Curaçá, José Amâncio Filho e o luar

O luar tem muitas nuances. Até permite o surgimento de clássicos como a música Luar do Sertãodo maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), que um colega meu dos tempos da faculdade insistia em dizer que era cearense.

Nunca consegui convencê-lo de que Catulo era natural do Maranhão. Hoje acho que era apenas gozação dele.

Composta em 1914, já se vão muitas décadas por aí e ainda hoje continua sendo cantada por jovens e velhos.

Catulo sustentava ser o autor de Luar do Sertão, mas a história registra uma controvérsia: o autor seria João Pernambuco, contemporâneo de Catulo.

Aliás, em minha baiana e querida Curaçá, que tem envergadura de República, tal sua importância, havia um bar no chamado centro histórico, onde se lia no frontispício, talhadas com esmero, as palavras Luar do Sertão.

Não sei se ainda estão lá o bar e as letras. Se não continuam lá, é porque extirparam um pouco da história da cidade, coisa comum nos dias de hoje, em qualquer lugar.

O luar sempre foi inspirador das serestas, do amor desejado e da vida noturna no interior. Até as casas de chá nele se inspiravam para romantizar seus ambientes.

Lembro um baile intitulado “uma casa de chá ao luar de outubro”, para o qual fui convidado na década de 1970, numa cidade do interior da Bahia.

Como sempre me interessei em saber a origem das coisas, achei aquilo muito interessante: o luar era de outubro, mas o baile foi em dezembro.

O cantor e compositor José Amâncio Filho (Meu Mano), que nasceu nos domínios de Curaçá, mas se notabilizou em Abaré, inspirou-se no luar para compor algumas de suas canções. Uma curiosidade: o pai de Catulo chamava-se Amâncio José.

Nascido na Fazenda Malhada de Pedra, em 1894, quando Abaré ainda pertencia aos domínios de Capim Grosso, hoje Curaçá, Meu Mano cresceu vendo o luar do sertão.

Quando eu morava em Patamuté, um amigo de Meu Mano contou um “causo” curioso. Ambos estavam numa bodega, à boca da noite, já à luz do candeeiro, em tempo de lua cheia e o amigo lhe convidou para beber alguma coisa. Meu Mano ponderou: “certo, mas vamos esperar a lua sair”.

O escritor pernambucano Geraldo Granja Falcão escreveu um livro sobre Meu Mano. Dentre outras coisas, registrou que ele  “tinha uma vida boêmia, nômade, comunicativa, movimentadora de tantos pedaços de sertões e de gente, fiel às melhores tradições culturais da região”.

E ainda fez história que enriqueceu Curaçá, Abaré e região.

A vida me deu alguns amigos.  Entre eles, Domildo e Hélio Soares Passos, ambos filhos de José Amâncio Filho.

Hélio, boêmio, agitado, bom e atencioso, participou comigo de sadias farras em São Paulo. Já se passaram décadas.

A velhice o sucumbiu cruelmente, assim como fez com Domildo, músico de respeito, à semelhança do pai. Meu Mano tocava clarinete. Domildo se embrenhou nesse e noutros caminhos parecidos.

Boêmio, andarilho, temperamento afável, Meu Mano andou bastante por municípios de Pernambuco e Bahia e acabou se fixando em Abaré.

Este fragmento nasceu da saudade desses amigos, filhos de Meu Mano, que me contavam muita coisa sobre o pai. Nunca mais vi. Decerto, a culpa é minha, arredio, esquisito, desleixado com os amigos.

A última vez que conversei com Hélio, ele me contou que esteve em Curaçá e disse qualquer coisa sobre a preservação da  memória de Meu Mano na cidade, parece que as bases de um espaço para exposição de alguns de seus objetos ou coisa parecida.

Não cheguei a confirmar isto, se um projeto oficial, da família ou apenas conjecturas.

Em Curaçá, Meu Mano é nome de colégio, bairro, etc. Sua memória está muito bem por lá.

 araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o sábio e silencioso líder Salvador

Em meu escritório, depois dos cansativos expedientes, faina e esforços necessários para minha sobrevivência, costumo receber alguns amigos, que conhecem minhas esquisitices – que são muitas – e  horários para conversar sobre amenidades.

Perguntam eles sobre meus amigos que não conhecem, minhas manias e, sobretudo, querem saber quais são meus ídolos. É difícil satisfazer suas curiosidades. Sou prolixo, quando necessário, esquisito sempre, incompreensível, às vezes um tanto néscio.

Tenho dois ídolos, nunca neguei: o mineiro Juscelino Kubitscheck de Oliveira e o mato-grossense Jânio da Silva Quadros. Paradoxo gritante: ambos eram intransigentemente antagônicos nas ideias e na forma de interpretar politicamente o Brasil.

Um amigo de décadas me pergunta, sempre: “como você pode ser admirador de Juscelino e de Jânio ao mesmo tempo, os mais ferrenhos adversários de nossa história política das décadas de 1950/1960? ”.

Deixo-o com a dúvida. Jânio e Juscelino eram maiores do que seus erros e suas contradições.

Entretanto, meus maiores ídolos foram outros, continuam sendo outros: os anônimos tabaréus do Riacho da Várzea, lá para as bandas de Patamuté, no sertão de Curaçá. Eles me ensinaram tudo que eu deveria ter aprendido e não aprendi: a sabedoria dos mais velhos. Como isto me faz falta!

Exemplo de amigo famoso que tive, que muito me envaidece: Jânio da Silva Quadros (1917-1992), que politicamente foi tudo, inclusive presidente da República.

Frequentei a casa de Jânio na Rua do Estilo Barroco, em Santo Amaro, capital de São Paulo. Jânio tinha muitos endereços.

D. Eloá do Vale Quadros, esposa de Jânio, possuía muitos imóveis.

Dizem alguns amigos de Jânio, que de fato foram seus amigos, que ele “não tinha amigos, mas admiradores”.

Concordo e confesso: sempre fui admirador de Jânio Quadros, mas daí a dizer que ele era meu amigo vai uma grande distância. E Jânio gostava de distâncias.

Ser convidado para eventos sociais na residência de Jânio não significava, necessariamente, ser amigo do anfitrião. Mas, no mínimo, era uma honra.

Conjecturas são conjecturas. E só. A subjetividade está no entender de cada um.

Mas hoje quero me referir a um sujeito decentíssimo, culto e politicamente inteligente: Salvador Lopes Gonsalves, assim como eu, filho do altaneiro município de Curaçá..

Este senhor a que me refiro foi eficiente prefeito do baiano município de Curaçá, debruçado à margem direita do São Francisco.

Pois bem. Salvador Lopes Gonsalves governou Curaçá num período inquestionavelmente difícil: o município saía de uma quadra de administrações conservadoras, porque assim ditavam as circunstâncias da época.

Salvador definia-se como oposição às práticas políticas da época, mas não significava  necessariamente o que hoje se denomina de esquerda.

Salvador é sensato, inteligente, enxerga longe, antever horizontes. Difere da esquerda de hoje, que é tresloucada e não sabe exatamente o que quer.

Em Curaçá, Salvador representava a mudança, a necessidade de mudança.

Salvador mudou? Não sei. Mas chacoalhou a forma de fazer política em Curaçá, atapetou o caminho, indicou direções e acendeu a luz do horizonte político.

Salvador é culto demais politicamente. Também é humilde demais. Entende de seu povo, de suas origens, de Brasil.

Aliás, dentre as muitas observações de meus leitores, faz muito tempo um curaçaense me corrigiu. Dizia ele que Gonçalves se escreve com ç e não com s.

Concordei com o atento e exigente leitor, mas relativamente a Salvador, continuo escrevendo com s.

Hoje, se me perguntarem porquê, insisto que não sei. Presumo que em seu registro de nascimento o tabelião tenha grafado assim. É o bastante.

Mas Salvador é tão importante que um ç ou um s não faz a menor diferença em seu nome, em sua vida e na história de Curaçá.

Importantes são as lições de Luizinho que Salvador aprendeu. Mas quanto a Luizinho, não importa aqui o dizer de sua vida. Só os sábios explicam o seu saber. E eu não sou sábio, nem pretendo sê-lo.

Como dizem os mineiros, Salvador Lopes Gonsalves está onde sempre esteve: à espera de um novo tempo.

E o novo tempo para o sábio e silencioso Salvador é a luta em defesa do município de Curaçá, com mandato ou sem mandato.

Não importam os partidos políticos, os conchavos e, muito menos, as alianças partidárias.

Salvador é sábio, líder respeitável. Sempre.

araujo-costa@uol.com.br.

Na Bahia, um deputado sem nexo e sem rumo

A Câmara dos Deputados compõe-se de variadas bancadas. Há a bancada da bala, bancada ruralista, bancada evangélica e outras até exóticas.

É possível que venha surgir outra bancada, a do gueto, que o deputado federal baiano Igor Kannário (DEM) parece disposto a instituir. A bancada pode ser constituída de um deputado apenas que, inclusive, pode ser líder de si mesmo.

Por definição, gueto é o local em que uma minoria está separada do resto da sociedade. Trata-se de isolamento social, via de regra, permanente.

É esta minoria silenciosa que o deputado Igor Kannário diz representar e defender.

O Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal – caracteriza-se pela pluralidade. É essencialmente democrático. Todas as camadas sociais, em tese, estão lá representadas. Ou deveriam estar.

O deputado Igor Kannário representa um segmento social que sempre esteve à margem das decisões nacionais. Em consequência, é valoroso seu papel parlamentar no sentido de representar quem não tem voz, os habitantes periféricos da metrópole soteropolitana.

Ocorre que o deputado também é simulacro de cantor e, por isto, canta o que esse segmento social, que ele diz representar, vive e pensa. O deputado até se intitula “príncipe do gueto”. O problema é a forma arrevesada com que ele interpreta esse sentimento do gueto.

Entretanto, o que não fica bem é a falta de educação de Sua Excelência. Por vezes provoca a Polícia Militar da Bahia e solta palavrões impublicáveis, o que, convenhamos, não fica bem para um deputado.

Parece que ele tem dificuldade de entender a liturgia do cargo de deputado federal.

É certo que Sua Excelência tem imunidade parlamentar por suas opiniões e palavras, mas a boa educação recomenda que os limites sejam respeitados.

Exageros não se recomendam em lugar nenhum e menos ainda em boca de deputado.

Recentemente em Juazeiro-BA, o Poder Judiciário, a pedido do Ministério Público, recomendou que não fossem contratados para o carnaval cantores cujas músicas, letras e coreografias contivessem teor discriminatório e incentivo à violência contra mulheres, à homofobia, et cetera.

O deputado-cantor Igor Kannário enquadra-se neste cenário, mas parece que se comportou razoavelmente.

Em data mais recente, no carnaval de Salvador, o dito deputado andou ofendendo publicamente a Polícia Militar do estado, conduta incompatível com sua condição de deputado, embora na ocasião do destempero ele não estivesse no exercício da atividade parlamentar. Mas neste caso, é difícil separar o cantor do deputado. São indissociáveis.

Ninguém achou graça nas ofensas do deputado à instituição, nem mesmo Antonio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador e presidente nacional dos Democratas (DEM), partido do deputado.

Todavia, o DEM apequenou-se ao silenciar neste episódio do deputado Igor Kannário.

A gloriosa Polícia Militar da Bahia deve ser respeitada por todos, independentemente de partidos políticos. É patrimônio valoroso dos baianos, instituição respeitável que não se confunde com eventuais e isolados desvios de conduta de alguns de seus membros.

Mas voltando ao gueto. O gueto também gosta de coisas boas, de músicas boas.

Por exemplo, conhecidas boas músicas da boemia carioca foram compostas por moradores dos morros, das favelas, da periferia.

Talvez em razão da ausência de pessoas que lhes representem dignamente, os habitantes da periferia agarram-se em políticos vazios, estrambóticos, desrespeitosos, aventureiros, eventuais. É uma forma de a periferia marcar presença diante de uma sociedade que a rejeita e espezinha.

Morar na periferia não significa, necessariamente, gostar de coisas ruins.

O deputado Igor Kannário parece sem nexo, sem rumo e desconectado do mundo político.

Ainda não descobriu a diferença entre cantar, representar o povo com dignidade e respeitar as instituições.

araujo-costa@uol.com.br

 

O sorriso também deixa cicatrizes

Comumente as cicatrizes são vistas através do lado mais cruel, o sofrimento.

Contudo, elas são marcas deixadas ao longo do tempo e, como tais, também podem resultar de alguma face do caminhar que não sejam somente sinais de tristeza.

As nódoas que se agarram ao nosso viver quase sempre decorrem de tropeços, perturbações que a vida nos permitiu experimentar, mas o passado também teve alegrias, sorrisos, flores no jardim.

A preparação para o envelhecimento pressupõe que caminhemos devagar com as tristezas e as alegrias do passado e, sobretudo, com a altivez do presente.

Somos possíveis hoje e isto nos basta.

As escolhas irreversíveis, o amoldar da consciência, as amizades, as dores e as descobertas fizeram parte da construção de nossos mistérios.

Lágrimas e risos emolduraram o viver até aqui.

Passamos o tempo conjecturando formas de viver. Isto faz parte dos sonhos, da ambição de enxergar mais longe.

A efemeridade da vida encurta o tempo, corrói as forças e torna mais distante o ápice que pretendemos alcançar. Entanto, seguimos. A razão maior do caminhar é a esperança.

Até o amor que sentimos às vezes parece fraquejar.

 “Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor”, dizia o padre Vieira. Mas é preciso força, disposição para a luta, mesmo que ela nos pareça inglória.

Caminhar, sempre.

Tenho um amigo, já octogenário, que não via há anos, por uma série de razões, dentre elas um dos meus muitos defeitos: sou relapso e desatencioso com os amigos, embora eles me entendam, exatamente por serem amigos.

Na correria de São Paulo, encontrei-o frágil, amparado por uma bengala, olhar humilde e expressão inocente, caminhando com dificuldade por uma avenida enorme, ensolarada, seca, barulhenta, entre passantes indiferentes.

Eu às voltas com a exiguidade do tempo e compromissos de agenda e ele, emocionado com o encontro, parecia um tanto desconexo, talvez pela aspereza da cidade grande e a fragilidade que o tempo lhe impôs.

Fiz-lhe algumas perguntas como é praxe nesses encontros casuais.

Humilde e reticente, disse: “Rapaz, me perdi. Tem uma rua ali, aquela onde moro, você sabe, diabo, pareço velho”. E apontava para um lado e para outro, braços levantados, gestos largos, raciocínio confuso, memória esburacada.

Fiquei preocupado.

O relógio me atrapalhando, confrontando-me com a necessidade de ser-lhe útil, solidário, a lembrança do passado e de nossa amizade a me cutucar.

Deixei-o nas imediações de sua casa, porque já se achava seguro e me despedi mais frágil que ele, refletindo sobre sua situação de desamparo diante da inevitável certeza da velhice.

Chorar nesses momentos é muito fácil.

Minha fortaleza e arrogância se desmoronaram naquele momento. Distanciei-me com uma sensação de solidão, mais desamparado do que ele.

Depois, angustiado, fui relembrando nossas conversas de décadas atrás, a alegria dos encontros, o bate-papo desinteressado, as músicas que ouvíamos.

Meu amigo está fragilizado, diminuído, carente diante da vida.

Confessou-me lhe terem escapado as esperanças: “rapaz, acho que não tenho mais jeito”.

Observei seu olhar vazio, semblante maltratado pelo tempo e pelo sofrimento.

Mas ele já sorriu muito. Sou testemunha. E o sorriso também deixa cicatrizes boas, inolvidáveis cicatrizes!

araujo-costa@uol.com.br

Memória dispersa de Chorrochó: Eloy Pacheco de Menezes

Eloy Pacheco de Menezes fez parte de uma época de lutas e turbulências do município baiano de Chorrochó. Integrante de família tradicional, Eloy carregava no nome a marca de uma estirpe muito respeitável naquela região sertaneja: Pacheco e Menezes.  

Em todo o território do município e circunvizinhança, principalmente na zona rural, quando os sertanejos falavam em respeito e dignidade, era comum a referência a “os Pachecos”, como senhores portadores desses atributos tão importantes na vida do povo nordestino.

Um dos legados de Eloy Pacheco de Menezes foi e será a luta constante e intensa que travou, ao lado de Dorotheu Pacheco de Menezes, amigo e confidente, em prol dos interesses de Chorrochó.

Ao consolidar-se a emancipação do município em 12.09.1954, Eloy foi nomeado gestor dos negócios municipais, uma espécie de prefeito provisório, por decreto do então governador da Bahia, Luís Régis Pacheco Pereira. Nessa condição, foi o responsável pela instalação dos serviços públicos do município, enquanto as instituições precariamente se acomodavam.

Todavia, a história registra alguns atributos de Eloy, além dessa arraigada luta política ao lado de Dorotheu: o caráter inflexível, a dignidade e a intransigência quando, eventualmente, sentia sua honra ameaçada. Noutras palavras, era valente, pavio curto e, sobremaneira, decidido. Em defesa da família e de seus valores morais, tornava-se impassível, afoito, corajoso, audaz.

Como diria Raul Pompéia (O Ateneu), Eloy tinha “as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter”. Não arredava o pé de seus alicerces, de seus valores, dos ditames de sua consciência.

Embora Chorrochó, através dos órgãos de cultura, salvo melhor juízo, nunca tenha evidenciado o papel de Eloy Pacheco de Menezes na história do município, é inegável sua contribuição para edificar os alicerces de que hoje o município dispõe.

Eloy foi um daqueles senhores intransigentemente engajados na luta em defesa do município. Dir-se-ia absolutamente convicto, seguro dos valores que defendia, apegado aos seus pontos de vista.

Eloy viveu numa época em que se evidenciava a ausência de entendimento entre as lideranças municipais, fato esse que direcionava os assuntos políticos para o terreno das relações pessoais. Tempos difíceis, em que a convivência entre os políticos e líderes locais dava-se de forma arredia, desconfiada, vigilante, atenta.

Naquele tempo, as correntes políticas de Chorrochó mantinham-se diuturnamente vigilantes em relação aos adversários. Entretanto, Eloy nunca subestimou o lado contrário, mas não vergava quando o assunto arranhava sua honra.  Em razão disto, tinha fama de duro, valente, intransigente.

Aqui, o fundo de verdade é de ordem geral. O homem nordestino daquele tempo era sobremaneira zeloso da sua honra e construía a reputação alicerçada no respeito e na palavra empenhada.   

Casado com Maria Argentina de Menezes, elegante senhora da sociedade chorrochoense, Eloy constituiu família honrada e decente que enriquece Chorrochó até hoje, através de sua valiosa e respeitável descendência. Transmitiu aos seus filhos a mesma retidão de caráter que ostentou até a morte.

Eloy, a esposa Maria Argentina de Menezes e os filhos Ernani de Amaral Menezes, Maria Menezes (Pina) José Eudes de Menezes (Iê) e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó) contribuíram, cada um a seu modo, para uma quadra inesquecível da história de Chorrochó, que deve muito a todos eles.

Eloy voltava-se à vida do sertanejo: a luta, o sofrimento, a esperança imorredoura e até o lamento. Admirador do poeta cearense Patativa do Assaré, ouvia, com absoluto respeito, a música “Triste Partida” gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, talvez o melhor retrato sociológico do retirante nordestino.    

Chorrochó precisa retirar Eloy Pacheco de Menezes do esquecimento e colocá-lo à luz do conhecimento das novas gerações, através de seus registros históricos.

Se “um país se faz com homens e livros”, segundo Monteiro Lobato, Chorrochó precisa cuidar da memória dos homens que fizeram sua história já que nunca se preocupou com os livros.

araujo-costa@uol.com.br   

 

Em Chorrochó é possível

“De circunlóquios nada sei.
O caso conto como o caso foi.
Na minha frase de constante lei,
O patife é patife; o boi é boi.”

(Cônego Batista Campos, in “O Paraense”, Século XIX)

Este assunto é um tanto recorrente. Já me falaram dele algumas vezes, mas confesso que não acreditei, tendo em vista o ineditismo da situação.

Noutra ocasião, até andei telefonando para algumas pessoas de Chorrochó com o intuito de certificar-me do caso. É meu dever checar as informações antes de publicá-las.

Todas as pessoas consultadas subiram no muro, algumas chegaram ao telhado. Umas não sabiam do caso, outras disseram que nunca tinham ouvido falar e outra foi mais específica, mas bastante prolixa: “faz tempo que andei em Várzea da Ema”.

Confesso que não entrei em contato com ninguém da oposição de Chorrochó ou simpatizante dela, porque a resposta seria óbvia: a confirmação do fato, mesmo que com alguns reparos.

Por tudo isto, concluí que o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) tem uma rede de proteção enorme no município. Se nada mudar, a legislação permitir e ele for candidato em outubro próximo, certamente será reeleito com folga.

A imprensa costuma ser uma espécie de termômetro. Contudo, as urnas também costumam surpreender.

Dito isto, vamos ao caso: dizem que no simpático distrito de Várzea da Ema, em Chorrochó, há uma escola sui generis: transformou-se num bar.

Presumo que se trate de folclore político ou intriga da oposição ao prefeito.

Como não nasci ontem, reluto em acreditar, até porque suponho que Várzea da Ema tem um representante na Câmara Municipal. Ou não?

Mais: se a escola é estadual ou municipal pouco importa, não interessa. As autoridades do município têm o dever de tomar providências, ajustando-a ao seu objetivo, qual seja, ensinar.

Entretanto, em 23/02/2020, logo cedo, o vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio) do Partido dos Trabalhadores (PT) cutucou o prefeito em uma rede social, por volta das seis horas da manhã, nestes termos: “queria que o prefeito falasse sobre o colégio que agora é bar na Várzea da Ema”.

O prefeito Humberto, que é experiente, deve saber que com oposição não se brinca. E oposição, que é oposição, não dorme. Se o vereador petista insiste no assunto, então tem fundo de verdade ou alguma coisa precisa ser explicada. Mas este escrevinhador continua achando o caso estranhíssimo, esta história de um colégio que virou bar.

Estamos numa quadra do tempo em que os questionamentos são frequentes. São constantes as cobranças às autoridades quanto ao cumprimento do seu dever. Afinal, elas estão no poder para isto, cumprir o dever.

A sociedade está começando a acordar e exigir seus direitos, mesmo nos distantes rincões do Brasil.

Mas daí a acreditar nesse absurdo há uma grande distância.

Com a palavra o Excelentíssimo prefeito Humberto Gomes Ramos.

araujo-costa@uol.com.br

A democracia obscura de Ciro Gomes

A democracia que o ex-governador cearense Ciro Gomes pratica não consta nos compêndios de ciência política.

O senador Cid Gomes (PDT), também ex-governador do Ceará, ameaçou invadir unidade militar com uma retroescavadeira, o que fez até certo ponto, mas foi interrompido por disparos de arma de fogo que o atingiram.

O boquirroto Ciro Gomes, ávido por holofotes, apressadamente foi à imprensa dizer que o gesto arrogante e desvairado do irmão foi tão somente o exercício democrático de direito.

Neste particular, o exercício democrático de direito não se daria através do diálogo, da conversa e da negociação com os amotinados?

Como explicar que a invasão de um prédio público com o uso de uma retroescavadeira é democrática? Para Ciro Gomes é.

Ciro disse que passou toda a vida defendendo a democracia, mas é contraditório a ponto de admitir que, se estivesse com o irmão naquele momento, o desfecho teria sido pior. Noutras palavras: Ciro concorda com a violência e relativiza o diálogo que tanto prega.

A democracia lá em Sobral, terra dos truculentos coronéis Ciro e Cid, deve ser outra ou, pelo menos, distancia-se da democracia que os brasileiros querem praticar.

A oligarquia dos Ferreira Gomes domina o município de Sobral há décadas, com algum interregno. Lá mandam os irmãos Ciro, Cid e Ivo Gomes. Democracia por lá é um bicho difícil de encontrar. Só no discurso.

O diálogo da família Ferreira Gomes é substituído pela arrogância. No caso em questão, por uma retroescavadeira. Não deu certo, não podia dar certo.

Tagarela, Ciro Gomes desanda-se a acusar o governo federal por tudo de ruim que acontece no Brasil, inclusive no Ceará.

A Polícia Militar do Ceará, que agora está amotinada, nada tem a ver, por óbvio, com a administração federal. Mas Ciro Gomes está tentando culpar Deus e o mundo pelas falhas dos governos cearenses, inclusive equívocos dele e do irmão Cid à frente da administração pública.

Ciro insinuou que as milícias do Rio de Janeiro estão invadindo o Ceará. Pode até ser verdade, mas ele esqueceu de dizer que o estado foi governado por ele, pelo irmão e agora senador Cid Gomes e hoje é governado por seu aliado Camilo Santana (PT).

Cadê a eficiência dos governos do Ceará que Ciro Gomes tanto alardeia?

Por exemplo: Ciro diz a cada entrevista, que o ensino do Ceará é o melhor do Brasil e que os métodos educacionais implantados por ele e pelo irmão Cid no estado são infalíveis.

Crítico de tudo, Ciro fala demais.

Ciro Gomes é autoritário, encrenqueiro, mandão. É um coronel oligarca disfarçado de democrata.

Como dizia o político Leonel Brizola, “se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?”.

O disfarce democrático de Ciro Gomes não consegue tirar-lhe a condição de jacaré.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

 

 

 

Patamuté: lugares e lembranças de minha aldeia

“Tudo está neste lugar: os silêncios, o tempo, o calor, a poeira, a solidão” (José Luiz Villamarim, sobre o sertão nordestino )

Modéstia à parte, nasci em Patamuté, lugar encravado no sertão da Bahia. Em Patamuté, é modo de dizer, porque nascer lá é muita honra e por isto sempre digo que sou de lá, com orgulho.

Mas nasci mesmo foi numa rústica casa de taipa, entre pedras e cactos, na caatinga, na divisa com o município de Chorrochó, nos barrancos do Riacho da Várzea. Esse lugar pertence ao distrito de Patamuté, minha querida aldeia, lá para as bandas do município de Curaçá.

Um amigo metido a filósofo – tenho alguns – depois do terceiro uísque, quis saber a razão de tanto orgulho. Expliquei-lhe. Melhor, perguntei-lhe.

Você sabe o que é nascer ouvindo o canto dos pássaros e a cantiga das cigarras e se criar dividindo espaço com bodes, cabras, ovelhas, tatus, tamanduás, preás, raposas, teiús,  gambás e outros feitos da natureza?

Sabe o que é passar a infância com os pés descalços e as roupas rasgadas – porque, quase sempre, os pais não podiam comprar – e conviver, diariamente, com o sol escaldante do sertão? Sabe o que é beber água de pote?

Você já viu a escuridão ou o luar na caatinga, o fogão a lenha, os galhos retorcidos das árvores em tempo de seca? Já viu o verde, quando Deus manda chuva para alegrar o sertanejo? Já ouviu a conversa despretensiosa do sertanejo, os “causos” que ele conta?

Você já assuntou a sabedoria do sertanejo?

Sabe como é bom tomar banho nas águas barrentas do Riacho da Várzea, que serpenteia, preguiçosamente, em direção ao São Francisco e nem sempre suas águas chegam lá, porque vão se perdendo na secura do tempo?

Sabe o que é beber água salobra de cacimba, em tempo de seca, dividindo o espaço com abelhas e sapos, sentir-se bem por isto e ainda assim agradecer a Deus?

Sabe o que é assistir ao espetáculo de caprinos e ovinos berrando em volta do chiqueiro ao anoitecer? Você já viu a lua na caatinga? As estrelas, o cantar dos pássaros noturnos, o coaxar dos sapos? Você já viu o sol escaldante da caatinga? Já viu o nascer do sol e o crepúsculo na caatinga?

Sabe o que é nascer e ser criado num universo imenso como as caatingas de Curaçá e Chorrochó, onde se faz história de tudo, até do sofrimento de sua gente? Sabe o que é orgulhar-se até do desespero dos desamparados naquele mundão?

Sabe o que é lembrar as lágrimas – e foram tantas – de nossos antepassados? Sabe como um povo consegue ser tão forte, embora em meio a tanto sofrimento e, não obstante, sempre vive alegre e espirituoso?

Tudo isto é muito orgulho, que às vezes fica querendo saltar do peito em direção ao mundo. Tudo isto é muita honra e honra maior é dizer: sou filho de Patamuté.

Os lugares de minha aldeia são muitos, inúmeros, inesquecíveis: os riachos, as estradas, a caatinga, os umbuzeiros, a sombra das árvores, o xique-xique, o mandacaru, a terra quente, a pobreza da casa de taipa onde nasci.

O cenário do sofrimento e o amor que tenho por lá, que nunca saiu de lá, continua me acompanhando onde vou.

araujo-costa@uol.com.br

Fragmentos dispersos de Patamuté

Delanidia Matos (D.Didi) nasceu em Patamuté e mudou-se para São Paulo ainda na infância. Constituiu família na terra bandeirante e por lá vive até hoje, graças a Deus.

A idade de D. Didi não vem ao caso dizer aqui, para não arranhar o “politicamente correto”. Mas – sempre cabe um mas –  a título de registro histórico, presumo que esteja na casa dos noventa e dois anos.

Estar na casa de noventa e dois anos não significa dizer que a idade seja exatamente esta. Pode ser mais, pode ser menos.

Em Patamuté, a família de D. Didi fazia parte do que os antigos costumavam chamar “boa família”, ou seja, gente decente, ordeira, de caráter irrepreensível: a família Matos.

O Matos de D. Didi é da mesma estirpe do coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté.  Por aí se vê, que D. Didi vem de família tradicional e, como tal, é um esteio que sustenta a história de Patamuté.

Galdino Ferreira Matos está enterrado na igreja de Santo Antonio de Patamuté. O enterro em igrejas era uma prática vinda dos portugueses, muito comum na Europa.

“Cabia à igreja ser a intercessora junto aos santos para que o morto tivesse garantida sua salvação. É desta forma, que no Brasil entre os séculos XVIII e XIX, as igrejas passaram a ser o espaço sagrado nos quais eram depositados os mortos e, embora inicialmente tais espaços fossem mais comumente destinados aos membros da igreja como o clero. Com o tempo criaram-se as condições necessárias para que a morada dos vivos fiéis também fosse igualmente a morada dos mortos” (Fernando Rodrigo e Jelly Juliane de Lima, Anais do III Encontro de Discentes de História da Universidade Federal do Amapá).

D. Didi tem um filho – Nelson Matos Cano – paulistano nascido no bairro do Ipiranga, em São Paulo, que se interessa muito pela história de Patamuté. E história, aqui, quer significar também cultura, tradição, costume do lugar e outras coisas mais.

Em data recente, Nelson Matos Cano se interessou em saber quais as maravilhas de Patamuté. Chegou até a sugerir uma votação para aquilatar quais são essas maravilhas.

Sugestão interessante. Quem sabe os professores das redes municipal e estadual de ensino baseados em Patamuté acatem a sugestão e estimulem essa votação. É uma forma de avivar nos estudantes o interesse pelo exercício democrático do voto.

São tantas as maravilhas de Patamute!

araujo-costa@uol.com.br

Ebulição silenciosa no Vaticano

Duas congregações vaticanas estão em constante movimento, embora silenciosas, como é regra secular da Igreja: a Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para a Evangelização dos Povos (antiga Propaganda Fide).

As questões em análise nessas congregações podem mudar alguns dogmas e regras milenarmente caros à Igreja.

Está no meio da discussão o papa emérito Bento XVI, uma das maiores autoridades em Teologia na história recente da Igreja Católica Apostólica Romana.

Em 2007, Bento XVI autorizou a celebração da missa em latim. Essa era uma prática litúrgica antiga, que vinha sendo observada há séculos, mas o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) convocado pelo papa João XXIII, abandonou tal forma de dizer a missa.

Entretanto, milhões de jovens em todo o mundo são adeptos da missa antiga e esses jovens são importantes para a Igreja, para o futuro da Igreja.

As jornadas mundiais da juventude carrearam esses jovens, antes céticos, para o interior da Igreja e com eles a admiração da missa em latim.

Como se sabe, há conservadores e progressistas na Igreja. Mas sempre houve equilíbrio entre eles.

A Santa Sé tem sido o maior exemplo de equilíbrio nesses aproximados dois milênios.

Além da missa em latim, as discussões mais sérias que se processam no Vaticano dizem respeito ao celibato sacerdotal, ordenação de mulheres, comunhão para os divorciados e homossexualidade.

A Igreja não avançou neste particular.

Essas discussões foram ventiladas no recente Concílio da Amazônia. O papa Francisco, jesuíta propenso às mudanças na Igreja, começou a estudar essas mudanças, mas recuou.

O entendimento dos setores mais conservadores é no sentido de que, qualquer mudança pretendida na Igreja deve ser interpretada segundo as tradições milenares. Ou seja, nada muda, por enquanto.

As congregações vaticanas, órgãos de assessoramento direto ao papa, adotaram a “hermenêutica da continuidade” segunda a qual a Igreja deve obedecer estritamente às decisões do Concílio Vaticano II. O Concílio é o parâmetro maior em que se espelha a Igreja.

Como parte dessas regras, que alguns setores da Igreja querem mudar, estão as mudanças urgentes preconizadas pelas alas mais progressistas, a exemplo da flexibilização do celibato e a ordenação de homens casados.

O cardeal Dom Claudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo e ex-prefeito da poderosa Congregação para o Clero, em Roma, é um entusiasta das mudanças na Igreja.

Com ênfase, defendeu tais mudanças no Sínodo da Amazônia e – parece – quer que o papa Francisco dê andamento nas discussões.

O jornalista e escritor Marcelo Musa Cavallari, autor do livro Catolicismo, fez brilhante matéria sobre o assunto. Os católicos devem ler.

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