória

O Diário do Poder saiu na frente e descobriu a embromação do governador-pavão, de São Paulo.

Diz o Diário do Poder:

“Depois de anunciada à exaustão por Dória que seria desenvolvida no Brasil, vacina será importada da China”.

“Até agora, a participação efetiva do Butantã foi materializada com a divulgação da embalagem da vacina com a denominação “Coronavac”.

Tem sentido.

Se a vacina está sendo desenvolvida em São Paulo, em parceria com o laboratório chinês, segundo Dória, por que o Instituto Butantã fez protocolo com o Ministério da Saúde para importar 46 milhões de vacinas da China?

A ANVISA já autorizou a importação de 6 milhões de doses, a pedido de São Paulo.

O Diário do Poder vai além e diz que o Palácio do Planalto está analisando se Dória quer simplesmente achar quem pague a vacina chinesa, por óbvio,  União Federal, estados e municípios e sair por aí fazendo estardalhaço e dizendo que o mérito é dele, com o olho nas eleições presidenciais de 2022.

Durante entrevista à TV Bandeirantes, José Luiz Datena perguntou ao governador-pavão se a China está imunizando sua população com a Coronavac, que ele tanto enaltece e sequer foi aprovada.

Dória escorregou na casca de banana que o experiente Datena jogou e respondeu que a Indonésia está imunizando a população, com grande sucesso.

Datena foi cruel: “Eu perguntei se a China está e não a Indonésia?”

Dória não conseguiu responder. Não sabia.

Ficou com cara de galo.

O governador-pavão precisa explicar isto direito ou começar a jogar limpo com os brasileiros, paulistas ou não.

É mau-caratismo fazer política com a dor e a lágrima dos brasileiros e bancar “Tiradentes com o pescoço dos outros”.

Nenhum governador de estado pode fazer isto.

O presidente da República não pode fazer isto.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó: a vitória jurídica do prefeito Humberto Gomes Ramos

A Justiça Eleitoral deferiu o registro da candidatura do prefeito Humberto Gomes Ramos (PP), que pretende a reeleição em coligação com o PCdoB, união partidária que já se fez comum no município.

Em portentosa sentença, o juiz Pantoja Sobrinho da 158ª Zona Eleitoral de Chorrochó não acolheu o parecer do Ministério Público Eleitoral que pugnava pelo indeferimento do registro da candidatura do prefeito, fato objeto de artigo neste blog em 16/10/2020 com o título Em Chorrochó, candidatura do prefeito Humberto sofre revés.

Dentre outras razões apontadas, o Ministério Público se sustentou em alegações juridicamente relevantes apresentadas pela coligação adversária que impugnou o registro da candidatura do prefeito.

Neste “frigir dos ovos”, a frigideira da oposição ao prefeito ainda não está suficientemente pronta para enfrentar o experiente Humberto que ainda terá um longo caminho em direção aos tribunais.

A crônica histórica da política de Chorrochó padece de um emaranhado de equívocos, dentre eles a ausência de robustez de ideias de quem faz ou se propõe a fazer oposição.

A chamada oposição de Chorrochó ainda não se encontrou. Quiçá o caminho para impedir a vitória do prefeito Humberto nas urnas de novembro vindouro não seja a contenda jurídica, por meio de impugnação de registro da candidatura, mas o trabalho diuturno e necessário junto aos eleitores, de modo a convencê-los a votar no candidato da oposição.     

No caso em questão, o fato é que a Justiça Eleitoral entendeu que, inobstante o Tribunal de Justiça da Bahia ter “condenado o candidato Humberto Gomes Ramos por atos dolosos de improbidade administrativa”, não o condenou “à sanção de suspensão dos direitos políticos”.

Mais: a sentença, muito cautelosa, ponderou que o prefeito “manteve os seus direitos políticos – ao menos até o momento – considerando que no acórdão do Tribunal de Justiça da Bahia que o condenou “foi afastada expressamente a sanção de suspensão dos direitos políticos, o que geraria inelegibilidade”.  

Em quadro assim, portanto, a figura da inelegibilidade não atinge o prefeito. É o entendimento da Justiça Eleitoral e isto é o bastante, por enquanto.

Agora, pelo que se vê, resta à oposição demonstrar capacidade de persuasão para ganhar a eleição nas urnas.

Como diz a sabedoria mineira, “água de morro abaixo, fogo de morro acima e povo querendo aderir, ninguém segura”.

Em Chorrochó – parece – o povo está aderindo ao prefeito mais uma vez. Difícil segurar.

araujo-costa@uol.com.br

As façanhas dos políticos e do Judiciário

“Um país se faz com homens e livros” (Monteiro Lobato, 1882-1948)

O Brasil tem livros, mas está precisando de homens. Homens dignos, sérios, corretos, impolutos, que ostentem vergonha na cara. Estão em falta.

Os noticiários diários, quando não parecem programas de humor, fazem corar de vergonha.

Em data recente, um senador da República enfiou maços de dinheiro no traseiro e virou piada nacional.

Noutro dia, o ministro do Supremo Tribunal Federal, que reclama desses nossos “tempos estranhos”, mandou soltar conhecido e perigosíssimo traficante, segundo ele, de acordo com a lei. Isto mesmo, de acordo com a lei.

O traficante escafedeu-se, o que fez muito bem. Estava com o Alvará de Soltura em punho expedido pelo Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte da Justiça do Brasil. Onde errou?

O Supremo Tribunal tentou engabelar a sociedade e convocou uma inútil sessão às pressas, para justificar o erro monumental. O ministro que soltou o traficante ficou com cara de paisagem.

O Supremo Tribunal Federal se reuniu para decidir o óbvio, o que todo mundo sabe, até o mais leigo dos leigos: o traficante não podia ter sido solto. Mas foi, “de acordo com a lei”, disse o ministro.

Não precisa ser magistrado para saber que um sujeito de alta periculosidade, que tem duas condenações em segunda instância, que somam mais de 20 anos de reclusão e prisão preventiva decretada, não podia simplesmente embarcar num jatinho e sair por aí, por ordem do Supremo Tribunal Federal.

Qualquer primeiranista de Direito sabe disto.

De outra feita, um ministro do Superior Tribunal de Justiça compareceu à sessão de julgamento, sem calças, com a toga sobre os ombros. Pergunto: onde estaria o decoro?

Em todo território nacional, juízes e desembargadores vendem sentenças por centenas de milhares de reais e robustecem suas intocáveis contas bancárias, de resto amparadas por sigilo bancário.

Os tribunais dizem que não sabem. O Conselho Nacional de Justiça também não sabe. Ninguém sabe, ninguém vê.

Como dizem lá, nas montanhas de Minas, “todo mundo diz que é honesto, mas roubaram o chapéu de “seo” Orozimbo”.

E por aí vai este Brasil de privilégios e falcatruas, para ficar nesses poucos exemplos.

Noutro cenário – e apesar da pandemia do coronavírus – políticos se engalfinham em busca de poder e de dinheiro, quase sempre ilícito. Ou sempre ilícito.

Que se danem doentes, pobres, desvalidos, desempregados e famintos de toda ordem.

Outros políticos se ocupam de furtar dinheiro público destinado a estados e municípios para as autoridades locais cuidarem dos doentes do coronavírus.

Esses políticos inescrupulosos “furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse”, como dizia o padre Antonio Vieira.

O mais recente espetáculo é sorumbático: o presidente da República puxa a corda e instiga uma discussão estéril com o governador de São Paulo, que se pavoneia ridiculamente a mais não poder.

O governador de São Paulo se esforça para aparecer, ter visibilidade diante dos brasileiros, com o olho nas eleições presidenciais de 2022.

Diante disto tudo, a sociedade está estupefata, mas inerte. Não protesta, não grita, não exige compostura dessas indecentes autoridades. Parece que já está acostumada.

O Brasil está passando por um vazio de ideias.

A frase do crítico Agripino Grieco cai com uma luva no governador-pavão de São Paulo:

“Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la”.

Noutras palavras, o governador é vazio, arrogante, insolente, presunçoso e medíocre.

araujo-costa@uol.com.br

A lista da Fundação Palmares

José Henrique de Souza, Oficial do Registro Civil de Patamuté, nos esturricados rincões do município baiano de Curaçá, cravou no Livro de Registro de Nascimentos do distrito e, por consequência, em minha certidão de nascimento: cor parda.

Letra escorreita, em caneta tinteiro (naquele tempo não existia esferográfica por lá), José Henrique perenizou a história do nascer de inúmeros filhos de Patamuté.

Anos mais tarde, já rapaz, sentava-me todas as noites na calçada da casa de José Henrique com ele e sua esposa Eliziária e lá ficávamos conversando até tarde sobre tudo, inclusive nascimentos e registros.

Essa canetada de José Henrique me habilitou a fazer parte da estatística que, em 2017, segundo o IBGE, atestava que a população do Brasil compunha-se de 55,4% de negros e pardos.

Zeca Babau, como José Henrique de Souza era carinhosamente conhecido em Patamuté, inseriu-me nesse saudável segmento étnico, que a estatística do IBGE contempla.

Só para recordar, em 2017, segundo o mesmo IBGE, 82,1% da população de Salvador (8 em cada 10 moradores) era formada de pretos ou pardos.

Logo, ser negro no Brasil faz parte de nossa história cultural, de nossa honra brasileira e de nossa cidadania.

Faço esses prolegômenos, tendo em vista o noticiário publicado na imprensa, segundo o qual o presidente da Fundação Cultural Palmares excluiu a ex-ministra Marina Silva da “lista de personalidades negras do Brasil”.

A grande imprensa quase derrubou o que resta das estruturas culturais do governo porque, segundo jornalistas desocupados, o ato do presidente da Fundação Palmares foi uma afronta a Marina Silva.

Convenhamos, uma babaquice.

Que diferença faz, para Marina Silva, para o seu caráter e sua história de luta em defesa do meio ambiente e de seus ideais, que ela deixe de fazer parte dessa lista, que a Fundação Palmares instituiu, sabe-se lá com que intuito?

Personalidades negras somos todos nós, pretos e pardos do Brasil, independentemente de ideologia, classe social e de uma Fundação Palmares prenhe de politicagem.

Personalidades são todos – pretos, pardos e brancos – construtores deste retinto e imenso Brasil.

Essa lista que a Fundação Palmares criou é pífia, desnecessária, inútil.

Ninguém – Marina Silva ou qualquer outra pessoa negra – perderá sua dignidade e honradez porque deixou de fazer parte dessa lista infame engendrada pela Fundação Cultural Palmares.

O barulho que a imprensa protagonizou a respeito desse assunto nada mais é do que coisa de quem não tem o que fazer. Ou dizer.

Post scriptum:

Os dados estatísticos foram colhidos da publicação Bahia Econômica, de Armando Avena, 19/11/2018.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, candidatura do prefeito Humberto sofre revés

O Ministério Público Eleitoral colocou em compasso de espera o registro da candidatura do prefeito Humberto Gomes Ramos à reeleição sustentada na coligação formada pelo Partido Progressista (PP) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

As razões são conhecidas.

Num primeiro momento, o Ministério Público entendeu que o pedido de registro da candidatura não foi instruído com os documentos considerados essenciais, nos termos da legislação eleitoral, nomeadamente as certidões criminais para fins eleitorais expedidas pela Justiça Federal de primeiro e segundo graus.

Noutro momento, o Ministério Público noticiou possíveis razões de inelegibilidade do prefeito, tendo em vista que o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia havia rejeitado as contas de Humberto Gomes Ramos relativamente aos exercícios de 2009 e 2011, quando exerceu o cargo de prefeito do município, fato também conhecido.

Como se sabe, a condenação por colegiado empurra o candidato para a condição de inelegibilidade, o que parece ser este o caso do prefeito de Chorrochó, salvo se a Justiça Eleitoral entender de modo diverso.

É o que diz a Lei Complementar 64/90, terror dos gestores que não se portam muito bem.

A rejeição das contas pelo TCM-BA foi mais além: o parecer considerou as “irregularidades graves e insanáveis”, circunstância que enseja improbidade administrativa, em razão de suposto dolo.

O Ministério Público Eleitoral oficiou a Câmara Municipal de Chorrochó no sentido de esclarecer sobre o que o Legislativo havia deliberado no que tange a essas contas de 2009 e 2011 do prefeito Humberto Gomes Ramos.

A Câmara Municipal, por equívoco ou estratégia, limitou-se a fornecer cópias dos pareceres do TCM-BA e silenciou quanto à deliberação da edilidade.

Naquele tempo o prefeito Humberto Gomes Ramos gozava de confortável maioria na Câmara.

Em consequência, a Câmara não forneceu elementos suficientes ao Ministério Público Eleitoral para formar o entendimento jurídico necessário sobre a situação do prefeito no tocante ao pedido de registro da candidatura.

Parece aí que há um componente político na dúbia resposta da Câmara. É de estranhar que a instituição não tenha sabido interpretar o pedido do Ministério Público, vez que possui corpo jurídico para cuidar dessas e de outras questões.

Por outro lado, a coligação adversária apresentou impugnação à candidatura do prefeito Humberto Gomes Ramos, reforçando a eventual condição de inelegibilidade do alcaide, o que já era esperado.

A rapadura é doce e todos querem.

Disforme no conteúdo e na ação foi o fato de a ex-prefeita Rita de Cássia Campos Souza, ex-aliada e inventada politicamente pelo prefeito Humberto Gomes Ramos – e hoje sua teórica adversária – concordar com a impugnação da candidatura de seu criador.       

Contudo, o Ministério Público Eleitoral laborou na esteira da razoabilidade e possibilitou ao prefeito Humberto “sanear os vícios apontados”. O prazo é de três dias, mas acaba sendo elástico, em razão da obediência às publicações no Diário da Justiça .

Neste particular, o promotor eleitoral evitou arranhar o direito de ampla defesa do prefeito, permitindo-lhe ajustar-se às exigências da legislação eleitoral. É uma oportunidade e tanto.

Não se sabe por que a assessoria do prefeito não fez a juntada dessas certidões ditas essenciais adequadamente, para a apreciação do pedido de registro da candidatura, fato comum a todos os candidatos.

Mais: o prefeito Humberto é experiente em situações eleitorais, de modo que fica mais difícil ainda entender esse vácuo na interpretação da legislação que acabou lhe prejudicando.

Pode ser que ele tenha cavado um atalho estratégico para adquirir fôlego político.

Entretanto, o prefeito Humberto há de comprovar, por óbvio, a inexistência de causa de inelegibilidade, tendo em vista esse quiproquó envolvendo as contas dos exercícios de 2009 e 2011.

De outro turno, parece razoável entender que o prefeito Humberto, equivocadamente, apresentou certidões que não preenchem os requisitos da legislação eleitoral e, neste caso, tem o dever de sanar o vício. Foi-lhe oferecida oportunidade.  

De qualquer forma, o prazo é sobremaneira exíguo, mas suficiente para o prefeito atender as exigências do Ministério Público Eleitoral e calçar juridicamente sua candidatura.

Em todo caso, como a situação é estritamente formal, mesmo que a Justiça Eleitoral indefira o pedido de registro, a candidatura do prefeito Humberto Gomes Ramos pode subsistir, sub judice, tento em vista a possibilidade de recursos.

araujo-costa@uol.com.br

As corruptas nádegas do senador

A Polícia Federal flagrou um senador de nossa combalida República, que até ontem era vice-líder do governo Bolsonaro no Senado Federal, com grande quantidade de dinheiro escondido nas nádegas.

A Polícia Federal suspeita que o dinheiro seja fruto de corrupção que, aliás, o presidente Bolsonaro disse em data recente que a dita cuja não existe no governo dele.

O senador inovou. Quer transformar o crime de lavagem de dinheiro previsto na lei penal em outro delito, talvez de menor potencial ofensivo.

Enquanto sofisticados ladrões do dinheiro público cometem crimes de lavagem de dinheiro, o senador de Roraima faz o contrário: suja o dinheiro.  

Não deixa de ser um fenômeno delitivo não previsto em lei, para estudo dos juristas e operadores do Direito em geral.

Sua Excelência disse que vai provar sua inocência, apesar do flagrante e apesar de suas nádegas multiuso.

Não duvido que ele seja inocente, mas daí a explicar porque usou as nádegas como cofre vai uma grande distância.

Então, é de pressupor que na casa do senador não existe nenhum móvel com gaveta para acondicionar a bufunfa, de modo que no traseiro deve ser mais seguro. Afinal, há tantos assaltantes por aí!

O senador não esperava que o policial fosse passar a mão na…dele. O policial não só passou a mão como achou o inédito cofre abarrotado de dinheiro.  

Em tempos idos, o assessor de um deputado federal petista do Ceará foi flagrado com grande quantidade de notas de dólar na cueca.

Até hoje não se sabe que destino teriam os dólares, mas o deputado petista é conhecido até hoje na Câmara dos Deputados e fora dela como “Dólar na Cueca”.

Maldade. Sua Excelência já noticiou que foi absolvido do episódio pelo Judiciário. E, portanto, é um sujeito decente, de reputação ilibada, etc e tal. Não duvido que seja.

Não se sabe qual a razão da absolvição.

Hoje o deputado petista continua na Câmara dos Deputados arrotando honestidade e criticando corruptos.

Este possivelmente será também o destino do senador bolsonarista de corruptas nádegas: a absolvição.

Interessante é que esses senhores acusados de rapinagem do dinheiro público são os que mais discursam condenando a corrupção.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: entrevista com o vereador Theodomiro Mendes

Foto: arquivo pessoal de Theodomiro Mendes.

O vereador Theodomiro Mendes Filho caminha para os 54 anos. Nesse contar do relógio biológico, pelo menos três décadas são dedicadas à atividade política.  

Quando não está ocupado com a agenda e atividades legislativas, Theodomiro se recolhe à fazenda, nas fraldas da Serra do Ouricuri e por lá fica embevecido em suas origens.

A iniciação partidária deste elegante vereador de Curaçá deu-se lá por volta de 1990 e se lastreou na condição de herdeiro político do pai Theodomiro Mendes da Silva, que deixou considerável legado de sabedoria política e de serviços prestados ao município em duas administrações (1973-1977/1983-1988).

Em 1992, Theodomiro disputou o primeiro cargo político compondo chapa majoritária. Elegeu-se vice-prefeito coadjuvado por vistosa influência de uma teia política familiar, que incluía Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote), grande e respeitável liderança de Curaçá durante décadas.

Tote era uma espécie de esteio da política de Curaçá e assumiu cargos diversos na estrutura do município, inclusive foi prefeito em três ocasiões, além de longa história dedicada ao Legislativo Municipal desde 1957. 

Em 2016, o vereador Theodomiro foi reeleito com 566 votos, votação considerada expressiva no contexto eleitoral do município, tendo em vista o número de candidatos que disputaram vaga no Legislativo Municipal.

Forte candidato ao beneplácito das urnas de novembro, ainda assim Theodomiro Mendes demonstra humildade ao conjecturar expectativa de vitória. Mas confia no lastro eleitoral que lhe mantém na Câmara Municipal há aproximados vinte anos.

Vereador atuante em plenário e fora dele, Theodomiro Mendes sustenta-se na experiência de cinco mandatos consecutivos de vereador (2000-2020), de modo que é um sinal robusto de que atendeu às aspirações de parte da população ou, no mínimo, soube interpretar o sentimento dos curaçaenses.  

A entrevista aconteceu nas condições hodiernamente permitidas, através dos instrumentos de comunicação disponíveis, de modo que não foi difícil para o entrevistado responder fielmente e à vontade os questionamentos do blog.

Principais pontos da entrevista:

Perguntado quais suas ações mais importantes à frente da Câmara Municipal, o vereador pareceu não ter dúvida de que é o “enfrentamento da seca” e citou, com destaque, “perfuração e instalação de poços e construção de médias e grandes barragens”.

Questionado quais as necessidades mais prementes que o distrito de Patamuté enfrenta e que dependem de ações da Prefeitura, Theodomiro Mendes respondeu, concisamente: “acesso e infraestrutura de calçamento” e reivindicou representação mais forte do distrito na Câmara Municipal, tendo em vista a “importância do distrito no cenário político”.

Theodomiro  citou o “estado decadente” de alguns prédios de Patamuté, de responsabilidade do município, dentre eles o Mercado Municipal e demonstrou interesse em reivindicar mais atenção da Prefeitura relativamente ao distrito.

O blog quis saber, numa perspectiva geral, como a atual administração está se comportando relativamente aos distritos, povoados e comunidades rurais.

Teodomiro entende que, “diante da grande extensão territorial do nosso município e das dificuldades financeiras, a atual gestão tem se esforçado para suprir os anseios da população, centralizando esforços especialmente nas áreas de saúde e educação”.  

Instado a citar mais algumas de suas iniciativas à frente da Câmara Municipal, Theodomiro delineou a “indicação do consultório odontológico e noticiou que “os recursos já foram alocados através de emenda parlamentar”, além de indicação de uma ambulância, de ensino a distância (EAD) e de uma praça.

O vereador citou lei de sua autoria que trata da isenção de taxa de certidão negativa de débito e queixou-se das limitações do cargo quanto ao dever de fiscalizar e de legislar, inobstante as prerrogativas asseguradas.

Filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de centro, o vereador Theodomiro Mendes entende que o prefeito Pedro Oliveira (PSC) disputa a reeleição “respaldado em uma gestão equilibrada administrativamente e financeiramente, com avanços significativos na área de saúde e educação que lhe diferencia como um bom gestor”.

O blog perguntou, quais os pontos principais que ele defenderá, caso reeleito?

Theodomiro Mendes respondeu que dará ênfase ao “acesso à água de qualidade da área de sequeiro, incentivo à produção na área ribeirinha e o fortalecimento do associativismo, como ferramenta primordial para o desenvolvimento das comunidades”.

O vereador Theodomiro Mendes ponderou que Curaçá precisa tornar-se mais forte quanto à representatividade na Assembleia Legislativa e reforça essa ideia com a afirmação de que o município tem “colégio eleitoral relativamente grande”.

Este blog solicitou a entrevista há uma semana. O vereador, embora prestativo e muito loquaz, se demorou a sinalizar interesse, talvez assoberbado com os compromissos da campanha eleitoral da reeleição.

Solícito, entretanto, Theodomiro se dignou a responder todas as perguntas formuladas pelo blog. Em nenhum momento demonstrou qualquer desconforto em razão das perguntas.

O blog agradece a deferência, prestatividade e atenção do vereador Theodomiro Mendes Filho.

araujo-cota@uol.ocm.br

Curaçá, campanha eleitoral e a democratização da mentira

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, cientista político, renomado no mundo inteiro, professor das universidades de Paris, Stanford e Cambridge, foi escolhido candidato do novel PSDB a presidente da República.

O agitado sociólogo foi aposentado compulsoriamente em 1969 das funções que exercia na Universidade de São Paulo (USP) pela rígida ditadura militar e se exilou para evitar transtornos com a chamada “Revolução de 1964”.

Fernando Henrique nunca tinha andado no interior do Nordeste. Entendia tudo de teoria das cátedras e bancos universitários e nada da realidade nordestina.  

O correligionário e à época senador Guilherme Palmeira, de Alagoas, começou uma tarefa difícil: aproximar Fernando Henrique dos rincões nordestinos e dos costumes de sua gente.    

– Você precisa comer buchada de bode, faz parte do ritual da campanha – disse Guilherme Palmeira.

Fernando Henrique foi claro, do alto de seu elitismo paulista e europeu:

– Você tá ficando maluco. Não como uma coisa dessas nem morto.

Comeu. Um dia, à noite, em campanha no distrito de Pau Ferro, município de Petrolina, sertão do São Francisco, Fernando Henrique comeu buchada de bode. Mais do que isto, elogiou a iguaria:

– Estava ótima.

A mentira é democrática. Todo político mente. É melhor voto na urna do que a verdade de cada candidato.

O que mais se vê em campanha eleitoral é mentira. Ela democratiza o debate, as estratégias eleitorais, a igualdade entre os candidatos.

Todos são iguais perante a lei e a mentira. Democracia é isto, hipocrisia inclusive.

O eleitor adora o “me engana que eu gosto”. Faz parte de nossa cultura, desde os tempos dos currais eleitorais coronelistas advindos do Império.

No município baiano de Curaçá, sertão sanfranciscano, por exemplo, o que mais se vê nas redes sociais é superposição de imagens, com o intuito de parecer multidões em carreatas e demais eventos eleitorais.

Nas convenções partidárias deu-se o mesmo. Na convenção do prefeito e candidato à reeleição, no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, a multidão que a assessoria do prefeito dizia que estava lá não cabia na arena Fonte Nova.    

Assessores e admiradores dos três candidatos a prefeito do município postam imagens para mostrar que o candidato de um determinado grupo arregimenta mais pessoas do que os outros candidatos, mesmo em tempo de pandemia, que ninguém obedece mais às determinações da Prefeitura, quiçá nem mesmo os seguidores do prefeito.

Tudo lorota. Informações de pessoas razoavelmente isentas, que acompanham de perto a campanha eleitoral de Curaçá, atestam a presença de eleitores de outros municípios, que engrossam eventos e carreatas, com a conivência – e até a convite – das assessorias dos candidatos, para demonstrarem força política relativamente aos outros concorrentes.

Inocência. Ingenuidade. Isto não dá votos.

Em 10 de outubro corrente, no distrito de Patamuté, houve um evento político patrocinado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), salvo engano.

Este blog ficou permanentemente em contato com pessoas de lá. Para os organizadores foi um sucesso. Deixa pra lá.  

Todavia, tudo isto não é pecado de Curaçá. Acontece nos demais municípios da Bahia e do Brasil.

Os candidatos enganam-se a si mesmos.

Vamos esperar a voz das urnas.

araujo-costa@uol.com.br

O “novo normal”, o ministro e a lua

Agora, em tempo de pandemia, a turma do politicamente correto inventou mais um termo para jogar no dicionário das imbecilidades: “novo normal”.

Algum “gênio” desocupado inventou a expressão e parte da sociedade já encampou. Tudo agora e depois da pandemia – se ela acabar – será chamado de “novo normal”.

Não sei exatamente do que se trata, mas até os jornalistas da grande imprensa já estão falando nesse “novo normal”. A expressão não tem nexo e pendura-se no imaginário das idiotices.

É possível que esses jornalistas não saibam do que se trata, mas está na moda usar o termo “novo normal”. É chic, ainda mais agora que se esgotaram todas as novidades sobre coronavírus. Tudo é repetido.

Mas os entendidos no assunto estão dizendo que o “novo normal” é um padrão de comportamento a ser adotado pela sociedade, em razão do coronavírus, ou seja, a busca de outra normalidade que não a que estávamos acostumados a viver.

Daí, presume-se, a normalidade que vivíamos era anormal.  

Apareceu um turbilhão de médicos “especialistas” em covid-19, concedendo entrevistas, ao vivo, nesses programas de televisão vazios de conteúdo, acusando o governo federal e endeusando governadores e prefeitos.

Alguns desses prefeitos e governadores que esses médicos “especialistas” elogiavam todos os dias foram flagrados surrupiando verbas públicas que o governo federal mandou para eles cuidarem dos pacientes de covid-19.

E os epidemiologistas, infectologistas e outros istas mais baixaram o tom da conversa.

Há uma pesquisadora da Fiocruz, especialista em dizer “fique em casa”. Quase todos os dias concedia entrevista à Globo News e repetia exaustivamente “fique em casa”.

Supunha-se que essa pesquisasdora ficava em casa. Ela pegou covid-19. Não se sabe como, já que “entende” tudo de pandemia de coronavírus e dava extensas lições na televisão.

Assim, o “novo normal” é mais um palavreado sem pé e nem cabeça. Se existe o novo normal, por analogia, também deve haver o velho normal, que nunca se ouviu falar.

O decano que já vai tarde

Ser decano do Supremo Tribunal Federal não quer dizer ser sábio. É o caso do ministro Celso de Mello, que vai se aposentar pela expulsória (está completando 75 anos de idade).

Tempo de serviço nunca foi sinônimo de sabedoria. Mas ele é visto por alguns colegas da Corte e pela grande imprensa como o suprassumo do Direito.

Só para lembrar, Celso de Mello é aquele famoso ministro que delineia suas decisões de acordo com a tendência da grande imprensa. Aliás, ele vai carregar essa fama, que adquiriu nos primeiros anos de sua investidura do cargo de ministro do STF, indicado pelo presidente José Sarney.

Está no livro Código da Vida, do jurista Saulo Ramos, que foi Consultor Geral da República, no tempo que a República tinha vergonha.

Os votos de Celso de Mello são extensos, enfadonhos, prolixos, enferrujados. Ele ainda usa expressões processuais do Império.

Antes de se aposentar, o ministro Celso de Mello ainda vai proferir algumas decisões no badalado inquérito Sérgio Moro/Bolsonaro sobre suposta interferência do presidente da República na Polícia Federal.

Como já se sabe o que a grande imprensa quer, não é difícil antever qual será a decisão do ministro Celso de Mello.

Nesta noites, pelo menos a lua tem aparecido nos céus do Brasil, para a gente esquecer essas babaquices.

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