Fragmentos da história de Patamuté

“Aprendi que não há homem meio honesto. Ou são inteiramente honestos ou não o são” (Jânio Quadros, 1917-1992)

Adonai Matos Torres, nascido em 22.08.1925 e falecido em 30.10.2007, seguramente foi o político de maior destaque de Patamuté antes da ascensão de Theodomiro Mendes da Silva.

Entretanto, na época de Theodomiro, que foi prefeito de Curaçá por dois mandatos (1973-1977/1983-1988), surgiram outros homens públicos que também se dedicaram inegavelmente ao distrito. Exemplos: João Brandão Leite e João Pedro Cunha (Didi). Ambos foram vereadores de Curaçá.

Noutra quadra do tempo, mais tarde, da mesma linhagem familiar de Adonai, outro filho de Patamuté foi vereador de Curaçá e o fez com brilhantismo e considerável destaque e dedicação ao lugar: José Valberto Matos Leite.

O cotidiano de político do interior é sinônimo de presença diuturna na vida das pessoas carentes. Adonai fez isto com maestria. Filho de Otaviano Matos, major da Guarda Nacional, uma honraria instituída pelo Império e neto do coronel Galdino Ferreira Matos (1840-1930), primeiro chefe político de Patamuté, Adonai herdou de seus ascendentes o gosto e a dedicação à causa do povo.

A política partidária foi sua glória e seu fracasso.

Político marcadamente populista, Adonai entendia que o povo é a razão de ser do homem público. Assim, teve seus momentos efêmeros de glória e outros tantos de fracasso.

Tinha qualidades inquestionáveis, dentre essas a fidelidade aos amigos e o respeito aos eleitores.

Quando aliado do prefeito José Félix Filho (Zé Borges), talvez nesse período tenha experimentado o auge de sua glória como político e representante de Patamuté.

Seu declínio político deu-se espontaneamente, por não mais acreditar nos homens da terra e em razão de decepções constantes e traições de próprios correligionários.

Homem sincero, Adonai não aceitava falhas de caráter. Nunca transigiu com falcatruas e jamais aceitou vantagens para flexibilizar as posições que defendia.

Irredutível em seus pontos de vista, a tocha que iluminava o seu caminho era a honestidade. Quando os ventos deixaram de lhe ser favoráveis, achou melhor ficar à margem da política, não obstante décadas de presença e atuação na vida de Patamuté.

Casado com D. Cleonice Pedroza Torres, uma elegante e respeitável senhora e esposa exemplar, Adonai constituiu família numerosa. Com ela viveu seus dias de ostracismo político, recolhido aos ditames de sua consciência.

Exemplo de dedicação aos filhos, mesmo em tempo de dificuldades, deixou-os criados, encaminhados profissionalmente, respeitáveis e moralmente sadios.

Homem de caráter irrepreensível, a atividade política de Adonai não lhe tirou a capacidade de dedicação aos mais humildes, independentemente de cor partidária. Era presença de destaque em tudo que se discutia no distrito.

Em 13.06.1968 foi um dos fundadores da Sociedade 13 de Junho de Patamuté e fez parte de sua primeira Diretoria ao lado de Manoel Brandão Leite, Mário Matos Lopes, José Mendes Fonseca e José Gomes Reis Filho.

Exemplo de homem público, Adonai Matos Torres deixou um legado para Patamuté: a honestidade e o amor que sempre dedicou à terra. Filho ilustre do lugar, merece ser reverenciado, sempre.

A história também se escreve com os ideais dos antepassados que indicaram, cada um a seu modo, o caminho por onde hoje trilhamos.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté é negligente com sua história

“Sonhador é aquele que percebe a aurora antes dos outros” (Oscar Wilde, 1854-1900).

Os prefeitos que Curaçá produziu nas últimas décadas não conseguiram perceber a aurora da história do município.

Com raríssimas exceções e algumas poucas ações visíveis na sede do município, todos se olvidaram no que concerne à cultura e às tradições do lugar.

A cultura e as tradições de um povo devem ser perpetuadas, principalmente, através da iniciativa e ação de seus governantes.

Curaçá está devendo – e Patamuté, por extensão – uma homenagem póstuma à professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes, ícone do ensino estadual em Patamuté nas décadas de 1960/1970.

Afigura-se inadmissível para este escrevinhador, que não somente a professora Beatriz, mas outras que se dedicaram ao ensino em Patamuté tenham sido colocadas na vala do esquecimento pelas autoridades, mormente os prefeitos.

É verdade, todavia, que alguns deles sequer sabiam o que é cultura e/ou tradição, mas esta é outra história. Os eleitores os colaram lá, democraticamente. Isto é o bastante. Escolher errado também é um direito democrático.

Ademais, é forçoso presumir que Patamuté sempre teve representantes eleitos na Câmara Municipal de Curaçá, mesmo que em períodos alternativos. Nem assim, tais representantes cuidaram da história do lugar. Desleixo, falta de visão ou talvez desconhecimento da função legislativa.

Os vereadores de Curaçá sempre se ativeram ao assistencialismo exacerbado, ao “tapinha nas costas” do eleitor, aos efusivos cumprimentos.

Eles entendem que a função legislativa se resume ao comparecimento a rodas de São Gonçalo, festas nas fazendas, et cetera. É fato inegável, incontrastável.

A função legislativa sempre foi negligenciada, desvalorizada, apequenada. Entretanto –  reconheço –  este não é privilégio ou vergonha somente de Curaçá.

A professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes integrou o então Departamento de Educação Primária, da Secretaria de Educação e Cultura da Bahia. Nesta condição, atuou exemplarmente no ensino de Patamuté.

A homenagem que reivindico em benefício da memória da professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes é simples, embora cônscio de que não disponho de nenhum lastro político ou prestígio para tanto: que seu nome seja atribuído a algum equipamento público ou equivalente de Patamuté, quer seja uma rua, estrada vicinal ou escola a ser eventualmente construída.

Deixo a sugestão ao prefeito Pedro Oliveira (PSC), que anda alardeando por aí que está fazendo muito ou tudo pelo município, embora não se vislumbre tanto e este escrevinhador não duvide de sua eficiência administrativa.

A sugestão humilde é extensiva aos vereadores que hoje se dizem preocupados com os assuntos de Patamuté e ao prefeito e vereadores que serão eleitos no próximo pleito de 2020.

Aqui, uma pergunta ousada, atrevida: Patamuté tem representante junto à Prefeitura?

Os homens públicos também devem ter iniciativas e torná-las realidade, embora saibamos que exigir iniciativas de homens públicos é uma tarefa ingente e difícil, quiçá inútil.

É indefensável a negligência dos homens públicos de Curaçá relativamente à história de Patamuté.

Em 1975, o delegado de Polícia de Patamuté era Cleómenes Brandão Matos (Quezinho). Para quem não sabe – e ninguém tem obrigação de saber – Patamuté tinha delegado de Polícia.

Salvo engano, na estrutura do Estado, o distrito tinha sub-delegado de polícia, geralmente chamado delegado, o que aqui pouco importa.

À época, jovem e inexperiente e hoje mais inexperiente do que velho, perguntei a Quezinho, porque o mercado municipal de Patamuté, construído pelo prefeito José Félix Filho (Zé Borges) na década de 1960, não tinha o nome de um antepassado do lugar, mas apenas a inscrição Mercado Municipal.

A resposta sábia e pronta de Quezinho foi esta: “porque Patamuté não cuida de sua história”.

Nunca esqueci esta lição.

Como se vê, continua como dantes.

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Chorrochó e a contribuição do padre Mariano

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo da envelhescência  – padre Mariano Pietro Brentan chegou a Chorrochó em 04.01.1986.

Portanto, trinta e quatro anos se completam neste mês de janeiro de 2020, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de substituir o padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote, pescador de homens, com um trabalho incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, salvo engano: a capela Nossa Senhora da Conceição e a construção do Centro Paroquial de Chorrochó.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para transformar-se num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci o padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade, em Chorrochó. Socorro e Virgílio são exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiado, padre Mariano é, seguramente, um defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha e, em razão dessas decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Padre Mariano Pietro Brentan é dedicado, culto, atencioso. Se eu pudesse, instituiria uma diocese e lhe entregaria. Ele, certamente, cuidaria muito bem dela, com seu talento de sacerdote e vocação de apóstolo de Cristo.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e o Padre Conceição

Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

Neste tempo da festa de Senhor do Bonfim, os católicos de Chorrochó também reverenciam a memória do padre Conceição.

Conheci o padre Ulisses Mônico Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José, um feito do líder Dorotheu Pacheco de Menezes junto à Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC).

A tendência para a observação, própria dos jovens, deu-me a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar-me isto.

Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário do lugar, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja.

Além da utopia e da sede do absoluto próprias dos jovens, a juventude sempre procura exemplos. Na Igreja vai buscar mutos deles.

A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral.

Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó.

Muito presente na vida da comunidade, padre Conceição era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante, atendia a todos que o abordavam.

No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária aos sonhos da adolescência. A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes.

Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”. Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições.

Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

Nascido em 09.09.1914, em Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade e criada em 27.01.1985. Uma acertada decisão da diocese em favor de Chorrochó.

A Paróquia de Chorrochó está completando 35 anos. Nela se insere a participação frutífera do padre Conceição, esteio de sua história.

Vinha já de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloquência de seus ensinamentos. Eloquência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia.

As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó, onde outro pastor andante, Antonio Conselheiro, no final do século XIX, edificou a primeira igreja até hoje existente, que resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária.

Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens, mas “não se rendeu”, como disse Euclides da Cunha.

Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Substituiu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, um italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.

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A cultura e a inconveniência dos extremos

“Revelar a arte e encobrir o artista é a razão de ser da arte” (Oscar Wilde, Dublin 1854 – Paris, 1900)

A imprensa vem abarrotando o noticiário com o destrambelhamento do ex-secretário de Cultura do Brasil, ao valer-se de frase e pensamento do ministro da propaganda de Hitler, para definir a arte brasileira, a partir desta década.

Imbecil e inaceitável o comportamento do dramaturgo e ex-secretário de Cultura Roberto Alvim.

O ex-secretário, que demonstrou inegável despreparo para o cargo, confundiu arte com artista. Mais: em princípio, tentou argumentar que não sabia a origem do texto, gravado por ele em vídeo, atribuindo-o a seus assessores. Inútil.

Como se vê, trata-se de um incompetente. Mais do que isto: arrogante, boçal, estúpido, grosseiro, desrespeitoso.

Qualquer estudante secundarista conhece aquele texto de Joseph Goebbels. O ex-secretário de Cultura do Brasil disse desconhecer. Então, deveria procurar outra profissão, mas nunca se habilitar para definir os rumos da cultura do Brasil.

Com assessores como o ex-secretário Roberto Alvim, o governo do presidente Bolsonaro não precisa de adversários. Sequer precisa de aprendiz de oposição.

O artista pode ser ideológico ou ideólogo, mas não se confunde com a arte. A arte não é nacional, municipal ou de qualquer governo, seja ele de direita ou de esquerda.

A arte é universal, não tem fronteiras, não se limita a ideologias. Existe por si só, independentemente de formuladores de opinião sobre cultura, quer sejam idiotas, imbecis ou ingênuos.

A defesa da arte não significa o extermínio de quaisquer pensamentos contrários, tampouco deve significar a adoção de práticas extremistas e abomináveis.

A cultura não pode adstringir-se a extremos, de direita ou de esquerda.

Errou ridiculamente o ex-secretário Roberto Alvim. Queimou sua já paupérrima biografia.

Só para lembrar: quando eclodiu o movimento militar de 1964, que implantou a ditadura no Brasil, o coronel Humberto de Melo, manda-chuva da “Revolução” na Bahia, lançou um manifesto que, dentre outros absurdos, exigia o fechamento das boates para salvar a moral da família e os bons costumes.

A atitude de Roberto Alvim, ex-secretário de Cultura do Brasil, demitido de suas funções pelo presidente da República, ao falar sobre a arte, que dela não entende, faz lembrar esses extremos.

No cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, na lápide de Carlos Marighella, ícone da esquerda do Brasil, assassinado pela ditadura em 06/11/1969 na Alameda Casa Branca, em São Paulo, o arquiteto Oscar Niemeyer estilizou a frase do líder esquerdista: “Não tive tempo de ter medo”.

Atos imbecis como este de Roberto Alvim despertam em todos nós, vigilantes da democracia, o sentimento unânime: não podemos ter medo.

Avante, Brasil!

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, Senhor do Bonfim e outras observações

Chorrochó, no sertão baiano, está em festa nesta segunda metade do corrente mês de janeiro.

Sendo assim, não é tempo de falar de coisas ruins como, por exemplo, gestões indolentes,  governos apáticos e políticos relapsos.

A população de Chorrochó está em êxtase, mormente os católicos. Quem católico não é também vive a ocasião com euforia, porque se irmana a todos. É ocasião de encontros, de matar saudade, de rever parentes e amigos.

Os filhos e amigos de Chorrochó abrem um parêntese, um hiato em suas rotinas e se entregam a esses dias de paz, reflexão e harmonia.

Precisamos disto, todos precisam disto.

Numa quadra da festa, é tradição da igreja orar pelos filhos ausentes que, por alguma razão, moram distantes ou não podem comparecer às festividades.

Este escrevinhador não se faz presente há anos. As razões são muitas.

E se não é tempo de falar de coisas ruins, sobra espaço para falar das coisas de Deus que, no dia-a-dia, pouco nos ocupamos com elas.

A festa de Senhor de Bonfim de Chorrochó é uma tradição religiosa muita antiga, secular. Há muitas pessoas de Chorrochó que entendem muito deste assunto.

Atrevo-me a citar alguns nomes, sem menospreciar os demais:  professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes, que escreve irrepreensivelmente bem sobre Chorrochó, sua história e tradições; professora Maria Therezinha de Menezes; professora Maria Rita da Luz Menezes e o Dr. Francisco Afonso de Menezes, dentre outros.

A professora Neusa é dedicada, inteligente, culta e, sobretudo, defensora intransigente dos valores de Chorrochó. É um esteio cultural admirável.

As festividades religiosas de Senhor do Bonfim são coordenadas por D. Guido Zendron, bispo de Paulo Afonso, ex-integrante do clero da tradicionalíssima arquidiocese italiana de Trento.

D. Guido adotou o lema episcopal Cristo, Redentor dos homens e tem com ele sustentado a fé dos católicos da diocese de Paulo Afonso.

Grande parte do movimento da festa acontece numa praça nas imediações do sagrado templo de Senhor do Bonfim, que tem nome, mas o nome não é visto, ninguém sabe, ninguém viu.

É a Praça Prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes que, salvo melhor juízo, a Câmara Municipal aprovou lei denominando-a assim, mas o Poder Executivo não a sancionou.

O projeto teve a participação ativa do então vereador Marcos Vinicius Pereira Jericó (Ciel Jericó), que se empenhou com vistas à aprovação que, de resto, persiste, embora não visível.

Não sei os motivos dessa resistência, desconheço a razão do engavetamento da lei aprovada pela edilidade, mas como não é tempo de falar de coisas ruins, deixa pra lá.

À época, o município era administrado pela educadora Rita de Cássia Campos Souza, que deu de ombro e jogou no limbo o dever de sancionar a norma aprovada pela Câmara Municipal.

Estranho é uma educadora que, pressupõe-se, deve ser afeita às coisas da cultura, não primar pelo zelo de um assunto dessa natureza.

O fato é que Chorrochó está em festa. E fato é também que o povo está feliz, momentaneamente feliz. Estaria mais, se o município estivesse entregue em mãos mais cuidadosas. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

Lembro que na primeira missa celebrada em memória de Dorotheu Pacheco de Menezes, na igreja de Senhor do Bonfim de Chorrochó, eu disse essas palavras, aliás, muito mal pronunciadas, tendo em vista a emoção do momento: “Ser homem público é ser curioso com a vida, cutucar a história e conspirar para mudar o tempo”. É uma citação do falecido político cearense Armando Falcão.

Hoje o nome de Dorotheu estaria visível na praça, em respeito ao povo de Chorrochó e à memória desse homem público, se a chefia do Poder Executivo Municipal de então tivesse cumprido o seu papel neste particular, cutucado a história e conspirado para mudar o tempo. Mas não é tempo de falar de coisas ruins.

A administração municipal mudou de mãos e a praça continua lá, sem identificação.

Mas é tempo de paz,  tempo de reflexão, tempo de abraços.

Deus seja louvado. Senhor do Bonfim seja louvado.

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Chorrochó dá sinais de novos horizontes na política

“Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens, 1902-1985)

Carlos Alberto Libânio Christo (frei Betto), abalizado intelectual da esquerda católica do Brasil, mineiro, frade dominicano, jornalista, escritor, humilde, respeitado em todos os segmentos sociais, diz que a palavra “raposa”, em política, foi usada pela primeira vez por Jesus Cristo ao referir-se a Herodes Antipas, governador da Galileia.

Em 24.11.2019, neste mesmo espaço e com o título Em Chorrochó, tempo de construir trincheiras, este escrevinhador ponderava que hoje, parece razoável entender que a única força capaz de enfrentar a situação em Chorrochó é liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tendo à frente o vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio) ou quem ele apoiar como protagonista nas próximas eleições municipais.

Agora o vereador Beto de Arnóbio sinalizou a expectativa de que Chorrochó terá candidato de oposição nas eleições municipais de 2020, mais especificamente do Partido dos Trabalhadores (PT).

Demorou, mas parece o caso de não apressar o rio. A oposição sinaliza que vai chegar à disputa eleitoral de Chorrochó em 2020. Espera-se que não seja um arremedo de oposição, reticente e tímida, como nas eleições passadas.

Apresentar candidato a prefeito seja ou não do PT, é o caminho natural da oposição em Chorrochó, se não quiser repetir os erros de sempre, ou seja, continuar desorganizada e recolher-se à insignificância após a abertura desfavorável das urnas.

Nota-se que há um cansaço da mesmice, da repetição, do situacionismo reiterado em Chorrochó. A oposição ainda não conseguiu preencher essa lacuna.

A história registra que nenhum grupo político alcançou sucesso quando a vaidade e o egoísmo de seus membros foram maiores do que os objetivos colimados pelo todo. Por isto, a oposição de Chorrochó não teve êxito nas eleições anteriores.

Supõe-se, em quadro assim, que os vereadores de Chorrochó que se dizem de oposição devem ter vislumbrado alguma credibilidade com a população capaz de construir um esteio para sustentar a disputa da eleição para prefeito do município.

Em Chorrochó, além dos vereadores de oposição, há outras lideranças que se abrigam em segmentos opostos ao prefeito, mas não atuam ostensivamente.

Entretanto, Chorrochó não teve, pelo menos nas duas últimas décadas, nenhuma tradição de antagonismo político, de modo que é muito difícil a oposição enfrentar o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP), reconhecidamente uma “raposa” experiente, com redundância e tudo, mesmo que ele decline da disputa e indique outro nome.

O prefeito Humberto costuma dizer que faz parte de um grupo político, está à disposição do grupo e acata o que grupo decidir. Conversa de raposa política. O grupo a que ele se refere é ele próprio. É candidatíssimo, exceto se houver algum impedimento até lá.

De qualquer forma, é alvissareira a notícia de que a oposição de Chorrochó pensa em desenferrujar-se e sair às ruas expondo suas ideias e apontando caminhos que entende viáveis para a solução dos problemas que o município enfrenta.

A alternância no poder é um componente democrático saudável. Quem sabe, Chorrochó muda um pouco o entendimento político e apresenta outras alternativas à continuidade administrativa.

O povo fará a escolha. É o bastante. Tenham ou não raposas no caminho.

araujo-costa@uol.combr

 

Os milagres do senador baiano Ângelo Coronel

O Evangelho de São Mateus narra que Jesus Cristo contava com cinco pães e dois peixes e a partir deles operou a multiplicação, saciou a fome de uma multidão às margens do Lago da Galileia e ainda sobraram doze cestos de pães.

Na Bahia, o senador Ângelo Coronel (PSD), 2º vice-líder do partido, nascido em Coração de Maria, deputado estadual por seis mandatos e ex-presidente da Assembleia Legislativa, também operou alguns milagres: multiplicou seu patrimônio em poucos anos e adquiriu uma capacidade enorme de misturar dinheiro público com negócios privados sem cometer ilegalidades.

Não se sabe se o senador Ângelo Coronel olhou para o céu e deu graças, à semelhança de Jesus Cristo, mas sabe-se que somente em quatro anos, entre 2014 e 2018, quadruplicou o patrimônio.

Em 2006, o parlamentar declarou que possuía bens no total de R$ 35,8 mil. Em 2018, declarou R$ 5,67 milhões em bens, inclusive uma mansão avaliada em R$ 4,03 milhões.

Consta que o patrimônio de Ângelo Coronel multiplicou 158 vezes em 12 anos. Dentre seus bens, há uma empresa aérea, a Jet Gold Serviços Aéreos e outra no Panamá.

Em seu escritório político, no Caminho das Árvores, em Salvador, o senador emprega 16 auxiliares, todos comissionados e no gabinete no Senado Federal esse número sobe para 23 servidores, sendo 20 comissionados. Todos pagos com os impostos que os brasileiros recolhem com sacrifício. Nos dois casos, há salários de R$ 22,9 mil.

Dados recentes indicam que Ângelo Coronel embolsou do Senado Federal R$ 206 mil, para despesas de apoio, dentre elas, combustíveis, passagens aéreas, correio, et cetera, além dos subsídios parlamentares.

Ângelo Coronel comumente viaja de Salvador a Brasília em avião particular próprio, mas abastecido com dinheiro público da quota parlamentar. Singela parceria público-privada, uma dessas imoralidades que o Poder Legislativo permite.

Aliado do governador Rui Costa (PT), o senador Ângelo Coronel tem um passado nebuloso. Quando deputado estadual, consta que gastou recursos públicos da cota parlamentar na ordem de R$ 566 mil, para pagamento a empresas de comunicação de sua família.

Nos conchavos de 2018, o governador Rui Costa (PT) deu uma rasteira em Lídice da Mata, que tinha vaga garantida no Senado Federal e lá entronou Ângelo Coronel. Político acostumado com assuntos paroquiais, Ângelo Coronel está rindo à toa, apesar desse amontoado de arranhões que carrega.

Mais: a imprensa noticiou que em 2018 ele contratou sua própria empresa, a Jet Gold Serviços Aéreos, para prestar serviços na campanha ao Senado, certamente paga com verba pública, o fundo eleitoral.

Mais ainda: “assessores de seu gabinete atuavam como funcionários de suas empresas e também comandavam organizações sociais que firmaram contratos com o poder público”, segundo noticiou a Folha de S.Paulo, matéria citada pelo Jornal do Brasil de 30/09/2019.

O senador deve ter-se explicado, justificado e provado a lisura de seu procedimento. É o mínimo que se espera de um homem público.

Mas não se tem conhecimento de que o senador Ângelo Coronel explicou o milagre da multiplicação dos pães. Melhor, da multiplicação de seus bens.

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Precatórios de Curaçá

Os precatórios de Curaçá já foram discutidos a mancheia. Assunto recorrente e mais do que isto, requentado.

Significam recursos provenientes de diferenças de transferências do Fundef de exercícios anteriores. Esses recursos vieram em boa hora para desafogar algumas demandas dos municípios.

O Fundef é uma garantia de vinculação de recursos ao ensino fundamental e de valorização do magistério.

O Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, mediante resolução, esclareceu os prefeitos quanto aos limites legais de utilização desses recursos, de modo que não cabe ao prefeito utilizá-los a seu talante. Há regras, parâmetros, normais para serem observadas e cumpridas.

Prefeito esperto segue tais normas à risca. Não cria embaraço para si próprio, mais à frente.

A Prefeitura de Curaçá, que parece bem assessorada, também esclareceu as dúvidas dos munícipes, especialmente de sindicalistas e, salvo engano, fez o mesmo relativamente a alguns vereadores de oposição, que alegaram desvio de finalidade como, por exemplo, pagamento indireto de despesas da festa dos vaqueiros de 2018 com recursos dos precatórios.

À época, a oposição falou em importe da ordem de R$ 836 mil usados irregularmente dos precatórios, embora pareça assunto já esclarecido. O que é suposto é hipotético e pode ser esclarecido a qualquer tempo.

O fato é que os recursos dos precatórios devem ser vinculados unicamente à educação, mas nem tudo pode. Salvo melhor juízo, construção de unidades escolares, ampliação e reformas estão dentro do que é possível fazer.

Não podem, por exemplo, dentre outras restrições: a aplicação em passivos trabalhistas, remuneração dos profissionais da educação e quitação de contratos de terceirização de mão de obra, quando se trata de substituição de servidores.

O prefeito de Curaçá – parece – está utilizando os recursos para melhorias e ampliação de equipamentos escolares e até, em certos casos, com estardalhaço desnecessário.

Talvez esta ostensividade tenha despertado mais a vigilância de opositores do prefeito, de olho nas eleições municipais de 2020. Mas nada há de errado nisto. Oposição é para fiscalizar mesmo. É o pensamento de Hegel (1770-1831): “Toda ideia precisa de outra que se lhe oponha para aperfeiçoar-se”.

Entretanto, a transparência da gestão pública geralmente envereda-se pelo caminho da política partidária. Essa é a praxe em todos os níveis de governo: a política institucional transmuda-se em propaganda de atos do gestor de plantão.

Um amigo me telefona de Curaçá: “não estou entendendo esse negócio de precatório”.

Na realidade, o que ele não estava entendendo era a discussão em torno do assunto, o frege, a politicagem, as informações distorcidas.

Tirantes eventuais ingredientes naturais da política partidária, é razoável supor que o prefeito de Curaçá esteja usando os recursos dos precatórios dentro da regularidade prevista na legislação e de acordo com a orientação dos órgãos de controle.

Nessa quadra do tempo, com tantas informações à disposição e assessorias competentes, imaginar que o prefeito construa arapuca para dificultar a aprovação de suas contas é por demais inadmissível.

Prefeito que se preza e preza os votos que recebeu cinge-se às regras, ao dever de bem administrar e facilita sua biografia.

Como uma conversa puxa a outra, pergunto: os recursos dos precatórios chegaram à Escola Otaviano Matos, de Patamuté?

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O professor de grego

O compadrio em política e administração pública se faz presente em nossa história há séculos.

A ineficiência do serviço público deve-se, quase sempre, ao inchaço da máquina administrativa, geralmente ocupada por pessoas despreparadas, a maioria delas içada aos cargos por seus padrinhos políticos.

É comum o chefe do Poder Executivo (prefeito, governador, presidente da República), no início de seu mandato, abarrotar as páginas da imprensa oficial com atos nomeando pessoas suas ou indicadas por correligionários seus. E nessa leva, amontoam-se os cargos de confiança, geralmente ocupados por pessoas absolutamente despreparadas para exercerem qualquer função pública.

Todavia, são apadrinhadas porque prestaram favor aos políticos em suas campanhas eleitorais ou são parentes de correligionários.

Há casos em que até passam a frequentar as páginas do folclore político nacional. Por exemplo, o jornalista Sebastião Nery fez o registro.

Vitorino Freire (1908-1977), político pernambucano nascido na fazenda Laje da Raposa, em Pedra, mas radicado no Maranhão, lá reinava tranquilo e sereno. Mandava, desmandava. Era senhor absoluto dos votos no estado durante décadas.

Vitorino tinha um compadre a quem lhe devia favores eleitorais. Chamou-o ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.

– Compadre, já consegui sua nomeação para professor de grego no Ginásio Estadual, aqui em São Luís.

– Que é isso compadre? Mal sei ler português, nunca vi uma palavra grega.

– Não tem importância. Como a disciplina é optativa, não há nenhum aluno matriculado.

Todo mês o compadre de Vitorino Freire comparecia ao Ginásio Estadual para assinar o ponto e habilitar-se para receber os vencimentos. Sem conhecer sequer uma letra grega.

Um dia foi comunicado pela direção do Ginásio que um aluno havia se matriculado para estudar grego. Ficou em pânico. Procurou Vitorino Freire.

– Compadre tem um aluno matriculado. O que faço?

– Tinha. Não tem mais. Já mandei prendê-lo. Um sujeito que quer estudar grego aqui em São Luís é doido ou comunista.

O compadre continuou professor de grego.

Os tempos mudaram. Hoje o Maranhão é governado pelo comunista Flávio Dino (PCdoB).

Coisas do sertão

O zoólogo e pesquisador Paulo Vanzolini (1924-2013), autor de Ronda, talvez a música mais tocada na noite boêmia paulista, costumava contar o caso de um prefeito do interior do Nordeste.

O repórter pergunta ao prefeito:

– É verdade que o senhor nomeou seu filho para um cargo na Prefeitura, embora ele não tenha qualificação para exercer a função?

– É verdade. Nomeei, sim. E daqui a alguns anos nomearei o filho dele, e mais tarde, o neto dele e se puder o bisneto dele.

– Por que prefeito?

– Porque quem manda na minha família sou eu. E chispe daqui.

O repórter chispou.

Pouca coisa mudou.

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