A dúvida do PT e a máscara de Sérgio Moro

“Eu não existiria, sem as minhas repetições” (Nelson Rodrigues, escritor e jornalista, 1912-1980)

A espevitada presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffman, insiste em não admitir a derrota do partido nas eleições municipais de 2020.

O PT tem dúvida se o partido perdeu nas urnas. Não exatamente o PT, mas sua presidente.

Para usar uma palavra da moda, Gleisi Hoffman passou a ser negacionista, defeito que o PT e seus aliados tanto apontam no presidente Bolsonaro, inclusive a imprensa de esquerda.

O jornal O Estado de S.Paulo publicou que “tá difícil cair a ficha” dos dirigentes petistas no que tange à derrota nas urnas.

O jornal acrescenta que no PT “os realistas avaliam que o distanciamento entre o partido e eleitorado é tão grande que o resultado teria sido pior se Lula não tivesse insistido para que veteranos fossem candidatos em cidades importantes” (Coluna do Estadão, 02/12/2020)

A presidente (ou seria presidenta, como os petistas gostam de dizer?) em sua subida honra partidária está culpando a pandemia do coronavírus pela derrota do partido (que ela ainda não admite), não se sabe exatamente a razão, já que os demais partidos políticos enfrentaram a mesma realidade pandêmica e alguns até saíram vitoriosos.

Um exemplo: no grande ABC, berço político de Lula da Silva, o PT ganhou em Diadema, não exatamente porque o prefeito eleito é do PT, mas porque Filippi Júnior é conhecidíssimo da população, já foi prefeito do município outras vezes e tem relevantes serviços prestados a Diadema. Se outro tivesse sido o candidato do PT teria perdido.

Ex-juiz Sérgio Moro

Na condição de juiz federal chefe da Laja Jato, Sérgio Moro arruinou a Odebrecht, a OAS e outras construtoras nacionais. Isto não significa dizer que ele agiu de forma errada, mas não exclui a realidade no sentido de que carreou as empresas para o despenhadeiro, gerou desemprego, provocou demissões em massa e, mais do que isto, puniu seus dirigentes com sentença penal condenatória e os mandou ao xilindró.

Agora, uma gritante contradição: a empresa americana M & A Marcos Ganut, a maior do planeta na área de recuperação empresarial, contratou o ex-juiz Sérgio Moro para o cargo de diretor-executivo da instituição. Função de Sérgio Moro: ajudar a Odebrecht e outras empresas a se recuperarem financeiramente da ruína que ele mesmo as impôs como juiz da Lava Jato.

Isto é ético?

Pergunta que o ex-juiz Sergio Moro está moralmente obrigado a responder.

Pergunta que o PT e Lula da Silva têm a oportunidade indeclinável de questioná-lo.

Parece que caiu a máscara de Sérgio Moro e não é a máscara que ele usa para proteção do coronavírus.

Post scriptum:

Assim como o ex-ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, terror do mensalão petista e que costumava passar reprimendas em advogados, embora no exercício da profissão, Sérgio Moro na condição de juiz federal da Lava Jato também tinha a péssima e abominável arrogância de passar descompostura em advogados, inclusive foi muito deselegante com defensores de Lula da Silva.

Primeira decisão de Sérgio Moro, ao deixar o governo Bolsonaro: pedir inscrição nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB concedeu imediatamente. Sérgio Moro hoje é advogado.

Esses juízes pequenos – aliás, pequeníssimos – que no exercício da magistratura menosprezam advogados no estrito cumprimento dos seus deveres constitucionais e legais não deveriam procurar os quadros da OAB quando se aposentam ou deixam a judicatura.

Eles são pequenos demais para ser advogados.

São pequenos demais diante da grandeza da advocacia.

araujo-costa@uol.com.br

O mapa que as urnas desenharam

“Acima da Pátria, ainda há alguma coisa: a liberdade” (Ruy Barbosa, 1849-1923)

As urnas de 2020 começaram a impor limites à esquerda e ao bolsonarismo exacerbado e, por extensão, ao extremismo político-ideológico.

Esquerda e direita saíram das urnas fragorosamente derrotadas. A liberdade indevassável do eleitor falou mais alto.

As urnas acomodaram políticos mais alinhados ao centro, embora já conhecidos.

A retumbância mais notada foi a incapacidade do ex-presidente Lula da Silva de ajudar eleitoralmente seus aliados. Lula é experiente e esperto, mas eticamente atrapalhado, o que não é nenhuma novidade.

Em Recife, Lula apostou todas as fichas em Marília Arraes e abandonou o filho de Eduardo Campos. Eduardo Campos foi seu elogiado ministro de Ciência e Tecnologia.

João Campos (PSB) ganhou a eleição, apesar de Lula e graças a Lula. A lógica e a ética recomendam que Lula devia, no mínimo, ter ficado neutro na disputa, mas ele caminhou em sentido inverso e até prometeu ir à posse de Marília Arraes.

Lula amargou derrota pessoal no Recife e o PT amargou em todas as demais capitais e em alguns municípios de grande porte, o que já se esperava.

Todavia, nada acontecerá de extraordinário no Recife, apesar disto. Vitorioso e derrotada são da mesma tradicional família Arraes e agora, certamente, voltarão a frequentar o mesmo seio familiar, as mesmas cozinhas.

No mapa que as urnas desenharam em todo o Brasil ficou clara a rejeição aos candidatos da esquerda e aos candidatos apoiados pelo presidente da República.

Bolsonaro parece ter notado que atrapalhava mais do que ajudava e ficou um tanto quieto durante a campanha eleitoral, com algumas exceções pouco notadas.

As urnas trouxeram outras novidades.

Na Bahia, feudo do PT, o querido governador dos baianos Rui Costa perdeu nos grandes municípios, a exemplo de Salvador, Juazeiro, Feira de Santana e Vitória da Conquista, dentre outros.

Em São Paulo, o invasor de propriedades Guilherme Boulos (PSOL) deu uma rasteira nos petistas já no primeiro turno e abocanhou votação estrondosa, mas insuficiente para ganhar a Prefeitura, que continua com o PSDB.

O governador-pavão João Dória se encarregará de enterrar o partido. É só esperar.

Os petistas vêm olhando diferente para Boulos desde o primeiro turno. Boulos goza da admiração de Lula da Silva e muitos petistas têm ciúme. Lula também tem predileção por Manuela D`Avila (PCdoB) do Rio Grande do Sul, que saiu derrotada nas urnas, embora esquerdistas dessem a vitória como favas contadas. 

A ultra esquerdista jornalista e comentarista Natuza Nery, da Globo News, fez impressionante contorcionismo para tentar demonstrar que, apesar da vontade contrária das urnas, o PT e Guilherme Boulos saíram vitoriosos nessas eleições.

Não conseguiu. Trampolinagem intelectual desnecessária.

Faltou o célebre mestre da Escolinha do Professor Raimundo para ponderar: menos Natuza, menos, menos…

Entretanto, o que vale mesmo é o mapa que as urnas desenharam.

A liberdade está acima da Pátria e parece estar curando a cegueira popular, afastando a ridícula polarização esquerda-direita e substituindo-a pela sensatez.

É um bom sinal. Aguardemos 2022.

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Em Salvador, PT elege neta de Marighella

“Não tive tempo para ter medo” (Carlos Marighella, 1911-1969)

A vereadora eleita Maria Marighella vai ocupar uma das 43 cadeiras da Câmara Municipal de Salvador, a partir de 2021.

Eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), ela é neta do guerrilheiro comunista Carlos Marighella, da Ação Libertadora Nacional (ALN), ícone da resistência à ditadura militar de 1964.

Líder da luta armada, Marighella foi assassinado pelas forças de segurança da ditadura, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, em 04/11/1969. Está enterrado no Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador.

Na Alameda Casa Branca há uma pedra na calçada, solitária e silenciosa, como convém às pedras, colocada para significar o marco da morte do líder comunista.

A lápide no cemitério de Salvador foi estilizada por Oscar Niemeyer, arquiteto construtor de Brasília, com significativa participação do escritor Jorge Amado, também comunista, que conviveu com Marighella deste os tempos da ditadura Vargas. Ambos foram deputados federais pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jorge Amado por São Paulo e Marighella pela Bahia.

Maria Marighella, não obstante eleita pelo PT, tem visão crítica do partido, o que é um bom sinal. A vereadora eleita diz que o PT colocou à frente o instinto de preservação e abandonou os planos do partido.   

A vereadora promete. Formada pela Universidade Federal da Bahia, tem discurso fluente, esticado, ideologicamente bem calçado e carrega uma rica e pesada história de luta política empreendida pelos avós.  

Maria Marighella pode ser uma das vozes importantes do decadente Partido dos Trabalhadores na Câmara de Salvador.

A vereadora eleita diz que “não houve um primeiro dia de luta” em sua vida. Nasceu “imersa” nas águas das vicissitudes e delineia algumas circunstâncias históricas: quando nasceu, seu avô Carlos Marighella já estava morto, o pai estava preso e a avó Clara Charf, também militante comunista histórica, amargava o exílio em Cuba.

Clara Charf ajudou a fundar o PT e foi membro da Secretaria Nacional de Mulheres, braço do partido.

O Partido dos Trabalhadores tem um bom quadro para soerguer-se politicamente em Salvador.

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O solavanco das urnas

As eleições municipais de 2020 não acabaram, porque ainda vem o segundo turno, mas é possível antever o resultado da chacoalhada que o povo deu em alguns políticos. 

A verdade é que as urnas deram um solavanco nos políticos medíocres, que insistem em agarrar-se ao poder e também nos aventureiros (são tantos!), que queriam alcançá-lo.

Por extensão, as urnas sacudiram os partidos políticos.

Por exemplo: o Partido dos Trabalhadores (PT) perdeu 32% das prefeituras conquistadas em 2016, mesmo caso do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que deixou escapulir 38% das prefeituras arrebanhadas em 2016.

O PT puxou para um lado, o PSDB esticou para o outro e daí surgiu a polarização, ou melhor, o “nós e eles”, que o morubixaba pernambucano de Caetés celebrizou, equivocadamente.

Contudo, o povo agora começou a mandar o recado através das urnas. Há outros caminhos e nem todos levam ao PT e ao PSDB.  

Até o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que reina absoluto em número de prefeituras em todo o Brasil, encolheu 27%.     

Alguns partidos cresceram. É o caso do Democratas (DEM), que Lula da Silva, quando pensava que era Deus, queria extirpar da política do Brasil, mas errou o cálculo político.

O DEM deu um salto e elegeu mais 70% dos prefeitos relativamente a 2016, engordando, sobremaneira, sua fatia no cenário nacional.

O segundo turno parece não trazer surpresas. Haverá eleições em 57 municípios, mas as pesquisas de opinião já sinalizam os candidatos que sairão vitoriosos, de modo que a estatística não beneficia muito o atual cenário partidário. Alguma alteração aqui e acolá, sem nenhuma importância no cômputo geral.

A direita bolsonarista – extrema, para alguns – murchou significativamente nas urnas. A vontade do povo optou por outros caminhos que em nada robustecem a base eleitoral do presidente da República, por enquanto.

Por outro lado, a esquerda também encolheu, como é o caso do PT, que até aqui vinha se portando como matriz controladora dos demais partidos de esquerda, todos afoitos para dividirem o bolo da corrupção nacional.

Na capital de São Paulo, em segundo turno, a esquerda labuta para abocanhar a vitória do invasor de propriedades Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que deu um baile no PT no primeiro turno e empurrou o candidato concorrente petista para o constrangedor sexto lugar.

Guilherme Boulos está se escorando na credibilidade de Luíza Erundina, paraibana de Uiraúna, ex-prefeita de São Paulo e candidata a vice-prefeita. Erundina é um dos grandes nomes da esquerda democrática convicta e ex-petista. Sustenta princípios que o PT jogou no ralo ao optar pela corrupção.

Guilherme Boulos tem a cara de Lula da Silva, cabeça de Lula, barba de Lula, demagogia de Lula e uma capacidade impressionante para contar lorotas, como Lula.

Ou, como dizia Leonel Brizola, “se o bicho tem couro de jacaré, cabeça de jacaré e olho de jacaré, só pode ser jacaré”.

À semelhança de Lula, Guilherme Boulos pode surpreender e ter sucesso político. Até se mudou para a periferia de São Paulo, para dizer que é pobre, mas isto não exclui sua condição anterior de morador de bairro de elite.

Lula começou assim: engabelando os incautos. Deu no que deu.

Os incautos acreditaram e continuam pobres. Lula ficou rico.

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Os números que João Dória escondeu.

Se o PSDB estava procurando um pretexto para começar seu processo de liquidação, encontrou: João Dória.

O governador-pavão é arrogante, pernóstico, pedante, demagogo e, sobretudo, hipócrita. Tudo que a política abomina.

João Dória tem todas as qualidades para ser vendedor de ilusões, aliás o que ele sempre fez, organizando eventos e palestras para a elite empresarial. Mas não ostenta nenhum atributo para governar o mais importante estado da federação.

João Dória está apequenando a cadeira em que se sentaram Jânio Quadros e o professor Carvalho Pinto, dentre outros honrados governadores paulistas.

Pois bem. A imprensa está noticiando o que já se esperava.

O governador-pavão de São Paulo, João Dória, esperou abrir as urnas do primeiro turno das eleições municipais para publicar que os números do covid-19 estão aumentando em São Paulo assustadoramente. Todo mundo sabia. As ruas sabiam. Mas o governador negava.

Médicos e outros profissionais de saúde vinham alertando que as internações estavam aumentando, inclusive nos hospitais particulares, embora o governador insistisse em dizer o contrário.

João Dória sempre faz questão de dizer que obedece o que a ciência determina e que está sendo orientado por uma equipe de dezenas de especialistas em pandemia. Ou ele precisa trocar seus especialistas ou mudar o rumo da prosa.

Antes das eleições, ele havia dito que os casos estavam diminuindo. Mais: não publicou corretamente os números do período de 08 a 14/11/2020, exatamente uma semana antes das eleições, sob alegação de inconsistência no sistema.

O governador apressou-se em dizer que o problema não foi do governo de São Paulo, mas uma falha no sistema de totalização. Estranho, estranhíssimo.

Presume-se que para João Dória não interessava divulgar a verdade e com isso atrapalhar as eleições municipais, que ele tem interesse.

Esses são os números divulgados hoje:

Em 22/11/2020, São Paulo já contabiliza 41.267 mortes pelo covid-19 e 1.209.588 casos confirmados. Nos últimos dias, a doença aumentou 22% na grande São Paulo. A média de crescimento no estado é 18%.

Dados de 18/11/2020 revelavam que a média diária de internações passou de 859 para 1.009.

Passadas as eleições do primeiro turno, o secretário de saúde do governador-pavão disse que o governo de São Paulo poderá tomar “medidas mais austeras e restritivas”, o que significa endurecimento das regras da quarentena. Mas só a partir de 30/11/2020.

Certamente João Dória está aguardando se fecharem as urnas do segundo turno das eleições municipais para anunciar medidas mais rígidas que ele próprio mandou afrouxá-las em todo o estado.

Antes das eleições do primeiro e segundo turnos, nem pensar em endurecer normas. Tudo está às mil maravilhas para João Dória.

Começa o declínio do PSDB, independentemente da provável vitória do partido na capital de São Paulo. João Dória está à frente da derrocada

O PSDB começou a se desmoronar, lentamente, quando Aécio Neves caiu em desgraça.

Agora é a vez de João Dória, apesar da torcida da grande imprensa, que se transformou em bajuladora do governador-pavão.

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Chorrochó: o professor Joaci Campos Lima e os currais eleitorais

Faço uma deferência ao conspícuo professor Joaci Campos Lima, mestre em tudo que faz e ponderado em tudo que diz.

Esta particular consideração vem a propósito de recente artigo que escrevi em 18/11/2020 sob o título Chorrochó vira curral eleitoral do prefeito.

O sábio professor Joaci, sempre com a lhaneza que lhe é comum, discordou do artigo, mormente no que concerne à comparação que fiz da influência do prefeito Humberto Gomes Ramos à frente da administração do município de Chorrochó e os currais eleitorais da Primeira República.

Argumentou o ilustre Joaci que “as gestões de Humberto têm se caracterizado pela descentralização administrativa e, sempre que possível, pela busca da promoção das pessoas”.   

Não duvido, tampouco questionei essas particularidades em quaisquer ocasiões.

Meu artigo cingiu-se à questão político-eleitoral e ao engendramento matreiro que o prefeito vem fazendo ao longo dos anos, com o intuito de manter-se no poder – legitimamente, claro – através do voto popular e sua capacidade de neutralizar a oposição. Não há demérito nisto.

Aliás, o prefeito Humberto sabe laborar nesse terreno com impressionante desenvoltura.

Conseguintemente, o termo curral eleitoral usado por este escrevinhador no retro aludido artigo, segundo o abalizado Joaci, está em desconformidade com o significado daquele da República Velha.

Tem razão o professor Joaci. Os tempos são outros, outras são as idiossincrasias do poder em todos os níveis, diverso é o eleitor. 

A sociedade evoluiu, o que não exclui a esperteza dos chefes políticos no sentido de agarrarem-se indefinidamente ao poder, valendo-se de suas astúcias e raposices.

Todavia, é inegável que o comportamento do eleitor de hoje é diferente daqueloutro da República Velha, adstrito às ordens e comando dos coronéis oligarcas.

Contudo, peço vênia ao professor Joaci para lembrar-lhe que a similitude considerada no artigo não desnaturou a intenção deste articulista: mostrar a força política e o lastro eleitoral do prefeito Humberto Gomes Ramos. Só isto, em síntese.  

A magnífica e clara intervenção do professor Joaci, que muito me honra, serviu para desfazer interpretações equivocadas de alguns leitores deste blog que leram no artigo coisa que lá não está escrito.

O professor foi ao cerne do artigo: os currais eleitorais como fatos históricos.

Assustam-me as redes sociais, confesso. Assustam-me, muito e sobremaneira, interpretações arrevesadas que pessoas menos cautelosas, embora em pequeno número, fazem acerca do que é escrito na imprensa. Ou por falta de conhecimento ou porque não conseguem enxergar nada além das paixões políticas.

Por exemplo: uma leitora que leu o artigo em referência – e certamente não entendeu – disse que rotulei de “cabras e vacas” as pessoas que votaram no prefeito Humberto.      

Credo em cruz, Ave-Maria. Onde isto está escrito no artigo?

Valei-me São Francisco de Barra do Tarrachil!

Valei-me Senhor do Bonfim!

O artigo fala da realidade histórica do Brasil e de nossos costumes políticos. E como é difícil transformar uma expressão da História, que está nos livros, em “cabras e vacas”!

De qualquer forma, salamaleques à parte, deixo registrada minha admiração pelo professor Joaci Campos Lima, certamente um dos orgulhos da Escola Tercina Roriz.

araujo-costa@uol.com.br

Chorrochó vira curral eleitoral do prefeito

Expressão usada na República Velha (1889-1930) por historiadores e cientistas políticos, curral eleitoral significava o âmbito da influência que o chefe político exercia sobre determinada região e comandava confortavelmente o “voto de cabresto”.

Os chamados “coronéis” detinham o controle do poder político local. As oligarquias comandavam a seu talante os destinos de seus currais, de modo que o voto representava a vontade do chefe político e não do eleitor.

Não mudou muito.

Em Chorrochó, na Bahia, o município protagonizou um espetáculo sui generis nas eleições de 15 de novembro último.

O prefeito Humberto Gomes Ramos (PP) foi reeleito com 67,99% dos votos válidos, mais que o dobro do principal adversário Silvandy Costa Alves (Bady), do PSD, que ainda conseguiu arrastar para as urnas 31,20% dois votos.

Não há novidade nisto. Até as formigas de Chorrochó sabiam, por antecipação, que a vitória do prefeito era certa, tamanhos os equívocos de percurso da campanha adversária. Mas surpreendeu a derrota acachapante que o prefeito impôs à oposição.

A oposição de Chorrochó gastou grande parte da pré-campanha ciscando no monturo da ingenuidade estratégica e não conseguiu sequer assegurar razoável presença na Câmara Municipal a partir de janeiro vindouro, ressalvadas eventuais mudanças ou composições que possam acontecer no decorrer da legislatura.

Na Câmara Municipal, dos nove vereadores que tomarão posse em janeiro de 2021, o prefeito contará com oito em sua base de apoio e sustentação.

Este blog se penitencia por eventual erro de avaliação e fará a correção, incontinentemente, se for preciso ou instado a fazê-lo.

A matemática é simples: cinco vereadores foram eleitos pelo partido do prefeito (PP) e três pelo partido do vice-prefeito (PCdoB) e, por óbvio, esses vereadores lhe darão retaguarda no Poder Legislativo.

Prefeito e vice são aliados históricos.

A mirrada oposição ficou isolada, apenas com um vereador, eleito pelo combativo Partido dos Trabalhadores (PT). É a andorinha que sozinha não fará verão. E se fizer, não conseguirá alçar voo seguro para sobrevoar os atos do prefeito e fiscalizá-los.

A oposição de Chorrochó está vivendo, mas não cresce, assim como dizia o paraibano José Cavalcanti, de Patos: “Oposição é como grama de jardim: tem direito de viver, mas sem direito de crescer”.

Esta circunstância confirma que, a partir desse vexame, a oposição de Chorrochó vai-se desidratando ou, no mínimo, se transformando num tosco e mal acabado monumento à ficção política.

O fato é que o ciclo comandado pelo prefeito Humberto Gomes Ramos e seu grupo político enraizado no distrito de Barra do Tarrachil não se acabará antes de completar duas décadas, o que representa inegável fraqueza de seus opositores.

Até aqui, em aproximados 16 anos, a oposição de Chorrochó não conseguiu encontrar o caminho para mandar o prefeito Humberto de volta para casa.

Dessa forma, Chorrochó confirma irresistível tendência para ser um curral eleitoral dominado por Humberto Gomes Ramos, que se tem demonstrado expert na arte de cativar eleitores e manter sua base política.

Pelo menos, nos próximos quatro anos, o prefeito manterá o controle da taramela da porteira do curral.   

Post scriptum:

Este blog deseja êxito aos eleitos e a todos que participaram dessa festa democrática de Chorrochó. O mérito é de todos, vitoriosos e derrotados. O exercício da democracia é salutar, independentemente dos resultados.

Salvo engano ou eventual decisão da Justiça Eleitoral ao contrário, os vereadores eleitos e seus respectivos partidos e votos são os seguintes:

Walber Alves dos Santos (PCdoB) – 691 votos

Samuel Fonseca de Souza Gomes (PP) – 642 votos

Marcos Vinicius Pereira Jericó (PCdoB) – 626 votos

Joelson Alves Moreira (PCdoB) – 579 votos

Jane Edla Fonseca de Souza (PP) – 507 votos

Luiz Alberto de Menezes (PT) – 477 votos

Pascoal Almeida Lima Tercius (PP) – 477 votos

Sheila Jaqueline Miranda Araujo (PP) – 441 votos

Tereza Maria Pires Alcantara Oliveira (PP) – 404 votos

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Curaçá, Chorrochó e as eleições municipais.

“Só um poeta sabe gritar na escuridão” (Joseph Brodsky, poeta russo, 1940-1996)

Hoje falo de meus queridos municípios do sertão da Bahia, simpáticos vizinhos debruçados à margem direita do São Francisco, orgulhosamente caatingueiros e impressionantemente belos.

O altaneiro Curaçá, meu berço e raiz e o não menos altaneiro Chorrochó, que me considero filho adotivo de lá.

Falo da esperança que o povo desses municípios espera florir das urnas de 15 de novembro vindouro.

Falo da costumeira apatia de nossos prefeitos, geralmente sem programas de governo, sem ideias, sem respeito às populações.  

Falo de nossas incertezas, falo do olhar esperançoso de nossa gente sofrida, sempre em busca de novos horizontes, que nunca alcança.

Falo do constrangedor estado de abandono em que se encontram nossas populações rurais, que até, em algumas ocasiões, dependem das bênçãos dos prefeitos para dispor do mínimo necessário como, por exemplo, água em suas casas.  

Mas como se diz lá nas montanhas de Minas, “vamos puxar essa conversa para mais perto”.

Em Curaçá, concorrem às eleições majoritárias três candidatos, cada um a seu modo, prometendo até o que não pode dar e, como de costume, os compromissos que alardeiam se transformam em promessas entre o último dia de campanha e a abertura das urnas.

O prefeito Pedro Oliveira (PSC), que não quer largar a doce rapadura curaçaense, é um tanto experiente, em razão do exercício do cargo que vem ocupando, mas carrega contra si uma série de acusações formuladas por seus adversários, o que não é nenhuma novidade em política.

Dentre outras, a função da oposição é cutucar e fiscalizar mesmo e com isto tentar aperfeiçoar os atos do gestor público, dentro da razoabilidade que se espera de quem se dispõe a discordar.

O que este escrevinhador tem dificuldade de entender, talvez por falta de suficiente inteligência, resume-se no seguinte: por que os denunciantes que hoje aparecem nas redes sociais fazendo cabeludas denúncias contra o chefe do Poder Executivo não o fizeram antes da campanha eleitoral ou o fizeram timidamente?

Deixa pra lá. Talvez estivessem aguardando o frigir dos ovos das composições político-partidárias para saber em que grupo ou lado seria conveniente ficar.

Entretanto, o que importa é que o prefeito está apto para disputar, segundo a legislação eleitoral e a população está com o poder de reconduzi-lo à Prefeitura ou mandá-lo embora.

Outro postulante é Murilo Bonfim (PT) que, segundo razoável parte da população de Curaçá, é um sujeito decente, humilde, prestativo, sem mácula, sem nenhuma mancha em sua vida pública e pessoal.

O terceiro candidato é o ex-vereador Flamber Feitosa (PSD) que, segundo se sabe, é um sujeito decente, correto, de boa índole, muito querido em todo território do município e com boas qualidades para investir-se no cargo de prefeito.

Em Chorrochó, disputam dois candidatos: o prefeito Humberto Gomes Ramos (PP), que luta pela reeleição e o ex-vereador Silvandy Costa Alves (Bady), que se embrenhou na oposição e quer derrubar o reinado do atual prefeito, lastreado em duvidosa aliança com a ex-prefeita Rita Campos que, curiosamente, vem das hostes do prefeito Humberto, que a inventou politicamente.

Todavia, o que interessa nisso tudo é o resultado das urnas. O povo é soberano e sua vontade agiganta-se no esconderijo da sessão eleitoral e se sustenta na liberdade de escolha.

Se a maioria fizer a escolha errada e não surgir uma luz para clarear a consciência dos eleitos, resta ao povo seguir a lição do poeta: “gritar na escuridão” da mesmice.

E aí, como diz a sabedoria do centenário e longevo curaçaense Luizinho Lopes, “só escapa quem voar” (o sociólogo Esmeraldo Lopes anotou esta frase noutro contexto e eu tomo a liberdade de citá-la aqui).

araujo-costa@uol.com.br

Curaçá: quando as eleições passarem

Antonio Balbino de Carvalho Filho (1912-1992), que foi governador da Bahia, fazia uma analogia entre a paixão política e o frasco de remédio.

A expressão “agite antes de usar”, que se vê nas embalagens, é para o remédio fazer efeito e não para quebrar o frasco.

Nessas eleições municipais de Curaçá, o clima de animosidade entre apoiadores de alguns candidatos chega a ser assustador.

Essa malquerença somente acirra os ânimos e não é benéfica para o município e sua população.

Em política, a pessoa que não consegue discernir que o direito de um vai até onde começa o direito do outro, absolutamente não sabe ou não interessa saber o que é democracia.

A convivência com os contrários significa entender que os antagonismos não se confundem com inimizades pessoais. Adversário político é uma coisa, inimigo pessoal é outra, completamente diferente. Isto é elementar, ademais.

A seara política não é lugar próprio para criar desavenças. A seara política é ambiente propício para a civilidade, para o saber conviver educadamente.

Pessoas estão ofendendo outras tão-somente porque têm pensamento político diverso. Os comentários não são polidos, mas agressivos, desnecessariamente agressivos.

Em Curaçá, um leitor de meu blog disse que sou petista, porque falei bem de um candidato que não faz parte de seu grupo político. Acho que foi o primeiro texto meu que ele leu na vida, o que agradeço.

Esclareço ao dileto leitor que nada tenho contra o PT e tampouco contra os petistas.

Outro leitor, este de meu querido Patamuté, disse que quero “aparecer”, exatamente pelas mesmas razões em que o primeiro se baseou para concluir minha suposta preferência partidária.

Quem conhece minha história de vida – e ninguém tem obrigação de conhecer – sabe que “querer aparecer” é uma de minhas incompatibilidades que carrego. Não é meu feitio, nunca foi meu feitio, nunca será meu feitio.

Um terceiro leitor, mais rancoroso, disse que me tinha em outra conta, mas mudou, após ler um dos meus textos, que entendeu ser contra o candidato dele, o que não é verdade.

De qualquer forma, agradeço pela conta que ele me tinha e também pela conta que ele me incluiu, certamente não muito boa.

Muitos seguidores de candidatos a prefeito de Curaçá estão quebrando os frascos e não estão preocupados com o efeito do remédio democrático e com as mudanças que pretendem fazer no município.

Quando as eleições passarem será muito trabalhoso juntar os pedaços e recompor o vidro quebrado, independentemente do candidato vitorioso nas urnas.

O exercício da democracia pressupõe atenuação das paixões políticas.

“A luta democrática é honestidade”, dizia José Félix Filho (Zé Borges), de Poço de Fora, que foi prefeito de Curaçá.

A vida ensina que o excesso não é bom conselheiro.

araujo-costa@uol.com.br

Os prefeitos e a pandemia

Perguntar não ofende. Ou ofende?

O conhecido radialista José Nello Marques, renomado professor de jornalismo, diz que perguntar ofende. E ofende quando a pergunta é  imbecil e desnecessária.

Exemplo de pergunta desse tipo, que constrange qualquer jornalista sério: num enterro, a repórter do programa policial de televisão pergunta à mãe do falecido: “como a senhora está se sentindo? ”

Vou fundamentar minha pergunta, que farei no final.

Antes do prazo previsto na legislação eleitoral, para o início da campanha, todos os prefeitos, principalmente aqueles que disputam a reeleição, foram freneticamente às televisões, imprensa em geral e redes sociais, para pedir “fique em casa”, “use máscara” e “evite aglomeração”. Mais: fizeram normas duras, rígidas, toque de recolher, barreiras sanitárias, confinamento social, etc.

Não estavam errados.

Suas Excelências apareciam em lives, falando pelos cotovelos e explicando medidas urgentes e necessárias, que hoje se sabe, não se esforçam para fazer cumpri-las.

Todavia, depois que a campanha eleitoral começou, esses mesmos prefeitos fazem carreatas e outros eventos, escandalosamente incompatíveis com as normas que eles próprios editaram. Nem mesmo parte de seus admiradores usam máscaras e as imagens que se vê são esclarecedoras. Mais do que isto, assustam.

Talvez, em certas situações, nem os candidatos obedecem às normas que eles fizeram.

Os jornalistas sabem – e principalmente os jornalistas independentes, que não são pagos para elogiar este ou aquele governante – que o covid-19 está aí implacável, assustadoramente implacável.

Profissionais de saúde que estão no batente atestam que todos os dias pessoas são internadas, muitas morrem e os prefeitos estão silentes, descaradamente silentes e até, em certos casos, omitindo as informações da população através das chamadas subnotificações.

Fácil explicar: se não há pessoas nas ruas, como os candidatos vão distribuir santinhos, fazer demagogia, “adesivaços”, promessas, exibir bandeiras partidárias, encher os ouvidos da população dessas insuportáveis propagandas em carros de som?

O prefeito de São Bernardo do Campo, em São Paulo, foi às redes sociais esta semana para dizer que a pandemia no município está “estável”. Aliás, muitos prefeitos estão dizendo isto.

E daí? A estabilidade dos números da doença significa descuidar-se, relaxar as normas de combate ao coronavírus?

Estabilidade significa dizer que as autoridades devam fechar os olhos para a cruel realidade durante a campanha eleitoral?

O fato é que nessa campanha veem-se multidões em qualquer lugar e a qualquer hora.

Cabos eleitorais abundam distribuindo propagandas a mando dos candidatos, até porque muitos precisam ganhar seu sustento, o que não está aqui em discussão. A discussão é sobre o afrouxamento das normas de prevenção da disseminação do vírus..

Anote aí, o leitor.

Quando se fecharem as urnas de 15 de novembro, não se surpreenda se esses mesmos prefeitos hipócritas voltarem aos meios de comunicação para dizer “use máscara, fique em casa, evite aglomeração”, mesmo porque não há vacinas nem cura para essa doença, por enquanto.

Mas por enquanto, é conveniente para esses políticos ficarem quietos, irresponsavelmente quietos.

É possível acreditar nesses políticos irresponsáveis?

araujo-costa@uol.com.br