Chorrochó: Memorial Cordeiro de Menezes.

Crédito/Album da família

“Eu vim ao mundo para ter saudade” (Antonio Francisco da Costa e Silva, poeta piauiense, 1885-1950).

Ao apagar das luzes de 2017, a família Cordeiro de Menezes inaugurou importante marco em Chorrochó: o livro Memorial Cordeiro de Menezes, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes, chorrochoense de boa cepa, respeitável intelectual  e membro da família objeto do estudo publicado.

Segundo o autor, o livro é o resultado de pesquisa acurada durante anos e só consolidada e publicada em 2017. Trata-se de um apanhado cuidadoso, confrontado com depoimentos e documentos sobre os Cordeiro de Menezes, desde a chegada dos ancestrais ao Vale do São Francisco, até os dias de hoje.

A apresentação do livro é da abalizada professora Maria Therezinha de Menezes, ícone da cultura de Chorrochó. Entrementes, o autor confessa gratidão “a outros parentes” que lhe prestaram informações valiosas sobre a família objeto da pesquisa.

A professora Therezinha trata a família Cordeiro de Menezes como “símbolo de união, fortaleza, respeito e honestidade”, com o que, certamente, Chorrochó constata e concorda.

Embora acanhado e inábil, quero tão somente – e mais uma vez – fazer o registro do aparecimento da obra em Chorrochó, sem alongamento desnecessário, estribado em duas razões que se me afiguram essencialmente fundamentais: o ineditismo da iniciativa e a certeza de que Chorrochó aos poucos está resgatando seu passado cultural tão espezinhado ao longo dos anos.

Por conseguinte, nada há a acrescentar, nem tenho condições de fazê-lo. Sou ignorante sobre o assunto e estou apenas a cavaquear. Mania de meter o bedelho, mania de dizer o que penso.

Entrementes, alegro-me em registrar que a história do município se enriquece sobremaneira com este livro, que trata de uma das famílias que se fizeram esteios e sustentáculos das tradições chorrochoenses.

Para emoldurar a obra, atribuindo-lhe maior riqueza, há uma Sinopse da lavra de Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, também membro da família e atento defensor das tradições do município. Jorge faz um apanhado do caminho difícil trilhado pelos Cordeiro de Menezes, de sorte que emprestou ao livro contribuição valiosa.

Aliás, no que concerne às tradições locais, em nome da memória de seus antepassados, o autor mui sutilmente demonstra insatisfação quanto a eventuais arranhões que se vêm fazendo na condução dos festejos do padroeiro Senhor do Bonfim.

Diz o autor: “Mesmo com as mudanças que nossa Igreja sempre se propõe a fazer cada ano, ainda não nos retiraram a possibilidade de nós, os remanescentes da Família Cordeiro de Menezes, sentimo-nos enaltecidos, de fraternalmente louvarmos com todo fervor nosso Excelso Padroeiro”.

O livro é bom. Traz informações até aqui desconhecidas sobre os Cordeiro de Menezes, a trajetória, a luta e o interessante caminho como coadjuvantes na construção da história de Chorrochó.

O autor é conhecido. Tem boa e valiosa formação e se porta com absoluta fidelidade intelectual.

Memorial Cordeiro de Menezes é um livro para fazer parte das bibliotecas e escolas do município, de modo que possa delinear para os jovens e gerações futuras o entendimento no que tange à contribuição que cada membro da família Cordeiro de Menezes fez para o engrandecimento de Chorrochó.

O engrandecimento de um povo não se dá apenas economicamente, mas também se materializa através da cultura, mediante a formação do caráter coletivo e, sobretudo, pelo exemplo que passa às gerações futuras.

O Memorial Cordeiro de Menezes também é uma forma de sentir saudade.

Vir “ao mundo para ter saudade”, como dizia o poeta piauiense, é também uma forma de eternizar a memória de nossos antepassados.

Entendo que o livro de Dr. Francisco Afonso de Menezes tem também este papel de trazer a saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Conversa de envelhescente

Na segunda metade da década de 1970 havia uma pensão na Rua Brás Cubas, centro de Santo André, coração do ABC paulista.

A pensão não existe mais. O progresso imobiliário extirpou-a do local, mas não conseguiu extirpar as lembranças e a saudade dos amigos de antanho.

A pensão abrigava rapazes, geralmente estudantes e alguns senhores circunspectos, que ainda cavavam a vida. Morei lá, vivi lá, aprendi muitas coisas lá. Dessas, pratiquei umas, abandonei outras e tenho dúvidas se acertei ou errei ao não ter seguido outras tantas.

O ambiente era central e acolhedor, vizinho à bela e histórica catedral diocesana de Nossa Senhora do Carmo, perto de tudo e inserido nos acontecimentos da fervilhante região do ABC.

Ainda hoje visito com regularidade a catedral do Carmo e o túmulo de Dom Jorge Marcos de Oliveira (1915-1989), primeiro bispo da diocese. D. Jorge ostentava o título de ter sido o “bispo mais jovem do mundo”. Em 1946 o Papa Pio XII o nomeou para o episcopado com 31 anos de idade. Trabalhou com D. Helder Câmara na arquidiocese do Rio de Janeiro, ambos bispos auxiliares.

Como é praxe nesses ambientes de juventude, naquela pensão nasceram amizades, sedimentaram-se experiências, dissolveram-se arrogâncias e, mais do que isso, aprendiam-se modos de viver. Aliás, toda pensão e seus quartos têm modus vivendi, regras sociais sadias criadas por seus ocupantes.

Toda pensão é um simulacro de nossa sociedade, às vezes conturbada, outros vezes tranquila, quase sempre incompreensível.

Guardo boas recordações de dois amigos de Chorrochó, que moraram em Santo André naquela quadra do tempo: Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó), já falecido, filho de Eloy Pacheco de Menezes e Antonio Wilson de Menezes, filho de Francisco Arnóbio de Menezes, que hoje mora lá para as bandas do simpático município baiano de Campo Alegre de Lourdes.

Wilson é um amigo que, como diz a música Canção da América, de Mílton Nascimento, “é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”. Além de amigo, foi meu colega ginasiano no Colégio São José, de Chorrochó.

Lembro de outro amigo, Elias Pedro dos Santos. Convivemos lá na pensão, inquietos, barulhentos, combativos. Ele professor de uma respeitável instituição paulista; eu ainda estudante, sem nenhuma âncora profissional, impaciente com as incertezas da vida.

Elias é um sujeito que cultiva as amizades, preocupa-se com elas e, sobretudo, não as abandona. É intransigente na defesa de seus amigos.

Quase quatro décadas depois me localizou e honrou-me com sua visita. Senti-me vaidoso, rejuvenescido.

Como nos tempos de pensão, Elias continua inquieto, buliçoso, bem humorado. Mas a passagem do tempo lhe trouxe uma marca: os cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo. Marca que, além da experiência, significa fidelidade aos seus princípios de berço nordestino.

O escritor Mario Prata adotou uma teoria um tanto lógica e curiosa: o período da envelhescência. Diz ele que essa fase da vida se situa entre a maturidade e a velhice, vai dos 45 aos 65 anos. Sendo assim, nela me incluo. É a preparação para a velhice, aduz o escritor, assim como depois da infância segue-se a adolescência, que é a porta de entrada da maturidade.

Então, creio, a envelhescência traz reflexão e inquietude. Inevitável olhar para trás e perceber o diluir de muitas esperanças, até mesmo as idealizadas em quartos de pensão. Inevitável antever o futuro e observar o pouco tempo que resta para a realização dos sonhos que ainda pretendemos alcançar. A construção desses sonhos claudica diante da exiguidade do tempo. O horizonte se distancia, mas a coragem persiste.

Mas o certo é que na envelhescência adquirimos envergadura para não aceitar mais algumas coisas. Por exemplo, que pessoas empoleiradas no poder nos empurrem goela abaixo coisas que elas se acham no direito de fazer. Os governantes gostam muito disto. Adoram empurrar imbecilidades em nossos orifícios.

Naquele tempo da pensão de Santo André lutávamos por um Brasil melhor. Hoje os momentos de reflexão insistem em dizer que fracassamos.

Como envelhescente a única certeza é que valeu a pena a sequência dos tropeços e a poeira que sacudimos ao caminhar em direção aos nossos sonhos.

araujo-costa@uol.com.br

Rodelas: em respeito ao senhor João Bosco Soares Santos

De início quero dizer que prezo muito o senhor João Bosco Soares Santos. Leio suas postagens, o tanto quanto me é possível. Muitas delas sensatas, interessantes e respeitáveis. E não é só. Admiro sua estirpe, suas raízes, sua ascendência.

Estas considerações vêm a propósito do comentário do senhor João Bosco Soares Santos em 16/09/2019, no grupo de WhatsApp Notícia com segurança.

Agradeço sua lembrança:  “Esse Walter, que eu já conhecia, apresentado por Iago Lívio, este alto servido da Caixa Econômica, filho do falecido vereador de Chorrochó, José Claudionor – o Nonô…”.

Sou admirador de Iago Lívio, assim como continuo sendo, “in memoriam”, de seu pai e meu amigo José Claudionor Menezes. Iago deve saber desta minha admiração por sua família, incluindo Socorro, exemplo de vida e decência.

Passaram-se décadas, mas minha admiração por Nonô perdurou.

Mas essa é outra história.

Possivelmente o artigo A Bahia e a liderança política do governador Rui Costa tenha sido meu único texto que o senhor João Bosco leu, pelo que agradeço e sinto-me honrado..

O senhor João Bosco disse ainda que sou “um puxa-saco dos condenados Lula e Zé Dirceu”.

Aqui está o seu gritante equívoco. Não sou puxa-saco de nenhum dos dois. Nunca fui.

Vi o Partido dos Trabalhadores nascer. Conheço Lula da Silva e José Dirceu, mas em nenhum momento de minha vida puxei o saco de ambos. Portanto, a expressão “ainda é um puxa-saco” não procede, ainda mais sem nenhum sustentáculo que a ampare.

Tenho amigos fundadores do PT, inclusive em São Bernardo do Campo. Não costumo misturar as coisas. Sou democrata. Eles têm o direito de ser petistas.

Portanto, senhor João Bosco, esclareço que nunca fui petista, mas sou democrata e, conseguintemente, respeito o direito de quem é. Mais: não sou filiado a nenhum partido político.

Na condição de advogado e não de jornalista, tenho argumentado que a prisão de Lula, após condenação em segunda instância, é inconstitucional. A Constituição da República não a autoriza. Há centenas de outros condenados na mesma condição de Lula da Silva que estão por aí, soltos, e até cometendo novos delitos. Bárbaros delitos.

O Supremo Tribunal Federal faz vistas grossas. O STF precisa encontrar uma saída para esse imbróglio: se mandar soltar Lula da Silva – e tem de mandar soltar logo, independentemente de outras eventuais condenações – terá que colocar milhares de outros presos na rua, muitos de alta periculosidade.

Ou a lei vale para todos ou estamos numa hipocrisia jurídica e democrática sem tamanho.

Sabemos que a lei não vale para todos, mas é o que está escrito nos compêndios jurídicos.

Foram alguns ministros do STF que, por vaidade, permitiram a prisão em segunda instância. O plenário do tribunal ainda não decidiu sobre essa barbaridade. Não se sabe por quê.

Quanto a José Dirceu, não há um só artigo meu em que eu o tenha defendido. Ao contrário, venho lamentando que, enquanto líder, ele tenha decepcionado milhões de brasileiros que nele acreditaram. Uma geração inteira.

Não sei, neste caso, onde está minha condição de “puxa-saco”, como diz o senhor João Bosco Soares Santos.

Se José Dirceu não tivesse sucumbido à corrupção, não teríamos em nossa história D.  Dilma Rousseff como presidente. Hoje, pelo que se sabe, um ou outro daria na mesma.

Por fim, o senhor João Bosco diz que “para ser bom e respeitado escritor é preciso ser imparcial”.

Pois bem, senhor João Bosco. Nunca pretendi ser “bom e respeitado escritor”. Mas modéstia à parte, tenho primado pela imparcialidade, não obstante seu entendimento ao contrário.

Quanto ao artigo que o senhor questionou, não posso negar a liderança política do governador Rui Costa na Bahia. Negá-la, aí sim, seria parcialidade.

Aqui ou alhures, não fica bem negar a liderança do governador da Bahia, simplesmente por divergência ideológica.

Seria atentar contra nossa honestidade intelectual. O senhor sabe disto. Sabe muito bem disto.

No mais, agradeço por ter lido meu texto, embora tenha interpretado arrevesadamente.

Mas respeito o seu direito de interpretá-lo consoante sua visão política.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, um exemplo de vida e decência

“Bafejado pelo êxito, qualquer homem se imagina predestinado a grandes missões. Se estiver à altura das oportunidades, a vitória lhe proporcionará energias imprevistas” (Luís Viana Filho, 1908-1990)

Já se vão, por aí, algumas décadas.

Em 1971, precisamente em janeiro, conheci Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho. Homem de grandes missões, sempre esteve à altura das oportunidades.

A circunstância foi alvissareira para este modesto escrevinhador que, oriundo da caatinga curaçaense de Patamuté, matriculava-me no primeiro ano do curso ginasial em Chorrochó.

Tempo de sonhos, tempo de vontade de seguir avante, tempo de antever horizontes.

À época, Dr. Pacheco era Diretor do Colégio Normal São José, função que desempenhava com dignidade e honradez.

O Colégio São José, então cenecista, obedecia a normas e diretrizes da Campanha Nacional de Educandários da Comunidade (CNEC), instituição de providencial importância para os municípios do interior. Ainda se estava estruturando.

O ensino propiciado pelo poder público nos municípios era demasiadamente ineficiente e deixava lacunas consideráveis. A CNEC, em alguns casos, preenchia esses espaços, fundando escolas e viabilizando professores locais. Assim, estribado nesses princípios, Chorrochó construiu significativos valores que perduram até hoje.

Na ocasião a que me refiro, Dr. Pacheco já havia ingressado no Ministério Público do Estado da Bahia e exercia a função de Adjunto de Promotor na então jovem comarca de Chorrochó, que tinha sido instalada em outubro de 1967. O Dr. Olinto Lopes Galvão Filho era o juiz de direito titular da comarca.

Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho fez brilhante carreira na Bahia e trabalhou em diversas comarcas do Estado, dentre elas Chorrochó, Morro do Chapéu, Euclides da Cunha, Paulo Afonso e Salvador.

Em todas elas alçou posição de destaque no edificante exercício de sua função de promotor de Justiça. Salvo engano, aposentou-se em novembro de 1994.

Dr. Pacheco é casado com a professora Maria Therezinha de Menezes, brilhante senhora da sociedade chorrochoense, ícone da cultura local, lídima, notável e conspícua intérprete das tradições de Chorrochó, com quem constituiu família.

As filhas Fabíola Margherita e Cynthia Cibelle completam o núcleo familiar do casal. E estão, por aí, sempre ao redor, desfrutando a ascendência exemplar.

Não custa acrescentar que o Colégio São José, hoje estadual, ainda desempenha importante papel na educação de Chorrochó. Lá está, seguramente, a semente imorredoura plantada pelo ilustre aniversariante de hoje.

Dr. Antonio Pacheco de Menezes Filho completa mais um ano, todos bem vividos. É uma data significativa para quem, durante toda a vida, deu monumentais exemplos de bondade e competência profissional para seguidas gerações.

Dono de uma humildade impressionante, Dr. Pacheco construiu uma história de elevada honradez e seriedade. É um exemplo para chorrochoenses, admiradores e familiares.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, derrame copiosas bênçãos sobre o aniversariante e o excelso Senhor do Bonfim dê-lhe o costumeiro amparo em seu dia-a-dia.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá homenageia a professora Tereza Cristina

“Quando eu morrer, minha alma nunca vai andar em São Paulo, se tiver vergonha” (Abílio Gomes, apud Esmeraldo Lopes)

Em 17 do corrente mês, o prefeito de Curaçá, Pedro Oliveira (PSC), inaugurou uma escola na sede do município e, acertadamente, deu-lhe o nome de Escola Municipal Tereza Cristina Gomes Miranda.

Trata-se de louvável reconhecimento da Municipalidade à altivez da professora Tereza Cristina, nossa querida Tequinha, que se dedicou à educação de Curaçá com esmero, seriedade e sabedoria.

A professora Tereza Cristina amoldou sua formação de educadora no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, tradicional estabelecimento de Curaçá. Lá começou sua caminhada.

Fomos colegas de classe. Lá tivemos os melhores mestres. À época ela já demonstrava impressionante interesse pela área que viria a abraçar anos depois e, servindo-se dela, preencheria robustas páginas da história de Curaçá.

Entretanto, éramos jovens e, como tais, não seríamos capazes de vislumbrar o brilhante futuro que Tereza Cristina teria pela frente, em busca de seguros horizontes para indicar aos seus aprendizes.

Encimei esta página com uma citação de Abílio Gomes da Silva, que transmitiu a Tequinha a firmeza de caráter irrepreensível e a cordialidade tão presente na vida de ambos. Abílio e Tequinha eram pessoas encantadoras.

Em princípio, a frase de Abílio pode parecer fora do contexto da inauguração da escola, evento tão caro aos curaçaenses, mas é inserida aqui para lembrar o caráter, a opinião e o seu jeito espirituoso.

Tendo morado em São Paulo, onde foi cavar meios de sobrevivência, em Curaçá foi-lhe perguntado quando voltaria ao Sudeste. A resposta espirituosa de Abílio fez parte do interesse do sociólogo Esmeraldo Lopes, que entende tudo de Curaçá.

Mais do que isto: Esmeraldo Lopes entende o espírito de Curaçá, a gente de Curaçá, as perguntas e as respostas de Curaçá.

Não é pouco.

O fato é que Curaçá ganha mais do que uma escola. Ganha a sedimentação do pensamento de Tereza Cristina, o escrever de sua história de vida e, sobretudo, o registro de sua contribuição à educação do município.

Ganha também a tradição local, ganha a sociedade, ganha o ensino público.

É um tanto forte o vazio deixado pela professora Tereza Cristina. Todavia é confortador ver o seu nome enriquecendo as páginas da história de Curaçá.

O prefeito Pedro Oliveira, o secretário municipal de Educação e toda equipe envolvida no empreendimento podem erigir os louros que lhes permitiram a realização desse fato histórico.

As boas ideias nunca serão ofuscadas pelas passageiras incompreensões.

A educação é o esteio que sustenta a sociedade, qualquer que seja ela, em qualquer tempo.

Curaçá, nesse particular, está no caminho certo.

araujo-costa@uol.com.br

Sugestão indecente

Um amigo de Patamuté – creiam, ainda tenho amigos por lá – estava em Juazeiro, telefonou-me, fez uma pergunta indecente: por que não me candidato a qualquer cargo em Curaçá? Vereador, por exemplo?

Disse-lhe que somente me arriscaria, se vereador ou qualquer exercente de cargo público trabalhasse de graça, sem salário, sem mordomias, sem benesses e sem outros penduricalhos mais, que deixam o indivíduo com o rei na barriga.

A negativa não quer dizer que não preciso de dinheiro. É exatamente porque não tenho dinheiro, por ser um pé-rapado, que não me meto mais em casa de marimbondo.

Ser político fazia parte de meus sonhos de jovem utópico. Delírios da juventude. Todo mundo pode derrapar na vida. Escorregões são naturais.

Quando o sujeito entra na política, mesmo que seja rico e honesto, passa a ser larápio na boca do povo. E até com razão, em certas circunstâncias. O povo é sábio.

Além do mais, disse ao meu amigo: já sou idoso, segundo fiquei sabendo. Não me meto mais em enrascada.

Notei mesmo que sou idoso por acaso e não observando a cédula de identidade. Dia desses, entrei numa repartição pública em São Bernardo do Campo e na recepção se formava uma fila, como, aliás, em todo lugar que se vai.

Uma senhora, já pra lá de Bagdá, lançou-me um olhar de dó e desprezo e imediatamente dirigiu-se ao atendente:

– “Deixe esse senhor passar na minha frente”.

Fiz uns salamaleques, agradeci a gentiliza e me lembrei de dizer a surrada e idiota frase: “primeiro as damas”.

– “Imagine! Eu estou bem”, disse ela.

Noutras palavras, ela quis dizer mesmo que estou um caco. Comecei a me preocupar. Mas não há de ser nada. Não estou assim tão moribundo.

Todavia, voltando ao assunto da candidatura sugerida, houve um tempo, em que vereador não tinha salário ou vencimentos, qualquer que seja a denominação. O edil representava o povo de verdade, diferentemente de hoje, que cuida mais dos próprios bolsos.

Há alguns anos, pensei em cutucar os vereadores do Brasil pra ver se eles gostavam mesmo do povo ou dos subsídios.

Sem nenhuma maldade, conversei com um amigo deputado federal e lhe sugeri que apresentasse um projeto de lei na Câmara dos Deputados retirando os subsídios dos vereadores a partir da aprovação da medida legislativa, se aprovada fosse.

Os vereadores passariam a ser voluntários, filantrópicos, piedosos, defensores arraigados de  seus redutos eleitorais.

Não tive êxito em minha empreitada. Meu amigo deputado foi rápido.

– Que é isso, rapaz? Você quer acabar com minha carreira política? E minhas bases?”

Deixei pra lá. Ficou o dito pelo não dito.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia e a liderança do governador Rui Costa

“Não tenho vocação para ser coruja que gaba o próprio toco” (Rui Costa)

O governador da Bahia, Rui Costa, concedeu entrevista às páginas amarelas da Revista Veja desta semana.

Sensato, o pensamento de Rui Costa parece distanciar-se do Partido dos Trabalhadores (PT), de que é filiado desde o início da agremiação partidária em 1980. É fundador do partido e fiel às suas ordens, por enquanto.

Líder inconteste na Bahia – em 2018 Rui Costa foi reeleito com mais de 75% dos votos válidos – discorreu sobre tudo que o PT sabe, mas não admite: “O maior desafio do PT é se reconectar com a sociedade brasileira”.

Rui foi mais além para ponderar, sabiamente: “É natural que a oposição, se tiver juízo, recolha o trem de pouso e deixe o presidente governar, até para não ganhar a antipatia da sociedade”.

Rui sabe que a antipatia da sociedade é maligna. Está aí o claro exemplo retratado no antipetismo de 2018, que entronou Jair Bolsonaro na presidência da República.

Os radicais do PT devem estar espumando com a entrevista do governador da Bahia. O que eles menos querem é a sensatez, a responsabilidade, o bem do Brasil. Querem mesmo é abarrotar seus bolsos de dinheiro público à custa dos brasileiros. Estão aí para provar, a Petrobras, a Odebrecht, a OAS e outros tantos conhecidos corruptores ativos.

Rui Costa admitiu, sem reservas, que “o certo era o PT ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás”, em 2018. Admitiu que o PT não tinha chances de sair vitorioso nas urnas de 2018.

Por falta desse apoio, Ciro Gomes está magoadíssimo com Lula da Silva de quem foi ministro, espinafra o PT em toda oportunidade que lhe é possível e dá violentas estocadas nos radicais do PT, que o abandonaram e preferiram o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, subserviente a Lula e, mais do que isto, seu fantoche.

Ciro Gomes sabe que o culpado disso tudo é Lula da Silva e não nega isto.

Na entrevista, Rui Costa demonstra claro descontentamento com o PT, a ponto de dizer que o partido precisa condenar os abusos da Venezuela e esquecer o “Lula Livre”. É uma estocada em Gleisi Hoffmann, destrambelhada presidente do PT, que é apaixonada pelos descalabros do ditador Nicolás Maduro. Até foi à última posse do ditador.

Bem informado, o governador da Bahia sabe que o PT está se esvaindo. Hoje o Diário do Grande ABC, de Santo André, traz uma informação preocupante: o PT encolheu 52,1% no berço do partido.

A última eleição interna do partido (PED) demonstrou que, em dez anos, o PT encolheu assustadoramente na região do ABC: em 2009 eram 13.567 militantes. No último domingo, esse número caiu para 6.495 militantes.

O presidente do PT em São Bernardo do Campo, casa e terreiro de Lula da Silva, deu uma violenta repreensão em seus correligionários por isto. Ficou feio. Muitos petistas não querem mais o PT. Só isto.

O fato é que o PT vem se desgastando junto aos próprios militantes, antes aguerridos. Ninguém, entre eles, acredita que Lula da Silva é inocente das acusações de corrupção.

Os petistas sentem-se traídos pela confiança que depositaram no ex-presidente. Isto é voz corrente no ABC paulista, em qualquer boteco e reduto de Lula.

Em 2016, o PT perdeu em todos os sete municípios do ABC. Sequer reelegeu o filho de Lula, que era vereador em São Bernardo do Campo. Constrangedor. Rui Costa está atento a tudo isto.

Em resumo: as maiores lideranças do PT estão na Bahia: Jaques Wagner e Rui Costa.

Se o PT tiver juízo, fica de olho neles. Um ou outro será o melhor candidato do partido para a disputa presidencial de 2022, mas Jaques Wagner pode não querer.

Fernando Haddad foi e será um fiasco. Exemplo claro é a recente caravana “Lula Livre”, que ele fez ao Nordeste. Em Recife, só compareceram admiradores dele e do PT. Ninguém mais.

Hoje, o governador da Bahia Rui Costa é a maior liderança do PT no Nordeste, região que vem sustentando os descalabros do partido.

Mas pode mudar.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o adeus de Maroto

“O peso de sentir! O peso de ter que sentir!” (Fernando Pessoa, 1888-1935)

Curaçá perdeu Juvêncio Ferreira de Oliveira. Maroto, Marotinho e outras qualificações mais com as quais conhecíamos e gostávamos de chamá-lo, carinhosamente, respeitosamente.

Maroto, por si só, era o respeito, a decência, a clarividência de espírito, a consideração, a humildade.

Em Curaçá, de onde nunca saiu, Maroto fez muitas façanhas na vida. Até foi político, exerceu a vereança.

Difícil falar de Maroto! Vem-nos “o peso de sentir, o peso de ter que sentir” e isto nos deixa inexplicavelmente prostrados diante da vida ou da morte.

Sobre Maroto, há brilhante texto escrito em abril de 2014, de autoria do professor Luciano Lugori, admirável inteligência da nova geração de Curaçá.

O autor do texto, registrava a impaciência de Maroto, à época, por volta dos 80 anos vividos, bem vividos:

 “ Eu já estou morto! Não sei por que a morte não me leva logo”.

Não, Maroto. Ainda não era o momento de você partir. Você nos deu a alegria de seu convívio por mais alguns anos. O tempo balizou o parâmetro para delimitar sua presença entre nós, que lhe admiramos.

Maroto era um “vencedor do tempo”. Era natural que, naquela altura da vida – ou do tempo – ele sentisse essa vontade de manifestar o cansaço da vida. Vida correta, honesta, exemplar.

Contudo, Maroto era um cara esperto. Aliás, espertíssimo. Talvez dissesse aquilo filosoficamente, para coadunar com sua forma decente de viver. A vida de Maroto foi muito decente, irrepreensivelmente decente.

Muitas vezes, em anos distantes, participei de conversas agradáveis e costumeiras com Maroto. Conversas animadas, sinceras, convidativas. Suas gargalhadas pareciam uma forma de afastar os tropeços da vida.

Lugori vai longe, despretensiosamente, com essa história de dizer as coisas de Curaçá. E disse-o muito bem sobre Maroto.

À época o professor Lugori dizia:

“Juvêncio é um homem forte e sábio, por isso a morte ignora seu rogo birrento. Ele agora nos escuta com olhos. Basta observá-lo para dizer-lhe algo e ele tão logo retribuirá a atenção, seja com gestos ou expressões. E o seu olhar apontado para diante nós, nos diz muito mais do que a boca e suas próprias palavras seriam capazes de exprimir”.

Agora, com a partida de Maroto, não há o que acrescentar. Eis tudo.

Que Jesus Cristo, redentor do mundo, indique-lhe o caminho e que Deus o ampare.

Meus sentimentos a todos da família de Maroto.

araujo-costa@uol.com.br

E agora, PT? Cadê o Miranda?

O Partido dos Trabalhadores (PT) e seus seguidores arrumaram mais uma tarefa para resolver, dentre muitas outras que não têm conseguido dar conta: além do Queiroz, agora também eles precisam saber onde está o David Miranda, deputado federal do PSOL, tentáculo do PT, que fez exatamente igual ao que o Queiroz fez.

Dia da caça

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro, movimentou num ano R$ 1,2 milhão em sua conta, sem origem comprovada.

O PT não falava noutra coisa até ontem.

Dia do caçador

Agora, foi publicado que o mesmo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) disse que o deputado David Miranda (PSOL-RJ) movimentou num ano mais do que o dobro do Queiroz: R$ 2,5 milhões, também em movimentação suspeita.

Coincidência gritante entre Queiroz e David Miranda: os depósitos e saques foram fracionados na base de R$ 2.000,00 e R$ 5.000,00. Mais coincidência: ambos estavam ligados a atividade parlamentar no Rio de Janeiro à época dos depósitos e saques suspeitos.

Mais ainda: o volume de dinheiro movimentado é incompatível com a renda de ambos. Queiroz era assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro; David Miranda era vereador.

Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT e Paulo Pimenta, líder do partido na Câmara dos Deputados e muitos outros petistas e admiradores, que a todo instante perguntam onde está o Queiroz, precisam agora explicar a dinheirama que o Davi Miranda movimentou.

Ou então vão ter que dizer que é culpa do Sérgio Moro e do procurador Dallagnol.

O PSOL é um puxadinho do PT e David Miranda se intitula favelado. Talvez seja o único favelado que mora nas regiões nobres do Rio e Brasília e tem renda de R$ 2,5 milhões ao ano.

Sortudo esse David Miranda, não?

Bom aluno do PT, o deputado David Miranda já adotou o surrado discurso: é perseguição.

Só para lembrar: esse deputado David Miranda é o marido do jornalista americano Glenn Greenwald, dono do The Intercept Brasil. Miranda era suplente de Jean Wyllys, também do PSOL e assumiu em seu lugar, tendo em vista a renúncia não explicada do titular.

Considerando o barulho que os petistas e o pessoal do PSOL fizeram no episódio do Queiroz, supõe-se que são pessoas honestíssimas e não se envolvem em maracutaias.

Não duvido.

Só o Queiroz deve ser desonesto.

araujo-costa@uol.com.br

Um comunista que deixa saudade

“O mais difícil é não fazer nada” (ditado judaico).

Aberto Goldman, ex-governador de São Paulo, faleceu em 01/09/2019, início da semana da Pátria.

Comunista até a alma, marxista que migrou para a social-democracia, Goldman transitou da esquerda a todos os espectros políticos, com desenvoltura exemplar.

Conheci-o em 1976, em Mauá, município da grande São Paulo, em plena ditadura militar. Goldman na trincheira contra os excessos do governo. Sério, atento, idealista, intrinsecamente preocupado com o Brasil.

Ainda jovem, aluno da Universidade de São Paulo (USP), ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) de linha soviética. Como todo estudante, acreditava em utopias, mesmo aquelas que os séculos as desmoronaram.

Goldman era idealista. Essencialmente idealista.

Filiado ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Alberto Goldman foi deputado estadual em São Paulo entre 1971 e 1978 e deputado federal por dois mandatos.

Depois de ser ministro dos Transportes (1992-1993), Goldman retornou ao seu convívio em São Paulo para, mais tarde, ser vice-governador de José Serra. Assumiu a titularidade de governador, embora por curto período.

Recolhido à velhice, o atual governador João Dória, num dos momentos de deselegância o chamou de “fracassado, por viver de pijama em casa”.

Infeliz a frase do governador João Dória. Nem sempre é fracassado quem está de pijama, por ter cumprido o seu dever.

Alberto Goldman deixa saudade. Ele acreditava no Brasil.

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