A Justiça e os vira-latas

O jurista Almir Pazzianotto Pinto, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi ministro do Trabalho no governo do presidente José Sarney.

Elegante, educado, culto, inteligente, antes Almir Pazzianotto tinha sido advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje Metalúrgicos do ABC.

O presidente do sindicato à época era Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia ficado rico e nem incorporado Lula ao nome. Era simplesmente Luiz Inácio da Silva.

A riqueza de Lula veio mais tarde, depois de muito trabalho. É o único aposentado do INSS que ficou rico. Inteligência é isto e não se discute.

Na condição de ministro do Trabalho, Almir mandou redigir um documento sobre assunto qualquer de sua pasta. Documento pronto, o assessor o levou ao gabinete, para colher assinatura do ministro.

Depois do publique-se, do cumpra-se e da data, como de praxe em todos os documentos públicos, o nome pomposamente grafado: Almir Pazzianotto.

O assessor não achou muito elegante o Pinto do ministro e o omitiu na redação do documento, talvez pensando em agradar o chefe e criar um fato, uma marca no ministério. Sabe como é, puxa-saco e formiga existe em qualquer lugar.

O humilde Almir Pazzianotto correu os olhos sobre o documento e, com ar de reprovação, perguntou:

– Cadê o Pinto do meu nome?

O atabalhoado assessor não sabia como explicar a omissão de propósito, ponderou aqui e acolá, enrolou-se e acabou corrigindo e grafando o nome correto do ministro, que não abria mão do seu Pinto e, convenhamos, o ministro estava correto.

No livro O Aquário Negro (1986), o frade dominicano Frei Betto inseriu um personagem, que vivia à margem da sociedade e dizia o seguinte:

“Lembrei-me de meu pai falando que a Justiça não tardaria”.

“Prometi a mim mesmo que ia esperar a Justiça e arranjei um amigo, um cachorro vira-lata, cheio de pereba no corpo, fedorento como o diabo, mas muito bom amigo, com quem eu falava como seria o dia em que a Justiça chegasse”.

“Ele dormia comigo e comia da mesma farinha e do mesmo feijão e ele me dizia que tinha orgulho de ser vira-lata e que quando viesse a Justiça, os vira-latas iam tomar conta do mundo”.

Acho que João Dória (PSDB), governador-pavão de São Paulo e o presidente da República Jair Bolsonaro estão rodeados de assessores à semelhança do assistente de Almir Pazzianotto Pinto, preocupados somente com detalhes sem importância e não, propriamente, com o conteúdo, o principal: o dever de governar com seriedade e decência.

João Dória vem apequenando a governadoria de São Paulo. Despreparado e pernóstico, agora se rebaixou até mais não poder e usou palavras inapropriadas na televisão contra o presidente da República, simplesmente com o intuito de firmar-se para a disputa presidencial de 2022.

Por sua vez, o presidente Bolsonaro revidou o palavreado sem freio do governador-pavão, também usando expressões inapropriadas para o elevado cargo que ocupa.

A população está definhando, centenas morrendo todos os dias, porque tanto o governo federal quanto os estaduais e prefeitos não tomaram as rédeas de suas atribuições e se descuidaram do avanço da pandemia do coronavírus.

Já falta oxigênio nos hospitais, como é o caso de Manaus, no Amazonas. Há quem esteja recorrendo à Justiça para, pelo menos, conseguir o básico: ar para respirar.

Enquanto isto, à semelhança do personagem de Frei Betto, os vira-latas que somos nós governados, aguardamos a Justiça chegar para dominarmos o mundo. Em vão.

A Justiça não chegará. Nunca chegará.

A Justiça existe para os ricos, para os afortunados, para a elite desavergonhada que dilapida os cofres públicos do Brasil, para os homens públicos inescrupulosos.

Alguns até furtaram o dinheiro destinado ao combate à pandemia do coronavírus.

Ah! Para esses a Justiça chega. Apressadamente. E os concede Habeas Corpus para se livrarem do xilindró e continuarem furtando.

araujo-costa@uol.com.br

Entre jatinhos, traições e dinheiro público.

A campanha para a presidência da Câmara dos Deputados está escancarando o que a sociedade já sabe: dinheiro público sendo esbanjado a torto e a direito, como se crise pandêmica e econômica não houvesse no Brasil e traições, muitas traições, além de promessas presumivelmente inconfessáveis em público.

Os dois candidatos declarados à presidência da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP) estão percorrendo os estados, para encontros com governadores, aliados e políticos locais, usando jatinhos particulares, geralmente modelos de oito lugares.

Segundo suas Excelências os candidatos, esses sofisticados jatinhos estão sendo pagos por seus partidos respectivos – dinheiro público do fundo partidário, portanto – mas desconfia-se que alguns conhecidos empresários estão financiando, à sorrelfa, dissimuladamente, as duas campanhas e, por certo, vão cobrar a fatura depois, cujo pagamento sairá do bolso do alquebrado contribuinte brasileiro.

Como é praxe, também acontecem traições de ambos os lados. Parte do Partido Social Liberal (PSL), que em princípio havia apoiado Baleia Rossi, rompeu o acordo e se bandeou para o ninho de Arthur Lira, o candidato do presidente Bolsonaro.

Aí surgiu no PSL uma figura estrambótica: a expulsão voluntária, ou seja, a direção do partido sinalizou que os deputados que não honraram o acordo no sentido de votar em Baleia Rossi serão expulsos da agremiação, desde que deixem o partido de livre e espontânea vontade.

É um novo tipo de expulsão, que o PSL inventou. Os humoristas gostaram.

Nesse balaio de gatos, o Partido dos Trabalhadores (PT) está apoiando o outrora “golpista” Baleia Rossi (MDB) e, na campanha simultânea para presidência do Senado Federal, este mesmo PT sinalizou que vai apoiar o candidato do presidente Bolsonaro, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Para o PT, coerência é um bicho que corre em disparada, sem nenhuma hipótese de ser alcançado pelo partido.

Só os petistas acreditam que a direção do partido está costurando esses acordos esquisitos e avessos ao pensamento da esquerda, sem nada em troca e tão-somente em nome da convivência democrática.

Diante disto, difícil descobrir o que o “golpista” paulista Baleia Rossi e o senador mineiro Rodrigo Pacheco prometeram ao PT, em troca desses estranhos e inexplicáveis apoios.  

araujo-costa@uol.com.br

Liberdade de opinião e direito de divergir

“No mesmo dia já me chamaram de bolsonarista e radical de esquerda, por desconhecidos da internet, sem nenhum conhecimento de minha história” (Fafá de Belém, cantora).

Este escrevinhador também. Alguns desinformados já me chamaram de bolsonarista e outros lunáticos dizem que sou antipetista e antilulista. Há até quem use a expressão “seu presidente” ao se referir a Bolsonaro. 

Só há uma explicação para pessoas que pensam assim: elas padecem de falta de informação e de capacidade de conviver com os antagonismos de maneira democrática. Não têm respeito às opiniões contrárias e se apegam às paixões políticas.

A liberdade de opinião e a livre expressão do pensamento são bens inquestionáveis e inatacáveis assegurados em mandamento constitucional.

Por óbvio e elementar, ninguém é obrigado a concordar com a opinião de outrem, mas também é insensato sair por aí distribuindo rótulos simplesmente porque pensa de forma contrária. Isto é pequenez de raciocínio, pensamento acanhado.

O político mineiro Tancredo Neves, conhecido articulador e defensor do diálogo entre adversários, dizia que “são as ideias que devem brigar e não os homens”, ou seja, não se devem misturar as coisas.

Lembro da conhecida frase do jornalista Reinaldo Azevedo (O País dos Petralhas), que lhe rendeu gigantescos protestos da esquerda: “Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil”.

Outrora crítico contumaz do Partido dos Trabalhadores e de seus métodos, Reinaldo Azevedo hoje deita-se esplendidamente no colo de Lula e dos petistas, o que significa dizer que as opiniões mudam, os fatos mudam, a realidade se transforma e, apesar disto, o mundo não acaba e, se vier acabar, não será por isto.

Tenho o hábito de acompanhar e comentar os fatos políticos relevantes de minha região, especialmente de dois municípios encravados no sertão baiano, que me são caros: Curaçá e Chorrochó.

É uma forma de contribuir modestamente com o debate político de lá, sem nenhuma pretensão de ofender este ou aquele grupo político ou qualquer pessoa, isoladamente.

Em razão disto, tenho recebido manifestações severas de defensores de grupos políticos locais, embora poucas, felizmente. Sou aberto às críticas, tanto que deixo meu e-mail ao final de cada texto publicado.

Essas manifestações acompanham-se de um quê de rancor incapaz de colocar-se no campo da civilidade.

Contudo, a maioria compreende meu intuito de contribuir para o debate de ideias. Logo, a maioria inteligente “captou a mensagem”, como diria o aluno do professor Raimundo.

De outro turno, esses debates, qualquer que seja o autor – e não somente este escrevinhador – contribuem modestamente para despertar nos jovens e estudantes de hoje o hábito de aprenderem a pensar, de modo que não se transformem mais tarde em massa de manobra de políticos espertos, inescrupulosos e moralmente indecentes.

Ao contrário, quando meus textos versam sobre assuntos nacionais, as críticas são mais amenas, o que significa entender que o acanhamento de ideias ainda se concentra nos pequenos municípios de nossos rincões.

Ou, num raciocínio mais amplo, o enraizamento das paixões políticas ainda não se desvinculou do mandonismo dos chefes políticos locais e da proximidade entre a troca de favores e as urnas.

Para as pessoas desvalidas e abandonadas, a promessa de um emprego público ou a limpeza de uma barragem no sertão, para saciar a sede do criatório do sertanejo, estão acima de qualquer opinião ou crítica política.  

Em resumo, o bom da democracia, dentre outros esteios, é a convivência polida com os contrários e a liberdade de opinião, sem excessos, dentro dos parâmetros permitidos por lei.

Temos o direito de divergir, em quaisquer situações.

Todavia, não custa ponderar primeiro os fatos e auscultar a verdade, antes de sairmos por aí apedrejando os outros, tão-somente porque pensam diferente de nós.

araujo-costa@uol.com  

Sobre vacinas, jacarés e escárnios

Toda asneira que o presidente da República diz – e não devia dizer – a imprensa faz estardalhaço porque, ademais, o papel da imprensa é este: informar.

O presidente Bolsonaro andou duvidando da eficácia e segurança de uma das vacinas em estudo e até levantou a hipótese do imunizante transformar pessoas em jacarés.

Evidente que se trata de uma brincadeira sem graça e inoportuna nesta quadra difícil por que a humanidade vem passando.

Todavia, a imprensa não fala de outro assunto. Parece que as besteiras que o presidente fala são mais importantes do que a seriedade dos demais problemas que o Brasil enfrenta.

Com o aumento dos casos da pandemia do coronavírus e o consequente colapso do sistema de saúde, que já se mostra incapaz de absorver e tratar os infectados, melhor que nos vacinemos, quando for possível e nos arrisquemos em ser transformados em jacarés do que faltarem cemitérios para enterrar nossos mortos e a nós próprios.

Pântanos e lagoas há muitos.

O cenário é assustador. Em São Paulo já não há vagas em hospitais.

O governador-pavão de São Paulo, que a imprensa adora e o eleva ao pedestal da hipocrisia, diz que São Paulo vai bem, sim senhor. Mas João Dória não explicou, até hoje, porque concordou em enterrar milhões de reais nos hospitais de campanha e permitiu que fossem desativados em plena pandemia.

Em todo caso, já é hora de o presidente da República deixar que seus assessores falem dos assuntos de governo, inclusive sobre campanha de vacinação e fique quieto para não fragilizar ainda mais o estado emocional dos brasileiros.

Até na ditatura militar (1964-1985) os generais-presidentes tinham porta-voz para falar em nome do governo e não saíam por aí falando impropriedades asnáticas.

Escárnio I

“Sem precisar participar de nenhuma votação e nem sequer pisar em Brasília, a senadora Nailde Panta (Progressistas-PB) poderá receber R$ 52 mil entre salários e verbas indenizatórias por apenas 15 dias no cargo, no recesso parlamentar.

Segunda suplente na chapa de Daniella Ribeiro (PP-PB), a parlamentar tomou posse anteontem, mas só deve ocupar a vaga até o dia 21 deste mês, quando a titular retorna de licença.

Mesmo assim, terá direito a todos os benefícios previstos nas regras do Senado” (O Estado de S.Paulo, 08/01/2021).

Um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes.

Escárnio II

A Câmara dos Deputados paga para cada um deputado a quantia de R$ 33,7 mil, a título de auxílio-mudança.

Ou seja, os deputados federais recebem esse auxílio-mudança no início e no fim do mandato, mesmo que morem em Brasília e não precisem fazer qualquer mudança.

Total da conta que os brasileiros pagam por essa maracutaia indecente: R$ 20 milhões, como ajuda de custo. Isto mesmo, ajuda de custo.

Mais um escárnio, um acinte a todos nós, contribuintes

Esta história é antiga. Só se repete a cada legislatura.

Ninguém muda. Ninguém quer mudar.

As regras são feitas pelos próprios parlamentares que delas se beneficiam.

araujo-costa@uol.com.br

A grandeza e a humildade de João Gilberto

O mistério faz parte da construção dos mitos ou, no mínimo, dá-lhes razões para crescerem à sombra das idiossincrasias nem sempre explicáveis.

Assim, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), ou simplesmente João Gilberto, um desses mitos construídos a partir de Juazeiro, sua cidade natal.

João Gilberto abeberou-se na cultura de Barro Vermelho, sertão de Curaçá, onde o pai Joviniano Domingos mantinha raízes culturais e nos encantos ribeirinhos do Rio São Francisco. De lá saiu para o mundo.

Esculpiu um temperamento difícil, solitário, avesso a badalações.

A fama o protegeu das vulgaridades e não lhe permitiu o apego aos holofotes. Fez o caminho inverso daquele seguido pelas celebridades ligadas à música. 

Muito já se escreveu sobre suas manias e esquisitices. São muitas, inumeráveis, algumas delas fazem parte do mito, viraram lendas.

O experiente jornalista Ricardo Noblat conta uma. Entrevista previamente marcada, o repórter ligou o gravador, para começar a conversa. João Gilberto pergunta: “Vai ligar o gravador? Olhe, não ligue não. Eu mudo muito de ideia. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”.

Agora, a cantora Joyce, conta outra no livro Aquelas Coisas Todas.

Joyce chegou ao apartamento de João Gilberto, em Nova York e o anfitrião pediu sanduíches. Ao abrir as embalagens, Joyce notou que faltava um garfo. João resolveu a situação: “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”.  

Juazeiro, Rua Góes Calmon. Há alguns anos, eu conversava amenidades na calçada da Sociedade Apolo Juazeirense, uma das instituições tradicionais de Juazeiro. Do alto de minha ignorância, não sei se ainda existe e se o endereço continua o mesmo.

O assunto resvalou para João Gilberto.

Lá para as tantas, meu interlocutor ponderou que João Gilberto não visitava Juazeiro porque tinha vergonha dos alagadiços e esgotos da cidade. Maldade. João Gilberto adorava Juazeiro e dizem que até visitava a cidade humildemente, sem estardalhaço.

Já naquele tempo – década de 1970 – os prefeitos Joca de Souza Oliveira e Américo Tanuri prometiam resolver o problema dos pântanos e esgotos a céu aberto existentes em Juazeiro e João Gilberto nunca teve nada com isto. Os administradores subsequentes devem ter resolvido o problema. Certamente resolveram e aquela nódoa deve ter sido extirpada da cidade.

Talvez os esgotos nem fizessem mais parte de suas lembranças da infância vivida por lá na década de 1940. Mas Juazeiro gosta muito dele. É uma honra para o lugar. O Centro de Cultura João Gilberto está aí para atestar o amor de seu povo pelo filho ilustre.   

João Gilberto mantinha uma vida misteriosa. Vivia em reclusão voluntária.

Vizinhos de seu apartamento carioca no Leblon sempre disseram que nunca o viram e que não atendia a porta.

Sabe-se que trabalhava à noite e dormia durante o dia, normalmente até às 17:00 h. Pedia as refeições por telefone e os entregadores nunca ultrapassaram a soleira da porta. Não recebia visitas, exceto familiares e um restrito número de profissionais ligados ao seu trabalho.

Perfeccionista, misterioso, detalhista, dedicava-se solitariamente à música.

Como todo mito, ninguém o via, ninguém o tocava, ninguém o conhecia de perto. Sua grandeza residia na humildade.

João Gilberto deixou a vida e seus mistérios em 2019.

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Patamuté: memória da professora Beatriz

Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes/arquivo Wagner Reis

“Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro” (José Marti, poeta cubano, 1853-1895)

Esta é uma crônica de saudade, com algum quê de envelhescência. Um olhar sobre a memória e dignidade de uma mestra na arte de educar.

Guardo, com muito carinho, um documento expedido em 10 dezembro de 1967. Trata-se do diploma de conclusão do meu curso primário na Escola Estadual de Patamuté.

Naquele tempo fazia-se o primário em cinco anos, que habilitava o aluno para a admissão ao curso ginasial, que se constituía no sonho da maioria dos estudantes pobres do sertão, inalcançável para muitos.

Hoje esse documento – diploma – apequenou-se e é comumente chamado de certificado. Melhor, apequenaram-no, talvez em razão das exigências do tempo.

O diploma traz a assinatura da professora que me ensinou e acompanhou meus dias naquela fase estudantil tão difícil e importante em minha vida: Beatriz Gonçalves dos Reis.

Mais tarde, em razão do casamento com José Gomes Reis Filho, ilustre senhor de família tradicional de Patamuté, ela passou a assinar Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes.

Com a professora Beatriz aprendi a antever novos horizontes, contemplar as perspectivas, expandir os sonhos da mocidade e colocar o pé no estribo em direção ao desconhecido.

Beatriz era lotada no Departamento de Educação Primária do Estado da Bahia e, como tal, professora em Patamuté.

Como se dizia à época, “professora formada”, ou seja, habilitada formalmente, para o exercício da profissão, porque naqueles idos as professoras do interior raramente tinham formação em magistério.

Beatriz tinha formação, porque seu pai, Júlio Reis, um sujeito decentíssimo, permitiu que ela estudasse fora do então modorrento Patamuté.

O documento é importante em minha vida. Será sempre. É o segundo, depois da certidão de nascimento. E importante porque a assinatura da professora Beatriz é uma láurea para este humilde escrevinhador. E se o é, é-o no que concerne à minha satisfação. Eu admirava e ainda hoje a guardo na memória como um dos pilares do ensino em Patamuté e de minha formação.

Beatriz era conspícua, atenciosa, inteligente, educada, elegante. Olhar ativo e altivo, sorriso largo e sincero, irradiava bondade aos circunstantes. Deixou-me sólidos e robustos exemplos de ética, profissionalismo e decência.

Penitencio-me diante de sua memória por ter seguido alguns desses exemplos e outros nem tanto. Mas isto deve ser debitado unicamente à minha fraqueza humana.

Embora não tenha nenhuma pretensão de ser memorialista ou historiador, devo lembrar que Patamuté deve muito à professora Beatriz pelo seu trabalho, quase sempre em condições inóspitas, em benefício da infância e da juventude da época. Sua memória merece mais atenção das autoridades do município de Curaçá, evidenciando-a perante todos, mormente relativamente aos jovens, às gerações de hoje.

Quando Beatriz se dedicava à luta para educar jovens, por extensão estava construindo um novo tempo para Patamuté, que ainda hoje reluta em alcançar.

Se no presente o ensino em Patamuté dá-se em condições precárias, imaginemos cinco décadas atrás.

Deixo aqui meu respeito e admiração aos professores de hoje, em Patamuté, que lutam arduamente em seu difícil mister de ensinar.

As condições de ensino que Beatriz enfrentou eram adversas, difíceis. Todavia, ela nunca abdicou de seu dever de ensinar e o fazia com generosidade, esforço e bravura.

Patamuté deve prestar-lhe reverência. Há muitas formas de fazê-la. É preciso resgatar sua memória do ostracismo. É necessário que a sociedade patamuteense reconheça o seu trabalho em prol da educação e da dignidade de sua gente. E isto deve ser feito através das autoridades do lugar.

Deixo aqui uma sugestão aos vereadores e ao prefeito de Curaçá:

Considerem o nome da professora Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes para nomear algum equipamento público no distrito de Patamuté. Mais do que homenagem, trata-se de respeito à sua memória.

Se, à semelhança do poeta, não temos o condão de perfumar o século, pelo menos tenhamos a coragem de guardar com dignidade a memória de nossos antepassados.

araujo-costa@uol.com.br   

O PT e os “golpistas”

Quem tinha dúvida de que a principal ideologia do Partido dos Trabalhadores (PT) é poder e dinheiro deixou de ter.

Só há duas categorias de pessoas que acreditam na seriedade do PT: os petistas e os aliados dos petistas.

Com vistas às eleições para a presidência da Câmara dos Deputados, o PT formalizou seu apoio ao candidato do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) do ex-presidente Michel Temer.

Temer comandou a agremiação em diversos períodos e manda no partido desde sempre. As decisões mais importantes do MDB passam por Michel Temer.

Esse alinhamento PT-MDB sempre houve. O principal fiador da chapa Dilma-Temer foi o morubixaba Lula da Silva. Mas depois do impeachment de Dilma Rousseff, as coisas azedaram entre eles. A situação era de vaca não conhecer o bezerro.

Agora, o PT apoia o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), um dos homens de confiança do ex-presidente Michel Temer, na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, que acontecerá em fevereiro.

O deputado Baleia Rossi fez campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e votou pela queda da então presidente, assim como os mesmos emedebistas que hoje o PT senta no colo e os afaga.

Ninguém sabe – nem saberá nunca – o que está envolvido nesse apoio do PT ao deputado Baleia Rossi e o que o partido pediu em troca.

O PT diz que Baleia Rossi prometeu independência da Câmara e rejeição de alguns projetos de Bolsonaro que passam pelo Legislativo e contrariam a esquerda. Alguém acredita?

Pergunta-se:      

Para o PT e seus aliados, o MDB e os emedebistas não eram golpistas durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Não eram golpistas durante todo o governo de Michel Temer?

Não eram golpistas ao viabilizarem a ascensão de Michel Temer à presidência da República que, no fundo – diziam os petistas – era um plano para implodir o PT e suas ideias?

O deputado Baleia Rossi não era golpista até ontem?

O PT mudou ou mudaram os golpistas?

Ninguém se assuste se, algum dia, o PT vier apoiar politicamente o pernóstico e grosseiro ex-juiz Sérgio Moro, algoz de Lula da Silva.

O PT faz coisas inimagináveis. Despudoradamente.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó, boato e expectativa

O jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto (1956-2016), dizia que “o jornalista é o único animal vertebrado capaz de acreditar em boatos, porque nenhum boato é gratuito”.

“O boato é o mais antigo meio de comunicação de massa, muito antes do ouvir-dizer. Ninguém é responsável pelo boato, mas todo mundo está a par dele. A fonte do boato é inacessível, oculta e misteriosa”, diz o professor Jean Noel, que escreveu um livro sobre o tema.   

As urnas não trouxeram surpresas no que tange à composição da Câmara Municipal de Chorrochó.

Aliás, as urnas não trouxeram quaisquer surpresas, quer relativamente à Câmara, quer no que concerne ao Poder Executivo. Mas é preciso considerar alguns aspectos que estão carreando para firmar o contexto da administração municipal que se inicia em janeiro de 2021.

Fechadas as urnas, mais que boatos, surgiram expectativas de que o prefeito reeleito Humberto Gomes Ramos faria alguma construção política no sentido de alterar o desenho da composição da Câmara Municipal, uma espécie de engendramento para robustecer-se ainda mais no Executivo e assegurar a inquestionável solidez de sua base no Legislativo.

A rigor, o prefeito não precisa disto, mas em política não há nada impensável. O prefeito tem estrondosa maioria no Legislativo, quase unanimidade e ampara-se em inegável lastro popular e político no Executivo.

Eventuais acomodações aqui e acolá não significam necessidade de fortalecer-se, vez que o prefeito é politicamente forte, talvez um mimo, um afago político a aliados.  

Mudam-se as peças do tabuleiro, mas o jogo continua o mesmo. O grupo político do prefeito é coeso e cada vez mais se fecha em torno do alcaide, que caminha para duas décadas no comando político de Chorrochó.

Embora ainda não confirmado, tudo leva a crer que o prefeito levará pelo menos duas vereadoras de sua extrema confiança para o Executivo e abrirá espaço na Câmara Municipal para entronizar aliados leais, entre eles o ex-vereador Wellython Luiz Pacheco de Menezes, que ficou pendurado em uma das suplências.  

A razão é compreensível e relativamente simples. Por exemplo, a vereadora Sheila Jaqueline Miranda Araújo, que deve ser reconduzida à Secretaria de Saúde do município, fato já esperado, ostenta sólida lealdade ao prefeito.

Em política, a lealdade é fundamental, como é em todas as áreas da atividade humana.

Lealdade pressupõe grandeza, firmeza de caráter, humildade, decência e respeito mútuo.

Profissional de destaque, Sheila Jaqueline é descendente de família de caráter irrepreensível. Esteia-se nas raízes políticas do pai e ex-prefeito José Juvenal de Araújo e do avô Oscar Araújo Costa, honra e glória do povoado de Caraíbas.

Oscar foi uma espécie de patriarca respeitado e reverenciado por sua gente de Caraíbas e circunvizinhanças. Ainda hoje persistem por lá os andaimes que ele engendrou em benefício do povo.

Em quadro assim, o prefeito Humberto Gomes Ramos se sente confortável para reconduzir a vereadora Sheila Jaqueline às hostes do Executivo, porque conhece seu trabalho e dedicação, o que, de resto, é sobejamente conhecido da população.

A outra vereadora que certamente será guinada a uma secretaria no Executivo é a socióloga Jane Edla Fonseca de Souza, também leal ao prefeito e proveniente de família tradicional e correta de Barra do Tarrachil, maior base eleitoral do prefeito Humberto.

Boatos ou expectativas à parte, o fato é que Wellython Luiz Pacheco de Menezes é uma acertada escolha para a Câmara Municipal. Experiente, já exerceu outros mandatos de vereador, de modo que é um bom quadro para assumir qualquer vaga no Legislativo.  

Ademais, Wellython conhece bem a maçaneta do Legislativo e provém de família respeitável cuja seriedade política não comporta dúvida.

Wellython é filho de Walmir Prudente de Menezes, que deixou exemplo de dignidade e decência e neto de Antonio Pacheco de Menezes, um dos esteios da sociedade de Chorrochó. Isto por si só lhe credencia como homem público, de modo que o prefeito Humberto está bem acompanhado.

Outras costuras políticas podem estar no radar do prefeito Humberto Gomes Ramos.

araujo-costa@uol.com.br

Solidão do dia seguinte

O carteiro que serve minha rua, que é jovem, não viveu a época em que as pessoas mandavam cartões desejando votos de “feliz Natal e próspero Ano Novo” para parentes, amigos, conhecidos e sujeitos de suas relações, ainda que comerciais.

Não só o carteiro desconhece essa época, mas as gerações mais recentes, que vivem nessa confusão eletrônica e necessária a essa quadra do tempo.

Aliás, com os avanços tecnológicos, carteiros já se aproximam da extinção.

Os envelopes continham traços de sinos e adereços alusivos à ocasião e dizeres bonitos, floridos, admiráveis. As mensagens abarrotavam as agências e postos dos correios em finais de ano.

Ao receber as correspondências, perguntei ao diligente estafeta se havia cartões de Natal. Surpreso, diante da novidade, respondeu seco, quase assustado com a minha pergunta envelhescente:

– Acho que não.

Esse costume não existe mais. As comunicações online extinguiram essa forma tão eficiente de relacionamento: as felicitações pela passagem das festas de fim de ano.

Hoje quase ninguém mais manda cartões, chega a ser uma cafonice, um atestado de desinformação e até, em certos casos, um comportamento irrefletido diante de tanta parafernália eletrônica em tempo real.  

Interessante é que a mudança se deu mui rapidamente. Eu tinha o hábito de mandar cartões de Natal, até por educação e etiqueta. Vi-me ultrapassado de repente. Neste 2020 não mandei sequer um. Fui desencorajado pela onda de frieza que assola as metrópoles e para não correr o risco de ser chamado de jurássico.

A indiferença passou a ditar o comportamento, ainda mais neste tempo de pandemia cruel e de distanciamento físico e emocional.

A evolução da sociedade vai dizimando, em seu bojo, as formas simples de convivência, destruindo friamente os relacionamentos e corroendo os vínculos sociais que já eram escassos.

Estamos todos menos calorosos, desinteressados pelos outros, excessivamente críticos e egoístas, de sorte que muitas coisas perderam importância, embora muitos de nossos valores estejam ínsitos nas pequenas coisas.

Em breve os cartões de Natal serão lembranças e relíquias para colecionadores, assim como as cartas que não escrevemos mais e os recados verbais que não mais mandamos para amigos e familiares.

As cartas foram substituídas por mensagens eletrônicas frias, sucintas, às vezes automáticas, insignificantes diante da grandeza humana.

Vivemos à espera da solidão do dia seguinte.  

Desejo a todos próspero 2021 com muita saúde e compreensão.  

araujo-costa@uol.com.br                       i

Se tivessem vergonha

“Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados” (Apparecido Torely, Barão de Itararé, 1895-1971)

Primeiro, foram os promotores de São Paulo, do alto de suas intocabilidades, reivindicaram que fossem vacinados contra o covid-19 antes de toda a população de São Paulo, um privilégio escandaloso e inaceitável.

A imprensa descobriu a ilegalidade e eles recuaram, não foram adiante. Não fosse isto, teriam formalizado o privilégio junto às autoridades de saúde, com o beneplácito do governador-pavão João Dória .

Risível a justificativa dos promotores: eles trabalham em contato com o público. Esqueceram de dizer que a população em geral tem contato com o público e não somente Suas Excelências.  

Na mesma linha, dias depois, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) endereçou ofício à Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) sinalizando que seus intocabilíssimos ministros e servidores do tribunal deveriam ser os primeiros a ser vacinados, também contra o covid-19.

A séria Fiocruz negou o pedido, obviamente.

Pior, muito pior: semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF), que é o guardião da Constituição, também endereçou ofício à Fiocruz solicitando que disponibilize 7.000 doses de vacina contra o covid-19 para seus supremos ministros e servidores do tribunal.

Servidores aqui compreendem: terceirizados do tribunal, funcionários, cônjuges, filhos, netos, bisnetos, tataranetos, pais, mães, avós, bisavós, todos que fazem parte do ambiente familiar do STF. Os verdadeiros privilegiados, uma média de 636 pessoas para cada dos 11 intocáveis e elitistas ministros..

Nos dois casos, a Fiocruz negou os pedidos sob o sensato e inquestionável argumento de que as vacinas, quando estiverem prontas, serão entregues ao Ministério da Saúde, de modo que a fundação não tem autonomia para assegurar tais privilégios a Suas Excelências.

O presidente do STF, em entrevista à televisão, sem nenhum constrangimento, tentou justificar a desfaçatez, dizendo que o tribunal teve a “preocupação ética” de ponderar que o pedido seria “dentro das possibilidades”.

“Preocupação ética” teria ocorrido se o STF não tivesse pedido as doses de vacina e pretendido furar a fila num claro desrespeito ao mandamento constitucional.

É o famoso “sabe com quem está falando?”, também conhecido como “carteirada”. A elite desavergonhada se acha no direito de pisotear o direito dos demais brasileiros, mormente da classe pobre.

Em última análise, ao tentar justificar o injustificável, o presidente do STF demonstrou não acreditar na inteligência dos brasileiros. Zombou de nossa capacidade de entendimento. Bastava dizer: o STF pretendia transgredir a Constituição Federal e pronto.

O que assusta nisso tudo é o fato de promotores e ministros dos tribunais superiores, que têm o dever de cumprir a lei e dar o exemplo, desrespeitem acintosamente a Constituição Federal, que diz em seu artigo 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

Essas autoridades precisam aprender a ler a Constituição da República, os compêndios de gramática e os dicionários, para entenderem a expressão ínsita na Constituição, que diz cristalinamente: todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza.

A impressão que fica é que a Constituição Federal e o ordenamento jurídico nacional, como um todo, devem ser cumpridos somente por nós mortais comuns e não por Suas Excelências os privilegiados.

Por outro lado, o governador de São Paulo mandou fechar o estado e determinou que sua equipe desse a notícia ruim, segundo a qual o laboratório chinês não aprovou, por enquanto, o índice de eficácia da vacina Coronavac produzida pelo Instituto Butantan. Deixou o desgaste político para o vice-governador.

João Dória mandou os paulistas ficarem em casa, pegou o avião e foi curtir férias em Miami, na Flórida, com a esposa.

O governador não esperava que aliados políticos, adversários e as redes sociais em geral o detonassem pelo gesto irresponsável: no momento em que aumentam assustadoramente os casos e as mortes por covid-19 em São Paulo, ele virou as costas à população e foi passear, como se vivesse nos melhores dos mundos. Magnata, pouco importa o sofrimento dos outros.

Mas o resultado não saiu de acordo com o figurino do governador. Calhou que o vice adoeceu e ele teve de voltar às pressas para reassumir o Palácio dos Bandeirantes.

Só retornou antes do previsto, em razão dessa circunstância inesperada.

João Dória inventou uma desculpa esfarrapada ao regressar, que não convenceu nem a ele próprio. Disse que foi participar de duas conferências nos Estados Unidos e aproveitou para descansar 10 dias.

Lorota. Embromação. Falta de sinceridade.

O jornalista Alexandre Garcia, conferencista renomado, disse que não é comum a realização de conferências no período entre o Natal e Ano Novo, as chamadas festas de fim de ano, mais improvável agora, em tempo de pandemia que, inclusive, castiga os Estados Unidos.    

Pífio, vergonhoso e insustentável o argumento do governador.

Ficou feio, como tudo que faz o governador-pavão de São Paulo.

O embuste do governador não colou e ele teve que absorver o desgaste. Mais que depressa, gravou um vídeo pedindo desculpas à população, como se o pedido de desculpas reparasse o erro.

O estrago político está feito, não há conserto.

Se nossas autoridades tivessem vergonha, o Brasil seria diferente e estaria noutro patamar de civilidade.

É uma elite escabrosa e defensora das negociatas disfarçadas com manto legal, desde que o povo seja excluído.

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