Arnóbio Menezes e o Judas de Chorrochó

Francisco Arnóbio de Menezes/Arquivo Rosângela Menezes

Judas Iscariotes foi um dos doze apóstolos de Jesus, mas o vendeu aos soldados romanos por 30 moedas de prata.

A história relata que Judas foi o único apóstolo de Cristo que nasceu na Judéia. Os demais nasceram na Galiléia.

Traidor, Judas deu um beijo em Jesus, para que os soldados o identificassem, prendessem no Monte das Oliveiras e o entregassem ao governador romano Pôncio Pilatos.

Ao ver Jesus condenado à crucificação, Judas se arrependeu e enforcou-se no galho de uma figueira, diz a história.  

O arrependimento dos delinquentes deve ter nascido aí.

Como existe em diversas partes do Brasil, Chorrochó, sertão da Bahia, mantinha uma tradição no sábado de aleluia.

Todo sábado de aleluia fazia-se um divertido movimento folclórico e cultural sobre a figura de Judas.

Longe do município há décadas, não sei se a tradição ainda é mantida.

Francisco Arnóbio de Menezes, servidor público estadual, boêmio e espirituoso, organizava o movimento e se autointitulava o “escriba oficial” de Judas.

Arnóbio redigia o testamento do Judas, que ele mesmo lia em praça pública.

Nesse testamento, que Arnóbio redigia às escondidas e mantinha sob rigoroso sigilo, constavam fofocas, assuntos da política local e tudo o mais que tinha acontecido no município durante o ano anterior e fosse relevante para o testamento.

Se o assunto era delicado, ele não citava nomes das pessoas envolvidas, mas o noticiava, preservando cuidadosamente as fontes de informação. Não era jornalista, mas sabia o que era fonte e a respeitava.

Arnóbio era um perigo. Inteligente e irônico, bisbilhotava a vida de todos durante o ano, para inteirar-se dos temas mais significativos e colocá-los no testamento de Judas do ano seguinte.

Desempenhava um verdadeiro e cuidadoso trabalho investigativo, de modo que, ao conversar com “a vítima”, esta jamais desconfiava de que estava sendo sondada para constar no testamento de Judas.

Elegante e educado, José Calazans Bezerra (Josiel), cunhado de Arnóbio, tinha sido prefeito de Chorrochó. Simpático e querido por todos, no sábado de aleluia de 1972 Arnóbio o contemplou no testamento de Judas:

 “Do amigo Josiel

Levo uma queixa magoada

Foi prefeito quatro anos

E pra nós não deixou nada

O diabo que te persiga

Nesta vida aperreada”

Lido o testamento em praça pública, Maria Mattos, irmã de Arnóbio e esposa de Josiel, ponderou:

– Arnóbio, Josiel não é mais político, por que você não o esqueceu?

– Eu esqueci, mas Judas não esqueceu, respondeu Arnóbio.

Arnóbio cuidava daquela festa folclórica com muito carinho e dedicação. Fazia questão de ser amável com todo mundo.

No testamento, ele não permitia que constassem assuntos delicados que pudessem melindrar pessoas ou famílias. Tanto que aquilo se tornava uma expectativa.

Todos queriam saber o que Judas havia deixado no testamento que, guardado em segredo, somente seria revelado no sábado de aleluia.

Uma brincadeira folclórica sadia, inofensiva e interessante.

araujo-costa@uol.com.br

Não há o que explicar, senhor prefeito

São Bernardo do Campo (SP), 08 de abril de 2020.

Com exceção de atividades essenciais, que a lei considera como tais, todas as demais foram fechadas, inclusive comércio varejista, por decreto do prefeito Orlando Morando (PSDB).

No dia anterior, o governador de São Paulo, João Dória, endureceu as medidas restritivas em todo o estado de São Paulo e determinou, com rigor, a continuidade da quarentena antes decretada, inclusive com possibilidade de prisão para quem desobedecer.

João Dória anda por aí mostrando as unhas, porque quer ser presidente da República e, de aliado político do presidente Bolsonaro, passou a ser seu inimigo entre o pôr do sol e o amanhecer do dia seguinte.

O prefeito Orlando Morando foi mais além com a fiscalização e mandou fechar dezenas de estabelecimentos. Até mandou lacrar uma loja varejista de renome nacional.

Do alto de sua autoridade, o prefeito ameaçou bancos, sapateou e fez entender que todos devem saber que quem manda em São Bernardo do Campo é ele, o que, aliás, todos sabemos. Está gravado. Ele não pode negar.

Tudo bem, tudo muito direito.

Entretanto, enquanto todo o comércio de São Bernardo do Campo estava fechado, sujeito à multa e lacração, uma sofisticada loja varejista situada no aristocrático bairro Jardim do Mar, estava aberta e atendendo regularmente seus clientes. É fato. Há imagens.

Dona da loja: a deputada estadual Carla Morando, esposa do prefeito Orlando Morando, o mesmo que mandou fechar todo o comércio do município sob pena de punição.

Mas nem tudo funciona como os espertos programam. Um munícipe filmou a loja da mulher do prefeito aberta, funcionando normalmente e o movimento de clientes.

Mais do que isto: o munícipe jogou as imagens no ventilador das redes sociais.    

O prefeito Orlando Morando, sem jeito e meio abatido, recém-saído da UTI de um hospital da região, onde estava internado por ter sido acometido do coronavírus, tentou explicar, sem sucesso, o porquê da loja de sua esposa estar aberta, enquanto o comércio em geral estava fechado por sua determinação.

Nem sempre a emenda melhora o soneto. Geralmente piora.

Ou a lei vale para todos ou não vale para ninguém. É inepta.

Ficou feio, Excelência. Mais do que feio: é uma transgressão à norma que o senhor mesmo decretou.

Feio, mais ainda, porque sua esposa é deputada e o senhor, ex-deputado. Ambos legisladores, têm o dever de saber que a lei vale para todos.  

Este escrevinhador não é contra e nem a favor do senhor Orlando Morando, tampouco lhe interessa saber se o munícipe que filmou a loja da esposa do prefeito em pleno funcionamento faz ou não oposição ao alcaide de São Bernardo do Campo.

Mas entende que ambos – prefeito e esposa – devem cumprir a lei. Ou o prefeito é um deslavado hipócrita, o que, aliás é comum na vida pública.

Não há o que explicar, senhor prefeito. Assumir o erro é mais sensato e até engrandece.

araujo-costa@uol.com.br

Um vereador de alto nível

Lá por volta de 2011, um vereador capixaba informou à imprensa que apresentou projeto de lei à Câmara Municipal de Vila Velha, seu município, proibindo que noivas se casem sem calcinha.

O vereador do então Partido Republicano Brasileiro (PRB) explicou que é comum noivas participarem da cerimônia de casamento, sem calcinha, porque isto faz, ainda segundo ele, “segurar o casamento por mais tempo”.

Taí uma novidade que este ignorante escrevinhador não sabia.

Difícil é saber como Sua Excelência conseguiu essa estranha estatística, já que noiva nenhuma sai por aí mostrando as partes de baixo na hora do casamento.

Difícil, mais ainda, é o nobre vereador fazer cumprir a hipotética lei de sua autoria, ou seja, fiscalizar in loco, se as noivas estavam ou estão subindo o altar sem calcinha.

É de supor que ele imagina a noiva adentrando a igreja e sendo abordada, na entrada, por um sisudo fiscal, talão de multa em mãos, exigindo que ela levante o vestido para a competente autoridade constatar se a desavergonhada contraventora está sem calcinha.

Em caso positivo, lavrar-se-ia, ali mesmo, o auto de infração e imposição de multa na presença de convidados, testemunhas e da autoridade religiosa celebrante do matrimônio. Fundamento legal: não usar calcinha, fato constatado pelo diligente agente público.

Não sei se o ilustre vereador é membro de alguma igreja evangélica ou católico, mas desconfio que católico não é.

Não tenho conhecimento de que o homem católico tenha chegado a tanto puritanismo. A bem da verdade, também não conheço caso parecido no meio evangélico.

Mas o vereador argumentou que a igreja é um templo sagrado – e disto ninguém discorda – e não usar calcinha no seu interior é falta de respeito.

Como se vê, Sua Excelência estava preocupado com a moral e os bons costumes dentro da igreja. Privacidade, para o nobre vereador, deve ser um bicho que ele nunca viu , nem sabe o que é.

Em todo caso, acho que isto é coisa de quem quer aparecer.

Há uma teoria muito antiga. Teria sido melhor se o insigne vereador tivesse pendurado uma melancia no pescoço. Dúvida não há de que ele teria sido muito notado, até por quem não usa calcinha.

E eu que pensava, ingenuamente, que vereador é eleito para defender interesses do povo.

Entretanto, com esse edil querendo legislar sobre uso específico de calcinha, tenho que refletir sobre meus conceitos. Por exemplo: que calcinha é um assunto também de interesse de vereador no exercício do mandato.

Consequentemente, se o vereador está lá para defender os interesses da sociedade de seu município, presume-se que noiva usar ou não calcinha também é um baita assunto que preocupa o povo.

“Sem calcinha não dá”, disse o vereador, do alto de sua respeitável autoridade.

Um repórter da Veja perguntou ao vereador se não temia ser ridicularizado. Muito convicto, respondeu: “Não sou um vereador fútil”.

Ah bom!

araujo-costa@uol.com.br

O pedido de cassação do PT: conversa pra boi dormir

Janeiro de 1961. Em Cuba, o ditador Fidel Castro mandou prender 20 sacerdotes da Igreja Católica Apostólica Romana e, ato contínuo, determinou que fossem fuzilados.

O papa João XXIII fez contato com o Núncio Apostólico no Brasil, D. Armando Lombardi, no sentido de pedir ao presidente Jânio Quadros para interceder junto à ditadura cubana e evitar o fuzilamento dos padres.

Jânio Quadros agiu rápido. Conhecia o médico Ernesto Guevara Lynch (1928-1967), que ganhou o apelido de Che durante a revolução cubana e exercia função equivalente à de ministro da Economia de Cuba e, por intermédio dele, Jânio evitou o fuzilamento dos padres que o sanguinário Fidel Castro havia determinado.

Em seguida, os padres foram expulsos de Havana e mandados para a Espanha. O Vaticano ficou grato a Jânio.

Em 19 de agosto de 1961, em Brasília, seis dias antes da renúncia, Jânio Quadros condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, então a maior honraria concedida a autoridades estrangeiras.

A participação de Che Guevara é conhecida na revolução cubana e na consequente derrubada do presidente Fulgêncio Batista.

A implantação da ditadura em Cuba deu-se com a decisiva participação de Che Guevara, esteio do pensamento comunista da época que ajudou a implantar na “Ilha” dos Castro.

O PT adora ditaduras e o regime cubano, embora se disfarce muito bem de defensor da democracia.

Che Guevara entendia que qualquer organização revolucionária que participasse de eleições deixaria de ser revolucionária. Por isto, a primeira medida tomada pelas ditaduras é abolir o voto livre ou mantê-lo de maneira fraudulenta.   

José Dirceu de Oliveira e Silva, que foi presidente nacional do PT e ministro plenipotenciário de Lula da Silva, quando exilado, fez curso de guerrilha em Cuba e lá se valeu de cirurgia plástica para mudar suas compleições físicas e voltar ao Brasil clandestinamente sem ser reconhecido. Deu certo.

Zé Dirceu voltou, casou-se e morou no Paraná durante anos sem ser reconhecido, teve filho e somente revelou a identidade para e esposa após a anistia de 1979. Segredo que só um guerrilheiro bem preparado consegue guardar durante tanto tempo. 

Alguns petistas continuam admirando as ideias de Che Guevara, mas o PT gosta mesmo é de dinheiro.

Tramita na Justiça Eleitoral um pedido de cassação do registro do PT. O partido é acusado de receber dinheiro de empresas estrangeiras, o que é proibido por lei. Tanta coisa proibida por lei que o PT fez, que essa é tão-somente mais uma, não faz diferença no seu cipoal de maracutaias.

O vice-procurador-geral eleitoral diz que há “indícios suficientes do recebimento de recursos oriundos de pessoas jurídicas estrangeiras” e se manifestou favoravelmente ao cancelamento do registro do partido.

Supõe-se que a ação vai dar em nada. Se o registro do PT for cassado, os registros de outros partidos, inclusive satélites petistas, também precisam ser cancelados. O que menos existe no Brasil é partido político sério.

Ciente do parecer favorável ao cancelamento do registro do PT, a deputada Gleisi Hoffmann, presidente nacional do partido, radicalizou:

“É ultrajante e fantasiosa a admissibilidade pelo vice-procurador-geral eleitoral de pedido para cancelamento do registro do Partido dos Trabalhadores junto à Justiça Eleitoral. Não há provas e nem indícios de que o PT tenha recebido recursos oriundos do exterior, o que nunca aconteceu. A decisão é arbitrária e política, sem amparo em fatos ou na realidade”.

Gleisi sabe que a acusação é robusta. O PT sabe o que fez. Mas eles também sabem que a ação é fogo de palha e o partido não será cassado.

É somente mais uma mancha na história do PT. Nada mais do que isto. Lero-lero, conversa pra boi dormir.

araujo-costa@uol.com.br

Patamuté: Antonio Ferreira Dantas Paixão e o descaso de hoje

“Digo a verdade não tanto quanto sei, mas tanto quanto ouso. E ouso mais à medida que envelheço” (Michael de Montaigne, 1533-1592)

Recolho parte de fragmentos de minha memória esburacada pelo tempo e ouso dizer algumas coisas, embora à semelhança de Montaigne, essas coisas tenham muito de ousadia.

Recolho informações de meus amarelados papéis de arquivo já conhecidas de todos, de modo que não há novidade nisto que escrevo hoje, mas o cronista às vezes se perde e se acha e se enrola no próprio tempo, eleva-se pretensiosamente à condição de memorialista e, quase sempre, acaba colocando os burros n’água.

Quiçá, este seja o meu caso que, reconheço, quase sempre meto o bedelho onde não fui chamado.

Em minha trajetória de vida fui ajudado por algumas pessoas que me são caras até hoje, mesmo que já se tenham ido para a eternidade “antes do combinado”, como diz o caipira paulista.  

Prolegômenos à parte, vou aos fatos. Importam aqui os fatos e não o achismo do escrevinhador.

Década de 1960. Em Patamuté, sertão baiano de Curaçá, Antonio Ferreira Dantas Paixão e sua esposa Rachel do Carmo Paixão (que me chamava “meu filho”, honra que carrego até hoje) muito me ajudaram no princípio de minha caminhada rumo ao desconhecido.

Sob os auspícios de ambos, que condição eu não tinha, foi-me possível frequentar o curso primário na Escola Estadual de Patamuté, então  pertencente ao Departamento de Educação Primária, da Secretaria de Educação da Bahia.

O prédio da escola ainda está lá, em ruínas, recusando-se ao desmoronamento, graças ao descaso de nossas competentes autoridades do município de Curaçá que o ignoram.

Dir-se-á que o prédio é de responsabilidade do Estado da Bahia e não do município. Este é argumento de incompetentes, já que o prefeito, qualquer que seja ele e seu partido político, tem atribuições para reivindicar do governo estadual tudo que se diz necessário à população.

Ou, então, se o prefeito do município não souber disto, é caso de pegar o boné e escafeder-se em direção à sua ignorância.

Considerando o estado de abandono do prédio escolar de Patamuté, parece razoável entender que o prefeito de Curaçá não conhece bem o alcance de suas atribuições. Possivelmente o prefeito está confundindo política com politicalha.

Em ciência política e na estrutura de direito do estado, há outras figuras importantes no município: os vereadores, por exemplo. Patamuté está precisando de vereadores. Se os tem, precisam ser cobrados, já que não atuam a contento.

Política é arte, nem todos sabem exercê-la.

Mas deixa pra lá.

Volto-me a Antonio Ferreira Dantas Paixão, comerciante e político de Patamuté, que é mais importante neste espaço que as autoridades eleitas de Curaçá.

Autoridades eleitas pelo povo que não operam em benefício da população devem ser ignoradas e substituídas por outras nas urnas.

Ah, as urnas! Como são importantes na vida democrática!

Antonio Paixão foi vereador de Curaçá em dois mandatos e chegou a arriscar-se na disputa ao cargo de prefeito do município contra o impoluto Gilberto da Silveira Bahia, que ganhou a eleição e governou no período de 1959-1963.  

Homem de caráter irrepreensível e reputação ilibada, Antonio Paixão tinha bons relacionamentos com respeitáveis homens públicos.

Em Curaçá, por exemplo, Antonio Paixão foi aliado de Euvaldo Torres de Aquino e Jayme da Silveira Coelho. Em âmbito estadual, Francisco Waldir Pires de Souza e Oliveira Brito, ícones da decência política na Bahia.

Termino este artigo como comecei, citando Montaigne: “Digo a verdade não tanto quanto sei, mas tanto quanto ouso. E ouso mais à medida que envelheço”.

Patamuté corre o risco de piorar.

Curaçá está a caminho da miséria política. Faz tempo.

araujo-costa@uol.com.br     

O Brasil há 56 anos: não é preciso reescrever a história.

1964, 31 de março. O movimento político civil-militar derrubou o presidente constitucional João Belchior Marques Goulart (Jango) e deu início à ditadura que se prolongou por aproximados 21 anos.

João Goulart (PTB) foi eleito vice-presidente de Jânio Quadros nas eleições de 1960 e depois de alguns percalços assumiu em decorrência da renúncia de Jânio em 25/08/1961.

Naquele tempo, o vice-presidente era eleito na mesma eleição do presidente, mas em chapa separada e não seguia, necessariamente, a linha do candidato presidencial, nem havia impedimento para ser de partido político diferente ou contrário.

Jango, que havia sido vice-presidente de Juscelino Kubitscheck (PSD), fazia oposição a Jânio.

Jânio Quadros (UDN) disse algumas vezes que seu candidato preferido a vice-presidente era Fernando Ferrari (PDC) e não João Goulart. Jango ganhou.

Com o advento do movimento de 1964 e a queda de João Goulart seguiram-se os presidentes militares Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. A Figueiredo coube formalizar e implementar a chamada abertura política lenta, gradual e segura idealizada pelo antecessor Geisel e que resultou na democracia que temos hoje.

É dispensável discorrer sobre 1964. Não é preciso tentar reescrever a história. Existem à exaustão inúmeros livros, depoimentos, teses de doutorado e mestrado e publicações de toda ordem no Brasil e no mundo, que atestam esses difíceis dias de escuridão no Brasil.  

Nada há a acrescentar, mas é preciso colocar à luz do tempo algumas posições extremadas de setores políticos nacionais, mormente agora em que os ânimos se encontram exaltados depois que a esquerda perdeu as benesses para a direita representada pelo presidente Bolsonaro nas eleições de 2018.

Se alguém resolver apalpar alguma parte do corpo de Lula da Silva corre o risco de pegar na mão do jornalista mineiro Kennedy Alencar. Lulista radical, Kennedy Alencar exagera na defesa do ex-presidente e de seus consectários políticos. Há razão para isto. O PT viabilizou a sustentação de suas ideias durante anos.  

Respeito é bom. Educação também. Civilidade idem.

Kennedy Alencar publicou em 31/03/2020, em seu blog, matéria chamando de mentirosas algumas autoridades de nosso Exército. Mais: incluiu nas ofensas os comandantes da Marinha e Aeronáutica. Uma insensatez.

Kennedy Alencar chamou de mentirosos os generais Fernando Azevedo, ministro da Defesa do Brasil, o também general e ex-comandante do Exército brasileiro Eduardo Villas Boas e por último, o general vice-presidente da República, Hamílton Mourão.

Qual a razão para isto? Simplesmente porque os retros aludidos militares publicaram notas neste aniversário de 56 anos do movimento de 1964, expressando seus pontos de vista sobre a impropriamente chamada “Revolução de 1964”.

Não precisava tanta deselegância. Não precisava tanta ofensa. Democracia pressupõe convivência com os contrários, pressupõe respeito à voz das urnas.

O jornalista – jovem e imaturo – não conhecia o amargo da derrota e demonstra desconhecer o que é antagonismo político.

Por conseguinte, não sabe o que é democracia.

O jornalista Kennedy Alencar não conseguiu superar a perda das mamatas do período Lula da Silva-Dilma Rousseff. Enxovalha autoridades da República e, em consequência, sua respeitável carreira de jornalista. Aliás, como costumeiramente tem feito. Neste particular, não é novidade.  

araujo-costa@uol.com.br

A Globo está fazendo o que sempre fez

Juracy Magalhães (1905-2001), interventor e ex-governador da Bahia, era ministro da Justiça do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente militar da safra de 1964.

Juracy Magalhães chamou Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, para uma reunião e reclamou que as redações dos órgãos de comunicação da Globo estavam infestadas de jornalistas de esquerda, à época comumente chamados comunistas. Pediu que fossem demitidos.

Roberto Marinho discordou:

– Ministro, dos meus comunistas cuido eu. Eles escrevem o que eu quero”.

Os jornalistas não foram demitidos. Continuaram escrevendo o que Roberto Marinho queria: nada contra a ditadura, tudo a favor da ditadura.

Ainda na ditadura militar – 1984 – surgiu o movimento “Diretas Já” em que os brasileiros exigiam eleições diretas para presidente da República, governadores e todos os cargos eletivos.

O jurista João Leitão de Abreu, ministro-chefe da Casa Civil do general-presidente João Batista Figueiredo, chamou Roberto Marinho e pediu para as Organizações Globo ignorarem o movimento “Diretas Já”, alegando ser prejudicial ao governo.

Roberto Marinho concordou. A TV Globo passou a ignorar as multidões que tomavam conta das ruas exigindo eleições diretas.

A população notou e começou a pedir diariamente “abaixo a Rede Globo”. Deu em nada.

Hoje, alguns setores da sociedade gritam “Globo lixo”. Também dará em nada.

A Globo está fazendo extensos editoriais para os apresentadores leem em seus noticiários, desancando o presidente da República, que resolveu comprar briga com a poderosa, que nunca tinha passado por isto desde o seu nascimento.

Razão da briga: o presidente Bolsonaro sinalizou que pretende tirar a concessão pública da Rede Globo. Difícil. Presidente da República nenhum faz isto, exceto por razões absolutamente amparadas em lei, o que não parece ser o caso.

A Constituição Federal prevê que cabe à União Federal explorar diretamente ou por intermédio de concessão, os serviços de rádio e televisão. Mas nenhum governo explora. Passa para poderosos grupos de comunicação, a exemplo da Globo, Bandeirantes, Record, SBT, et cetera, verdadeiros parasitas que vivem à custa do dinheiro público, principalmente.  

A concessão vale, inicialmente, por 15 anos.

O Poder Executivo deve submeter essa espécie de licença à apreciação do Senado Federal, que pode aprovar, desde que o pedido tenha 3/5 dos votos dos senadores.

Rejeitar a concessão é mais difícil. O pedido deve ser submetido ao Congresso Nacional e a rejeição precisa dos votos de 2/5 dos deputados e senadores.

Então, parece razoável entender que o presidente da República não terá razões para não renovar a concessão da TV Globo, exceto se ela transgrediu algumas regras, o que até aqui não se tem conhecimento.

A concessão da Rede Globo vencerá em outubro de 2020 e abrange transmissoras no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Recife.  

Assim, será um transtorno para a TV Globo se a concessão pública lhe for tirada, hipótese muito difícil, até por falta de razões jurídicas plausíveis.     

Em resumo, não há novidade: a TV Globo está fazendo o que sempre fez, ou seja, ficar ao lado de todos os governos, desde que eles lhe abarrotem de dinheiro em publicidade, vantagens e prestígio.

O presidente Bolsonaro quer tirar essa mamata da Globo e aí ela ficou contra o governo federal imediatamente, por contrariar seus interesses.

Mas os jornalistas globais continuam escrevendo o que os donos da TV Globo querem. Assim definiu Roberto Marinho, em vida, sejam seus jornalistas esquerdistas ou não.

araujo-costa@uol.com.br    

O governador Rui Costa está certo. O presidente Bolsonaro está certo.

Políticos demagogos, a exemplo do governador de São Paulo, estão aproveitando a pandemia de coronavírus para fazer política suja. São os partidários do caos.

Grande parte de nossa sociedade também fala asneiras, exatamente porque não sabe o que falar. À semelhança de um rebanho, pessoas repetem o comportamento de outras.  

Falta-lhes conhecimento. Sobram-lhes ignorância política, radicalismo e paixão partidária.  

Em São Paulo, o governador João Dória tem ido diariamente à televisão acompanhado de assessores e técnicos e manda exaustivamente que os paulistas “lavem as mãos”, sempre. Previnam-se, tenham cuidado.

Entretanto, o governador não diz na televisão que só na capital de São Paulo, há 70 bairros sem água nas torneiras, sem considerar diversos municípios da região metropolitana, que normalmente falta água todos os dias.

Em São Bernardo do Campo, por exemplo, falta água todas as noites, em alguns bairros centrais. Isto é rotina. Há anos.

Não se tem conhecimento de que o governador João Dória tenha cobrado da presidência da SABESP, empresa que cuida do abastecimento de água em São Paulo, por permissão e conveniência do Estado, para exigir a regularidade no abastecimento de água aos paulistas, principalmente agora, neste tempo de pandemia.

Contudo, as contas de consumo chegam religiosamente nas residências, inclusive com aviso de corte para aquelas pessoas que se encontram em débito.

Pergunta-se ao governador: como lavar as mãos sem água?

Este mesmo governador João Dória, demagogicamente, foi à televisão para dizer que discordava do pensamento do presidente da República, no sentido de que alguns setores da economia devem voltar ao trabalho, excetuando-se, evidentemente, os grupos de risco, a exemplo de idosos.

Ficou evidente que o governador discordou apenas para fazer política baixa.

João Dória já mudou de rumo. Pediu para as fábricas voltarem à normalidade sob o argumento de que o Brasil não pode parar. Corre o risco de desabastecimento, que antes todos vislumbravam, menos ele.

Pergunta-se, novamente ao governador: ontem o Brasil podia parar e hoje não pode?  O que mudou?

A politicagem está clara, às escâncaras.

“Cerca de 200 funcionários de um Poupatempo em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, receberam mensagens na noite desta quarta-feira (25) para que comparecessem a um endereço na manhã desta quinta-feira (26). Quando chegaram, foram avisados que teriam que assinar a suspensão de seus contratos” (SP1, 26/03/2020).

O Poupatempo, para quem não sabe, cuida da maioria dos serviços prestados pelo governo de São Paulo.

O governador João Dória ficou calado, absolutamente silente.

Mais: se as pessoas que têm emprego não voltarem ao trabalho, não terão o que comer daqui a alguns dias. Mais, ainda: as empresas fechadas não têm recursos para arcar com a folha de pagamento.

Na Bahia, houve um alvoroço, porque o presidente da República disse que os brasileiros devem voltar à normalidade. Metade da Bahia discordou, desceu a lenha no presidente.

Agora, o equilibrado governador do estado Rui Costa, que é do PT, mui sensatamente, em reunião com diversos prefeitos, ponderou:

 “Em minha opinião, as restrições têm que ser progressivas e gradativas, de acordo com a evolução do surgimento de casos em cada um dos municípios. O fechamento dos terminais rodoviários, por exemplo, só determinei em cidades com casos confirmados”, disse.

“Cidades que não tenham casos confirmados podem manter algumas atividades, como feiras livres, e evitar medidas mais drásticas, inicialmente” (G1 Bahia, 26/03/2020).

Ou seja, o governador Rui Costa está certo. O presidente Bolsonaro está certo.

A incongruência é esta: as mesmas pessoas que discordaram do presidente Bolsonaro, agora, dias depois, concordam com o governador da Bahia, que disse exatamente a mesma coisa.

As pessoas concordam naquilo que antes não estavam de acordo, simplesmente porque politicamente são contra o presidente ou contra o governo federal.

O que é difícil entender – embora não precise entender – é essa idiotice ínsita em parte da sociedade.

Pessoas falam o que não entendem, porque politicamente são contra o presidente da República.

Tenho receio de que se cumpra o pensamento do jornalista e dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues:

“Os idiotas vão tomar conta do mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

Tenhamos piedade do nosso Brasil e de todos nós.

araujo-costa@uol.com.br

A Bahia e o governador de São Paulo

Osório Villas Boas (1914-1999) foi presidente da Câmara Municipal de Salvador, presidente do Esporte Clube Bahia de 1958 a 1961 e deputado estadual.

Candidato a prefeito de Salvador, Osório Villas Boas valeu-se de um slogan criado pelo publicitário baiano João Agripino da Costa Dória e o usou durante toda a campanha.

João Dória era pai do atual governador de São Paulo, João Dória Júnior (PSDB). Foi deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC) da Bahia e cassado em 1964 pelos militares.

O slogan era este: “Osório e o Povo contra o Resto”.

Osório Villas Boas perdeu a eleição para Virgildásio Sena, sem o povo. O resto ganhou. Nem o Bahia votou nele.

O governador de São Paulo não dorme pensando na eleição presidencial de 2022 e parece já ter adotado o mesmo slogan que o pai fez na Bahia para Villas Boas. Acha que está com o povo e contra o resto.

Não é bem assim. Em São Paulo, João Dória não é unanimidade como pensa.

O combalido PT, mesmo com o enorme rabo de palha impregnado de corrupção, ainda tem inegável capacidade de movimentar os radicais de esquerda para alcançar os calcanhares do governador.

Ex-prefeito de São Bernardo do Campo e presidente estadual do partido, Luiz Marinho é vigilante. Qualquer tropeço de João Dória os petistas aproveitam para tentar queimar a imagem do governador e possível candidato a presidente em 2022.  

Em 2016, Luiz Marinho perdeu a eleição em São Bernardo do Campo para Orlando Morando, do PSDB. Ainda hoje esse sapo cururu arranha a garganta do PT.

Em 2016, no berço político de Lula da Silva, o PT de São Bernardo do Campo sequer conseguiu reeleger a vereador o filho do ex-presidente.    

Politicamente escorregadio (por aqui é apelidado de traíra), João Dória tem um histórico de infidelidade.

Na eleição para governador de São Paulo em 2018, Dória aliou-se ao nome de Jair Bolsonaro, beneficiou-se eleitoralmente na esteira do prestígio do hoje presidente da República e agora, de olho na cadeira presidencial, virou-lhe as costas. Pior: fala mal do presidente a todo instante.

Bolsonaro identificou a intenção política de João Dória, que passou de aliado a adversário do presidente de um dia para outro e tenta ser líder dos demais governadores.

O governador petista Rui Costa, da Bahia, não vê João Dória com bons olhos, porque quer assumir a liderança da oposição no Nordeste e, mais do que isto, sonha em ser o candidato do PT a presidente da República em 2022. Se o morubixaba Lula da Silva quiser, evidentemente.    

João Dória se acha autossuficiente. Rico, quatrocentão, filho de magnata descendente de donos de engenho de cana-de-açucar, educado em Paris, bem articulado, tem bom relacionamento com a elite financeira empresarial paulista e nacional, que conta muito na safadeza governamental.

O governador de São Paulo sonha em presidir o Brasil. “Só pensa naquilo” e antecipou as discussões eleitorais de 2022.

João Dória cavou uma briga com o presidente Bolsonaro, que tem o pavio curto e não leva desaforo para casa. Expôs-se desnecessariamente e isto lhe pode queimar as pretensões para 2022 ou, no mínimo, deu munição aos adversários.

O governador está aproveitando a crise do coronavírus para tentar sobressair-se eleitoralmente. Um mau-caratismo sem tamanho.

O slogan que o pai João Dória criou na Bahia não parece servir ao filho João Dória, hoje.

Mas o governador de São Paulo acha que está com “o povo e contra o resto”. É cedo, embora tenha seguras chances de destacar-se nacionalmente e até de vencer a eleição presidencial.

Ou transformar-se no papa coronavírus.

araujo-costa@uol.com.br   

Bahia: corrupção no Poder Judiciário

A suntuosidade do prédio do Tribunal de Justiça da Bahia esconde ou, pelo menos escondia, até pouco tempo, sérias deformidades morais de alguns de seus membros.   

As decisões judiciais de segunda instância, que antes se davam no Forum Ruy Barbosa, no Largo do Campo da Pólvora, desde 2000 passaram a ser proferidas no grandioso prédio-sede do tribunal, no Centro Administrativo da Bahia.

Lá estão acontecendo senões que envergonham a Justiça da Bahia e expõem as vísceras de alguns de seus integrantes, que se desviaram da decência e dos ditames da nobre função jurisdicional e optaram pela delinquência.

Neste 24 de março, o Superior Tribunal de Justiça mandou para o xilindró, temporariamente, a desembargadora Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo, acusada de venda de sentenças, corrupção ativa e passiva, lavagem de ativos, evasão de divisas, organização criminosa e tráfico de influência.

Se comprovada a prática de todos esses delitos, Sua Excelência será considerada uma grande especialista na arte de delinquir.

Montante da propina combinada com a desembargadora, por um produtor rural de Rondonópolis, Mato Grosso: R$ 1 milhão, parte já comprovadamente em poder da magistrada. A Polícia Federal monitorou a entrega de parte da bufunfa à Sua Excelência.  

Sugestivo o nome da empresa do produtor rural, que negociou a propina: Bom Jesus. A desembargadora deve ter entendido que a propina, por ser do Bom Jesus, era de bom tamanho e não lhe causaria problema. Causou.  

Em 2019, o Superior Tribunal de Justiça já havia afastado cautelarmente das funções judicantes o então presidente do Tribunal de Justiça, Gesivaldo Nascimento Britto; a desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago, ex-presidente do tribunal, que foi presa; os desembargadores José Olegário Monção Caldas e Maria da Graça Osório Pimentel Leal; o juiz Sérgio Humberto Quadros Sampaio; a juíza Marivalda Moutinho; e alguns servidores públicos que participavam do esquema dito criminoso.

O baiano Ruy Barbosa, símbolo do direito e da Justiça, se vivo fosse, certamente repetiria sua frase lapidar: “De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Magistrados como esses envergonham todos nós baianos e estão longe de ser exemplos de virtude e honra para os brasileiros que veem no Poder Judiciário o amparo constitucional e recorrem à Justiça toda vez que seus direitos são ameaçados.

Como acreditar em magistrados que enxovalham suas togas e jogam o caráter no despenhadeiro do crime?

Urge que o Poder Judiciário da Bahia movimente seus órgãos internos de controle e inteligência, com vistas a separar o joio do trigo e evite que sua imagem impoluta se contamine por inteiro.

araujo-costa@uol.com.br