O pouso do avião e o coronavírus

O avião, um Boeing, em preparação de pouso, sobrevoava o rio de águas barrentas.

Cidade média de casas baixas, céu bonito, paisagem encantadora, ruas arborizadas.

Viam-se os casarões antigos da cidade entre o verde e copas de árvores frondosas bem próximas.

Até aquele momento, absorto na leitura de “Vidas Secas”, do mestre Graciliano Ramos, o passageiro estranhou os procedimentos adotados pelo piloto e, segundo ele, notou que a barriga da aeronave parecia roçar nas árvores.

Entrou em pânico. Remexeu-se na poltrona, agitou-se, ameaçou levantar, demonstrou falta de ar, inquietação.

Uma mulher sentada ao seu lado, tranquila e segura, tentou acalmá-lo e explicou que tudo estava normal no voo. Tudo normal, como de outras vezes e era comum naquele costumeiro trajeto de muitas idas e vindas.

O homem não se conformou:

– Estamos caindo, minha senhora. Não vê que a aeronave está muito baixa?

Demonstrando tranquilidade a mulher disse o óbvio:

– Meu senhor, para aterrissar, o avião precisa perder altura.

Tenho mania de querer entender as coisas.

Início de uma noite qualquer, após o expediente, bar cheio, burburinho, vozes abafadas, encontrei um amigo entendido em generalidades. Contei-lhe a história. Ele deu uma aula magistral para embasar o que dizia e concluiu: em situações de medo, qualquer pessoa pode perder a capacidade de raciocínio.

Era o caso daquele passageiro, incapaz, naquele momento, de entender o pouso do avião.

No calor da conversa, surgiu outra dúvida e, num daqueles ímpetos de idiotice que sempre insistem em me cutucar, questionei-o: é perda de raciocínio ou instinto de sobrevivência?

Já com alguns uísques a mais, ele foi  incisivo, quase cruel:

– Num avião caindo faz diferença?

Não faz. Há casos em que é melhor continuar com a dúvida.

Com a disseminação do coronavírus, estamos em situação semelhante ao passageiro: em pânico.

O mundo parece estar enfrentando o maior desafio deste século, até aqui: encontrar meios de evitar que as populações sejam dizimadas.

O Brasil está com medo. Tempos difíceis.

araujo-costa@uol.com.br

Pequenez política e interesses contrariados

As Organizações Globo, conglomerado de empresas de comunicação e conteúdo adotou, como regra, a crítica diária e tendenciosa ao governo Bolsonaro, especificamente ao presidente da República.

Há um ditado popular conhecido: “o uso do cachimbo deixa a boca torta”.

A TV Globo e o jornal O Globo, ambos sediados no Rio de Janeiro, principais carros-chefes das organizações, costumavam contribuir para tentar derrubar governos que contrariavam seus interesses comerciais, à exceção dos governos dos generais-presidentes da ditadura (1964-1985): Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Oliveira Figueiredo.

A Globo também agarrou-se aos ditames da Junta Governativa Provisória (agosto a outubro de 1969), que substituiu o presidente Costa e Silva em sua enfermidade, enquanto definia-se o novo presidente.

A Junta era constituída pelos ministros militares Aurélio de Lyra Tavares (Exército), Márcio de Souza e Melo (Aeronáutica) e Augusto Hamann Rademaker Grunewald (Marinha).

Sem nenhum constrangimento, a Globo apoiou a ditadura e hoje coloca-se num cenário hipócrita dizendo-se defensora da democracia.

Em todos eles, a Globo esteve diuturnamente na cozinha palaciana, definindo estratégias de notícias e até, de forma costumeira, publicando somente o que os militares queriam.

As Organizações Globo são resultados dos governos ditos revolucionários, que permitiram o crescimento das organizações e a sustentação do conglomerado à custa de publicidades oficiais e, por extensão, de dinheiro público.

O renomado jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, nunca negou que tivesse apoiado a ditadura.  Basta consultar a história.

Neste contexto, a Globo e seus penduricalhos apoiaram os governos militares durante 20 anos, por mais que hoje neguem os editores de seus noticiários. Não há o que negar. É fato histórico, sobejamente conhecido, incontrastável.

Agora, no governo Bolsonaro, que contrariou os interesses da poderosa família de Roberto Marinho, é massacrante o que o conglomerado vem fazendo para desgastar o governo. Chega a ser impatriótico.

Dane-se o Brasil, danem-se os brasileiros, desde que os interesses da Globo não sejam contrariados.

Agora, a TV Globo vem insistindo que o presidente da República colocou em risco a saúde de centenas de pessoas porque, em 15 de março, o presidente teve contato com manifestantes que se aglomeraram à frente do palácio governamental, em Brasília, após suspeita de ter contraído coronavírus.

Os comentaristas da Globo News, braço politizado da Globo, esmeram-se em disputar qual deles é mais ridículo ao tecer comentários tendenciosos. Dá a impressão de que eles consideram os assinantes do canal um monte de imbecis ou, no mínimo, desprovidos de inteligência e sem condições de discernimento.

É ingênuo pensar que o presidente, que tem um departamento médico da presidência da República à sua disposição, com abalizados profissionais da medicina, não tenha sido orientado sobre sua aparição pública e os riscos que ela poderia causar.

De outro turno, é monumental a frustração de parte da esquerda lulopetista, que ajuda a distorcer os fatos nestes tempos difíceis por que passa a sociedade brasileira.

Não obstante os erros primários do setor de comunicação do governo federal e o modo estabanado do presidente Bolsonaro, o fato é que o lastro eleitoral que construiu a vitória do presidente sofreu somente pequenos abalos, de sorte que as pesquisas internas em mãos do governo dão conta de que o presidente continua forte politicamente.

Em 16/03/2020, na ânsia de atacar o governo federal e seus apoiadores e já se lançando pré-candidato à presidência da República em 2022, o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, demonstrou-se perdido ao tentar sustentar argumentos insustentáveis.

Ciro Gomes tem discurso, retórica e poder de convencimento inegáveis. Entretanto, demonstrou cristalina ingenuidade ao deixar claro que seu objetivo é tão-somente atacar o governo para auferir dividendos eleitorais. Um desastre.

Ciro Gomes apequenou-se ao acusar o atual governo e usar seu conhecimento acadêmico, sem nenhuma grandeza política. Arranhou sua biografia desnecessariamente que, diga-se de passagem, não é ruim.

A pequenez de alguns de nossos políticos e de parte da chamada grande impressa é assustadora.

Deus tenha piedade de todos nós brasileiros.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e Virgílio Ribeiro: tempo de contar

Em Chorrochó, comemora-se neste 16 de março o aniversário de Virgílio Ribeiro de Andrade.

A passagem do tempo nem sempre permite que registremos, com clareza, o que a memória vai guardando, retendo, resumindo, conspirando.

Mas por vezes, a passagem do tempo permite lembranças esparsas de algum momento do caminhar, ainda que tropeçando nos buracos da memória e no indizível das recordações.

Talvez o segredo para enfrentar o inóspito do caminho seja flexibilizá-lo com a indulgência necessária à convivência. Embora difícil, esta parece ser uma opção possível.

A comarca de Chorrochó ainda se firmava com o juiz Dr. Olinto Lopes Galvão Filho e seus diligentes e prestativos serventuários, quando conheci Virgílio Ribeiro de Andrade, à época já lotado no Tribunal de Justiça da Bahia, para servir em Chorrochó.

Nascido no vizinho e simpático município de Uauá, filho de Jerônimo Rodrigues de Andrade e Aderlinda Ribeiro de Andrade, Virgílio se mudou para Chorrochó ainda jovem, equilibrando-se entre o nascer de sua vida profissional e a aurora de seu destino.

Oficial do Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Protesto de Títulos, Virgílio esgueirava-se, sozinho, para desempenhar a espinhosa função, porque não havia auxiliar na ainda incipiente comarca instalada em outubro de 1967.

No Chorrochó da época não havia forum para centralizar os serviços judiciários, nem os modernismos de hoje, tampouco estrutura para a prestação dos serviços jurisdicionais.

Mais tarde, Virgílio assumiu, cumulativamente, com inegável eficiência, o Cartório Eleitoral, que era, à época, um dos mais visíveis retratos dos interesses políticos regionais.

Todavia, deixo de lado o pendor profissional de Virgílio Ribeiro de Andrade, que é um de seus méritos inegáveis e, despretensiosamente, quero registrar que seu dinamismo o credenciou a liderar, por algum tempo, com idealismo e dedicação, a vida social de Chorrochó.

Virgílio foi um dos fundadores e presidente da Associação Recreativa Amigos dos Menezes (ARAM), que passou a ser conhecida como Clube de Virgílio. Promoveu memoráveis festas, inclusive de formaturas e reuniões da sociedade local e passou a ser referência em Chorrochó.

A família parece ser o esteio sem o qual o homem tende a tornar-se pequeno diante do mundo.

Virgílio seguiu o roteiro da razoabilidade da vida, casou-se com a professora Maria do Socorro Menezes Ribeiro e constituiu um lar de decência e seriedade. Teve um filho, Rogério Luiz Menezes Ribeiro e, hoje, deleita-se com os netos, tesouros que a vida lhe deu para amenizar os dissabores da vida.

Sábio, prestativo, generoso e essencialmente cortês, Virgílio sempre transitou, com impressionante desenvoltura, em todas as camadas sociais do município.

A política sempre presente na vida de Chorrochó, não lhe contaminou com a pequenez das discussões facciosas, de modo que tem vivido até aqui incólume às tempestades partidárias locais.

Chorrochó tem suas sombras, suas calçadas, seus falares próprios. E tem, também, as marcas históricas do viver de cada um.

Neste contexto, Virgílio Ribeiro de Andrade se destacou como profissional exemplar e bom anfitrião da cidade, qualidades um tanto difíceis em qualquer tempo.

Ele soube diversificar sua forma de agir, de pensar e de conviver, de modo que continua sendo uma monumental referência de cidadão de bem.

Tentei resistir, mas meu ego não me deixa silenciar. Virgílio é meu compadre. Ele e sua elegante esposa Socorro batizaram minha primeira filha.

Uma honra que carrego há anos.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó: uma amarga notícia para o prefeito

Aos poucos o cenário da situação jurídica do prefeito de Chorrochó vai-se definindo.

Estreitam-se as chances de, no futuro, Humberto Gomes Ramos (PP) fugir das amarras da chamada Lei da Ficha Limpa, tendo em vista seguidas decisões judiciais que envolvem o experiente e esperto prefeito chorrochoense, não obstante as fases recursais que as leis substantivas e processuais lhe asseguram.

Em 05/03/2020, a 2ª Turma da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia, por unanimidade, não conheceu agravo interposto pelo prefeito e, parece que aí, houve um cochilo do alcaide: ele perdeu o prazo e, em quadro assim, a lei processual é rigorosa.

Mais: o agravo foi interposto contra decisão de colegiado (2ª Turma) o que, no caso em questão, afigura-se inadequado e, portanto, inadmissível juridicamente.

Entretanto, é compreensível a irresignação do prefeito de Chorrochó. Ele usou a técnica de defesa conhecida nas faculdades de direito como jus sperniandi, o direito de espernear.

A decisão que fulminou o prefeito aduz que o agravo foi interposto em 18/12/2019 e o prazo processual havia expirado em 11/12/2019, segundo entendimento do colegiado.

A interposição do recurso revelou-se intempestiva e, portanto, o Tribunal não podia acolher a medida.

Há uma máxima nos tribunais e nas lides forenses segundo a qual “a Justiça não protege os que dormem”. Taí, o prefeito Humberto talvez não tenha dormido, mas cochilou.

A relatoria do caso estava a cargo da desembargadora Nágila Maria Sales Brito, que foi seguida pelos demais da turma. Deu-se a unanimidade, o que é muita coisa.

A decisão unânime restringe o caminho recursal do prefeito, embora não lhe retire o direito de ampla defesa, que é constitucionalmente assegurado. Mas dificulta a caminhada processual.

Trata-se de processo formalizado lá pelos idos de 2009, salvo engano, em que o prefeito foi enquadrado nas disposições previstas na Lei de Licitações.

Houve uma decisão da comarca de Chorrochó. O caso foi parar no Tribunal de Justiça, como de praxe, que anulou a sentença de primeiro grau e entre idas e vindas foi interposto o agravo agora não conhecido que, noutras palavras, significa derrota do prefeito Humberto.

O prefeito Humberto Gomes Ramos parece que não gosta muito de licitação. É possível que tenha dificuldade de cingir-se a tais mandamentos legais, mas são os ossos do ofício que o gestor público precisa enfrentá-los.

Em data recente, a Câmara Municipal impetrou mandado de segurança contra ato do prefeito, questionando iminente “contratação direta para concessão do serviço de saneamento básico com a Empresa Baiana de Águas e Saneamento S/A”, sem que tenha encaminhado quaisquer procedimentos legais à Câmara com vistas à contratação.

Em 09/03/2020, o Poder Judiciário concedeu medida liminar favorável à Câmara Municipal e determinou a “suspensão imediata da consulta pública para a realização do contrato” entre o município de Chorrochó e a EMBASA.

O prefeito de Chorrochó ainda está envolvido noutro quiproquó, além dos demais já conhecidos. Em 01/10/2019, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra o município de Chorrochó, porque a Prefeitura contratou um escritório de advocacia de forma direta, sem licitação, prevendo o pagamento de honorários de aproximadamente R$ 2,3 milhões.

O Ministério Público aduz que há, só na Bahia, 43 advogados e 11 escritórios de advocacia que ajuizaram causas semelhantes, de modo que não se sustenta a alegação do município de Chorrochó no sentido de que a dispensa de licitação se deu em razão de eventual notória especialização do escritório contratado.

O princípio licitatório é simples ou parece simples: se há concorrência, a licitação é obrigatória.

Mais: o contrato prevê que os honorários advocatícios serão suportados com recursos do FUNDEF, o que é proibido por lei. Tais recursos somente podem ser utilizados na área da educação. Fora disso, opera-se a ilegalidade.

Por aí se vê, que o prefeito de Chorrochó é avesso a processos licitatórios ou, pelo menos, interpreta a lei equivocadamente.

No que tange ao estreitamento do caminho eleitoral do prefeito Humberto Gomes Ramos, ressalte-se que, havendo decisão irrecorrível de órgão colegiado, ele não poderá mais ser candidato a cargos públicos pelo período que a lei prevê.

Há entendimento mais rigoroso no sentido de que, mesmo havendo possibilidade de recurso, a decisão do colegiado por si só basta para interromper o caminho do pretendente a cargo eletivo.

Entretanto, as decisões judiciais são demoradas e, nesse diapasão, parece que o prefeito Humberto Gomes Ramos continua na expectativa de candidatar-se à reeleição em outubro vindouro. É politicamente forte.

Na pior hipótese, disputará sub judice.

Há muito serviço para os advogados do prefeito.

araujo-costa@uol.com.br

Os “civilizados” debates de nossos parlamentares.

Conhecido o aparte entre dois gigantes da oratória parlamentar: Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional (UDN), jornalista, escritor, deputado, ex-governador do extinto estado da Guanabara (1960-1965) e a deputada Ivete Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), neta de Viriato Vargas, irmão de Getúlio Vargas.

Lacerda e Ivete eram adversários políticos, por razões óbvias: Lacerda foi acusado como principal responsável pela crise política que culminou no suicídio do presidente Vargas em 24/08/1954.

Em acalorado debate na Câmara dos Deputados, Ivete Vargas provocou Lacerda chamando-o de “purgante”.

Carlos Lacerda retrucou em cima da bucha: “e a senhora é o efeito do purgante”.

Ambos se ofenderam, digamos, elegantemente. Não usaram palavrões na tribuna da Câmara.

Nos dias atuais, os debates entre os deputados são constrangedores, principalmente no recinto das comissões, tamanho o despreparo de muitos parlamentares, sem nenhum traquejo social.

Embora despreparados, muitos desses deputados têm grande lastro eleitoral em seus redutos e robustas contas bancárias, que os mantêm no parlamento por diversos mandatos.

Certa vez um deputado dirigiu-se a uma colega chamando-a de “uma vaca”.

Não consigo entender o que o dócil animal que vive no pasto e nos currais tem a ver com discussões de deputados que, de resto, são uns desocupados.

Os xingamentos vão de “ladrão” a “mordedor de fronha”.

O ex-governador cearense Ciro Gomes, paulista de Pindamonhangaba, também ex-parlamentar, costuma utilizar vocabulário proibido para menores de 18 anos.

Há algum tempo, chamou de “baitola” o ex-senador e ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, ícone da oposição à ditadura militar.

Quércia deu de ombros. Ciro não podia ser levado a sério. Não pode ser levado a sério. Nunca pode ser levado a sério.

Baitola, para quem não sabe, é sinônimo de gay em algumas regiões do Nordeste, inclusive no Ceará, estado de Ciro Gomes. No Sudeste raramente o termo é usado.

Quem for esperto nunca vai ser amigo de Ciro Gomes. Quando a amizade acaba, ele coloca todos os defeitos no mundo no ex-amigo e acrescenta adjetivos impublicáveis. Pior: ofende, vilipendia, estraçalha a moral do sujeito.

Assim foi com Lula da Silva de quem foi ministro, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alkmin e outros tantos.

Há algum tempo, chamar uma pessoa de gay era ofensa. Hoje, com o politicamente correto implantado pela esquerda, qualificá-la assim é elogio. Aliás, isto não tem nenhuma importância.

Ninguém tem nada a ver com a orientação sexual de ninguém. Mas nos debates parlamentares isto conta muito, resultado do preconceito e da ignorância.

Não importa se a pessoa é ou não homossexual. Questão de somenos. Mas culturalmente, o Brasil ainda cultiva este resquício de conservadorismo.

Quanto aos debates parlamentares, nossa sociedade ainda precisa evoluir muito no sentido de escolher seus representantes.

Com esses parlamentares que se preocupam mais com as nádegas dos colegas do que com a função legislativa e as necessidades do povo, ficam difíceis a defesa e a representação da sociedade no parlamento.

araujo-costa@uol.com.br

Protestos e corruptos deslumbrados

Em 1968 o paraibano Geraldo Vandré balançou as estruturas do regime militar ao cantar “Caminhando – Pra não dizer que não falei das flores”, que acabou se transformando em hino da esquerda e do movimento de resistência estudantil à ditadura.

O poderoso coronel Otavio Costa entendeu que a música era um “toque de reunir para a subversão e um acinte às Forças Armadas”. Ele era chefe da Assessoria Especial de Relações Públicas do governo do marechal-presidente linha dura Arthur da Costa e Silva.

A ditadura militar corria solta, implacável.

Em 13 de dezembro de 1968 veio o Ato Institucional número 5 (AI-5), que endureceu o regime, prendeu, matou, torturou, suprimiu liberdades, censurou a imprensa, arrebentou direitos, esgarçou o tecido político e social, além de outros absurdos.

O resto da história é sobejamente conhecido. Geraldo Vandré andou desaparecido, viveu no Chile e em Paris e, na volta, se disse arrependido e “recuperado para a democracia”.

Vai daí que Geraldo Vandré sempre foi de direita e a esquerda ingênua se comportou conforme a aparência equivocada dos ventos que a levava às ruas.

Geraldo Vandré passou a frequentar as rodas militares e embrenhou-se no Clube Aeronáutico do Rio de Janeiro, de modo que, pelo que ele disse depois, “Pra não dizer que não falei das flores” nada tinha a ver com protesto político, foi uma casualidade absorvida pela esquerda.

Pois bem. Além das patacoadas neste tempo de governo Bolsonaro, a polêmica agora é a convocação de protestos para o próximo dia 15 de março cujo objetivo não se sabe bem qual é, embora admiradores do governo espalhem por aí que são contra membros do Congresso Nacional e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Em resumo, dizem eles: os protestos são a favor da democracia.

O inusitado é que tais e inoportunos protestos não estão sendo convocados pela esquerda atrapalhada e barulhenta, mas pela direita bolsonarista.

Entusiastas dizem que os protestos são contra os privilégios elitistas de políticos e magistrados que, de fato, existem, e também contra a usurpação de prerrogativas do Poder Executivo pelo Congresso Nacional.

Vamos ver no que vai dar.

Convocar protestos para expor congressistas e magistrados não parece sensato nessa quadra do tempo em que o governo demonstra estar perdido naquilo que se propôs colocar em prática.

É mais lenha nessa fogueira insensata.

O governo precisa encontrar um símbolo para se firmar seriamente nessa sua fase conturbada. Não há um “Pra não dizer que não falei das flores” às avessas.

O fato é que não fica bem convocação às ruas feita pela direita que está no poder, seja ela moderada ou extrema.

Parece falta do que fazer. O movimento convocado para as ruas é inoportuno. Não tem muito sentido.

O brasileiro está precisando de emprego, dinheiro para pagar suas contas, meios de sobreviver e cuidar de sua família.

O resto é delírio de despreparados.

Corruptos há em todos os estamentos: o Poder Judiciário está infestado deles, o Ministério Público, as Casas Legislativas em todas as esferas, o Poder Executivo, essencialmente corrupto.

Há outras formas de combater privilégios e debelar a corrupção: leis mais duras, vigilância permanente e cerco aos corruptos deslumbrados de direita ou de esquerda.

araujo-costa@uol.com.br

As perdas são sempre feias

Quando o vi pela primeira vez achei que aquele senhor tinha cara, jeito e habilidade de orador. Não errei.

Prudente, circunspecto, contrito, palavras bem colocadas em qualquer contexto e vocabulário impecável, escorreito, admirável.

Conheci-o, casualmente, numa casa comercial. Estava analisando preços, entre gôndolas, comparando-os com outros minuciosamente anotados num papel amassado entre dedos esguios.

Cumprimentou-me de maneira cortês. Foi gentil, educado, atencioso. Ali mesmo puxou uma conversa longa, segura, moderada, solidamente amparada em argumentos. Um papo agradável, didático, educativo.

O tempo passou. Somaram-se anos. Surgiram décadas.

As reflexões tornaram-se-me frequentes, a humildade passou a espreitar minha altivez e insolência de jovem.

Encontrei-o duas décadas depois nas exéquias de um conhecido.

Em cidades grandes as coincidências e os acasos também acontecem.

Enterros de políticos e intelectuais costumam ter discursos. Naquele teve. Antes de o ataúde descer à sepultura, levantou o braço, dedo espetado no ar:

– Um momento. Vou pronunciar algumas poucas palavras.

Era amigo do falecido. Falou durante alguns minutos, discorreu sobre a vida do finado, apontou virtudes, relembrou caminhos percorridos, vitórias, soerguimentos, láureas, qualidades de pai, amigo, chefe de família e por aí foi, decidido, até chegar à peroração muito bonita, não obstante a feiura do momento.

As perdas são sempre feias.

Discurso em enterro é inusual, mas como disse, existe em alguns. E por não ser usual, deixa um quê de perenidade.

Os discursos em enterros deixam marcas, renitentes lembranças, uma sensação de desamparo para quem fica e ouve.

Aquele momento me fez lembrar uma quadra distante de minha vida, porque lembranças de ocasiões tristes costumam voltar para cutucar nossos sentimentos e nos fazem engolir soluços e lágrimas.

Em 21 de março de 1982 pronunciei algumas palavras à beira de um túmulo no cemitério central de Petrolina, em Pernambuco.

Era o enterro de Claudemira Maria Teles do Nascimento, pessoa muito presente e querida em minha vida. Está em meu livro Fragmentos do Cotidiano (São Paulo, 1987).

Nascida em Riacho Seco, nos rincões de meu querido município de Curaçá, Claudemira morava em Petrolina e faleceu jovem, ainda no despertar para a aurora da vida.

Esse é um momento difícil, dilacerante. Parece que a fraqueza e miséria humanas desabam sobre a pequenez de nosso ser, deixando-o reduzido ao nada.

O vazio da despedida é inominável, inexplicavelmente cruel, terrivelmente solitário.

Sempre achei muito difícil falar em ocasiões tristes. A emoção supera o raciocínio, tolhe o razoável, bloqueia a serenidade. Deixa o orador desamparado diante do infortúnio, coloca-o em desvantagem perante sua própria miséria.

Hoje, já na envelhescência, evito fazer discursos.

Naquele dia, em Petrolina, eu dizia que eterno não é somente o infinito, o que refoge à nossa inteligência e imaginação. Eterno é também o amor, enquanto essencialidade do viver que construímos.

Contudo, é preciso saber a medida certa do humano. E a medida exata do humano é a finitude, o fim de nossas arrogâncias, o descambar de todas as expectativas, o dizimar da esperança.

Há momentos que fico com o filósofo Nietzsche:

“Então, era isto a vida?”

Pois bem: repita-se!”

araujo-costa@uol.com.br

Nas eleições é preciso vigiar os mortos

A imprensa noticiou que o Tribunal Superior Eleitoral detectou pelo menos sete mortos que “assinaram” a lista de fundação do Aliança pelo Brasil, partido que está sendo viabilizado pelo presidente Bolsonaro, após sua desfiliação do enrolado e corrupto Partido Social Liberal (PSL).

Como diz a sabedoria popular, das duas uma: ou essas pessoas morreram após o colhimento de suas assinaturas ou, embora mortas, continuam vivíssimas da silva e “aptas” a votarem em quaisquer eventos eleitorais. Nesta hipótese, abundam espertos e mentecaptos na organização do partido, o que é um mau sinal de falta de seriedade partidária.

Noutras palavras, o Aliança pelo Brasil está começando à semelhança dos partidos políticos já existentes, verdadeiras excrescências, um amontoado de interesses eticamente duvidosos.

Entretanto, não há nenhuma novidade nisto. No Brasil, os cemitérios sempre foram eficientes lastros de seções eleitorais desde a República Velha (1889-1930) até os dias de hoje.

A propósito, um fragmento de matéria publicada em 2015 pelo jornal A Tarde, de Salvador:  

“A fraude eleitoral existe desde a República Velha que encerrou a monarquia em 15 de novembro de 1889. A mais tradicional era a “bico de pena” efetivada com a adulteração das atas elaboradas pelas mesas eleitorais, responsáveis pela apuração dos votos. Nesse cenário os mortos e ausentes já “votavam”.

O processo era todo controlado no interior pelos “coronéis” que através do “voto de cabresto” indicava quem o eleitor deveria votar. Havia ainda a fraude que consistia em dividir entre candidatos em conluio os votos em branco e nulo, evidentemente com mesários cúmplices” (A Tarde, 16/11/2015).

Em Simões Filho, município da região metropolitana de Salvador, nas eleições de 2016 descobriram-se 30 mortos na rubrica “aptos a votar” no cadastro do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia. Ou seja, embora já falecidos, os eleitores continuavam ativos no sistema do tribunal, um maná para políticos inescrupulosos que, como formiga, existem em todo lugar.

Mais: o Tribunal havia feito uma correição na zona eleitoral de Simões Filho, ocasião em que poderia ter detectado os mortos e atualizado seu cadastro, até porque a legislação determina que o eleitor que não vota em três eleições consecutivas e não justifica terá seu título cancelado.

Ademais, os cartórios encaminham os registros de óbitos aos tribunais eleitorais que, presume-se, atualizam ou deveriam atualizar seus cadastros.

Em consequência, “votam” os mortos e ausentes. Então, se mortos e ausentes continuam teoricamente “aptos a votarem” é razoável entender que o sistema dos tribunais eleitorais é falho ou são relapsos os servidores que devem monitorar essas mutações inevitáveis.

Como se vê, o sistema dos tribunais eleitorais não tem robustez técnica para detectar os nomes das pessoas mortas, tampouco os ausentes.

Ou seja, nosso sistema eleitoral que as altas instâncias da Justiça Eleitoral dizem que é seguro, não é.  Nunca foi. Está longe de ser.

Como se diz nas academias de direito, em latim, mutatis mutandis. Se o sistema que acolhe os votos é falho, as urnas eletrônicas também, por consequência, estão arranhadas, padecem de vícios.

O TSE não admite que nosso sistema eleitoral é falho. Mas há inegáveis evidências no sentido de tentar tapar o sol com a peneira.

O fato é que a fraude eleitoral macula o exercício da democracia. Desequilibra a disputa, distorce a vontade do eleitor.

Portanto, nas eleições, candidatos e sociedade como um todo devem ficar atentos.

Então, vigiar os mortos. Eles podem votar.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: algumas palavras sobre Maurízio Bim

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D. Helder Câmara, 1919-1999)

Tratando-se de amizades, a confiança é atraída pelo diálogo, embora nem sempre o conteúdo dessas amizades tenha o condão de nascer de convivência diuturna e frequente.

A confiança quase sempre surge casualmente, como se, depois de uma peregrinação, encontrasse lugar seguro para pousar.

Neste “mundo coberto de penas”, como dizia o mestre alagoano Graciliano Ramos, as amizades se desgastam facilmente e se perdem nos labirintos das incompreensões, que são muitas, amiúde.

Contudo, algumas surgem subitamente, surpreendentemente e ficam, perduram. Ainda bem que surgem, ficam e perduram.

Em Curaçá, amparo de minha aldeia Patamuté, o tempo me presenteou com amizades que perduram até hoje, algumas construídas na juventude, outras no decorrer do tempo e outras poucas já em minha ostensiva fase de chatice, quando passei a me levar muito a sério, o que não é bom, nunca foi bom, nunca será bom.

A pureza da juventude esvaiu-se-me e me tornei um sujeito esquisito, tosco, arredio, às vezes incompreensível.

Passei a confiar menos nas pessoas, quiçá em razão dos tropeços, da poeira engolida nas estradas, das decepções enfrentadas ao longo da caminhada e de minha incompatibilidade para conviver com hipocrisias.

Não tenho conseguido ajoelhar-me diante da arrogância, mas sei entender os antagonismos, discernir as aparências. E nas encruzilhadas das incertezas, tentei seguir o caminho menos espinhoso, a direção possível.

Viver exige lhaneza, simplicidade, afabilidade, o que me falta a todo tempo. Mas resisto em ceder às tentações para não me tornar grosseiro, indesejável, ferino, estúpido.

Às vezes é preciso que derrubemos os anteparos para que a luz que está do outro lado desponte e traga clareza ao nosso caminhar e à necessidade de sermos humildes.

A esperança sempre nos permite alcançar o outro lado da luz.

Dentre os amigos mais jovens que conquistei em Curaçá está Maurízio Bim.

Nossos contatos se estreitaram depois que ele lançou o livro História da Imprensa de Curaçá, resultado de cuidadosa pesquisa sobre a história do município, mormente relativamente à tenra imprensa local, que continua tenra, mas impressionantemente importante.

É muito difícil cultivar a seriedade nesta quadra do tempo. Todavia, Maurízio consegue, não obstante o monturo de influências externas que nos abalroam diariamente.

Maurízio encaminhou-se para a pedagogia, o jornalismo e para o ofício de escritor, áreas que domina com competência e desenvoltura. Difíceis áreas, convenhamos.

Maurízio é filho da professora Dionária Ana Bim e recebeu da mãe – e certamente também do pai – o gosto pelas coisas sérias, a arte de dirigir o espírito para a investigação da verdade e, sobretudo, o caráter irrepreensível.

A origem de Maurízio merece um ajoelhar-se diante da vida e do tempo: o homem também tem raízes em Barro Vermelho, simpático torrão de Curaçá.

Como Barro Vermelho é importante para este escrevinhador!

Dionária foi professora deste insignificante escrevinhador no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá. Tenho-a em alta consideração. Foi professora é modo de dizer. Continua sendo. Será sempre. Os grandes mestres não saem de nossas vidas.

Não se esquecem as boas lições, não se esquecem os bons ensinamentos.

O livro História da Imprensa de Curaçá é uma promissora iniciativa que Curaçá passou a dispor para o enriquecimento e sedimentação de sua história. Leitura agradável, enriquecedora, formidável.

Maurízio Bim fez mais uma façanha, dentre outras: lançou o livro, Barro Vermelho – memória e espaço, obra também cuidadosamente lastreada em pesquisas sobre o elegante distrito curaçaense, sua gente, suas raízes e sua cultura. Um indestrutível e perene monumento ao lugar.

O lançamento do livro aconteceu no Memorial Filemon Gonçalves Martins, marco da cultura musical e da história de Barro Vermelho. Tive vontade, mas não pude estar presente. Faz tempo.

Todavia, além do registro da amizade, o que conta aqui é o registro de sua generosidade.

Quando Maurízio me apresentou a História da Imprensa de Curaçá fez constar na dedicatória: “É preciso que lembremos, mas também é mister que os outros saibam para que a todos seja comum”.

Pensamento de grandeza, de desprendimento, de compartilhamento do saber.

Maurízio Bim faz parte dos intelectuais que não gostam de pedestais. Aí está sua grandeza, o orgulho da humildade.

Uma vez chamei-o de ilustre. Ele me repreendeu. Não se acha ilustre.

Entretanto, quando Curaçá tiver, se algum dia tiver, um instituto ou  mesmo uma acanhada academia de letras, certamente Maurízio Bim será um de seus ilustres e intraduzíveis esteios.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, uma boa notícia

“Eu, como intelectual, tenho o dever de falar, nem que não tenha ninguém para ouvir”  (sociólogo Esmeraldo Lopes)

Nesses últimos dias em Curaçá, sertão da Bahia, não se fala noutra coisa, à exceção da  ararinha azul, que voltará a ser ilustre habitante da caatinga, possivelmente no próximo ano.

Assunto importante e caro aos curaçaenses, aos baianos e aos brasileiros, embora alguns já tenham introduzido uma polêmica que pode contribuir para ofuscar o brilho da chegada das ararinhas em território curaçaense: a informação de que o Catar, país da península árabe, estaria disposto a investir em Curaçá na esteira da famosa caatingueira ararinha azul e isto não seria bem vindo para alguns.

O abalizado sociólogo curaçaense Esmeraldo Lopes opinou sobre os noticiados e possíveis investimentos do Catar em Curaçá. Fez uma preleção, que está enriquecendo o debate acerca da ararinha azul e os danos que eventualmente seriam causados ao município com tais interesseiros investimentos.

Confesso que não estão claras essas objeções para este insignificante escrevinhador.

O insigne sociólogo é mestre em quaisquer assuntos de Curaçá, de sorte que sua opinião merece acolhida para ponderações.

Por outro lado, afigura-se emocionante a matéria escrita por Yara de Melo Barros, que desempenhou papel importante na preservação da ararinha de Curaçá, espécie ameaçada de extinção.

O título da matéria (“O sertão resiste no corpo da ararinha de Curaçá”)  por si só merece uma reflexão. Uma lição de grandeza, dedicação, profissionalismo e humildade.

A matéria é enriquecedora. Ei-la, para quem ainda não teve conhecimento:

https://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/o-sertao-resiste-no-corpo-fragil-da-ararinha-de-curaca/

No mais, entendo que a ararinha azul trouxe um quê de nobreza para nossa combalida Curaçá, que está precisando de boas notícias.

araujo-costa@uol.com.br