Sugestão indecente

Um amigo de Patamuté – creiam, ainda tenho amigos por lá – estava em Juazeiro, telefonou-me, fez uma pergunta indecente: por que não me candidato a qualquer cargo em Curaçá? Vereador, por exemplo?

Disse-lhe que somente me arriscaria, se vereador ou qualquer exercente de cargo público trabalhasse de graça, sem salário, sem mordomias, sem benesses e sem outros penduricalhos mais, que deixam o indivíduo com o rei na barriga.

A negativa não quer dizer que não preciso de dinheiro. É exatamente porque não tenho dinheiro, por ser um pé-rapado, que não me meto mais em casa de marimbondo.

Ser político fazia parte de meus sonhos de jovem utópico. Delírios da juventude. Todo mundo pode derrapar na vida. Escorregões são naturais.

Quando o sujeito entra na política, mesmo que seja rico e honesto, passa a ser larápio na boca do povo. E até com razão, em certas circunstâncias. O povo é sábio.

Além do mais, disse ao meu amigo: já sou idoso, segundo fiquei sabendo. Não me meto mais em enrascada.

Notei mesmo que sou idoso por acaso e não observando a cédula de identidade. Dia desses, entrei numa repartição pública em São Bernardo do Campo e na recepção se formava uma fila, como, aliás, em todo lugar que se vai.

Uma senhora, já pra lá de Bagdá, lançou-me um olhar de dó e desprezo e imediatamente dirigiu-se ao atendente:

– “Deixe esse senhor passar na minha frente”.

Fiz uns salamaleques, agradeci a gentiliza e me lembrei de dizer a surrada e idiota frase: “primeiro as damas”.

– “Imagine! Eu estou bem”, disse ela.

Noutras palavras, ela quis dizer mesmo que estou um caco. Comecei a me preocupar. Mas não há de ser nada. Não estou assim tão moribundo.

Todavia, voltando ao assunto da candidatura sugerida, houve um tempo, em que vereador não tinha salário ou vencimentos, qualquer que seja a denominação. O edil representava o povo de verdade, diferentemente de hoje, que cuida mais dos próprios bolsos.

Há alguns anos, pensei em cutucar os vereadores do Brasil pra ver se eles gostavam mesmo do povo ou dos subsídios.

Sem nenhuma maldade, conversei com um amigo deputado federal e lhe sugeri que apresentasse um projeto de lei na Câmara dos Deputados retirando os subsídios dos vereadores a partir da aprovação da medida legislativa, se aprovada fosse.

Os vereadores passariam a ser voluntários, filantrópicos, piedosos, defensores arraigados de  seus redutos eleitorais.

Não tive êxito em minha empreitada. Meu amigo deputado foi rápido.

– Que é isso, rapaz? Você quer acabar com minha carreira política? E minhas bases?”

Deixei pra lá. Ficou o dito pelo não dito.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia e a liderança do governador Rui Costa

“Não tenho vocação para ser coruja que gaba o próprio toco” (Rui Costa)

O governador da Bahia, Rui Costa, concedeu entrevista às páginas amarelas da Revista Veja desta semana.

Sensato, o pensamento de Rui Costa parece distanciar-se do Partido dos Trabalhadores (PT), de que é filiado desde o início da agremiação partidária em 1980. É fundador do partido e fiel às suas ordens, por enquanto.

Líder inconteste na Bahia – em 2018 Rui Costa foi reeleito com mais de 75% dos votos válidos – discorreu sobre tudo que o PT sabe, mas não admite: “O maior desafio do PT é se reconectar com a sociedade brasileira”.

Rui foi mais além para ponderar, sabiamente: “É natural que a oposição, se tiver juízo, recolha o trem de pouso e deixe o presidente governar, até para não ganhar a antipatia da sociedade”.

Rui sabe que a antipatia da sociedade é maligna. Está aí o claro exemplo retratado no antipetismo de 2018, que entronou Jair Bolsonaro na presidência da República.

Os radicais do PT devem estar espumando com a entrevista do governador da Bahia. O que eles menos querem é a sensatez, a responsabilidade, o bem do Brasil. Querem mesmo é abarrotar seus bolsos de dinheiro público à custa dos brasileiros. Estão aí para provar, a Petrobras, a Odebrecht, a OAS e outros tantos conhecidos corruptores ativos.

Rui Costa admitiu, sem reservas, que “o certo era o PT ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás”, em 2018. Admitiu que o PT não tinha chances de sair vitorioso nas urnas de 2018.

Por falta desse apoio, Ciro Gomes está magoadíssimo com Lula da Silva de quem foi ministro, espinafra o PT em toda oportunidade que lhe é possível e dá violentas estocadas nos radicais do PT, que o abandonaram e preferiram o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, subserviente a Lula e, mais do que isto, seu fantoche.

Ciro Gomes sabe que o culpado disso tudo é Lula da Silva e não nega isto.

Na entrevista, Rui Costa demonstra claro descontentamento com o PT, a ponto de dizer que o partido precisa condenar os abusos da Venezuela e esquecer o “Lula Livre”. É uma estocada em Gleisi Hoffmann, destrambelhada presidente do PT, que é apaixonada pelos descalabros do ditador Nicolás Maduro. Até foi à última posse do ditador.

Bem informado, o governador da Bahia sabe que o PT está se esvaindo. Hoje o Diário do Grande ABC, de Santo André, traz uma informação preocupante: o PT encolheu 52,1% no berço do partido.

A última eleição interna do partido (PED) demonstrou que, em dez anos, o PT encolheu assustadoramente na região do ABC: em 2009 eram 13.567 militantes. No último domingo, esse número caiu para 6.495 militantes.

O presidente do PT em São Bernardo do Campo, casa e terreiro de Lula da Silva, deu uma violenta repreensão em seus correligionários por isto. Ficou feio. Muitos petistas não querem mais o PT. Só isto.

O fato é que o PT vem se desgastando junto aos próprios militantes, antes aguerridos. Ninguém, entre eles, acredita que Lula da Silva é inocente das acusações de corrupção.

Os petistas sentem-se traídos pela confiança que depositaram no ex-presidente. Isto é voz corrente no ABC paulista, em qualquer boteco e reduto de Lula.

Em 2016, o PT perdeu em todos os sete municípios do ABC. Sequer reelegeu o filho de Lula, que era vereador em São Bernardo do Campo. Constrangedor. Rui Costa está atento a tudo isto.

Em resumo: as maiores lideranças do PT estão na Bahia: Jaques Wagner e Rui Costa.

Se o PT tiver juízo, fica de olho neles. Um ou outro será o melhor candidato do partido para a disputa presidencial de 2022, mas Jaques Wagner pode não querer.

Fernando Haddad foi e será um fiasco. Exemplo claro é a recente caravana “Lula Livre”, que ele fez ao Nordeste. Em Recife, só compareceram admiradores dele e do PT. Ninguém mais.

Hoje, o governador da Bahia Rui Costa é a maior liderança do PT no Nordeste, região que vem sustentando os descalabros do partido.

Mas pode mudar.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o adeus de Maroto

“O peso de sentir! O peso de ter que sentir!” (Fernando Pessoa, 1888-1935)

Curaçá perdeu Juvêncio Ferreira de Oliveira. Maroto, Marotinho e outras qualificações mais com as quais conhecíamos e gostávamos de chamá-lo, carinhosamente, respeitosamente.

Maroto, por si só, era o respeito, a decência, a clarividência de espírito, a consideração, a humildade.

Em Curaçá, de onde nunca saiu, Maroto fez muitas façanhas na vida. Até foi político, exerceu a vereança.

Difícil falar de Maroto! Vem-nos “o peso de sentir, o peso de ter que sentir” e isto nos deixa inexplicavelmente prostrados diante da vida ou da morte.

Sobre Maroto, há brilhante texto escrito em abril de 2014, de autoria do professor Luciano Lugori, admirável inteligência da nova geração de Curaçá.

O autor do texto, registrava a impaciência de Maroto, à época, por volta dos 80 anos vividos, bem vividos:

 “ Eu já estou morto! Não sei por que a morte não me leva logo”.

Não, Maroto. Ainda não era o momento de você partir. Você nos deu a alegria de seu convívio por mais alguns anos. O tempo balizou o parâmetro para delimitar sua presença entre nós, que lhe admiramos.

Maroto era um “vencedor do tempo”. Era natural que, naquela altura da vida – ou do tempo – ele sentisse essa vontade de manifestar o cansaço da vida. Vida correta, honesta, exemplar.

Contudo, Maroto era um cara esperto. Aliás, espertíssimo. Talvez dissesse aquilo filosoficamente, para coadunar com sua forma decente de viver. A vida de Maroto foi muito decente, irrepreensivelmente decente.

Muitas vezes, em anos distantes, participei de conversas agradáveis e costumeiras com Maroto. Conversas animadas, sinceras, convidativas. Suas gargalhadas pareciam uma forma de afastar os tropeços da vida.

Lugori vai longe, despretensiosamente, com essa história de dizer as coisas de Curaçá. E disse-o muito bem sobre Maroto.

À época o professor Lugori dizia:

“Juvêncio é um homem forte e sábio, por isso a morte ignora seu rogo birrento. Ele agora nos escuta com olhos. Basta observá-lo para dizer-lhe algo e ele tão logo retribuirá a atenção, seja com gestos ou expressões. E o seu olhar apontado para diante nós, nos diz muito mais do que a boca e suas próprias palavras seriam capazes de exprimir”.

Agora, com a partida de Maroto, não há o que acrescentar. Eis tudo.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, indique-lhe o caminho e que Deus o ampare.

Meus sentimentos a todos da família de Maroto.

araujo-costa@uol.com.br

E agora, PT? Cadê o Miranda?

O Partido dos Trabalhadores (PT) e seus seguidores arrumaram mais uma tarefa para resolver, dentre muitas outras que não têm conseguido dar conta: além do Queiroz, agora também eles precisam saber onde está o David Miranda, deputado federal do PSOL, tentáculo do PT, que fez exatamente igual ao que o Queiroz fez.

Dia da caça

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro, movimentou num ano R$ 1,2 milhão em sua conta, sem origem comprovada.

O PT não falava noutra coisa até ontem.

Dia do caçador

Agora, foi publicado que o mesmo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o deputado David Miranda (PSOL-RJ) movimentou num ano mais do que o dobro do Queiroz: R$ 2,5 milhões, também em movimentação suspeita.

Coincidência gritante entre Queiroz e David Miranda: os depósitos e saques foram fracionados na base de R$ 2.000,00 e R$ 5.000,00. Mais coincidência: ambos estavam ligados a atividade parlamentar no Rio de Janeiro à época dos depósitos e saques suspeitos.

Mais ainda: o volume de dinheiro movimentado é incompatível com a renda de ambos. Queiroz era assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro; David Miranda era vereador.

Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT e Paulo Pimenta, líder do partido na Câmara dos Deputados e muitos outros petistas e admiradores, que a todo instante perguntam onde está o Queiroz, precisam agora explicar a dinheirama que o Davi Miranda movimentou.

Ou então vão ter que dizer que é culpa do Sérgio Moro e do procurador Dallagnol.

O PSOL é um puxadinho do PT e David Miranda se intitula favelado. Talvez seja o único favelado que mora nas regiões nobres do Rio e Brasília e tem renda de R$ 2,5 milhões ao ano.

Sortudo esse David Miranda, não?

Bom aluno do PT, o deputado David Miranda já adotou o surrado discurso: é perseguição.

Só para lembrar: esse deputado David Miranda é o marido do jornalista americano Glenn Greenwald, dono do The Intercept Brasil. Miranda era suplente de Jean Wyllys, também do PSOL e assumiu em seu lugar, tendo em vista a renúncia não explicada do titular.

Considerando o barulho que os petistas e o pessoal do PSOL fizeram no episódio do Queiroz, supõe-se que são pessoas honestíssimas e não se envolvem em maracutaias.

Não duvido.

Só o Queiroz deve ser desonesto.

araujo-costa@uol.com.br

Um comunista que deixa saudade

“O mais difícil é não fazer nada” (ditado judaico).

Aberto Goldman, ex-governador de São Paulo, faleceu em 01/09/2019, início da semana da Pátria.

Comunista até a alma, marxista que migrou para a social-democracia, Goldman transitou da esquerda a todos os espectros políticos, com desenvoltura exemplar.

Conheci-o em 1976, em Mauá, município da grande São Paulo, em plena ditadura militar. Goldman na trincheira contra os excessos do governo. Sério, atento, idealista, intrinsecamente preocupado com o Brasil.

Ainda jovem, aluno da Universidade de São Paulo (USP), ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) de linha soviética. Como todo estudante, acreditava em utopias, mesmo aquelas que os séculos as desmoronaram.

Goldman era idealista. Essencialmente idealista.

Filiado ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Alberto Goldman foi deputado estadual em São Paulo entre 1971 e 1978 e deputado federal por dois mandatos.

Depois de ser ministro dos Transportes (1992-1993), Goldman retornou ao seu convívio em São Paulo para, mais tarde, ser vice-governador de José Serra. Assumiu a titularidade de governador, embora por curto período.

Recolhido à velhice, o atual governador João Dória, num dos momentos de deselegância o chamou de “fracassado, por viver de pijama em casa”.

Infeliz a frase do governador João Dória. Nem sempre é fracassado quem está de pijama, por ter cumprido o seu dever.

Alberto Goldman deixa saudade. Ele acreditava no Brasil.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia e a vaidade dos procuradores da República

“Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” (Carlos Drummond de Andrade)

A Bahia de Ruy Barbosa ganha simbolicamente a Procuradoria-Geral da República, se não houver desvio de rota político ou jurídico. E se os vaidosos procuradores da República não acabarem com o Brasil.

No uso de suas atribuições constitucionais, o presidente Jair Bolsonaro indicou o procurador baiano Augusto Aras para chefe da Procuradoria-Geral da República.

A nomeação depende ainda do crivo da Comissão de Constituição e Justiça e do plenário do Senado Federal, que dará a palavra final.

Augusto Aras é filho do advogado, político e ex-deputado Roque Aras, que foi vereador de Feira de Santana, deputado estadual e deputado federal.

Filho de Monte Santo, Roque Aras estudou no Colégio D. Bosco de Petrolina e no Ginásio Juazeiro. Fez carreira política no antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no tempo da ditadura militar. Teve atividade parlamentar atuante que honrou a Bahia e seu povo.

Entretanto, a indicação de Augusto Aras está sendo contestada pela vaidosa Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), uma espécie de sindicato da categoria disfarçado e intransigente defensor do corporativismo.

Como de costume,  a ANPR fez consulta interna e apresentou ao presidente da República uma lista tríplice que contemplou os mais votados. Debalde, diria Ulysses Guimarães.

O problema dessa lista é um só: o presidente da República, qualquer que seja ele – da esquerda, da direita ou do centro – não é obrigado a nomear o procurador-geral de acordo com essa lista tríplice, porque a lei não lhe obriga. A Constituição Federal é claríssima, não contempla nenhuma lista, tampouco qualquer escolha prévia.

Ao contrário, a Constituição assegura ao presidente a prerrogativa de indicar o procurador-geral. E só.

O que há é uma tradição. Por essa tradição, nos últimos governos, o chefe da Procuradoria vinha sendo nomeado de acordo com a lista tríplice. Tradição não é lei e, logo, o presidente não lhe está adstrito.

A tradição é importante, enfeita a história, mas não tem força de lei.

Lula da Silva e D. Dilma Rousseff seguiram a lista, tão-somente por opção e não por obrigatoriedade. Poderiam ter optado por nomes fora da lista, mas não o fizeram. Não erraram.

O presidente da República Jair Bolsonaro não errou ao indicar o procurador-geral fora da lista, nem a ANPR errou em apresentá-la ao presidente.

Em resumo: neste caso, a lista tríplice e nada é a mesma coisa.

Contudo, há uma briga de foice entre procuradores, regada a vaidade e sustentada pela desfaçatez do corporativismo. O procurador Augusto Aras não faz parte dos defensores intransigentes da lista tríplice.  E por isto está sendo apedrejado pelos colegas.

Como se vê, o Brasil está jogado às traças. Quem tem o dever legal de cumprir a lei não o faz, caso dos procuradores. Isto é perigoso e avacalha as instituições.

Chega a ser constrangedor que os procuradores da Repúblicas contrariem a Constituição acintosamente. São eles – os procuradores – que defendem os interesses da sociedade, ou pelo menos, deveriam defendê-los. São pagos para isto.

Onde está escrito que o presidente da República é obrigado a obedecer a lista tríplice?

Os vaidosos procuradores da República, pagos pela sociedade, acham que o Brasil deve nortear-se de acordo com a vontade deles. São pretensiosos e arrogantes.

“Nenhum Brasil existe”. Só eles, segundo eles.

Não é à toa que a operação Lava Jato, inicialmente séria, está indo pelo ralo da insensatez e da desmoralização.

araujo-costa@uol.com.br

No PT é assim

“Quem tem pescoço sabe que a diferença entre a corda e a gravata está nas mãos de quem ata” (Frei Betto)

No PT é assim.
Os membros do PT não confiam em si próprios.
Em 08/09/2019, o Partido dos Trabalhadores fará eleição para escolha dos presidentes dos diretórios municipais e dos delegados para os congressos estaduais e nacional do partido.
Só em São Paulo, o PT nomeou 200 fiscais, para vigiar o próprio PT, no procedimento interno que o partido definiu como Processo de Eleição Direta (PED): uma embromação que o PT criou para dizer que é um partido político sério e democrático.
Se os petistas não acreditam em si próprios, como os demais brasileiros devem acreditar neles?
Quem duvidar, leia Paraíso Perdido, monumental livro de frei Betto, em minha opinião, a maior autoridade em assuntos do PT. Humilde frade dominicano, amigo e confessor de Lula da Silva e o maior exemplo de humildade que vi até hoje.Conheço-o muito bem.
Frei Betto sabe tudo sobre tudo do PT e suas entranhas. Quem discordar dele em assuntos do PT, mesmo sendo do PT, não conhece o PT.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá e o retrovisor da história

Uma das falhas mais comuns encontráveis na atuação dos administradores públicos é o sentar sobre seus problemas e apontar erros dos gestores que os antecederam.

Isto acontece nas três esferas de governo, sem exceção. Em Curaçá, não é diferente.

Alguns dizem que Curaçá está longe de encontrar o seu caminho. Outros asseguram que inteligentes descobridores capitaneados pelo prefeito Pedro Oliveira já o encontraram e pavimentaram-no com os louros do ineditismo administrativo. Só eles conseguem fazer o que dantes outros nunca tinham conseguido.

A turma do prefeito Pedro Oliveira diz que ele está fazendo a melhor administração da face da terra, o que não duvido, ao passo que seus possíveis adversários em 2020, em discreta pré-campanha, já se esforçam para abrir o caminho em direção às urnas e apontam os possíveis erros de gestão do atual alcaide.

Contudo, o que se vê em Curaçá é um repisar de citação de fatos acontecidos em administrações passadas, que não leva a lugar nenhum. Campanha se faz com ideias e não com o olho no retrovisor.

Por exemplo: É fato que o ex-prefeito Carlos Luiz Brandão Leite foi acusado de algumas irregularidades, o que não significa, necessariamente, que as tenha cometido tais quais entendem seus acusadores e como diz a letra da lei.

O Poder Judiciário dará a palavra final irretorquível.

Caiu no Ministério Público Federal a notícia de um certo superfaturamento de carne de bode para a merenda escolar. Diziam à época que o prefeito adquiriu, ou pretendeu adquirir, carne de bode ao preço de R$ 25,00 o quilo, quando, no mercado, o preço pairava entre R$ 12,00 e R$ 14,00.

Está sendo comum em redes sociais a recorrência desses assuntos em Curaçá.

Acusaram-no de ter sumido com aproximadamente 54 mil litros de leite do programa Fome Zero ou com o dinheiro correspondente. Isto virou um quiproquó danado, foi parar na Câmara Municipal, que instalou uma comissão de inquérito e daí seguiu adiante.

O vereador Theodomiro Mendes, ilustre curaçaense com robustas raízes em Patamuté, então presidente da Câmara, teve brilhante atuação nesse episódio, com o intuito de esclarecer à população a possível falcatrua da administração municipal. Aliás, fiscalizar é a função precípua do Legislativo.

A bancada de oposição ao prefeito que, na ocasião, era constituída de sete vereadores, salvo engano – e aqui esse número é irrelevante – estranhou também que essa carne de bode tenha sido fornecida por uma panificadora de Juazeiro.

Os vereadores alegaram que Curaçá é conhecido como grande e inegável criador de caprinos e, em razão disto, não se justificava que a Prefeitura tivesse adquirido a carne em Juazeiro e, estranhamente, numa panificadora.

Tinha sentido. Ainda sou do tempo que panificadora vendia pão e não carne. Mas tudo muda, inclusive as padarias.

Houve, também, o caso de valores que a Prefeitura descontava dos servidores e não repassava à credora Caixa Econômica Federal na ordem aproximada de R$ 2 milhões de reais, mas isto o prefeito disse à época que procurou a Caixa para solucionar o problema, era um mal entendido. Deve ter regularizado, mas isto lhe arranhou politicamente.

Teve até acusação de que servidores da Prefeitura viajaram em cruzeiro marítimo com despesas pagas pela Municipalidade. Se verdade, a Prefeitura deve ter sido reembolsada, porque a lógica não ampara que servidores públicos de Curaçá tenham  embarcado num cruzeiro a serviço.

Entretanto, denúncia e processo não significam condenação. O acusado exerce seu direito constitucional de ampla defesa e, lá na frente, pode até provar sua inocência e ser absolvido pelos tribunais competentes. Isto vale para Carlinhos Brandão, Pedro Oliveira ou quaisquer outros, o que não é novidade.

O ínclito Salvador Lopes Gonsalves, que o admiro desde sempre, também foi acusado de irregularidades à frente da Prefeitura de Curaçá, o que não significa dizer que sua conduta de homem público seja reprovável.

Salvador é idealista. Mais do que isto: é sério.

Há até um hilário edital publicado no Diário Oficial da União de 23/04/2018 notificando o ex-prefeito Salvador, por “encontrar-se em local incerto e não sabido”.

Até as formigas sabem o endereço de Salvador, mas a Caixa Econômica Federal não sabia. Coisas da política.

Sempre haverá o joio e o trigo. É preciso separá-los com cautela.

Mas, cá embaixo, na base das incompreensões, as paixões políticas valem-se das falhas dos adversários – eventuais ou não –  para tentar desconstruí-los politicamente. É uma forma arrevesada de fazer política.

Essa prática demonstra mais pequenez de ideias e ausência de ideário do que grandeza política para defesa das causas do povo que essas pessoas dizem abraçar.

Lembro de um texto redigido na segunda metade da década de 1960 pelo Dr. Pompílio Possídio Coelho, honra e glória de Curaçá, para a campanha de José Félix Filho (Zé Borges), grande filho de Poço de Fora, que foi prefeito de Curaçá (1963-1967 e 1971-1973):

“Os homens passam, as gerações passam, mas a terra fica para ser amada e admirada por seus filhos”.

Talvez o pessoal dessa geração política de Curaçá esteja precisando dos exemplos dos antepassados.

Preocupar-se somente com o retrovisor pode ofuscar a visão do horizonte.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, uma confusa linguagem política

Em 1974, quando situação e oposição se resumiam em ARENA e MDB, a oposição da Bahia lançou Clemens Sampaio candidato ao Senado, para disputar com o historiador e ex-governador arenista Luís Viana Filho, descendente do conselheiro Luís Viana e nascido na França.

Clemens Sampaio perdeu feio. As urnas foram cruéis com a oposição. Luiz Viana Filho abocanhou 848.943 votos contra 412.843 de Clemens Sampaio.

Advogado nascido em Amargosa e fazendeiro em São Francisco do Conde, Clemens Sampaio se entrincheirou na oposição durante décadas, mas lhe faltava o discurso certo para ajustá-lo à realidade.

Durante a campanha, por falta de plataforma eleitoral – que a oposição não tinha – Clemens Sampaio se agarrou ao fato de Luís Viana Filho ter nascido em Paris e ironizava nos comícios, em tom de desafio: “Quero que Luís Viana declare o nome da rua, o número da casa e a cidade onde nasceu”.

O jornalista Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, deu a senha para que a fraca oposição da Bahia perdesse a eleição:

– “Que diferença faz para o MDB e para o povo baiano, para as teses nacionais da oposição e para o abandono do interior da Bahia, que Luís Viana tenha nascido dentro da catedral de Salvador ou às margens do Sena?”.

Em 1974, a oposição perdeu a eleição na Bahia por falta de assunto.

Em Chorrochó, meu simpaticíssimo município do sertão baiano, espremido entre pedras, cactos e barrancas do São Francisco, os passarinhos me contam, de quando em vez, que estou em baixa com os políticos de lá.

Dizem que o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) e o vereador Luiz Alberto de Menezes (PT), carinhosamente conhecido como Beto de Arnóbio, não gostam deste humilde escrevinhador.

Não estou bem certo se eles não gostam ou não dão importância, o que dá na mesma.

Não faz mal. Eu não tenho nenhuma importância.

Como não sei a razão deste não gostar, porque gosto de ambos e, confesso, até os admiro, vou levando a vida do meu jeito e cutucando-os de vez em quando, sem maldade.

O prefeito Humberto Gomes Ramos e o vereador Beto de Arnóbio representam, com clareza, a situação e a oposição de Chorrochó. Por enquanto. São senhores respeitáveis, admiráveis, dedicados ao mister político.

É certo que nunca tive a intenção de melindrá-los, nem tenho razão para isto. A imprensa é assim mesmo. Político nenhum gosta dela.

Quanto ao impoluto vereador Beto de Arnóbio, parece que ele anda meio “cabreiro” com alguns de seus colegas de Câmara Municipal e recentemente até chegou a espinafrá-los, dizendo que não têm palavra.

O homem está bravo e, nesse particular, concordo com ele: vereador tem que ter palavra e o vereador Beto de Arnóbio deve ter suas razões para achar que há colegas mudando de ideia no trajeto entre a Prefeitura e a Câmara Municipal. Mas deixa pra lá.

No que tange ao prefeito Humberto Gomes Ramos, dizem que o pessoal dele anda falando por aí que em Chorrochó há emprego adoidado, tudo por conta da competente administração de Sua Excelência.

Lorota. Não há emprego em Chorrochó e tampouco noutros municípios do Brasil. Há desempregados, subempregados, desamparados e et cetera.

Mas, não há de ser nada. Deve ser alvoroço de admiradores do prefeito.

Ou falta de assunto.

Parece que a linguagem política de Chorrochó anda confusa.

araujo-costa@uol.com.br

O despreparo dos procuradores da República

O mínimo que se espera de um operador do Direito é que conheça o Direito. Parece óbvio – é óbvio – mas tem de ser óbvio.

Os procuradores da República que cuidam da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba demonstraram, inequivocamente, falta de preparo científico para defenderem a sociedade. Meteram os pés pelas mãos de forma atabalhoada, irresponsavelmente.

Quando um procurador da República desvia-se de seu caminho institucional dá margem para presumir que o conhecimento científico que deveria ter é substituído pela pequenez e arrogância.

Deprimente as conversas entre procuradores que vieram a público pelo site The Intercept Brasil. As mensagens vazadas traduzem a pequenez dos interlocutores.

A Lava Jato em Curitiba aproxima-se mais de um conluio entre agentes públicos do que, propriamente, de uma força-tarefa criada com o intuito de fazer cumprir a lei.

Veio a público que os despreparados procuradores de Curitiba desdenharam das mortes de pessoas da família de Lula da Silva. Num reduzido espaço de tempo o ex-presidente perdeu a mulher Marisa, o irmão Vavá e o neto Arthur.

Os procuradores ironizaram e debocharam da dor do ex-presidente. Pareciam deslumbrados com a dor alheia.

Mais: acuada pela irresponsabilidade que cometeu, uma procuradora apressou-se em pedir desculpa ao ex-presidente através de rede social e, por consequência, reconheceu o que eles – procuradores – negaram até agora: a autenticidade das mensagens vazadas.

Causa indignação que um procurador da República, pago pela sociedade para fazer cumprir a lei, seja tão despreparado para o exercício do cargo.

É estarrecedor que toda a equipe de procuradores da Lava Jato pense do mesmo jeito. Em quadro assim, não há porque negar o despreparo desses arrogantes servidores públicos.

Há procuradores que sequer conhecem os princípios fundamentais ínsitos nas normas legais.

Vejamos um exemplo: procuradores da República, em Brasília, chegaram a pedir busca e apreensão no endereço de uma Embaixada. Ora, qualquer estudante de Direito sabe que as embaixadas gozam de inviolabilidade, por força da Convenção de Viena de 1961 e têm imunidade diplomática.

Pedir busca e apreensão no interior de quaisquer embaixadas equivale mandar fazê-lo diretamente nos territórios de seus países, até mesmo dentro dos palácios governamentais e desprezar os instrumentos obrigatórios amparados no Direito Internacional.

Os procuradores desconhecem que a embaixada é considerada território do país correspondente. Devem ter sido péssimos alunos de Direito Internacional.

Um absurdo. Cumprir a lei não significa espezinhá-la.

A sociedade brasileira está nas mãos desses despreparados, que têm o dever de defendê-la.

araujo-costa@uol.com.br