A cultura e a inconveniência dos extremos

“Revelar a arte e encobrir o artista é a razão de ser da arte” (Oscar Wilde, Dublin 1854 – Paris, 1900)

A imprensa vem abarrotando o noticiário com o destrambelhamento do ex-secretário de Cultura do Brasil, ao valer-se de frase e pensamento do ministro da propaganda de Hitler, para definir a arte brasileira, a partir desta década.

Imbecil e inaceitável o comportamento do dramaturgo e ex-secretário de Cultura Roberto Alvim.

O ex-secretário, que demonstrou inegável despreparo para o cargo, confundiu arte com artista. Mais: em princípio, tentou argumentar que não sabia a origem do texto, gravado por ele em vídeo, atribuindo-o a seus assessores. Inútil.

Como se vê, trata-se de um incompetente. Mais do que isto: arrogante, boçal, estúpido, grosseiro, desrespeitoso.

Qualquer estudante secundarista conhece aquele texto de Joseph Goebbels. O ex-secretário de Cultura do Brasil disse desconhecer. Então, deveria procurar outra profissão, mas nunca se habilitar para definir os rumos da cultura do Brasil.

Com assessores como o ex-secretário Roberto Alvim, o governo do presidente Bolsonaro não precisa de adversários. Sequer precisa de aprendiz de oposição.

O artista pode ser ideológico ou ideólogo, mas não se confunde com a arte. A arte não é nacional, municipal ou de qualquer governo, seja ele de direita ou de esquerda.

A arte é universal, não tem fronteiras, não se limita a ideologias. Existe por si só, independentemente de formuladores de opinião sobre cultura, quer sejam idiotas, imbecis ou ingênuos.

A defesa da arte não significa o extermínio de quaisquer pensamentos contrários, tampouco deve significar a adoção de práticas extremistas e abomináveis.

A cultura não pode adstringir-se a extremos, de direita ou de esquerda.

Errou ridiculamente o ex-secretário Roberto Alvim. Queimou sua já paupérrima biografia.

Só para lembrar: quando eclodiu o movimento militar de 1964, que implantou a ditadura no Brasil, o coronel Humberto de Melo, manda-chuva da “Revolução” na Bahia, lançou um manifesto que, dentre outros absurdos, exigia o fechamento das boates para salvar a moral da família e os bons costumes.

A atitude de Roberto Alvim, ex-secretário de Cultura do Brasil, demitido de suas funções pelo presidente da República, ao falar sobre a arte, que dela não entende, faz lembrar esses extremos.

No cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, na lápide de Carlos Marighella, ícone da esquerda do Brasil, assassinado pela ditadura em 06/11/1969 na Alameda Casa Branca, em São Paulo, o arquiteto Oscar Niemeyer estilizou a frase do líder esquerdista: “Não tive tempo de ter medo”.

Atos imbecis como este de Roberto Alvim despertam em todos nós, vigilantes da democracia, o sentimento unânime: não podemos ter medo.

Avante, Brasil!

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, Senhor do Bonfim e outras observações

Chorrochó, no sertão baiano, está em festa nesta segunda metade do corrente mês de janeiro.

Sendo assim, não é tempo de falar de coisas ruins como, por exemplo, gestões indolentes,  governos apáticos e políticos relapsos.

A população de Chorrochó está em êxtase, mormente os católicos. Quem católico não é também vive a ocasião com euforia, porque se irmana a todos. É ocasião de encontros, de matar saudade, de rever parentes e amigos.

Os filhos e amigos de Chorrochó abrem um parêntese, um hiato em suas rotinas e se entregam a esses dias de paz, reflexão e harmonia.

Precisamos disto, todos precisam disto.

Numa quadra da festa, é tradição da igreja orar pelos filhos ausentes que, por alguma razão, moram distantes ou não podem comparecer às festividades.

Este escrevinhador não se faz presente há anos. As razões são muitas.

E se não é tempo de falar de coisas ruins, sobra espaço para falar das coisas de Deus que, no dia-a-dia, pouco nos ocupamos com elas.

A festa de Senhor de Bonfim de Chorrochó é uma tradição religiosa muita antiga, secular. Há muitas pessoas de Chorrochó que entendem muito deste assunto.

Atrevo-me a citar alguns nomes, sem menospreciar os demais:  professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, que escreve irrepreensivelmente bem sobre Chorrochó, sua história e tradições; professora Maria Therezinha de Menezes; professora Maria Rita da Luz Menezes e o Dr. Francisco Afonso de Menezes, dentre outros.

A professora Neusa é dedicada, inteligente, culta e, sobretudo, defensora intransigente dos valores de Chorrochó. É um esteio cultural admirável.

As festividades religiosas de Senhor do Bonfim são coordenadas por D. Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, ex-integrante do clero da tradicionalíssima arquidiocese italiana de Trento.

D. Guido adotou o lema episcopal Cristo, Redentor dos homens e tem com ele sustentado a fé dos católicos da diocese de Paulo Afonso.

Grande parte do movimento da festa acontece numa praça nas imediações do sagrado templo de Senhor do Bonfim, que tem nome, mas o nome não é visto, ninguém sabe, ninguém viu.

É a Praça Prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes que, salvo melhor juízo, a Câmara Municipal aprovou lei denominando-a assim, mas o Poder Executivo não a sancionou.

O projeto teve a participação ativa do então vereador Marcos Vinicius Pereira Jericó (Ciel Jericó), que se empenhou com vistas à aprovação que, de resto, persiste, embora não visível.

Não sei os motivos dessa resistência, desconheço a razão do engavetamento da lei aprovada pela edilidade, mas como não é tempo de falar de coisas ruins, deixa pra lá.

À época, o município era administrado pela educadora Rita de Cássia Campos Souza, que deu de ombro e jogou no limbo o dever de sancionar a norma aprovada pela Câmara Municipal.

Estranho é uma educadora que, pressupõe-se, deve ser afeita às coisas da cultura, não primar pelo zelo de um assunto dessa natureza.

O fato é que Chorrochó está em festa. E fato é também que o povo está feliz, momentaneamente feliz. Estaria mais, se o município estivesse entregue em mãos mais cuidadosas. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

Lembro que na primeira missa celebrada em memória de Dorotheu Pacheco de Menezes, na igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó, eu disse essas palavras, aliás, muito mal pronunciadas, tendo em vista a emoção do momento: “Ser homem público é ser curioso com a vida, cutucar a história e conspirar para mudar o tempo”. É uma citação do falecido político cearense Armando Falcão.

Hoje o nome de Dorotheu estaria visível na praça, em respeito ao povo de Chorrochó e à memória desse homem público, se a chefia do Poder Executivo Municipal de então tivesse cumprido o seu papel neste particular, cutucado a história e conspirado para mudar o tempo. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

A administração municipal mudou de mãos e a praça continua lá, sem identificação.

Mas é tempo de paz,  tempo de reflexão, tempo de abraços.

Deus seja louvado. Senhor do Bonfim seja louvado.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó dá sinais de novos horizontes na política

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, 1902-1985)

Carlos Alberto Libânio Christo (frei Betto), abalizado intelectual da esquerda católica do Brasil, mineiro, frade dominicano, jornalista, escritor, humilde, respeitado em todos os segmentos sociais, diz que a palavra “raposa”, em política, foi usada pela primeira vez por Jesus Cristo ao referir-se a Herodes Antipas, governador da Galileia.

Em 24.11.2019, neste mesmo espaço e com o título Em Chorrochó, tempo de construir trincheiras, este escrevinhador ponderava que hoje, parece razoável entender que a única força capaz de enfrentar a situação em Chorrochó é liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tendo à frente o vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio) ou quem ele apoiar como protagonista nas próximas eleições municipais.

Agora o vereador Beto de Arnóbio sinalizou a expectativa de que Chorrochó terá candidato de oposição nas eleições municipais de 2020, mais especificamente do Partido dos Trabalhadores (PT).

Demorou, mas parece o caso de não apressar o rio. A oposição sinaliza que vai chegar à disputa eleitoral de Chorrochó em 2020. Espera-se que não seja um arremedo de oposição, reticente e tímida, como nas eleições passadas.

Apresentar candidato a prefeito seja ou não do PT, é o caminho natural da oposição em Chorrochó, se não quiser repetir os erros de sempre, ou seja, continuar desorganizada e recolher-se à insignificância após a abertura desfavorável das urnas.

Nota-se que há um cansaço da mesmice, da repetição, do situacionismo reiterado em Chorrochó. A oposição ainda não conseguiu preencher essa lacuna.

A história registra que nenhum grupo político alcançou sucesso quando a vaidade e o egoísmo de seus membros foram maiores do que os objetivos colimados pelo todo. Por isto, a oposição de Chorrochó não teve êxito nas eleições anteriores.

Supõe-se, em quadro assim, que os vereadores de Chorrochó que se dizem de oposição devem ter vislumbrado alguma credibilidade com a população capaz de construir um esteio para sustentar a disputa da eleição para prefeito do município.

Em Chorrochó, além dos vereadores de oposição, há outras lideranças que se abrigam em segmentos opostos ao prefeito, mas não atuam ostensivamente.

Entretanto, Chorrochó não teve, pelo menos nas duas últimas décadas, nenhuma tradição de antagonismo político, de modo que é muito difícil a oposição enfrentar o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP), reconhecidamente uma “raposa” experiente, com redundância e tudo, mesmo que ele decline da disputa e indique outro nome.

O prefeito Humberto costuma dizer que faz parte de um grupo político, está à disposição do grupo e acata o que grupo decidir. Conversa de raposa política. O grupo a que ele se refere é ele próprio. É candidatíssimo, exceto se houver algum impedimento até lá.

De qualquer forma, é alvissareira a notícia de que a oposição de Chorrochó pensa em desenferrujar-se e sair às ruas expondo suas ideias e apontando caminhos que entende viáveis para a solução dos problemas que o município enfrenta.

A alternância no poder é um componente democrático saudável. Quem sabe, Chorrochó muda um pouco o entendimento político e apresenta outras alternativas à continuidade administrativa.

O povo fará a escolha. É o bastante. Tenham ou não raposas no caminho.

araujo-costa@uol.combr

 

Os milagres do senador baiano Ângelo Coronel

O Evangelho de São Mateus narra que Jesus Cristo contava com cinco pães e dois peixes e a partir deles operou a multiplicação, saciou a fome de uma multidão às margens do Lago da Galileia e ainda sobraram doze cestos de pães.

Na Bahia, o senador Ângelo Coronel (PSD), 2º vice-líder do partido, nascido em Coração de Maria, deputado estadual por seis mandatos e ex-presidente da Assembleia Legislativa, também operou alguns milagres: multiplicou seu patrimônio em poucos anos e adquiriu uma capacidade enorme de misturar dinheiro público com negócios privados sem cometer ilegalidades.

Não se sabe se o senador Ângelo Coronel olhou para o céu e deu graças, à semelhança de Jesus Cristo, mas sabe-se que somente em quatro anos, entre 2014 e 2018, quadruplicou o patrimônio.

Em 2006, o parlamentar declarou que possuía bens no total de R$ 35,8 mil. Em 2018, declarou R$ 5,67 milhões em bens, inclusive uma mansão avaliada em R$ 4,03 milhões.

Consta que o patrimônio de Ângelo Coronel multiplicou 158 vezes em 12 anos. Dentre seus bens, há uma empresa aérea, a Jet Gold Serviços Aéreos e outra no Panamá.

Em seu escritório político, no Caminho das Árvores, em Salvador, o senador emprega 16 auxiliares, todos comissionados e no gabinete no Senado Federal esse número sobe para 23 servidores, sendo 20 comissionados. Todos pagos com os impostos que os brasileiros recolhem com sacrifício. Nos dois casos, há salários de R$ 22,9 mil.

Dados recentes indicam que Ângelo Coronel embolsou do Senado Federal R$ 206 mil, para despesas de apoio, dentre elas, combustíveis, passagens aéreas, correio, et cetera, além dos subsídios parlamentares.

Ângelo Coronel comumente viaja de Salvador a Brasília em avião particular próprio, mas abastecido com dinheiro público da quota parlamentar. Singela parceria público-privada, uma dessas imoralidades que o Poder Legislativo permite.

Aliado do governador Rui Costa (PT), o senador Ângelo Coronel tem um passado nebuloso. Quando deputado estadual, consta que gastou recursos públicos da cota parlamentar na ordem de R$ 566 mil, para pagamento a empresas de comunicação de sua família.

Nos conchavos de 2018, o governador Rui Costa (PT) deu uma rasteira em Lídice da Mata, que tinha vaga garantida no Senado Federal e lá entronou Ângelo Coronel. Político acostumado com assuntos paroquiais, Ângelo Coronel está rindo à toa, apesar desse amontoado de arranhões que carrega.

Mais: a imprensa noticiou que em 2018 ele contratou sua própria empresa, a Jet Gold Serviços Aéreos, para prestar serviços na campanha ao Senado, certamente paga com verba pública, o fundo eleitoral.

Mais ainda: “assessores de seu gabinete atuavam como funcionários de suas empresas e também comandavam organizações sociais que firmaram contratos com o poder público”, segundo noticiou a Folha de S.Paulo, matéria citada pelo Jornal do Brasil de 30/09/2019.

O senador deve ter-se explicado, justificado e provado a lisura de seu procedimento. É o mínimo que se espera de um homem público.

Mas não se tem conhecimento de que o senador Ângelo Coronel explicou o milagre da multiplicação dos pães. Melhor, da multiplicação de seus bens.

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Precatórios de Curaçá

Os precatórios de Curaçá já foram discutidos a mancheia. Assunto recorrente e mais do que isto, requentado.

Significam recursos provenientes de diferenças de transferências do Fundef de exercícios anteriores. Esses recursos vieram em boa hora para desafogar algumas demandas dos municípios.

O Fundef é uma garantia de vinculação de recursos ao ensino fundamental e de valorização do magistério.

O Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, mediante resolução, esclareceu os prefeitos quanto aos limites legais de utilização desses recursos, de modo que não cabe ao prefeito utilizá-los a seu talante. Há regras, parâmetros, normais para serem observadas e cumpridas.

Prefeito esperto segue tais normas à risca. Não cria embaraço para si próprio, mais à frente.

A Prefeitura de Curaçá, que parece bem assessorada, também esclareceu as dúvidas dos munícipes, especialmente de sindicalistas e, salvo engano, fez o mesmo relativamente a alguns vereadores de oposição, que alegaram desvio de finalidade como, por exemplo, pagamento indireto de despesas da festa dos vaqueiros de 2018 com recursos dos precatórios.

À época, a oposição falou em importe da ordem de R$ 836 mil usados irregularmente dos precatórios, embora pareça assunto já esclarecido. O que é suposto é hipotético e pode ser esclarecido a qualquer tempo.

O fato é que os recursos dos precatórios devem ser vinculados unicamente à educação, mas nem tudo pode. Salvo melhor juízo, construção de unidades escolares, ampliação e reformas estão dentro do que é possível fazer.

Não podem, por exemplo, dentre outras restrições: a aplicação em passivos trabalhistas, remuneração dos profissionais da educação e quitação de contratos de terceirização de mão de obra, quando se trata de substituição de servidores.

O prefeito de Curaçá – parece – está utilizando os recursos para melhorias e ampliação de equipamentos escolares e até, em certos casos, com estardalhaço desnecessário.

Talvez esta ostensividade tenha despertado mais a vigilância de opositores do prefeito, de olho nas eleições municipais de 2020. Mas nada há de errado nisto. Oposição é para fiscalizar mesmo. É o pensamento de Hegel (1770-1831): “Toda ideia precisa de outra que se lhe oponha para aperfeiçoar-se”.

Entretanto, a transparência da gestão pública geralmente envereda-se pelo caminho da política partidária. Essa é a praxe em todos os níveis de governo: a política institucional transmuda-se em propaganda de atos do gestor de plantão.

Um amigo me telefona de Curaçá: “não estou entendendo esse negócio de precatório”.

Na realidade, o que ele não estava entendendo era a discussão em torno do assunto, o frege, a politicagem, as informações distorcidas.

Tirantes eventuais ingredientes naturais da política partidária, é razoável supor que o prefeito de Curaçá esteja usando os recursos dos precatórios dentro da regularidade prevista na legislação e de acordo com a orientação dos órgãos de controle.

Nessa quadra do tempo, com tantas informações à disposição e assessorias competentes, imaginar que o prefeito construa arapuca para dificultar a aprovação de suas contas é por demais inadmissível.

Prefeito que se preza e preza os votos que recebeu cinge-se às regras, ao dever de bem administrar e facilita sua biografia.

Como uma conversa puxa a outra, pergunto: os recursos dos precatórios chegaram à Escola Otaviano Matos, de Patamuté?

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O professor de grego

O compadrio em política e administração pública se faz presente em nossa história há séculos.

A ineficiência do serviço público deve-se, quase sempre, ao inchaço da máquina administrativa, geralmente ocupada por pessoas despreparadas, a maioria delas içada aos cargos por seus padrinhos políticos.

É comum o chefe do Poder Executivo (prefeito, governador, presidente da República), no início de seu mandato, abarrotar as páginas da imprensa oficial com atos nomeando pessoas suas ou indicadas por correligionários seus. E nessa leva, amontoam-se os cargos de confiança, geralmente ocupados por pessoas absolutamente despreparadas para exercerem qualquer função pública.

Todavia, são apadrinhadas porque prestaram favor aos políticos em suas campanhas eleitorais ou são parentes de correligionários.

Há casos em que até passam a frequentar as páginas do folclore político nacional. Por exemplo, o jornalista Sebastião Nery fez o registro.

Vitorino Freire (1908-1977), político pernambucano nascido na fazenda Laje da Raposa, em Pedra, mas radicado no Maranhão, lá reinava tranquilo e sereno. Mandava, desmandava. Era senhor absoluto dos votos no estado durante décadas.

Vitorino tinha um compadre a quem lhe devia favores eleitorais. Chamou-o ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.

– Compadre, já consegui sua nomeação para professor de grego no Ginásio Estadual, aqui em São Luís.

– Que é isso compadre? Mal sei ler português, nunca vi uma palavra grega.

– Não tem importância. Como a disciplina é optativa, não há nenhum aluno matriculado.

Todo mês o compadre de Vitorino Freire comparecia ao Ginásio Estadual para assinar o ponto e habilitar-se para receber os vencimentos. Sem conhecer sequer uma letra grega.

Um dia foi comunicado pela direção do Ginásio que um aluno havia se matriculado para estudar grego. Ficou em pânico. Procurou Vitorino Freire.

– Compadre tem um aluno matriculado. O que faço?

– Tinha. Não tem mais. Já mandei prendê-lo. Um sujeito que quer estudar grego aqui em São Luís é doido ou comunista.

O compadre continuou professor de grego.

Os tempos mudaram. Hoje o Maranhão é governado pelo comunista Flávio Dino (PCdoB).

Coisas do sertão

O zoólogo e pesquisador Paulo Vanzolini (1924-2013), autor de Ronda, talvez a música mais tocada na noite boêmia paulista, costumava contar o caso de um prefeito do interior do Nordeste.

O repórter pergunta ao prefeito:

– É verdade que o senhor nomeou seu filho para um cargo na Prefeitura, embora ele não tenha qualificação para exercer a função?

– É verdade. Nomeei, sim. E daqui a alguns anos nomearei o filho dele, e mais tarde, o neto dele e se puder o bisneto dele.

– Por que prefeito?

– Porque quem manda na minha família sou eu. E chispe daqui.

O repórter chispou.

Pouca coisa mudou.

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Meu cemitério

“O amanhã pode ser o instante seguinte” (Ignácio de Loyola Brandão)

Em dia de reflexão, retirei de Navegação de Cabotagem o sábio e conhecido texto de Jorge Amado. Ei-lo:

 “Possuo um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento.

Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram; os que um dia tiveram minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salaflarice, do mau-caráter. Para mim, o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil.

No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outros varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas.

Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado” (Jorge Amado, in Navegação de Cabotagem)

Então, “o amanhã pode ser o instante seguinte”, apesar das turbulências do agora.

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Curaçá: o adeus de Elita Soares Ferreira

Início de ano, tempo propício para lançar um olhar retrospectivo sobre o ano que passou, não obstante acontecimentos nem sempre fáceis de serem absorvidos, conjecturados, esquecidos.

Tempo de vislumbrar o que mudou e pensamos que não mudou e atentar para o que não mudou e pensamos que mudou.

Ao apagar das luzes de 2019, em meio aos festejos de São Benedito e Bom Jesus da Boa Morte, Curaçá perdeu D. Elita Soares Ferreira.

D. Elita deu saudoso adeus aos parentes, aos amigos, ao mundo e a todos nós que ainda ficamos e se foi para a eternidade. É um adeus difícil, dilacerante, incompreensível. Sempre é difícil um adeus para sempre.

Viúva de José Ferreira Só (Zé de Roque), líder político e ex-prefeito de Curaçá, D. Elita deixa família numerosa, civilizada, exemplar.

As despedidas sempre nos deixam fios de lembrança, cutucam a memória por vezes esburacada e recordam fatos que marcaram nossas reflexões.

Vi D. Elita pela primeira vez em sua casa, em 1974. Zé de Roque apoiava o deputado estadual Jayro Nunes Sento Sé e o deputado federal Teódulo Lins de Albuquerque, ambos da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Jayro nascido em Juazeiro e Teódulo em Pilão Arcado.

Jayro Sento Sé fez uma visita ao líder Zé de Roque em Curaçá e os estudantes do Colégio Municipal Professor Ivo Braga aos quais me incluía foram pedir uma contribuição ao deputado, para o “Livro de Ouro”, com o intuito de sustentarem as solenidades de conclusão do curso ginasial. Zé de Roque viabilizou a visita.

Honra-me, até hoje, a amizade de juventude que mantive com dois filhos de D. Elita: Wilson José Soares Ferreira e David José Ferreira Só, meus colegas no Colégio Ivo Braga.

O tempo me permitiu conviver com D. Elita também na Prefeitura de Curaçá.

A humildade de D. Elita era impressionante. Olhar sincero, palavras sábias, sorriso que falava à alma. Quiçá tenha sido essa sabedoria exemplar e ímpar que atapetou o caminho que ela trilhou na construção de sua nobre família.

Se a memória não me falha – e sempre falha – o casamento de D. Elita e Zé de Roque lhes permitiu os filhos Hélio, Juscelita Rosa, Helita, Maria do Socorro, Roque, Lilian, Edna, Fábio, Davi, Marcos Aurélio e Wilson.

Este escrevinhador pede escusas à nobre família de D. Elita se os nomes citados estão grafados incorretamente e se a citação contém omissões ou erros. O passar das décadas corrói a memória, dificulta a plenitude das lembranças.

Entretanto, vale aqui, precipuamente, tão somente o registro no sentido de que D. Elita era esteio e exemplo de vida e cuidou, com desvelo, dessa família numerosa.

A ida de D. Elita deixa Curaçá mais vazio. A família curaçaense perde uma de suas valiosas estruturas.

E as dobras do tempo se encarregam de impedir o esquecimento de sua presença entre nós.

araujo-costa@uol.com.br

Rui Costa e o Colégio Odorico Tavares

Em sua terceira gestão (1991-1994), o governador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) construiu o Colégio Estadual Odorico Tavares com capacidade para 3.000 alunos.

Agora o governador Rui Costa (PT) decidiu fechar o colégio e passar a área de aproximadamente 5.000 m2 para as construtoras, que certamente construirão em seu lugar ricas e milionárias torres para abrigarem poderosos.

A notícia do fechamento do colégio não causou, até agora, nenhuma reação considerável ou protesto dos sindicalistas ligados à educação no estado e o motivo desse silêncio é muito simples: quase todos são aliados do governador Rui Costa.

Aliás, a sociedade baiana está silente. Na Bahia, até as formigas são eleitoras de Rui Costa.

Trata-se de uma história de parece, mas não é. O governador alega que os alunos da periferia têm dificuldades de deslocamento até o colégio, mas a história parece ser outra.

O Colégio Odorico Tavares situa-se na Avenida Sete de Setembro, no Corredor da Vitória, onde mora a fina flor da elite baiana: políticos, empresários, artistas, et cetera, inclusive o ex-governador e senador Jaques Wagner (PT) que é proprietário de um apartamento-mansão lá com vista para a Baía de Todos os Santos.

Os esquerdistas são assim. Defendem os pobres, desde que os pobres fiquem longe deles. A direita faz o mesmo. Esquerda e direita são embromações ideológicas.

O fato é que o Colégio Odorico Tavares é um estorvo para a visão dos magnatas, porque está atrapalhando a paisagem bucólica dos ricaços e é possível que a pressão imobiliária esteja contribuindo para a implosão do estabelecimento.

Em 2017, o secretário estadual de educação Walter Pinheiro (PT) disse que “estava trabalhando com a lógica de repaginar o Odorico, inclusive fazendo um trabalho social importante”, donde se vê que, dois anos é um período exíguo para o governador mudar de ideia e resolver fechar a escola e vender o terreno.

Das duas uma: falta de planejamento ou surgimento de outro cenário, ainda nebuloso.

O Corredor da Vitória possui o metro quadrado mais caro de Salvador e um apartamento por lá chega a custar R$ 7 milhões. Então, não fica bem para os olhos dos ricos, um intrometido colégio frequentado pela classe baixa atrapalhando a visão da riqueza.

Vê-se um contrassenso enorme neste caso. Rui Costa, governador popular de esquerda, fechando escola e, em consequência, expulsando os pobres do centro de Salvador e limitando-os à periferia. É como se dissesse: lá moram, lá estudem, fiquem por lá.

Ninguém pode negar esta evidência, nem mesmo os arraigados petistas.

O governador quer deixar os habitantes da periferia na periferia. Onde já se viu pobre estudar no Corredor da Vitória?

O próprio governador disse em recente entrevista à TV Itapoan, que vai entregar o imóvel e respectivo terreno do Odorico Tavares para a construtora que lhe prometer construir mais escolas na periferia.

Parece aqui, que não é caso de submeter-se a promessas das construtoras, mas de o governador construir mais escolas tanto na periferia quanto em todo o território de Salvador e da Bahia.

O governador Rui Costa é petista – ninguém é perfeito – mas é um sujeito decente e humilde. Nasceu e viveu na periferia, entende de dificuldades e de pobreza. Certamente fará uma reflexão mais apurada sobre o caso do Colégio Odorico Tavares, de modo que não prejudique a população carente.

Rui Costa ainda não foi atingido pelas investigações que apuram as maracutaias dos petistas no poder. Se continuar assim, imune, será o nome do Partido dos Trabalhadores (PT) mais abalizado para disputar a presidência da República nas eleições de 2022. Não há outro no partido. A pureza de Jaques Wagner já foi quebrada. Investigações já arranharam seus calcanhares.

Post scriptum:

Odorico Montenegro Tavares da Silva (1912-1980) era pernambucano de Timbaúba, mas radicado na Bahia. Jornalista, escritor e poeta dirigiu os Diários e Emissoras Associados. Faziam parte deste conglomerado de comunicação de Assis Chateaubriand a Rádio Sociedade da Bahia e os jornais Diários de Notícias e Estado da Bahia.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva e os recibos de propina

“Nunca antes, neste País”, diria Lula da Silva.

Lula da Silva inovou e os humoristas gostaram.

Talvez este seja o único caso em que o suposto corrupto dá recibo de propina, embora o precedente seja do próprio Lula.

Não estou dizendo que Lula é corrupto. Há duas sentenças judiciais condenatórias dizendo isto, mas ele continua insistindo que vai provar sua inocência em todos os processos. É possível que prove. Seu amplo e constitucional direito de defesa lhe permite. Mas ainda não provou. Quando provar, se provar, as sentenças perderão a eficácia e não se falará mais nisto. Desaparecerão do mundo jurídico.

“Nunca antes, neste País” se teve notícia de um caso semelhante.

Em recente indiciamento de Lula da Silva – mais um – a Polícia Federal apresentou quatro recibos de R$ 1 milhão cada um, que corresponderia a propina que a Construtora Norberto Odebrecht passou ao ex-presidente.

Uma generosa “doação” de R$ 4 milhões. Difícil é explicar tanta generosidade.

Os recibos estão lá no inquérito, formais, carimbados e assinados pelo Instituto Lula. Ou seja, Lula da Silva atestou o recebimento da estratosférica bufunfa.

Marcelo Odebrecht, o “príncipe das empreiteiras”, entregou os recibos à Polícia Federal e disse que esses R$ 4 milhões são provenientes de uma conta corrente criada pela construtora especialmente para abastecer o Partido dos Trabalhadores (PT) de propina.

Antonio Palocci confirmou a existência da conta corrente-propinoduto.

Amigo pessoal de Lula da Silva, histórico fundador do PT e seu ministro da Fazenda, presume-se que Antonio Palocci não inventou e, menos ainda, com o intuito de prejudicar Lula.

Consoante as investigações em curso, a Odebrecht também “doou” R$ 12 milhões para compra de um imóvel para o Instituto Lula que, segundo Marcelo Odebrecht, provém da mesma conta-propina destinada ao PT. O PT nega. Mas esta é outra história.

Lula da Silva disse que não sabe a origem do dinheiro. O advogado de Lula disse que o dinheiro foi doado ao Instituto Lula – que é de Lula – e não a Lula, o que é juridicamente diferente.

O advogado de Lula tem razão. Uma coisa é o Instituto Lula e outra coisa é o próprio Lula, que hoje se acha uma ideia. “Eu sou uma ideia”, disse ele em discurso confuso, antes da prisão, em São Bernardo do Campo.

Conseguintemente, Lula hoje é uma abstração.

O problema é que o dinheiro entrou no mesmo bolso.

Estranho nisso tudo é passar recibo da propina recebida.

araujo-costa@uol.com.br