Macururé, o leitor e “os cadernos de Raimundo Reis”

O jornalista e escritor Raimundo Reis manteve aos domingos, durante 12 anos, no Jornal da Bahia, uma página inteira sob o título Os Cadernos de Raimundo Reis. Na semana, assinava uma crônica.

O Jornal da Bahia foi fundado em 1958 por João Falcão, à época militante comunista e filho de rica família de Feira de Santana.

O Jornal da Bahia abrigou, em suas páginas, dentre outros, além de Raimundo Reis: Glauber Rocha, que ainda não era cineasta, mas repórter; João Ubaldo Ribeiro e João Carlos Teixeira Gomes, mais tarde membro da Academia de Letras da Bahia.

O jornal foi implacavelmente perseguido por Antônio Carlos Magalhães, então todo poderoso governador dos militares oriundos da safra de 1964.

Em 1983 o Jornal da Bahia passou a ser dirigido pelo ex-prefeito de Salvador Mário Kértesz, por indicação de ACM, que antes queria vê-lo pelas costas.

Mário Kertész mais tarde passou a ser o manda chuva das rádios Metrópole e Itaparica FM, nascidas da estrutura do Jornal da Bahia.

Estou me referindo a Raimundo Reis, porque um leitor atento, que se dá ao trabalho de ler meu blog, cobrou-me sobre o porquê de meus textos serem confusos, segundo ele. Referia-se, propriamente, quando escrevo sobre Raimundo Reis, esse grande baiano de Santo Antonio da Glória.

Explico: como sou pobre e não tenho dinheiro para usar, uso meu estilo. E estilo é assim, inexplicável. Cada um tem o seu, assim como cada um vai a onde quer, do seu jeito. O meu é este, caro leitor.

E sobre o artigo a que o leitor se referiu com o título Macururé e Raimundo Reis, publicado em 27/07/2018, ei-lo novamente:

Raimundo Reis de Oliveira (1930-2002), baiano de Santo Antonio da Glória, antiga Curral dos Bois, hoje simplesmente Glória, sertanejo de espírito irreverente, advogado, político, jornalista, cronista, escritor e radialista. No tempo em que os partidos políticos ainda não eram esse amontoado de excrescência de hoje, foi deputado estadual pelo antigo PSD da Bahia, a maior escola política, filosófica e partidária do período 1946-1964.

Inteligente e espirituoso, apaixonado pelo sertão e por Macururé, que ajudou a tornar município, escreveu muita coisa ao longo de sua existência de intelectual.

Ele e João Carlos Tourinho Dantas, colegas na legislatura de 1959-1963, foram os responsáveis pela aprovação da lei que, em 1962, elevou Macururé à categoria de município, emancipando-o de Glória.

O biógrafo de Raimundo Reis, se um dia existir, terá que estudar muito sobre Macururé. Certamente sua tarefa será facilitada se priorizar, com afinco, o papel que o Partido Social Democrático teve no sertão baiano.

Dentre os muitos textos que escreveu sobre Macururé, no final da década de 1950 Raimundo Reis fez uma crônica bem humorada, depois publicada em seu livro Geografia do Amor, da qual extraio a seguinte parte:

“Era observador do município de Macururé junto à Conferência Internacional da OEA. Em lá chegando, logo no primeiro dia, criou-se com minha presença um caso que quase toma ares de conflito. Ao apresentar meus documentos, o presidente da Comissão de Credenciais levantou a dúvida, afirmando sem base geográfica:

 – Macururé não existe.

Observei, modesto, o seu engano, esclarecendo que lá era o berço natal de Corisco* e Pente Fino, famosos cabras de Lampião. Que o maior tocador de sanfona do Nordeste morava naquela cidade.

Ele, por acaso, não tinha ouvido falar em Divina, a morena mais bonita de todo o sertão, que já tinha virado mais de dez caminhões, pois motoristas apaixonados tinham imprimido velocidade demais aos veículos para chegarem mais cedo aos seus braços de amada?

O presidente era um desinformado. Não sabia nada. Como a maioria dos diplomatas, pertencia a outro mundo.

Quem salvou a situação foi o chanceler Luís Viana Filho que, no momento, entrava no recinto. Deu a sentença final:

 – Macururé existe, sim. Tive lá 50 votos para deputado federal nas últimas eleições, que me foram dados por uns parentes da minha correligionária Ana Oliveira”.

Raimundo Reis escreveu alguns livros, dentre esses Zé do Brejo, lançado por uma editora que tinha o sugestivo nome de Várzea da Ema. Tirei de lá e transcrevo o texto abaixo:

“Antes de mais nada, continuar a viver. Sem levar a sério as coisas e a nós mesmos. Não cultivar ou alimentar ódios. Fazer do amor uma oração de todas as horas.

Desprezar os maus e conviver com os bons. Respeitar a eloquência da mediocridade e exaltar o silêncio dos sábios. Achar graça da empáfia dos poderosos, esperando o dia de confortá-los nos instantes da queda próxima. Buscar a beleza em todas as suas manifestações.

Trabalhar sem fanatismo. Usar o dinheiro antes que ele nos use. Ajudar aos outros sem esperar gratidão. Ter em casa um cachorro, uma biblioteca e, pelo menos, duas garrafas de uísque.

Depender o mínimo dos outros. Saber uma oração ou uma música. Ser simples. Para ser feliz, basta um pouco de filosofia, não a dos livros, mas a que descobrimos num por de sol ou num adeus sem volta”.

E terminou o texto, assim: “Descobri que não sou. E não sendo, o resto tem pouco ou nenhuma valia”.

Raimundo Reis era encantador. Um dia me chamou de “ínclito filho de Patamuté”. Senti-me lisonjeado. Sou até hoje.

Faleceu em dia de festa, 24 de dezembro de 2002.

Raimundo foi festivo até na morte.

Noutros tempos, frequentei muito Macururé e tomava cachaça Aquino no bar de Silvino ouvindo músicas de Nelson Gonçalves. Lembro muito os lugares por onde andei.

A memória, embora esburacada pela passagem dos anos, trouxe-me hoje Macururé e essa crônica de Raimundo Reis no aniversário daquele simpático município. Coisas da saudade.

* Salvo engano, a história registra que o cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) nasceu em Água Branca, Alagoas, em 1907. Raimundo Reis, profundo conhecedor do cangaço, sabia disto, mas enfeitou a crônica para torná-la mais interessante.

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, o aniversário de uma nobre sexagenária

Gilberto da Silveira Bahia, na condição de prefeito de Curaçá (1959-1963) registrou feito memorável na vida sociocultural do município: o nascimento em 14 de agosto de 1959 da Sociedade dos Vaqueiros, marco importante para a história local.

Além do prefeito Gilberto da Silveira Bahia, honra e glória de Curaçá, foram fundadores da Sociedade dos Vaqueiros: José Alvino da Costa, José Ferreira Só (Zé de Roque), Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote), Abílio Gomes da Silva, Sindolfo Curcino Rosa, Guilherme Bernardes do Nascimento, Edgard d’Araújo, Albertino Nunes da Silva e Deoclécio Paulino da Silva.

O estatuto da entidade previa como principais objetivos “promover o desenvolvimento cultural da classe, concorrendo na medida do possível para seu alevantamento moral e intelectual, bem como auxiliar as suas famílias, instruindo com escolas”, além de outras metas.

Em 2019, a entidade-símbolo dos vaqueiros curaçaenses alcançou 60 anos. Sem dúvida, as décadas lhe reservaram lugar perene no calendário do município e atribuíram-lhe respeitabilidade e importância histórica.

A Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá é um patrimônio dos vaqueiros, que cuidam dos seus rebanhos e vivem na caatinga em meio a espinhos, pedras disformes e árvores retorcidas. Enfrentam calor que, em tempo de estiagem, não raro chega a 40 graus. As intempéries são constantes na vida desses homens valorosos.

Em tempo de seca, além do manejo da palma e outras modalidades de ração, os vaqueiros cortam mandacaru e queimam seus espinhos para alimentar os animais que dependem da atuação diuturna de seus donos para a sobrevivência.

Ainda é comum a abertura de cacimbas para matar a sede dos rebanhos, quando a água desaparece dos riachos e pequenos reservatórios.

É muito difícil a vida desses abnegados nordestinos que, com dedicação admirável, criam suas famílias e possibilitam a educação dos filhos longe do cotidiano dos pequenos sítios e fazendas.

Assim, o papel precípuo da Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá é resgatar e preservar a figura do vaqueiro, profissional do dia a dia da caatinga. Em Curaçá vem dando certo o objetivo nobre da instituição que os abriga e que atingiu a fase sexagenária.

Contudo, a festa dos vaqueiros foi criada em 1953 e, portanto, antecede à fundação da Sociedade dos Vaqueiros. É indissociável do calendário religioso da Paróquia do Bom Jesus da Boa Morte.

A Sociedade dos Vaqueiros enfeita a paisagem de Curaçá, cidade do submédio São Francisco que mantém casarões construídos a partir de 1843 e enriquece o esteticismo urbano.

Uma característica dos vaqueiros é o trabalho não assalariado. Eles geralmente cuidam de seus próprios rebanhos e a tradição registra que, quando cuidam de propriedades de terceiros – os patrões – o salário é substituído pelo sistema consuetudinário de partilha. Por esse sistema, a cada três ou quatro animais que nascem sob os cuidados do vaqueiro ele é aquinhoado com um deles.

A solidariedade entre patrão e vaqueiro afigura-se muito presente na vida do caatingueiro. Os animais de um e outro se misturam no mesmo rebanho e são criados com base na confiança mútua.

Outra característica dos vaqueiros nordestinos é a hereditariedade da profissão, que passa de pai para filho, sem nenhuma formalidade. Havia casos que os filhos adolescentes eram “batizados” pelos pais quando adquiriam a capacidade de cuidar dos animais na caatinga. Uma espécie de habilitação ungida pelo mais experiente para o filho poder enfrentar a vida difícil e a inevitável aridez do trabalho.

Ser vaqueiro é uma arte.

A Sociedade dos Vaqueiros enriquece Curaçá e seu povo. Parabéns para a entidade que atingiu 60 anos.

araujo-costa@uol.com.br

Lula da Silva será solto em breve




O Supremo Tribunal Federal deverá mandar soltar o ex-presidente Lula da Silva.

A decisão não será por conta das patacoadas protagonizadas pelo ex-juiz federal Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato, em Curitiba, acusados de suspeição e de outras transgressões às leis substantivas e processuais penais. Isto vai longe.

O decreto de soltura se dará em razão do julgamento da polêmica prisão após condenação em segunda instância, que está pendente de decisão do STF.

Em último caso, o STF achará uma brecha jurídica ou regimental para soltar Lula, mesmo que uma enxurrada de ações penais e recursos continue em tramitação e não obstante decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre sua condenação.

Assim como Lula, milhares de presos estão na mesma condição: trancafiados sem que tenham sido esgotados todos os recursos previstos em lei, o chamado “trânsito em julgado da sentença penal condenatória”.

A prisão em segunda instância é inconstitucional, porque contraria a Constituição Federal.

Em 2016, a vaidade de alguns ministros do Supremo resultou numa decisão esdrúxula, que ficou no meio do caminho. Apenas uma parte dos ministros entendeu que a prisão em segunda instância é possível. O plenário do tribunal ainda não se manifestou para definir a situação.

Há pelo menos 812 mil presos no Brasil, a chamada população carcerária. Milhares deles estão presos provisoriamente e por decisão após condenação em segunda instância.

Só em São Paulo, terra de Lula, há 25 mil presos na mesma condição do ex-presidente.

Ocorre que, dentre esses milhares de encarcerados, o mais famoso é Lula da Silva. Os demais não têm voz. Não têm advogados famosos. A imprensa não fala deles.

É Lula que vem determinando a pauta do Supremo Tribunal Federal. Os ministros do Supremo têm se ocupado da situação de Lula, precipuamente. Atrai holofotes. Eles gostam disto.

A defesa de Lula, muito bem paga, vem atulhando os tribunais de processos. O STF tem recebido seguidos recursos com o intuito de pressionar os ministros para que tomem uma decisão. Ou seja, desçam do muro e decidam. A defesa não está errada. É o seu papel.

Lula da Silva tem uma vantagem nisto tudo, sobre os outros milhares de presos: mantém amigos no STF, inclusive o presidente Dias Toffoli, que foi empregado do PT. A decisão de soltar Lula está nãos mãos de Toffoli, que tem o poder legal e regimental de manejar a pauta do Supremo.

Se o Brasil fosse um país sério – e não é, segundo o presidente francês Charles De Gaulle – alguns ministros do Supremo se declarariam suspeitos quando se tratasse de julgamento de ações ajuizadas por Lula, inclusive o ministro Toffoli. E o julgamento do ex-presidente dar-se-ia de forma absolutamente isenta, sem questionamentos por parte de setores da sociedade que querem ver Lula preso.

O fato é que a situação de Lula precisa ser resolvida e, por consequência, a de milhares de outros presos.

Post scriptum:

A imprensa publicou ontem o que todo mundo já sabia. Petistas graúdos se lambuzaram de propina, segundo delação de Antonio Palocci, ex-ministro de Lula e D. Dilma. A delação foi homologada pelo STF

Na lista do propinoduto: a hilária Gleisi Hoffman, presidente nacional do PT; o ex-senador Lindberg Farias, do Rio de Janeiro; Tião Viana, ex-governador do Acre; Fernando Pimentel, amigo pessoal de D. Dilma e ex-governador de Minas Gerais; e mais Lula da Silva e D. Dilma Rousseff.

É o Palocci que diz. Eles que se entendam. São amigos. Companheiros de suspeitas jornadas.

Opinião deste escrevinhador, que mantenho, até prova em contrário: sempre achei – e já escrevi isto – que D. Dilma não é corrupta.

Mas não esqueço o ditado: “Diz-me com quem andas que te direi quem és”.

Ela não andou em boas companhias.

araujo-costa@uol.com.br

O poder que Sérgio Moro não tem. Mas o PT diz que tem.

“Um idiota com razão é tão perigoso quanto um gênio sem ela” (Guilherme Figueiredo, escritor e dramaturgo, 1915-1997))

Se confirmados os crimes que são atribuídos a alguns integrantes da presidência da República, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, Brasília não será mais a capital federal, mas um imenso e luxuoso presídio.

Sempre escrevo que o Partido dos Trabalhadores (PT) não deve ser acusado de tudo, embora deva ser acusado de muita coisa. Mas o PT tem a mania de acusar. Isto desde seu nascedouro na alvorada da década de 1980.

Diz o provérbio português que “o diabo é sábio por ser velho e não por ser diabo”. E o PT não é tão velho assim que possa ser o diabo de todo dia.

Todavia, tanto o PT quanto seus puxadinhos PSOL e PC do B, dentre outros arrogantes penduricalhos, têm o costume de sair por aí acusando todo mundo de tudo.

Só para lembrar: Lula da Silva, José Dirceu e outros próceres petistas, quando ainda não tinham caído em desgraça, foram os principais responsáveis pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Melo.

O PT – diziam seus líderes – condenava a corrupção e por isto se transformou em algoz do deslumbrado presidente Collor. Diziam mais: suas lideranças eram honestas, honradas, irrepreensíveis, tinham conduta ilibada.

A história provou o contrário. Ou está mostrando.

Lula disputou com Collor a eleição presidencial e perdeu. Não considerava Collor adversário político, mas inimigo pessoal, tudo porque Collor jogou no ventilador a história da filha de Lula, que não vem ao caso aqui. Não me meto em assuntos pessoais de ninguém.

Pois bem. O PT ajudou a derrubar Collor. Tirou-o do poder e lhe pôs a nódoa de corrupto. Maior acusação: Collor havia se beneficiado com dinheiro proveniente de sobras de campanha e comprou um Fiat Elba com fruto da corrupção. Veículo popular que era utilizado nos serviços da residência particular do presidente.

Entretanto, quando Lula tomou posse do primeiro mandato em 2003, passou a viver nos braços de Collor que, por sua vez, passou a ser aliado de Lula diuturnamente. O amor é lindo e vergonha não é para todos.

Agora, o PT está acusando o ex-juiz federal Sérgio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública, de ter sido o responsável pela articulação do impeachment de D. Dilma, além de outras maquinações com vistas ao preparo do terreno para a eleição de Bolsonaro.

Convenhamos. O PT está delirando. É atribuir a Sérgio Moro um poder que ele não tem, nunca teve. Moro não tem cacife para voar tão alto, tanto que já se respingou de uma série de esculhambações incompatíveis com a dignidade de juiz.

Sérgio Moro é inexperiente politicamente. Pior: é ingênuo. Talvez não tenha lido sequer o Código Penal por inteiro e tampouco o Código de Processo Penal.

Partindo do pressuposto de que Sérgio Moro cometeu todas essas atrocidades ilegais de que está sendo acusado, via interceptações e vazamentos de mensagens, não é difícil concluir que ele faltou a muitas aulas na Faculdade de Direito. Talvez as mais importantes.

Enquanto estava investido da magistratura, Sérgio Moro pensava que podia tudo. Não podia. Ninguém pode.

O PT está atribuindo a Sérgio Moro a importância que ele não tem. O partido não perdeu a mania de acusar.

araujo-costa@uol.com.br

Angola e Brasil: lá como cá, a corrupção mata

“Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome” (Fernando Sabino).

A República de Angola, na costa ocidental africana, proclamou sua independência do domínio de Portugal em 1975. É um dos países mais pobres do mundo.

Desde a independência, o partido político Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) implantou uma ditadura comunista e comanda o país até hoje. Lá o povo é pobre e os governantes são milionários, como comumente acontece nas ditaduras comunistas.

A filha do ditador José Eduardo dos Santos, que ficou no comando do país durante décadas e somente saiu em 2017, consta que é a mulher mais rica da África, com uma fortuna equivalente a 2,3 bilhões de dólares.

Pois bem. Esse senhor ditador José Eduardo dos Santos é amigo de Lula da Silva. Segundo a imprensa, Lula viabilizou que a Odebrecht participasse de obras naquele país africano. A construtora pagou R$ 166 milhões de propina ao núcleo mandante do governo de lá.

Por conta da maracutaia engendrada, Lula da Silva fez palestra lá e recebeu da Odebrecht meio milhão de reais, somente por uma palestra. Aliás, Lula andou se vangloriando, por aí, que cobrava mais caro por uma palestra do que o ex-presidente americano Bill Clinton. Mas não dizia como tanta fortuna entrava tão facilmente no seu bolso.

Sorte não podia ser. Só podia ser milagre divino.

De onde veio o dinheiro? Muito simples.

O dinheiro é do Brasil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiou as obras em Angola e, segundo Antonio Palocci, amigo e ex-ministro de Lula, a Odebrecht repassou ao Partido dos Trabalhadores R$ 64 milhões por ter viabilizado esse maná.

O senhor Taiguara, sobrinho de Lula, que era um simples vidraceiro em São Paulo, participou de contratos milionários com a Odebrecht em Angola. Não se sabe a que título e qual sua contribuição de vidraceiro no empreendimento africano. Deve ter alguma especialidade que só é possível fazer em Angola.

Não precisa acrescentar mais nada. Os leitores são inteligentes.

A matéria é recorrente e está na Veja (edição 2.647 – ano 52 – número 33) e se refere a investigações conduzidas por autoridades da Suíça. Chama a atenção pela chamada. É gritante: “Negócios em Família: Lula e José Eduardo dos Santos: propina para combater a pobreza”.

Repetindo, para ficar claro: propina para combater a pobreza.

Enquanto isto, “um homem morre de fome, em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua” (Fernando Sabino).

No Brasil e em Angola, aqui como lá, a corrupção mata de fome, em nome do combate à pobreza e dos conchavos entre pessoas que têm o dever de exterminá-la.

“E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome” (Fernando Sabino).   

Que Deus tenha piedade de todos nós. E da humanidade.

araujo-costa@uol.com.br

 

A representação da Bahia no Senado Federal

Em tese, a Bahia está razoavelmente representada no Senado da República.

Baiano de Ruy Barbosa, o médico Otto Alencar (PSD) foi governador do estado, beneficiado pela legislação eleitoral, que o colocou no Palácio de Ondina, por força da saída do titular.

Otto Alencar assumiu a governadoria em abril de 2002, em substituição a César Borges, que se desincompatibilizou para disputar uma vaga no Senado em dobradinha com o líder máximo da época, Antonio Carlos Magalhães. Na ocasião, exerceu o governo estadual por aproximadamente oito meses. Teve desempenho razoável e se habilitou para continuar na vida pública. Já havia exercido outros cargos públicos, inclusive de vice-governador.

Otto Alencar entrou em palácio elogiando o antecessor César Borges, no discurso de posse: “esse foi um governo que melhorou todos os indicadores econômicos e sociais”. Mais: “que 97% das crianças de 7 a 14 anos estavam na escola” (A Tarde, 06/04/2002).

O engenheiro Ângelo Coronel (PSD), baiano de Coração de Maria, rico e atrapalhado é o senador menos preparado para representar o estado, embora tenha exercido seis mandatos de deputado, salvo engano e presidente da Assembleia Legislativa. Conta com um aliado de peso, o governador Rui Costa, até aqui eleitoralmente imbatível nas urnas.

No Senado, nesses poucos meses de mandato, Ângelo Coronel vem se esforçando para aparecer na mídia nacional, mas está encontrando dificuldade. Quando está diante de um holofote fica em estado de êxtase. Chega a ser constrangedor. Bairrista típico, acha que a Bahia se resume em discursos populistas vazios.

O carioca Jaques Wagner (PT) é o político mais preparado. Petista histórico, com dois mandatos de governador, bem avaliado nas urnas em todos os municípios do estado, vem arrastando experiência desde a década de 1990, quando conquistou o mandato de deputado federal lastreado na vida sindical em Camaçari.

Jaques Wagner foi ministro em quatro oportunidades: ministro-chefe da Casa Civil, Ministro da Defesa, ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais e ministro do Trabalho e Emprego.

Bem articulado, sensato e sobretudo experiente, Jaques Wagner sabe amealhar líderes em todos os rincões do estado. Quiçá seja o único político petista com mandato legislativo que sabe pisar no chão, quer na Bahia, quer no Senado Federal, quer ao tratar de assuntos nacionais.

As investigações da Lava Jato estavam nos calcanhares de Jaques Wagner, mas foram obstaculizadas pelo foro privilegiado, em razão de sua eleição para o Senado e agora recuaram indefinidamente, tendo em vista que os procuradores da República em Curitiba caíram em desgraça.

A força-tarefa da Lava Jato no Paraná decidiu disputar com Deus e, óbvio, não deu certo.

Os procuradores da República jogaram a credibilidade das investigações no despenhadeiro e empurraram para a promiscuidade o então juiz federal Sérgio Moro com o beneplácito do magistrado e hoje ministro da Justiça e Segurança Pública.

Jaques Wagner deve estar pulando de alegria. Por enquanto se esquecem os escândalos da Fonte Nova e da Torre Pituba.

Olhando o retrovisor da história, a Bahia sempre teve grandes representantes no Senado Federal. São exemplos que orgulham os baianos: Aloísio de Carvalho Filho, Josapha Marinho, Luís Viana Filho, Pinto Aleixo, Pereira Moacir, Landulfo Alves, Otavio Mangabeira, Heitor Dias e Lomanto Júnior, dentre outros.

araujo-costa@uol.com.br

O diálogo “cabuloso” do PT

Agosto é, por tradição, um mês de acontecimentos estranhos. Nas caatingas do Nordeste, diz-se mês do cachorro louco, mas são as raposas que costumam enlouquecer por lá.

Na política, foi num agosto que Getúlio Vargas se suicidou e noutro que Jânio Quadros renunciou à presidência da República, dentre muitos outros acontecimentos.

Agora, em agosto, a Justiça Federal do Paraná pretendia jogar Lula da Silva numa masmorra em São Paulo, crueldade que o Supremo Tribunal Federal impediu imediatamente. Decisão estapafúrdia da Justiça Federal, que não pode ser aplicada à condição de Lula como ex-presidente da República.

Em alvoroço, congressistas de diversos partidos correram ao STF e pediram para o tribunal impedir a transferência de Lula do Paraná para São Paulo, o que foi feito de imediato.

Muitos senadores e deputados estão sendo processados, geralmente por corrupção e não querem ser presos nas mesmas condições carcerárias que a Justiça Federal pretendia trancafiar Lula, num presídio estadual de São Paulo. Era preciso evitar o precedente.

Este mês, para o PT, não está sendo bom. Há uma briga de foice interna entre petistas, para definir com quem fica a presidência do partido em setembro: se continua com Gleisi Hoffmann ou se o bastão será passado para outro, menos radical e mais ajuizado. Há muitos no PT, ainda.

Lula da Silva já sinalizou que quer a presidência do partido entregue ao ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, espécie de recompensa pelo papel deprimente de fantoche que Haddad desempenhou na eleição presidencial de 2018, um tapa buraco colocado na condição de candidato, enquanto a situação jurídica de Lula não se definia.

O candidato dos sonhos do PT não era Haddad, nunca foi.  Mas, Lula não é ingrato, quer recompensá-lo pelo vexame.

Gleisi Hoffmann caiu em desgraça nalguns setores graúdos do PT, porque – dizem eles – ela não consultou o partido em algumas de suas decisões importantes como, por exemplo, o comparecimento à posse do ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Muitos petistas souberam pela imprensa que Gleisi estava em Caracas no rega-bofe do Maduro, representando o PT. Mas o PT não sabia.

Contudo, quem decide mesmo é Lula da Silva. Gleisi fica, se ele quiser. Sai, se ele quiser. Fernando Haddad é apenas um detalhe sem importância. Se ele não teve importância na eleição presidencial, não terá, agora, como possível e eventual presidente nacional do partido. Continuará sendo marionete.

Agora em agosto, a Polícia Federal descobriu que o PT, quando no governo, manteve um diálogo “cabuloso” com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a mais poderosa organização à margem da lei existente no Brasil. Mas o partido não é objeto de investigação.

Este escrevinhador recusa-se a acreditar que o PT, quando estava no governo, mantinha esse suposto e secreto diálogo com o PCC, em nível institucional. Não acredito que dirigentes petistas sejam capazes disto, prestem-se a isto.

É até admissível que petistas, isoladamente, tenham mantido esse canal com o PCC. Mas o PT, enquanto partido, não.

De qualquer forma, agosto não é um mês bom na seara da política. Não só para o PT.

araujo-costa@uol.com.br

O estilo Bolsonaro

Último presidente da safra de 1964, o general João Batista de Oliveira Figueiredo recebeu de seu antecessor Ernesto Geisel, também general, a tarefa de coordenar a abertura política, transição da ditadura para o regime democrático.

Era o que o presidente Geisel e o general Golbery do Couto e Silva denominaram abertura “lenta, gradual e segura”.

A distensão política acabou acontecendo e o sistema democrático cuidou de aperfeiçoar o resto, tal como temos hoje, com virtudes e defeitos.

Em seu estilo rude, em 15/10/1978 Figueiredo avisou que não queria ser contrariado em sua missão: “quem for contra a abertura, eu prendo e arrebento”.

Vindas do fiador da democracia, as palavras duras soaram contraditórias.  Mas, era o estilo Figueiredo, general de Cavalaria, habituado à linguagem dos quartéis, sem circunlóquios.

Amordaçada à época, a imprensa engolia os arroubos dos militares e publicava o que era possível e não o que desejava.

As notícias, comumente censuradas, saíam cautelosas, filtradas, muitas vezes codificadas, o que dificultava o entendimento de quem não estava por dentro da matéria publicada.

Hoje repórteres fazem quaisquer perguntas, mesmos aquelas sem nenhum nexo com a responsabilidade e faro jornalístico, deslocadas, fora de contexto, idiotas.

Às vezes a inexperiência dos repórteres se mistura com a falta de noção do que deve ser perguntado, o momento certo de ser perguntado, a importância da pergunta.

Semana passada, em coletiva no Palácio do Planalto, um jornalista da Folha de S. Paulo perguntou ao porta-voz da presidência, por que o presidente da República foi cortar o cabelo em horário de expediente.

Convenhamos. Pergunta sem conteúdo, desnecessária, inoportuna, imbecil.

O vazio demonstrado pelo repórter da Folha de S.Paulo deixou os colegas jornalistas presentes constrangidos.

A resposta do general Rego Barros, porta-voz do governo, não podia ter sido mais polida:

– O presidente começa a trabalhar às 4h e vai até às 22h. Há de se convir que ele encontre um momento nesse período para cortar o cabelo.

Assim como o presidente Figueiredo, Bolsonaro também tem seu estilo.

A imprensa ainda está se adaptando. Os bons jornalistas já entenderam, os maus jornalistas não querem entender.

Ontem, em visita a Sobradinho, durante o trajeto até o helicóptero, Bolsonaro deu carona a um jornalista. Este ponderou ao presidente que seu estilo está sendo o mesmo da campanha.

O presidente foi claro: “Paciência. Sabiam que sou assim”.

A imprensa vai-se adaptando ao estilo Bolsonaro. O presidente é franco e comete até “sincericídio”, em razão disto. A imprensa dá ênfase ao mais vulgar, ao pitoresco.

Faz parte. É a democracia.

araujo-costa@uol.com.br

Post scriptum:

A pergunta do jornalista da Folha de S. Paulo ao porta-voz da presidência da República se assemelha a um episódio acontecido em Brasília em 1988.

O todo-poderoso deputado Ulisses Guimarães (MDB-SP) era presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

Em entrevista coletiva sobre assuntos da Constituição, ponderou:

– Neste caso, falaremos debalde.

Uma repórter que nunca deve ter visto um dicionário, interrompeu abruptamente o deputado:

– De que balde o senhor está falando, Dr.Ulisses?

Ulisses Guimarães não aguentou e gritou alto:

– Alguém me socorre?

 

 

 

O sorriso do deputado indecente

“Saindo do restaurante de luxo, o ricaço dirige-se ao pedinte: Senhor, auxilia-me com qualquer coisa para a minha digestão” (Santos Fernando, Lisboa, 1925-1975, A sopa dos ricos).

O deputado-pastor Marcos Feliciano (PODEMOS-SP), que tem cara de galã decadente, gastou R$ 157 mil com dentista para, segundo ele, “reconstruir o sorriso com coroas e implantes na boca”.

Mais: sua Excelência justificou, galantemente, o desperdício do dinheiro do povo: “Sou político e pregador. Minha boca é minha ferramenta”.

Que o pastor Marcos Feliciano é político, está claríssimo. Basta saber que ele gastou R$ 157 mil com um dentista e isto não é qualquer um de nós, pobre mortal, que pode fazer.

Isto é façanha de político inescrupuloso, não há dúvida.

Esses cento e cinquenta e sete mil reais para embelezarem a boca do pastor foram pagos pela Câmara dos Deputados e, portanto, com dinheiro público.

Pelo nome do partido do deputado – PODEMOS – logo se vê que ele pode mesmo. E poder não é para qualquer um.

Isto me faz lembrar um dia em que pedi um quilo de castanha num supermercado. A atendente do setor deve ter visto em meu rosto a cara da pobreza. Incrédula, quase com desdém, me olhou e sapecou: “está podendo, hein!”.

Quando cheguei no caixa, vi que não estava podendo mesmo, mas equivocado. O preço que vi exposto era de 100 gramas e não de um quilo.

Mas, o acintoso nesta história do pastor é que a área de perícia da Câmara dos Deputados, que é composta de técnicos, rejeitou o pedido do deputado e negou entregar-lhe os R$ 157 mil, mas a Mesa Diretora da Câmara, que é composta de deputados colegas do pastor, autorizou o pagamento. E lá se foram os R$ 157 mil pelo ralo da indecência e da irresponsabilidade.

E Sua Excelência o pastor-deputado está por aí, contente que só pinto no lixo, rindo à toa, com os caríssimos dentes pagos por todos nós, pobres contribuintes.

Perguntar não ofende, embora os mestres em jornalismo digam que ofende, sim.

Pelo sim, pelo não, este humilde escrevinhador pergunta:

Quantos remédios, para atender pobres, em hospitais públicos e UPA’s da vida, seriam comprados com esse valor que o deputado gastou com o seu sorriso?

Quantos pratos de comida, para pessoas famintas, seriam comprados com esse valor que o pastor-deputado gastou com seus dentes?

Quanta merenda escolar seria comprada, para atender crianças desvalidas, com esse dinheiro que o pastor Feliciano gastou com seu tratamento dentário?

O Brasil precisa mudar.

araujo-costa@uol.com.br

 

 

Patamuté, tempo de lembrar

José Henrique de Souza Sobrinho

De família tradicional, alfaiate respeitável, bom-vivant, criador de caprinos lá pelas imediações da Rua dos Ferreiras, José Henrique saiu de Patamuté e foi morar na Rua Lafayete Coutinho, 824, no Bairro Piranga, em Juazeiro.

De lá me enviou uma carta – naquele tempo se escreviam cartas para os amigos – contando uma novidade: os japoneses estavam invadindo Patamuté. Exagerado e brincalhão, depois explicou.

É que a professora Maria Auxiliadora de Menezes, filha de Maria José de Souza Menezes (D. Zarica) e Manoel Pires de Menezes (Nozinho), que já não morava mais em Patamuté e ainda não carregava Kawabe no nome, estava prestes a se casar com um japonês.

Respondi ao amigo José Henrique e disse-lhe que por aqui em São Paulo havia muitos japoneses, eu até tinha alguns amigos descendentes deles, nissei, sansei, et cetera, turma muito boa, gente pra ninguém botar defeito.

A imigração japonesa contribuiu, consideravelmente, para o engrandecimento do Brasil. Gente valorosa, dedicada, honesta, trabalhadora. O Brasil deve muito aos japoneses.

José Henrique morreu ainda novo, deixou saudade, tenho boas lembranças dele.

Israel Henrique de Souza

Da mesma estirpe dos Henrique e Souza, Israel herdou dos ensinamentos bíblicos o dom da multiplicação. Semeou família numerosa, teve muitos filhos, que estão por aí, espalhados, honrando o nome do pai e a tradição de Patamuté.

Tive o prazer e a honra de ter sido amigo de Israel. Trabalhamos juntos. Bom sujeito, amigo insubstituível, prestativo, contemporizador, exemplo de homem de caráter. Exemplo de vida.

Parceiro comercial de Antonio Ferreira Dantas Paixão (1899-1976), inesquecíveis nossos sábados, em dias de feira em Patamuté, no “Armazém de Antonio Paixão” às voltas com couros e peles e o balanço, no final do dia, todos nós cansados, depois da faina que garantia nosso ganha-pão ou, pelo menos, completava. Israel era meu amigo e chefe.

O Armazém encerrou suas atividades em 1977, porque não suportou o desmoronamento do esteio que o sustentava: Antonio Paixão. A viúva Rachel do Carmo Paixão, que carinhosamente chamávamos “tia Rachel”, não tinha mais forças para manter a estrutura que o marido deixou. Coisas da vida.

Nunca ouvi um “não” de Israel, mas nunca esqueço do seu olhar de compaixão com minhas fraquezas carregadas de inexperiências.

Eu admirava sua luta, o cuidado com a criação de caprinos no “serrote”, a atenção com a família, o voltar para casa, sempre alegre, o sorriso puro, encantador, sincero.

Impressionava-me e a todos de Patamuté, o senso de responsabilidade de Israel. Quando resolvia entregar-se à boemia – e não era sempre que o fazia – fechava o estabelecimento comercial, entregava a chave e só depois ia se divertir.

Guardo boas lembranças de José Henrique e Israel. Grandes amigos, inesquecíveis amigos. Amigos de Patamuté.

araujo-costa@uol.com.br