Guardo a carta e o envelope, ambos amarelados pelo tempo. Remetente: Maria de Almeida Araújo.
Já se vão, por aí, 38 anos.
Naquele tempo ainda se escreviam cartas.
Quando, em 1987, lancei em São Paulo, Fragmentos do Cotidiano, mandei um exemplar do livro para Maria de Almeida Araújo e Edvaldo Araújo, amigos curaçaenses de louvável sabedoria, caráter irrepreensível e vasta cultura.
Quanto a Vavá – já escrevi alhures algumas crônicas sobre ele – era meu colega de trabalho na Prefeitura de Curaçá, primeira administração de Theodomiro Mendes da Silva. Sua esposa, D. Nenzinha, dividia comigo, quase que diuturnamente, agradáveis momentos de conversas porque, modéstia à parte, frequentava sua casa, arrastado por Vavá e, por óbvio, sempre fui muito bem recibo por ambos.
As conversas se estendiam sem tempo para terminar. Falávamos de amenidades e de tudo, mormente de educação e cultura.
Sábia e experiente, D. Nenzinha era exemplo de humildade, polidez, honradez e generosidade.
Guardo, com carinho e gratidão, a carta de 19/02/1987. D. Nenzinha e Vavá diziam, quase que em estímulo à caminhada deste modesto peregrino das letras e dos sonhos: “Continue. Siga em frente, caminhando na fé, iluminado pela estrela da esperança”.
Confesso ainda hoje – e nesta altura de minha idade septuagenária – honrado e lisonjeado.
A passagem dos anos trouxe D. Nenzinha para o tempo presente e evidenciou o reconhecimento de sua memória às novas gerações e, sobretudo, demonstrando-a como símbolo de esteio cultural de Curaçá.
Hoje Maria de Almeida Araújo é nome de equipamento público de significativa importância para Curaçá e os curaçaenses, merecido reconhecimento: Centro Territorial de Educação Profissional Maria de Almeida Araújo.
Bateu-me uma doida e doída saudade de D. Nenzinha e de Vavá. Vavá foi um amigo de agradáveis tertúlias em dias curaçaenses.
Difícil esquecer nossas conversas diárias no bar de Adelson Xavier, ao lado do Teatro Raul Coelho.
Saudade também é o clarear do caminho de boas recordações.
“O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.” (Lord Acton, historiador britânico, 1834-1902)
Em 02/09, na abertura dos trabalhos de julgamento do suposto golpe de Estado, o ministro-relator abriu a sessão com um inoportuno discurso, contrariando ritos, estilos e regras processuais comumente seguidos pelo Poder Judiciário.
Não é comum – e nunca foi – magistrado fazer discurso político em abertura de sessão de julgamento. No máximo e dependendo do contexto, o juiz esclarece às partes sobre procedimentos estritos ao processo e, eventualmente, faz saber sobre algumas diretrizes da audiência de julgamento, o que não foi o caso.
O Supremo Tribunal Federal é um tribunal constitucional de acordo com a Carta Magna da República e não um comitê político. É pressuposto que as partes no processo não estão interessadas em discurso político, mas no deslinde da causa.
Mas o que vale a Constituição no Brasil de hoje que, sabidamente, não a observa e não a respeita?
“A lei, ora, a lei”, já dizia o presidente Vargas em 1947. Ou, como dizia a humorista do gênio Chico Anysio, a lei “é apenas um detalhe”.
A imprensa aliada ao lulopetismo deu o maior destaque à anomalia encenada pelo ministro, elogiando-o despudoradamente.
Repórteres e comentaristas só faltaram desconsiderar os mesopotâmicos e atribuírem ao ministro-relator a invenção da roda.
O ministro pretende ser presidente da República, segundo um de seus ex-assessores no Tribunal Superior Eleitoral (Gazeta do Povo, 09/08/2025).
Fácil, muito fácil: Basta Sua Excelência renunciar ao cargo de ministro do STF, filiar-se a uma dessas excrescências partidárias da esquerda e disputar a eleição através do voto popular.
Democracia é isto. E Sua Excelência se arvora defensor inquestionável da democracia no Brasil. Então, presume-se que deva observar as regras democráticas.
Como é improvável que a maioria da sociedade vote em cidadão com abominável perfil de ditador, certamente o Brasil não passará por esse vexame.
O Brasil está precisando de mais seriedade e menos hipocrisia.
E os brasileiros precisam que sejam respeitados, principalmente pelo nobre, reverenciado e lídimo Poder Judiciário.
“O futuro era melhor antigamente.” (Luís Fernando Veríssimo, jornalista e escritor, 1936-2025)
Na construção dos meandros da escrita às vezes é preciso um desvio estratégico do caminho para se chegar ao tempo do agora.
Imóvel da família Pacheco de Menezes, de Chorrochó/Crédito: Arquivo Edilson Oliveira
Esse desvio leva ao que se pretende dizer. E o dizer nem sempre é fácil dizer. É um ancoradouro difícil, obstaculoso, espinhoso, obscuro.
Assim, a saudade. Difícil dizê-la. Mais ainda difícil é trazer o enfrentar das lembranças para confrontar os tempos idos com os dias de hoje, pulverizados de desinteresses, incompreensões e descasos com a História.
Por conseguinte, o cronista acaba se transformando em memorialista, outras vezes em historiador arrevesado, noutras tantas em narrador ocasional e, por isto, incompleto.
Imóvel da família Pacheco de Menezes, em Chorrochó/Crédito: Arquivo Edilson Oliveira
É o caso deste escrevinhador, incapaz e titubeante, mas persistente e até, em certos casos, petulante com as coisas da escrita e com o querer de sedimentar recordações.
Antigamente, embora não muito antigamente, convivi com alguns dos viventes desses dois casarões de Chorrochó que resistem à passagem do tempo: residências de Antonio Pacheco de Menezes e do irmão e vizinho Dorotheu Pacheco de Menezes.
As fotos são da lavra e presteza do respeitável profissional Edilson Oliveira, pioneiro na área de comunicação em Chorrochó. Vali-me de seus préstimos para me ajudar, através das imagens, a compor este pobre texto retratando o passado, com o intuito de reviver um pouco a história do lugar.
Quando Chorrochó lutava com a insipiência e precariedade dos meios de comunicação, Edilson Oliveira estava lá, atento e sonhador, empurrando a janela do desconhecido e tentando levar a informação limpa e sadia à sociedade, o que fez com êxito e dedicação.
Não me atrevo a retratar o jornalismo, tampouco a História de Chorrochó. Embora apoucado, limito-me a reviver algum tempo e lembrar pessoas e fatos. Se não olharmos no retrovisor do passado corremos o risco de perder o futuro.
E nesse diapasão, já que falo de casarões, cito alguns de seus ocupantes de antanho.
Antonio Pacheco de Menezes e sua mulher Maria Argentina de Menezes constituíram família numerosa e viveram nessa casa com os filhos Maria de Lourdes Menezes Araújo, Maria Nicanor de Menezes Veras, Maria Joselita de Menezes, Francisco Lamartine de Menezes, Walmir Prudente de Menezes, Antonio Pacheco de Menezes Filho, Maria Ita de Menezes, Maria Agripina de Menezes, José Osório de Menezes e Maria Eugênia de Menezes.
Dorotheu Pacheco de Menezes e sua mulher Izabel Argentina de Menezes (Biluca) constituíram família e viveram no imóvel contíguo, com os filhos Maria do Socorro Menezes Ribeiro, José Evaldo de Menezes e João Bosco de Menezes.
Genros, noras e netos também formavam o turbilhonar do viver de todos eles nesse Chorrochó que engatinhava em busca de seu destino.
Ambos – Antonio Pacheco e Dorotheu – deixaram a descendência admirável, as raízes que ainda seguram as lembranças e, por conseguinte, enfeitam e amparam às tradições da família um tanto fragilizadas pelo correr dos anos e adstritas à maneira com que as gerações de hoje veem, entendem e absorvem o caminhar dos antepassados.
As exigências do tempo mudaram o traçado original desses casarões de Chorrochó. Mas a história continua intacta, assim como o reviver da época e da saudade.
Silobaldo Gomes dos Reis. Esta foto faz parte de seu primeiro livro
Silobaldo Gomes dos Reis, filho de Eduardo Gomes dos Reis e Tertuliana de Alcântara Reis, nasceu em Patamuté em 1930, embora descendente do lendário Petronilo de Alcântara Reis (Coronel Petro), político e fazendeiro nascido em Santo Antonio da Glória, que fez história na região de Várzea da Ema, hoje pertencente ao município de Chorrochó.
Na época do coronel Petro, Várzea da Ema fazia parte do território do município de Curaçá.
Silobaldo fazia parte das famílias Gomes e Reis. Mudou-se para São Paulo em 1944 com 14 anos de idade, depois de trabalhar na bodega de Lídio Manoel dos Santos que lhe entregou uma “Carta de Referência” para eventual necessidade na desconhecida terra paulista.
Lídio havia comprado a bodega do pai de Silobaldo e o manteve trabalhando lá.
“Eu estudava na parte da manhã e à tarde trabalhava com o comerciante Lídio Manoel dos Santos”, escreveu Silobaldo. E até citava o nome da professora Tarcília Félix Martins, de Poço de Fora, que ensinava em Patamuté.
Em São Paulo, trabalhou como datilógrafo na Seção de Estatística da Companhia Gessy Industrial, depois Gessy-Lever, conheceu as vicissitudes de um “ambiente difícil de ser assimilado”, mas depois cresceu profissionalmente e seguiu adiante.
Conhecido entre os amigos mais próximos como “Silô”, Silobaldo viveu as últimas décadas no Jardim São Paulo, elegante bairro da capital paulista, mas sua paixão era a Vila Nova Mazzei, local que se instalou quando chegou da Bahia, segundo ele “fugindo da seca de Patamuté”.
Eduardo e Tertuliana, além de Silobaldo, tiveram os filhos Osmar Gomes dos Reis, Lourival Gomes dos Reis, Maria José Gomes dos Reis e Antonia Gomes dos Reis Palmejani.
Em São Paulo, Silobaldo trabalhou e constituiu família bem estruturada. Escreveu dois livros: “Eu (baiano) venci em S.Paulo”, lançado em 1988 e “Peripécias e Alegrias de um Turista Baiano” lançado anos mais tarde.
Sobre o primeiro livro, Silobaldo me disse em 26/06/1991: “É uma mensagem de otimismo para nossos conterrâneos que às vezes recuam no primeiro tropeço de vida e desanimam”.
Silobaldo era casado com Maria Nazareth dos Reis com quem teve as filhas Carmen Gomes dos Reis e Marta dos Reis Marioni. Tinha netos, a exemplo de Raphael dos Reis Marioni e Thaenan dos Reis Marioni.
Em 1988 chegou a participar da Bienal do Livro de São Paulo.
Espirituoso, ria-se de sua história de luta e se servia dela para apontar lições de otimismo diante do enfrentamento das dificuldades.
Vereador Rogério Bahia/Arquivo pessoal do vereador
O vereador Rogério Quintino Bahia, presidente da Câmara Municipal de Curaçá, vem dinamizando as atividades do Legislativo e dando-lhe inequívoca visibilidade.
As sessões itinerantes da Câmara de Vereadores nos distritos parecem significar a forma mais visível de aproximação do Poder Legislativo com os munícipes, permitindo-lhes oportunidade de reivindicarem, apontarem necessidades e, sobretudo, não perderem o contato direto com seus representantes.
A nobreza da representação política assenta-se na vontade popular, de maneira que a sociedade vale-se de seus representantes para indicar o caminho até suas necessidades mais prementes.
A Câmara contém um cipoal de atribuições sob a responsabilidade do vereador que pode servir-se delas para trabalhar em benefício da população e esta é a razão de ser do edil.
Por óbvio, os vereadores têm papel fundamental na vida da sociedade local, de modo que se agigantam à medida em que se preocupam com a população e suas demandas mais prementes.
Entretanto, muitos se enveredam pelo caminho dos interesses pessoais e passam a legislatura referendando atos do Poder Executivo, de tal forma que se apequenam e arranham a nobre função de vereador. E aqui não estou me referindo a Curaçá, especificamente, mas da forma como acontece de um modo geral.
Ouso conjecturar que também é dever da Câmara Municipal se manter em permanente vigília em favor da população e não somente através de discussões protocolares aventadas por ocasião de sessões convocadas por força regimental.
Trata-se de perspectiva de mudança das mentalidades, de vislumbrar luz para clarear e interpretar os anseios da população.
Contudo, a nobreza do vereador é sustentar-se na soberania do voto popular e direcionar-se em consonância com a vontade do povo. Não há credencial mais legítima, mais lídima, mais pujante.
Bem preparado, Rogério Bahia é advogado com sólida experiência em Direito Previdenciário, educado no Colégio Dr. Edson Ribeiro, de Juazeiro e graduado pela UNIFENAS de Minas Gerais, universidade bem situada e reconhecida no contexto da educação nacional.
Relativamente jovem – 49 anos completados em março – vem de família tradicional. O pai Gilberto Bahia Filho (Gilbertinho) e o avô Gilberto da Silveira Bahia foram prefeitos de Curaçá, de modo que tradição, conhecimento político e experiência lhe credenciam para esta ingente tarefa à frente da Câmara Municipal.
Rogério Bahia tem histórico de dedicação ao município. É de sua autoria o Código de Cultura de Curaçá e a lei que tornou de utilidade pública o Acervo Curaçaense, que cuida da preservação da história de Curaçá, dentre outras atribuições.
Ademais, Rogério Bahia tem atuado em favor do trabalhador rural e da agricultura familiar. Como parte dessa atuação, viabilizou poços artesianos, cisternas e forrageiras tão fundamentais para o dia a dia do homem do campo.
Dinâmico, preparado intelectual e politicamente, o insigne vereador Rogério Bahia sustenta a perspectiva de um novo amanhecer para Curaçá.
Conta-se que, quando Juscelino Kubitscheck era prefeito de Belo Horizonte, um vereador discutia num bar e, a certo momento da conversa, esbravejou: “Esse Juscelino é um perigo. Se a gente bobeia, ele acaba presidente da República”.
Bobeando ou não, Juscelino foi presidente da República.
Esse vereador RogérioBahia vai acabar sendo prefeito de Curaçá e compor a história formando a tríade dos respeitáveis homens públicos, com Gilberto Bahia e Gilberto Bahia Filho.
“A política é como a imaginação, nem sempre dá o que promete.” (José Cavalcanti, 1918-1994, São José de Piranhas-PB)
A caminho dos 68 anos, Carlos Luiz Brandão Leite parece um tanto desencantado com a impossibilidade de reversão do tempo político.
Eleito prefeito de Curaçá em 2012 com 42,37% dos votos válidos, Carlinhos Brandão parece ter deixado inequívoco que seu pendor não se sustenta na atividade política, mas no mister de agricultor eficiente e bem sucedido.
Entretanto, sua administração à frente da Prefeitura de Curaçá não esqueceu o homem do campo, conhecida promessa de campanha, de modo que se destacou na limpeza de barreiros e barragens comunitárias, instalação de poços tubulares e, por vezes, na recuperação de estradas.
Como “santo de casa não faz milagre”, o filho de Patamuté, Carlinhos Brandão, descuidou-se de lançar um olhar mais atento sobre o lugar de suas raízes, de modo que o distrito vem experimentando – e não somente na gestão de Carlinhos – constantes e subsequentes descasos que beiram o desrespeito à população.
Carlos Luiz Brandão Leite vem de ascendência respeitável: a mãe e professora Maria Vilani Brandão Leite e o pai e fazendeiro Manuel Brandão Leite, de tradicional família de Patamuté, esteio que lhe deu estrutura de vida, caráter irrepreensível e conduta admirável.
Ex-aluno do tradicional Colégio Dom Bosco, de Petrolina, Carlinhos Brandão constituiu família decente e exemplar que lhe atesta ser portador de princípios morais inatacáveis.
Contudo, a política não depende das qualidades pessoais de seus líderes, mas assenta-se, sobretudo, na forma como os homens públicos veem e administram as demandas e premências postas pela sociedade.
Por aí se vê, que as urdiduras políticas às vezes tropeçam em interesses conflitantes, até e, principalmente, entre aliados, que dificultam o caminhar de qualquer gestão e isto é inerente à vida pública, cheia de tropeços, por natureza.
Todavia, Carlinhos Brandão não abandonou a seara política, mas tendo em vista seu desempenho sofrível à frente do município de Curaçá é razoável entender que houve uma distância entre a expectativa das urnas de 2012 (8.150 votos, salvo engano) e sua atuação como gestor público que pode, aos poucos, empurrá-lo para o ostracismo político.
Política não admite cochilos, não acolhe distraídos. Em consequência – e bem por isto – o resgate do tempo político perdido afigura-se inalcançável, uma espécie de punição em razão dos descuidos no que tange às exigências da população.
Mas independentemente de sua atuação na condição de gestor público, é seguramente certo que Carlinhos Brandão ainda mantém liderança e lastro político suficientes que o habilitam a ser ouvido em toda e qualquer composição política do município de Curaçá.
Quanto a Patamuté, tudo continua como antes. Não há perspectivas de melhora.
Sucedem-se prefeitos apáticos, míopes diante da realidade do lugar e Patamuté continua ofuscado pela falta de visão e vontade política dos homens públicos.
Minha geração fracassou relativamente aos sonhos de Patamuté.
Contudo, a esperança está nos jovens de hoje e sobretudo na educação. É animador que tenham surgido no horizonte razoáveis perspectivas a partir da Câmara Municipal.
O vereador Anselmo Filho, que tem robustas raízes fincadas em Patamuté, pode contribuir para afastar esse marasmo que se abate sobre o distrito.
Nicolau Cordeiro/Arquivo de Antonio de Nicolau Cordeiro
Quero registrar, logo assim, de saída, que sou de uma geração que costuma revisitar lembranças, com o intuito de reviver, sedimentar gratidão e registrar saudade.
Se não olharmos no retrovisor do passado, temos dificuldades de compreender o presente e construir os alicerces para sustentar o futuro.
Conheci Nicolau Cordeiro da Silva na década de 1960, em Patamuté. Já se vão, por aí, mais de seis décadas. Convivemos por algum tempo, dividíamos dissabores, preocupações e alegrias.
Prestativo, educado, generoso, conversa agradável, preocupado com as deficiências do lugar, sobretudo preocupava-se com a educação da infância e da juventude. Homem de visão, inobstante as limitações de Patamuté.
Nicolau Cordeiro foi um bom amigo que tive na vida. Como esquecê-lo! Ele fez a façanha de viabilizar minha condição de professor particular em Patamuté, mas esta é outra história um tanto longa que demanda muitas considerações.
Nicolau conversou com os pais dos alunos, indicou a necessidade de complementar o estudo dos jovens, angariou condições, justificou minha escolha e, mais do que isto, não deixou se escapulirem as oportunidades de manter aquele sonho em benefício da juventude da época.
Andam, por aí, ainda, cavando a vida, alguns de meus ex-alunos. Outros já se foram. Era difícil separar a amizade do ofício de professor, de modo que éramos todos amigos. Não existia nenhuma diferença ou distância aluno-professor.
Em Patamuté, naquela quadra do tempo, havia somente o Prédio Escolar (Escola Estadual), na saída para o Paredão, onde ensinavam as professoras da educação primária, formalmente habilitadas para o ensino regular.
Pela Escola Estadual de Patamuté passaram respeitáveis professoras que ajudaram a construir a história do lugar, a exemplo de Maria Vilani Brandão Leite, Ana Mendes Vital Matos, Adalzira de Souza Alcântara, Beatriz Gonçalves dos Reis Gomes, Cremilda Gomes de Sá, Maria Mendes Callo (Nazinha), et cetera.
Nicolau viabilizou um espaço para acolhimento de meus alunos. O local situava-se vizinho às casas do Major Otaviano Matos (depois reformada), Lídio Manoel dos Santos e José de Souza Alcântara (Zé Lulu), mesma rua do antigo Posto Policial, que ficava na esquina.
Rua de Patamuté/Foto sem data/Reprodução facebook
Na ocasião, no mesmo local, tinha um serviço de alto falante que funcionava somente à noite. Tocavam-se músicas da Jovem Guarda, movimento que estava no auge.
A luz de Patamuté dependia de um motor (gerador) e apagava-se às 22 h, quando muitos se recolhiam e outros ficavam sentados em cadeiras nas calçadas, conversando. Nesse ambiente nasceram muitas amizades em Patamuté.
Eu frequentava a calçada de Eliziaria Moreira e de seu esposo José Henrique de Souza (Zeca Babau), respeitado Oficial do Cartório de Registro Civil. As conversas iam até muito tarde, despretensiosas e agradáveis.
Nicolau Cordeiro morava na Rua dos Ferreiras numa casa aconchegante. Lembro que cultivava parreiras. As uvas eram viçosas, bem cuidadas, bonitas.
Hoje a Rua dos Ferreiras cresceu, está mais movimentada, com mais casas, mais moradores e adaptada à passagem do tempo.
Uma rua nascida da tradição do povo, ao redor da casa dos “Chias”, sem alcunha oficial atribuída pelo poder público. “Os Chias”, segundo relatos históricos, foram habitantes de Patamuté nos primórdios do lugar.
Rua pequena, limitando-se com as pedras disformes do bonito mármore de Patamuté sobre as quais pastavam animais.
Nicolau compatibilizava sua luta diária e o cuidado com a família que soube estruturá-la muito bem, educadamente.
Nicolau e eu somávamos sonhos com o intuito de vislumbrar horizontes mais promissores para aquela geração de Patamuté.
Fracassamos, em parte. Patamuté, hoje, é o resultado de sucessivos descasos que depõem contra nossos governantes e representantes na Câmara Municipal.
Amigo que perdurou, in memoriam.
Quando é assim – e assim o é – difícil a amizade se esvair no tempo. Ficam as marcas, os esteios indestrutíveis da gratidão.
Observação:
Matéria originalmente publicada em 19/08/2025 e editada em 20/08/2025 para acrescentar foto de Nicolau Cordeiro, generosamente enviada pelo filho Antonio. O blog agradece a atenção.
É possível que eventuais textos deste insignificante escrevinhador sirva para dar leve cutucão – e talvez dê – nalgum diligente alcaide de nosso e querido sertão da Bahia.
Dilan Oliveira (PC do B), prefeito de Chorrochó/Reprodução facebook
Não se trata de pretensão inconveniente e desnecessária. Cinjo-me a um bom propósito de desejar êxito a cada um de nossos insignes prefeitos.
Um leitor deste blog me advertiu sobre eventual discordância de algum político, no que tange ao que ele chama de referência que costumo fazer a assuntos dos municípios de Curaçá e Chorrochó.
Não é bem assim. Ou talvez, seja bem assim.
O fato é que, quem se expõe à chuva, certamente sabe que vai se molhar ou corre o risco de se molhar.
Assim, o político.
Imaginar que submeter-se à vontade soberana do povo e disputar votos nas urnas não lhe renderá críticas depois de eleito é ingenuidade. E político, por natureza, não é ingênuo.
Por isto, o administrador público tem que se adequar às críticas, sejam elas de adversários ou de aliados, embora certos aliados tenham tendência em se transformarem em súditos, incapazes de discernirem o lado ideológico que professam do dever ínsito ao gestor público.
Contudo, hoje minha crítica é boa, razoavelmente aceitável. Como, aliás, tem sido a toada deste blog, embora ninguém esteja pedindo minha opinião e, por conseguinte, ela é dispensável.
Beirando oito meses à frente da Prefeitura de Chorrochó, o prefeito Dilan Oliveira vem demonstrando uma linha de gestão que, se seguir assim adiante, certamente atingirá posição de destaque na constelação dos prefeitos da região. O prefeito Dilan é agradável surpresa no contexto político regional.
O que pouco conta – ou nada conta – é a cor partidária do prefeito. Conta a vontade política de trabalhar em benefício da população e saber auscultar as necessidades mais prementes de sua gente e isto parece que o prefeito de Chorrochó vem fazendo com afinco, tirocínio, dinamismo e eficiência.
Em Curaçá é um pouco diferente. Desponta muita vaidade nos apoiadores de Sua Excelência Murilo Bonfim. Falam-se mais em feitos e colaboração do governador do Estado e do presidente da República do que, propriamente, na atuação do prefeito que, parece, tratar-se de um bom sujeito, humilde, decente e preocupado com a população.
Prefeito Murilo Bonfim (PT) ao fundo/Reprodução facebook
Os arraigados aliados do prefeito de Curaçá vão acabar ofuscando seu brilho, de tanto fazê-lo dependente de outras esferas de poder, atrelando-o a lideranças políticas mais distantes de Curaçá.
O que o prefeito de Curaçá consegue para o município é mérito dele, que tem estrutura política, estatura moral e atribuições legais para cavar os benefícios junto a instâncias próprias, parlamentares e governador.
Todavia, se o prefeito de Curaçá não se desgrudar das bajulações de aliados, ignorando-as eficazmente, sua gestão não terá construído imagem particular de gestor e, menos ainda, nada de novo relativamente às administrações passadas que seu grupo tanto criticou, nem sempre com razão.
Talvez seja melhor construir impecável perfil de administrador público do que precisar, com o tempo, retificar senões na história do município.
O portal Curaçá Oficial noticiou em 13/08/2025 que uma patrol niveladora está parada em Patamuté.
Até publicou a foto da máquina, vendo-se ao fundo a histórica casa que abrigou a residência do ínclito e respeitado Adonai Matos Torres que, creio, hoje pertence à família.
Patrol em Patamuté/Reprodução Curaçá Oficial
É razoável presumir que, diante de tanto tempo parada – cerca de três meses, segundo o vereador Anselmo Filho – não deve haver o que fazer nas estradas do município.
Faz lembrar o poema de Carlos Drummond de Andrade: “Tinha uma pedra no meio do caminho”.
Neste caso, uma patrol, que precisa sair do meio do caminho e embrenhar-se nas estadas de Curaçá.
Data de 15 de agosto de 1915 a ata de fundação do Apostolado da Oração de Chorrochó.
Naquela data – 15/08/1915 – foi instituída a festa do Sagrado Coração de Jesus em Chorrochó, precedida do Tríduo “com muita devoção” e coadjuvada pelo uso de trajes estilizados próprios, quando dos atos litúrgicos em honra e louvor ao Sagrado Coração de Jesus.
Poucas instituições religiosas se mantêm tão firmes e perenes quanto o Apostolado da Oração.
Movimento eclesial da Igreja Católica Apostólica Romana, o Apostolado da Oração foi fundado pela Companhia de Jesus (padres jesuítas) e remonta à segunda metade do século XIX.
A então capela de Senhor do Bonfim de Chorrochó pertenceu, por algum tempo, à Freguesia de Santo Antonio de Abaré, da Paróquia do Senhor Bom Jesus da Boa Morte, de Curaçá.
A Paróquia Bom Jesus da Boa Morte (hoje Bom Jesus da Boa Morte e São Benedito) é uma das mais antigas da região sanfranciscana e indissociável historicamente de Santo Antonio do Pambu.
A ata original e histórica vertida em vernáculo de uso atual e fielmente adstrita ao texto original, consta de valioso acervo do Dr. Francisco Afonso de Menezes, nobre e conspícuo filho de Chorrochó, sobre parte da história do município.
O documento é importante em razão do conteúdo e do situar do Apostolado da Oração no tempo e, mais ainda, tendo em vista tratar-se de sustentáculo desta secular instituição religiosa local.
A reunião de fundação foi presidida pelo Cônego Paschoal dos Santos Valle, que delineou os princípios, finalidade e frutos do Apostolado da Oração.
Fizeram parte da fundação e “foram admitidos”: João Alves dos Santos, Agripina Argentina de Menezes, Antonia Alves de Carvalho Menezes, Antonia Cecília Alventina Fonseca, Antonia Rosa Pacheco de Menezes, Djanira Pires de Avelins Belfort, Josefa Pires de Carvalho, Maria da Glória Cordeiro de Menezes e Maria Umbelina de Avelins.
João Alves dos Santos foi escolhido presidente, porque, segundo a ata, “já estava devidamente empenhado nos trabalhos organizacionais da capela do Senhor do Bonfim”.
Dentre as atribuições do Apostolado da Oração, vislumbram-se no documento, “o esforço para promover a glória divina para salvação das almas e o culto ao Santíssimo Coração de Jesus”.
A transcrição do texto original registra “as indulgências que cada um lucra com a participação nas reuniões mensais” e faz referência à prática da comunhão reparadora, o dever de pedir perdão a Deus “pelos pecados da humanidade”, a reza diária do terço mariano, a busca da paz e união entre pessoas e nações e o dever de evangelizar.
Como se vê, sucintamente, o papel do Apostolado da Oração é abrangente e fundamental para a sustentação dos alicerces tradicionais da Igreja de Chorrochó.
Em Chorrochó, enriquece-o o Hino do Centenário do Apostolado da Oração de Chorrochó, de autoria do Dr. Francisco Afonso de Menezes e música de Isael de Jesus.