O deputado Mário Júnior pode ser a esperança do sertão

Jornalista é bicho inconveniente.

Escolho o horário do café da manhã, que o costume do sertão reúne a família – nem tanto como antigamente – e telefono para velho e experimentado líder político da Bahia, que o ostracismo o jogou nos braços da indiferença eleitoral.

Feitos os salamaleques de praxe, pergunto: tem algum líder político de futuro por aí, ainda?

– Rapaz, não tem não. Só aparece por aqui, em tempo de festa, o deputado Mário Negromente Júnior – foi a resposta um tanto reticente e pessimista, mas esclarecedora.

Mário Sílvio Mendes Negromonte Júnior, que tem nome de nobre português, é um jovem deputado federal de 39 anos, eleito pelo Partido Progressista da Bahia (PP).

O deputado Mário Júnior, nascido em Paulo Afonso, tem sólidas raízes no município de Glória, que o progresso hidrelétrico mudou o traçado original, engoliu tradições e suor dos antepassados e o renomeou de Nova Glória, num claro acinte à bonita e rica história de Curral dos Bois e Santo Antonio da Glória.

Terra do lendário Petronilo de Alcântara Reis, conhecido como coronel Petro e de seu ínclito neto Raimundo Reis de Oliveira, escritor, jornalista, político e cronista, Glória mantém intacta sua história de homens públicos respeitáveis.

O lastro biográfico do deputado Mário Júnior vem de longe. O avô Dionízio Pereira foi vereador e prefeito de Glória e seu respeitabilíssimo tio Dr. Adauto Pereira de Souza, honra e glória do sertão, foi prefeito de Paulo Afonso (1963-1966).

A mãe Ena Vilma Pereira de Souza Negromonte foi prefeita de Glória e o pai Mário Negromonte tem uma trajetória política que vai de deputado estadual a deputado federal por diversos mandatos e foi ministro das Cidades no governo de Dona Dilma Rousseff. Hoje é conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Salvo engano, está afastado judicialmente, mas esta é outra história.

Advogado com extensão em Harvard (EUA), o deputado Mário Júnior parece despontar como uma esperança para a caatinga. O sertanejo gosta de abraçar seus líderes, embora nem sempre líderes.

O Dr. Adauto Pereira de Souza nunca abandonou a caatinga, onde tinha amigos leais na amizade e fiéis na política. Assim faziam os homens públicos daquela geração, boa escola para os jovens políticos de hoje.

Mário Júnior pelo menos tem cavado algumas emendas parlamentares para a região e, sabe-se, é um parlamentar razoavelmente ativo.

O deputado terá futuro sadio, se ouvir a voz da ética e se desviar do caminho que seguem os políticos tradicionais no que tange à avidez por dinheiro público em benefício de interesses pessoais.

Vamos ver no que vai dar.

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O âmago do Judiciário da Bahia está podre.

Na Bahia, cumpre-se o que Rui Barbosa disse: “De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto”.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) mandou prender a desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago, ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, que tinha sido afastada das funções judicantes no mesmo magote do desembargador-presidente do Tribunal, Gesivaldo Brito.

Também já havia sido preso, por ordem do STJ, o juiz Sergio Humberto Sampaio.

Continuam afastados dos seus cargos em caráter temporário os seguintes magistrados baianos:

Gesivaldo Britto, desembargador presidente do Tribunal de Justiça;

José Olegário Monção, desembargador;

Maria da Graça Osório Pimental Leal, desembargadora e 2ª vice-presidente do Tribunal de Justiça;

Marivalda Moutinho, juíza de primeira instância;

Maria do Socorro Barreto Santiago, desembargadora (presa);

Sérgio Humberto Sampaio, juiz de primeira instância (preso);

Antonio Roque Neves, secretário jurídico do Tribunal de Justiça também está sendo investigado e foi preso. Dentre outras acusações, ele é suspeito de redigir as sentenças suspeitas da juíza Marivalda Moutinho.

Estarrecedor. Esses magistrados estão sendo acusados pela prática de diversos crimes, inclusive venda de sentença e formação de quadrilha.

A maioria pertence ao núcleo da direção do Tribunal de Justiça da Bahia, o que faz pressupor que o âmago do Judiciário baiano está podre.

Rui Barbosa tinha razão.

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A liderança política de Barra do Tarrachil

Em 1988, Dorotheu Pacheco de Menezes, que ostentava vistosa liderança em Chorrochó, indicou Luiz Pires Monte Santo, com base eleitoral em Várzea da Ema, para disputar a eleição de prefeito do município.

O candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Pires era um senhor virtuoso e decente de Barra do Tarrachil: Ariçon Gomes de Souza, da estirpe de Bento Freire de Souza, hoje nome de escola no distrito.

A linhagem da família de Ariçon Gomes de Souza faz parte da estrutura genealógica de Barra do Tarrachil e persiste com as gerações que se seguiram até os dias de hoje.

Luiz Pires perdeu a eleição, mas não perdeu o prestígio, o respeito e a admiração de segmentos da população, que vinham desde sempre, por conta do pai Manoel Pires Monte Santo, da mãe Antonia Tolentino e do tio Antonio Pires de Menezes (Dodô) que havia sido prefeito de Chorrochó (1971-1973).

Barra do Tarrachil vive política, respira política, ensina política. Terra de próceres experimentados, de lá saíram, além de vereadores, os prefeitos Pascoal Almeida Lima, João Bosco Francisco do Nascimento, Rita de Cassia Campos Souza e o atual Humberto Gomes Ramos, espécie de defensor diuturno de sua gente na visão de alguns e nem tanto na opinião de outros.

Barra do Tarrachil conduz-se abraçada ao Rio São Francisco, que lhe dá vida, banho e encantamento sob as bênçãos de outro Francisco, o excelso padroeiro do lugar, que por lá se entronou  nos idos de 1959.

Em 1988 Barra do Tarrachil se deslocou alguns quilômetros do traçado original, mas manteve as tradições, a hospitalidade, o cenário político e a grandeza de seus moradores.

As palavras escorregam e trazem a lembrança de outras lideranças locais, a exemplo da professora Ivanilde Gomes de Souza Ramos, formada em 1964, assim como de Lucas Alventino, proprietário da primeira loja de tecidos da Barra do Tarrachil e Ercília Fonseca de Souza, que se dedicou com afinco à igreja local.

Em quadro assim, é natural que despontem novas e importantes lideranças políticas em Barra do Tarrachil. Dou exemplos: Pascoal Almeida Lima Tercius, que desempenhou brilhante trabalho na condição de presidente da Câmara Municipal e Lívio Fonseca, jovem que aparece no cenário político do município com seguras chances de êxito, se tropeços no caminho não lhe tolherem suas eventuais pretensões.

Lívio Fonseca atua sobremaneira em defesa de pessoas desamparadas, com destaque na área de saúde. Pode parecer pouco, mas é assim que os caminhos do futuro político começam a ser estruturados, mormente em municípios carentes, que dependem continuamente do empenho de seus líderes.

O fato é que Barra do Tarrachil mantém vantajosa liderança política no município de Chorrochó. Além do prefeito, o distrito sustenta a representação na Câmara Municipal através dos vereadores Jane Edla Fonseca Souza, Eliete da Conceição e Pascoal Almeida Lima Tercius. Peço escusas ao leitor se omito outros nomes ou se os delineio incorretamente.

Para 2020, a hipótese alvissareira desenha um cenário em que Lívio Fonseca deverá participar mais acentuadamente da vida político-partidária de Chorrochó. Ele carrega – ou pelo menos se espera carregar – a honradez de Ariçon Gomes de Souza, que soube portar-se dignamente na vida política de Chorrochó.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, tempo de construir trincheiras.

O político Heitor Dias, que foi prefeito de Salvador (1959-1963) e senador (1971-1979) pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), baiano de Santo Amaro da Purificação, já velho e calejado da vida pública, sentenciou a conhecida e histórica frase: “agora estou ouvindo tudo, até conselhos”.

O município de Chorrochó, no sertão da Bahia, parece encaminhar-se para uma escolha parecida, mas sábia: tomar juízo ou ouvir conselhos da população, que vive em constante sofrimento.

Às voltas com conhecidos e crônicos problemas decorrentes de longa continuidade administrativa, penduricalhos e restrições de ordem jurídica ao prefeito, a  exemplo de processos judiciais à espera de julgamento, o município vai adentrar o ano eleitoral de 2020 tanto confuso do ponto de vista político quanto atarantado no que tange à escolha de seu futuro.

A oposição, como sempre, parece esvair-se, reduzida a um número ínfimo de políticos. Poucos se atrevem a contestar o governo municipal.

A atual administração, que não é lá um bom exemplo de decisões corretas, ainda vê chances seguras de manter-se no poder, por uma razão bastante simples: por enquanto, a perspectiva eleitoral dá conta de que o atual prefeito – se vier a concorrer e isto for possível sob o ponto de vista jurídico – sairá muito bem nas urnas. Hoje esta hipótese parece clara.

Todavia, em razão dos erros até aqui conhecidos, a gestão atual entrará na disputa eleitoral perdendo, o que é grave. E a oposição de Chorrochó até agora insiste em cometer o mais elementar dos erros políticos: o comodismo.

A oposição tímida, tem medo de escancarar a boca no sentido de cumprir o papel institucional de indicar caminhos e, sobretudo, apresentar projetos próprios para quando, eventualmente, assumir o poder. Mas resta a dúvida: a oposição de Chorrochó tem projetos?

Mas o que se vê em Chorrochó, sem dúvida, é uma demência política. A administração, valendo-se de um marketing arrevesado, usa obras e feitos de outras esferas governamentais, para pavimentar o caminho eleitoral.

A oposição, atônita, desempenha mero papel de circunstante, porque lhe faltam meios e estrutura para investigar, fiscalizar e construir estratégias de luta política.

Quando os tribunais de contas aprovam, mesmo com ressalvas, as contas do prefeito, isto é alardeado como se fosse um feito memorável. O prefeito, qualquer que seja ele, tem mesmo é que primar por contas inquestionáveis, enxutas, corretas. E não vangloriar-se porque as teve aprovadas.

Assim, a situação consolida-se e a oposição não chega a lugar nenhum.

O Poder Executivo não se engrandece, porque não realiza o bem comum esperado pela população e a oposição não constrói seu próprio caminho institucional, enquanto meio de defesa da sociedade. Falta-lhe, sobretudo, conhecer o nobre papel de ser oposição.

Os políticos de Chorrochó contentam-se em aparecer ao lado de autoridades – governador, deputados, senadores, secretários, etc – anunciando que reivindicaram ou conseguiram benefícios para o município, como se isto não fizesse parte de suas obrigações corriqueiras.

Situação e oposição apequenam-se diante dos problemas do município. O interesse público definha por falta de quem o defenda.

Chorrochó sente necessidade de sair desse marasmo político. Urge que a oposição encontre meios sadios para se tornar vigilante quanto a eventuais conchavos espúrios entre pessoas e grupos no ano eleitoral que se avizinha.

Em consequência deste quadro lúgubre, não é de todo recomendável administrar uma sociedade carente como a de Chorrochó baseada em propaganda, em detrimento de atos palpáveis, necessários, indispensáveis e urgentes.

É preciso que a administração tome juízo em benefício de todos. É preciso ouvir conselhos, não de pessoas, mas da própria consciência de quem tem o dever de governar.

Hoje, parece razoável entender que a única força capaz de enfrentar a situação em Chorrochó é liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tendo à frente o vereador Luiz Alberto de Menezes (Beto de Arnóbio) ou quem ele apoiar como protagonista nas próximas eleições municipais.

Todavia, em municípios do interior, os partidos políticos nunca tiveram importância. O que vale mesmo é o conchavo entre líderes locais, quase sempre voltados para seus interesses pessoais,  infelizmente.

Neste cenário, para Chorrochó, Partido dos Trabalhadores (PT) ou Partido Progressista (PP), tanto faz. Igualam-se na forma de agir. Estão aí os exemplos em diversas esferas de governo.

Outro nome de peso para enfrentar a corrente política do prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) continua sendo a médica Socorro Carvalho que –  dizem algumas fontes – está titubeante entre assumir o papel de candidata da oposição ou bandear-se para o lado do prefeito Humberto que, antes, já lhe deu uma rasteira monumental. À época ela não era confiável ao grupo político do prefeito, mas isto pode mudar. Ah, o tempo!

Padre Vieira disse que “o tempo atreve-se a colunas de mármore quanto mais a corações de cera”. Em política, o tempo também é implacável para derrubar estruturas.

Socorro Carvalho é líder respeitável em todo município. O que menos a população de Chorrochó espera da médica é uma eventual posição de neutralidade no pleito de 2020.

O homem público deve consultar sua consciência, sempre. Ou fará dela um arquivo empoeirado de ações pífias, vergonhosas e indefensáveis.

O município de Chorrochó não pode esperar.

É tempo de construir trincheiras em benefício da população.

araujo-costa@uol.com.br

As orações da desembargadora da Bahia

A desembargadora e 2ª vice-presidente afastada do Tribunal de Justiça baiano parece ser bem protegida por todos os santos da Bahia.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) assegura que Sua Excelência, dentre outras façanhas, fez 54 ligações para o acusado de ser o mentor do esquema de corrupção em que ela está sendo acusada de envolvimento.

Mas Sua Excelência se explicou ou tentou se explicar: disse que as ligações se davam em razão de “orações que fazia” para a mãe do suposto mentor do esquema corrupto, que tinha problemas de saúde.

Acontece – diz o STJ – que a desembargadora não fez nenhuma ligação para o telefone da suposta doente, mas para o telefone particular do filho da pessoa que alega ter precisado de orações. Não convenceu.

De outro turno, a desembargadora fez 114 ligações para um suspeito de envolvimento com tráfico de drogas e ataques a carros-fortes o que, convenhamos, não fica bem para uma magistrada de tão alta posição no Tribunal de Justiça. Nem para qualquer magistrado, seja ele de primeira ou última instância.

Mais: Sua Excelência possui 57 contas bancárias, segundo o STJ, embora não exista restrição legal para isto.

Não há restrição, tampouco há crime em manter a titularidade de tantas contas bancárias. Todavia, não é razoável que a titular dessas contas seja desembargadora de um Tribunal de Justiça, que deve primar pela transparência de suas ações.

Presume-se, portanto, que só com a ajuda dos santos da Bahia ela pode administrar tantas contas, já que, supõe-se, trabalha todos os dias no TJ-BA e, supõe-se, ainda, mantém expediente no Tribunal para o exercício de seu mister. Por óbvio, é o tribunal que paga seus altos vencimentos.

O STJ vai mais além para dizer que a desembargadora movimentou R$ 13,3 milhões entre janeiro de 2013 até agora e declina valores que seriam provenientes de vencimentos, mas em desconformidade com a realidade.

Entretanto, o STJ aduz que se trata de “um volume de ganhos totalmente incompatível com os vencimentos recebidos como servidora pública” (O Estado de S.Paulo, 20/11/2019).

Como se vê, a desembargadora precisa explicar mais alguma coisa ou, no mínimo, dizer quais os santos milagreiros que lhe dão essa eficiente e milionária proteção.

O presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado Nelson Leal (PP), que é sobrinho da célebre desembargadora e certamente não tem nada com isto, deve estar pedindo a proteção de Nossa Senhora.

Ele é produtor de mangas no município baiano de Livramento de Nossa Senhora, onde o pai foi prefeito.

Post scriptum:

A desembargadora Maria da Graça Osório Pimentel Leal está sendo acusada, o que não significa que seja culpada. Ela exercerá o direito constitucional de ampla defesa e, quiçá, poderá provar sua inocência.

Por outro lado, não é proibido ser rico. Sua Excelência pode ter outras fontes milionárias de renda, mas é absolutamente incompatível sua movimentação bancária com os vencimentos de magistrada.

araujo-costa@uol.com.br

 

Bahia: o Tribunal de Justiça está de cócoras

O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, mais três desembargadores e dois juízes estão em apuros. Acusados da prática de crime, esses magistrados foram afastados do exercício de seus respeitáveis cargos.

A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República estão nos calcanhares desses minúsculos magistrados, por ordem do Superior Tribunal de Justiça.

A encrenca é grande. Suas Excelências estão sendo acusados de venda de sentença, corrupção ativa e passiva, lavagem de ativos, evasão de divisas, tráfico de influência, grilagem de terras e formação de organização criminosa. Não é pouco.

Parece que agora está razoavelmente explicado porque o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia andava às turras com a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil.

A instituição ousou sinalizar que pretendia ficar atenta à atuação dos juízes baianos ou parte deles, que não estava cheirando bem. Registre-se que na Bahia há juízes impolutos, probos, incorruptíveis. Certamente a absoluta maioria.

Portanto, nem tudo está perdido. Mas é deprimente a sociedade ver o presidente do Tribunal de Justiça de seu estado, de quem devia vir o exemplo, acusado de crimes escabrosos.

O presidente do Tribunal seguiu à risca o ditado, segundo o qual “quem tem rabo de palha não pode passar perto do fogo”. Foi o que ele fez, embora sem êxito.

Agora as labaredas atingiram-no, mesmo ele tentando passar longe do fogo da seccional da OAB da Bahia.

Noticia-se que as investigações dizem que os magistrados estão envolvidos com, pelo menos, R$ 581 milhões, quantia essa angariada em razão de atividades ilegais que carrearam obviamente para a prática de crime.

Há muito que alguns magistrados da Bahia veem envergonhando os baianos, impunemente. É conhecida a tendência de alguns magistrados à delinquência. Poucos, felizmente.

Parece não ser possível minimizar este caso. Trata-se de uma operação monumental que envolve 200 agentes federais e procuradores, todos atuando contra esses maus juízes. Mais: a operação é autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça o que, por si só, dá a dimensão da delinquência investigada.

Do alto de suas corruptas arrogâncias, certamente esses pequenos magistrados deram muitas lições de moral em pessoas humildes que procuraram a Justiça para defesa de seus direitos, enquanto eles se locupletavam de dinheiro sujo, segundo o Superior Tribunal de Justiça.

Aliás, passar descomposturas em audiências é comum em magistrados pequenos, insignificantes, arrogantes.

A incompatibilidade entre a nobre função de magistrado e a prática de crime é abismal. Portanto, é inconcebível o desvio moral de magistrados.

O fato é que a Bahia está triste.

O Tribunal de Justiça da Bahia hoje está de cócoras.

araujo-costa@uol.com.br

Órfão da boemia.

Tantas vezes a história me foi contada e tantas outras me recusei a acreditar. Mas me rendi à insistência do amigo em repeti-la e quase lhe dei a certeza de que não seria mais um a negar-lhe credibilidade aos seus devaneios de outrora.

Dizia ele que saiu da metrópole – e cansado da cidade grande – foi trabalhar no interior. Escolheu cidade pacata, silenciosa, moradores hospitaleiros, amigos sinceros ou parecidos como tais, difíceis de encontrar nos dias de hoje.

Um dia, lá para as tantas, voltando para casa, resolveu entrar no último boteco do caminho. Alguns gatos pingados já embriagados conversavam em volta do balcão. Conversa comprida, sem começo, sem rumo certo, sem hora pra acabar.

Tropeços, abraços, sorrisos, o aliviar da rotina e do cansaço do dia.

Cumprimentos de praxe, porque assim mandam as boas regras, pediu uma birita para lhe dar coragem de abandonar a noite e recolher-se aos seus aposentos, aliviar o cansaço do dia.

Conversa vai, que conversa de boêmio – ou de bêbado – é comprida pra danar, os circunstantes avisaram que tivesse cuidado ao andar durante a noite, porque a rua ali era mal assombrada, veem vultos, fantasmas, almas do outro mundo, sombras. Não se sabe bem o que é, muitos já viram e coisa e tal.

O cemitério da cidade ficava ali nas imediações, talvez seja por isso, há testemunhos, histórias, um rosário de lengalenga. Conversa do interior, sem maldade, boa demais de se ouvir, nem sempre de acreditar.

Despediu-se de todos, saiu cauteloso, desconfiado, rumou na direção pretendida. Não demorou muito, um senhor elegantemente vestido, que seguia no mesmo sentido, fez-lhe companhia por alguns minutos, declinou-lhe o nome, falou da cidade, de fatos acontecidos, de tempos idos.

Conversaram bastante naquele momento de caminhada. Conversa amena, interiorana, decente, aprumada.

Ao se separarem, cada um pro seu lado, porque assim mandava o destino de cada um, o aperto de mão natural, aproximativo, o ensaio de um abraço.

Apresentaram-se, saíram amigos, supostamente amigos.

Continuou a luta na cidade, a vida, a boemia. Passou a gostar do horário, do caminho que fazia todas as noites, dos amigos que conheceu. Fez muitas vezes o mesmo percurso, a mesma rotina, passou no mesmo botequim, o mesmo senhor elegante a acompanhar-lhe, por algum tempo, em animado bate papo. O mesmo adeus, o mesmo salamaleque, os mesmos respeitos.

Permaneceu algum tempo na cidade e, antes de deixá-la, foi se despedir daquela turma alegre e hospitaleira que conheceu no boteco, amigos de copo e até, em certos casos, de infortúnio. Lamentou que ali também não estivesse o senhor elegante, conversa interessante, desembaraçada,  que lhe fazia costumeira companhia noturna ao voltar para casa.

Entristecido, citou o nome do companheiro ausente, para surpresa de todos, que ficaram assustados. Unânimes disseram que aquele senhor havia falecido há muito tempo e tinha sido um influente e generoso comerciante da cidade que costumava sair à noite para ajudar os necessitados que perambulavam pelas calçadas em estado de mendicância.

Ele jurava que era verdade e eu jurava que não acreditava. Mas procurava entender. Não era mais boêmio. Há algum tempo a velhice lhe havia batido à porta trazendo alguns problemas de saúde ou de doença e também alguns fantasmas das noites de boemia.

Talvez estivesse amargando o reflexo de seus dias de inquietude. Era órfão da boemia.

araujo-costa@uol.com.br

Memórias dispersas da ditadura

A ditadura militar corria solta no Brasil.

O jornalista José Carlos Oliveira, famoso, boêmio e conhecidíssimo no meio da imprensa e fora dela, assíduo frequentador dos famosos bares cariocas Degrau e Antonio’s, além de outros de Copacabana, Ipanema, Leblon e et cetera, foi abordado abruptamente por policiais, na Zona Sul do Rio, alta madrugada.

Arrogante o policial ordenou:

– Mãos ao alto, documentos!

Muito calmo e seguro de seu conhecido estado etílico, Carlinhos sentenciou:

– Ignoro. Não tenho documentos.

O policial, mais arrogante, sentiu-se grande:

– Então você não existe!

Gozador e ciente da fama, Carlinhos foi didático:

– Existo, sim. Sou público e notório.

Em Santo André, A do ABC paulista (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), governo do general Ernesto Geisel, tempo de ditadura mais amena, de “distensão lenta, gradual e segura”, final de tarde, fui abordado na Rua General Glicério, miolo da efervescência política naqueles tempos difíceis.

Em meio ao burburinho de estudantes, a caminho da escola, depois de estafante dia de trabalho numa fábrica de Mauá, eu e outros colegas fomos cercados por policiais truculentos, grossos, idiotas, pequenos, imbecis.

Fomos encaminhados para o 1º Distrito Policial, para averiguações, deixar de ser besta e aprender a falar com a polícia da ditadura.

O primeiro Distrito Policial de Santo André, ainda está lá, no mesmo prédio, soturno, esquisito, histórico. Já na condição de advogado, no regime democrático, fui lá outras vezes, defender interesses de clientes.

Eu sobraçava um exemplar da Folha de S.Paulo, além da marmita vazia, guarda-chuva e outros penduricalhos de estudante pobre.

O policial me olhou grosseiramente:

– O que tem aí, algum livro comunista?

Besta e inocente, respondi:

– Um jornal, não sabe o que é um jornal?

Já eu lhe mostro o que é um jornal – disse o policial ofendido – e me encaminhou para o camburão da polícia política do governador Paulo Egydio Martins, da Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

Tempo do temido DOPS (Departamento de Ordem Polícia e Social), DOI-CODI e outras armadilhas de tortura da ditadura. Todo mundo tinha medo de cair lá, inclusive inofensivos estudantes como eu.

Naquele tempo andar com livros chegava a ser perigoso. Se alguém fosse flagrado com um exemplar de O Capital, de Karl Marx, certamente seria levado para a delegacia.

No distrito policial de Santo André, fomos averiguados, perguntados, apalpados, espiados, humilhados e liberados.

Hoje, quando vejo pessoas desinformadas, adultas ou jovens, pedindo a volta da ditadura, acresce-me a certeza de que essas pessoas não conhecem o mínimo sobre o Brasil e, ainda assim, se dizem patriotas e nacionalistas.

Ditadura é o pior dos governos. Alíás, nem governo é. É barbárie.

Na ditadura, ser público e notório não basta. Chega a ser perigoso.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia petista de Rui Costa

O PT quer transformar a Bahia numa província petista. Parece que a maioria dos baianos está de acordo: 75% dos eleitores da Bahia votaram no PT nas eleições de 2018. Convenhamos, beirou à unanimidade.

Lula da Silva curvou-se à realidade e foi beijar a mão do governador Rui Costa, hoje a única liderança respeitável do PT.

Não obstante ostentar a condição de líder maior do partido, Lula da Silva está em franco declínio moral, mas não pode deixar a peteca cair para não desanimar a militância.

A massa petista se sustenta nas lorotas de Lula. É inegável que Lula sabe conduzir seus seguidores com maestria. Lula é messiânico, carismático, demagogo e conduz essas características com sabedoria.

Mas há alguns percalços no caminho lulopetista, que o ex-presidente precisa contorná-los.

Por exemplo: Ciro Gomes, que foi ministro e lambe-botas de Lula, anda por aí, magoado até as unhas, metralhadora em punho, girando raivosamente contra os petistas.

Ciro Gomes já disse que “Lula é um defunto eleitoral” e segunda-feira passada, em São Paulo, disse que “Lula é um encantador de serpentes”.

Melhor assim. Pior se ele tivesse usado seu vocabulário impublicável para dizer outras coisas do ex-presidente. Diz que sabe coisas do arco da velha que comprometem o PT. Só não se sabe porque não revelou antes, quando participava convenientemente do governo de Lula.

Ciro Gomes não acredita que Lula volte à superfície do prestígio popular que desfrutou, porque Lula submergiu nas águas sujas e turbulentas do propinoduto petista.

Mas ninguém estranhe se, mais à frente, Ciro Gomes vier a andar de braços dados com Lula. Uma coisa é defender ideias, outra é defender interesses pessoais. Assim como Lula, Ciro gosta de poder.

Hoje a situação jurídica de Lula é mais confortável do que sua situação política, que está arranhada eleitoralmente. O Supremo Tribunal Federal, dirigido pelo ministro petista Dias Toffoli, ex-advogado do PT, está fazendo o diabo para beneficiar o ex-presidente.

Lula tem no STF competentes e qualificados advogados, dentre eles os ministros Ricardo Lewandowiski,  Marco Aurélio Melo, Gilmar Mendes e o próprio Dias Toffoli.

Só os tolos acreditam que ministros do STF que obtiveram cargos vitalícios, até morrer, com salários estratosféricos, fama e mordomias milionárias, vão votar contra o presidente da República que os indicou e nomeou. Como diz o caipira paulista: me engana que eu gosto!

O problema de Lula da Silva, se isto se pode dizer que é problema, é querer disputar com Deus a titularidade da onisciência. Deus encontrou um páreo duro. Lula diz que sabe tudo, é maioral em tudo, até na honestidade.

Lula não admite os erros do PT, nem do governo do PT. Recusa-se a fazer autocrítica, embora petistas graúdos entendam ser esta uma forma eficiente de conquistar os milhões de eleitores perdidos ao longo do caminho. O presidente Bolsonaro que o diga.

Lula disse em Salvador, que “tem companheiro do PT que fala que tem que fazer autocrítica. Faça você a crítica. Eu não vou fazer papel de oposição”. Parece que a frase foi dirigida ao governador Rui Costa que já sinalizou que o PT não é dono da verdade.

Vaidoso e arrogante, Lula não quer admitir que novas lideranças assumam o protagonismo do partido, sem seu aval. Insiste em carregar Fernando Haddad a tiracolo.

Assim como Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, o ex-prefeito paulistano é bonifrate, servil, manipulável. Lula gosta disto, de mandar, de ser obedecido.

Mas Lula já demonstra alguns sinais de senilidade, que acentuam suas costumeiras lorotas, uma das principais especialidades do ex-presidente.

Ao mesmo tempo em que desce o malho na TV Globo, para a militância petista pensar que é verdade, Lula pede a Luciano Huck, às escondidas, que o leve para entrevistá-lo no imbecilizado “Caldeirão do Huck”, programa do apresentador global.

Em Salvador, Lula falou mal de Deus e o mundo, inclusive de Luciano Huck, essa piada de mal gosto que quer disputar a presidência da República. O Brasil merece mais essa imbecilidade?

Mas na Bahia, manda o PT, mandam Rui Costa e Jaques Wagner. Lula sabe disto e foi lá afagá-los sob o pretexto de participar da reunião da Executiva Nacional do Partido.

Mais uma de suas lorotas.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: Colégio Ivo Braga, Babá Torres e outras anotações

Quem luta com palavras sempre vive consultando alfarrábios e cutucando o dizer da vida.

O cronista às vezes se vê saudosista, outras tantas se basta na condição de curioso com as curvas e as artimanhas do tempo.

Andei remexendo nalguns cartapácios e me deparei com anotações já amareladas pelo tempo sobre o aniversário do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, de Curaçá.

Já se vão, por aí, cinquenta e sete anos de existência do Colégio.

O Ginásio Municipal de Curaçá foi fundado em 06 de agosto de 1962. Mais tarde recebeu o nome de Colégio Municipal Professor Ivo Braga.

Em 2012 realizaram-se as comemorações do cinquentenário da escola. O ponto mais alto, sem dúvida, foi a merecida homenagem prestada ao seu fundador, Dr. José Gonçalves, ícone da história de Curaçá.

À época li o pronunciamento de Omar “Babá” Torres, aluno da primeira turma da instituição.

Discurso inteligente, essencialmente histórico e, sobretudo, fiel aos fatos.

Babá fez um apanhado desde o nascedouro do Ivo Braga, citou o teólogo francês Jacques Bossuet (“no universo, poucas coisas são maiores que os grandes homens modestos”), o poeta português Fernando Pessoa (“eu sou do tamanho do que vejo”), o dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre os homens que lutam por toda a vida (“estes são imprescindíveis”) e por aí discorreu, competentemente, erguendo sabedoria, conduta, aliás, absolutamente compatível com o proceder de um filho de Durval Torres.

Todos que admiram Babá – aos quais me incluo – sabem que ele tem o dom de expressar-se humildemente. Nunca é demais lembrar que a humildade é uma característica dos sábios.

A peça oratória de Babá nas comemorações do cinquentenário do Ivo Braga é mais que um discurso. É um templo da história de Curaçá. Deve figurar nas bibliotecas e arquivos do Ivo Braga, para servir de parâmetro tanto para seus alunos e jovens de hoje quanto para as gerações futuras.

É um exemplo de como a persistência dos sonhos pode transformar uma sociedade e como “a abnegação, firmeza de ideal e capacidade de doação”, qualidades tão escassas no mundo de hoje, podem dignificar a história de um povo.

Imaginemos as condições adversas, políticas e práticas, enfrentadas pelo fundador do Ivo Braga como, em minúcias, Babá as enumerou em seu pronunciamento. Isto, numa época, quando tudo era difícil, inegavelmente mais difícil.

Somente um caráter de espinha inflexível como o de Dr. José Gonçalves sustentaria o esteio para segurar a firmeza do ideal que abraçou.

Curaçá seria outro, certamente com cultura mais tênue, se não houvesse o Colégio Ivo Braga. Nesses cinquenta e sete anos ele plantou sementes que germinaram abundantemente.

Muitos curaçaenses começaram ali sua história de vida.

Embora ainda tropeçando nas pedras do meu caminho e empoeirado em razão das constantes quedas, também comecei no Ivo Braga a vislumbrar outros horizontes que me foram indicados por insignes mestres, a exemplo de Dr. Pompílio Possídio Coelho, Dr. Jaime Alves de Carvalho, Terezinha Conduru de Almeida, Lenir da Silva Possídio, Excelda Nascimento Santos, Noêmia de Almeida Lima, Maria Auxiliadora Lima Belfort, Dionária Ana Bim, Herval Francisco Félix e tantos outros.

Naquele tempo os alunos viam os professores como bons exemplos de vida a seguir e o colégio era o orgulho de todos que o frequentavam. Éramos assim, jovens e sonhadores.

Hoje, muitos de nós continuamos sonhadores. Os sonhos balizam o prosseguimento da caminhada.

Quanto à juventude, ela nos serviu de sustentáculo para que fosse edificada a construção de nossa vida de hoje.

O Colégio Ivo Braga se permitiu, tenazmente, continuar perseguindo os sonhos do Dr. José Gonçalves.

No mais, guardo com atenção o histórico pronunciamento de Babá Torres por ocasião do cinquentenário da instituição, em defesa da gratidão e da memória curaçaenses.

O Colégio Ivo Braga continua sendo um esteio valioso que sustenta a cultura de Curaçá.

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