Curaçá: em Barro Vermelho, fragmento de uma saudade.

“Amigo é o que chega quando as outras pessoas estão indo embora” (Walter Winchell, 1897-1972).

Quase sempre a saudade conspira em direção ao entristecer e às lembranças inevitáveis. Às vezes cruel, às vezes lúdico, o caminhar nos faz espectadores do tempo. E o tempo é testemunho das lágrimas, companheiro das fragilidades e cutuca implacavelmente nossas arrogâncias.

Já se vão, por aí, algumas décadas. Eu tinha uma amiga em Barro Vermelho, simpático território de meu baiano e sanfranciscano município de Curaçá: Iolanda Martins Ribeiro.

Mais do que amiga, Iolanda dividia comigo as angústias, as dificuldades do caminho que percorríamos. Eram muitos nossos tropeços em direção ao desconhecido. Também rimos muito de nossas ingenuidades.

O esteio que nos segurava era a esperança, o antever dos horizontes, porque a realidade se afigurava muito difícil, como de resto é até hoje. A realidade é sempre difícil.

Iolanda era atenciosa, reflexiva, impressionantemente preparada para a vida. Tempos difíceis, mas tempos em que construíamos amizades que perduravam, mesmo depois da morte. O indizível da amizade é sua infinitude.

Quantas vezes na calçada de sua casa, em Barro Vermelho, comentamos as ciladas da vida, as dificuldades, a luta pela continuidade de nossos sonhos! Aprendi com Iolanda a resignação ou um pouco dela. Ela dizia, com sabedoria: “Se é assim, então vamos em frente”.

Hoje letrado, ou pensando que sou, depois de ler muito o filósofo prussiano Nietzsche, entendo o pensamento de Iolanda ao me ajudar a enfrentar a vida: Nietzsche perguntava, diante do imutável: “Então, era isto a vida? Pois bem: repita-se”.

Se não há como evitar os tropeços, então prossigamos na caminhada. No decorrer do caminho, a certeza é somente o caminho, nunca o que pode acontecer nas encruzilhadas.

Ou talvez, mais próximo do espanhol Antonio Machado: “Caminhante! Não há caminho. O caminho se faz ao caminhar”.

Iolanda tinha um quê de resignação ou de saber resignar-se. As incertezas daquele tempo me fez admirá-la sempre. Coisas da juventude. Coisas valiosas da juventude. Coisas inesquecíveis da juventude.

Nos momentos difíceis, “amigo é o que chega quando as outras pessoas estão indo embora”.

Conheci Iolanda Martins Ribeiro num desses momentos de vazio, próprio da juventude. Ela me ajudou muito a superá-lo e seguir em frente.

Iolanda será sempre presente em minhas reflexões.

Valeu o caminho.  Valeu conhecê-la. Vale o dizer da saudade.

araujo-costa@uol.com.br

O complô que mantém Lula preso

“O preso é, essencialmente, um necessitado” (Francesco Carnelutti, jurista italiano, 1879-1965)

Não se discute aqui os fundamentos da condenação de Lula da Silva,  tampouco os crimes que ele eventualmente tenha praticado. Esse é assunto para sua defesa, que tem se ocupado muito bem disto, exaustivamente.

Discute-se o momento de sua prisão, a extemporaneidade, a pressa na aplicação do cumprimento da pena, a antecipação do castigo judicial.

Qualquer primeiranista de direito conhece o artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. É a presunção legal da inocência.

Entende-se por trânsito em julgado a circunstância em que não há mais possibilidade de recurso em qualquer instância.

No caso de Lula da Silva, não é demais repetir, que ele foi condenado em primeira instância pela Justiça Federal do Paraná e, em segunda instância, pelo respectivo Tribunal Regional Federal.

Nesse momento, sobreveio-lhe a prisão, em razão de entendimento do Supremo Tribunal Federal que havia firmado jurisprudência quanto à execução provisória da pena. Entendimento estapafúrdio e desconforme a Constituição da República.

Por conseguinte, entendimento inconstitucional, porque os recursos ainda não se esgotaram. Há recursos de Lula pendentes de julgamento no Superior Tribunal de Justiça e, por extensão, na ocasião própria, no Supremo Tribunal Federal.

Logo, a prisão de Lula da Silva é ilegal e a execução provisória da pena não se ampara em nenhum lastro plausível. A vontade do juiz e dos tribunais não pode contrariar o preceito legal.

Ora, o mesmo artigo 5º, da Constituição da República, preceitua que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

Por aí se vê, que Lula da Silva não está sendo considerado em igualdade de condições relativamente a outros condenados, por uma razão bastante simples: há caso em que houve condenação em segunda instância e o apenado está solto com o beneplácito do Poder Judiciário.

É o caso do ex-ministro petista José Dirceu. Condenado em segunda instância, Dirceu está em liberdade por ordem do Supremo Tribunal Federal. Aqui também não se discute os caminhos legais que o levaram à soltura, mas a semelhança entre os dois casos.

Então, existe um complô institucional para manter Lula da Silva preso. A lei aplicada a Lula da Silva é aplicada de modo diverso em relação a outros condenados.

Todavia, há uma hipótese razoável no sentido de que Lula da Silva venha a ser beneficiado em breve pelo instituto da prisão domiciliar ou em razão de habeas corpus que lhe colocará em liberdade.

Há outros inquéritos contra Lula, outras denúncias, outras investigações, virão outras sentenças possivelmente condenatórias.

Entrementes, a prisão deverá ocorrer lá na frente, depois de esgotados todos os recursos a que tiver direito o ex-presidente.

Antecipar o cumprimento da pena contraria a Constituição Federal e a lei processual penal.

Seguramente há um complô de interpretação que mantém Lula da Silva preso. Esse complô é formado basicamente pelo descompasso entre a Constituição Federal e decisões judiciais atabalhoadas.

O que assusta a democracia e operadores do direito é ver o Supremo Tribunal Federal, que é guardião da Constituição, quedar-se diante de tais absurdos processuais.

Se a dúvida está na dubiedade da lei, mude-se a lei ou exija-se que seja mudada, mas mantenha-se o amplo direito de defesa do acusado que “é, essencialmente, um necessitado”. Seja Lula da Silva ou qualquer outro.

araujo-costa@uol.com.br

Caetano, deputados baianos e outras inutilidades

“De tanto defenderem os pobres, os petistas acabaram ficando ricos” (Ferreira Gullar)

Caetano Veloso e o bispo

O cantor e intelectual baiano Caetano Veloso se sentiu ofendido porque, em ambiente fechado, o bispo titular do Ordinariado Militar do Brasil, circunscrição eclesiástica vinculada à Santa Sé, andou falando umas asneiras sobre o cantor.

Caetano Veloso quer interpelar o bispo judicialmente, o que dará em nada. A suposta ofensa, pelo que se sabe, foi dita na missa em que os militares lembraram o movimento de 1964, também conhecido por seus idealizadores como Revolução Redentora.

Os militares sempre lembraram o movimento de 1964 nos quartéis. Não há nenhuma novidade nisto. Neste ano a turma do “politicamente correto” entrou em ação para evitar os eventos militares nos quartéis, até judicialmente. Sem êxito.

O bispo fez referência à canção É proibido proibir, que Caetano lançou em 1968, ano do acirramento da repressão política.  

Interessante é que Caetano Veloso não gostou da palavra “imbecil”, que o bispo teria pronunciado ao se referir ao cantor, expressão que Caetano tanto gosta e faz parte de seu vocabulário com frequência.    

Escritório comercial do Brasil em Israel

O presidente Jair Bolsonaro resolveu criar um escritório comercial do Brasil em Jerusalém.

Trata-se de repartição estritamente comercial, sem nenhum viés ou status diplomático, de sorte que a Embaixada do Brasil continua em Tel Aviv e nada muda no pensamento do Brasil relativamente aos palestinos. Desde 1947 o Brasil vem acentuando a amizade com os palestinos em todos os governos. É uma tradição diplomática e de solidariedade.

Entretanto, para fazer barulho, a esquerda se alvoroçou e a imprensa que a apóia deu destaque ao assunto com o intuito de ofuscar a viagem internacional do presidente.

Os países importadores de alimentos Halal  – lícitos e permitidos, segundo as leis e jurisprudência islâmicas – ficaram melindrados com a decisão do presidente brasileiro. Nada preocupante. Questão de somenos.

Nada muda, nada mudará. Os países islâmicos continuarão a importar carnes de frango e bovina do Brasil, para o consumo dos muçulmanos, como sempre fizeram, por uma razão muito simples: o mercado brasileiro é significativo e lucrativo para eles.

Os muçulmanos não compram produtos brasileiros porque o presidente é ideologicamente A ou B, mas porque o mercado interessa ao mundo islâmico. O resto é balela.

Deputados estaduais baianos

Deputados estaduais petistas da Bahia e outros desocupados querem formar uma frente parlamentar na Assembleia Legislativa para discutir a prisão de Lula da Silva, a surrada campanha “Lula Livre”.

Eles escolheram a estrutura da Assembleia Legislativa. O dinheiro que será gasto com essa maracutaia certamente não sairá do bolso de Suas Excelências, mas do sofrido povo baiano.

O pretexto é defender a liberdade de Lula para que, supostamente, o morubixaba cuide dos pobres. Ferreira Gullar estava certo.

A prisão de Lula, que não é política, mas comum, deve ser discutida nos tribunais e isto a defesa do ex-presidente está fazendo irrepreensivelmente bem. São advogados renomados, competentes, reconhecidos, brilhantes. E bem pagos.

Os deputados do PT baiano e seus penduricalhos (PCO, PSOL e PC do B) estão apequenando a Bahia.

Uma vergonha para a memória de Otávio Mangabeira, Antonio Balbino, Tarcilo Vieira de Melo, Manoel Novaes, Aliomar Baleeiro, Lomanto Júnior, Waldir Pires, et cetera.

São ociosos à procura de destaque na mídia.

Os opacos deputados petistas da Bahia querem se pendurar na fama de Lula da Silva com o intuito de adquirir destaque na imprensa e tapetar o caminho em direção às eleições vindouras.

Não obstante sua condição atual, Lula ainda tem poder de erguer políticos medíocres. É o que ele sempre fez com maestria.

araujo-costa@uol.com.br

 

Boemia, gafe e invasão de privacidade

Quando ainda não vivíamos em tempo de “politicamente correto”, nossas inocentes gafes não chegavam a ser interpretadas como ofensas à sociedade, como hoje acontece.

Em ambientes de boemia, a fumaça dos cigarros de alegres e noctívagos boêmios se misturava à voz de Núbia Lafayette cantando Devolvi, clássico de Adelino Moreira ou Lama, de Mário Lago, ao tempo em que comentávamos despretensiosos casos de dor de cotovelo, paixões e pretensões amorosas.

Não existia fumódromo, não havia lei restritiva do cigarro em bares ou quaisquer ambientes. Mas, por educação – e educação sempre coube em qualquer lugar – era comum fumantes perguntarem ao vizinho de mesa se podia fumar ao seu redor ou se a fumaça lhe estava incomodando.

Tudo isso era normal. Era normal fumar e normal ser educado.

Ato tão corriqueiro, ainda que em ambientes de boemia, fumar passou a ser um comportamento reprovável. É como se a sociedade inteira se preocupasse com a saúde do indivíduo que fuma e de seus circunstantes. Hipocrisia.

Ninguém está preocupado com a saúde de ninguém e tampouco fiscaliza o cumprimento da lei. A lei só é boa quando pune o quintal dos outros.

Não sou fumante. Não me sinto confortável com chaminés fumegando ao meu lado. Mas isto não tem o condão de excluir o direito de quem fuma ao meu redor. Tudo deve se circunscrever a alguns e razoáveis limites.

Certa vez presenciei um sujeito, cara de dono do mundo, repreender um rapaz, em público, porque o displicente e desavisado moço estava com um cigarro entre os dedos, como se estivesse cometendo a maior das contravenções sociais.

Achei aquilo uma invasão de privacidade sem tamanho. Tinha ele o direito de imiscuir-se no comportamento do rapaz?

Como se vê, é o “politicamente correto” interpretado pelo avesso.

A ultrapassagem dos limites de convivência gera os conflitos. Se o fumante não está incomodando ou invadindo o espaço de outras pessoas, não há porque ir até ele e repreendê-lo. Chega a ser petulante e estúpido abordá-lo.

Se o indivíduo está desrespeitando normas legais em ambientes onde o fumo é proibido, parece razoável entender que a fiscalização cabe aos agentes públicos e não aos frequentadores do local. No máximo, comporta uma educada orientação do dono do estabelecimento aos seus clientes.

Fumar hoje chega a ser uma gafe. Deslize menor, isto não pode ser interpretado como comportamento reprovável. A privacidade de cada um está acima de meras reprovações de supostos incomodados.

Em certos casos, o ambiente se faz com a soma da educação que cada um carrega dentro de si. O bom senso é o melhor caminho para superar a arrogância.

O fumante deve saber onde é permitido fumar. Mas também deve saber que seu direito não pode ser invadido por qualquer um que se ache incomodado.

Não trafego na contramão das hipocrisias sociais. Convivo com elas, estrategicamente, mas, no caminho, tento parar de vez em quando, para conversar com quem vem em sentido contrário. E este diálogo às vezes tem tem sido difícil. Mas existe.

Certamente a convivência será melhor entre todos quando as pessoas se desprenderem dos rótulos que a sociedade impõe e lançarem sobre seus semelhantes um olhar de compreensão e modéstia. Está faltando modéstia.

Quando não existia o “politicamente correto”, os boleros Angústia e Perfume de gardênia na voz do cantor cubano Bienvenido Granda eram perfeitamente compatíveis com noites boêmias e fumaça de cigarros.

Outros tempos, outros valores, outra quadra da sociedade.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e o PT vão bem, diz leitor

Lá das bandas de Chorrochó chega um brilhante comentário do leitor Hudson, a quem agradeço a paciência de ler meus textos, versando sobre artigo que publiquei neste blog em 07/11/2018 (link no final).

Entretanto, o brilhantismo da opinião de Hudson não me impede de discordar, em parte, de seu ponto de vista.

Hudson diz que costumo atacar “o PT e o governo de Chorrochó”, de modo que elencou uma série de feitos atribuídos à administração do prefeito Humberto Gomes Ramos, o que, pelo que depreendo, colocam Chorrochó no topo das boas gestões da região.

Não duvido. Mas faço algumas ponderações.

Não ataco o PT. Apontar erros do partido não significa atacá-lo, mas apresentar fatos que, de resto, são sobejamente conhecidos e inegáveis.

Até mesmo petistas graúdos, sensatos e respeitáveis – ainda tem muitos – reconhecem que o PT errou à frente dos governos de Lula da Silva e de dona Dilma Rousseff.

Todavia, a bem da verdade, acrescento que outros partidos também enveredaram pelo caminho da indecência, de sorte que o erro não é mancha atribuível somente ao PT. Não temos partidos políticos propriamente, mas um amontoado de interesses de seus dirigentes e apadrinhados.

Ninguém me contou. Eu vi o PT nascer. Tenho amigos idealistas que ajudaram a fundar o partido, mas pularam do barco quando notaram que estava à deriva, por conta do visível desvio de conduta do partido, isto já no começo do primeiro governo federal petista em 2003.

E quanto a Lula da Silva, sempre deixei claro em meus artigos que a prisão dele é ilegal e inoportuna. A prisão após condenação em segunda instância contraria a Constituição da República. É uma invenção criada pela vaidade de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal que agora, em abril próximo, vai reapreciar o entendimento.

Entretanto, o momento extemporâneo da prisão não pressupõe que ele não tenha de pagar por seus erros, se os cometeu. Mas a prisão está processualmente desconforme a lei.

De outro turno, não ataco o governo de Chorrochó. Tenho sido crítico no que concerne ao descaso que se agiganta em algumas áreas, mormente quanto ao abandono de equipamentos públicos, a exemplo do antigo prédio da Prefeitura e o espezinhamento da história local. Os exemplos são muitos e gritantes, mas a citação é dispensável, porquanto notórios.

Chorrochó padece de outro grave problema: os políticos não conseguem se desvencilhar das práticas ultrapassadas, porquanto tratam eleitores e munícipes ainda com festas e tapinhas nas costas. Enquanto isto, o município prossegue com a carência de estruturas, inclusive de mentalidades.

Registro em meu arquivo, com prazer, as obras que Hudson enumerou como sendo da gestão de Humberto Gomes Ramos: na sede, saneamento básico, pavimentação do loteamento Sol do Sertão e quadra poliesportiva; em Barra do Tarrachil, saneamento básico, pavimentação e construção de creches; em Caraíbas, construção de um colégio; em Várzea da Ema, implantação do sistema de água; em São José, uma escola.

Contudo, também registro que essas obras sempre foram prioritárias, qualquer que tenha sido o prefeito, mas nunca realizadas.  Estão tardias.

Por fim, Hudson sugere que este blog escreva “um pouco sobre Queiroz, Milícia e Laranjas” e acrescenta: “seus leitores precisam saber que corrupção tem em todos os partidos e não só no PT”.

A ironia afigura-se desnecessária. Meus leitores são inteligentes e sabem que a corrupção é generalizada e também sabem que, em certas situações, não é possível tapar o sol com a peneira, mesmo que a peneira seja um milagre petista.

Sugiro ao atento Hudson que leia, por favor, o artigo publicado neste blog em 06/02/2019 com o título O rabo de palha do PT.

Neste particular, fica claro que Queiroz, petistas e afins são todos farinha do mesmo saco.    

Referência:

A Bahia que o PT esconde

https://araujocosta.blog/2018/11/07/a-bahia-que-o-pt-esconde/

A degradação da arte

Quando o cardeal D. Avelar Brandão Vilela era arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, o escritor Jorge Amado lhe pediu autorização para gravar uma cena de Os pastores da noite no altar da Igreja do Rosário dos Pretos, na ladeira do Pelourinho, em Salvador. O cardeal autorizou.

Por coincidência, na mesma ocasião, o cineasta Bruno Barreto estava gravando o filme Dona Flor e seus dois maridos, também baseado na obra de Jorge Amado. Encontrou a igreja aberta e filmou nas imediações a cena em que o ator José Wilker aparecia nu, descendo a ladeira do Pelourinho entre fiéis que saíam da missa. Mas a tomada da cena de nudez, embora parcial, não foi feita no interior da igreja.

Deu uma confusão danada. Beatos e os conservadores fizeram muito barulho, disseram que a cena era atentatória à moral e aos bons costumes, o que tinha pouco de verdade, porque havia um tapa sexo. E foram protestar junto ao cardeal.

Jorge Amado teve de explicar a D. Avelar que tudo não passara de um mal entendido e que a autorização concedida era mesmo para gravar Os pastores da noite e não Dona Flor e seus dois maridos.  

Elegantemente, D. Avelar aceitou os argumentos de Jorge Amado. Continuaram amigos.

D. Avelar vinha de um longo caminho. Terceiro bispo de Petrolina, sertão do São Francisco, lá ampliou as instalações do Colégio Dom Bosco e construiu a Praça D. Malan, além de ter criado a Escola de Economia Doméstica. Foi arcebispo de Teresina e prosseguiu sua caminhada conservadora até chegar ao arcebispado da Bahia (1971-1986).

Experiente, D. Avelar entendia o fio tênue em que a arte se equilibra, de modo a não se  confundir com licenciosidade e tampouco com exageros e devassidão.

Hoje, há pessoas que se dizem defensoras das artes, mas espezinham, ao seu talante, símbolos da igreja católica e até usam imagens de santos de forma degradante.

Sequer comunicam às autoridades eclesiásticas sobre a intenção de se valerem de tais símbolos em nome da arte, que não é arte coisa nenhuma, mas libertinagem.

Não há cuidado, não há respeito à fé alheia, não há decência. Tudo em nome da arte.

A arte no Brasil está em franca degradação.

araujo-costa@uol.com.br

Autoridades com cara de retrato falado

Desconfiado, sábio e prudente, o caipira falou para o amigo: “compadre, não confio em ninguém que tem cara de retrato falado”.

No Brasil, há retratos falados espalhados pelo Executivo, Legislativo e Judiciário, em todas as esferas. Os exemplos são abundantes e se espalham por muitas instituições públicas.

No Executivo, dentre muitos casos, houve até presidente da República que se reuniu com um magnata, na calada da noite, nos porões da residência oficial, às escondidas, para cuidar de assuntos que certamente não podiam ser tratados à luz do dia.

No Legislativo, os exemplos são inúmeros e escorregam pelos ralos da desfaçatez e da malandragem. Houve parlamentar que presidiu a Câmara dos Deputados que, de tanto furtar, colocaram-no atrás das grades, não mais na condição de deputado federal, mas de delinquente.

No Judiciário, são tantos os casos! Juízes e desembargadores vendiam sentenças favoráveis aos réus, minuciosamente negociadas antes de prolatadas, por centenas de milhares de reais. Ficaram ricos, opulentos, sem caráter. Pena imposta: foram “punidos” com robustas aposentadorias. O Conselho Nacional de Justiça permite e ampara essa barbaridade, essa excrescência.

Ou seja, além de patifes, os juízes delinquentes ainda foram aposentados à custa dos brasileiros. Neste caso, para juízes corruptos, o crime compensa. É a lei que diz nas entrelinhas, mesmo que não tenha a intenção de dizer. Chama-se Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

A pena máxima para juiz corrupto é a aposentadoria vitalícia, robusta, vergonhosa, acintosa. Os brasileiros pagam e eles se locupletam.

Alguém já viu associações de magistrados, ou juízes, isoladamente, pugnando pela mudança da lei?

Todavia, certamente muitos já viram magistrados pregando moralidade, dando lições para pessoas humildes.

Agora, os procuradores da Lava Jato, em Curitiba, estão caindo em desgraça. Resolveram criar uma fundação com R$ 2,5 bilhões da Petrobras para eles próprios administrarem a seu bel prazer. Fato escandaloso, vergonhoso, deplorável.

Deu tempo. A Procuradoria Geral da República impediu a farra, o Supremo Tribunal Federal suspendeu a fundação no nascedouro e mandou bloquear a fortuna depositada e destinada à instituição. Os procuradores ficaram com cara de galo e, por certo, desmoralizados.

Muito ruim para os procuradores, que se dizem pregoeiros da moralidade e têm o dever de fazer cumprir e fiscalizar a lei.

Pergunta-se: onde está escrito, na Constituição da República ou leis infra-constitucionais, que faz parte das atribuições de procuradores da República instituir fundações com dinheiro público ou privado e gerirem eles próprios os destinos da instituição?

O caipira estava certo.

É bom ter cautela com pessoas que têm cara de retrato falado.

araujo-costa@uol.com.br

Deputados da Bahia estão delirando

“Brasil de ontem e de amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta” (Ruy Barbosa)

A Comenda 2 de Julho é a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa da Bahia.

A norma que a instituiu estabelece que são merecedores de tal distinção pessoas que se destacaram na Bahia em alguma atividade e tenham relevantes serviços prestados ao Estado.

A bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Assembléia Legislativa da Bahia apresentou um projeto de resolução concedendo a honraria ao ator José Pereira de Abreu Júnior (Zé de Abreu).

O deputado Marcelino Galo (PT) que adotou a proposta, justifica o projeto alegando, salvo engano, a postura firme do artista em defesa da democracia, da liberdade e da cultura popular.

O deputado só não explicou quais os serviços relevantes que Zé de Abreu prestou ao estado da Bahia.

Ausentes as condições para o ator da Globo receber a honraria, só nos resta a presunção de que a comenda foi desfigurada, perdeu o seu objeto.

Sabe-se que o ator, quando jovem, pertenceu ao grupo de esquerda Ação Popular e deu apoio logístico à organização VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), que combatiam o regime militar valendo-se de ações armadas.

O que isto tem a ver com a Bahia?

Zé de Abreu é bom ator. Isto ninguém nega e não vem ao caso. Ultimamente ele vem fazendo umas patacoadas. Nada demais. Apenas uma recaída de seu tempo de juventude. Com uma diferença: as patacoadas de hoje são mais ridículas.

Jacó da Silva, outro deputado estadual do PT da Bahia, quer conceder o título de cidadão baiano ao invasor de propriedades Guilherme Boulos, ex-candidato a presidente da República pelo PSOL, puxadinho e apêndice extremado do PT.

O deputado, até por ser neófito e sem experiência, também não consegue explicar quais os serviços que Guilherme Boulos prestou aos baianos para merecer tamanha distinção.

Como se vê, os deputados petistas da Bahia estão delirando, talvez em razão da ociosidade.

Querem apequenar a Bahia.

Com deputados desse naipe, o Brasil de hoje está nos faltando.

araujo-costa@uol.com.br

O prefeito e o presidente

O zoólogo, pesquisador e compositor Paulo Vanzolini (1924-2013), autor de Ronda, talvez a música mais tocada na noite boêmia paulista, costumava contar o caso de um prefeito do interior do Nordeste.

Um repórter quis saber se era verdade que o prefeito havia nomeado o filho para importante cargo na Prefeitura, mesmo sem ostentar nenhum conhecimento técnico para a função.

A resposta do prefeito foi clara.

– É verdade. Nomeei meu filho e vou nomear os filhos dele, os netos dele e, se puder, os bisnetos dele.

O repórter insistiu.

– Por quê?

O prefeito esclareceu.

– Porque em minha família quem manda sou eu. E chispe daqui.

E o repórter chispou.

O presidente Jair Bolsonaro tem três filhos com mandato eletivo: vereador, deputado federal e senador. Presume-se que cada um deve atuar em sua casa legislativa e pronto. O povo os escolheu para isto.

Entretanto, um deles, que é vereador no Rio de Janeiro, parece que se ocupa mais com as redes sociais e vem dando pitaco em assuntos do governo federal, o que não é bom. Trata-se de intromissão descabida. Ele não faz parte do governo, não exerce função no governo. Pior: fala em nome do pai-presidente e sai, por aí, distribuindo opiniões polêmicas fora de contexto.

O diabo é que o presidente vem concordando com os pitacos do filho em assuntos estritos do governo, o que tem causado razoável incômodo no Palácio do Planalto. E parece que o presidente não aceita ponderações de outros auxiliares quanto à ingerência do filho em assuntos de governo.

Isto faz lembrar a história contada por Paulo Vanzolini.

Parece que o presidente da República entende que quem cuida de sua família é ele.

Quando pensar de modo diferente – se vier a pensar – poderá ser tarde.

Há muitos exemplos de famílias que arruinaram governos.

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Memória dispersa de Curaçá: Tote e seu tempo

“Abandonado pelos poderes públicos, que só cuidam das necessidades dos não necessitados, o povo curaçaense segue impávido, com fé de um beneditino e as esperanças dos que não esmorecem” (João Matos, historiador curaçaense, em conferência no centenário de Curaçá)

Curaçá, 1980. O prefeito Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote), de família tradicional da sede, reinava solenemente, como convém aos chefes políticos do interior. O vice-prefeito era o ilustre Dr. Hélio Coelho Oliveira, de Barro Vermelho.

Aristóteles Loureiro comandou o município de Curaçá em dois períodos: 1977-1983 e 1989-1992.

Nas duas oportunidades, Tote sucedeu o amigo e aliado político Theodomiro Mendes da Silva, filho de Patamuté, que também havia governado o município por dois períodos: 1973-1977 e 1983-1988.

Em 1980, a Câmara Municipal compunha-se de nomes respeitáveis: Ismael Cariri dos Santos, Dr. Pompílio Possídio Coelho, Manoel Pires de Menezes, João Brandão Leite, José Soares Félix, Artur Carlos do Nascimento, Onofre Hipólito de Araújo, Antonio Marques de Jesus, Themístocles Duarte Sobrinho, João Costa do Nascimento e José Luiz dos Santos Filho.

Na ocasião, o Poder Judiciário em Curaçá era representado pelo Dr. Benedito José Carvalhal de Souza, juiz de direito da comarca, que também foi titular da comarca de Chorrochó.

Os feitos realizados pelos prefeitos daquele tempo não eram lá coisas que se possa dizer de grande destaque, tendo em vista as peculiaridades locais e a escassez de recursos. Os prefeitos reinavam mais politicamente e menos administrativamente.

Todavia, já na primeira administração, Tote listava como feitos de sua iniciativa, dentre outros: implantação dos bairros São Benedito e São Francisco, na sede, assim como a construção do prédio do Colégio Municipal Professor Ivo Braga, em convênio com o Estado e construção do prédio Escolar José Amâncio Filho, em convênio com o Ministério da Educação.

No distrito de Patamuté, Tote incluía a construção do Posto de Saúde; em Barro Vermelho, a construção de uma praça; em Poço de Fora, recuperação do prédio escolar da fazenda Esfomeado; e, em Mundo Novo, a ampliação do tanque público.

Como uma coisa puxa outra, segundo os mais velhos, lembro que outro dia lideranças reivindicaram atenção do município quanto a algumas deficiências da escola do Saco da Canoa, na região de Riacho Seco. O prefeito parece que já resolveu ou está resolvendo.

Pois é. O prédio escolar do Saco da Canoa foi construído na primeira administração de Aristóteles Loureiro, o que faz pressupor que faltou atenção das administrações subsequentes, inclusive para mantê-lo em pé.

Como estou falando de memória e não de política, propriamente, cito uma curiosidade: na prestação de contas que Aristóteles Loureiro fez em 1980, constava a compra de dois mimeógrafos para a Prefeitura.

Geringonça muito útil, inclusive na vida de estudantes, Curaçá deve ter preservado alguns para registro da história.

Por aí se vê, que a geração mimeógrafo realmente existiu.

araujo-costa@uol.com.br