A Bahia e a vaidade dos procuradores da República

“Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” (Carlos Drummond de Andrade)

A Bahia de Ruy Barbosa ganha simbolicamente a Procuradoria-Geral da República, se não houver desvio de rota político ou jurídico. E se os vaidosos procuradores da República não acabarem com o Brasil.

No uso de suas atribuições constitucionais, o presidente Jair Bolsonaro indicou o procurador baiano Augusto Aras para chefe da Procuradoria-Geral da República.

A nomeação depende ainda do crivo da Comissão de Constituição e Justiça e do plenário do Senado Federal, que dará a palavra final.

Augusto Aras é filho do advogado, político e ex-deputado Roque Aras, que foi vereador de Feira de Santana, deputado estadual e deputado federal.

Filho de Monte Santo, Roque Aras estudou no Colégio D. Bosco de Petrolina e no Ginásio Juazeiro. Fez carreira política no antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no tempo da ditadura militar. Teve atividade parlamentar atuante que honrou a Bahia e seu povo.

Entretanto, a indicação de Augusto Aras está sendo contestada pela vaidosa Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), uma espécie de sindicato da categoria disfarçado e intransigente defensor do corporativismo.

Como de costume,  a ANPR fez consulta interna e apresentou ao presidente da República uma lista tríplice que contemplou os mais votados. Debalde, diria Ulysses Guimarães.

O problema dessa lista é um só: o presidente da República, qualquer que seja ele – da esquerda, da direita ou do centro – não é obrigado a nomear o procurador-geral de acordo com essa lista tríplice, porque a lei não lhe obriga. A Constituição Federal é claríssima, não contempla nenhuma lista, tampouco qualquer escolha prévia.

Ao contrário, a Constituição assegura ao presidente a prerrogativa de indicar o procurador-geral. E só.

O que há é uma tradição. Por essa tradição, nos últimos governos, o chefe da Procuradoria vinha sendo nomeado de acordo com a lista tríplice. Tradição não é lei e, logo, o presidente não lhe está adstrito.

A tradição é importante, enfeita a história, mas não tem força de lei.

Lula da Silva e D. Dilma Rousseff seguiram a lista, tão-somente por opção e não por obrigatoriedade. Poderiam ter optado por nomes fora da lista, mas não o fizeram. Não erraram.

O presidente da República Jair Bolsonaro não errou ao indicar o procurador-geral fora da lista, nem a ANPR errou em apresentá-la ao presidente.

Em resumo: neste caso, a lista tríplice e nada é a mesma coisa.

Contudo, há uma briga de foice entre procuradores, regada a vaidade e sustentada pela desfaçatez do corporativismo. O procurador Augusto Aras não faz parte dos defensores intransigentes da lista tríplice.  E por isto está sendo apedrejado pelos colegas.

Como se vê, o Brasil está jogado às traças. Quem tem o dever legal de cumprir a lei não o faz, caso dos procuradores. Isto é perigoso e avacalha as instituições.

Chega a ser constrangedor que os procuradores da Repúblicas contrariem a Constituição acintosamente. São eles – os procuradores – que defendem os interesses da sociedade, ou pelo menos, deveriam defendê-los. São pagos para isto.

Onde está escrito que o presidente da República é obrigado a obedecer a lista tríplice?

Os vaidosos procuradores da República, pagos pela sociedade, acham que o Brasil deve nortear-se de acordo com a vontade deles. São pretensiosos e arrogantes.

“Nenhum Brasil existe”. Só eles, segundo eles.

Não é à toa que a operação Lava Jato, inicialmente séria, está indo pelo ralo da insensatez e da desmoralização.

araujo-costa@uol.com.br

No PT é assim

“Quem tem pescoço sabe que a diferença entre a corda e a gravata está nas mãos de quem ata” (Frei Betto)

No PT é assim.
Os membros do PT não confiam em si próprios.
Em 08/09/2019, o Partido dos Trabalhadores fará eleição para escolha dos presidentes dos diretórios municipais e dos delegados para os congressos estaduais e nacional do partido.
Só em São Paulo, o PT nomeou 200 fiscais, para vigiar o próprio PT, no procedimento interno que o partido definiu como Processo de Eleição Direta (PED): uma embromação que o PT criou para dizer que é um partido político sério e democrático.
Se os petistas não acreditam em si próprios, como os demais brasileiros devem acreditar neles?
Quem duvidar, leia Paraíso Perdido, monumental livro de frei Betto, em minha opinião, a maior autoridade em assuntos do PT. Humilde frade dominicano, amigo e confessor de Lula da Silva e o maior exemplo de humildade que vi até hoje.Conheço-o muito bem.
Frei Betto sabe tudo sobre tudo do PT e suas entranhas. Quem discordar dele em assuntos do PT, mesmo sendo do PT, não conhece o PT.

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá e o retrovisor da história

Uma das falhas mais comuns encontráveis na atuação dos administradores públicos é o sentar sobre seus problemas e apontar erros dos gestores que os antecederam.

Isto acontece nas três esferas de governo, sem exceção. Em Curaçá, não é diferente.

Alguns dizem que Curaçá está longe de encontrar o seu caminho. Outros asseguram que inteligentes descobridores capitaneados pelo prefeito Pedro Oliveira já o encontraram e pavimentaram-no com os louros do ineditismo administrativo. Só eles conseguem fazer o que dantes outros nunca tinham conseguido.

A turma do prefeito Pedro Oliveira diz que ele está fazendo a melhor administração da face da terra, o que não duvido, ao passo que seus possíveis adversários em 2020, em discreta pré-campanha, já se esforçam para abrir o caminho em direção às urnas e apontam os possíveis erros de gestão do atual alcaide.

Contudo, o que se vê em Curaçá é um repisar de citação de fatos acontecidos em administrações passadas, que não leva a lugar nenhum. Campanha se faz com ideias e não com o olho no retrovisor.

Por exemplo: É fato que o ex-prefeito Carlos Luiz Brandão Leite foi acusado de algumas irregularidades, o que não significa, necessariamente, que as tenha cometido tais quais entendem seus acusadores e como diz a letra da lei.

O Poder Judiciário dará a palavra final irretorquível.

Caiu no Ministério Público Federal a notícia de um certo superfaturamento de carne de bode para a merenda escolar. Diziam à época que o prefeito adquiriu, ou pretendeu adquirir, carne de bode ao preço de R$ 25,00 o quilo, quando, no mercado, o preço pairava entre R$ 12,00 e R$ 14,00.

Está sendo comum em redes sociais a recorrência desses assuntos em Curaçá.

Acusaram-no de ter sumido com aproximadamente 54 mil litros de leite do programa Fome Zero ou com o dinheiro correspondente. Isto virou um quiproquó danado, foi parar na Câmara Municipal, que instalou uma comissão de inquérito e daí seguiu adiante.

O vereador Theodomiro Mendes, ilustre curaçaense com robustas raízes em Patamuté, então presidente da Câmara, teve brilhante atuação nesse episódio, com o intuito de esclarecer à população a possível falcatrua da administração municipal. Aliás, fiscalizar é a função precípua do Legislativo.

A bancada de oposição ao prefeito que, na ocasião, era constituída de sete vereadores, salvo engano – e aqui esse número é irrelevante – estranhou também que essa carne de bode tenha sido fornecida por uma panificadora de Juazeiro.

Os vereadores alegaram que Curaçá é conhecido como grande e inegável criador de caprinos e, em razão disto, não se justificava que a Prefeitura tivesse adquirido a carne em Juazeiro e, estranhamente, numa panificadora.

Tinha sentido. Ainda sou do tempo que panificadora vendia pão e não carne. Mas tudo muda, inclusive as padarias.

Houve, também, o caso de valores que a Prefeitura descontava dos servidores e não repassava à credora Caixa Econômica Federal na ordem aproximada de R$ 2 milhões de reais, mas isto o prefeito disse à época que procurou a Caixa para solucionar o problema, era um mal entendido. Deve ter regularizado, mas isto lhe arranhou politicamente.

Teve até acusação de que servidores da Prefeitura viajaram em cruzeiro marítimo com despesas pagas pela Municipalidade. Se verdade, a Prefeitura deve ter sido reembolsada, porque a lógica não ampara que servidores públicos de Curaçá tenham  embarcado num cruzeiro a serviço.

Entretanto, denúncia e processo não significam condenação. O acusado exerce seu direito constitucional de ampla defesa e, lá na frente, pode até provar sua inocência e ser absolvido pelos tribunais competentes. Isto vale para Carlinhos Brandão, Pedro Oliveira ou quaisquer outros, o que não é novidade.

O ínclito Salvador Lopes Gonsalves, que o admiro desde sempre, também foi acusado de irregularidades à frente da Prefeitura de Curaçá, o que não significa dizer que sua conduta de homem público seja reprovável.

Salvador é idealista. Mais do que isto: é sério.

Há até um hilário edital publicado no Diário Oficial da União de 23/04/2018 notificando o ex-prefeito Salvador, por “encontrar-se em local incerto e não sabido”.

Até as formigas sabem o endereço de Salvador, mas a Caixa Econômica Federal não sabia. Coisas da política.

Sempre haverá o joio e o trigo. É preciso separá-los com cautela.

Mas, cá embaixo, na base das incompreensões, as paixões políticas valem-se das falhas dos adversários – eventuais ou não –  para tentar desconstruí-los politicamente. É uma forma arrevesada de fazer política.

Essa prática demonstra mais pequenez de ideias e ausência de ideário do que grandeza política para defesa das causas do povo que essas pessoas dizem abraçar.

Lembro de um texto redigido na segunda metade da década de 1960 pelo Dr. Pompílio Possídio Coelho, honra e glória de Curaçá, para a campanha de José Félix Filho (Zé Borges), grande filho de Poço de Fora, que foi prefeito de Curaçá (1963-1967 e 1971-1973):

“Os homens passam, as gerações passam, mas a terra fica para ser amada e admirada por seus filhos”.

Talvez o pessoal dessa geração política de Curaçá esteja precisando dos exemplos dos antepassados.

Preocupar-se somente com o retrovisor pode ofuscar a visão do horizonte.

araujo-costa@uol.com.br

Em Chorrochó, uma confusa linguagem política

Em 1974, quando situação e oposição se resumiam em ARENA e MDB, a oposição da Bahia lançou Clemens Sampaio candidato ao Senado, para disputar com o historiador e ex-governador arenista Luís Viana Filho, descendente do conselheiro Luís Viana e nascido na França.

Clemens Sampaio perdeu feio. As urnas foram cruéis com a oposição. Luiz Viana Filho abocanhou 848.943 votos contra 412.843 de Clemens Sampaio.

Advogado nascido em Amargosa e fazendeiro em São Francisco do Conde, Clemens Sampaio se entrincheirou na oposição durante décadas, mas lhe faltava o discurso certo para ajustá-lo à realidade.

Durante a campanha, por falta de plataforma eleitoral – que a oposição não tinha – Clemens Sampaio se agarrou ao fato de Luís Viana Filho ter nascido em Paris e ironizava nos comícios, em tom de desafio: “Quero que Luís Viana declare o nome da rua, o número da casa e a cidade onde nasceu”.

O jornalista Sebastião Nery, baiano de Jaguaquara, deu a senha para que a fraca oposição da Bahia perdesse a eleição:

– “Que diferença faz para o MDB e para o povo baiano, para as teses nacionais da oposição e para o abandono do interior da Bahia, que Luís Viana tenha nascido dentro da catedral de Salvador ou às margens do Sena?”.

Em 1974, a oposição perdeu a eleição na Bahia por falta de assunto.

Em Chorrochó, meu simpaticíssimo município do sertão baiano, espremido entre pedras, cactos e barrancas do São Francisco, os passarinhos me contam, de quando em vez, que estou em baixa com os políticos de lá.

Dizem que o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) e o vereador Luiz Alberto de Menezes (PT), carinhosamente conhecido como Beto de Arnóbio, não gostam deste humilde escrevinhador.

Não estou bem certo se eles não gostam ou não dão importância, o que dá na mesma.

Não faz mal. Eu não tenho nenhuma importância.

Como não sei a razão deste não gostar, porque gosto de ambos e, confesso, até os admiro, vou levando a vida do meu jeito e cutucando-os de vez em quando, sem maldade.

O prefeito Humberto Gomes Ramos e o vereador Beto de Arnóbio representam, com clareza, a situação e a oposição de Chorrochó. Por enquanto. São senhores respeitáveis, admiráveis, dedicados ao mister político.

É certo que nunca tive a intenção de melindrá-los, nem tenho razão para isto. A imprensa é assim mesmo. Político nenhum gosta dela.

Quanto ao impoluto vereador Beto de Arnóbio, parece que ele anda meio “cabreiro” com alguns de seus colegas de Câmara Municipal e recentemente até chegou a espinafrá-los, dizendo que não têm palavra.

O homem está bravo e, nesse particular, concordo com ele: vereador tem que ter palavra e o vereador Beto de Arnóbio deve ter suas razões para achar que há colegas mudando de ideia no trajeto entre a Prefeitura e a Câmara Municipal. Mas deixa pra lá.

No que tange ao prefeito Humberto Gomes Ramos, dizem que o pessoal dele anda falando por aí que em Chorrochó há emprego adoidado, tudo por conta da competente administração de Sua Excelência.

Lorota. Não há emprego em Chorrochó e tampouco noutros municípios do Brasil. Há desempregados, subempregados, desamparados e et cetera.

Mas, não há de ser nada. Deve ser alvoroço de admiradores do prefeito.

Ou falta de assunto.

Parece que a linguagem política de Chorrochó anda confusa.

araujo-costa@uol.com.br

O despreparo dos procuradores da República

O mínimo que se espera de um operador do Direito é que conheça o Direito. Parece óbvio – é óbvio – mas tem de ser óbvio.

Os procuradores da República que cuidam da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba demonstraram, inequivocamente, falta de preparo científico para defenderem a sociedade. Meteram os pés pelas mãos de forma atabalhoada, irresponsavelmente.

Quando um procurador da República desvia-se de seu caminho institucional dá margem para presumir que o conhecimento científico que deveria ter é substituído pela pequenez e arrogância.

Deprimente as conversas entre procuradores que vieram a público pelo site The Intercept Brasil. As mensagens vazadas traduzem a pequenez dos interlocutores.

A Lava Jato em Curitiba aproxima-se mais de um conluio entre agentes públicos do que, propriamente, de uma força-tarefa criada com o intuito de fazer cumprir a lei.

Veio a público que os despreparados procuradores de Curitiba desdenharam das mortes de pessoas da família de Lula da Silva. Num reduzido espaço de tempo o ex-presidente perdeu a mulher Marisa, o irmão Vavá e o neto Arthur.

Os procuradores ironizaram e debocharam da dor do ex-presidente. Pareciam deslumbrados com a dor alheia.

Mais: acuada pela irresponsabilidade que cometeu, uma procuradora apressou-se em pedir desculpa ao ex-presidente através de rede social e, por consequência, reconheceu o que eles – procuradores – negaram até agora: a autenticidade das mensagens vazadas.

Causa indignação que um procurador da República, pago pela sociedade para fazer cumprir a lei, seja tão despreparado para o exercício do cargo.

É estarrecedor que toda a equipe de procuradores da Lava Jato pense do mesmo jeito. Em quadro assim, não há porque negar o despreparo desses arrogantes servidores públicos.

Há procuradores que sequer conhecem os princípios fundamentais ínsitos nas normas legais.

Vejamos um exemplo: procuradores da República, em Brasília, chegaram a pedir busca e apreensão no endereço de uma Embaixada. Ora, qualquer estudante de Direito sabe que as embaixadas gozam de inviolabilidade, por força da Convenção de Viena de 1961 e têm imunidade diplomática.

Pedir busca e apreensão no interior de quaisquer embaixadas equivale mandar fazê-lo diretamente nos territórios de seus países, até mesmo dentro dos palácios governamentais e desprezar os instrumentos obrigatórios amparados no Direito Internacional.

Os procuradores desconhecem que a embaixada é considerada território do país correspondente. Devem ter sido péssimos alunos de Direito Internacional.

Um absurdo. Cumprir a lei não significa espezinhá-la.

A sociedade brasileira está nas mãos desses despreparados, que têm o dever de defendê-la.

araujo-costa@uol.com.br

O privilegiado deputado da Bahia

“Quem atira com pólvora alheia não mede distância” (Ditado popular)

Começo como uma pergunta que, evidentemente, nunca terei resposta, mas é meu direito fazê-la: por que  deputados e senadores, geralmente ricos, quando precisam de médicos, não se utilizam do SUS?

O deputado federal Claudio Cajado (PP-BA) é um privilegiado, assim como outras tantos parlamentares desta terra de Santa Cruz.

No Brasil, chega a ser pleonasmo dizer que deputado é privilegiado. É redundância.

Sua Excelência o deputado Claudio Cajado, do Partido Progressista da Bahia, pediu reembolso de R$ 218 mil à Câmara dos Deputados para, segundo ele, amparar despesas médicas.

O deputado, que não é de ferro, foi ao médico e pediu à Câmara R$ 218 mil para pagar as despesas médicas.

Na Bahia não tem SUS?

Sem tugir nem mugir, a Câmara deu o dinheiro, até por uma razão bastante simples: o dinheiro não é dela, mas dos brasileiros.

Neste mesmo espaço, recentemente publiquei que outro deputado, desta vez o pastor Feliciano, pediu R$ 157 mil para ir ao dentista.  Foi. E a Câmara pagou. Sem tugir nem mugir.

O artigo, para quem não leu, está aqui: https://araujocosta.blog/2019/08/05/o-sorriso-do-deputado-indecente/

A Câmara dos Deputados segue bem o provérbio popular: “Quem atira com pólvora alheia não mede distância”.

Alguma coisa deve estar errada no Brasil.

Ou tudo está errado no Brasil.

araujo-costa@uol.com.br

Em Uauá, viveu o último dos coronéis do sertão.

“Uauá, como os demais lugares convizinhos, estava sob o domínio de Canudos” (Euclides da Cunha, Os Sertões).

Ainda sob o esvoaçar das cinzas da guerra de Canudos, nasceu em Uauá a figura mais emblemática do sertão baiano, durante décadas: Jerônimo Rodrigues Ribeiro (1916-2015), mais tarde conhecido como coronel Jerônimo Ribeiro.

Uauá já não estava sob o domínio de Canudos, consoante a narrativa euclidiana, mas herdava os resquícios do coronelismo oriundo do Império e a moral inatacável comumente atribuída aos grandes homens públicos.

Jerônimo Ribeiro foi prefeito de Uauá por quatro vezes. Escritor, cordelista, político, folclorista, intelectual e outros mais que a história registra. Homem de caráter irrepreensível, serviu de exemplo para seguidas gerações.

Jerônimo Ribeiro foi eleito prefeito de Uauá na primeira eleição no lastro da redemocratização pós Estado Novo, para o período de 1948-1951, sob o manto do regime constitucional de 1946.

Governou Uauá por mais três períodos: 1955-1959; 1962-1966 e 1970-1972. Perspicaz, conviveu com dois regimes políticos: o democrático, lastreado na Constituição de 1946 e a ditadura militar oriunda de 1964.

Sirvo-me do contexto delineado pelo professor Edgard Carone, para situar Jerônimo Ribeiro em sua geração:

“Desde a Colônia, os grandes proprietários de terra vêm dominando de fatoe tornando-se os homens bons (ricos), que compõem as câmaras municipais”.

“Os barões e coronéis representam simples continuidade do sistema anterior. É que a partir da Independência e, principalmente, do federalismo da Primeira República, acentuam-se os predomínios locais, uma vez que são os representantes das oligarquias latifundiárias que dominam o legislativo e executivo”.

O fato é que o vocábulo coronelismo vem do Império, propriamente, por força da extinta Guarda Nacional.

Em 18 de agosto de 1831, nascia a Guarda Nacional, comandada pelo Padre Diogo Antônio Feijó, ministro da Justiça do Império. Durante quase um século, em cada um dos municípios brasileiros existia um regimento da corporação.

O posto de coronel era geralmente concedido ao chefe político local, assim como os postos de major e capitão. Esses chefes políticos controlavam tudo, inclusive o voto. Por isto a expressão “voto de cabresto”. Era a submissão do trabalhador rural às ordens do patrão.

Conseguintemente, a patente de coronel era atribuída ao mais respeitável líder do município. Era o coronel que abarcava o poder, em toda sua extensão. Mandava, desmandava, concordava, discordava e ia, assim, dirigindo os sertanejos, que o respeitavam com dedicação fidelíssima.

O coronelismo ostentava-se com galhardia e respeito.

Líder político respeitável e personalidade histórica de Uauá, o coronel Jerônimo Ribeiro ostentava o pomposo título que pairava sobre os obedientes redutos eleitorais, embora fosse um líder afável e querido por seu povo.

O coronel Jerônimo Ribeiro alcançou o tempo da eleição “a bico de pena”, em que os mesários escolhiam os eleitos, consoante a vontade dos coronéis.

O coronel Jerônimo Ribeiro se transformou em benfeitor e chefe local de sua gente. Mantinha liderança contínua e respeitosa. Era preparado intelectualmente e, sobretudo, consciente de seu papel perante a sociedade de Uauá.

Já se disse, alhures, que o mistério faz parte da construção dos mitos. Com Jerônimo Ribeiro deu-se o contrário: ele não se valeu dos mistérios indecifráveis do sertão e tampouco se transformou em mito, mas em homem público de valor moral inegável.

Era mais do que isto, uma figura voltada para o bem estar de seus conterrâneos. Experiente, serviu-se da política para construir sua história de sabedoria e lealdade ao seu povo.

Último dos coronéis do sertão da Bahia, longevo, admirável, inesquecível, Jerônimo Ribeiro deixou um legado de sabedoria, educação e bondade.

O coronel Jerônimo Ribeiro era um monumento de altivez e retidão de caráter.

Honra, glória e símbolo de Uauá.

araujo-costa@uol.com.br

A Justiça da Bahia quer gastar

O Tribunal de Justiça da Bahia sinalizou que em breve terá, em seus quadros, mais 10 desembargadores, por força de permissão legal ou coisa parecida. As vagas foram criadas em julho de 2018.

Desnecessário dizer – e se é desnecessário, por que estou dizendo? – que este mesmo Tribunal de Justiça vem fechando comarcas no interior do Estado sob alegação de contenção de gastos, ressalvado o fato de que a desativação dessas comarcas tem o beneplácito do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Contudo, mesmo que o CNJ estabeleça parâmetros para a existência de comarcas, a decisão de fechá-las cabe ao Tribunal de Justiça que, no caso da Bahia, vem suprimindo severamente jurisdições de primeiro grau e deixando a população desamparada.

É desnecessário dizer, mas é preciso dizer o seguinte: o Tribunal de Justiça está sendo contraditório. Fecha comarcas e ao mesmo tempo sinaliza que vai aumentar o número de desembargadores e, em consequência, construir mais 10 gabinetes para abrigar esses novos desembargadores.

Em primeiro grau a Justiça da Bahia está necessitando de juízes e serventuários e desativando comarcas, mas em segundo grau quer aumentar os gastos do Tribunal.

Com o dinheiro que será gasto na construção de gabinetes para abrigarem os novos desembargadores, inclusive aquisição de mobiliário e toda estrutura necessária para sustentar as mordomias de Suas Excelências, o Tribunal de Justiça baiano sustentaria diversas comarcas e, assim, ficaria mais próxima da população.

Será difícil para o TJ-BA explicar para a sociedade baiana, se é que precisa explicar, essa sua atuação contraditória: ao tempo em que fecha comarcas do interior simultaneamente aumenta os gastos em sua estrutura de segundo grau.

A situação financeira da Bahia é difícil – diz o governador – mas para o Tribunal de Justiça a situação é fácil. Aumentar despesas não é problema. A população paga.

O governador Rui Costa vai bem  

A imprensa noticiou que, em recente pesquisa feita em 66 cidades da Bahia, a situação do governador petista Rui Costa continua boa. Ele está rindo à toa.

Ungido pelas urnas de 2018 com votação acima de 75%, o governador praticamente mantém-se na mesma posição. Diz a pesquisa que 69,6% dos baianos aprovam a atuação do petista, ao passo que 25,1% desaprovam. Ou seja, quase nada mudou para Rui Costa.

Igreja ou cabaré?

O espevitado senador Randolfe Rodrigues (Rede) do Amapá, assim como Lula, nascido em Garanhuns, definiu não mui elegantemente o Partido Social Liberal (PSL) do presidente Jair Bolsonaro: “É um partido com frente de igreja e fundo de cabaré”.

O senador deve conhecer bem o assunto.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

Chorrochó, tempo de Josiel

“Não se morre de saudade. Vive-se de saudades” (Joel Silveira, jornalista sergipano, 1918-2007)

José Calazans Bezerra (Josiel) nasceu em Quijingue, ainda município de Tucano e se mudou jovem para Chorrochó. Elegante, cabelos negros, boa pinta, sorriso fácil, educadíssimo, logo ganhou a simpatia de todos, ou de quase todos de Chorrochó.

Casou-se com Maria Menezes Mattos Bezerra, filha de Anna Mattos de Menezes (Quininha) e João Matos Cardoso e com ela constituiu uma família decente e honrada, incluídos aí os filhos José Calazans Bezerra Filho, Ana Maria Mattos Bezerra Brandão e Josiel Calazans Menezes Bezerra.

Todavia, isto é assunto longo para quem entende de história e este não é o meu caso.

A memória esburacada pode produzir o vexame de grafar nomes errados, confundir datas e misturar alhos com bugalhos. Corro o risco de arranhar os fatos e mutilar a história. É melhor deixar a tarefa para os entendidos.

Mas – e sempre há um mas – Josiel entrou na política, impulsionado pelos ventos oriundos de uma divisão interna no seio da família Menezes e se elegeu prefeito de Chorrochó com 1.888 votos apoiado pelos deputados estaduais José Bezerra Neto e José Eloy de Carvalho e de duas lideranças nacionais, ícones da política da Bahia, os deputados federais Manoel Cavalcanti Novaes, pernambucano de Floresta e sua esposa, a paulista Necy Novaes.

Município novo à época (1963/1967), Chorrochó vivia um clima saudável com um prefeito jovem, socialmente admirável.

Josiel cercou-se de nomes respeitáveis da sociedade chorrochoense, a exemplo de José Pacheco de Menezes (Deca), João Mattos Cardoso e Joviniano Cordeiro.

A Câmara Municipal deu-lhe folgada maioria com os vereadores Sebastião Pereira da Silva (Baião), Aurélio Alves de Barros, Lucas Alventino, Pascoal de Almeida Lima e seu cunhado Vivaldo Cardoso de Menezes.

Vivaldo era um senhor versátil, que entendia desde burocracia da fiscalização estadual até política de bastidores de Chorrochó, além de instrumentos musicais. Vereador atuante, presidiu a Câmara Municipal  e sustentou, com sabedoria, os altos e baixos da política local.

A administração de Josiel registrou alguns feitos compatíveis com as condições que o município permitia na ocasião: construiu uma barragem para abastecer a sede do município, iniciou a construção do Grupo Escolar Luís Viana Filho e do Posto Médico Francisco Pacheco (terminado na segunda administração de Dorotheu Pacheco de Menezes) e impulsionou o esporte local, além da conservação de estradas, prédios públicos e do campo de aviação.

Já fora da atividade política, Josiel manteve grande carisma junto aos munícipes, incompatível com o ostracismo a que se impôs voluntariamente. Simpático, atencioso, sensato, indispensável em qualquer reunião de amigos. Afastou-se de disputas eleitorais, embora nunca tenha se afastado de Chorrochó.

Quando podia, era assíduo frequentador e participante ativo da principal festa da cidade, a do padroeiro Senhor do Bonfim.

Pessoa admirável, Josiel também construiu a história de Chorrochó.

É salutar que os órgãos públicos municipais responsáveis pela sedimentação da história de Chorrochó não esqueçam de evidenciar o nome de Josiel, dando-lhe o destaque merecido na construção da sociedade local.

araujo-costa@uol.com.br

Deputados querem legalizar o absurdo

Baiano de Salvador, Orlando Silva, ex-ministro do governo petista, foi eleito deputado federal por São Paulo sob o manto do Partido Comunista do Brasil (PC do B).

A Bahia não tem culpa.

Em 2015, Sua Excelência apresentou o projeto de lei 3.369/2015 instituindo o que ele chamou de Estatuto da Família do Século XXI que, noutras palavras, legaliza a pedofilia, a poligamia, o incesto e por extensão, quaisquer formas de união afetiva.

Legaliza por uma questão muito simples: a amplitude do texto ampara todo tipo de interpretação. Das duas, uma: ou o deputado Orlando Silva não sabe o que é hermenêutica e interpretação de texto ou, no mínimo, padece de alguma dislexia.

Segundo Orlando Silva, o projeto de lei “visa ampliar o conceito de família para que o estado reconheça as diversas configurações familiares que existem hoje na sociedade”.

O relator do projeto de lei na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados é o neófito deputado Túlio Gadêlha (PDT-PE), mais conhecido nos bastidores políticos como “o namorado de Fátima Bernardes”. Como se vê, uma deslumbrada celebridade global.

Sua Excelência, o deputado pedetista pernambucano aduz o seguinte, para justificar a aprovação do estapafúrdio projeto de lei:

“Há tempos que a família é reconhecida não mais apenas por critérios de consanguinidade, descendência genética ou união entre pessoas de diferentes sexos, mas através do amor ou da socioafetividade”.

“Este projeto, portanto, pretende tornar responsabilidade do Estado o reconhecimento formal de qualquer forma digna e amorosa de reunião familiar, independentemente de critérios de gênero, orientação sexual, consanguinidade, religiosidade ou raça”,

Eis tudo.

Ou seja, pode até o que não pode. Pelo projeto de lei, o Brasil é obrigado a reconhecer até os absurdos. Está no texto. É amplíssimo. Basta interpretar.

Este projeto de lei seria votado às 14h de 21/08/2019, mas devido a pressões de parte da sociedade, foi retirado de pauta para, segundo o relator, aperfeiçoar a redação.

Ilustre desconhecido, o presidente da comissão, deputado Helder Salomão (PT-SP), aliado do pedetista pernambucano e do comunista baiano, cedeu às pressões das redes sociais e retirou o projeto para aprimoramento do texto.

Não se sabe por onde andam a Igreja Católica e a chamada “bancada evangélica da Câmara dos Deputados” que não abriram o bico. Certamente estão por aí recolhendo o dízimo dos pobres.

Evidente que os senhores parlamentares vão atribuir as críticas ao projeto de lei à ação de conservadores. Não é verdade. As críticas provêm da sensatez de pessoas que sabem interpretar textos – e há muitas, apesar dos deputados.

Que Deus tenha piedade de todos nós.

araujo-costa@uol.com.br