Curaçá, Durval Torres e a quadra do tempo  

Dona Elzita e Durval Torres/álbum de família.

José Januário da Silva, senhor sério e circunspecto que nasceu, se criou e morreu na Fazenda Estreito, nos barrancos do Riacho da Várzea, caatinga do município de Chorrochó e foi vereador de lá por alguns mandatos, inclusive presidente da Câmara Municipal, costumava dizer que tinha um amigo em Curaçá de nome Durval Torres.

José Januário era homem de poucos amigos, de caráter forjado ao modo antigo, respeitoso e respeitado. Por aí se vê, a grandeza e a decência da amizade a que ele se referia e a consideração que tinha a Durval Torres.

Este escrevinhador, ainda jovem, morando no mato, não conhecia Durval Torres, mas ouvia lá, na caatinga, as referências que José Januário cultivava sobre o ilustre curaçaense, arrastando-as desde o tempo em que Chorrochó pertencia ao município de Curaçá. A emancipação se deu em setembro de 1954, salvo engano.

A política os havia aproximado.

Ambos – José Januário e Durval Torres – tinham caráter inflexível e eram honestos, honrados, corretos, gente de “outros tempos”, que hoje não mais se vê. O caráter e a conduta desses homes de então indicavam o norte para as novas gerações.

Os homens daquela quadra do tempo, por exemplo, faziam seus negócios e contratavam através da palavra empenhada entre eles, prescindiam de contrato escrito e de regras formais. Valia o compromisso acertado no “fio do bigode” e não a assinatura.    

A honra ditava a conduta deles e não os contratos escritos, tampouco o jamegão tão fundamental nos dias de hoje.

O mundo gira, as pessoas se movem como folhas ao vento outonal e, em razão disto e mais do que isto, conheci Durval Torres, em Curaçá.

Difícil separar o homem das referências que ouvi, ainda jovem, de José Januário.

Lembro até hoje quando o vi pela primeira vez. Eu estava conversando sobre amenidades com Juvêncio Ferreira de Oliveira (Maroto) e o ex-prefeito Gilberto da Silveira Bahia, honra e glória de Curaçá. Gilberto foi prefeito no período de 1959-1963 e deixou feitos memoráveis no município.

A conversa se dava na calçada de uma rua estreita, ao lado do Teatro Raul Coelho, centro de Curaçá. Não me recordo o nome da rua.

Durval Torres chegou, conversa franca, sem embaraços, cativante, abancou-se e enriqueceu o ambiente e a conversa com sua presença e seus olhos lancinantes, não me lembro se verdes ou azuis, mas marcantes, como se uma janela do tempo e da alma.

Durval Torres tinha conhecimento enciclopédico. Falava de tudo com absoluta experiência adquirida nos percalços da vida, só comum aos grandes homens. Sua humildade e generosidade eram impressionantes.

O desenrolar dessa conversa, naquele dia, em Curaçá – e de outras – vou contar numa futura crônica neste blog, não sei quando, se continuar vivendo e a memória ajudar.

Falar de pessoas de condutas especiais requer muito traquejo com as palavras, conhecimento sobre suas vidas e, sobretudo, disposição de não cometer gafes.

Minhas gafes costumam ser monumentais e incontornáveis. Tento evitá-las.

Nesta altura da vida, em idade quase septuagenária e a depender da memória, corro o risco de cometer vexame sobre nomes de pessoas e fatos históricos.

De todo modo, para ilustrar este artigo, surrupiei a foto de Durval Torres do álbum da neta Gardênia Torres; e afanei a foto de D. Elzita do álbum de um dos filhos ilustres  do casal, Omar “Babá” Torres. Em benefício da história.

D. Elzita e Durval foram exemplos e esteios de uma das famílias mais respeitadas e queridas de Curaçá.

Está aí a prole, a descendência honrada.

araujo-costa@uol.com.br

Uma rua de Patamuté

Igreja de Santo Antonio, padroeiro de Patamuté

Em minha mocidade existia uma rua em Patamuté, a Rua dos Ferreiras.

Ainda há. Hoje maior, mais movimentada, com mais casas, mais moradores e adaptada à passagem do tempo.

Lá morava Nicolau Cordeiro, um dos grandes amigos que tive na vida. Nicolau fez a façanha de viabilizar minha vida de professor particular em Patamuté, mas esta é outra história.

Uma rua nascida da tradição do povo, sem alcunha oficial atribuída pelo poder público.

Rua pequena, limitando-se com as pedras disformes do mármore de Patamuté sobre as quais pastavam animais.

José Henrique de Souza Sobrinho, distinto senhor da sociedade de Patamuté, tinha um chiqueiro nas imediações para cuidar de sua criação de caprinos.

Aos sábados, ao lado da casa “dos Chias”, uma construção antiga e rudimentar dos primórdios de Patamuté, Maria fritava seus “manuês” e lá cuidava de sua freguesia. Maria era irmã de Balbina, Senhora e Silvina e todas eram muito queridas em Patamuté.   

A história registra, sem muita certeza, que os “Chias” foram vaqueiros do Barão de Jeremoabo e essa casa da Rua dos Ferreiras teria sido a sede de uma de suas fazendas.

Uns diziam chamar-se Rua dos Ferreiras, alusão ao nome de uma família; outros diziam Rua dos Ferreiros, porque ali, contavam, artesãos exerciam a profissão de cunhar ferro a fogo, aquecido através de fole, uma geringonça que, acionada manualmente, alimentava com ar as brasas para o ferro amolecer e ser moldado. Daí, Ferreiros.

Mas isto é assunto para historiadores e conhecedores dos meandros da História – e eu não sou – não é assunto para explicar a saudade.

Hoje certamente o nome da Rua deve constar corretamente no mapa e nos registros da Prefeitura de Curaçá, de modo a não haver mais dúvida quanto a sua origem.

Reuníamos ali, às vezes, jovens e velhos.

Na década de 1960, quando lá só existiam vitrolas movidas a pilha, porque em Patamuté não tinha energia elétrica, ouvíamos, entre outros, Gigliola Cinqüetti, Dio come ti amo e Waldick Soriano, Paixão de um homem, que embalavam nossos sonhos de jovens e tapetava a coragem para conquistar as primeiras namoradas. 

Ali mesmo, em qualquer casa cedida por um morador generoso, fazíamos bailes, à época chamados de “assustados”.

Pobres, fazíamos “vaquinha” e comprávamos as pilhas para a vitrola no bar de Taxú, assim como o conhaque Castelo. Às vezes comprávamos fiado. Bom amigo, Taxú confiava em todos nós.

Taxú faleceu em 1998, uma semana antes de completar 70 anos. Ainda hoje a saudade dele cutuca, faz constantes visitas e não me permite esquecê-lo.

São amigos que perduram, ultrapassaram décadas e se firmaram na sinceridade. Quando é assim, difícil acabar.

Sempre me perguntam quais são meus amigos, se os tenho, se existem ou se diluíram no tempo e nos lugares por onde passei e morei, que são muitos, vários.

Mas em alguns desses lugares permanecem amigos ainda firmes. Em Patamuté, inclusive. Esses ficaram. Coisas da juventude. Difícil de explicar.

Os grandes amigos são aqueles que aparecem nos momentos mais difíceis. Como dizia Walter Winchell, “amigo é aquele que chega quando as outras pessoas estão indo embora”.

Minha formação de vida deu-se numa atmosfera de muitos percalços. Tropecei, algumas vezes. Caí, outras tantas. E toda vez que me encontro na encruzilhada do tempo passado e do presente, lembro-me das amizades adquiridas ao longo do caminho. E faço um balanço: valeu a pena tê-las.  

Bateu-me uma saudade inominável de Patamuté, das pessoas, da fé que os filhos de lá professam, as procissões de Santo Antonio e, sobretudo, de minhas raízes que estão lá intactas e imunes ao desgaste do tempo.

É o que ficou do que passou.

araujo-costa@uol.com.br

Reclamações dos leitores (III)

De Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Maria Léa Santos Souza, que conheço e admiro desde os tempos da Fazenda Bom Jardim, de Antonio Paixão, em Patamuté (Curaçá-BA), pergunta sobre a postagem que fiz intitulada Com o chapéu dos outros: “Quem pagou as diárias?”.

Dita postagem comenta que Lula da Silva foi à Europa a passeio e gastou R$ 312 mil dos cofres públicos, sendo R$ 200 mil de diárias.

O pagamento das despesas em referência é de responsabilidade da União Federal e é assegurado a todos os ex-presidentes da República, seja Lula da Silva, Fernando Collor, José Sarney, Fernando Henrique, Dilma Rousseff ou outro qualquer, de direita ou de esquerda.

Aqui o lado ideológico não vem ao caso. O espectro político não conta.

Maria Léa é inteligente e bem informada (tem formação em jornalismo) e profissional respeitada dos quadros do IBGE, com destacada liderança entre seus pares.

Ela sabe quem paga as diárias elencadas nesse tipo de rubrica, mas creio que o questionamento tem o condão apenas de estimular o debate, o que é saudável na democracia.

A imprensa adestrada, aquela que publica somente o que interessa aos bolsos e aos interesses dos grandes órgãos de comunicação, não publicou o contínuo regabofe de Lula da Silva por quatro países (França, Alemanha, Bélgica e Espanha), exceto para dizer que o morubixaba de Caetés foi recebido com honras de chefe de Estado pelo presidente francês.

Essa mesma imprensa adestrada publicou alguns exageros, o que não é nenhuma novidade em se tratando de notícia enaltecendo Lula da Silva. Exemplo: que o Parlamento Europeu “aplaudiu Lula de pé”.

Não chegou a tanto.

Salvo engano, o Parlamento Europeu compõe-se de 705 membros, que representam os países da União Europeia.

Natural que alguns membros do Parlamento e partidos da esquerda desses países tenham comparecido ao evento e aplaudido Lula da Silva.

Além de natural, é protocolar que um ex-presidente de esquerda de qualquer país, em visita a outras nações, seja prestigiado por membros da esquerda mundial.

Mas daí a dizer que “o Parlamento Europeu aplaudiu Lula de pé” vai uma grande distância.

Eliane Cantanhêde, experiente jornalista e comentarista da GloboNews, numa crise de tietagem, ao vivo (Programa em Pauta), acabou fazendo campanha para Lula da Silva. Ao comentar esse suposto aplauso “de pé” que o ex-presidente teria recebido no Parlamento Europeu, Cantanhêde confundiu jornalismo com militância política.

O mínimo que ela disse de Lula foi que “é um estadista”. Só faltou compará-lo ao inglês Winston Churchill e ao americano Abraham Lincoln.

Ciente do exagero e da gafe, a respeitada Eliane Cantanhêde tentou justificar, sem jeito: “não estou fazendo campanha pra Lula”.

Era tarde. Sem graça, não conseguiu consertar o desapontamento.

Quase Eliane Cantanhêde tira da Folha de S.Paulo o título de porta-voz da esquerda e o atribui à GloboNews.

Voltando ao pagamento das diárias de Lula da Silva em seu sofisticado passeio pela Europa, a presidência da República não está errada em pagar, tampouco Lula está errado em receber.

É lei.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó e o tempo: Juracy Santana

Juracy Santana abraçado à esposa Lenisse/Álbum de família

“Talvez a velhice seja um naufrágio” (Milton Hatoum, escritor, tradutor e professor amazonense)  

Quando olho no retrovisor da vida, vislumbro coisas que ficaram para trás e não posso esquecê-las.

Mas é preciso avançar no tempo, colher as vicissitudes inarredáveis que plantei ou plantaram em meu caminho.

O prosseguimento da caminhada significa às vezes tédio, às vezes boas lembranças e sempre a expectativa de que, nesta altura da vida, não iremos muito longe.

Os horizontes se estreitam, a alvorada demora a clarear, os sonhos se ofuscam diante das dificuldades. Mas é a vida, a luta, o desenlace do viver ou da morte inevitável.   

Em quadro assim, surge a conversa de envelhescente, que a poucos ou a ninguém interessa, mas se dá em razão da maturidade e do desalinhar das emoções.

Na primeira metade da década de 1970, conheci em Chorrochó, uma turma um tanto alegre e irreverente.

Essa turma formava-se de Juracy Santana, José Osório de Menezes, Francisco Ribeiro da Silva, Francisco Afonso de Menezes e Antonio Euvaldo Pacheco de Menezes (Totó para nós, seus amigos; Corró, para Ernani do Amaral Menezes, seu irmão). Todos jovens, na aurora da mocidade.

Havia outros, mas já falei alhures, muitas vezes. Torna-se cansativo repetir.

Hoje refiro-me a Juracy Santana. Éramos muito próximos, em razão do acolhimento que tivemos do então prefeito de Chorrochó, Dorotheu Pacheco de Menezes e de sua honrada família: Izabel Argentina (Biluca), Socorro, Evaldo, Joãozito, Virgílio e demais do núcleo familiar.

Assim como eu, Juracy vinha de outras paragens. Não nasceu em Chorrochó. Adotou-o como sua terra e seu amparo.

A juventude por si só é sonhadora, às vezes intransigente, quase sempre sustentáculo dos tesouros, dentre esses a amizade.

As amizades amealhadas na juventude geralmente são as mais seguras, as mais puras, as mais duradouras.

Assim éramos nós. Construíamos nossa universidade da vida, que era o conhecimento fundado nas dificuldades e em nossos próprios tropeços.

Juracy era exímio mecânico de automóveis, ocupação na qual se destacou e com ela cavava a vida e o sustento. Profissional respeitável, criou a família no esteio de seu trabalho responsável e diário.

Juracy fez uma façanha, dentre muitas. Se casou com Maria Lenisse Oliveira Alves, minha amiga até hoje, que passou a ser Santana e tiveram as filhas Cilene Cristianne de Oliveira Santana, Samira Liane de Oliveira Santana e criaram a neta Nayara Cristiane Santana Nascimento.

Este era o núcleo familiar de Juracy.

Nayara Cristiane também passou à condição de filha do casal e considerava Juracy seu pai. Ele adorava a neta-filha.

A estrutura familiar paterna de Lenisse está em Patamuté, descendência de Macário Alves, exemplo de vida e caráter. Sinhorzinho é o pai. O esteio materno assenta-se em Chorrochó.

A última vez que vi Juracy, eu já morava em São Paulo. Em visita à cidade, sentamo-nos num banco em frente à casa do então prefeito de Chorrochó, José Juvenal de Araújo, nosso amigo comum.

Conversamos bastante. Conversa saudosa, como se um balanço de nossa humildade, de nossas incertezas, como se um voltar às nossas origens pobres e dependentes do aconchego de quem nos deu a mão em momentos difíceis.

Tanto para Juracy quanto para este cronista, Dorotheu Pacheco de Menezes foi o iluminar de nosso caminho, o amparo, a direção. Éramos jovens, dependíamos de rumo. Dorotheu deu esse rumo, afastou as pedras do caminho.

Tudo isto foi alegria particular. Em Memorial de Aires, Machado de Assis saiu-se com esta: “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular”.

Tinha razão.

Volto à turma que conheci em 1970.

Juracy, Osório, Francisco, Afonso, Antonio Euvaldo. Intrometi-me nessa turma, embora dela não fizesse parte e passei a ser amigo de todos eles. Foram-se Juracy, Osório, Francisco, Antonio Euvaldo.

Valeu a pena tê-los conhecido.

Não posso me queixar daqueles tempos de sonhos. Não devo atribuir os tropeços que se seguiram até hoje àquele iniciar de construção de vida. As amizades me foram mais importantes que os sonhos. Os sonhos seguirão sempre, muitas das amizades se foram.  

Vale a pena a saudade de Juracy e de todos eles.

araujo-costa@uol.com.br

Algumas reclamações dos leitores (II)

Da simpática cidade pernambucana de Santa Maria da Boa Vista uma postagem de Iracema Medrado, que muito me honra.

Dita postagem se refere a uma matéria deste blog intitulada Em Patamuté, uma imagem de desolação e desamparo e traz a opinião abalizada de Iracema sobre o assunto.

Conheci Iracema Medrado em Curaçá. À época morávamos no Curaçá Hotel, de Maria Roselita e Adelson Xavier e estudávamos no Colégio Municipal Professor Ivo Braga, Iracema mais à frente, já bem adiantada no caminho da formação escolar e eu tropeçando no desconhecido curso ginasial.

Sempre elegante, discreta, comedida e, sobretudo, impressionantemente educada, Iracema Medrado é uma daquelas pessoas que valeu a pena ter conhecido.

Estávamos na segunda metade da década de 1970. Saí de Curaçá, nunca mais vi Iracema. O passar das décadas alargou o caminho para a distância.

Ficou a saudade do tempo, das pessoas, de tudo.  

Volto à postagem de Iracema.

Diz Iracema Medrado, dentre outras reflexões e ponderações:

“Quanto ao êxodo da Igreja Católica para outros seguimentos, a culpa é nossa e não da falta de assistência da Igreja.

A Igreja Católica, pela quantidade de fiéis que tem, se torna impossível, acompanhar cada um de forma minuciosa.

Enquanto os seguimentos de outras religiões e seitas, bem menores, insaciáveis por adeptos, caem em cima, com unhas e dentes, num momento que o fiel está fragilizado, carente, muitas vezes passando por momentos de dificuldade financeira e muitos são arrastados pela famosa teoria da evolução, por um enriquecimento rápido, por tantas propagandas enganosas e tantas lavagens cerebrais.

Insisto na nossa culpa, porque batizamos nossos filhos na nossa fé, ainda inocentes, e não cumprimos com nossa responsabilidade de sermos os primeiros catequistas dos nossos filhos.

Sempre delegamos a terceiros nosso compromisso de tornar concreta, conhecida, imbuídos na fé, a religião que escolhemos seguir com nossa família.

Sempre achamos que os responsáveis pela catequese de nossos filhos são os padres ou catequistas.

Ninguém pega o catecismo da Igreja Católica pra estudar e repassar para família.

É bem mais fácil culpar a Igreja como um todo. Muita gente boa deveria deixar de batizar seus filhos quando a fé e o conhecimento não fossem suficientes para conduzir o rebanho.

Infelizmente, ainda batizam pra completar o álbum da criança e fazer aquele churrasco, movido á bebida alcoólica, o que não é permitido dentro da “Igreja Una Santa Católica e Apostólica Romana”.

Fechadas as aspas, pergunto: o momento de fragilidade dos fiéis católicos que enseja a mudança para outras denominações religiosas não seria decorrente da ausência da Igreja Católica na vida dessas pessoas? O caso de Patamuté a que o blog se refere não seria um exemplo desse descaso da Igreja?

Como se vê, não é bem uma reclamação de Iracema Medrado, mas uma constatação e uma verdade que o blog acolhe, concorda e agradece.

No mais, deixo um abraço para Iracema Medrado e o registro da saudade.

araujo-costa@uol.com.br

Algumas reclamações dos leitores

Um leitor questiona este escrevinhador se “formador de opinião se acha no direito de falar mal de todo mundo a torto e a direito”.

Não. Não acho.

Contudo, esclareço que não me considero formador de opinião. Se, nalgumas situações, meus modestos pontos de vista servem para ajudar algumas pessoas a discernirem certos emaranhados dos tropeços da vida, mormente política, isto me basta.

Nunca tive a pretensão de indicar o caminho supostamente certo para qualquer pessoa, mesmo porque, muitas e constantes vezes, as encruzilhadas me mostram surpresas.

Outro dia encontrei um conhecido de longa data, com cara de desembargador aposentado (todo juiz se acha o máximo, mesmo aposentado), lulista até a alma, que foi logo dizendo: “hoje não li seu blog e não gostei”.

Pergunto a razão de tanta ojeriza a este humilde escrevinhador e ele esclareceu, para me provocar: “você fala mal do Lula, dia sim e outro também”.

Tento contemporizar. Não tenho nada contra Lula da Silva, nem costumo falar mal de nosso feliz morubixaba de Caetés, até em razão do tempo que o conheço.

Conheço Lula desde o tempo que ele era pobre. Em São Bernardo do Campo, acompanhei os passos de Lula rumo aos degraus do sucesso político. Lá, mais na frente, ele se desviou para o despenhadeiro moral, nódoa que nunca mais se vai desgrudar de sua biografia, condenado judicialmente ou não.

A condenação moral é mais cruel, cortante, lancinante. O tribunal da consciência coletiva não costuma absolver os desvios de conduta.  

Mas daí a dizer que costumo falar mal de Lula vai uma grande e elástica distância. Não é meu feitio, nem tenho razão para isto.

Contudo, gosto das lorotas de Lula, das mentiras cabeludas que Lula conta, dentre essas a de que tirou os brasileiros da miséria e da linha da pobreza e quando o PT estava no governo o Brasil era um paraíso, mesmo sem Adão e Eva.

Lula deveria ser humorista e não político. Mas se ele tivesse escolhido a carreira de humorista não teria tanto dinheiro como amealhou fazendo política.

Outro leitor, mais sisudo, beirando ao esbregue, disse que não gostou de um artigo que escrevi sob o título Sérgio Moro e chapéu de couro são incompatíveis.

Esse atento leitor deve ser futuro eleitor de Moro. Que Deus tenha piedade dele, de todos nós e deste Brasil altaneiro.

Outro educado leitor, que não diz a idade, mas presumo que seja jovem, repreende-me em relação a artigo que escrevi versando sobre os senadores da Bahia.

Noutras palavras, eu havia dito que a Bahia tem um senador e dois arremedos de senador.

O leitor puxou a sardinha para o lado de um senador que admira, espinafrou outro que detesta e por fim sentenciou: “o senhor só devia falar sobre aquilo que sabe”.

O leitor tem razão. Vou tentar.

araujo-costa@uol.com.br

Sérgio Moro e chapéu de couro são incompatíveis

Jurema branca ou preta é uma árvore que dá em qualquer pé de serra e na caatinga do Nordeste. É símbolo de resistência e pertinácia.

Em data recente, a imprensa mostrou uma patética foto do ex-juiz Sérgio Moro, no Recife, ao lado de apoiadores, usando um chapéu de couro, indumentária símbolo do sertanejo de bom caráter.

Dentre os muitos papéis da imprensa, um deles é noticiar, inclusive a existência de dejetos e indignidades, em alguns casos e em alguns locais.

O ultradireitista Sérgio Moro, índole de ditador e travestido de democrata, é o avesso do nordestino sincero, generoso, honesto e, sobretudo, de bom caráter.

Enquanto juiz federal, Sérgio Moro cercou-se de gigantesca estrutura pessoal e jurídica, dentre dezenas de serventuários, seguranças, informantes, jornalistas e muito poder.

Ostentava a judicatura, a arrogância e a caneta e, nesta condição, Sérgio Moro levou o terror até muitos, sem critérios plausíveis de julgador que estava sendo pago pelos contribuintes para fazer justiça.

Perseguiu réus, investigados, advogados, empresários, decretou a prisão de mais de uma centena de criminosos ou supostos criminosos, mandou executar conduções coercitivas ilegais, divulgar áudios inoportunos e mais um amontoado de disparates incompatíveis com as leis substantivas e processuais penais.

Sérgio Moro fez conluio com algumas conhecidas figuras do Ministério Público, de modo que meteu os pés pelas mãos e acabou cometendo muitas e reiteradas injustiças.

Pior: presume-se que fez tudo de caso pensado, ciente de que estava proferindo decisões processuais contrárias à lei e de olho em seu futuro de poder, financeiro e político.

Um dos exemplos de mau-caratismo de Sérgio Moro – só um exemplo, dentre muitos – é este:

Como juiz da Lava Jato, inviabilizou economicamente a Construtora Norberto Odebrecht (hoje Novonor) e extirpou milhares de empregos dessa e de outras empresas.

Estrago feito, retirou-se do governo Bolsonaro e foi trabalhar num famoso escritório de advocacia americano, certamente muito bem pago, que tem a tarefa de recuperar empresas, inclusive a que ele mesmo quebrou.

É sério isto?

Na contramão do bom senso, que recomenda punir os empresários delinquentes e manter intactas as empresas que produzem e dão empregos, Sérgio Moro fez essa lambança para beneficiar-se pessoalmente, à frente.

Hoje isto está claro, indubitável.

O auge da Laja Jato e do estrelismo de Sérgio Moro deu-se em 2019. Dados daquele ano atestam que a Odebrecht chegou a empregar 276 mil pessoas e, com a operação comandada por Moro, reduziu o quadro de funcionários em 80%, ou seja, só da Odebrecht Sérgio Moro tirou o pão da boca de 221 mil pessoas e seus familiares, aproximadamente.

Sérgio Moro não resiste a uma investigação séria.

Assim como a jurema, o chapéu de couro é símbolo da coragem, do caráter e da força nordestina. Não fica bem na cabeça de Sérgio Moro.

A democracia pressupõe a convivência com os contrários e absorção dos antagonismos, mas isto não significa apequenar-se diante de embusteiros.  

Chapéu de couro é coisa séria.

Não fica bem na cabeça de Sérgio Moro.

araujo-costa@uol.com.br

Os candeeiros de Gilberto Gil

Gilberto Gil/Reprodução

“A Bahia já me deu régua e compasso” (Gilberto Gil, Aquele Abraço)

Gilberto Gil nasceu no bairro do Tororó, em Salvador. A primeira infância foi vivida em Ituaçu, pequena cidade ao pé da Chapada Diamantina.

Gilberto Passos Gil Moreira é o novo integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL). Cabe, aqui, uma obviedade: merecidamente, eleição adequada, apropriada, necessária.

Gilberto Gil, que sempre empunhou vida cultural efervescente, entrou para a política em 1987, como presidente da então recém-criada Fundação Gregório de Mattos, órgão vinculado à Prefeitura de Salvador.

A Fundação foi criada na segunda gestão do prefeito de Salvador, Mário Kertész, eleito na esteira da redemocratização. Antes, Kertész havia sido prefeito entre 1979 e 1981, nomeado pelo governador Antonio Carlos Magalhães (ACM).

Naquele tempo existia a figura do prefeito biônico, condição imposta a alguns municípios em 1968 pela ditadura militar, indicado e nomeado pela vontade do governador de plantão, sem o crivo das urnas, em nome do interesse e da segurança nacionais.

A régua e o compasso que a Bahia deu a Gilberto Gil são sobremaneira intrincados, ricos e difíceis de descrever. A grandeza de Gilberto Gil se sobrepõe a qualquer tentativa de explicação.  

Ateu, Gilberto Gil se declara adepto de Xangô e do Candomblé e não se escusa de falar sobre qualquer assunto, seja cultural, religioso, político ou filosófico.

Respeitado Intelectual de esquerda e conhecido mundialmente, o novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma espécie de patrimônio de nossa cultura e intelectualidade.

Preso pela ditadura militar, Gilberto Gil amargou exílio em Londres, depois de ter sido vigiado 24 horas, em Salvador, pela Polícia Federal, então comandada na Bahia pelo poderosíssimo coronel Luiz Arthur.

Aquele Abraço, símbolo de seus piores dias pré-exílio, foi composta na casa de Mariah Costa, mãe da amiga Gal Costa e se tornou uma espécie de adeus provisório ao Brasil da ditatura.

Administrador de empresas, Gilberto Gil trabalhou na indústria de São Paulo, morou na periferia da capital paulista (bairro Cidade Vargas) e mais tarde despontou para o mundo.

Gilberto Gil tem título concedido pela UNESCO (Artista da Paz) e pela França (Ordem Nacional do Mérito), dentre outros. Foi vereador em Salvador e ministro da Cultura no primeiro governo Lula da Silva.

Os candeeiros que iluminaram a casa de Gilberto Gil em Salvador na década de 1940 se agigantaram e hoje iluminam nossa cultura baiana e brasileira.

A Academia Brasileira de Letras é o ápice de sua luta política diária e de seu trabalho como músico, cantor e instrumentista.

O poeta e ensaísta mineiro Abgar Renault (1901-1995) dizia que a única coisa que ele achava importante na ABL era a vaga do carro na garagem.

O cronista e romancista também mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994), outro imortal da Academia, dizia que o mais importante lá era sua vaidade.

Em se tratando de Gilberto Gil, já aos 80 anos, ouso dizer que é o coroamento de sua vida honrada, inatacável e levada a sério.

Gil diz: “Não tenho medo da morte, mas tenho medo de morrer. A morte é depois de mim, mas quem vai morrer sou eu”.

Gil diz mais: “O que sobra é o Gil do mundo, da História”.

E agora, também, da imortalidade literária.

araujo-costa@uol,.com.br

O vírus boêmio de São Bernardo do Campo

O prefeito Orlando Morando (PSDB), do município paulista de São Bernardo do Campo, noticiou que editou decreto, com vigência a partir de 13/12/2021, segundo o qual todas as atividades e muvucas noturnas, incluídas aí festas e também outros adjuntos, poderão funcionar até 02:00 horas da manhã, sem interrupção, para quem assim quiser.

Até 02:00 horas não haverá impedimento para essas atividades desde que, evidentemente, devo presumir, sejam obedecidos os protocolos em vigor de combate ao coronavírus.

Do alto de minha ignorância, não consigo vislumbrar a eficiência do decreto.

Explico: se não há impedimento para aglomeração até 02:00 horas, significa entender que o vírus está inerte, talvez dormindo até esse horário e somente após 02:00 horas ele acorda e sai para as baladas.

É um boêmio inveterado esse vírus de São Bernardo do Campo.

Ou seja, segundo o prefeito, antes desse horário não há perigo de transmissão da doença. A partir das 02:00 h até o amanhecer a situação passa a ser perigosa.

“As pessoas ficam mais próximas, ficam à vontade, tiram as máscaras”, pondera o prefeito.

Contudo, o prefeito se esqueceu de dizer por que o transporte público continua superlotado e, neste caso, ele não vê perigo de circulação do vírus e não tomou nenhuma medida para minorar o problema.

Sua Excelência o prefeito Orlando Morando explicou, dentro de sua inalcançável sabedoria, que consultou os entendidos no assunto e que o decreto se assenta em princípios científicos.

Então tá!

Quem sou eu para discordar de tamanha inteligência da assessoria científica do prefeito?

Entretanto, continuo presumindo que o vírus que circula em São Bernardo do Campo é disciplinado. Só oferece perigo após as 02:00 h da manhã, antes desse horário ele não vai incomodar ninguém.

Parêntese: o prefeito costuma chamar de “engraçadinho” quem dele discorda. Data vênia, prefeito. No meu caso, não sou engraçadinho, nem pretendo ser. Só quero entender qual o sustentáculo científico que consegue explicar que o vírus antes das 02:00 h não oferece perigo. Desculpe minha ignorância.

O prefeito de São Bernardo do Campo é conhecidíssimo em todo o Brasil.

Em todo evento de importância em que participa um governador de São Paulo, o prefeito sempre aparece na televisão, atrás do governador de plantão, estrategicamente colocado diante dos holofotes.

Em data recente, nosso dileto alcaide apareceu, seguidas vezes, atrás dos ombros do governador-pavão João Dória, por ocasião do anúncio do resultado das confusas prévias do PSDB.

Não me atrevo a dizer que o prefeito se assemelha a “papagaio de pirata”, como se comenta na cidade, maldosamente.

Deve ser ciúme de quem pensa assim ou intriga da oposição, se bem que em São Bernardo do Campo não existe oposição ao prefeito. Os 28 vereadores adoram o prefeito Orlando Morando.

Sorte dele.

Acho que o prefeito é tão-somente querido dos governadores, qualquer que seja o governador, não importa qual seja o governador.

araujo-costa@uol.com.br

A ladeira íngreme do Brasil

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida” (Maurice Switzer)

Em 01/12/2021, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal aprovou a indicação do ex-ministro da Justiça André Mendonça para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e, ato contínuo, o plenário da Casa também o aprovou.

A primeira votação selou o desgaste político e moral do senador David Alcolumbre (DEM-AP), presidente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça, que segurou a pauta da sabatina obrigatória, por alguns meses, com o objetivo espúrio de negociar e provocar a derrota do indicado André Mendonça e viabilizar outro nome de sua preferência e da caterva que lhe acompanha. Não deu certo.

David Alcolumbre é um comerciante e opaco senador do Amapá, que o presidente Bolsonaro apoiou para a presidência do Senado Federal (2019-2021) e, em razão de posteriores desentendimentos políticos com o presidente, usou a arma dos covardes para “melar” a indicação de André Mendonça: a vingança. Não deu certo.

Para selar a derrota melancólica de David Alcolumbre na Comissão de Constituição e Justiça, no final da sessão que aprovou a indicação de André Mendonça, o estapafúrdio senador Omar Aziz (PSD-AM) cometeu o maior mico que se tem notícia no Congresso Nacional.

Os bastidores estão sendo implacáveis com o senador amazonense.

Omar Aziz, em confuso e idiota discurso, disse que o Supremo Tribunal Federal está acima dos Poderes Legislativo e Executivo, o que gerou constrangimento generalizado entre os presentes e levantou a bola do STF, que já se considera Poder Moderador, segundo revelou Dias Toffoli, um de seus “intocáveis” e subidos ministros.

Um senador da República que não conhece a Constituição Federal, nada mais é do que uma vergonha nacional.

Aliás, tratando-se de Omar Aziz e considerando sua mesquinha atuação como presidente da CPI da Pandemia no Senado, não se pode esperar outra coisa, senão idiotices.

Os Poderes da República são constitucionalmente independentes e harmônicos entre si, de modo que não há ascendência de nenhum deles sobre os demais. Qualquer estudante secundarista sabe disto, mas Omar Aziz não sabe.

Há uma frase atribuída ao pensador Maurice Switzer, segundo a qual “é melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida”.

Omar Aziz precisa refletir sobre isto.

O saldo mais importante da aprovação de André Mendonça é que ele será o ministro do STF mais preparado intelectualmente para a função. Se vai usar esse preparo em benefício da Justiça e da sociedade é outra história.

A distância intelectual entre André Mendonça é infinitamente elástica em relação a alguns ministros do STF, que fazem da arrogância uma substituta natural do conhecimento jurídico, que eles não têm.

Como se vê, em tempo de antas e capivaras, o Brasil encontra dificuldades para subir a ladeira íngreme em busca de seu destino.  

Mas viva a democracia!

Um dia chegaremos lá.

araujo-costa@uol.com.br