Curaçá e Luizinho Lopes

“Já vi que passou o planeta. Só escapa quem voa!” (Luizinho Lopes, Curaçá-BA, 1919-2023, apud Esmeraldo Lopes).

Capa da autobiografia de Luizinho Lopes/Arquivo Salvador Lopes

Luizinho Lopes beirou os 105 anos. Quase chega lá.

A História de Curaçá conta as peripécias de um vaqueiro nascido na Fazenda Riacho do Gato chamado Luiz Lopes Filho (Luizinho) que aos 103 anos teve a façanha de lançar sua rica autobiografia. Estávamos em julho de 2022.

Experiente e sábio, Luizinho deixou, dentre muitas, uma lição lapidar, mormente para as gerações do agora, que vivem embaraçadas com a sede de absoluto e com o emaranhado de geringonças eletrônicas:  

“É agradável quando eu chego em um lugar e as pessoas percebem minha presença. Do mesmo modo, é bom quando eu saio e percebem que eu saí.

É a essencialidade do viver em sociedade. A percepção da presença e da ausência do outro, razão primeira do existir saudável e da convivência de todos nós.

Conhecedor da caatinga e de seus mistérios, Luizinho Lopes foi vaqueiro até a finitude de seu caminhar.  

Retirei d’algum lugar, fragmento do texto de Esmeraldo Lopes, nosso sabido, conspícuo e sempre admirado sociólogo de Curaçá:

“Luizinho é um desses sujeitos que gosta de palestrar, mas às vezes se põe na posição de escutador. E quando está assim, fica ali no silêncio, enrosca as mãos no corpo, cochila, acorda, cochila… Entre todos os assuntos, o que mais lhe atrai são as mudanças do mundo. Ele sempre afirma que o mundo não tem mais jeito, que nada mais lhe surpreende, que está tudo desmantelado.

Mas outro dia ele estava como escutador e chegou um seu camarada e veio contando: “Rapaz, não sei se vocês já ouviram dizer, mas a mulher do finado… tá de homem”. Luizinho, que estava cochilando, levantou a cabeça na rapidez de um piscar e bradou: “Já vi que passou o planeta. Só escapa quem voa!”

Esmeraldo Lopes é abalizado e insuspeito para falar sobre Luizinho Lopes. Ademais, é catedrático na arte de decifrar o entender dos curaçaenses.

Esteio de sabedoria e decência, Luizinho Lopes é um sustentáculo da história de Curaçá.

O jornalista e professor Luciano Lugori cunhou uma expressão certeira na vida e na história de Luizinho: “Um grande homem que arreliou o tempo.” (Curaçá Oficial, 28/11/2023).  

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Memória de Patamuté: Francisco Ferreira Vital

“O mundo é o seu caderno, as páginas em que você faz suas somas.” (Richard Bach)

Francisco Ferreira Vital/Arquivo da família

Incluo-me entre aqueles que cutucam o tempo, cavam as lembranças e se enternecem com elas.

As construções precisam de esteios e de cumeeiras para se sustentarem diante da ação do tempo. “O tempo atreve-se a colunas de mármore”, disse padre Vieira. Imaginemos o que o tempo é capaz de fazer com a fragilidade humana. 

Desmoronam-se as colunas, os esteios, mas ficam as lembranças, os exemplos, mormente os bons exemplos.

Francisco Ferreira Vital, que seus  contemporâneos chamavam Chiquinho Vital – e ainda hoje a história de Patamuté mantém assim intacto o nome – era um senhor impressionantemente culto, atencioso, educado e respeitador.

Chiquinho Vital constituiu família nobre em Patamuté e a educou consoante os rígidos modelos de educação disponíveis à época. Era entusiasta da educação e incentivador dos jovens no sentido de caminharem em direção ao conhecimento, em busca de novas alvoradas.

O núcleo familiar de Chiquinho Vital compunha-se da mulher Josefa Mendes Vital e das filhas Ana Mendes Vital Matos, Euza Maria Vital, Maria da Silva Vital e Francisca da Silva Alves. E os filhos Mílton Ferreira Victal, Bonifácio, João Vital e Nequinha.

Vestia-se elegantemente, sempre com um paletó sobre a camisa de mangas longas, olhar sereno, passos firmes, aguçada inteligência e notável apreensão fulminante. Colhia no ar as dúvidas, as angústias dos circunstantes, a pergunta que ainda estaria balançando nas conjecturas. 

Impressionava suas lições didáticas, sem consultar nenhuma anotação, estribado somente na memória, no conhecimento e na experiência.

Este escrevinhador muitas vezes se valeu de seus ensinamentos para esclarecer pontos sugeridos pelas professoras primárias da Escola Estadual de Patamuté, única existente à época, inclusive por sua filha e professora Ana Mendes Vital Matos.

Francisco Ferreira Vital era uma referência em Patamuté no que tange ao delineamento de vida, seriedade firmada ao longo do tempo, benevolência e, sobretudo, irrepreensibilidade de caráter.

Sempre prestativo, disponibilizava-se para longas conversas com jovens, para dar-lhes orientação sobre horizontes, sonhos, vida futura.

Além de suas atividades de praxe, Chiquinho Vital mantinha uma espécie de ateliê.

Tratava-se de um espaço acoplado ao casarão de sua residência, onde inventava candeeiros, objetos de decoração e outras coisas mais e se servia daquele mesmo lugar para receber amigos, pessoas das fazendas e estudantes ávidos para tirarem dúvidas sobre assuntos escolares.

Os candeeiros, desconhecidos no dia a dia de hoje, eram necessários e muito úteis naquela quadra do tempo, em todo o Nordeste. Em Patamuté e na zona rural do distrito, também, porque não havia energia elétrica.  

Chiquinho Vital ia buscar, nos recônditos de sua admirável inteligência,  as criativas invenções que todos admiravam – e não somente candeeiros.

Atravessava regularmente a pacata rua de Patamuté, chapéu bem acomodado e ia ter-se no armazém de Antonio Paixão, seu amigo de longas conversas e altas elucubrações. Conversa aprumada e interessante sobre assuntos diversos.

Demoradas conversas sobre amenidades. Bate-papo despretensioso, bonito, enriquecedor, provocador de ideais.

Como conversa puxa conversa, ambos iam esticando, descontraidamente, como se puxassem a linha de um novelo.

Minha memória esburacada ainda enxerga a caneta entre os dedos, criteriosamente pousada sobre o papel de embrulho no balcão tosco, ensinando-me regra de três simples e composta. Era exímio em cálculos aritméticos. Aliás, era um mestre em generalidades.

Depois esqueci, mas a memória reteve o interesse dele em ensinar e a paciência com que suportava minha dificuldade de aprender.

Tentei guardar seus ensinamentos voltados à moral e ao bom comportamento que, confesso, ainda não consegui segui-los à risca. Em idade septuagenária, sou um caso perdido.

O mundo de Chiquinho Vital foi um caderno que só somou em suas páginas.

Em tempo:

Sou grato a Anselmo Vital Matos que, com presteza, me socorreu informando os nomes corretos da família e com a foto de Francisco Ferreira Vital.      

Agradeço também ao professor Wagner Gomes, filho de Patamuté, que me lembrou sobre a omissão, no texto, de alguns nomes de integrantes da família de Chiquinho Vital. Editei a matéria em seguida e peço escusas aos leitores pelo descuido.

O professor Wagner acrescentou uma informação que eu desconhecia e faço o registro. Chiquinho Vital era natural de Juazeiro e tinha um irmão gêmeo.   

Zelinho Sena, outro filho ilustre e atento de Patamuté, acrescentou valiosa observação segundo a qual Chiquinho Vital foi Juiz de Paz do distrito de Patamuté.

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Em Curaçá persiste a deselegância política.

Vista parcial da sede da Prefeitura de Curaçá/Crédito: Curaçá Oficial

É de pressupor, por óbvio e justo, que os admiradores mais arraigados do atual prefeito de Curaçá queiram melhores dias para o município.

Entretanto, não parece razoável fazer política partidária rasteira, pífia, carente de elegância, que nada acrescenta, nada constrói, nada produz.

Em quadro assim, incongruentes ideológicos atrapalham mais do que ajudam. A História registra que a arrogância e os excessos na atividade política têm sido as causas de retumbantes fracassos.

Ideal seria que a honorabilidade e lisura do político, com ou sem mandato, qualquer que seja ele – de esquerda, de direita, de centro ou de qualquer lado – fossem preservadas de ataques, ofensas e, sobretudo, sustentadas no respeito que todos os cidadãos devemos ter.

Os candidatos são submetidos à voz das urnas. Se a maioria escolheu um e não outro – e isto é princípio básico da democracia – a minoria deve aceitar a condição de derrotada, sem, entretanto, abdicar do direito de fazer oposição, nem ser tolhida no exercício desse direito.   

Vitoriosos e derrotados não podem extrapolar os limites verbais e descambar para a grosseria.

As palavras têm fronteiras.

Quem quiser divergir, pode divergir, civilizadamente.

A liberdade de coexistir e de ouvir, pressupõe a liberdade de dizer. E o dizer do outro não é menor que o nosso dizer, mantidos o equilíbrio, a elegância e a decência.

O normal é que, abertas as urnas, a sociedade acolha o prefeito eleito, com absoluta correção de comportamento. O município de Curaçá parece maduro no sentido de aquilatar o significado da vontade da maioria, mas falta aparar as arestas das incompreensões.

Contudo, é terrivelmente deselegante fazer acusações atabalhoadas a adversários, simplesmente porque quem acusa pertence ao grupo político vitorioso.

Importa a convivência social necessária entre vitoriosos e derrotados. O interesse público está acima dos antagonismos.

Em Curaçá persiste o ambiente pesado de acusações contra o prefeito que saiu, de modo que, parte da sociedade curaçaense parece ainda viver no fervor da campanha eleitoral de 2024.

São as autoridades competentes que dirão a palavra final sobre a conduta do ex-prefeito no exercício do mandato, se agasalhada ou não pelas leis, equilíbrio e ética pública.  

Mas, convenhamos, quem fica oito anos na condição de prefeito sem ser incomodado, certamente teve tempo de se precaver de eventuais cochilos e de arranhões às leis.    

Há apoiadores do prefeito atual de Curaçá que acham que tudo que eles não conhecem é questionável do ponto de vista da lisura administrativa. Apoiar o atual prefeito não significa espezinhar o antecessor.

Não parece sensato, sair por aí, a torto e a direito, apontando erros da administração anterior. A prudência aconselha esperar a apuração dos fatos tidos como irregulares, o que é atribuição das instâncias competentes. Estão aí, por exemplo, os diligentes órgãos de controle.  

Democracia também é submissão às regras. 

As redes sociais têm sido propícias para o despejo de referências espalhafatosas de apoiadores, tanto do prefeito que saiu quanto do prefeito que assumiu em janeiro de 2025.

A campanha eleitoral se foi, escafedeu-se.

Já é tempo de recorrer aos filtros da sensatez e da elegância.  

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Supersalários de magistrados respingam na credibilidade do Judiciário  

“O Brasil não é um país sério.” (Carlos Alves de Souza Filho, diplomata brasileiro, 1901-1990).

Vista parcial do Superior Tribunal de Justiça/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em outubro de 2024 pelo menos seis ministros aposentados do Superior Tribunal de Justiça (STJ) receberam salários muito acima de R$ 300 mil, por conta dos vergonhosos penduricalhos que driblam o teto constitucional que, a rigor, é uma figura jurídica decorativa.

É o caso da notável e impoluta Eliana Calmon, baiana de Salvador e ministra aposentada do STJ que recebeu R$ 319.718,27 somente em outubro de 2024.

Eliana Calmon é aquela mesma Excelentíssima Senhora, que na condição de Corregedora Geral da Justiça, vivia criticando excessos no Judiciário. Certamente ela não se referia a excessos de mordomias e salários.

A elite do Judiciário continua insensível às necessidades dos brasileiros que passam fome.

“Ao menos 41 juízes ganharam mais de R$ 500 mil cada em bônus em dezembro”, segundo matéria do UOL de 24/01/2025.

A matéria apresentou uma lista de magistrados que ganharam, só em dezembro de 2024, salários que ultrapassaram  R$ 600 mil.

Exemplos: um magistrado de Rondônia ganhou R$ 778.787,17 e outro do TRT de São Paulo ganhou R$ 788.358,05.

Pior: paulatinamente o Judiciário vai ampliando seus salários e mordomias e se distancia cada vez mais dos pobres mortais.

Isto, inevitavelmente, respinga na credibilidade do Poder Judiciário.

Os brasileiros fazem das tripas coração para pagar impostos. Sustentam os supersalários de Suas Excelências, que continuam boiando na intocabilidade.   

A sociedade – ou parte dela – e o Judiciário caminham em sentido inverso. Enquanto brasileiros desamparados vêem a Justiça escapar de seus clamores, membros do Poder Judiciário se lambuzam em supersalários, mordomias e privilégios tais que os tornam diferentes dos demais brasileiros

Em tempo:

A frase “O Brasil não é um país sério” foi atribuída durante muito tempo a Charles de Gaulle (1890-1970), mas em 1979 o diplomata Carlos Alves de Souza Filho que representou o Brasil na França e chegou a negociar conflito diplomata com o presidente francês, assumiu a autoria da frase.

Entretanto, até hoje a frase é atribuída ao presidente da França.    

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Casmurros, elefantes e mentecaptos

Reunião de intelectuais é um porre.

Quem não é casmurro e sorumbático é vaidoso.

Carlos Heitor Cony dizia, com conhecimento de causa: “Como os elefantes, a partir de dois, três intelectuais chateiam muito mais”.

Fui convidado para uma reunião, creio que na condição de amigo, porque intelectual não me considero.

Discutiu-se de tudo, menos sobre o assunto para o qual a reunião foi convocada, de modo que a dita cuja se transformou em burburinho, risos dos mais vaidosos e indiferença dos sorumbáticos.

Lá para as tantas, alguém quis saber sobre o aumento do preço dos alimentos que o governo está preocupado e perdido, sem saber o que faz, o que não é nenhuma novidade em se tratando de governo do PT.

Brasília, sexta-feira, 23 e 24 de janeiro de 2025:

O ministro Rui Costa, da Casa Civil, que entende tudo de vaidade política e nada de economia, se arriscou a convocar entrevista à imprensa, que acabou inútil, para explicar o que aconteceu na reunião convocada pelo governo, realizada no Palácio do Planalto, para discutir e solucionar o preço dos alimentos.

O ministro Rui Costa nada explicou. Ao contrário, jogou frases e opiniões soltas no ar que acabaram dificultando ainda mais a comunicação e situação do governo como, por exemplo, “intervenção no setor de alimentos”, “quem não puder comer laranja coma outra fruta mais barata” e outras barbaridades desconexas.

Por sua vez, o ministro petista do Desenvolvimento Agrário sugeriu que a solução do problema está no cultivo e safra de alimentos, o que significa dizer que a população tem de esperar ações do governo no sentido de incentivar e financiar plantação e colheita.

Até lá os pobres já estarão em crise de inanição.

Na reunião, houve até – segundo boatos já desmentidos pelo governo – um porralouca que sugeriu alterar o prazo de validade das embalagens de alimentos, como solução para flexibilizar a crise.

Ou seja, consumir alimentos com prazo de validade vencido ou alterado.

Coisa de mentecapto.  

“Está descartada a proposta de mudança nas regras do sistema de prazo de validade para tentar reduzir o preço dos alimentos nas prateleiras dos supermercados. A afirmação veio do próprio ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, após a reunião”. (CNN, 23/01/2025).

Assim, como a reunião de intelectuais, a reunião de membros do governo para tratar do preço dos alimentos, terminou sem nenhum resultado.  

Casmurros e elefantes incomodando-se entre eles.

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Vazio existencial

“O vazio existencial é cada vez mais discutido.

O tema foi retratado com maestria, em 2012, por meio da escultura Melancholy (Melancolia) do artista romeno Albert György.

A obra fica às margens do lago de Genebra, na Suíça, e faz refletir e muito a respeito da vida e de quem somos.

Para expressar o sofrimento e a solidão humana, o artista projetou um homem sozinho, com a cabeça baixa e um enorme buraco no lugar de seu peito.” (Jornal Terral).

Observação:

A imagem da escultura e o texto são reproduções do Jornal Terral, de Linhares-ES.

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Menos, Cantanhêde, menos.

“Ao rei tudo, menos a honra.” (Calderón de la Barca, poeta e dramaturgo espanhol, 1600-1681)

A jornalista lulopetista Eliane Cantanhêde, comentarista da GloboNews, na ânsia de agradar o presidente Lula da Silva e seu governo, cometeu uma barbaridade ridícula e patética, incompatível com o jornalismo sério que, aliás, anda muito escasso pelas bandas do Grupo Globo.

Jornalista Eliane Cantanhêde/Reprodução Google

No programa Em Pauta, espécie de espaço disponibilizado para bajular o governo, Eliane disse o seguinte: “Descredibilizar e atacar medidas públicas é crime”.

Ou seja, a jornalista conseguiu transformar em crimes críticas democráticas a ações governamentais.

Críticas são salutares e sempre existiram em qualquer tempo, em qualquer governo, em qualquer parte do mundo.

Nem nas mais cruéis ditaduras, criticar ações de governo é crime. Aceitá-las é outra história.

Eliane Cantanhêde não sabe que, nas democracias, oposição e governo coexistem pacificamente, convivem no mesmo espaço das ideias e que as leis penais devem ficar à margem dos debates democráticos.

A jornalista tomou as dores do governo porque alguns parlamentares da oposição criticaram as polêmicas medidas do PIX que Lula da Silva queria implantar, depois revogadas por determinação do presidente, em razão de pressão da sociedade.

Talvez a jornalista Eliane Cantanhêde devesse se mudar para Cuba,  Venezuela ou Nicarágua, onde aqueles regimes políticos atraem a admiração do presidente Lula da Silva, que ela adora e até o chama de “gênio”.   

Como dizia o professor Raimundo, quando seu aluno exagerava na bajulação: menos, Eliane Cantanhêde, menos.

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A Igreja de Chorrochó e a contribuição de Padre Mariano

Padre Mariano, primeiro à direita, em 21.01.2016/Crédito Edilson Oliveira

Salvo melhor juízo – e se minha esburacada memória não estiver sucumbindo ao abismo da envelhescência  – padre Mariano Pietro Brentan chegou a Chorrochó em 04.01.1986.

Portanto, trinta e nove anos se completam neste mês de janeiro de 2025, quando se realiza a tradicional festa do padroeiro Senhor do Bonfim. Sua destinação como pároco da Freguesia de Senhor do Bonfim de Chorrochó deu-se em 06 de abril de 1986.

Padre Mariano incumbiu-se da grandiosa tarefa de suceder ao padre e primeiro vigário da paróquia, Ulisses Mônaco da Conceição, ícone admirável da Igreja de Chorrochó e isto por si só se basta: tarefa ingente, honrosa, difícil, grandiosa.

Grande empreendedor, competente zeloso das coisas da Igreja, padre Mariano conciliou, com eficiência, enquanto à frente da paróquia, seu mister de sacerdote com um trabalho simultâneo e incessante em benefício de Chorrochó.

Angariou condições para construções voltadas à Igreja e, mais ainda, empreendeu uma admirável obra social direcionada aos paroquianos. São exemplos, salvo engano: a capela Nossa Senhora da Conceição, a construção do Centro Paroquial de Chorrochó, a reforma e ampliação da Casa Paroquial e a instituição do Lar José e Maria.

Com a atuação do padre Mariano, a paróquia deixou de ser um núcleo essencialmente urbano para se transformar num edificante exemplo de amparo às comunidades rurais de Chorrochó.

Conheci padre Mariano Pietro Brentan em circunstância casual. Já morando em São Paulo, em viagem a Chorrochó, fui-lhe apresentado na residência de Maria do Socorro Menezes Ribeiro e Virgílio Ribeiro de Andrade.

Socorro e Virgílio, exemplos edificantes de hospitalidade, amizade e cordialidade. Data inesquecível, memorável, agradavelmente interessante.

Tivemos uma conversa longa sobre a Igreja, suas tradições e, sobretudo, as dificuldades por que passava um vigário do interior. Em nenhum momento reclamou do exercício de seu mister religioso.

Conversa marcadamente auspiciosa, padre Mariano falou de ritos e de história e até me fez ver a importância do Hino Queremos Deus, um dos mais tradicionais da Igreja Católica. Falou do papel da Igreja no sentido de aplainar a insensatez e ingratidão dos homens que se “erguem em vão contra o Senhor”, em todo o tempo.

Impressionei-me com a decência, cultura e espírito de solidariedade demonstrada pelo padre Mariano, ilustre representante da Igreja Católica em Chorrochó, à época.

Educado, sonhador, inquieto, responsável ao extremo pelo ofício religioso que lhe foi confiadopadre Mariano é defensor intransigente da fé católica, que a exalta admiravelmente.

O que sei – e sei pouco de sua vida – é que é italiano nascido em 06.06.1938, ordenado em 08 de dezembro de 1985 em Euclides da Cunha (BA) e, em razão dessas costumeiras decisões que a Igreja determina aos membros de seu clero, veio parar em Chorrochó.

É o que o Direito Canônico denomina de residente não incardinado, ou seja, uma liberação do religioso pela Igreja, para algum lugar, por determinado tempo.

Segundo a Igreja, padres residentes não incardinados são aqueles que exercem o ministério na diocese, embora oriundos de outra diocese ou ordem religiosa, às quais ainda estão ligados canonicamente.

Ele ficou em nosso meio, para alegria e benefício dos paroquianos de Chorrochó, por alguns anos. Sua presença era admirável, porquanto terna e essencialmente voltada para os assuntos da Igreja.

Dedicado, obediente às normas da Santa Sé universalmente aceitas, padre Mariano veio robustecer a história de Igreja de Chorrochó. Um fato louvável, espiritualmente valioso.

Em 2018, fragilizado em razão de problemas de saúde, pela primeira vez padre Mariano não compareceu aos festejos da festa de Senhor do Bonfim de Chorrochó. Talvez estivesse refletindo sobre o caminho percorrido, sua luta e seu passado de feitos e glórias.  

Os esteios da contribuição de padre Mariano para Chorrochó são valiosos.

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A derrama de dinheiro no Tribunal Superior do Trabalho

“A Justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços.” (Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, 1940-2015).

Tribunal Superior do Trabalho (TST). Crédito: Bárbara Cabral/TST

Tão cara quanto desnecessária, a Justiça do Trabalho pagou em dezembro de 2024, R$ 10 milhões a mais a seus 27 ministros do Tribunal Superior do Trabalho, a título de “pagamento de retroativos”.

Cada ministro do TST recebeu, em média, R$ 416 mil, somente em dezembro. Um ministro chegou a receber R$ 706 mil.

Só para lembrar, o salário mínimo é R$ 1.518,00 e a maioria dos brasileiros aposentados, que trabalhou e contribuiu para o INSS durante toda a vida, recebe um salário mínimo ou em volta disto.

“A média desse dinheiro embolsado pelos ministros do TST corresponde a 13 vezes mais que o teto do funcionalismo público, que é o salário de ministro do Supremo Tribunal Federal.” (Diário do Poder, 22/01/2025).

Ou seja, o teto constitucional previsto é uma deslavada hipocrisia.

Os supersalários persistem, os privilégios da elite persistem.

Enquanto pobres, miseráveis e descalços passam fome, a elite do Judiciário se lambuza.

Agora, a piada. Está escrito na sede do TST: “O Tribunal da Justiça Social”.  

Que Justiça Social é esta que permite que um ministro do tribunal receba R$ 716 mil num só mês e um trabalhador aposentado que, por exemplo, trabalhou 35 anos e pagou o INSS, receba somente um salário mínimo?   

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Chorrochó e memória: Padre Conceição.

Padre Ulisses Conceição/Crédito: Boletim Paroquial número 8 – Chorrochó, janeiro de 1987

Em 26/01/2025 completam-se 39 anos da morte do padre Conceição, que faleceu durante os festejos de Senhor do Bonfim.                                            

Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

Neste tempo da festa de Senhor do Bonfim, católicos e povo de Chorrochó em geral também reverenciam a memória do padre Conceição.

Conheci o padre Ulisses Mônico Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José.

A tendência para a observação, própria dos jovens, sustentava a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar isto. 

Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário do lugar, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja. Fomos assim educados, assim estruturamos nossa formação social.

A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral e sólida dedicação à Igreja.

Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó.

Muito presente na vida da comunidade, padre Conceição era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante, atendia a todos que o abordavam.

No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária à sede de absoluto da adolescência.

A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes.

Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”.

Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições que ajudou a sedimentá-las.

Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

Nascido em 09.09.1914, em Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade.

A Paróquia foi criada em 27.01.1985. O jesuíta paulista D. Aloysio José Leal Penna (1933-2012), à época bispo da diocese de Paulo Afonso, instituiu a Paróquia de Senhor do Bonfim de Chorrochó

Mais tarde, D. Aloysio foi arcebispo de Botucatu (SP).

A instituição da Paróquia se deu durante as comemorações do centenário da Igreja de Chorrochó, construída em 1885 por Antonio Conselheiro.

A data está no frontispício do majestoso tempo do sertão da Bahia, construção histórica sustentada na fé e deixada pelo beato Conselheiro. Resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

Padre Conceição vinha de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloquência de seus ensinamentos. Eloquência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia.

As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó.

O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária.

Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens.

Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Sucedeu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.

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