O bajulador

Qualquer primeiranista de Direito sabe que o indiciado tem direito de comparecer à audiência de aceitação, ou não, da denúncia do Ministério Público, antes recebida pelo Poder Judiciário.

Direito de comparecer não significa obrigatoriedade ou dever de comparecer. A presença é dispensável.

Se não foi intimado a comparecer à audiência, o indiciado vai se quiser, mas não há impedimento legal para ir. A rigor, faz parte do direito constitucional de ampla defesa (Constituição da República, artigo 5º, inciso LV).

Comentarista da GloboNews afirmou no programa Em Pauta de 25/03/2025, que a presença do ex-presidente Bolsonaro no primeiro dia de julgamento da denúncia, foi uma forma de “tentar criar constrangimento” à Turma do STF.

Além de ser um desrespeito aos defensores do ex-presidente, que concordaram com a presença dele no Tribunal, o comentário é um desserviço à sociedade, porque distorce a verdade processual atrelada ao direito de defesa.

O direito constitucional de defesa não tem lado ou espectro político. Não é de direita, de esquerda, de centro ou de qualquer lado. Vale pra todos.

O comentarista confunde direito do indiciado com tentativa de constrangimento aos magistrados.

Excedeu na bajulação.  

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Obituário: algumas perdas de Patamuté nos últimos meses

“Não foram os anos longos e lentos que me envelheceram. Foram alguns minutos.” (Cassiano Ricardo, 1895-1974)

Nesses três primeiros meses de 2025, filhos e amigos de Patamuté ficaram entristecidos com a perda de pessoas muito queridas:

Em 13/01/2025 – Alice Alves Santana, nascida em 1928;

À esquerda Alice Alves Santana com familiares

Em 30/01/2025 – Adalto Bispo dos Santos, nascido em 1936;

Adalto Bispo dos Santos

Em 23/02/2025 – Edson de Souza Menezes, nascido em 1931;

Edson de Souza Menezes

Em 23/02/2025 – Otília Ferreira de Souza, nascida em 1935;

Otília Ferreira de Souza

Em 17/03/2025 – Lígia Maria Brandão Menezes, nascida em 1956;  

Lígia Maria Brandão Menezes

Faço este registro com o intuito de ajudar a perpetuar a memória dessas pessoas com as quais muitos de nós convivemos e deixaram imorredoura saudade.  

A vida, às vezes, vai optando por nós, por nossa presença. Outras vezes, vai nos dispensando, empurrando para a eternidade, deixando vazio, cutucando saudade, criando reflexões, revelando lembranças e devastando convivências.

Como disse Cassiano Ricardo, os minutos me envelheceram e me trazem essas saudades.

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Ditadura dos imexíveis

“Brasil de ontem e de amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta.” (Ruy Barbosa, 1849-1923).

Há crítico literário, social, político, crítico de ideias e por aí vai. E há, amiúde, crítico das circunstâncias.

Talvez inclua-me na última categoria. Casualmente dou minhas derrapadas e o faço quando tropeço em estridentes injustiças, mormente praticadas por poderosos contra desamparados, miseráveis, famintos e os que não têm voz, dentre muitos.

Insurjo-me, outrossim, contra autoridades arrogantes que se elevam acima dos ombros dos demais à custa do dinheiro público. Mas estou cônscio de que, nessa altura da vida, não verei o Brasil que minha geração sonhou.

Amigo de longa data que sabe de minhas noites insones, telefonou alta madrugada. Falou alhos e bugalhos.

Mais do que isto, incluiu na conversa, referência  a alguns de meus escritos que, segundo o notívago invasor de meu silencioso sossego, ele não concorda, nunca concordou, tampouco concordará nalgum dia.

Concordando ou não, argumentei que ninguém pode se achar imexível, principalmente quem vive lambuzado no dinheiro público decorrente dos impostos que todos pagamos, inclusive os miseráveis.

Terminamos a conversa, já ao amanhecer. Ambos concordamos num ponto: o Brasil está passando por uma fase difícil e vergonhosa, porquanto estão mutilando seus pilares democráticos.

Sub-repticiamente estamos sendo censurados, vigiados e, em consequência, tolhidos no direito de expressão e de liberdade de pensamento e, sobretudo, diminuídos na condição de cidadãos.   

“O Supremo Tribunal Federal (STF) anunciou a abertura de uma licitação para contratar uma empresa que será encarregada de monitorar as redes sociais sobre conteúdos que envolvam a Corte.

O Supremo quer saber tudo que se fala sobre ele nas redes sociais. A empresa que vencer a licitação fará um acompanhamento ininterrupto do Facebook, Twitter, Youtube, Instagram, Flickr, TikTok e Linkedin” (Veja, 16/06/2024, CNN Brasil, 17/06/2024).

O valor do dinheiro público torrado pelo STF para bisbilhotar os brasileiros beira R$ 345 mil por um ano.

“Segundo o edital, publicado em 14 de junho, o valor máximo para contratar o serviço é de R$ 344.997,60” (CNN Brasil, 17/06/2024).

Isto tem outro nome: prática ditatorial.

O ataque à cidadania está sendo feito às escuras, em nome da democracia. Aí está o perigo que redunda na degenerescência de nossas instituições, outrora vistas como sérias e respeitáveis e hoje não mais, porque questionáveis.

No período da ditadura militar (1964-1985), os brasileiros eram vigiados pelo temido Serviço Nacional de Informações (SNI) e os que mandam no Brasil de agora criticavam.

Hoje, basta o entendimento arrevesado de um tribunal ou de um magistrado afoito e destrambelhado para que a privacidade dos cidadãos seja invadida ao arrepio da Constituição Federal.

O Frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto) diz, apropriadamente: “Quem tem pescoço sabe que a diferença entre a corda e a gravata está nas mãos de quem ata.”

Estamos diante do dilema da corda e a gravata em que a feitura do nó cabe aos imexíveis de nossa combalida República.

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A piada não tem graça, Excelência.

Ministro João Otávio de Noronha/Crédito: STJ

“Dizem que o baiano é tão ágil, tão ágil, que quando joga basquete, ele arremessa a bola na sexta e ela só cai no sábado.” (ministro João Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça, G1 Bahia, 20/03/2025).

A imprensa publicou, exaustivamente, este disparate do magistrado, desnecessário, nonsense, inoportuno.

O ministro do STJ, em sessão no Tribunal, fez chacota dos baianos, chamando-nos indiretamente de indolentes.

Sua Excelência deveria se dedicar ao seu mister de magistrado e não, em vez de trabalhar, ficar fazendo piada sem graça.

O governador petista Jerônimo Rodrigues, acertadamente, saiu em defesa dos baianos e pediu respeito.

“Sempre defenderei meu estado e não aceitarei que tentem reduzir a Bahia a uma visão superficial e distorcida. Nosso povo é inteligente, trabalhador, competente e dedicado. Não vamos normalizar esse tipo de discurso. Respeite a Bahia.”, disse o governador dos baianos (G1 Bahia, 20/03/2025).

O governador está certo. Certíssimo.

A Bahia deveria declarar o ministro persona non grata. Sua opinião sobre os baianos é dispensável.

Como se não bastasse nossos problemas internos na Bahia – que são muitos – ainda esta inoportuna  piada sem graça.  

Os baianos não são preguiçosos e nem acomodados.

Ao contrário, temos tradição de luta e trabalhamos muito para sustentar os privilégios e as mordomias, inclusive do ministro piadista. 

Palavreado inadequado, mormente vindo de ministro do STJ, ex-presidente do Tribunal e ex-Corregedor Geral do Conselho Nacional de Justiça.   

A nobreza das dependências do Tribunal não pode ser transformada em bate papo de botequim.

Entrementes, até nos botequins, as conversas devem ser respeitosas, para não ofuscar a urbanidade que todos devemos cultivar relativamente aos demais.

O poder, qualquer que seja a esfera, não pode estar acima do respeito, da boa educação e, sobretudo, da razoabilidade.

O presidente Jânio Quadros, estadista inquestionavelmente ético, no dia da renúncia, em 25/08/1961, escreveu:

“Há muitas maneiras de servir à Pátria”.

E certamente – acrescento eu – não é fazendo piada sem graça de baiano. É trabalhando, sobretudo.  

Vá trabalhar, ministro.

Vossa Excelência é pago pelos brasileiros, inclusive pelos baianos, para trabalhar e não para fazer humor sem graça.

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Curaçá, a arte e o mistério.

“O artista é criador de coisas belas. Revelar a arte e encobrir o artista é a razão de ser da arte.” (Oscar Wilde, dramaturgo e escritor irlandês, 1854-1900)

Quadro de autoria de Kekê de Bela

Devo pedir vênia ao artista Kekê de Bela para reproduzir – e reproduzo aqui, vistosamente belo – o quadro de Domingos Rodrigues dos Santos.

Retirei-o da página do insigne pedagogo e poeta Demis Santana no facebook, a quem também peço escusas pela bisbilhotice.

Conheci Domingos em meu tempo de Curaçá, bela cidade baiana debruçada à margem do São Francisco. Criatura essencialmente pura, humilde e, sobretudo, desprovida de maldade.

Garimpei sucinto texto deste escrevinhador sobre Domingos. O professor e jornalista Luciano Lugori generosamente o transcreveu no Blog do Luciano Lugori em bonita página de 13/07/2013 e, anos mais tarde, o fez, igualmente, no livro de sua autoria Enquanto Enlouqueço.

Ei-lo:

Domingos fez parte daquelas criaturas que nos permite refletir, circunstância tão incomum no mundo de hoje. Impossível esquecer seu jeito sorrateiro, seu sorriso-gargalhada, sua mão estendida. Todavia, o que traz a reflexão era seu olhar humilde, quase uma súplica. E sua condição de indefeso diante de nossas arrogâncias. Em qualquer ambiente chegava acanhado, tímido, como se pedindo permissão para entrar. Se, como dizem, os olhos são a janela da alma, vi isto muito nítido na humildade do olhar de Domingos

Aliás, Luciano Lugori escolheu Domingos como um dos perfis que enriqueceram o monumental Enquanto Enlouqueço. Lá, o autor diz que Domingos “foi um dos doidos mais estimados pelo povo de Curaçá”, o que parece ser o entendimento de muitos de nós curaçaenses.

O mistério fica por conta do desaparecimento de Domingos em 20/11/2002, num contexto dificil de explicar, mas nem tudo é explicável diante de nossa diminuta capacidade de entender as coisas.

A primorosa e admirável arte de Kekê de Bela revela sua grandeza de artista que embeleza e enriquece a vida e a História de Curaçá e da região sanfranciscana.

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Os desvios do Poder Judiciário

A arrogância de alguns magistrados de nosso Poder Judiciário está-se desmilinguindo.

Quem sabe, isto sirva de exemplo para que membros de nossa nobre e subida Justiça aprendam a descer ao pé da escada e se tornem mais humildes, coisa difícil de ver em varas e tribunais deste altaneiro Brasil.

Sou do tempo em que se levantava e tirava o chapéu, em sinal de respeito e reverência, quando o Juiz da comarca adentrava o ambiente comum de todos.  

Hoje, magistrados andam cercados de seguranças para não serem agredidos verbalmente ou xingados. Há exceções, por óbvio.

Houve uma decadência estúpida da moralidade e, em consequência, a mudança de conduta da sociedade fez-se evidente, imprópria e inadequada, o que não é bom.        

Os escândalos envolvendo magistrados estão sendo constantes, amiúde, vergonhosos, inaceitáveis.

O que anima a esperança é que ainda há magistrados sérios, certamente a maioria.

Esses escândalos vão desde privilégios de magistrados que ganham salários exorbitantes beirando R$ 1 milhão de reais, acrescidos de mordomias e penduricalhos outros e, ainda, a prática de vendas de sentenças, formação de organização criminosa, et cetera.

Tudo que não pode frequentar ou arranhar a moralidade da magistratura.

Só para citar uns poucos exemplos, aliás pouquíssimos, diante do cipoal de escândalos e desvios morais:

A Polícia Federal está investigando gabinetes de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ditos gabinetes são investigados por venda de sentença em troca de valores milionários.

A venda de sentença é uma prática espúria e criminosa em que o magistrado recebe dinheiro da parte interessada no processo para exarar decisão a seu favor e em prejuízo da parte adversa.

O STJ é conhecido como o tribunal da cidadania. Por isto, custa acreditar que ministros estejam envolvidos nisto.

Em data recente, três desembargadores do Rio de Janeiro foram condenados à prisão. “Eles foram considerados culpados por crimes como associação criminosa, peculato, corrupção passiva e ativa e lavagem de dinheiro.” (EBC/Agência Brasil, 14/03/2025).  

A Bahia tem-se deparado com situações embaraçosas em que membros do Tribunal de Justiça se envolveram com falcatruas. Houve até expedição de decretos de prisão em desfavor de alguns deles.

“A Polícia Federal apurou esquema ilegal de venda e compra de decisões judiciais no Tribunal de Justiça de São Paulo. Um desembargador “foi responsabilizado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, associação criminosa, advocacia administrativa e violação de sigilo.” (G1 São Paulo, 31/10/2024).

Somam-se a esses poucos dos muitos exemplos, o paulatino descrédito em que vem caindo o Supremo Tribunal Federal, em razão de decisões estapafúrdias e desconformes a legislação.

Os exemplos são abundantes, estridentes, inegáveis.

O inquérito das Fake News (notícias falsas) aberto pelo STF, desconforme a legislação penal, completou seis anos em 14/03/2025, ao arrepio da lei.

Nos termos do artigo 10, do Código de Processo Penal, o prazo do inquérito policial é de 10 dias se o investigado estiver preso em flagrante ou preventivamente e de 30 dias se estiver solto. 

Este prazo de 30 dias pode ser prorrogado por prazos superiores, como 60, 90 ou 120 dias. 

Entretanto, o inquérito das Fake News está lá no STF, ilegalmente tramitando, há mais de seis anos e sem previsão de encerrar.

É neste andar da ilegalidade, que o Estado de Direito vem sendo arranhado, vilipendiado, espezinhado.

Deus tenha piedade de todos nós brasileiros.

Com o Poder Judiciário nesse nível de incongruências, a quem recorrer quando se necessita de Justiça?

araujo-costa@uol.com.br

Em Curaçá, a relevância do jornal Asa Branca

“No jornalismo, o que importa é o resultado, não as dificuldades para obtê-lo.” (Jornalista Zuenir Ventura)

Capa do Jornal Asa Branca, de Curaçá (BA), outubro de 1980

Em outubro de 1980, o hoje desaparecido jornal Asa Branca, de Curaçá, município baiano debruçado à margem do São Francisco, publicou um artigo do sociólogo Esmeraldo Lopes intitulado Seca e Miséria.

Nascido na trilha da redemocratização do País, que saía da ditadura militar, o jornal Asa Branca resultou de louvável iniciativa de alguns abnegados curaçaenses, antes à margem das decisões políticas, dentre estes Omar Dias Torres (Babá) e Salvador Lopes Gonsalves que contaram com colaboradores do porte de Antonieta Galdieri e tantos outros. Coelhão, sobejamente conhecido em sua arte, cuidava da capa e diagramação do periódico.  

Quaisquer assuntos relativamente ao Nordeste são recorrentes e atualíssimos.

Esmeraldo Lopes discorreu desde a seca de 1870, quando morrreram “só no Ceará mais ou menos cem mil pessoas de fome”, até o êxodo de nordestinos para São Paulo e Amazônia à procura de meios de sobrevivência.

O trecho do artigo a seguir é atualíssimo, não obstante a demagogia dos governos que, também, continua igual, sem precisar de nenhuma atualização.

Dizia o mestre Esmeraldo Lopes, à época ainda morando em São Paulo :

“A partir de 1960, os trabalhadores vindos do nordeste, a maioria expulsos de suas posses de terra pelo coronéis e grileiros, passaram a encontrar mais dificuldades para arranjar meios de vida, muitos acabando por se entregar ao crime, à prostituição, sujeitando-se a morrer em favelas, quando ficavam perambulando pelas ruas arrudiados pelos filhos e esposas, dormindo pelas calçadas, vivendo de esmolas e perseguidos pela polícia.” (Jornal Asa Branca, Curaçá-BA, 31/10/1980).

O artigo é extenso. O sociólogo cita o escritor Alcindo Teixeira Mendes: “Sem grande exagero, poder-se-ia dizer que em cada quilômetro de estrada de seringueira na Amazônia, há uma cruz de nordestino”.

Como se vê, não se deve menosprezar a incapacidade de nossos governantes. Neste particular, são irrepreensíveis.

De 1980 – ano do artigo citado – até os dias de hoje, mais de quatro décadas, seguiram-se governos inócuos, inoperantes, negligentes, demagogos.  

Os exemplos são abundantes, inegáveis, tristes.

Quiçá o êxodo dos nordestinos em direção a outros estados, mormente em direção à Região Sudeste tenha diminuído, mas é razoável presumir que a situação de muitos deles, já fora de sua terra natal, continua de mal a pior.

Em São Bernardo do Campo, berço político do presidente Lula da Silva, multiplicam-se nas ruas e nas praças públicas, pedintes, desempregados, subempregados cavando a sobrevivência e, sobretudo, moradores de rua, que os governos de esquerda encontraram um termo bonito para defini-los: “pessoas em situação de rua”.

Nas visitas que faz a São Bernardo do Campo, nunca vi o morubixaba Lula da Silva observando, in loco, a situação dessas pessoas em situação de miséria.  

Contudo, é seguramente certo que Sua Excelência se deleita em suas ricas e diversas residências inalcançáveis para nós, mortais comuns.  

A mudança do conceito ou da definição dos moradores de rua não exclui a condição de miserabilidade dessas pessoas.   

Inclusos neste índice de miseráveis, certamente estão aqueles que o PT e Lula da Silva dizem, acintosamnte, que tiraram da pobreza.

Admiradores, fanáticos e súditos de Lula acreditam nesta monumental demagogia. Pior: inundam as redes sociais de asneiras e o defendem com unhas e dentes.

De qualquer forma, em se falando do Nordeste, os assuntos são sempre atuais, assustadoramente atuais, mesmo que nordestinos tenham passado a morar noutros estados.

O cerne da questão é sempre o mesmo: a incapacidade e ausência de vontade política dos governos de cuidarem de seus governados, seja comandado por Lula da Silva ou outro qualquer.

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Geraldo Menezes e a paixão pela música

Nascido Geraldo José de Menezes, hoje é mais conhecido pelo sugestivo nome de Geraldo Paixão, de Chorrochó.

Geraldo Paixão/Arquivo da família

Creio que adotou Paixão para firmar-se no meio artístico e, sobretudo, no que mais gosta de fazer: compor e cantar.

A mãe Maria Menezes (Pina) e o pai Francisco Arnóbio de Menezes, ambos de família tradicional de Chorrochó, deixaram prole numerosa e decente sustentada nas tradições locais.

A família de Pina e Arnóbio cresceu e hoje está ornamentada com descendência bem estruturada, alguns já famosos e, sobretudo, carrega sabedoria, honra e resepeito ao nome familiar.   

Jovem ainda, Geraldo Menezes optou pela arte. Canta e compõe canções desde a juventude.

Não consigo esquecê-lo na juventude em Chorrochó, década de 1970, jovem bonito e elegante de cabelos longos, sonhador e inteligente, cantando sucessos no então famoso Bar Potiguar, que iam de Quem mandou você errar, de Claudia Barroso a Detalhes, de Roberto Carlos.  

Geraldo andou por São Paulo, viveu no meio artístico e por lá vislumbrou a carreira de cantor, sem contudo abdicar de suas raízes interioranas chorrochoenses e, mais do que isto, nunca se tenha esmorecido quando enfrentou os tropeços naturais tão comuns na vida de artista. 

Tempos difíceis, que acompanhei na condição de amigo e admirador de Geraldo Menezes.

As noites insones, a procura de gravadora que lhe desse oportunidade, a possibilidade consequente de um contrato, a concorrência com cantores famosos, o mundo desconhecido e cruel dos shows, empresários, programas de televisão e a janela em direção ao sucesso tão sonhado e sempre distante e difícil.

Perseverante e persistente, Geraldo Paixão sempre trouxe consigo a força em defesa do que luta e acredita: compor, cantar, viver e sonhar.

Não parece inoportuno lembrar que o pai Francisco Arnóbio de Menezes e o tio Vivaldo Cardoso de Menezes eram músicos, embora não se dedicassem a este mister, por força da profissão que exerciam.

Profissionais de sucesso, em suas respectivas áreas de atuação, Arnóbio e Vivaldo herdaram dos antepassados esse pendor pela arte, mormente pela música instrumental.  

Recordo-me, com saudade, Arnóbio declamando e cantando músicas de Vicente Celestino com tal perfeição que O ébrio parecia mais uma invenção sua do que do verdadeiro intérprete.     

A título de exemplo, lembro que a história registra que Francisco Arnóbio Cardoso Varjão, que fazia parte da raiz familiar de Francisco Arnóbio de Menezes, era maestro e poeta. 

Há alguns anos – vai longe no tempo – estive em Chorrochó por ocasião da festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Encontrei Geraldo Paixão numa daquelas barracas expostas na praça em frente à igreja.

Geraldo me presenteou com um CD e, mais do que isto, o autografou.  Guardo-o até hoje, com carinho e consideração. Lá está “A raposa e as uvas”, de Reginaldo Rossi, um de seus cantores preferidos.

Relapso, não costumo fazer contato regular com amigos, o que não exclui minha consideração.

Com o intuito de publicar esta matéria, à época fiz contato com Geraldo Paixão. Queria uma fotografia do nosso tempo de jovens, em Chorrochó, ele de cabelos longos, próprio da juventude rebelde da época.

Modesto e educado, Geraldo disse que não tinha fotos daquela época. Sei que ele tem, mas se preservou, evitou a lembrança de um tempo que não se pode mais explicar ao frio e conturbado mundo de hoje.

Estas são lembranças que a memória traz em meio aos tropeços do dia a dia. Chegamos à idade septuagenária. Eu, um pouco à frente de Geraldo, trôpego em direção à continuidade do tempo. Ele nascido em fevereiro de 1955. 

Com a idade chegam as lembranças e a certeza da finitude do caminho. Mas, como diz o dominicano Frei Betto: “É preciso guardar o pessimismo para dias melhores”.

Hoje faço este registro em nome da amizade e da incerteza da vida.

Em tempo:

Publicada pela primeira vez em 18/12/2021, esta crônica foi editada.

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Política, crítica e satisfação aos leitores

“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.” (Bertolt Brecht, dramaturgo alemão, 1898-1956).

De quando em vez sou questionado por leitores deste blog – poucos, felizmente – em razão de minhas críticas a ações de governos de esquerda o que, segundo esses leitores, significa viés político.

Não é. Confesso. Não há viés político.

Entendo que para apontar erros na gestão pública, qualquer que seja ela e fazer críticas a ações governamentais, o cidadão não precisa escudar-se num ou noutro lado político, de esquerda, direita, de centro ou qualquer outro.  

Fazer oposição é uma coisa, criticar erros é outra, completamente diferente.

O crítico não precisa ter neutralidade, necessariamente, mas deve amparar-se no dever de dizer a verdade e penitenciar-se diante das incompreensões.

Neste particular, esclareço. Não sou filiado a nenhum partido político e tenho votado de acordo com os ditames de minha consciência, de modo que faço comentários tão-somente sobre aquilo que os governantes, que têm o dever de fazer as coisas certas, geralmente não as fazem, consoante meu ponto de vista.  

Convenhamos, gestões públicas capengas e titubeantes não são problemas deste escrevinhador, tampouco dos leitores.

Contudo, tenho dificuldade de entender pessoas que apóiam este ou aquele líder político municipal, estadual ou federal e descambam para o fanatismo, abandonam o bom senso e desprezam a sensatez.

A cegueira ideológica que impede a argumentação sadia diminui o crítico, lhe tolhe a razão, apequena-o diante da sociedade.

O fato é que, na condição de cidadão – e considerando o plano federal – não consigo me calar diante de um Executivo negligente, um Legislativo inoperante e um Judiciário opressor.

O pensamento de Bertolt Brecht por si só é explicativo. Reclamar das críticas pressupõe entender a razão delas.

Neste sentido, não se afigura estranha a conhecida e lapidar frase do crítico Léo Gilson Ribeiro: “Quem luta para não ser oprimido pode se tornar opressor”.

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Briga interna no PT dificulta governo de Lula da Silva

Senador Jaques Wagner (PT-BA). Crédito: Senado Federal

“A tesouraria do PT é tida como o grande pano de fundo da crise que tomou a eleição interna. É ali que se faz a gestão do fundo eleitoral e do fundo partidário. O que confere ao ocupante da vaga um enorme poder de influenciar a gestão da sigla” (CNN Brasil, 11/03/2025).

Noutras palavras, é a Secretaria de Finanças do partido que está sendo disputada internamente no PT, rachou as correntes do partido e vem dificultando o governo do morubixaba Lula da Silva.

Ou seja, todos querem a cobiçada função de Tesoureiro. Na Tesouraria foram forjadas – ou passaram por lá – partes dos grandes escândalos financeiros dos governos petistas que desaguaram na finada operação Lava Jato.

Agora, Lula engendrou a coisa que acha certa.

Lula colocou a espevitada Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-presidente do partido, na Secretaria das Relações Institucionais, para articular com o Congresso Nacional e, para ficar tudo em casa, manteve o namorado de Gleisi e também deputado Linbdberg Farias (PT-RJ) na liderança do PT na Câmara dos Deputados.

Como se vê, dois radicais incompatíveis com a civilidade política, que apóiam abertamente ditaduras e, não obstante, se dizem democratas.

Experiente, Lula da Silva vê a coisa mais longe, muito distante. A caminho dos 80 anos, muito inteligente, visivelmente fragilizado pela idade e alguns problemas de saúde, já está preparando a estrutura de seu conturbado espólio político na eventualidade de não poder levar adiante.  

Lula quer Edinho Silva, ex-ministro petista e ex-prefeito do município paulista de Araraquara, na presidência nacional do partido.

Vai entronizá-lo, certamente. Ninguém no PT contraria Lula. E neste particular, Lula está certo. Edinho Silva destoa desse radicalismo partidário que Gleisi Hoffmann e outras figuras do PT abraçaram.

Em época de queda de popularidade de Lula e do governo, não parece razoável que Gleisi Hoffmann e Lindberg Farias sejam as pessoas ideais para cuidarem da articulação e das costuras entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

Obscurantismo empaca o governo e ninguém quer isto para o Brasil.

Para piorar, Lula da Silva mantém, salvo engano, o excêntrico Randolfe Rodrigues (PT-AP) como líder do governo no Congresso Nacional. O senador do Amapá é o avesso da razoabilidade política.

Todavia, nem tudo está perdido. O senador Jaques Wagner – se não mudar – deverá continuar líder do governo no Senado Federal. Experiente e equilibrado, é o único senador da Bahia que tem condições de exercer, com êxito, essa função.

A verbosa Bahia de Ruy Barbosa se transformou na capitania hereditária do Partido dos Trabalhadores (PT) e está dando as cartas no governo federal através do ex-governador e ministro da Casa Civil, Rui Costa e do senador Jaques Wagner.

A Bahia, ademais, vai mal de senadores. De adesista de primeira hora do carlismo, homem de confiança de Antonio Carlos Magalhães, Otto Alencar (PSD) passou a ser espalhafatoso lulista desde criancinha.

Ângelo Coronel (PSD) não vem demonstrando sabedoria política à altura do cargo, a julgar pelo noticiário.

Sobra Jaques Wagner que, bem ou mal, tem cara de senador, pinta de senador e é senador. Mais do que isto: é atuante.

Entretanto, o que vale é a soberania popular e, neste sentido, a voz das urnas escolheu esses senhores para representarem o estado da Bahia, nos termos da Constituição da República.  

Vamos aturá-los.

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