Patamuté: Ademilton Alves, juventude e lembrança.

Ademilton Alves. À esquerda Heloísa Ferrari/Crédito perfil facebook Heloisa

Década de 1960. Idos que se firmaram na memória e nas recordações.  

Surgimento do The Beatles, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Vanderléia, Ronnie Von, movimento Jovem Guarda.

Em Patamuté, vivíamos uma juventude alegre, dentro do possível que o lugar permitia e de acordo com as oportunidades, que eram poucas, escassas, difíceis.

Formávamos uma turma heterogênea, de modo que, tendo em vista as limitações do lugar, os espaços que frequentávamos eram os mesmos, embora as idades diferentes.   

Respeitávamos os mais velhos, porque eram pais de nossos amigos: Egídio Felizardo de Santana (Zinho), José Manoel de Santana (Zé de Né), José de Souza Alcântara (Zé Lulu), Lídio Manoel dos Santos, Waldomiro Mendes (Vivi), Macário Alves, Nicolau Cordeiro, Hildebrando Mendes e outros tantos.

E respeitávamos também – e muito – as mães de nossos amigos: Alice Santana, Julieta Alcântara, Laura Prado (D. Lalu), Judite Menezes, Antonia de Macário (Toinha), Maria Angélica, D.Inês e todas aqueloutras que aqui não são citadas, mas muito diletas e respeitadas por todos nós.

Na juventude, construímos nossas primeiras amizades, muitas delas perduram até hoje e outras não mais, porque a morte as levou, as vicissitudes da vida nos distanciaram ou, ainda, porque não conseguimos nos suportar, em razão das peculiaridades, mudança de vida e defeitos de cada um.

Naquela quadra do tempo, conheci Ademílton Alves. Ambos – eu e ele – trabalhávamos com o comerciante Antonio Ferreira Dantas Paixão que já escrevi sobre ele neste espaço.

Ademílton, muito responsável, já naquele tempo era motorista de confiança de Antonio Paixão. Ao contrário de todos nós, mais afoitos, não bebia e não fumava. Dedicava-se ao trabalho.   

Anos mais tarde, Ademílton foi morar e lutar em Juazeiro. Manteve por lá, durante muito tempo, uma banca comercial nas imediações da antiga Sorveteria Primavera e Cine São Francisco. A Rua da Apolo era seu campo de atuação. Lá ele fez mais amigos, cavou a vida, recebia os amigos de Patamuté, direcionou seu caminho.

Em data recente, pedi a Agamenon Fonseca dos Santos, tio de Ademílton, o contato dele. Fui prontamente atendido, mas não telefonei. Coisa de amigo relapso.

Hoje fiz esta crônica incompleta, falha, insuficiente para dizer a grandeza de Ademílton.  

O fato é que nunca mais o vi. A saudade me permite mandar-lhe um abraço.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó de Pacheco e de Menezes

Imagem antiga do prédio histórico da Prefeitura de Chorrochó/Crédito Google/IBGE

Fenômeno comum na vastidão dos esturricados sertões do Nordeste, o poder político em Chorrochó se concentrou, durante anos, numa mesma família: Pacheco de Menezes.

Isto não significava uma oligarquia, propriamente, nos moldes definidos pela ciência política, mas estreita semelhança com o que acontecia mormente na Primeira República.    

Pelo menos politicamente, Chorrochó começou a se estruturar lá pelos idos de 1919, estribado na participação do comerciante Francisco Pacheco de Menezes que trabalhou no sentido de vê-lo emancipado de Curaçá e foi seu primeiro intendente. Era casado com Luciana Alventina Fonseca de Menezes.

O núcleo familiar de Francisco Pacheco de Menezes se compunha dos seguintes filhos: Josepha Pacheco de Menezes (Neném), Bernardina de Menezes Mattos (Nanzinha), Anna Mattos de Menezes (Quininha), Josepha Alventina de Menezes (Nilinha), Antonio Pacheco de Menezes (Tonho), José Pacheco de Menezes (Deca), Dorotheu Pacheco de Menezes (Derote) e Maria Alventina de Menezes (Iaiá).  

Essa estrutura familiar foi-se aumentando, de modo que Chorrochó se edificou sobre o esteio Pacheco de Menezes. Hoje enfrenta as lacunas dos que já se foram, mas a descendência ainda se faz presente e tem o condão de sustentar a história familiar, consideradas as naturais transformações por que passaram os costumes e a cultura do lugar no decorrer do tempo.

Contudo, é seguro delinear alguns registros:  

Josepha Pacheco de Menezes (Neném) não se casou.

Bernardina de Menezes Mattos (Nanzinha) casou com João Mattos Cardoso. Filho do casal: Francisco Arnóbio de Menezes.

Anna Mattos de Menezes (Quininha) casou com João Mattos Cardoso. Filhos do casal: Ademar Cardoso de Menezes, Vivaldo Cardoso de Menezes, Maria Menezes Mattos Bezerra e Emanuel Cardoso de Menezes.

Josepha Alventina de Menezes (Nilinha) não se casou.

Antonio Pacheco de Menezes (Tonho) casou com Maria Argentina de Menezes. Filhos: Maria de Lourdes Menezes Araujo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Ita de Menezes, Maria Agripina de Menezes, José Ozório de Menezes e Maria Eugênia de Menezes.

José Pacheco de Menezes (Deca) casou com Alventina Soares de Menezes. Filhos do casal: José Alventino de Menezes, Francisco Pacheco de Menezes Neto, Antonio Valter de Menezes, Maria Salésia de Menezes Rodrigues, João Pacheco de Menezes e Elza Maria de Menezes.

Dototheu Pacheco de Menezes casou com Izabel Argentina de Menezes. Filhos: Maria do Socorro Menezes Ribeiro, José Evaldo de Menezes e João Bosco de Menezes.

Maria Alventina de Menezes (Iaiá) casou com Joviniano Cordeiro de Menezes. Filhos: Maria Rita da Luz Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, José Jazon de Menezes, Maria D´Aparecida Mazarelo de Menezes e Francisco Afonso de Menezes.  

A história de Chorrochó atesta que a família Pacheco de Menezes se vinculou a todas as atividades do município: comércio, pecuária, religião, política, educação, cultura e serviços públicos.

Dorotheu Pacheco de Menezes liderou, durante anos, parte da estrutura político-partidária do município e sustentou a tradição familiar de sua ascendência.

Por aí se vê que esse cenário familiar teve fundamental importância para o município que durante décadas foi Chorrochó de Pacheco e de Menezes.  

Post scriptum:

É enriquecedora a leitura do livro História de Chorrochó, lançado em 2015, de autoria da professora Neusa Maria Rios Menezes de Menezes e de Dr. Francisco Afonso de Menezes.

Consta em meus alfarrábios duas filhas de Francisco Pacheco com o nome Josepha (Neném e Nilinha). É possível que minhas anotações estejam erradas pelo que peço escusas. Por outro lado, segundo o livro História de Chorrochó, o nome da esposa era Luciana Cecília Alventina Fonseca.

De qualquer modo, não tenho intenção de mutilar a história de Chorrochó. Sou apenas curioso no que tange aos fatos, o que não me exime de registrá-los corretamente.

Nesta idade, quando me faltam os arroubos da juventude e os equívocos da vaidade, apenas rememoro ocasiões, lembranças, fatos, saudade, fragmentos da história que vivi ou tive notícia.     

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá, Nequinha Pereira e a reconstrução da memória

Nequinha Pereira/Álbum de família

Tem-se notícia de que o embrião da festa dos Vaqueiros de Curaçá aconteceu em 1953, por ocasião das comemorações do centenário do município. Há, portanto, 70 anos.

Fragmentos da história curaçaense registram que como parte dos festejos do centenário, algumas categorias sociais foram homenageadas na sede do município, dentre elas os vaqueiros. Aproximadamente quarenta deles participaram do evento, todos uniformizados segundo a tradição da caatinga e das fazendas

De outro turno, a história registra que em 14/08/1959 foi fundada a Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá, por iniciativa de Gilberto da Silveira Bahia, que foi prefeito no período de 1959-1963.

Gilberto Bahia contou com o apoio de Abílio Gomes da Silva, Aristóteles de Oliveira Loureiro, Sindolfo Curcino Rosa, Deoclecio Paulino da Silva, José Alvino da Costa, Guilherme Bernardes do Nascimento, Albertino Nunes da Silva, Edgard D´Araujo e José Ferreira Só.

A reunião de fundação aconteceu na Sociedade Curaçaense Artística e Beneficente (SCAB), espécie de símbolo da sociedade curaçaense da época.

Entretanto, no decorrer do tempo, precisamente na década de 1960, a então novel Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá contou com a firme colaboração de Manoel Pereira Filho, conhecido como Nequinha Pereira, que teve papel fundamental na construção da sede da instituição.

Como se vê, é razoável afirmar que Nequinha Pereira adquiriu a condição de vaqueiro emérito de Curaçá, pelo menos informalmente, tendo em vista sua valiosa contribuição em defesa dos vaqueiros e de sua cultura. Por óbvio, pioneiro na estrutura da Sociedade dos Vaqueiros.

O início de qualquer instituição não se dá tão somente através de seus alicerces físicos. Sustentam-lhe também as ideias e a vontade que alguns membros ou defensores dessa instituição têm para construir o futuro da sociedade em que vivem.

Nequinha Pereira faleceu em 2007 aos 96 anos. Deixou uma descendência respeitável que se esteia em filhos e, por consequência, dezenas de netos, bisnetos e até tataranetos.

Está enterrado no cemitério do povoado de São Bento. Lá estão suas raízes e o começo de sua história de luta e honradez.

É razoável supor que a reconstrução da memória de um lugar se dá também através da gratidão aos seus filhos e também do reconhecimento à disposição que eles tiveram de contribuir em benefício de seus concidadãos.  

Não é possível fazer quaisquer referências à festa dos Vaqueiros de Curaçá sem que o nome de Manoel Pereira Filho seja resgatado do subterrâneo do esquecimento e passe a ocupar destaque merecido na história e na cultura do lugar.

Vaqueiros em dia de festa/Blog Josélia Maria, 07/07/2015

Observação necessária:

Para construir esta matéria, além da consulta aos meus alfarrábios e com o intuito de aparar as arestas de minhas imperfeições, contei com valiosas informações de Theodomiro Mendes Filho, defensor intransigente da Festa dos Vaqueiros e das tradições de Curaçá e de quem sou admirador; Luciano Lugori, professor, jornalista e escritor curaçaense;  Maycon Roberson Pereira da Silva Belli, filho de Domingas Pereira da Silva e neto de Nequinha Pereira.

Todavia, possíveis erros e eventuais deficiências no texto são de minha inteira responsabilidade.   

araujo-costa@uol.com.br    

Patetismo jornalístico

“Vamos supor que você fosse um idiota. E vamos supor que você fosse membro do Congresso. Mas estou me repetindo.” (Stanislaw Ponte Preta, jornalista e escritor, citado em brilhante artigo de Muniz Sodré, professor emérito da UFRJ, Folha de S.Paulo, 25/06/2023)  

O texto do professor Muniz Sodré trata do recente projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados que “criminaliza a malevolência verbal contra seus próprios membros, parentes e colaboradores” e ao qual já me referi em artigo neste blog em 16/06/2023 sob o título Deputados aprovam: “Sabe com quem está falando? ”   

Entretanto, cuido aqui do jornalismo capenga, insincero, moralmente deturpado.

O jornalista lulopetista radical é tão patético quanto o jornalista bolsonarista radical. Não sabe – ou não quer saber – a diferença entre a profissão que exerce e a ideologia que professa.

O messianismo de Lula da Silva produziu mentecaptos, néscios, fanáticos, parasitas, desorientados.

O extremismo de Bolsonaro também produziu mentecaptos, néscios e fanáticos, mas também desnorteados, tontos, confusos.  

Nesse tempo de falta de juízo por que passa a sociedade, coadjuvada pelo exagero imbecilizado da chamada grande imprensa, jornalistas patéticos saem das catacumbas da idiotice e deformam a isenção e seriedade da informação.

Os exemplos abundam.

Comentaristas, antes considerados sérios, se engasgam em suas próprias palavras tentando justificar erros de políticos encastelados no poder, que eles admiram e, mais do que isto, veneram.

Afiguram-se constrangedores comentários tendenciosos de apresentadores de telejornalismo, comentaristas e até, às vezes, repórteres, tropeçando nas palavras em defesa de assuntos impregnados de ideologia e não de informação propriamente.  

Perguntar-se-á: E daí?

Daí, é fácil explicar. Quem escreve tem o dever de assistir a tudo, ler tudo, ouvir tudo, ficar atento a tudo, embora isto se transforme num exercício hercúleo para evitar enfarto, tamanhas as idiotices intragáveis que partem desses jornalistas que abdicam de suas ideias para ajustar-se à vontade econômica de seus patrões (jornais, televisões, rádios,etc) e ao medo de perder seus empregos e salários.

Apequenam-se, mutilam a profissão, espremem-se entre o dever e a degenerescência moral e o resultado é a perda da credibilidade, que a cada dia se esvai.   

O filólogo e dicionarista Antonio Houaiss, também citado na Folha de S.Paulo em texto de Ruy Castro, em casos como esses, diria: “Peço vênia para discrepar”.

Eu discrepo desse tipo de jornalismo patético, que mira diuturnamente os cofres dos grandes grupos de comunicação e não tem o menor respeito a quem o lê e assiste.

Que diferença faz para o leitor se o jornalista que diz ou comenta a notícia é lulopetista ou bolsonartista?  Se votou na direita, no centro ou na esquerda?

Entretanto, há jornalistas que fazem questão de deixar claro ostensivamente, sem o menor pudor, o viés político e o lado ideológico que defendem. É como se estivessem justificando: votei em você.

Isto desnatura a notícia e a opinião do jornalista.

A frase atualíssima de Stanislaw Ponte Preta também vale para esse jornalismo patético de nossos dias.

Mas nem tudo está perdido. Ainda há bons jornalistas, sérios profissionais na imprensa.

Fernando Gabeira, esquerdista de respeito, em cinquenta anos de jornalismo, não se vergou à pequenez do jornalismo de hoje. É um camaleão que se molda de acordo com o ambiente, mas mantém intacta sua índole de bom e respeitável profissional.   

No exílio, Fernando Gabeira viveu na Argélia, “um país fortemente moralista, onde era necessário seguir as regras”, segundo ele conta no livro O crepúsculo do macho (Editora Codecri, Rio de Janeiro, 1980).

Talvez lá ele tenha aprendido a seguir as regras e não misturar alhos com bugalhos, como fazem esses jornalistas ideológicos de hoje.

 araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e Carlos Bispo Damasceno

Carlos Bispo Damasceno/Perfil facebook

A caminho dos 90 anos, que se completam em novembro – quando o conheci ele tinha 37 – Carlos Bispo Damasceno faz parte das boas pessoas de Chorrochó.

Quando a comarca de Chorrochó foi instalada em outubro de 1967, o pioneirismo dos serviços judiciários contou com Regina Luíza de Menezes, João Pacheco de Menezes, José Eudes de Menezes, Virgílio Ribeiro de Andrade, José Jazon de Menezes, José Claudionor de Menezes, José Claudio de Menezes, Osvaldo Alves de Carvalho, Manoel Dias dos Santos, Fabrício Félix dos Santos e Carlos Bispo Damasceno.

O juiz de direito titular era o Dr. Olinto Lopes Galvão Filho que comandava esses serventuários. Décadas mais tarde, a história o homenageou dando seu nome ao Forum da Comarca.

Carlos Bispo Damasceno tem uma predileção pela comunidade Xique-Xique, já nos domínios de Macururé. É o seu torrão, seu xodó. Lá ele é devoto fervoroso de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e até tem uma capela fundada por iniciativa de Eliseu Bispo Damasceno. Salvo engano, os festejos aproximam-se de seis décadas ou por aí, nessa proximidade. Os anos aqui não importam muito. Importa a intensidade da fé dos devotos.

Eliseu Bispo Damasceno foi vereador em Chorrochó eleito na primeira legislatura e empossado em 07 de abril de 1955 para compor a novel Câmara Municipal.

Discreto, humilde, educado, respeitador, Carlos Bispo Damasceno enriquece a sociedade em que vive e lhe dá contornos de que o mundo ainda tem jeito, pode ser melhor.

Profissional dedicado, exerceu com dignidade, a função de Oficial de Justiça da comarca de Chorrochó. Respeitado por todos e por seus colegas serventuários, Carlos Bispo Damasceno tinha uma maneira peculiar de viver.

Às vezes, arredio, outras vezes extrovertido, mas sempre respeitador e correto. Bom caráter, boa índole, conduta irrepreensível.

Quando chegamos a uma idade que denuncia a fragilidade, expõe o desmoronamento dos equívocos e apara as arestas das arrogâncias, a saudade cutuca, maltrata, espezinha e testa nossas estruturas.

E vamos buscar lá atrás, muito além, as lembranças, as boas lembranças.

Tenho saudade de Carlos Bispo Damasceno. Mando-lhe um abraço.

araujo-costa@uol.com.br   

Lula da Silva e a leveza do Vaticano

Papa Francisco e Lula da Silva/Crédito Ricardo Stuckert, da equipe de Lula

Na década de 1980, quando o Partido dos Trabalhadores (PT) ainda estava nos cueiros e engatinhava, uma animada turma costumava se reunir no convento dos frades dominicanos, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Essa turma compunha-se de alguns frequentadores, à época não tanto famosos: Lula, que ainda era oficialmente somente Luiz Inácio; Djalma Bom, que foi deputado e vice-prefeito de São Bernardo do Campo; Jacó Bittar, amigo de Lula desde sempre, pai do dono formal do famoso sítio de Atibaia; Devanir Ribeiro, que tinha sido diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema na gestão de Lula; o combativo advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh; Paulo de Tarso Vannuchi, mais tarde ministro de Lula e o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, frei Betto.

Frei Betto coordenava o grupo e cuidava da comida, experiência adquirida na Ordem dos Dominicanos.

Propósito das reuniões: fazer autocríticas, ouvir críticas dos companheiros e confessar erros e equívocos dos presentes. Uma espécie de confessionário especial e coletivo, embora restrito à turma.

O grupo recebeu o nome de “Grupo do Mé”, porque era regado a conhaque e outras bebidas estimulantes do ego, que permitiam a descontração e a expiação dos defeitos de cada um dos participantes, a submissão às críticas, a penitência, a reflexão.

Lula da Silva aprendeu muito nesse grupo. Mais pela autocrítica – que hoje não gosta de fazer – e menos em razão do “mé”, que ele já conhecia de cátedra. As circunstâncias difíceis da ditadura militar exigiam as amizades como bálsamo para o enfrentamento das dificuldades.

Os tempos mais difíceis são aqueles de atrocidades e incompreensão.

Esta lembrança vem a propósito de mais uma visita que Lula da Silva faz ao Papa Francisco, no Vaticano, neste mês de junho.

Surgiram algumas críticas destrambelhadas sobre a visita, como se Lula da Silva fosse uma figura de somenos. Não é.

A direita, assim como a esquerda, exagera sempre. Aliás, esquerda e direita no Brasil perderam o juízo e com ele a sensatez.

Lula da Silva é líder, independentemente dos erros que eventualmente tenha cometido ao longo do caminho político que vem trilhando. E quanto a erros parece não haver dúvida que cometeu.

A visita de Lula da Silva ao Papa, também tem o condão de reflexão e pedido de compreensão e de solidariedade ao chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. A leveza do Vaticano deve lhe fazer bem. Faz bem a todo mundo.

Não há o que criticar sobre essa visita de Lula ao Papa, que é também chefe de Estado do Vaticano e tem o dever funcional de relacionar-se com líderes mundiais sejam eles políticos ou não.

As misérias e fraquezas de Lula da Silva não devem ser obstáculos à civilidade.

No mais, a Igreja Católica é mãe e mestra, mater et magistra, como dizem os latinistas.

Nessa visita ao Vaticano, Lula deve ter-se lembrado das reuniões do “Grupo do Mé”, que lhe fez refletir muito sobre a vida.

Certamente voltará mais leve do Vaticano.

araujo-costa@uol.com.

Curaçá e a liderança de Adelson Félix

Adelson Félix/Perfil facebook

Em data recente, o ex-vereador e líder político Adelson Félix concedeu entrevista ao site Curaçá Oficial.

A entrevista foi competentemente conduzida pela jornalista Alinne Suanne Torres e trouxe panorama um tanto esclarecedor quanto ao pensamento do entrevistado e, sobretudo, da situação do distrito de Poço de Fora no que tange à atenção da Prefeitura Municipal.

Embora apoucado, em razão de minhas limitações, atrevo-me a ponderar que tenho dificuldade de entender porque Poço de Fora está à margem das atenções do município, tratando-se de um distrito razoavelmente habitado e que, assim como os demais, contribui para a higidez das finanças de Curaçá.

Experiente, desenvolto, seguro e bem articulado, o que certamente não é nenhuma novidade para a população de Curaçá, Adelson Félix conhece muito bem os meandros do Poder Legislativo e o caminho para melhorar aqueles pontos mais críticos que atravancam o bem-estar da população.

As redes sociais são pródigas em apontar carências que penalizam o distrito, o que foi corroborado na entrevista do líder Adelson Félix que, sendo de lá, pressupõem-se verdadeiras e como tais passam longe de simples “intriga da oposição”.

Entretanto, esta é outra história e não devo me ocupar dela, porquanto assunto para quem entende e não sou enxerido a tal ponto. São páginas escuras e subjacentes da política que precisam ser aclaradas para não arranharem o andamento da administração municipal.

Mas quedo-me a uma ligeira referência à ascendência de Adelson Félix. Por exemplo, guardo boas lembranças de José Soares Félix (Josa), quando ele tinha estreita relação com a sede do município, em razão de sua faina de político atento e dedicado.

O tempo definiu meu caminhar, de modo que me distanciei de Curaçá e nunca mais tive dele notícia, mas continuei a admirá-lo em razão das qualidades que sempre ostentou. Deixou exemplo, deixou desenho moral de que política também se faz com objetivos sustentados na honradez.

A família Félix, de Poço de Fora, é íntegra no caráter e no procedimento e isto vem de décadas, dos troncos, das raízes.

A história curaçaense registra nomes respeitáveis da família Félix e dentre esses incluo o professor e poeta Herval Francisco Félix com quem tive a honra de conviver durante algum tempo. Foi meu dileto professor e colega de trabalho na Prefeitura de Curaçá.

Contudo, a referência aqui cinge-se sobremaneira ao líder político Adelson Félix, de Poço de Fora. Sua entrevista ao Curaçá Oficial demonstrou desenvoltura, grandeza, interesse e preocupação com vistas a assegurar benefícios à população curaçaense.

Post scriptum:

A memória me trouxe a lembrança de Jaciaurea Félix que, na condição de educadora, prestou relevantes serviços ao município de Curaçá. Conheci-a num tempo em que a educação era levada a sério e ela cuidava desse mister com esmero e dedicação.    

araujo-costa@uol.com.br

Deputados aprovam: “Sabe com quem está falando?”

Deputado Claudio Cajado (PP-BA), Agência Câmara de Notícias

O deputado federal Claudio Cajado (PP-BA), que “estava indo tão bem”, como diria Sandoval Quaresma, aluno do professor Raimundo, caiu na esparrela de relatar e defender a aprovação do vergonhoso projeto de lei que cria privilégios de políticos, parentes de políticos e apadrinhados de políticos, além de outros afortunados, os chamados “politicamente expostos”.

É constrangedor ver o deputado baiano tentando justificar, sem conseguir, em entrevista à imprensa, a tramoia que ele e seus pares, em conluio, aprovaram às pressas, em regime de urgência, à noite, sem prévia discussão nas comissões da Câmara dos Deputados e sem conhecimento da sociedade.

É a institucionalização escancarada, através de lei, do “sabe com quem está falando?”.

O deputado Claudio Cajado e seus colegas de parlamento criaram uma nova variante da elite: os intocáveis. São os diferenciados que não se misturam com a plebe, nós outros, pobres mortais.

São 10 mil beneficiados que se formarão numa casta vergonhosa.

Noutras palavras: os senhores intocáveis deputados restituíram a escravidão. Estamos de cócoras diante de todos eles e das autoridades que eles entendem como intocáveis.

Que vergonha, deputado Claudio Cajado! O senhor construiu um substitutivo para apequenar os brasileiros. O senhor envergonha a Bahia de Rui Barbosa, de Otávio Mangabeira, de Waldir Pires e de todos quanto têm decência política e moral.

Sabemos todos. Os excessos, as agressões e o desrespeito aos limites de civilidade devem ser punidos, sempre foram punidos. Há leis civis que sustentam a reparação de danos morais e leis penais que amparam a discussão no campo criminal. Já existe estrutura legal para proteção dos políticos contra eventuais ofensas, de modo que a lei que o deputado Carlos Cajado lutou pela aprovação destoa da lógica e envereda em direção a novos privilégios.

Em resumo e grosso modo:

Ninguém poderá mais criticar qualquer político (deputado, senador, vereador, prefeito, etc), mesmo sendo seu eleitor e ostentando o direito de cobrar o desempenho do eleito.

Nenhuma instituição bancária poderá negar crédito ou abertura de conta a políticos, seus parentes e assessores. “São considerados familiares os parentes, na linha direta, até o segundo grau, o cônjuge, o companheiro, a companheira, o enteado e a enteada” (Agência Câmara de Notícias, 14/06/2023).

 “A pena será de reclusão de 2 a 4 anos e multa para quem negar a abertura de conta ou sua manutenção ou mesmo a concessão de crédito ou outro serviço. Essa negativa abrange até mesmo pessoa jurídica controlada por pessoa politicamente exposta” (Agência Câmara de Notícias, 14/06/2023).

Ninguém poderá mais abordar o parlamentar em aeroportos, rodoviárias e outros lugares públicos, exceto para elogiá-lo e lhe lamber as botas.

São consideradas pessoas politicamente expostas, dentre outras, segundo a Agência Câmara de Notícias:

Detentores de mandatos eletivos dos poderes Executivo e Legislativo da União;

Ministro de Estado ou equiparado;

Ocupante de Cargo de Natureza Especial ou equivalente no Poder Executivo da União;

Presidente, vice-presidente e diretor, ou equivalentes, de entidades da administração pública indireta no Poder Executivo da União;

Ocupante de cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) de nível 6 ou equivalente no Poder Executivo da União;

Membros do Supremo Tribunal Federal, do Conselho Nacional de Justiça, dos tribunais superiores, dos tribunais regionais federais, dos tribunais regionais do Trabalho, dos tribunais regionais eleitorais, do Conselho Superior da Justiça do Trabalho e do Conselho da Justiça Federal;

Membros do Conselho Nacional do Ministério Público, procurador-geral da República, vice-procurador-geral da República, procurador-geral do Trabalho, procurador-geral da Justiça Militar, subprocuradores-gerais da República e procuradores-gerais de Justiça dos estados e do Distrito Federal;

Membros do Tribunal de Contas da União, procurador-geral e subprocuradores-gerais do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União;

Presidentes e tesoureiros nacionais, ou equivalentes, de partidos políticos;

Governadores, vice-governadores, secretários de estado e do Distrito Federal, deputados estaduais e distritais, presidentes, ou equivalentes, de entidades da administração pública indireta estadual e distrital e presidentes de tribunais militares, de Justiça, de Contas ou equivalentes de estado e do Distrito Federal;

Prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, secretários municipais, presidentes ou equivalentes de entidades da administração pública indireta municipal e presidentes de tribunais de contas de municípios ou equivalentes.

“Além das pessoas politicamente expostas, em geral políticos eleitos e detentores de altos cargos nos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal), o projeto abrange as pessoas que estejam respondendo a investigação preliminar, termo circunstanciado, inquérito ou a qualquer outro procedimento investigatório de infração penal, civil ou administrativa, ou pessoas que figuram como rés em processo judicial em curso (sem trânsito em julgado)”, segundo a Agência Câmara de Notícias.

São ainda considerados politicamente expostos, segundo a lei e a Agência Câmara de Notícias:

Chefes de Estado ou de governo;

Políticos de escalões superiores;

Ocupantes de cargos governamentais de escalões superiores;

Oficiais generais;

Membros de escalões superiores do Poder Judiciário;

Executivos de escalões superiores de empresas públicas; e

Dirigentes de partidos políticos.

O projeto de lei, aprovado pelos deputados, vai ao Senado Federal para votação.

Aguardemos.

araujo-costa@uol.com.br

A História de Curaçá vista por um neto de Zé Borges

Zé Borges e lideranças de Patamuté/crédito Yuri Félix Araújo

O jornalista Yuri Félix Araújo, filho de Maria Perpétua Félix e neto de José Félix Filho (1917-1971) lançou a biografia do avô e político curaçaense. Grande e louvável iniciativa.

Mui acertadamente o Acervo Curaçaense destacou o fato e com exemplar presteza o incorporou aos seus registros históricos, tornando-os mais ricos e robustos. Esse pessoal do Acervo Curaçaense vai longe.

A foto histórica acima é a mesma referenciada na biografia Zé Borges – o vaqueiro prefeito de Curaçá. Antes, a foto havia sido publicada por Yuri Félix Araújo em rede social. É razoável presumir que foi tirada em Patamuté, porque aparecem alguns líderes de lá.

O jornalista Yuri Félix Araújo registra que os nomes estão anotados no verso da foto: Lídio, Lelé, João Lulu, Waldemar Torres, Macário Alves, Zé Borges, Dona Caçula Mesquita, Manú Brandão e Adonai.

Manoel Brandão Leite (Manú) era o pai do ex-prefeito de Curaçá, Carlos Luiz Brandão Leite (Carlinhos Brandão). É o penúltimo da esquerda para a direita, entre Zé Borges e Adonai Matos Torres.

Sempre tive uma dúvida, agora esclarecida pela biografia. Por que, sendo José Félix Filho, ele era conhecido como Zé Borges? Pois bem. Borges vem da mãe Maria Borges Silva, da mesma família de Herculano Borges, cujo episódio envolvendo o cangaceiro Corisco é conhecido. O jornalista Yuri explica bem isto na biografia com reluzente conhecimento.    

Como sou daquela época, puxei lembranças da memória. Desbastei o saudosismo e concluí que não tenho dificuldade de constatar que a biografia traz grande contribuição à História de Curaçá.

Patamuté deve muito a Zé Borges, inclusive o seu Mercado Municipal, hoje devastado pelo descaso de nossas autoridades municipais.

Eu estava lá. Ninguém me contou.

araujo-costa@uol.com.br

Suas Excelências, os meritíssimos delinquentes

“Expulsos da magistratura pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e punidos, alguns desde 2009, com aposentadoria compulsória, 58 juízes receberam vencimentos totais de R$ 137,4 milhões, em valores corrigidos pela inflação. Eles foram investigados pelo CNJ por denúncias de irregularidades graves, como venda de sentenças para bicheiros e narcotraficantes, desvio de recursos públicos e estelionato.

Com o que foi pago a esses magistrados seria possível pagar, no mesmo período, 1.562 aposentados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social. O valor médio do benefício pago pelo INSS é R$ 1.415,00, segundo o Ministério da Economia, enquanto a média mensal paga aos juízes punidos foi de R$ 38 mil. Em regra, um excluído da magistratura recebeu tanto quanto 27 aposentados do INSS” (Revista Piauí, 05/07/2019).

Como se vê, os dados são de 2019. De lá para cá, as notícias apontam dezenas de magistrados corruptos, em diversos estados, “punidos” com a aposentadoria compulsória. Ou seja, eles cometem crimes e são recompensados por isto.

Daí, conclui-se que o magistrado que não tem vocação para ser juiz, mas para delinquir, entra no serviço público, passa a cometer crimes e cava sua aposentadoria com polpudos salários pagos com os impostos suportados pela mesma sociedade que ele prejudicou.

Noutras palavras: a vítima (sociedade) paga ao réu (juiz) por lhe ter surrupiado e transgredido a lei que tem a obrigação de cumprir e fazer cumprir.

Em miúdos: se o criminoso é uma pessoa comum do povo é processado, condenado e, quase sempre, trancafiado na cadeia. Se juiz, é recompensado com uma polpuda aposentadoria e vai curtir a vida nababescamente à custa do dinheiro público.

Trata-se do corporativismo da magistratura legalmente aparelhado para beneficiar juízes delinquentes. É imoral, absolutamente imoral. Vergonhoso, absolutamente vergonhoso. Um escárnio.

A “punição” exemplar para esses magistrados delinquentes está prevista em lei, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional. Logo, a lei está errada, mas nem o Poder Judiciário e tampouco o Congresso Nacional se dispõe a revogá-la ou alterá-la. Por motivos óbvios: beneficia parte da elite do Judiciário.

Em data recente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aplicou a “punição mais dura” a um magistrado de São Paulo que tem idade abaixo de 50 anos, aposentando-o compulsoriamente. Base para cálculo da aposentadoria de Sua Excelência, o delinquente: R$ 32 mil.

Se a grande imprensa – subserviente nalguns casos e vendável noutros – invés de ocupar o tempo falando de direita e de esquerda fizesse uma campanha nacional para alterar a Lei da Magistratura, talvez produzisse alguma utilidade em favor da sociedade.

Mesmo tendo cometido crimes, esses magistrados não perdem o pomposo título de juiz, porque se aposentam na condição de juiz. E qualquer brasileiro desavisado ainda está sujeito a levar uma carraspana de qualquer um deles se não lhe chamar de Excelência ou Meritíssimo.

Pobre que comete crime é delinquente. Juiz afastado das funções porque cometeu crime é Excelência.

A elite do Brasil está moralmente falida.  

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