O exemplo de Canudos

Ou quando um magistrado vingativo pode contribuir para dizimar vidas e arruinar uma sociedade.  

Estátua de Antônio Conselheiro e Museu Histórico de Canudos em Canudos Velho Local: Canudos – BA Data: 10/2021 Codigo: 07ADR679 Autor: Adriano Kirihara

A história atribui o estopim da guerra de Canudos ao juiz Arlindo Leôni, que havia servido em Bom Conselho e respondia pela comarca de Juazeiro na região do São Francisco.

Vingativo, antes ele havia saído às pressas de Bom Conselho, outro município da Bahia, em razão de atuação dos adeptos de Antonio Conselheiro.

Já na outra comarca, prestou-se a distribuir boatos no sentido de que o beato invadiria Juazeiro.

História longa, sustentada em fatos, registra que Antonio Conselheiro pretendia retirar razoável quantidade de madeira em Juazeiro, adquirida para a construção da Igreja de Canudos, mediante acordo firmado com o juiz e que, propositadamente, não lhe havia sido entregue.

O juiz aproveitou a oportunidade para vingar-se do Conselheiro. Ainda hoje abundam juízes assim, vingativos, despreparados para o exercício da nobre função judicante.

A imprensa noticia ad nauseam.

Pululam magistrados vaidosos, vingativos, divorciados da função precípua de juiz e absortos pela fama e poder, regados a dinheiro público que sustenta suas vaidades e caprichos.  

A dignidade de um juiz – seja ele de primeira instância ou ministro do Supremo Tribunal Federal – não reside nos livros que leu, nas universidades que frequentou, nos títulos que ostenta e, tampouco, na nota que obteve no concurso para a magistratura, quando a ele se submete.

A dignidade de um magistrado está em sua índole, em sua honra e, sobretudo, no respeito à função que exerce e no dever precípuo de servir à sociedade que paga os seus salários e espera dele o correto dizer do Direito e da Justiça.

A guerra, que começou em Uauá em 21/11/1896, dizimou pelo menos 25 mil pessoas.

Ainda assim, “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo” (Euclides da Cunha, Os Sertões).

Em Uauá, deu-se uma demonstração de estratégia dos conselheiristas.

O tenente Pires Ferreira, comandante da Primeira Expedição, chegou a Uauá dia 19/11/1896 e fez valer seu serviço de segurança, “postando guardas avançadas nas quatro estradas, a fim de evitar qualquer surpresa”, segundo seu relato de 10/12/1896.

Segundo o militar, “o dia vinte passou-se sem nenhum incidente notável, a não ser o abandono do arraial à noite, e furtivamente, por quase todos os habitantes”.

Os conselheiristas voltaram às cinco da manhã do dia 21 e, de surpresa, atacaram as tropas do tenente Pires Ferreira.

A partir daquele episódio, a guerra começou de fato. Outras expedições sangrentas e truculentas foram mandadas para Canudos.

Sucederam-se mortes, barbaridades, crueldades, crimes de toda ordem e uma mancha que a República carrega desde seu nascedouro.

Como se vê, a maldade de um juiz despreparado, vaidoso e vingativo pode mudar o curso da história de um povo.

araujo-costa@uol.com.br  

Brasil, aborto e escombros da primavera

Nesta primavera de 2023, Rosa Weber, ministra do Supremo Tribunal Federal, que está se aposentando – já vai tarde – deixou uma marca em sua paupérrima biografia: votou a favor do aborto e, por consequência, contra a vida e a favor da morte.

Rosa Weber é uma obscura magistrada trabalhista do Rio Grande do Sul que o lulopetismo a elevou à condição de ministra do Supremo Tribunal Federal.

Dona Dilma Rousseff (PT) no exercício de sua legítima função de presidente da República, a indicou ministra do STF. Vai daí que Rosa Weber ficou lá, ganhando estratosféricos salários e mordomias do cargo e nada ou pouco contribuiu para o Brasil.

Agora no adeus como ministra, que já vai tarde, em seu voto de 129 tristes páginas, Sua Excelência a ministra Rosa Weber votou contra a vida e, portanto, a favor da morte, permitindo o aborto em até 12 semanas de gestação.

O leitor sabe a extensão disto. Em três meses de gestação, de acordo com imagens de ultrassonografia e outros recursos da Medicina, vê-se a criança formada, coração batendo, fisicamente em formação.

Logo, tem vida. Interromper a vida é crime, previsto no Código Penal, porque a vida se torna vida desde a concepção.

Mas a ministra Rosa Weber entendeu que o Código Penal de 1940, que criminalizou o aborto, não foi recepcionado pela Constituição de 1988. Ou seja, ela entende que a lei está acima da vida. Dane-se a vida, vale a lei, segundo a obscura ministra.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal já havia decidido sobre as condições que permitem o aborto e dentre elas não se inclui o delírio da confusa ministra Rosa Weber.  

Diz o voto de Sua Excelência, que a discussão sobre o aborto suscita “convicções de ordem moral, ética, religiosa e jurídica”. 

É verdade. Nisto, ela tem razão.

Entretanto, pelo que se vê, Sua Excelência não leu nenhum livro de Filosofia e tampouco de Teologia Moral, que cuida da vida. Ou faltou às aulas de Direito quando estudante.

Onde está a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), conhecido abrigo de religiosos lulopetistas, que não se manifesta sobre o voto da ministra?

À exceção do bispo de Santo André (ABC Paulista), pouco se sabe sobre a posição da entidade.

A esquerda diurética está em delírio com o voto da ministra Rosa Weber, inclusive o Grupo Globo, que Lula da Silva abarrotou os cofres de publicidade governamental.   

Pior – e lamentavelmente – depois disto: a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) será exercida nos próximos 02 (dois) anos pelo ministro Luís Roberto Barroso, conhecido militante político que, em discurso em evento da União Nacional dos Estudante (UNE) escancarou sua condição de militante: “derrotamos o bolsonarismo”, disse ele.

Trata-se daquele mesmo ministro conhecido como “perdeu mané, não amola”. E mais do que isto: “eleição não se ganha, se toma”, que ele nega ter dito.

Triste Brasil. Tristes escombros da primavera de 2023.

Post scriptum:

Este escrevinhador não é bolsonarista, nem lulopetista. É independente.

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Chorrochó tropeça entre homenagem e tradição

Em Chorrochó, a expectativa de uma possível homenagem à memória do líder político Dorotheu Pacheco de Menezes parece convergir para um estuário de incompreensões.

A cultura e a educação de um povo não dependem necessariamente da vontade ou da forma que cada um, em particular, interpreta a realidade estribado somente no seu ponto de vista.

Educação e cultura se impõem por si sós, de modo que a tradição se encarrega de perenizá-las.

Em 12/09/2023, o deputado Marcelinho Veiga (União Brasil) apresentou projeto de lei na Assembleia Legislativa da Bahia de interesse do município de Chorrochó.

O projeto cuida de denominar Colégio de Tempo Integral Prefeito Dorotheu Pacheco de Menezes a uma nova escola ora em construção em Chorrochó.  Como o novo prédio, a princípio, vai abrigar o Colégio Estadual São José, na prática dar-se-á a mudança de nome do São José, embora o projeto não fale em mudança de nome.

Seguem-se o projeto e a justificativa já de conhecimento da sociedade chorrochoense:

E daí?

Daí é que o Colégio Estadual São José estrilou, disse que não foi consultado, manifestou-se contra a iniciativa e reivindicou, para si, a prerrogativa de eventual iniciativa neste sentido.

Diz a comunidade escolar do Colégio Estadual São José: “Projetos dessa natureza devem partir da comunidade escolar através do colegiado escolar e não de terceiros que não mantêm nenhuma relação com o Colégio”.

Do alto de minha ignorância e insignificância não consigo vislumbrar que a iniciativa da homenagem tenha de passar, necessariamente, por quaisquer relações com a instituição.

Procurei saber quais os nomes que integram o colegiado. Constatei que são profissionais respeitáveis, admiráveis e de alto gabarito, elevado preparo intelectual e conhecida história de dedicação ao Colégio Estadual São José, circunstância que os habilita a opinar, discordar, sugerir, vetar.

O fato é que outras pessoas vêm se manifestando sobre o assunto, mas a discussão parece tropeçar entre a tradição (manter o nome do São José) e a homenagem a Dorotheu.

A insigne professora e historiadora chorrochoense Neusa Maria Rios Menezes de Menezes disse que “já esperava por toda essa polêmica”, circunstanciou mui competentemente as bases do Colégio Estadual São José e até se reportou à portaria de estadualização do Colégio assinada pelo então secretário estadual de Educação Eraldo Tinoco.

Prestimosa a interferência, mais que louvável, das ex-alunas da instituição, Margarida Maria Rios Menezes e Lúcia Maria Rios Menezes, que foram fundamentais para evitar que a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), mantenedora do São José, o extinguisse.

A professora Neusa diz, sabiamente: “o nome em uma parede nunca significou nada para mim”. E dá vivas ao Colégio Estadual São José. Eu também dou vivas ao São José.

Não tenho cacife para meter o bedelho nessa conversa de gente grande.

Sou cria do Colégio São José – e me orgulho disto – admirador de seu corpo docente e desejoso de que a instituição continue educando, estruturando mentalidades e desenferrujando as mentes de nossos jovens, preparando-os em direção ao caminho do bem e da nobreza pessoal e profissional.

De outro turno, sou defensor intransigente das tradições e cultura de Chorrochó e, neste particular, até tenho sido severo algumas vezes ao criticar o descaso das autoridades no que concerne aos alicerces culturais do lugar.

Há algum tempo fiz um movimento no sentido de mudar o nome da Rua Coronel João Sá, na sede, para Rua Dorotheu Pacheco de Menezes. Estávamos na gestão da prefeita Rita de Cássia Campos Souza.

Até hoje não entendo, a história não registra e ninguém me explicou qual a importância do coronel João Sá, lá das bandas de Jeremoabo, para Chorrochó.

Até pessoas da família Pacheco e Menezes foram contra e quem não foi contra ficou em silêncio, o que dá no mesmo.

Não tive êxito. Fiquei falando sozinho para deixar de ser besta.

O fato é que o imponente nome do coronel João Sá está lá, impecável, rivalizando com a humildade de Dorotheu Pacheco de Menezes.

Todavia, parece razoável entender que, no presente caso, em se tratando de homenagem ao fundador do Colégio São José, todos podem contribuir para desanuviar interpretações enviesadas, não misturar alhos com bugalhos e tampouco inserir política partidária nessa discussão, o que apequena o debate.

José Nilson Rodrigues, conhecida liderança polícia de Chorrochó participou do engendramento dessa ideia. Quero crer que sua intenção foi contribuir para engrandecer a história de Chorrochó, sustentar a memória do município.  

Entretanto, se Chorrochó continuar nessa toada e nesse nível de descaso com a memória, as próximas gerações sequer ouvirão falar no nome de Dorotheu Pacheco de Menezes e de tantos outros que lutaram para a existência do município.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia, Curaçá e o governador

Teatro Raul Coelho, um dos símbolos da cultura de Curaçá

O governador da Bahia Jerônimo Rodrigues (PT) vem alternando momentos de insensatez e sabedoria política.

A insensatez

No que tange à violência que toma conta da Bahia, o governador tem insistido no sentido de que o ex-presidente Bolsonaro é o responsável pelo caos, mormente em Salvador, onde o crime organizado parece querer se instalar definitivamente ou já se instalou.   

Em agosto de 2022, ainda em campanha eleitoral, Jerônimo Rodrigues “citou o discurso do presidente da República, Jair Bolsonaro, a favor do livre armamento por parte da população como principal motivo para os índices de violência na Bahia estarem tão altos” (TV Band Bahia/Rádio Band News, 07/08/2022).

Recentemente, em entrevista ao Jornal da Manhã (TV Bahia) por ocasião da morte de um policial federal e alguns meliantes em Valéria, subúrbio de Salvador, o governador responsabilizou Bolsonaro pela situação que, segundo ele, decorre da política armamentista do ex-presidente.

Ora, o governador da Bahia deve saber – e se não souber é uma questão grave – que os traficantes não compram fuzis e outras armas modernas em lojas, tampouco providenciam porte de armas e legalização de posse junto a autoridades de acordo com as exigências de quaisquer políticas de armamento.

As sofisticadas armas do crime organizado entram no Brasil através de voos internacionais, portos fluviais e marítimos, pequenas aeronaves e também através das chamadas fronteiras secas.

É de supor que o governador baiano saiba disto.

Se as autoridades alfandegárias, de fiscalização e de fronteiras não inibem esse tipo de ilegalidade, presume-se que é por negligência, ineficiência, falta de estrutura ou incompetência de seus agentes.

Em consequência, isto não tem nada a ver com política de livre armamento da população, mesmo que discordemos dela e mesmo que discordemos frontal e politicamente das asneiras, delírios, conduta e posição ideológica do ex-presidente Bolsonaro.

Os fuzis que os traficantes empunham nas periferias dos grandes centros urbanos certamente não foram adquiridos legalmente em lojas do ramo comercial específico e de acordo com as normas da política de desarmamento.

Talvez fosse o caso de o governador da Bahia penitenciar-se diante da humildade e reconhecer que os mais de 16 anos de governos petistas de Jaques Wagner, Rui Costa e dele próprio não conseguiram reduzir ou não tentaram reduzir a violência no estado o que, aliás, governadores de outros estados também não conseguiram.

Como se sabe, cuidar da segurança pública é atribuição dos governos estaduais. Cavar outras circunstâncias para justificar falhas do estado no combate ao crime é, no mínimo, laborar em equívoco.

O governador está apequenando sua atuação, ofuscando sua emergente biografia, enveredando pelo lado da mesquinhez ideológica e pavimentando o caminho em direção à mesmice política.

A sabedoria política

Em Curaçá, município do Submédio São Francisco, o governador Jerônimo Rodrigues inaugurou em 16/09/2023 a escola de tempo integral Maria de Almeida Araújo e a Delegacia de Polícia.

A homenagem à educadora Maria de Almeida Araújo, honra e glória de Curaçá, é irretocável, merecida, oportuna e, sobretudo, enriquecedora da educação e cultura locais.

Houve de tudo na festa de inauguração, inclusive um show de deselegância contra o prefeito Pedro Oliveira, eleito pelo PSC, salvo engano, anfitrião que recebeu civilizadamente o governador e seu séquito e que, até por uma questão de educação, deveria ter sido preservado de alguns destemperos verbais, o que somente diminui a lhaneza de quem os disse.

Tirante os correligionários mais exaltados de ambos os lados, ninguém gosta de palavras ríspidas e desvios dos caminhos naturais da civilidade e da convivência sadia.  

O evento mais pareceu comício político fora de época e de contexto. Deslustrou a ocasião. Os súditos do govenador fizeram a festa e esqueceram que Curaçá é de todos, independentemente da cor partidária.

Entretanto, neste particular, o governador Jerônimo Rodrigues portou-se com decência e sabedoria política exemplar. Não espinafrou o adversário e prefeito Pedro Oliveira até porque o momento não comportava desavenças.

Por óbvio, não se trata de campanha eleitoral, mas de entrega de obras de fundamental importância para o município. E só. O governo do estado não está fazendo nenhum favor aos curaçaenses.   

A atitude, desta vez sensata do governador, merece ser reconhecida.   

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e uma página do tempo: José Jazon de Menezes

“A gente pode ter orgulho de ser humilde” (D.Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, 1909-1999)

Não se trata aqui de retórica sentimental do passado. Contudo, as pessoas boas e os bons caráteres merecem ser lembrados, reverenciados, encimados no trono de nossa admiração, enquanto estamos por aqui à espera da finitude da vida.

José Jazon de Menezes/Crédito: Dr. James Jeorge Cordeiro de Menezes

Espirituoso e respeitador, às vezes irônico, outras circunspecto, Jazon era, ao mesmo tempo, amigo e protetor.

Vi-o, muitas vezes, sair em defesa de pessoas humildes de Chorrochó, defendendo-as, enaltecendo-as, amparando-as, como se todos, para ele, fossem imaculados. E eram.

Para Jazon, não interessava ser rico ou pobre, ser humilde ou célebre. Todos mereciam sua atenção, porque todos são iguais e ele se entendia igual a todos.

José Jazon de Menezes faz parte da história de Chorrochó. Um dos pioneiros dos serviços judiciários da comarca a partir da instalação em outubro de 1967, foi nomeado o primeiro escrivão dos feitos cíveis, cargo que exerceu com dignidade e brilhantismo. Serventuário exemplar da Justiça estadual, respondeu também pelo cartório eleitoral.

Respeitado por todos de sua geração, Jazon era cordial e, acima de tudo, muito atencioso com todos. Constituiu família nobre, em Chorrochó. Casado com a Dra. Maria Ita de Menezes, também de estirpe tradicional, professora do então Colégio Cenecista São José, com quem teve os filhos Jorge Jazon Cordeiro de Menezes, Jaílson José Pacheco de Menezes, Ita Luciana Menezes de Menezes e James Jeorge Cordeiro de Menezes.

Como se vê, família de boa cepa, bem educada e bem estruturada em sólidos sustentáculos moralmente indestrutíveis.

Jazon era filho de D. Maria Alventina de Menezes (Iaiá) e de Joviniano Cordeiro de Menezes. O casal teve, além de Jazon, Maria Rita da Luz Menezes, Antonio Cordeiro de Menezes, Maria D´Aparecida Mazarelo de Menezes e Francisco Afonso e Menezes.

Jazon foi, sem dúvida, um dos esteios da família Menezes de Chorrochó. 

Este escrevinhador abestado chegou à sede do município de Chorrochó em janeiro de 1971.

Tabaréu do sertão de Patamuté, município de Curaçá, acanhado e inocente, comecei a fazer parte da vida urbana de Chorrochó, que não conhecia. Lembro a chegada, em dia ensolarado, construções brancas que eu não conhecia.  

José Jazon de Menezes fez parte desta história. Todos de Chorrochó, à época, fizeram parte daquela quadra do tempo. Boa quadra do tempo, inesquecível quadra do tempo.

Jazon deixou saudade, deixou inominável vazio, deixou a certeza de que ainda existem pessoas boas, não obstante a aridez deste mundo.

Guardo essas impressões de Jazon que se me firmaram e a memória reteve. Já se vão, por aí, mais de cinco décadas.

Conheci-o em 1971.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, 69 anos

Aos trancos e barrancos o município de Chorrochó alcança 69 anos de emancipação política neste 12 de setembro.

Entretanto, em todo caminhar há tropeços. Bem por isto, a história de Chorrochó registra poucos avanços. Sucessivas gestões titubeantes ofuscaram as prioridades do município.

O aniversário do município comporta outro registro, desta vez relativamente ao Legislativo.

A Câmara Municipal de Chorrochó tem um histórico de apatia e ociosidade quanto à construção do futuro do município, não obstante a atuação de alguns presidentes que dirigiram a Edilidade, a exemplo de Pascoal Almeida Lima Tercius (Tércio de Fafá), senhor dinâmico, abalizado e inteligente, embora a Câmara de Vereadores, por óbvio, não se resuma ao presidente, mas à Edilidade como um todo.

Tirantes alguns interregnos louváveis, a Câmara de Chorrochó mais se destacou como simples anuente de decisões e de atos do Poder Executivo Municipal e isto dificultou, em anos, o desenvolvimento do município. Faltou inquietude, vigilância, dinamismo e olhar atento às necessidades da população.

Historicamente, a Câmara tem sido generosa em dizer amém ao Poder Executivo Municipal e não avançou em direção aos interesses mais prementes da sociedade.

Todavia – e apesar de tudo isto – continuo esperançoso quando ao futuro de Chorrochó.

Esperança é como água no leite. Sempre há.

Bandeira de Chorrochó

De qualquer modo, como já escrevi muito sobre o município de Chorrochó, hoje quedo-me mais aos seus encantos, até para contribuir com aqueles leitores que acham meus textos jurássicos e outros tantos que os entendem inconvenientes e abelhudos.

O escritor e jornalista francês Georges Bernanos (1888-1948) escreveu que “a única diferença entre um otimista e um pessimista é que o primeiro é um imbecil feliz e o segundo é um imbecil triste”.

Insisto em ser otimista, neste particular: que nos próximos aniversários, os munícipes chorrochoenses tenham o que comemorar.

A data é propícia para citar nomes daqueles que, dentre muitos, contribuíram ou contribuem para que Chorrochó ainda permaneça em pé, embora cambaleando:

Francisco Pacheco de Menezes, Eloy Pacheco de Menezes, Aureliano da Costa Andrade, Dorotheu Pacheco de Menezes, José Calazans Bezerra (Josiel), Antonio Pires de Menezes (Dodô), Pascoal de Almeida Lima, Sebastião Pereira da Silva (Baião), José Juvenal de Araújo, João Bosco Francisco do Nascimento, Paulo de Tarço Barbosa da Silva (Paulo de Baião), Rita de Cássia Campos Souza e, por último, Humberto Gomes Ramos.

Que Deus ilumine o atual prefeito e lhe dê muita disposição para o trabalho. E que os vereadores enxerguem, além da alvorada que eles nunca veem, novos horizontes, independentemente de corrente ideológica, viés político e coloração partidária.

Ressalvados eventuais suplentes que assumiram em razão do afastamento de titulares, a Câmara Municipal compõe-se de vereadores distribuídos por três partidos políticos, segundo a vontade das urnas de 2020, tais sejam: Walber Alves dos Santos, Samuel Fonseca de Souza Gomes, Marcos Vinícius Pereira Jericó, Joelson Alves Moreira, Jane Edla Fonseca de Souza, Pascoal Almeida Lima Tercius, Luiz Alberto de Menezes, Sheila Jacqueline Miranda Araujo e Tereza Maria Pires Alcântara Oliveira, todos moralmente respeitáveis.

A data requer outra observação. Apresentada ao público pela primeira vez no desfile cívico de 12/09/1984, a Bandeira de Chorrochó, ainda não foi oficializada pelo município, por razões difíceis de entender. Foi idealizada por uma equipe constituída de Dr. Francisco Afonso de Menezes, Maria do Socorro Menezes Ribeiro, Maria Therezinha de Menezes, José Juvenal de Araújo, Maria Creuza Miranda dos Santos Araújo e Marina Maria de Araújo Menezes.

Que o prefeito tenha êxito em sua administração e os vereadores tenham sucesso em suas atuações em prol do município e de seu povo.

Prefeito Humberto e secretários/Crédito: Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal

Parabéns Chorrochó.

Post scriptum:

Registro também o aniversário da professora Maria do Socorro Menezes Ribeiro, filha de Izabel Argentina de Menezes (D. Biluca) e de Dorotheu Pacheco de Menezes, esteio e baluarte da luta pela emancipação de Chorrochó.

Socorro Menezes, que é esposa de Virgílio Ribeiro de Andrade, vive permanentemente no altar de minha admiração – e viverá sempre. Aprendi a admirá-la nesses muitos anos de tropeços, quedas e trôpego caminhar. A admiração é extensiva a ambos.

Parabéns à aniversariante.

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Luciano Lugori e os loucos de Curaçá

“Às vezes é preciso ser louco para dizer o óbvio. A pior das loucuras é pretender ser sensato num mundo de doidos” (Erasmo de Rotterdam, teólogo e filósofo humanista, 1446-1536).

Capa de Enquanto Enlouqueço/Crédito Yuri Kauan Lugori/Luciano Lugori

Luciano Lugori, jovem professor, pesquisador e jornalista curaçaense nascido na primeira metade da década de 1980, há algum tempo escreveu um livro monumental sobre os loucos de Curaçá.

Ilustres loucos, admiráveis loucos, sapientes loucos!

Ao ler os originais de Enquanto Enlouqueço tive a impressão de que estava diante de um minucioso e alentado ensaio sobre a loucura. O assunto fascina pela incursão no recôndito da fragilidade humana e, mais do que isto, dá a bitola da complexa dificuldade que a sociedade tem de compreender o mundo e organizar o caos através de idéias e conceitos. 

Contudo, o que mais fascina na obra é o empenho do autor sobre o assunto, que escapa à vulgaridade do cotidiano e se agiganta diante do interesse de especialistas.

Bergson, filósofo independente, falava de uma “loucura normal”. Neste ponto, o autor parece aproximar-se da intuição de que, toda vez que a razão se distancia da realidade, o conhecimento se empobrece. Ele mergulhou na realidade, sem abdicar do conhecimento discursivo e necessário. 

O livro começa por um oportuno esquadrinhamento sobre a loucura, fundamentando-a na opinião de estudiosos universalmente respeitáveis, examina o âmago das dúvidas e, por último, faz um apanhado empírico sobre o mundo dos loucos de Curaçá.

O cerne do livro parece ser mais a perquirição do que seja a loucura do que, propriamente, a história dos loucos curaçaenses, o que em nada arranha o objetivo colimado pelo autor. Ao contrário, enriquece-o. Reside aí sua grande importância, porque é abrangente, filosófico, investigativo, questionador.

A loucura não deixa de ser uma avassaladora forma de viver em solidão. Intenso observador, o autor procurou construir este monumento aos loucos. O estar-só dos loucos, o isolamento que eles experimentam é o prelúdio da solidão. E aí reside a violência que a sociedade dita normal pratica sobre esses loucos, nem sempre loucos, relegando-os, repelindo-os, marginalizando-os.

Embora apoucado, tendo em vista a importância da obra, não devo ir além dos limites estruturais do epílogo que o autor me concedeu a honra de fazer. Epilogar significa recapitular, resumir. Todavia, confesso que diante de um livro tão monumental, tive dificuldade de fazê-lo.

O autor vai longe, ao abeberar-se nos conceitos de Foucault e Erasmo de Rotterdam, dentre outros, razoavelmente aceitos até hoje. Em todas as referências, fica claro o papel da sociedade relativamente à loucura: uma sepulcral indiferença.

O livro faz um paralelismo entre “loucos” e “doidos”, palavras fundamentais para a compreensão do texto. Parece inquestionável a diferença entre eles. Os exemplos contemplados pelo autor são claros porque, ademais, a loucura está impregnada na sociedade, clandestinamente. A doideira é visível. 

Município conhecido como terra de pessoas espirituosas, habitantes hospitaleiros, intelectuais respeitáveis, escritores desenvoltos e, sobretudo, bom lugar para laborar com a reflexão, Curaçá esteia-se na cultura, na beleza e nas tradições encantadoras do rio São Francisco.

Em Curaçá assentam-se histórias, ideias, pedaços de caminhar. Veem-se horizontes sedutores.

Os sonhos em Curaçá parecem mais atingíveis.     

A loucura vista por Lugori não se circunscreve somente ao município de Curaçá, não obstante os loucos de lá. Distende-se no tempo, na história, no viver, em qualquer lugar.  

A capa do livro Enquanto enlouqueço por si só é uma reflexão.                              

Quanto aos perfis jornalísticos sobre a loucura do universo de Curaçá, o trabalho do autor é completo. As pesquisas se debruçaram com afinco sobre nossos loucos e doidos e ainda se enriqueceram com abalizadas entrevistas acostadas ao texto. 

No capítulo “O enlouquecimento” está, em resumo, a grandeza da obra. O autor se despe de toda e qualquer vaidade e mortifica-se diante da realidade, para tentar entender a loucura. O ponto alto deste Enquanto Enlouqueço é exatamente a humildade do autor.

Livro altamente recomendável. Vale a pena ler, conhecer, refletir.

araujo-costa@uol.com.br

Os “Bichos Escrotos” de Curaçá

“Deixe a prova de filosofia para amanhã.” (Bichos Escrotos, in Carpe Diem”)

Adequando-se filosoficamente ao momento de antanho, surgiu em Curaçá, já se vão alguns anos, a Banda Bichos Escrotos. Salvo engano, dissolveu-se em 2016, ou por volta dessa quadra do tempo, depois de, pelo menos, uma década de existência.

Pressuponho que o caminho em direção aos objetivos de cada integrante da banda tenha determinado a procura por outras encruzilhadas da vida, certamente hoje exitosas.

A banda formava-se de jovens sonhadores, educados, espirituosos, irrequietos, inteligentes, ideologicamente preparados.

Na década de 1980 Caetano Veloso e os Titãs já diziam que “aqui, na face da terra, só bicho escroto é o que vai ter”.

Convenhamos, não erraram. Basta olhar para Brasília. Por lá se misturam escrotos, deslumbrados e outros bichos mais, muitos dos tais afrontam a fauna nacional. Mas esta é outra história que não deve ser tratada aqui para não deslustrar a referência aos Bichos Escrotos, de Curaçá.

Os Bichos Escrotos de Curaçá tinham outra matriz, outro princípio: a decência, o lastro cultural, a pureza do objetivo, o olhar social.

Limito-me aqui, estritamente, à palavra escroto tal como consta nos dicionários e no sentido aplicável ao nome da banda. A variante biológica não vem ao caso.

Não ultrapasso essa barreira filológica. Esmero em filologia, nalgumas ocasiões, pode significar pedantismo para quem dela não entende, como é meu caso. Convém não me atrever.

O fato é que os Bichos Escrotos de Curaçá, mais do que um grupo, uma banda, era um movimento cultural que estimulava a pensar e a curtir o momento (carpe diem), um estado de espírito que de certa forma enriqueceu Curaçá do ponto de vista da arte. Transitava do rock a músicas regionais.

“Deixe a prova de filosofia para amanhã e vem comer dessa maçã” vai na mesma linha de “o segredo da vida é desfrutar a passagem do tempo” de que fala James Taylor, o que não deixa de ser uma maneira de estimular o bem viver, a boa convivência, o não levar as coisas muito a sério, porque tudo passa, sem pender para a alienação das mentes e para o comodismo ideológico.

Ainda, segundo James Taylor: “Ninguém sabe como chegamos ao topo da colina, mas já que estamos a caminho, também podemos desfrutar do passeio”.

The Fevers perguntavam na década de 1970: “Para que viver assim tão triste, se você perdeu a ilusão?”.

Perder a ilusão e a esperança não significa ter que lamentar, esquecer de que tudo passa, porque virão outros horizontes, outra alvorada, outro amanhecer, outra luz para clarear o caminho.

“Aceitar o que for, colher o dia”, diria Horácio, poeta romano.

Nessas últimas décadas, encontramos muitas maneiras de perder a esperança, mas resistimos às intempéries.

Voltando aos Bichos Escrotos, de Curaçá.

Não estava lá, não estive lá pra ver, curtir, fazer parte na condição de espectador daquela efervescência cultural curaçaense.    

Curaçá ganhou com a existência da banda. A arte e a cultura de Curaçá ficaram mais robustas. Redundância necessária.

Essa a formação dos Bichos Escrotos de Curaçá, salvo engano, erros e omissões: Maurízio Bim (guitarra e voz); Lula Pereira (guitarra), Jefferson Luís (baixo) e Fabinho (bateria).

Caminhemos. A prova de filosofia pode ficar para amanhã.

 araujo-costa@uol.com.br

Saudosos e atrasados registros

Registro, com saudade, o falecimento de Elizete Barbosa Torres ocorrido em Curaçá em junho/2023.

Elizete Barbosa Torres/perfil facebook

Elizete era preciosa amiga de longas e animadas conversas, humor espetacular e risadas inesquecíveis.

Elizete, eu e muitos que ainda estão por aí, fizemos partes de uma Curaçá que ainda permitia sentar nas calçadas para falar amenidades, aproximar a convivência e robustecer as amizades.      

Deixou uma lacuna no reino das amizades.

Registro também, com saudade, o falecimento de Ivone Alves de Souza, ocorrido em abril de 2022, em Campana, na província de Buenos Aires, Argentina.

Ivone Alves de Souza/perfil facebook

Ivone era curaçaense de Patamuté e, em razão de casamento, mudou-se para a Argentina, ainda na década de 1960.

Deixa saudade.

Há alguns anos, fui informado por uma amiga em comum, que a última vez que ela esteve em Patamuté, perguntou por mim. Depois, já em tempo de facebook, fizemos alguns contatos.

Somente em data recente, fiquei sabendo do falecimento de Ivone, por intermédio de Dorinha Souza, também amiga valiosa filha de Patamuté.  

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A autoridade na mão do imbecil

A ditadura corria solta. Período difícil. Tempo de repressão.

O general-presidente Emílio Garrastazu Médici, jeito de bonachão, mas essencialmente linha dura, já havia passado o comando da República para o também general Ernesto Geisel, mais ameno e menos linha dura. 

A situação política nacional, entretanto, ainda era a mesma do antecessor. 

A polícia paulista do governador indireto Paulo Egydio Martins (1928-2021), eleito pela Assembleia Legislativa, obedecia às ordens dos governos chamados revolucionários e vivia se engalfinhando com os estudantes, sempre rebeldes.

Polícia e estudantes viviam às turras, à semelhança de gato e cachorro.

São Paulo daqueles dias era um caldeirão político. Época das torturas, prisões arbitrárias, desaparecimento de políticos e militantes contrários ao regime e outras atrocidades mais.

Centro de Santo André, Rua General Glicério, bem no miolo da cidade, começo de noite quente e agitada. A polícia cercou um grupo de estudantes inofensivos que se dirigiam para suas escolas, depois de um dia de trabalho.

Eu estava lá, entre eles. Sobraçava um livro didático e um exemplar da Folha de S.Paulo.

Naquele tempo quem carregava um livro era suspeito. Quando a polícia abordava o sujeito, tomava o livro, revirava, folheava e fazia seguidas perguntas idiotas, como se livro fosse uma arma perigosíssima.

Era a paranoia da subversão.

Quem fosse flagrado com alguma publicação que fizesse qualquer referência a Karl Marx seria preso e interrogado, acusado de comunista e inimigo do Brasil.

O policial aproximou-se, arrogante:

– O que é isto debaixo do braço?

– Um livro, sabe o que é um livro?

Ele entendeu o deboche, virou uma fera.

– Está com gracinha? Quero saber o que tem dentro?

– Folhas, páginas, letras – respondi.

 A situação piorou.

-Está preso.

Instalou-se um tumulto ao redor e fomos todos para a delegacia. Não éramos meliantes, tampouco subversivos, nem agitadores. Éramos estudantes pobres, cavando um futuro melhor. Saíamos do trabalho direto para a escola, sem comer.

Ficamos todos numa sala, sem móveis, confinados, sentados no chão, conversando, aguardando. Só de pirraça, nos deixaram mofando por algumas horas.

O tempo parecia interminável. Finalmente, chegou o delegado, cara de bravo, jeito de imbecil e pinta de idiota, carregando autoridade pelas ventas.

– Estão dispensados. Retirem-se antes que me arrependa.

Ainda muito jovem, foi o primeiro caso de abuso de autoridade que vi. A partir daquele dia resolvi estudar Direito.

Hoje, calejado pelas lides forenses, ainda me deparo com situações semelhantes. E quem vira uma fera sou eu, quando vejo injustiças, leis mal aplicadas, policiais imbecis, juízes arrogantes e menosprezo a pessoas humildes.

O humilde pela sua própria condição já vive humilhado. Por que espezinhá-lo? 

Nesse tempo de luta, aprendi muito e construí uma teoria inquestionável, modéstia à parte: todo agente público arrogante é imbecil.

E a autoridade em mãos de imbecis é sempre um perigo.          

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