O PT chega aos 40 anos.

“Nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo” (San Tiago Dantas, 1911-1964).

O Partido dos Trabalhadores (PT) chega aos 40 anos.

É inegável que o PT foi fundado com nobreza de propósitos, porque assim pensavam seus fundadores. Entretanto, muitos deles abandonaram o barco quando perceberam que o partido estava à deriva e rumando em sentido contrário às convicções que defendiam.

Insta acentuar que isto ficou evidente tão logo o PT assumiu o poder da República, nos primeiros anos de Lula e sinais do mensalão e com o surgimento de outras práticas antes condenadas pela agremiação.

Em 10/02/1980, o PT nasceu errado. Com grande apoteose, foi fundado nas dependências do tradicionalíssimo e centenário Colégio Nossa Senhora de Sion, frequentado pela elite quatrocentona paulistana.

Naquele dia, ali tinha de tudo: intelectuais exaltados, esquerdistas frustrados, sonhadores, líderes bem-intencionados, ex-presos políticos e opositores ferrenhos da ditadura militar, ingênuos de toda ordem, et cetera. Menos trabalhadores.

O simbolismo não podia ter sido maior. Lula diz até hoje, com todas as letras e até com uma ponta de orgulho, que nunca os banqueiros e a elite empresarial ganharam tanto dinheiro como nos dois mandatos dele.

Com o tempo, o PT foi arrebanhando ativistas da esquerda católica, profissionais liberais e marxistas de alto costado, de forma que atingiu robustez suficiente para sustentar-se por longas décadas, como principal voz da esquerda.

O fôlego do PT ainda não acabou. Está longe disto. Ele tem estrutura e estofo para liderar o pensamento da esquerda no Brasil e carregar com ele outros partidos satélites, por muitos anos.

O PT também lidera grande massa de seguidores que sequer entende o que é ideário partidário. São os fanáticos lulistas e outros milhares que foram beneficiados com benesses, cargos públicos, mordomias e posições de destaque nos governos petistas.

São os deslumbrados que, à época dos governos petistas, gastavam com regabofes, jatinhos, viagens nababescas, hotéis, bebidas caríssimas e outras inacreditáveis coisas mais.

Em seu aniversário de 40 anos, o PT vive às voltas com o maior de seus dilemas: readquirir a confiança de milhões de trabalhadores e grande parte da juventude que migraram para outras bandas, em razão do desmoronamento moral do partido.

Lula da Silva criou a polarização “nós” e “eles”, uma imbecilidade, sem dizer exatamente onde estão, distanciou-se arrogantemente de partidos como PSDB e DEM e hoje, contraditoriamente, quer reaproximar-se desses segmentos que ele mesmo espezinhou.

O fato é que, com o passar do tempo, o PT foi-se desviando de seu ideário e descambou para a vala comum dos demais partidos comumente inchados de inescrupulosos, aproveitadores, mentirosos e meliantes ávidos por cargos públicos. Muitos deles conseguiram seu intento sob a égide petista.

Outro dilema do PT é a incapacidade de desatrelar-se do morubixaba Lula da Silva. O partido não consegue construir ou vislumbrar outra liderança nacional capaz de substituí-lo e possa assumir a candidatura presidencial em 2022.

O PT é Lula. Sem Lula o PT é uma estátua corroída pelo tempo e pelas más ações do partido.

Vaidoso, Lula da Silva dificulta o caminhar do PT por suas próprias pernas. Ele determina com que e com quem o partido deve seguir para retomar o poder que jogou para o alto, em razão de ter priorizado as práticas abomináveis de nossa história política.

Agora fora da prisão, mas não livre, a estratégia de Lula da Silva é lançar o maior número possível de candidatos nas eleições municipais de outubro vindouro para lastrear a eleição presidencial de 2022.

O exemplo de 2016 gritou fundo nas entranhas do partido. O desempenho do PT nas eleições municipais daquele ano foi um descalabro em todo o Brasil. Em São Bernardo do Campo, berço do partido, o PT sequer conseguiu reeleger vereador um dos filhos do ex-presidente que tinha mandato na Câmara Municipal.

Inegável é que, com o passar do tempo, o PT foi-se desviando de seu caminho e descambou para a vala comum dos demais partidos abarrotados de inescrupulosos, aproveitadores, mentirosos, meliantes.

Daí para passar às páginas policiais foi um passo, situação que ofuscou o protagonismo do partido e levou alguns de seus dirigentes ao cárcere.

Deu no que deu: Lula da Silva, sua maior liderança, foi-se caindo no despenhadeiro das incertezas jurídicas e, seguramente, decepcionou parte dos brasileiros que nele acreditavam.

Lula nega seus desvios éticos, mas parece não ser o caso de continuar tapando o sol com a peneira.

Como dizia San Tiago Dantas, “nada está mais próximo da ingenuidade do que a malícia levada ao extremo”.

Lula levou a malícia ao extremo. Seguirá líder, mas um líder capenga, desacreditado, inclusive por um grande número de pessoas que antes o admiravam.

Mesmo laborando na hipótese de que Lula da Silva possa ser absolvido, em fase recursal, em todos os processos, não há mais como ele e o PT recuperarem a credibilidade do patamar anterior aos governos petistas. Serão sempre vistos como raposas no galinheiro.

A presidente nacional do PT, destemperada e engajada na tentativa de desmoralizar as instituições nacionais, mormente Poder Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público, vomita impropérios a cada vez que abre a boca. É um mau exemplo.

Até petistas convictos vêm discordando do discurso piegas da direção do partido. Entendem que o discurso de perseguição alardeado pelos dirigentes não cola mais. E a direção do partido não sabe mudar de estratégia, ou por falta de inteligência ou por cara de pau mesmo.

O PT sabe que errou. Entretanto, não pode exteriorizar sua derrocada, para não desencorajar a militância desinformada e admiradores. Faz um discurso inverso, sem base fática, difícil de convencer, às vezes delirante.

Em consequência, a cada dia fica mais escancarado que o PT não prima pela verdade, mas por tudo aquilo que lhe interessa, principalmente dinheiro e poder.

O partido foi ávido por cargos em todos os níveis e posições da República, mas se descuidou de seu maior patrimônio: a ética.

O inventário de 40 anos do PT apresenta um amontoado de resultados abomináveis, entulhos de radicalismo e, sobretudo, falta de compromisso com a ética, que tanto defendeu.

Todavia, o PT não está isolado neste imbróglio de desfaçatez e lama. Estão aí os outros partidos políticos que lhe fazem companhia, igualmente desmoronados sob o ponto de vista ético. São aliados espertos, comparsas, malandros, velhacos.

A explicação para tudo isto é simples: o PT abandonou o caminho que idealizou e abraçou o fisiologismo, a avidez por posições e cargos, a ânsia pelo poder, o radicalismo, o apoio a ditaduras cruéis.

O PT faz 40 anos. Aniversário triste, macambúzio, insignificante.

araujo-costa@uol.com.br

TCM-BA: a situação de Mário Negromonte

O gabinete do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, não sabe a diferença entre Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia (TCM-BA) e Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA).

O ministro Fux afastou Mário Negromonte das funções de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia há pelo menos oitenta dias, tendo em vista acusação de corrupção no tempo em que era ministro das Cidades de Dona Dilma Rousseff.

O processo tramitou no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em razão do foro privilegiado de Negromente, mas está em andamento no Supremo Tribunal Federal pendente de julgamento.

Ocorre que Mario Negromente, não obstante a decisão do Supremo Tribunal Federal continua regularmente em suas funções e, em consequência, recebendo dos baianos a quantia de R$ 46 mil por mês, aproximadamente.

Noutras palavras: Negromonte está “afastado”, mas não está afastado.

A situação é simples de explicar: o gabinete do ministro Luiz Fux mandou a ordem judicial de afastamento para o Tribunal de Contas do Estado da Bahia e não para o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia.

Consequência lógica: o destinatário foi grafado errado e o TCM-BA ainda não foi oficialmente comunicado da decisão, embora seja de conhecimento público, nem o gabinete do ministro Luiz Fux se dignou a corrigir o erro, o que pelo menos não tinha feito até 04/02/2020.

Enquanto isso, Mário Negromonte continua impoluto no exercício de sua nobre função de conselheiro e recebendo seus vencimentos, o que não está errado, nem ele é ingênuo a ponto de recusar o recebimento de tão opulenta bufunfa.

Até as moscas do TCM-BA sabem que ele está afastado, mas formalmente o Tribunal não sabe. Nem Negromonte. Tudo certo, tudo muito direito.

Como o Supremo Tribunal Federal não corrigiu o erro, não cabe a Mário Negromonte ir buscar o ofício de seu afastamento em Brasília e entregá-lo à presidência do TCM-BA.

O leitor sabe quem é o advogado de Mário Negromonte, neste caso? Trata-se de Roberto Podval, um dos maiores criminalistas surgidos na era PT, competente defensor de gente graúda, a exemplo do ex-ministro de Lula, José Dirceu. Está no seu papel de causídico.

Imaginemos se fosse uma ordem do Supremo Tribunal Federal contra um pobre sem voz, sem advogado famoso e sem amparo legal.

O funcionário do STF talvez tivesse corrigido o erro no mesmo dia que a imprensa noticiou – e faz tempo – e talvez tivesse levado pessoalmente a ordem judicial ao TCM-BA, em Salvador, para que fosse cumprida imediatamente.

Dura lex sed lex. A lei é dura, mas é a lei, principalmente para os pobres e desvalidos.

Em tempo:

Em 05/02/2020, a Câmara dos Deputados derrubou uma ordem do Supremo Tribunal Federal afastando o deputado Wilson Santiago (PTB-PB) de suas funções de deputado federal.

A ordem judicial de afastamento do mandato, de natureza cautelar, foi proferida pelo ministro decano Celso de Mello, que já está na hora de pegar o boné e escafeder-se.

Os votos do ministro Celso de Mello são prolixos, palavrosos, enfadonhos e, neste caso, agrediu a lógica constitucional.

A razão da decisão da Câmara dos Deputados também é simples: dizem os doutos que não existe na Constituição Federal a figura jurídica de “afastamento de mandato parlamentar”, mas cassação de mandato parlamentar, após crivo do Conselho de Ética da casa legislativa correspondente, o que é completamente diferente.

Aqui não se discute se o deputado petebista paraibano é ou não corrupto. A questão é outra: invasão de competência de outro poder da República. O mérito de sua conduta será discutido na Justiça, no momento próprio.

Mas alguns deslumbrados ministros do STF – quase todos – optaram por invadir a competência do Congresso Nacional e eles próprios se permitem a fazer normas, que é função precípua e estrita do Parlamento. E ainda alardeiam que zelam pela Constituição da República.

Dá nesses vexames. O STF cai em descrédito.

Dir-se-á que é corporativismo da Câmara dos Deputados. Também. Mas a Câmara precisa resgatar suas prerrogativas e impor seu papel perante esses vaidosos ministros do STF.

araujo-costa@uol.com.br

O charme de Patamuté

O charme de Patamuté está em suas dificuldades, inclusive de acesso.

É difícil chegar lá. As estradas são esburacadas, ruins, difíceis.

Mas o alcaide-mor de hoje se espelhou nos prefeitos do passado e diz que está tudo bem em Patamuté. Então tá.

Quando chegamos a Patamuté a emoção é intraduzível. Chega a ser romântico rever as casas antigas, as pedras disformes do mármore surrupiado do lugar, a humildade das pessoas, a poeira das ruas, o riacho Paredão, a igreja de Santo Antonio, o atoleiro dos carros em épocas de chuva, etc.

Todos os moradores se conhecem, todos sabem notícias dos outros, todos perguntam “cadê fulano de tal”, todos jogam conversa fora nas calçadas, mandam recados, beijos, abraços.

Aos sábados, dias de feira, os sertanejos saem de seus sítios, fazendas e rústicas construções e vão se encontrar na rua de Patamuté, para conversar, falar dos criatórios, da chuva que pareceu chegar, mas não chegou, tomar cachaça nos balcões dos poucos bares que lá existem, fazer a feira para a semana.

Confraternizam-se, abraçam-se e dão o adeus até o sábado seguinte.

Quanto ao asfalto, que faz parte dos sonhos de Patamuté, eita coisinha difícil de acontecer! Não é um sonho grande, mas parece impossível.

E por que não acontece? Porque os homens públicos de Curaçá são politicamente fracos, subservientes, pequenos demais. Falta-lhes altruísmo, falta-lhes vontade de lutar pelo lugar e falta-lhes capacidade de saber exigir.

Falta-lhes grandeza política e sobra afago ao governador, seja ele de que partido for, deputados, senadores, et cetera.

Os políticos se apequenam e contentam-se em tirar fotos ao lado de autoridades estaduais e federais.

Pergunta-se: e o governador do Estado? A resposta é simples. A Bahia nunca teve governador, teve simulacros de governador, figuras opacas, mesquinhas, preguiçosas, narcisistas, arrogantes, politiqueiras, despreparadas como estadistas.

O peso dos votos de Patamuté e dos eleitores da caatinga de lá é insuficiente para pressionar quem tem o poder de levar o asfalto para o lugar.

Recentemente a Igreja Católica Apostólica Romana elevou a gruta de Patamuté à condição de Santuário. Parou por aí. Não se sabe de nenhum movimento das autoridades para fomentar o turismo e movimentar a economia do lugar, pelo menos em ocasiões de romarias. Mas cadê a estrada?

Terraplenagem, tapa-buraco e paliativos em ocasiões sazonais não resolve. É o que é feito anualmente.

Mas digo que o charme de Patamuté está em suas dificuldades, porque por lá o povo precisa viver e outra maneira não há, ainda, senão viver em meio às dificuldades.

Hoje há modernismos para se chegar a Patamuté. Esse bicho chamado GPS ainda não tem muita serventia.

Chega-se lá perguntando aos sertanejos, ao longo do caminho, mais ou menos assim: qual é a estrada que vai pra Patamuté?

Um dia Patamuté chega ao seu destino.

Basta substituir os homens públicos.

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Curaçá: a propósito de um aniversário

Fico sabendo pelas chamadas redes sociais, que hoje é o aniversário de Theodomiro Mendes Filho, excelentíssimo vereador de Curaçá e ilustríssimo descendente de respeitável estirpe do lugar.

Sou bicho do mato, cria das caatingas de Patamuté, infância e parte da juventude vivida nos cafundós do Riacho da Várzea, entre cactos, pedras disformes e muitas intempéries.

Confesso que tenho dificuldade de me adaptar às redes sociais. Estou tentando.

Sou cauteloso, tendo em vista o perigo que elas carregam e, sobretudo, o clima de animosidade que muitos ostentam e servem-se delas para atacar, ofender, caluniar, apedrejar. O anonimato que elas escondem às vezes me assusta.

Mas as redes sociais também servem para aproximar pessoas, encontrar amigos, espalhar a amizade, difundir nossos pensamentos e até, em certos casos, ajudar outros em momentos de dificuldade. Este é o ponto positivo delas.

O cronista às vezes se perde e se acha ao mesmo tempo e vai, por aí, aos trancos e barrancos, tropeçando nos assuntos do dia e no imponderável da vida.

O cotidiano e o tempo são os aliados do cronista. Hoje me deparei com este assunto: um aniversário.

Quanto ao aniversariante Theodomiro Mendes, ouso dizer que, a meu juízo, trata-se de um sujeito decente, prestativo, atencioso, amigo de sua gente e, pelo que sei – e sei pouco –  zeloso cumpridor de seu dever de edil.

Tenho costume de carregar algumas pessoas em minha estima. Direi até, em alta consideração. Assim o faço relativamente ao aniversariante Theodomiro Mendes.

Não preciso explicar as razões, mas o fato é que o admiro na condição de conterrâneo e de homem público que é.

Tempos idos. Em Patamuté, eu tinha um amigo experiente nas coisas da vida e de alta consideração: Mário Matos Lopes.

Certo dia – um sábado – eu estava sentado na calçada de Mário Lopes e ele, mais afastado, conversava com Theodomiro Mendes Filho, ainda muito jovem e elegante, iniciante na vida pública.

Theodomiro se retirou e Mário retomou nossa conversa e disse: “rapaz bom, tem futuro”.

Difícil esquecer Mário Lopes, difícil esquecer o que ele dizia.

Parabenizo Theodomiro Mendes Filho e lhe desejo vida longa.

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PCdoB: quando a foice e o martelo se desgastam

“Quem não muda deixa de ser” (Menotti Del Picchia, 1892-1988)

Nos últimos anos o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) abandonou sua história e se permitiu tornar-se um puxadinho do Partido dos Trabalhadores (PT).

Embora a direção do partido negue, a foice e o martelo se desgastaram e estão dando lugar ao chamado Movimento 65, por uma razão muito simples, que os seguidores do partido também negam: não há mais espaço para a defesa das ideias comunistas no mundo, consoante o ideário tradicional da agremiação.

O PCdoB quer se aproximar da população e distanciar-se do PT, mas Lula da Silva percebeu o movimento e está tentando costurar uma duvidosa aliança com o partido, a partir do governador Flávio Dino, do Maranhão.

Ingênuo, à semelhança de Sérgio Moro – ambos são ex-juízes federais – o governador do Maranhão parece acreditar em Lula da Silva. Mas Lula já alardeou por aí, sem rodeios, que o PT não nasceu para ser coadjutor de ninguém. Noutras palavras: mesmo Lula prometendo mundos e fundos a Flávio Dino, o PCdoB vai ser sempre linha auxiliar do PT, se continuarem juntos.

Embora reconhecidamente abrigo e idealizador de maracutaias, o PT tem robustez suficiente para sustentar-se durante longos anos, pelo menos enquanto o morubixaba Lula da Silva se mantiver no controle das rédeas subservientes do partido.

Messiânico, Lula diz o que o partido deve fazer, o que os dirigentes do partido devem obedecer e o que a militância do partido quer ouvir.

O PT é Lula. O resto é hipocrisia. Presidentes nacional, estaduais e municipais da legenda são decorativos. Lula dá as cartas e todos baixam a cabeça. Os diretórios do partido homologam a vontade de Lula.

Estratégia à parte, o PCdoB diz agora que está de “portas abertas para pessoas progressistas”, com o intuito de “construir um país melhor, com boas ideias e gestão eficiente”, já a partir das eleições municipais de 2020.

O PCdoB sempre encontrou resistências nos setores conservadores do Brasil, de modo que o atrelamento ao lulopetismo somente dificultou seu voo próprio. Esta a razão do Movimento 65, que o partido quer levar às ruas, cutucar os eleitores e tentar conquistá-los nas urnas.

Ciente do desgaste da foice e do martelo e escorregando na corrosão de suas ideias, o PCdoB diz agora que seu “objetivo é eleger em 2020 lideranças que garantam cidades democráticas para o Brasil”.

O PCdoB vai precisar mudar muito, inclusive explicar à sociedade e convencer os setores mais resistentes, que democracia não se compatibiliza com as ideias de Joseph Stalin, cujo legado o partido reivindicou desde o início na década de 1950, tampouco com as táticas de guerrilhas que adotou na década de 1960 e com o pensamento maoísta chinês.

No mais, o PCdoB é igual a todos os demais partidos: um arcabouço jurídico que sustenta as exigências da legislação eleitoral e permite que filiados votem e sejam votados. Existe para isto.

Ideia é o que menos existe nesse amontoado de excrescências partidárias.  

Talvez o PCdoB tenha entendido que é preciso mudar para ser.

Há tempo para tudo.

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Chorrochó e José Jazon de Menezes

Jazon/Crédito: Dr. James Cordeiro

Ao apagar das luzes de janeiro de 2013 publiquei neste espaço o texto a seguir, em homenagem a José Jazon de Menezes:

Hoje eu queria dizer: ainda bem, que deu tempo. Mas, não deu tempo, infelizmente.

Jazon se foi. Seu enterro aconteceu em 31.01.2013, em Chorrochó. Ele foi peculiarmente, do seu jeito, como sabia fazer, deixando um rastro de saudade, um vazio de sua alegria contagiante. E não deu tempo, porque eu ainda queria vê-lo de perto, curtir seu sorriso, sua presença, sua verve humorística. Sua ida entristeceu este último dia de janeiro, entristeceu Chorrochó, entristeceu o tempo em Chorrochó.

Espirituoso e respeitador era, ao mesmo tempo, amigo e protetor. Vi-o, muitas vezes, sair em defesa de pessoas humildes de Chorrochó, defendendo-as, enaltecendo-as, amparando-as. Como se todos, para ele, fossem imaculados. E eram. Para Jazon não interessava ser rico ou pobre, ser humilde ou célebre. Todos mereciam sua atenção, porque todos eram iguais e ele se entendia igual a todos.

José Jazon de Menezes faz parte da história de Chorrochó. Foi um dos pioneiros dos serviços judiciários da comarca. Após a instalação, em outubro de 1967, foi nomeado o primeiro escrivão dos feitos cíveis, cargo que exerceu com dignidade e brilhantismo. Respondeu também pelo cartório eleitoral.

Respeitado por todos de sua geração, Jazon era espirituoso e, acima de tudo, muito atencioso com todos. Constituiu família nobre, em Chorrochó. Casado com a Dra. Maria Ita de Menezes, também de estirpe tradicional, professora do então Colégio Cenecista São José, com quem teve os filhos Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James Jeorge Cordeiro de Menezes.

Jazon foi, sem dúvida, um dos esteios da família Menezes de Chorrochó.    

Deixa saudade, deixa um inominável vazio, deixa a certeza de que ainda existem pessoas boas, não obstante a aridez deste mundo.

Todavia, o tempo tem sua lâmina implacável. E ela, cruelmente, nos tirou Jazon de nosso convívio. Que Deus lhe dê amparo e descanso eterno.

Vai com Deus, Jazon!

Sua família ficou com a dor e a dilacerante saudade. E nós também ficamos com a saudade. Eterna saudade.

Post scriptum:

A professora Maria Ita de Menezes publicou em 30 de janeiro de 2020, o seguinte texto, que li e admirei. Ou, seguindo a linguagem forense de Jazon: Li e achei conforme.

Ei-lo:

“Hoje, em situações antagônicas, vivencio momentos bem diferentes. Um misto de alegria e de saudades. Comemoro meu aniversário de 81 anos e ao mesmo tempo me lembro que esta foi a data que o meu parceiro de vida, Jazon, nos deixou. Mas o sentimento nostálgico de alegria prevalece ao olhar para trás e ver tantos momentos maravilhosos vivemos juntos, o tanto que cresci e aprendi com ele e, por fim, o tanto que ele nos ensinou enquanto aqui esteve” (Maria Ita de Menezes).

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Fragmentos da história de Patamuté

“Aprendi que não há homem meio honesto. Ou são inteiramente honestos ou não o são” (Jânio Quadros, 1917-1992)

Adonai Matos Torres, nascido em 22.08.1925 e falecido em 30.10.2007, seguramente foi o político de maior destaque de Patamuté antes da ascensão de Theodomiro Mendes da Silva.

Entretanto, na época de Theodomiro, que foi prefeito de Curaçá por dois mandatos (1973-1977/1983-1988), surgiram outros homens públicos que também se dedicaram inegavelmente ao distrito. Exemplos: João Brandão Leite e João Pedro Cunha (Didi). Ambos foram vereadores de Curaçá.

Noutra quadra do tempo, mais tarde, da mesma linhagem familiar de Adonai, outro filho de Patamuté foi vereador de Curaçá e o fez com brilhantismo e considerável destaque e dedicação ao lugar: José Valberto Matos Leite.

O cotidiano de político do interior é sinônimo de presença diuturna na vida das pessoas carentes. Adonai fez isto com maestria. Filho de Otaviano Matos, major da Guarda Nacional, uma honraria instituída pelo Império e neto do coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté, Adonai herdou de seus ascendentes o gosto e a dedicação à causa do povo.

A política partidária foi sua glória e seu fracasso.

Político marcadamente populista, Adonai entendia que o povo é a razão de ser do homem público. Assim, teve seus momentos efêmeros de glória e outros tantos de fracasso.

Tinha qualidades inquestionáveis, dentre essas a fidelidade aos amigos e o respeito aos eleitores.

Quando aliado do prefeito José Félix Filho (Zé Borges), talvez nesse período tenha experimentado o auge de sua glória como político e representante de Patamuté.

Seu declínio político deu-se espontaneamente, por não mais acreditar nos homens da terra e em razão de decepções constantes e traições de próprios correligionários.

Homem sincero, Adonai não aceitava falhas de caráter. Nunca transigiu com falcatruas e jamais aceitou vantagens para flexibilizar as posições que defendia.

Irredutível em seus pontos de vista, a tocha que iluminava o seu caminho era a honestidade. Quando os ventos deixaram de lhe ser favoráveis, achou melhor ficar à margem da política, não obstante décadas de presença e atuação na vida de Patamuté.

Casado com D. Cleonice Pedroza Torres, uma elegante e respeitável senhora e esposa exemplar, Adonai constituiu família numerosa. Com ela viveu seus dias de ostracismo político, recolhido aos ditames de sua consciência.

Exemplo de dedicação aos filhos, mesmo em tempo de dificuldades, deixou-os criados, encaminhados profissionalmente, respeitáveis e moralmente sadios.

Homem de caráter irrepreensível, a atividade política de Adonai não lhe tirou a capacidade de dedicação aos mais humildes, independentemente de cor partidária. Era presença de destaque em tudo que se discutia no distrito.

Em 13.06.1968 foi um dos fundadores da Sociedade 13 de Junho de Patamuté e fez parte de sua primeira Diretoria ao lado de Manoel Brandão Leite, Mário Matos Lopes, José Mendes Fonseca e José Gomes Reis Filho.

Exemplo de homem público, Adonai Matos Torres deixou um legado para Patamuté: a honestidade e o amor que sempre dedicou à terra. Filho ilustre do lugar, merece ser reverenciado, sempre.

A história também se escreve com os ideais dos antepassados que indicaram, cada um a seu modo, o caminho por onde hoje trilhamos.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté é negligente com sua história

“Sonhador é aquele que percebe a aurora antes dos outros” (Oscar Wilde, 1854-1900).

Os prefeitos que Curaçá produziu nas últimas décadas não conseguiram perceber a aurora da história do município.

Com raríssimas exceções e algumas poucas ações visíveis na sede do município, todos se olvidaram no que concerne à cultura e às tradições do lugar.

A cultura e as tradições de um povo devem ser perpetuadas, principalmente, através da iniciativa e ação de seus governantes.

Curaçá está devendo – e Patamuté, por extensão – uma homenagem póstuma à professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes, ícone do ensino estadual em Patamuté nas décadas de 1960/1970.

Afigura-se inadmissível para este escrevinhador, que não somente a professora Beatriz, mas outras que se dedicaram ao ensino em Patamuté tenham sido colocadas na vala do esquecimento pelas autoridades, mormente os prefeitos.

É verdade, todavia, que alguns deles sequer sabiam o que é cultura e/ou tradição, mas esta é outra história. Os eleitores os colaram lá, democraticamente. Isto é o bastante. Escolher errado também é um direito democrático.

Ademais, é forçoso presumir que Patamuté sempre teve representantes eleitos na Câmara Municipal de Curaçá, mesmo que em períodos alternativos. Nem assim, tais representantes cuidaram da história do lugar. Desleixo, falta de visão ou talvez desconhecimento da função legislativa.

Os vereadores de Curaçá sempre se ativeram ao assistencialismo exacerbado, ao “tapinha nas costas” do eleitor, aos efusivos cumprimentos.

Eles entendem que a função legislativa se resume ao comparecimento a rodas de São Gonçalo, festas nas fazendas, et cetera. É fato inegável, incontrastável.

A função legislativa sempre foi negligenciada, desvalorizada, apequenada. Entretanto –  reconheço –  este não é privilégio ou vergonha somente de Curaçá.

A professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes integrou o então Departamento de Educação Primária, da Secretaria de Educação e Cultura da Bahia. Nesta condição, atuou exemplarmente no ensino de Patamuté.

A homenagem que reivindico em benefício da memória da professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes é simples, embora cônscio de que não disponho de nenhum lastro político ou prestígio para tanto: que seu nome seja atribuído a algum equipamento público ou equivalente de Patamuté, quer seja uma rua, estrada vicinal ou escola a ser eventualmente construída.

Deixo a sugestão ao prefeito Pedro Oliveira (PSC), que anda alardeando por aí que está fazendo muito ou tudo pelo município, embora não se vislumbre tanto e este escrevinhador não duvide de sua eficiência administrativa.

A sugestão humilde é extensiva aos vereadores que hoje se dizem preocupados com os assuntos de Patamuté e ao prefeito e vereadores que serão eleitos no próximo pleito de 2020.

Aqui, uma pergunta ousada, atrevida: Patamuté tem representante junto à Prefeitura?

Os homens públicos também devem ter iniciativas e torná-las realidade, embora saibamos que exigir iniciativas de homens públicos é uma tarefa ingente e difícil, quiçá inútil.

É indefensável a negligência dos homens públicos de Curaçá relativamente à história de Patamuté.

Em 1975, o delegado de Polícia de Patamuté era Cleómenes Brandão Matos (Quezinho). Para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – Patamuté tinha delegado de Polícia.

Salvo engano, na estrutura do Estado, o distrito tinha sub-delegado de polícia, geralmente chamado delegado, o que aqui pouco importa.

À época, jovem e inexperiente e hoje mais inexperiente do que velho, perguntei a Quezinho, porque o mercado municipal de Patamuté, construído pelo prefeito José Félix Filho (Zé Borges) na década de 1960, não tinha o nome de um antepassado do lugar, mas apenas a inscrição Mercado Municipal.

A resposta sábia e pronta de Quezinho foi esta: “porque Patamuté não cuida de sua história”.

Nunca esqueci esta lição.

Como se vê, continua como dantes.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e a contribuição do padre Mariano

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo da envelhescência  – padre Mariano Pietro Brentan chegou a Chorrochó em 04.01.1986.

Portanto, trinta e quatro anos se completam neste mês de janeiro de 2020, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de substituir o padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote, pescador de homens, com um trabalho incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, salvo engano: a capela Nossa Senhora da Conceição e a construção do Centro Paroquial de Chorrochó.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para transformar-se num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci o padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade, em Chorrochó. Socorro e Virgílio são exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiado, padre Mariano é, seguramente, um defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha e, em razão dessas decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Padre Mariano Pietro Brentan é dedicado, culto, atencioso. Se eu pudesse, instituiria uma diocese e lhe entregaria. Ele, certamente, cuidaria muito bem dela, com seu talento de sacerdote e vocação de apóstolo de Cristo.

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Chorrochó e o Padre Conceição

Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

Neste tempo da festa de Senhor do Bonfim, os católicos de Chorrochó também reverenciam a memória do padre Conceição.

Conheci o padre Ulisses Mônico Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José, um feito do líder Dorotheu Pacheco de Menezes junto à Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC).

A tendência para a observação, própria dos jovens, deu-me a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar-me isto.

Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário do lugar, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja.

Além da utopia e da sede do absoluto próprias dos jovens, a juventude sempre procura exemplos. Na Igreja vai buscar mutos deles.

A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral.

Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó.

Muito presente na vida da comunidade, padre Conceição era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante, atendia a todos que o abordavam.

No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária aos sonhos da adolescência. A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes.

Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”. Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições.

Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

Nascido em 09.09.1914, em Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade e criada em 27.01.1985. Uma acertada decisão da diocese em favor de Chorrochó.

A Paróquia de Chorrochó está completando 35 anos. Nela se insere a participação frutífera do padre Conceição, esteio de sua história.

Vinha já de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloquência de seus ensinamentos. Eloquência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia.

As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó, onde outro pastor andante, Antonio Conselheiro, no final do século XIX, edificou a primeira igreja até hoje existente, que resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária.

Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens, mas “não se rendeu”, como disse Euclides da Cunha.

Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Substituiu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, um italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.

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